sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Bento XVI um papa mal amado? III

4. O Complexo do príncipe inocente

João Paulo II era papa benquisto, logo o sucessor não o é. Parece simples, mas mostra o primitivismo da nossa época. O curioso é que em todo o pontificado de João Paulo II houve uma tendência para se dizer que os aspectos mais criticáveis eram da autoria do Inquisidor geral.

Temo bem que isto seja esquecer que: a) Ratzinger foi convidado três vezes por João Paulo II, recusou duas, e só foi para Roma com ordem do papa; b) o papa João Paulo II estava bem longe de ser destituído intelectualmente, tinha ideias próprias, sabia bem quem era Ratzinger e quem estava a recrutar.

Tendemos a olhar com condescendência as ditas multidões medievais e ignorantes (1) que consideravam que os ministros eram culpados e o rei era inocente. Sorrimos quando vemos o povo de França ou da Rússia criticar os ministros, e apelar ao rei, que nada saberia. No entanto talvez estejamos a falar mais do comportamento da nossa época que do de épocas passadas.

Este é um entre muitos sinais da falta de sentido crítico da nossa época. No fundo comportamo-nos nós como as multidões “medievais” e analfabetas. O príncipe é inocente, é apenas mal aconselhado por maus ministros. E Ratzinger é um deles. Nunca o deixará de ser.


5. Não é romântico

O que é puro, o que é válido, nasce espontaneamente, é essa a herança romântica. Olhamos para Dom Quixote como um idealista e esquecemo-nos de olhar para Sancho Pança, que foi um servidor fiel. Generoso é o Pança, Quixote vive o seu sonho sem ter em conta o que pode custar aos outros, o que os faz sofrer.

A nossa época é romântica, neo-romântica se se quiser. As ideias de espontaneidade, de fluxo vital, de originalidade, de sinceridade são românticas. E isto são ideias muito saudáveis para uma época que não é romântica. E letais para épocas que o são. Fazemos chiste com os românticos apenas porque os vemos muito próximos.

Não é por acaso que este papa salientou a diferença entre a sinceridade e a verdade. Desde que as pessoas sejam sinceras, espontâneas, parece que tudo se justifica. Eu posso sinceramente odiar alguém, sinceramente ser injusto, sinceramente dizer inanidades. Desde que seja sincero, tudo se justifica.

O romantismo tem aspectos geniais, mas desemboca sempre em becos sem saída. Pressupõe um mito da perpétua criação, de que todos somos únicos na capacidade criativa, que fazemos coisas novas a todo o momento. No fundo é a teoria do “Bootstrap” do barão de Munchäusen, que pega nas suas próprias botas e segurando-as assim consegue voar. Não é por acaso que o romantismo acaba na náusea de viver (2).

O romantismo não gosta de instituições. Qual é o problema de ser membro de uma instituição? O que revela sobre a nossa época é o horror que tem da organização perene, do controlo do caos, da racionalidade, da memória (e é bem sabido que o horror e ânsia estão sempre juntas ). Uma instituição diz o contrário: diz que o ser humano não nasceu no vazio e alimenta-se da tradição. E que para criar é preciso uma fonte que nos alimente.

Ou seja, insuportável por ser optimista (3) e não ser romântico. Instituições e optimismo estão intimamente ligados, ao contrário do preconceito romântico diz. Uma instituição é opressiva se for apenas escora, mas libertadora se for projecto. O que não se suporta é que não participe da nossa náusea romântica de viver.


6. É alemão

Defeito incurável porque a nossa época sabe que a cultura alemã se reduz ao nazismo. Mas isso é esquecer a imensa dívida que temos à cultura alemã sob o ponto de vista intelectual, artístico e espiritual.

Pertenceu à juventude Hitleriana, diz-se. Pois: era obrigatório. Mas seria curioso ver quem o critica ter a coragem que ele teve na altura de não ir às sessões de endoutrinamento. É fácil ser herói de secretária. É aliás significativo como a modernidade rapidamente acha que uma criança de catorze anos deveria ter responsabilidade heróica, quando ao mesmo tempo choraminga pelo trabalho infantil e pela pedofilia. Onde estão os seus limites da infância?

Mas que seja alemão não deixa de ser importante. Sob o ponto de vista da caricatura podia-se dizer que traz o rigor alemão. Mas este sempre esteve presente na cúria e há outras escolas de rigor. Mais importante que isso traz outras coisas à igreja.

A Alemanha é o local onde a teologia mais cresceu por muitas razões: pela sua grande erudição, mas sobretudo pela necessidade de se confrontar com os protestantes. O católico alemão não é apenas afectivo, de lapa assente na rocha, como tradicionalmente o era o latino. É um catolicismo de convicção, de discussão, de luta, de pensamento.

A Alemanha fez estudos bíblicos com mais profundidade que outros países. As teorias críticas da bíblia foi na Alemanha que nasceram. É sobretudo graças aos alemães que percebemos que os textos não surgiram de uma assentada, que foram constituídos por camadas. Isto que afectou os protestantes e a sola scriptura, acaba por ter um efeito salutar entre os católicos e mais tarde os protestantes, ao fazer perceber a importância da Tradição.

Mas mais importante que isso, Bento XVI é alguém que conhece bem os riscos, tanto do vazio como da saturação teológica. Porque a saturação teológica tem os seus riscos, e a Alemanha conheceu-os melhor que ninguém. Feuerbach é mais corrosivo que La Méttrie e Nietzsche mais incendiário que Voltaire.

Não é por isso um obcecado com teologia. Daí que seja um dos seus teólogos favoritos Santo Agostinho. Não apenas o da Confissões, mas o dos Solilóquios (4). Que a sua palavra seja sobretudo teológica nada tem a ver com obsessão, mas com necessidade, pois na época impera o vazio teológico. É o vazio que parece dar imagem de excesso ao que mais não é que moderação.
Ratzinger lembra à igreja, como João Paulo II já tinha feito antes, mas agora com mais força, que a fé não é só afecto. É pensamento também. Essa a herança alemã.


1 A persistência de uma imagem de uma Idade Média ignorante não precisa de um cotejo com os seus grandes génios. Basta a leitura de homens cultos como Rémy d’Auxerre e Henri de Gand para se perceber a natureza intensamente técnica da sua cultura.
2 As teorias do tipo “bootstrap” não podem ser desconsideradas sem mais. Desde a física quântica à teoria da espontaneidade de Bergson existe um assento sério para reflectir sobre elas. Coisa bem diversa é usá-las para evitar a reflexão.

3 Não é por acaso que é próximo de Orígenes.
4 Sob o ponto de vista literário é obra a vários títulos peculiar. Usa a forma de diálogo clássica, mas é em boa verdade um monólogo da alma consigo mesma. E se no diálogo platónico os intervenientes podem ser mesmos grosseiros, longe da atitude dita clássica, em Santo Agostinho o dialogante chora, desespera, aparece em carne com as suas fraquezas.

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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Bento XVI um papa mal amado? II

2. Tempo e ingratidão.

A nossa ligação ao tempo é por outro lado geradora de ingratidão.

Bento XVI é um pensador, e um pensador leva tempo a exprimir-se. E leva tempo para ser ouvido. Leva tempo a ser compreendido. A nossa época prefere o slogan. O slogan é o primo pobre da fórmula. A fórmula produz efeito pelo que carrega, o slogan produz efeito exactamente por não carregar nada consigo. É o mero efeito fácil.

Os pensadores podem ser capazes do efeito fácil, mas apenas para provar como é fácil o efeito. Quando Diógenes Laércio mostra Aristóteles a destruir a piada de mau gosto de Diógenes o Cínico, não mostra a grandeza da obra de Aristóteles. Apenas demonstra que mesmo sob o modo menor Aristóteles lhe é superior.

Heidegger dizia que Denken ist Danken. Pensar é agradecer. Como católico extraviado que era, sabia bem que o pensamento é duplamente agradecer: porque é um dom, e porque se dirige sempre a uma graça. E isso leva tempo.

Peter Seewald disse-o bem. O papa Bento XVI não é um político: para ele não existem as próximas eleições, apenas o juízo final. O espaço curto, o tempo apressado não são os seus.

Este papa exige tempo para ser compreendido. E nós não estamos agradecidos por isso. Que nos lembre que o tempo é o dom para a compreensão.

3. Igreja como ONG

Encontro católicos que se queixam de que muitos querem transformar a igreja numa ONG. Mas esta pergunta tem de ser levada mais longe. O sujeito é indeterminado. E é preciso determiná-lo.
Quem? Quem torna a igreja católica junto do espaço público numa ONG? Os próprios católicos, para começar. Porque falam sempre de João Paulo II e de Madre Teresa de Calcutá. A pergunta a colocar é: quantos católicos têm um discurso legitimador fora da acção humanitária da igreja?
Imagine-se um dito laico (conceito militar, se o há como mostra a etimologia (1)) que lhes lembre a simpatia pela grande figura mediática que é João Paulo II e a grande figura humanitária que é a Madre Teresa de Calcutá (2). Mas que pergunte a um católico para que servem as inúteis das carmelitas e os misantropos dos cartuxos. Que dizem hoje os católicos em resposta? Quando os católicos tiverem um discurso legitimador da contemplação e da mística escusam-se de achar a igreja uma ONG. Enquanto não o fizerem, são os primeiros a veicular a ideia de que a igreja é uma ONG.

Creio que boa parte da origem desta ideia é a incompreensão sobre o que é a santidade. O católicos pós-Vaticano II têm sobre esta uma visão muito popular. Os santos são bonzinhos. Quanto mais bonzinhos mais santos.

Devemo-nos interrogar. Seria simplificador, mas qualquer das seguintes frases tem uma boa parcela da verdade. Santa Teresa de Ávila era uma obstinada. São Bernardo irascível. Santo Agostinho um exaltado. São Gregório de Nyssa um vaidoso. São Basílio Magno um prepotente. São Tomás de Aquino um obcecado com o pensamento. Não é por acaso que os santos falam dos seus pecados. Não é mero exercício de retórica. Sabem por que região a energia da sua santidade alimenta igualmente as suas falhas.

Ser santo não é ser “bonzinho”, ser santo é ter uma obsessão com a Verdade sem compromissos, sem concessões. É ser radical no verdadeiro sentido. Mesmo que se pelas leis da entropia isso gere uma dissipação de energias desagradável às nossas sensibilidades. Ou talvez por isso mesmo (3).

Bento XVI não toca viola, não aparece junto dos pobres, não apresenta ar desportivo. Não é por isso um ícone mediático nem um humanitário, nem faz relações públicas. Não faz concessões para agradar. E a época que se diz arauto da sinceridade, afinal prefere o agrado à primeira. A época não lhe perdoa, em suma, que não tenha um ar inofensivo.


1 Uma rápida consulta do velho Chantraine conforta esta acepção.
2 Uma das análises mais apressadas sobre a Madre Teresa reside na valoração das suas dúvidas, demonstrando a muitos laicistas que seria apenas uma humanitária. Esta perspectiva apenas pode decorrer de uma absoluta ignorância do processo da fé. De que fala a longa noite da alma de João da Cruz senão disto? Como se o processo da fé residisse num permanente sorriso alvar.
3 Por isso uma época com medo da Verdade apenas pode ser radical no sentido desportivo, com capacetes de segurança e elásticos protectores. Não me lembro que santo dizia “entrego-me totalmente ao Espírito Santo”. O comentário profundo e humorístico de Jung a esta frase foi: “que imprudência”. Jung viu bem o que estava em causa.

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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Bento XVI um papa mal amado? I

A. Introdução

Bento XVI é um papa mal amado, mesmo por muitos católicos (1). A comparação é sempre feita com o anterior papa, com o seu carisma, a sua aura.

Parece-me por isso importante perguntar o que leva ao que no fundo mais não é que ingratidão por um triplo sacrifício. Numa perspectiva de carreira civil e não de múnus espiritual, o cardeal Ratzinger investe-se numa nova carreira, muito mais exigente, numa altura em que o cidadão comum já é veterano da aposentação. Aceita essa nova função sabendo que iria ser sempre comparado em desfavor com o anterior papa. E como se não bastara, trata-se de um homem de estudo, discreto, para o qual o contacto com as multidões não é estranho (teve desde há muito funções pastorais), mas não corresponde a uma personalidade mais reflexiva, meditativa, pensadora.

Como explicar este desamor do espaço circundante? É essa a primeira questão que nos temos de colocar antes de analisar o que este papa traz de especialmente positivo para o papado.

B. Razões do desamor

Quando alguém é mal amado é sempre mais interessante olhar para quem não ama que para o mal amado. É a regra clássica da prestidigitação: olha-se sempre para a mão que não é objecto das luzes. Por isso é natural que se tenha de falar mais da época que o crítica que do papa.

Muitas das razões do desamor são comuns ao papado e à hierarquia em geral, por vezes estendem-se a toda a igreja. Mas neste papa aparecem com maior acuidade, ou com menores atenuantes que em relação a João Paulo II. Outras razões são-lhe específicas. Poderíamos descobrir mais, mas enuncio dez razões que me parecem as mais pertinentes.

1. Monocordia de instâncias

A nossa época conhece certas instâncias de análise e não sai delas: a) jornalística (diferente da informação, é feita de pressa, é a informação como substituto do pensamento); b) o comentário político (que pouco tem a ver com o pensamento político); c) a parasitagem científica (que mais uma vez é bem diferente da cultura científica).

A questão é que o que o papa faz é analisado nestas instâncias. Apanha-se uma pequena frase e é amplificada. Fala-se no plano jornalístico. O que interessa é a notícia, não a ideia, o pensamento. Critica-se a conferência de Ratisbona porque o papa teria sido politicamente infeliz. Fala-se no plano do comentário político. Critica-se o discurso sobre o preservativo em nome de parasitagem científica, como se a classe jornalística tivesse a profundidade em ciência de um Abbé Lemaître.

Os discursos teológico, filosófico, mas também o científico, são vítimas no nosso tempo. Ninguém os compreende nem tolera. A questão é que é esse é o discurso deste papa. Um espaço público monocórdico agasta-se com a complexidade de um discurso que não domina, que não percebe, cuja riqueza o insulta. Este desencontro de discursos agasta sempre quem não percebe. E é a época, cansada intelectual e espiritualmente, quem se agasta.

[1] Este texto foi apresentado em Abril de 2010. Na altura o que hoje pode passar por exagero passava por eufemismo.

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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Pragmáticos, supersticiosos e concretos

É sempre elucidativo ter o ouvido atento para os dizeres de rua. Antigamente eram as varinas, os cantadores, as peixeiras que faziam correr as notícias. Como hoje em dia os seus filhos estão em postos de poder das mais diversas naturezas, é bom ver o que estes ilustres descendentes trazem para a praça pública.

Um dos dizeres mais comuns, porque de mero dizer se trata, como veremos, é o dos que se dizem pragmáticos, que dizem gostar de coisas concretas. Como a sua formação lógica e filológica é geralmente defectiva tenho de começar por fazer alguns reparos iniciais.

Pragmatismo vem do grego “pragmata”, as coisas, “o que está feito”. Na sua raiz aparece o agradável “prag” que também se encontra na palavra “prác-tico”. O pragmatismo é a ligação às coisas, ao que está feito. Ora são bem conhecidas duas explicações etimológicas, conjuntas ou oponentes, para a palavra religião. Para uns vem de re-legere (Jung sempre teimou nesta acepção), ter um especial cuidado, colher com particular atenção ou intensidade. A outra diz que vem de re-ligare, de ligar com particular intensidade.

A forma mais intensa e profunda de se estar ligado às coisas, de o fazer com cuidado e atenção, é por isso a religião. Em suma, a forma superior de pragmatismo é a religião. O que digo pode ser visto como um mero jogo de palavras. Mas nunca há “meros” jogos de palavras. O simples tom de desprezo de quem usa a palavra”mero" já mostra que está preparado a desprezar o que ainda não tinha sequer pensado.

Na verdade, se pensarmos o que significa a atitude religiosa, esquecendo agora o que seja o seu objecto, é sobretudo disso que se trata: um especial cuidado com as coisas, a forma mais intensa de ligação às coisas. Os tontos que se afirmam pragmáticos estão por isso a dizer que são particularmente religiosos. Mas o descuidado com que o dizem mostra apenas que não são, nem pragmáticos, nem consequentemente religiosos.

Os romanos, que tinham muitos defeitos, mas estavam bem longe de serem tontos – basta para isso ver os monumentos e ler os documentos que nos deixaram – opunham com veemência a religião à superstição. Também neste sentido o cristianismo foi herdeiro desta herança pagã da Europa. A superstição é o que “super-stat”, o que está sobre. É a superficialidade em bom rigor. Com frequência se ouve dizer que as religiões impuseram superstições, quando o simples conhecimento da História mostra que o cristianismo na Europa as tentou absorver ou compactuar com elas por razões de pacificação, mas sobretudo as combateu.

Os campeões do pragmatismo de pacotilha são assim meros supersticiosos, superficiais que dizem acreditar em qualquer coisa mas em boa verdade não sabem bem nem o que ela é nem porque acreditam. Acreditam no que chamam de pragmatismo apenas por superstição.

Agora a enunciação tem de ser lógica. Desde os gregos que se sabe que o concreto implica um número infinito de determinações. Ao separar cada classe das suas espécies operamos por diferença específica. Mas para chegarmos aos concretos, salvo para quem vivesse um mundo quadrangular, tipificado, a simples admissão de que existe o concreto implicaria a enunciação de infinitas diferenças específicas. Por isso o concreto é sempre o mais difícil de atingir. O que de mais concreto existe sob o ponto de vista conceptual é Deus, e só lhes ficaria bem gostar d’Ele, mas mais uma vez não percebem do que estão a falar.

Na linguagem popular, a que os homens públicos usam porque trazem na bagagem as suas heranças familiares, o “ser” e outras coisas quejandas são abstracções. Esquecem que não é por acaso que o problema do ser atravessa toda a cultura europeia. Fruto de uma vicissitude das línguas europeias, aquilo que começa por ser um mero verbo, discreto e quase invisível, mera muleta de um discurso, torna-se o centro da atenção dos melhores de dentre nós. E o “ser” é o que de mais concreto há, de mais intrusivo em toda a realidade, copulando-a gramatical e vivencialmente. Porque, o que mais uma vez esquecem os portadores de tão fresca bagagem, os extremos tocam-se realmente, e o que de mais concreto há acaba por ser sempre o mais abstracto também.

Quem desafia o ser desta forma turística, quem se aventura pela infinitude de determinações sem sequer delas ter consciência, apenas vive na indeterminação. Por isso os que se dizem pragmáticos e cultores do concreto na praça pública são apenas... supersticiosos que se lançam no infinito com a temeridade do imbecil.

Que consequências para a Europa e para o espaço público desta atitude? São mais uma vez fáceis de enunciar. O discurso transforma-se em tique nervoso, em obsessão compulsiva: temos de ser práticos, temos de ser pragmáticos, temos de ser concretos. As decisões tornam-se erráticas porque não assentam em nenhum critério, mas apenas na superstição. Como o infinito é tratado por esta gente como uma espécie de lixeira de resíduos industriais, deixa-se para as seguintes gerações a resolução de problemas ecológicos, esses sim realmente ecológicos no sentido de ordenação da casa, para as gerações futuras.

Como se dizem pragmáticos admitem-se todas as espécies de arbitrariedade. Não reconhecendo critérios profundos, nem exteriores nem interiores (é a mesma coisa no limite, mas esta é premissa funda demais para tão plácidas superfícies) agora são liberais ferrenhos, no dia seguinte intervencionistas estatais, amam loucamente o senhorio americano nuns lados assim como o odeiam noutros. Idolatram a natureza de um lado ou destroem-na noutro. Dizem que tudo é Europa para a destruir ou que pouco deve ser para a reduzir. Culpam o Estado ou o mercado com a mesma ligeireza. E ruminam abstracções que vão atirando à parede porque lhes desconhecem o modo de usar.

Se bem virmos não interessa muito a que conclusões chegam, porque mais não são de arbitrárias, sem critério, sem paradigma.

Em Teerão, se a memória não me falha, quando Roosevelt, Churchill e Estaline se encontraram, Estaline lançou graças de mau gosto sobre como destruiria os alemães depois de acabada a guerra. Roosevelt riu. Foi pragmático nesse momento, ou seja esteve num dos seus menos felizes momentos. Churchill não. Não achou graça, e não pode ele ser acusado de ser destituído de sentido de humor. Churchill não gostou dessas coisas concretas, nem foi pragmático. Foi algo muito mais importante, muito menos enunciável, mas não por isso menos essencial. Determinou-se pela decência.

É em conclusão o que são estes ignaros supersticiosos que se atiram para o infinito: indecentes.


Alexandre Brandão da Veiga







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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Tagarelice e matemática III

Aristóteles tinha uma admiração especial por Sófocles. Ignoro qual fosse a preferência de Platão. A vida tem paradoxos aparentes e suspeito que tivesse um fraquinho por Aristófanes. O facto é que a multidão tagarela não se comporta como o coro da tragédia. Este expressa-se de modo fundamentado, porque tem a sua vida definida por um papel, uma função, já estabelecidos, e por uma métrica em que o pé limita o desvario incontrolado da expressão, mesmo que não o dos sentimentos. O coro pode nem sempre falar em uníssono, mas exprime-se de forma coordenada. A multidão tagarela que fala no ágora tem certezas absolutas que lhe vem do simples facto de ter direito a falar.

Podemos ir mais fundo. E eis que parece alguém que numa distância de cerca de vinte e três séculos dialogou com Platão. Um imenso matemático, um dos maiores domesticadores do infinito que a História viu. Falo de Cantor. Cantor sintetizou em poucas palavras o que sempre pensei: “a essência da matemática é a liberdade”. É evidente que o afirma com razão, porque sabe, e diz que a física se baseia em pressupostos, que são sempre metafísicos, que a limitam. Na matemática não existe essa limitação. Nem essa, nem a da experiência. Mas a matemática é liberdade também por outra via. É que, por força exactamente da disciplina que impõe, gera resultados bem mais livres que outras ciências. Pensar infinitos maiores que outros, espaços a infinitas dimensões, operações infinitas, por exemplo, disso são feitas as matemáticas. Saber que dois mais dois é verdade de merceeiro, mas não de matemático, que 1 ser menor que 2 não é uma evidência. Eis alguns aspectos da liberdade que a matemática dá, não por ser arbitrária, mas, bem pelo contrário, por ser disciplinada.

Todo o discurso pode ser responsável. E nem sempre o da matemática o foi formalmente. Euler é um dos melhores exemplos disso, Poincaré um pouco menos. Uns matemáticos podem ser mais sensíveis à forma e à fundamentação, outros podem ser menos. Mas em última análise o erro, a insuficiência e a trivialidade vêm ao de cima mais facilmente na matemática. A matemática é assim o paradigma do discurso responsável possível ao ser humano. Se segundo alguns, como Serres, nasceu a demonstração matemática no tribunal, tem a vantagem de estar isenta da distorção pelos interesses. O discurso responsável por excelência surge do desinteresse e da formulação. Deixa visível o resultado e o caminho. E é igualmente julgado por ambos.

Se na Academia não podia entrar quem não soubesse matemática, é porque se queria evitar a tagarelice. Ou seja, a falta de liberdade. A cacofonia em que todos falam ao mesmo tempo em função dos seus interesses, das suas formulações apressadas, das suas inépcias. É preciso saber algo para falar, e é preciso ter um discurso responsável. Só assim existe liberdade.

A limpeza de pele de que carece a democracia é exactamente a matemática, e não é por acaso que os regimes democráticos se mostram tão pouco à vontade com ela. Hoje em dia o prestígio e a visibilidade pública dos matemáticos é bem fraca, bem mais fraca que a que existia nas sociedades menos democráticos de séculos passados. É que a democracia gosta de liberdade de expressão, mas os parasitas gostam da oportunidade de tagarelice nobilitada que esta lhes dá. A impunidade passa a ser legitimação. E gostam da arbitrariedade punitiva que a tagarelice permite. Morre-se por uma frase, mesmo que todas as outras tenham sido profundas e sensatas. Destrói-se uma imagem com um slogan, ou um acto falhado, mesmo quem o fez tenha obra profunda atrás de si. A pequena frase assassina não é o dito de espírito, é o que foi dito sem ele, ou sobretudo sem auditório que o percebesse.

A repulsa de Platão compreende-se assim. Não é tanto o problema de ser o merceeiro a conduzir o povo, mas de querer fazer do Estado uma imensa mercearia, nos modos, na linguagem, na atitude de vida. E com a sua tagarelice confundir o mundo em vez de o iluminar. A sua organização mental é a da estante e da pipa de vinho, e a sua noção de mesura passa apenas pelo produto que não deve transbordar.

O tagarela faz perder tempo de vida aos outros e isso é-lhe indiferente. Esse o seu lado ético. Obscurece os caminhos da verdade. Essa a sua ciência. E parasita os privilégios da democracia, essa a sua forma de nobilitação à falta de outra qualquer.

Falei de Platão e esquece-me de falar da nossa época. Talvez. Deixo ao leitor a tarefa de fazer a transposição que achar mais justa.








Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Tagarelice e matemática II

Devo dizer que li Platão durante anos com alguma relutância. A sua repulsa pela democracia parecia-me suspeita, tão suspeita quanto o elogio dos estóicos médios, e tão divulgado por Políbio, do regime misto (de monarquia, aristocracia e monarquia). Mas não podemos esquecer que Platão não lidou com a ideia de democracia. Lidou com o que ela era no dia-a-dia, sobretudo depois da morte do seu aristocrático chefe, Péricles. A democracia entregue nas mãos do povo, em que o povo ficciona ser aristocrata e a grosseria se torna padrão, foi ao que assistiu Platão.

O comum é dizer-se que ele apresentou uma solução extrema na “República” e depois matizada nas “Leis”. De uma forma ou de outra, as suas utopias eram baseadas no controlo, e também as demais utopias, sejam de More ou de Campanella, me parecem espaços de horror, fundadas na ideia de que o ser humano é simples, e a felicidade se obtêm por vias lineares. O controlo e a uniformização aparecem em cada canto da utopia.

Mas este comum não é toda a história. Uma coisa é o que se diz, outra a que se fez. Não há memória que a Academia tenha tentado impor o seu monopólio em Atenas. O Liceu e o Pórtico e o Jardim mantiveram-se durante séculos lado a lado. Nem nada indica que a prática de Platão tenha sido controladora. Recolheu nas suas hostes o seu principal destruidor, Aristóteles, e tudo vai no sentido em que a admiração era profunda e recíproca. E os seus sucessores na Academia não foram platónicos ortodoxos igualmente.

Não foi o controlo censório que imperou na Academia, nem as sebentas do professor. Qual era o critério e qual, suspeito, foi a prática? Um velho adágio, mas cuja importância foi pouco sublinhada, entendido como mera anedota: “que não entre quem não souber geometria”. O controlo não era “que não entre quem não for platónico, quem não critique Homero e os poetas, ou a democracia”. O crivo estava na geometria, ou seja, e falando em linguagem actual mais generalizada, quem não souber matemática.

Porquê a matemática? Não porque a matemática não permita a discussão, por ser tudo certo nela. Essa é a mais uma via de lhe destruir a grandeza e a posição como cultura. A matemática não é mera técnica, ao contrário do que os visitantes das estantes livreiras portuguesas podem julgar. O seu papel na busca da verdade, e das verdades em geral, é essencial. Platão bem o soube. É que se existe o oposto da tagarelice é a matemática. Esta permite várias teorias, várias correntes (e Deus sabe quantas houve e há, e quantas se odiaram ao longo dos tempos entre si).

A matemática não é certa no sentido de ser uníssona, sem discussão, sem dialéctica. É exactamente oposto disso. Mas a matemática é o inverso da tagarelice. Cada coisa que se diz tem de se saber muito bem porque se diz. O inverso da tagarelice não é a conclusão certa, mas o caminho responsável. O que significa o aviso da Academia então? “Que não entre quem for tagarela”, quem usar a linguagem apenas para ocupar espaço, para encher o espaço sonoro e o tempo alheio com uma neblina que só obscurece a procura da verdade.

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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Tagarelice e matemática I







Num maravilhoso e muito claro estudo sobre “O Politico” de Platão, Heidegger mostrou que o seu sentido geral era o de desmascarar a tagarelice. Bem sei que o adjectivo “claro” e Heidegger muitas vezes não vão de par, mas muita da má fama deste filósofo tem a ver com má tradução. É verdade que tem alguma tendência a partir palavras, naquilo a que Jung chamava de estilo esquizofrénico (referia-se a ele e a Joyce sem os nomear, se bem me lembro) o que mostra uma tendência da época algo agastante, reconheço-o. Mas algo não lhe pode ser imputável, porque sabia que tinha de usar a linguagem para falar do indizível, e não era poeta como Goethe.

A verdade é que a obra não é das mais estudadas de Platão e a abordagem, embora muito profunda, pode ser alvo de discussão. Mas as suas ideias parecem-me ainda hoje muito válidas. No espaço público impera a tagarelice, e isso tem implicações não só políticas, como éticas e de ciência.

Comecemos pelas últimas, porque isso nem sempre é mau. A tagarelice, em vez de desvelar, lança um nevoeiro sobre a realidade. Ocupa o tempo, é uma forma de matar o tempo. E mata-o efectivamente. Torna-o inútil. Mas obnubila o ser (continuo a sentir repulsa em maiuscular os conceitos filosóficos, porque me cheira demais a uma tendência para ênfase retórica que apenas esconde a platitude das ideias). Quanto mais se fala de forma desordenada, mais se esconde e desvia do que é essencial.

Eticamente faz nascer o irresponsável, que mais não é que o responsável por acaso, a título fortuito. Numa sociedade humana em que não haja a responsabilidade ética na construção do discurso, este torna-se aleatório e torna-se cada vez mais difícil perceber a diferença entre o sentido e o “flatus uocis”. Entre dois sujeitos falantes, ambos emitem ondas sonoras. Estabelecer os critérios que distinguem o que faz sentido e o que apenas o esconde torna-se cada vez mais difícil.

O ágora foi sempre o local do mexerico, do rumor, e em geral da tagarelice. Seja em que regime for. Mas a democracia inspira e instala um regime de desresponsabilização que tem os seus custos. A ideia é nobre e boa (a democracia é um ideal aristocrático por excelência, é bom de ser ver), mas a prática mostra que à liberdade se segue facilmente a cacofonia.

E é esse o sentido político desta obra. A democracia exacerba a tagarelice, dá-lhe um estatuto de discurso oracular, tende a tornar indistinto o discurso com valor do que o não tem. Não se trata mais uma vez de maltratar a democracia, trata-se tão simplesmente de a olhar com lucidez. A mais bela mulher já teve pontos negros. Esquecê-lo não ajuda em nada à sua limpeza de pele.

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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Descarrilar

««- Mãe, quando chegamos?
- Ainda demora, aguenta, é a vida.
- O que é a vida, Mãe?
- A vida era nós as duas numa piscina, sinal que a Mãe era rica e não precisava de ir trabalhar.
- Oh Mãe, então isto não é vida?
- Não, Filha, isto não é vida».

Esta conversa, no banco de trás da 1ª classe / conforto do Alfa Faro - Lisboa, entre uma criança de três anos e a sua Mãe, deu-se no exacto dia em que saíram novos números sobre o desemprego em Portugal. A miúda era um amor, fazia uma conversa inteligente, animada, sem incomodar. Mas tive vontade de me levantar e de chamar todos os nomes que me ocorressem àquela Mãe. «Burra! Incompetente! Ingrata! Preguiçosa! Alienada! Mimada! Limitadíssima! A cair de parva!», e mais que viesse. Como é possível, com o País no estado em que está, ir para o trabalho depois de umas férias no Algarve e não dar Graças a Deus pelo emprego e pela possibilidade de passar uns dias na praia?! Como se desperdiça uma pergunta destas? «A vida era nós as duas numa piscina sinal que a Mãe era rica e não precisava de trabalhar».
Não vamos lá assim.
O amor salva, o trabalho regenera, a produtividade destribui, a ambição mobiliza e a educação prepara.

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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

SERMÃO AOS POVOS


Sê condescendente com a memória, que ela te esquece.

Critica os políticos, e serás sempre justo: porque são eles o teu espelho.

Opina sobre tudo. Só abona em teu favor teres a coragem de enveredares por terrenos que te são completamente estranhos.

Usa a tua liberdade de expressão sem freios. Descansa que o teu ridículo não durará muito. Também serás esquecido.

Preserva o povo. Já resta tão pouco. É uma espécie em vias de extinção. O que sobra é o que não está em lugar nenhum, gente a meia-haste, um funeral de categoria.

A única tragédia do plebeu enriquecido é o facto de ser efémero. Não é por isso muito importante. Acumula títulos que na melhor das hipóteses lhe vêm do mérito. Diferencia-se de mil maneiras o melhor que pode e esquece que é igual aos outros que estão ocupados no mesmo esforço de diferenciação. As cores dos cartões de crédito apagam-se com mais facilidade que as dos brasões.

Chamas louco a quem tem juízo e a quem o é apenas por medo e não por justiça. E tens razão no teu motivo mesmo que não a tenhas no teu juízo.

A tua rapidez a emitir conclusões é directamente proporcional à tua incompreensão dos seus pressupostos.

Continua confundindo o atrevimento com a coragem.

O sentimento da igualdade tem geralmente a ver com a baixeza dos comparandos ou a menoridade de vistas.

Julgas-te superior pelos cargos que ocupas. Julgas que o mérito os justifica. A uns e outros, mesmos que existam, a caducidade dará uma palavra mais dia, menos dia.

Revoltam-te tanto mais nos outros os seus defeitos quanto eles são os teus.

Quando gritas contra a injustiça é ela que te aborrece ou antes apenas o facto de dela seres vítima?

Despreza a grandeza e destruirás quem faz por ti. Confia cegamente nela e a mesma passa a padecer dos teus defeitos.

É o olhar dos outros que te aflige? Talvez seja o momento de desviares os teus olhos para melhor paisagem.

Quem está disposto a dar prontamente a sua opinião geralmente não está disposto a dar mais nada.

Quem chora por um soneto não o faz necessariamente por uma criança. Quem o faz por uma criança pode ser igualmente grosseiro.

Julga os outros, mas apenas para seres julgado.

Quando chamas de loucura a grandeza dás ao que vês o nome que mereces. Nem tudo o que te aflige é condenável.

Destruíste os antigos títulos e agora corres aflito a criar uma nova profusão de títulos. A tua ânsia de os criares é fruto de teres contestado a validade de todos os títulos quando não os tinhas. Agora sofres por precisares do que desprestigiaste.

Não cubras a tua vulgaridade com títulos. Colas assim a poeira ao teu corpo.

Quem fala com frequência nas pratas de família deve verificar se a genética não lhe deixou nas mãos marcas do limpa-pratas.

É uso hoje em dia ver-se mulherzinhas cheias de jóias no campo ou na praia. Jóias de peixeira, é certo, mas sempre são jóias de família.

A tecnologia permite a disseminação do bem-estar, mas não da distinção.

Define-nos muitas vezes mais o que nós aceitamos ouvir que o que dizemos.

Se insistes para que sejamos todos iguais pergunto-me pelos motivos da tua insistência e onde pretendes colocar essa igualdade.

A relatividade é o desespero dos sábios e o descanso dos ignorantes. Os primeiros apenas a aceitam como uma desistência os segundos como uma forma de legitimação.

A ânsia de mostrar bons sentimentos é sempre sinal do que nos faltam verdadeiros. E boas ideias.

Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Os sonhos erram? II

Encaremos pois a pergunta: os sonhos erram?

Para a respondermos temos de deixar qualquer uma das respostas estreitas. A partir do momento em que sonhamos, é actividade pertinente. Seria a mesma coisa que ignorar a fala, a sexualidade ou a respiração. Se está na realidade pode e deve ser objecto da nossa curiosidade. Não podemos aceitar que exista apenas uma porta para essa realidade. Mas não devemos dar aos sonhos, sem questionar, um papel oracular, tanto quanto não o devemos fazer em relação à fala, ao sexo ou à respiração.

O problema dos sonhos é que neles são uma e a mesma coisa a linguagem e o seu objecto. Quando eu falo, de uma forma ou de outra tento dirigir-me a outras realidades, mesmo que essas realidades sejam a linguagem. Quando o discurso fala directamente sobre si mesmo entra no paradoxo. Os gregos já o sabiam quando criaram o paradoxo do mentiroso. Quando sonhamos, o sonho refere-se sempre a outra coisa que o sonho, mas é o sonho enquanto tal que é o nosso objecto. Não falamos em sonhos sobre os sonhos, e se o fazemos é isso sonho de novo.

Que os sonhos errem parece-me evidente. O sonho é algo trapalhão a comunicar. Usa do que pode e do que sabe. Tem mais sabedoria que nós, até porque usa os nossos desperdícios. Tem menos que nós, porque lhe falta a nossa forma de dialogar. Tem as suas próprias. Mas vê-lo como oracular, sempre oracular, é fazer do sonho porta de entrada dos deuses, sempre e apenas isso. E mais uma vez temos a porta do merceeiro, a única porta de entrada para o mundo a actuar. No fundo, os que têm uma visão exclusivamente oracular do sonho são apenas mais uma modalidade do merceeiro com porta aberta e apenas uma.

Nisto, e não apenas nisto, Freud participava do mesmo preconceito de merceeiro do que os acusam. Quando instigou insistentemente Jung para "tomar conta do sexo", como se de coisa frágil se tratasse e em vias de evaporação, mostrava que a sua era apenas uma ânsia e não lucidez. Quando impõe ao sonho a metáfora do mecanismo, a analogia do relojoeiro, em que o mundo do inconsciente tem uma estrutura estratificada, concatenada, hierarquizada, quis construir uma hierarquia celeste para substituir a que pretendeu destruir. O seu modelo é a estante do merceeiro bem arranjada, um inconsciente bem ordenado com uma chave única que se compreende de fora. O sexo tem para Freud o papel da etiqueta com o preço, o livro de inventário. Ordena tudo e ficamos descansados. Não lhe nego os méritos, apenas lhe saliento os imensos limites. Todos sabem que quando o diagnóstico terminava no sexo Freud aliviava a sua angústia. Tanto melhor para ele. Popper dizia que a teoria de Freud era o epítome da teoria irrefutável. E sabe Deus como para ele esse era o maior insulto.

Os sonhos erram. Não erram apenas, mas também erram. E por isso podemos inverter a frase de Santo Agostinho. Os sonhos também dizem: “graças a Deus não sou responsável pelo meu sonhador”. No que como Santo Agostinho, têm uma parte, só parte, mas uma grande parte, de razão.







Alexandre Brandão da Veiga



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China, a mega claustrofobia






A China recusou a entrada da Sagres em Macau, solicitada meses antes por via diplomática, ao abrigo de uma viagem de instrução para oficiais de Marinha portugueses e de uma acção de promoção de Portugal no Mundo.
Não terá sido um burocrata chinês a recusar os pedidos do Estado português alegando o perigoso precedente que poderia constituir a autorização de entrada de um vaso de guerra estrangeiro num dos seus territórios autónomos. Pequim não abriu esta cortês excepção a Portugal por duas razões:
1) Ainda no passado mês de Março pude constatar em Macau a tomada de posse inequívoca e integral do Império do Meio sobre o pequeno território, desde 1999. Para além do acordado sobre a Língua Portuguesa e sobre a cedência, a prazo, do imponente Consolado português sobre a ponte de Edgar Cardoso, pouco de singular os liga a Portugal que justifique a excepção para esta autorização. Preservam a calçada à portuguesa (colocada pelo Governador Vasco Rocha Vieira nos anos 90, antes de sair) como exlibris de interesse turístico, mantêm as fachadas das igrejas de S. Paulo, de S. Domingos e da Senhora do Carmo como postal, photo-oportunity e amostra de multiculturalidade. Tudo mais é jogo para chinês se arruinar e interesse submerso para outro chinês engordar. Se a primeira razão da recusa é penosa para Portugal, a segunda será grave para a China.
2) Foi exactamente pela lógica continental de autosuficiência e controlo interno que o gigante amarelo nunca acordou para o Mundo. Entre 1421 e 1422, o Almirante chinês Zheng He navegou até ao Canal de Moçambique, passando por Mogadishio e Zanzibar. Mas, com a morte de Zheng, a Dinastia Ming desistiu da política de expansão marítima com o argumento de que o comércio era uma «actividade baixa» e a expansão representava um risco para a integridade do Império. A pirataria japonesa na costa Oriental e as ameaças dos mongóis e manchus na fronteira Norte terão concentrado as atenções do Império chinês na defesa das suas fronteiras, por vários séculos.
Essa interioridade, anestesiada pelo ópio, tornaria depois a grande potência asiática num servo de pequenos Estados europeus a milhares de quilómetros de distância ou simplesmente do ilhéu nipónico vizinho. Nem o bloco comunista no século XX beneficiaria a «natural» expansão da China. À excepção das sangrentas incursões na Indochina, em concurso com a URSS, o gigante manteve-se politicamente adormecido para o Mundo.
E seria «a actividade baixa do comércio» a autorizar uma permeabilidade chinesa efectiva em África, na Índia e na América Latina (se descontarmos os retalhistas, sobretudo na Europa do Sul e do Leste) no final do século passado. Para assegurar a participação no comércio mundial, em 2006 a China anunciou a expansão da sua marinha mercante propondo-se liderar a indústria de construção naval num período de dez a quinze anos, com investimentos de mais de um bilião de dólares logo nos primeiros cinco anos. Na semana passada, o Império do Meio passou o Japão tornando-se na terceira economia do Mundo.
E como pode a China prejudicar-se com a recusa de entrada de um navio-escola português em Macau? Como sempre: nem as regras internas da China são internacionalizáveis; nem o chinês consegue moldar-se à liberdade exterior sem perder a coesão interna. Entre a elasticidade do negócio e a ditadura interna terá de escolher um dos dois sistemas do seu País. Mais depressa do que supõe.

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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Os sonhos erram? I









Na nossa época que se crê muito científica esta pergunta nunca é colocada: os sonhos erram? Nela encontramos uma de três posturas: os sonhos são disparate, nem vale a pena perder tempo com eles, os sonhos apenas podem ser analisados na perspectiva das neurociências, ou então os sonhos são a porta de entrada para a verdade.

Que os sonhos sejam mero disparate é a postura do marinheiro céptico, do corsário e o merceeiro que em nada acreditam que não possa estar na ponta do mastro, do sabre ou do lápis. Muitos cientistas não adoptam postura científica, mas apenas colocam no papel os seus preconceitos de origem social. Não foi só Jung que assistiu a sessões de mediunidade, foi Pierre Curie também. A verdadeira curiosidade científica não recusa nada - para poder fazê-lo com critério.

Que os sonhos sejam apenas objecto de neurociências é atitude que adoptam outros um pouco mais sofisticados e mais informados, descendentes dos primeiros. Descobriram uma porta de acesso ao sonho, porta que parece segura, e dela não saem. Recusam menos, mas por porta estreita. Não deixaram o preconceito de merceeiro, apenas lhe juntaram uma porta ao lado.

A terceira atitude é a da psicanálise dita clássica. Daria todo um tratado a análise das acções e reacções dos Freudianos e anti-Freudianos em relação aos sonhos. Freud descobriu um dogma: sexo é Deus e o sonho é o seu profeta. Como Jung e a filologia clássica (não penso sequer nos mais velhinhos, mas em Jacques Jouanna por exemplo) e a antropologia sempre salientaram, Freud distorcia o sentido dos mitos apenas para caberem neste dogma fundamental. Mesmo que a filologia, a antropologia e os casos clínicos desmintam as suas teorias, os seus seguidores continuam a ignorar o dado empírico e tentam enfiá-lo a todo o custo na teoria.

É curioso como os cientistas tendem a detestar – de modo injusto até certo ponto – Freud. Todos os que conheço quando muito têm simpatia por Jung, mas desprezam Freud. É curioso igualmente como Freud é considerado mais científico... por não cientistas. Este é mais um dos sintomas da triste separação entre ciências e letras que existe na nossa época. A tradição é bem antiga. Pauli escolhe Jung e não Freud. E se Einstein escolhe Freud, é por precisamente reconhecer a sua total incapacidade em perceber, não apenas as suas ideias, mas a sua relevância.

De uma forma ou de outra, a verdade é que na revista de moda, na notícia de jornal, Freud ganhou o espaço público. O sonho é oracular, mesmo que se dê ao oráculo uma atenção distraída, não menos distraída que os gregos muitas vezes davam aos seus. Ou então uma desatenção nervosa, como Jocasta de Sófocles que nega a validade dos oráculos. Imagine-se, diz ela a Édipo, que um oráculo lhe disse que ela se casaria com o filho.

A atitude mais sensata, embora talvez nem sempre justa, foi a de Santo Agostinho que afirmou “graças a Deus não sou responsável pelos meus sonhos”. Algo injusta, porque talvez tenhamos algum contributo para os nossos sonhos. Bem sensata, porque é sinal que percebeu que não temos sobre eles controlo pleno. O que nos dizem pode ser muito pertinente, é-nos atirado para o plano da nossa vida, mas nem sempre nos ajuda ou nos define.

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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Algarve: um novo mundo pede novas palavras


«Limpa, a luz recorta promontórios e rochedos. É tudo igual a um sonho extremamente lúcido e acordado. Sem dúvida um novo mundo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como o chão».

Sophia de Mello Breyner Andersen, Livro Sexto, 1962

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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Patriarcado judaico-cristão?








A expressão é tão pretensiosa que até me custa comentá-la. Mas o que anda no ar de tempo, como as poeiras e os cheiros menos desejáveis, faz parte do nosso ambiente e carece que dele curemos.

O argumento, que foi aduzido por um artista meu conhecido, é o seguinte: a civilização judaico-cristã institui o Deus único, patriarcal e consagra a monogamia, tudo isto artificial. Esta sequência de palavras – pouco mais é que isso, já a ouvi tantas vezes, e no entanto parece-me ser pouco mais que uma sequência de palavras –, esconde muitas confusões numa aparente clareza. Há ordem numa fileira de formigas. Mas esta fiada de palavras mostra que pouco se leu, e mal.

Quanto à idioteira que é o conceito de civilização judaico-cristã já disse o que tinha a dizer. Conceito tendencioso, nada científico, sem nenhuma função explicativa.

Associar o Deus único a esta civilização em exclusivo ou dando-a como fonte única deste Deus único é no mínimo temerário. Porque há que distinguir três realidades diversas. Uma coisa é o monoteísmo: só há um Deus, o resto são falsos deuses, demónios, ou inexistentes. Outra o henoteísmo: existindo ou não vários deuses, apenas se adora um. Uma terceira é o sistema de avatares em monopólio, à falta de melhor expressão.

O monoteísmo encontra-se na dogmática oficial do cristianismo, do judaísmo pelo menos a partir de certo momento e no Islão. O henoteísmo existiu entre os judeus até ao cativeiro da Babilónia (mas é sempre artificial dizer algo sobre isso), ou até Moisés (quem saberá dar uma resposta unívoca a esta questão?). O sistema de avatares em monopólio encontra-se em certos temas dos Vedas (o Bhraman é uno, é tudo, etc.), entre os gregos e romanos (que falam em Deus no singular, apesar de referirem a vários deuses), ou eventualmente o Diaus Piter dos indo-europeus. Avatares porque se reconhece que os vários deuses são manifestações de um único divino, e em monopólio porque o divino é único. Quem efeito, podem existir avatares em politeísmo puro.

É evidente que um especialista em História das religiões teria mil objecções a colocar à minha classificação e dar-lhe-ei razão. As combinações são infinitamente mais complexas. Por outro lado, há que distinguir as enunciações filosóficas, as teológicas e os sentimentos populares colectivos e individuais na matéria. Há que distinguir os discursos, das prácticas e das crenças. Para muitos, por exemplo, a ortodoxia cristã (ocidental e oriental) ou certas versões do Islão (xiitas, karedhjitas) seriam parte de um sistema de avatares em monopólio. Há de tudo, as épocas teriam igualmente de ser diferenciadas.

Paro por aqui. O que interessa é mostrar o seguinte: Deus único e civilização judaico-cristã não são ligação evidente, de causa e efeito, exclusiva.

Já quanto ao patriarcado a questão é outra. Este tipo de afirmações parece dar entender que foi a tal da judaico-cristã que inventou essa coisa fétida que é o patriarcado. O problema é que ele se encontra entre os semitas (sabe Deus como o Islão é tradicionalmente muito mais patriarcal que o cristianismo), entre os chineses, os japoneses, os indianos. As mulheres tiveram o azar de quase todas as culturas serem patriarcais, salvo alguns espaços da Ásia e, paradoxo para os ignaros, a Velha Europa pré-indo-europeia. Em que graus, de que modo, é questão que é especulação querer descrever em pormenor.

O que interessa, para os efeitos que ora importam é o seguinte: patriarcado e judaico-cristianismo não estão em relação de causa e efeito. O cristianismo conquistou um espaço que era já ele patriarcal, seja indo-europeu, seja semita.

E eis que aparece a monogamia, que é antinatural. À monogamia opõe-se a poligamia. A verdade é que num sistema patriarcal a poligamia é sempre poliginia, ou seja, um homem pode ter várias mulheres, mas uma mulher não pode ter vários homens. Num mundo patriarcal a monogamia é protecção das mulheres, como o seria num mundo matriarcal a protecção dos homens. Que a monogamia tenha resultado de um papel fundamental do cristianismo, concordo. Como a liberdade de consentimento para o casamento, como forma de protecção da liberdade das mulheres. Mas não creio que o cristianismo se tenha de envergonhar de ter mantido estas duas conquistas para as mulheres: não terem de ser uma entre muitas, e de serem livres (dentro dos limites de uma sociedade que nunca sendo perfeitamente cristã, não tinha agrado nesta liberdade) para se unir a um homem ou não.

Nova questão é a de saber se isto é natural. Admitamos que não o seja (o que é natural sabe Deus o que seja). Também é antinatural que o forte não possa espancar o fraco, nomeadamente que se proíba a eugenia, o genocídio, a carnificina. Afinal, a grande maioria das culturas praticaram alegremente estes feitos sem problemas de consciência. Se o critério da nossa acção for apenas a natureza (resta saber qual, e quem base em que critérios forjados se constrói), talvez quem for detido de menos força possa sair prejudicado.

Após este percurso rápido, dir-se-á mesmo apressado, pelas falácias desta ideia tão espalhada, desçamos à política, e vejamos que tipo de efeitos tem sobre ela.

O discurso oficial é o dos direitos do homem, do sentimento lacrimejante pelas desgraças do mundo. Mas ao mesmo tempo minam-se todos os fundamentos que sustentam esse discurso lacrimejante e sentimental. Mina-se a sua fonte, o cristianismo, mina-se a noção de limites, a noção de condições para a acção. Parece que veio daí um bicho chamado civilização judaico-cristã só para nos impedir de gozar um pouco nesta vida. Além de isto ser uma visão algo pateta do que é o cristianismo mostra um proletariado recém-chegado à cultura que se sente incomodo pelos limites que se lhe apresentam.

Na política gera uma raça de gentes que abomina limites e por isso tanto mais tende a fazer discursos sobre o sofrimento alheio. Abomina que a sua vontade seja contraída, que os seus apetites sejam contidos e por compensação mais se sente no dever de proclamar os seus sentimentos. Daí que possamos estabelecer uma regra prática: quanto mais se vê alguém proclamar quanto chora, maior deve ser a nossa desconfiança. Apenas espreita uma boa oportunidade para ultrapassar limites que identifica como servidão e não como serviço. Descendente de escravos, as fronteiras não são marcas do seu domínio, mas entraves à sua acção. Pisa-as porque para ele essa é uma forma de libertação e se chora pelo sofrimento que provoca e de que nem reconhece ser o autor é porque uma vaga memória de postura senhorial que observou à distância lhe lembra que ter sentimentos é privilégio dos grandes. Saíram-lhe do coração e passaram-lhe para a boca.

O patriarcado judaico-cristão? Mais um flatus uocis, produzido em massa para justificar o que somos apenas por o ser. Podiam ser estas palavras, ou outras quaisquer. Arbitrário uso da palavra, desrespeitoso dela e em consequência da justiça e do sentimento. É a isso que se rende o espaço público entre as três vias da plebe romana: a trivialidade. Agora sob a capa de construção elaborada.




Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A Deus

O teu caminho, na esquerda do jornalismo, não me inspirava nada de bom ou de elevado. Em plena década de 80, soava-me a revolução retardada, mal arrefecida, aburguesada. Era assim mesmo.
Devagar, sem alarido nem proximidade, pudeste explicar-me, sem saber que estavas a falar comigo, que se pode chegar de vários ângulos ao mesmo ponto: à procura da realidade, como é, de cada vez. Pudeste dizer-me, ao ritmo de cada artigo ou comentário televisivo, que «todo o ponto de vista é a vista de um ponto», como diz Leonardo Boff. Fazias essa demonstração suavemente, com simpatia, quase sem querer ferir o contraponto.
Cheguei a fazer o exercício: como é que ele vai justificar a vitória inequívoca das Autárquicas de 2001? A saída de Guterres ou, o que foi mais difícil, o final esperado do XVI Governo Constitucional, em Novembro de 2004?
Seguia, atenta, a tua argumentação. Mais equilibrada do que habilidosa, mais honesta do que facciosa, mais inteira do que parcial. Sinto falta disso. Antes de ser preciso. Porque és preciso.

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

O enjoado lúdico









Todas as idades trazem tipos, espécimes zoológicos, que as caracterizam. É raro que sejam muito originais, apenas se demarcam mais ou menos em épocas diversas. Um dos espécimes típicos da nossa época é exactamente o enjoado lúdico.

O enjoado lúdico reconhece-se pela filosofia que enuncia sobre si mesmo, mas mais ainda pelos sintomas que apresenta e pelas causas que estão por detrás desses sintomas.

A sua ideologia é de que nada existe de digno, absoluto, e quando muito lhe interessa o seu pequeno jardim de Cândido. Por isso, sempre que alguém lhe refere a existência de valores, coisas valiosas, dotadas de grandeza, sorri e ataca a sua valia.

Se essa é a sua enunciação do mundo, bem mais importantes são os sintomas que apresenta. A sua fácies mostra um profundo enjoo perante o mundo. Não contesta, não argumenta.

A sua postura é a de quem está cansado de argumentar e contestar, o que diz mais sobre a sua falta de energia que sobre a valia da discussão que se poderia travar. Encontra-se permanentemente fatigado, e qualquer referência a ideais, missões, ou objectivos suscita-lhe um esgar de enjoo.

Fadiga, enjoo, ataque, são os seus sintomas essenciais. Juntemos-lhes um quarto: o lado lúdico. Perante a discussão séria, o tema nobre, assume atitude de bobo da corte, brinca, quer à viva força demonstrar que nada disso tem importância. É nisso que gasta a sua energia vital: na demonstração da irrelevância.

Falta-nos um quinto sintoma, que o enjoado lúdico nunca confessaria, que lhe vai no fundo da alma: o dogmatismo. A sua forma de ataque revela a sua natureza profundamente fanática. As frases que utiliza são sempre definitivas, cortantes, irrevogáveis: não há obras de arte maiores, a Europa morreu, não há motivos nobres, nada é genial ou tudo o é (o que dá no mesmo) só para dar alguns exemplos. O que visa é cortar a discussão, mostrar a sua irrelevância.

Se bem virmos estes cinco sintomas estão mutuamente ligados. Fadiga, enjoo, ataque, lúdico, dogmatismo são apenas várias faces de uma mesma figura. Mas para a percebermos termos de ir às suas causas.

O seu paradigma é o Cândido de Voltaire, que de tanto se rir dos motivos nobres acaba por ficar à dimensão do seu jardim. A História do iluminismo dito crítico (que pouco teve disso, salvo na Alemanha) mostra que resulta sempre na amargura e na misantropia. Chamfort é o melhor exemplo disso, mas muitos outros poderiam ser dados. Ou na idolatria histérica, como a religião da deusa razão de Robespierre o mostra.

Qual o percurso que cria um divertido lúdico? Sem dúvida trata-se de pessoas com algum grau de inteligência. Não são igualmente destituídos de curiosidade. Estudaram. Mas, confrontados com a genialidade e a grandeza não foram capazes de seguir percurso criativo. Fenece-lhes a potência para o fazer. Seja a energia vital, seja a dose suplementar de inteligência, seja a capacidade de perseverança na aprendizagem. O seu percurso ficou a meio. Por isso é natural que pretendam que as vidas fiquem a meio, inacabadas.

Em boa verdade trata-se de mais uma figura nascida do ressentimento. Mais uma entre tantas outras. A sua diferença específica surge do facto de não serem totalmente destituídos, ao contrário do medíocre. O problema é que a vida não se basta com uma pequena dose suplementar de lucidez. Esta apenas envenena a vida quando não é bastante.

A sua vida é por isso permanentemente envenenada pelo confronto com a grandeza que tem altura bastante para ver, mas não a que baste para emular. Não são capazes de canalizar a energia para uma finalidade e por isso a própria ideia de finalidade os assusta.

Explica-se assim tanto a enunciação da sua ideologia, como os sintomas que apresentam. Se nada tem importância, salvo o seu jardim, é porque tentaram dar um salto fora dele e apenas tropeçaram. Sentem-se cansados apenas porque não perceberam terem tentado dar caminhadas superiores às suas forças. Estão enjoados porque a vida deu-lhes as tonturas de promessas grandes, mas descobrem para seu desagrado que há promessas bem maiores. Atacam, porque sentem que toda a grandeza é ameaça ao seu pequeno jardim. O que dizem ser uma escolha é apenas uma falta de alternativa. São grandes no seu jardim, só nele o podem ser.

O seu lado lúdico apenas resulta de uma imensa tristeza de não poderem ser maiores. Por isso desmerecem o resto, é a forma de dar dimensão ao seu pequeno jardim. Se é verdade que este não tem grande importância, afinal nada tem, e por isso não é grave. Fazem-se palhaços da sua própria doença, assistidos em hospitais da sua imaginação. E como é típico do palhaço, caem no dogmatismo. O bobo da corte critica todos e não admite críticas. Sabe-se diminuto perante os grandes, mas a sua consolação é o seu estatuto. É a sua menor dimensão que o imuniza. São ciosos dele como se de privilégio aristocrático se tratasse.

É certo que é figura triste, mas a nossa época tem muitas outras. No seu caso apenas lamento que não sejam mais bem aproveitados. Seriam muito bons servidores de senhores mais altos se fossem mais bem-educados. A sua forma de redenção é a de serem cortesãos. Mas para isso carecem de senhores maiores.




Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 19 de julho de 2010

STABAT Mater







STABAT Mater dolorosa
iuxta Crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.

Quando medimos a grandeza de uma civilização temos de medir aos sues picos mais altos, mas igualmente a sua capacidade de reelaborar os dados de base. Que um evento do séc. I contado nesse mesmo século e no século seguinte dê uma poesia no século XIII, inspire uma música no século XVIII e audições no XXI é-nos tão trivial que esquecemos o que este mecanismo de transmissão tem tudo menos de evidente.

Que Pergolesi se tivesse deixado inspirar por este hino não é de espantar, se tivermos em conta a sua beleza. Que esta se tenha preservado numa cultura tantos séculos, viva o suficiente para meio milénio depois de ser feito ainda tocasse um músico, é que é de espantar.

O primeiro elemento, muito esquecido, é o da permanência da literatura em língua latina por mais de 1000 anos após a tão batida queda do império romano. Quando e diz que a língua latina é morta cada um sabe se fala da sua. Viva o bastante para inspirar obras-primas na musica.

Mas viva o suficiente para inspirar obras-primas na literatura também. Quando se fala na novidade do realismo como movimento, tendemos a esquecer-nos de que os seus instrumentos são seculares.

Stabat. Em bom latim dir-se-ia “erat”. E de boa forma se traduziria por “estava”. Mas em latim “stabat” tem um significado mais preciso, que um autor de poesia latina não ignorava. Não foi por isso por evolução semântica que teria usado um verbo incorrectamente. Sabia bem que verbo estava a usar: “stare” significa estar de pé, firme, assente, sólido. O seu parentesco com estável, estaca é evidente. De quem se fala estava bem ancorada no solo, firme, plenamente segura do que fazia, o seu corpo obedecia-lhe, não fraquejava exteriormente.

E quem estava? Uma “mater”. Não que as religiões não tivessem já falado de mães de deuses, ou do sofrimento de Cibele, nem a tristeza que invadia quem perdia os seus nas histórias divinas. Mas é de uma mãe concreta que se trata. Uma e só uma. Aquela, aquela que efectivamente viveu o que viveu, e por isso única, e exemplo para as outras.

Dolorosa. É um dos lugares comuns falar-se do dolorismo do cristianismo, e sobretudo do catolicismo. Uma civilização que criou oi Carnaval, o gótico e o barroco está bem longe de ser dolorista. A síntese histórica em mão de cavador é natural que cheire a grão de terra. Em vez de os terem nas mãos têm-no nos pés. Por isso é natural que análise pareça sempre feita com os pés. Dolorosa porque a vida na sua intensidade máxima tem também momentos de dor profunda, insuportável. Nada é esquecido, nada é poupado a uma vida plena. É sabido que o dogma da assunção, que Jugie analisou com grande profundidade e beleza é neutro em relação à morte de Maria. Não se pronuncia sobre ela. Por isso e morte de compaixão à frente da cruz é aceite por muita teologia. Sofrer pelo outro ao ponto de ter morte na alma é expressão de diferenciação sentimental bem maior que o da ataraxia estóica. Não se foge à vida. Deixa-se-a fluir plenamente em nós.

Uxta crucem. Onde está esta Mãe? Ao pé da cruz. É natural que não dê pulos de contentamento. É natural que não seja esse o momento de bodas ou alegria. Não padeceu da cruz directamente, mas da forma indirecta mais profunda. É a tese da com-paixão de Nossa Senhora, que muitos teólogos entenderam como o martírio de Maria, o seu verdadeiro martírio e não um legendário que gerasse a sua morte. Co-redemptora em com-paixão.

Lacrimosa. E eis que chora. Não é uma mãe de plástico. Toda divertida por saber que o seu Filho afinal vai estar bem. Ao contrário das crenças muçulmanas, que vem de algumas heresias gnóstica, acreditando que na cruz apenas estava um simulacro de homem, estava um homem pleno na cruz. E em vez de uma impassibilidade estóica, que poderia ser a única fundante da civilização cristã, entra em jogo pela primeira vez, e de forma nobilitada, uma expressão essencial do sentimento humano: a lágrima.

Dum pendebat. Não é em qualquer momento que esta mãe é vista. É num momento concreto. Enquanto alguém pendia na cruz. Na perspectiva do eu poético somos obrigada a vê-la enquanto ela vê alguém. Sob o ponto de vista da criação de situações, esta mostra arte bem complexa. Não é para o crucificado que olhamos, mas para a mãe, que por sua vez vê alguém. Somos obrigados a focar a nossa atenção, como num filme, para uma só pessoa, para percebermos indirectamente a sua situação. Não se olha para o crucificado, mas para quem O olha.

Filius. Não é qualquer um que está a ser visto pela mãe. É o seu próprio Filho. E eis que a coisa se revela em toda a sua veracidade e pertinência. Que houvesse relações filiais parte de histórias divinas já se sabia. Que estas se passassem na terra, também temos muitos exemplos na mitologia. Que o sentimento da Mãe que perde o Filho seja presente, também se sabia. Cidipe chora pelos seus filhos, presume-se. Não são apenas deusas que o fazem. Mas que duas pessoas humanas, plenamente humanas vivam a mais humana e terrível das situações, e que seja essa humanidade a revelar o plano divino para o mundo, essa é a novidade.

A poesia neolatina não é um conjunto de artificialidades de corte. Que o Império Romano tenha acabado com data certa e encerramento de contas é mito constitutivo da Europa, mas em boa verdade mito. Com tudo o que isso tem de pertinente, mas de falseador também. Não é por vontade de erudição que se verte em latim um dos momentos mais relevantes da História da humanidade. Procura-se a universalidade? É bem provável. Procura-se a língua sagrada? Admitamo-lo. Mas encontra-se sobretudo o que é a língua natural da vida intensa, bem mais que o vernáculo na época. Não é por necessidade tabular que se latiniza. É por inevitabilidade vital. Latim, Idade Média e cristianismo apenas são realidades menores para quem não as viu. O turista distraído prefere o sorvete tanto ao pequeno episódio que se passa à sua frente quanto ao grande monumento que o constituiu. O maior e o mais pequeno são-lhe estranhos. Apenas vive com base no directo, o imediato, o mediano. Que um facto tão irrelevante (Tibério soube algum dia desta crucifixão?) seja afinal o mais importante é categoria estranha para o turista. Mas para ele é sempre estranho o que é relevante.



http://www.youtube.com/watch?v=mNt13Vw-K6Q
http://www.preces-latinae.org/thesaurus/BVM/SMDolorosa.html
http://www.stabatmater.info/
http://www.lastfm.com.br/music/Giovanni+Battista+Pergolesi/_/Stabat+mater+dolorosa
http://www.wf-f.org/Sorrows.html
http://campus.udayton.edu/mary/resources/poetry/stbmat.html


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 16 de julho de 2010

O pavor estéril do PSD


Ontem António Barreto e José Miguel Júdice indignaram-se por o líder da Oposição do PSD raras vezes ter lugar na Assembleia da República (SIC-Notícias com Mário Cresco).
Na verdade, alguns líderes do PSD não têm humildade democrática nem sentido de Estado para, antes das eleições, incluírem no futuro arco parlamentar os rivais que lhes podem suceder no caso de perderem as eleições. Constroem bancadas, supostamente sólidas, fiéis e monocromáticas. Sem futuro.
Em 85, Cavaco não inclui Salgueiro, com quem se batera na Figueira da Foz. Em 87 e 91, o peso do cavaquistão inibiu alternativas e purgas. Nogueira inclui muitos em 95, mas não se terá lembrado de Marcelo que parecia fora de órbita mas conquistaria o PSD, sem voz própria na bancada. A história de Guterres poderia ter sido diferente com aquele rival parlamentar.
Em 99, Durão não se demite perdendo as eleições e fica com verbo em São Bento. Em 2002, não incluiu Santana ocupado com a Câmara de Lisboa. Santana inclui Marques Mendes em 2005. Meneses - também incluído por Santana - prefere a Câmara de Gaia ficando parlamentarmente afónico durante a liderança do PSD. Manuela Ferreira Leite exclui Passos Coelho em 2009.
Conclusão: houve apenas uma sequência de líderes adversários com voz no Parlamento: Santana Lopes - Marques Mendes.
Se o Povo diz que a sorte protege os audazes é caso para dizer que o medo não tem protegido o PSD.

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terça-feira, 13 de julho de 2010

SERMÃO AOS INTELECTUAIS

Quem anda sempre atrás dos bons sentimentos deixa ficar para trás os seus.

Não há temas inteligentes, mas formas inteligentes de os estudar e exprimir.

A revolta de quem está sentado numa cadeira é sempre mais fácil que a concessão de quem enfrenta a luta.

Criticar o poder e estabelecer máximas de governação é de quem sendo impotente pretende definir o prazer dos outros.

Não acredito nos que defendem a liberdade com uma voz tão alta que não deixam os outros falar.

Só pode mostrar a indignação quem pretende pagar o serviço ou o sabe prestar.

Não desprezes os técnicos por ignorarem o que tu sabes, pois sabem eles fazer o que tu não fazes.

Invocar a humildade é bem pior que mostrar a arrogância. O segundo é parvo, o primeiro é perigoso.

Não grites tanto que não te ouves pensar.

Estranho sentimento de revolta que não afecta a digestão.

Tanto idolatras a intranscendência que ela te vence.

Criticas o burguês. Mostra primeiro a tua árvore genealógica. Se tiveres sangue real a correr-te nas veias duvido que o faças.

Não confundas as tuas indisposições com a lucidez.

Quem suspira por ideias corre o risco de não o fazer por pessoas. Quem não o faz corre o risco de não as entender.

Quem diz que ninguém o influenciou ou é ignorante ou destituído. Porque só ignorando ou não percebendo se pode ser insensível às obras-primas do passado.

Os teus dois maiores inimigos são o cansaço e a estupidez. Muitas vezes o que escreves vê-se que resulta da falta de férias. O segundo vício, no entanto, não se corrige com a posição horizontal.

Os que fazem alarde de serem responsáveis pelos outros são muitas vezes os menos responsáveis com a própria vida. Querer olhar apenas para as multidões, os grandes espaços, ou a humanidade em geral é sinal de desejo de afastamento, mais que de comunhão. Quem não verte uma lágrima pelo próximo aconchega-se na melhor das hipóteses com abstracções de justiça social.

Andam muito esquecidos aqueles que criticam a futilidade. Nada há de mais fútil que a criação cultural. É por isso necessária.

A tua adesão a um movimento político só o prestigia aos olhos de quem não percebe que nele apenas serás útil se tiveres competência política.

Opinar sobre as sortes do mundo ou abster-te de o fazer é algo que deverias ter a coragem de fazer como pessoa e não como intelectual.

Sempre que apoiares uma guerra arrisca primeiro o teu sangue. Sempre que a condenares compensa quem perde com a sua ausência. Não o fazendo tens direito à palavra ou ao silêncio. Mas como qualquer vendedor ambulante o faria numa conversa transeunte.

Se não tens fome de absoluto, pouco te dá saciedade. Se apenas falas nele confundes o tema com a pertinência.


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 9 de julho de 2010

A liberdade vai passar por aqui


«Havana vai libertar 52 presos políticos» anunciou esta semana a TSF. Raul Castro cede assim, finalmente, aos pedidos da Igreja Católica na «mais formosa das ilhas», como lhe chamou Colombo.
Poucas notícias internacionais me deixaríam mais satisfeita. Conheci a situação da oposição cubana a Fidel Castro no início dos anos 90. Tinha recolhido no escritório de Madrid do exilado Carlos Alberto Montaner a lista destes políticos para entrar em Cuba como turista acidental. Levava uma mala cheia de literatura anti-Castro que Montaner me pedira para entregar a Elizardo Sanches.
Para além do emblemático Elizardo que, sob a defesa dos Direitos Humanos, se mantinha fora do cárcere na ilha, falei com uma série de gente valente que tentava o impossível para manter acesas a chama da liberdade interior e a esperança da liberdade pública.
Foram três semanas surrealistas. Evito os nomes porque desconheço a situação actual destes cubanos. Lembro a poetisa com grades nas janelas e nas portas para evitar a delinquência política diária dos jovens da revolução. Não esqueço o homem de meia-idade que, nos subúrbios de Havana, me passou apressadamente um molhe de papéis manuscritos com os seus pensamentos e denúncias. Já era perto das dez da noite e atravessávamos uma pequena mata entre a sua casa e a paragem do autocarro que me traria à cidade. Tirou então os papéis de dentro da camisa e falou muito depressa. Ali sabia que não tinha microfones.
Recordo ainda o tristíssimo encontro com um velho opositor de Castro, num terceiro ou quarto andar, com escada suja e vigiada. A casa parecia uma cela. Com guarda, colchão no chão e pouco mais. Mas a verdadeira prisão estava dentro deste homem de barbas brancas. Ao fim de alguns anos, não resistiu ao cárcere, denunciou os amigos e pôde sair. Vivia assim atormentado pela traição, pela fúria das familias dos presos seguintes e pela amargura de um sacrifício em vão. Estava preso na ilha. E não pertencia a ninguém. Para não ser tão trágica, também me lembro de um actor de aparente sucesso que estava revoltado com Fidel alegadamente porque este lhe prometera uma bicicleta mas, por causa uma pequena liberdade de verbo, perdera o direito de a receber... Vá-se lá saber se é verdade. Este não estava na lista de Montaner.
Muitos já estão no exílio. Outros na prisão. Podem ter sido denunciados em troca de uma lata de carne, de um par de calças de ganga ou da manutenção de um posto de trabalho.
O único espaço de liberdade ficava dentro das igrejas onde Fidel Castro, reconhecido pelo papel de assistência social dos católicos num país órfão dos dinheiros soviéticos, permitia maiores liberdades de culto. Ali se trocavam documentos. Ali se procurava a ponte com o exterior. De ali partiram vozes que chegaram ao Vaticano. E que chegaram da Santa Sé, em discurso directo, na histórica viagem de João Paulo II em Janeiro de 1998 quando o Papa exortou: «Que o Mundo se abra a Cuba e que Cuba se abra ao Mundo!». Não conseguiu o fim do embargo, ponto de honra de americanos e de alguns cubanos radicais de Miami. Penso que a única vitória imediata foi mesmo a de transformar o dia de Natal, finalmente, em dia feriado. Ou talvez não. A mesma semente de liberdade dá hoje frutos em Havana com a libertação de 52 presos, como dará amanhã na Venezuela de Chavez.

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