quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Tagarelice e matemática II

Devo dizer que li Platão durante anos com alguma relutância. A sua repulsa pela democracia parecia-me suspeita, tão suspeita quanto o elogio dos estóicos médios, e tão divulgado por Políbio, do regime misto (de monarquia, aristocracia e monarquia). Mas não podemos esquecer que Platão não lidou com a ideia de democracia. Lidou com o que ela era no dia-a-dia, sobretudo depois da morte do seu aristocrático chefe, Péricles. A democracia entregue nas mãos do povo, em que o povo ficciona ser aristocrata e a grosseria se torna padrão, foi ao que assistiu Platão.

O comum é dizer-se que ele apresentou uma solução extrema na “República” e depois matizada nas “Leis”. De uma forma ou de outra, as suas utopias eram baseadas no controlo, e também as demais utopias, sejam de More ou de Campanella, me parecem espaços de horror, fundadas na ideia de que o ser humano é simples, e a felicidade se obtêm por vias lineares. O controlo e a uniformização aparecem em cada canto da utopia.

Mas este comum não é toda a história. Uma coisa é o que se diz, outra a que se fez. Não há memória que a Academia tenha tentado impor o seu monopólio em Atenas. O Liceu e o Pórtico e o Jardim mantiveram-se durante séculos lado a lado. Nem nada indica que a prática de Platão tenha sido controladora. Recolheu nas suas hostes o seu principal destruidor, Aristóteles, e tudo vai no sentido em que a admiração era profunda e recíproca. E os seus sucessores na Academia não foram platónicos ortodoxos igualmente.

Não foi o controlo censório que imperou na Academia, nem as sebentas do professor. Qual era o critério e qual, suspeito, foi a prática? Um velho adágio, mas cuja importância foi pouco sublinhada, entendido como mera anedota: “que não entre quem não souber geometria”. O controlo não era “que não entre quem não for platónico, quem não critique Homero e os poetas, ou a democracia”. O crivo estava na geometria, ou seja, e falando em linguagem actual mais generalizada, quem não souber matemática.

Porquê a matemática? Não porque a matemática não permita a discussão, por ser tudo certo nela. Essa é a mais uma via de lhe destruir a grandeza e a posição como cultura. A matemática não é mera técnica, ao contrário do que os visitantes das estantes livreiras portuguesas podem julgar. O seu papel na busca da verdade, e das verdades em geral, é essencial. Platão bem o soube. É que se existe o oposto da tagarelice é a matemática. Esta permite várias teorias, várias correntes (e Deus sabe quantas houve e há, e quantas se odiaram ao longo dos tempos entre si).

A matemática não é certa no sentido de ser uníssona, sem discussão, sem dialéctica. É exactamente oposto disso. Mas a matemática é o inverso da tagarelice. Cada coisa que se diz tem de se saber muito bem porque se diz. O inverso da tagarelice não é a conclusão certa, mas o caminho responsável. O que significa o aviso da Academia então? “Que não entre quem for tagarela”, quem usar a linguagem apenas para ocupar espaço, para encher o espaço sonoro e o tempo alheio com uma neblina que só obscurece a procura da verdade.

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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Tagarelice e matemática I







Num maravilhoso e muito claro estudo sobre “O Politico” de Platão, Heidegger mostrou que o seu sentido geral era o de desmascarar a tagarelice. Bem sei que o adjectivo “claro” e Heidegger muitas vezes não vão de par, mas muita da má fama deste filósofo tem a ver com má tradução. É verdade que tem alguma tendência a partir palavras, naquilo a que Jung chamava de estilo esquizofrénico (referia-se a ele e a Joyce sem os nomear, se bem me lembro) o que mostra uma tendência da época algo agastante, reconheço-o. Mas algo não lhe pode ser imputável, porque sabia que tinha de usar a linguagem para falar do indizível, e não era poeta como Goethe.

A verdade é que a obra não é das mais estudadas de Platão e a abordagem, embora muito profunda, pode ser alvo de discussão. Mas as suas ideias parecem-me ainda hoje muito válidas. No espaço público impera a tagarelice, e isso tem implicações não só políticas, como éticas e de ciência.

Comecemos pelas últimas, porque isso nem sempre é mau. A tagarelice, em vez de desvelar, lança um nevoeiro sobre a realidade. Ocupa o tempo, é uma forma de matar o tempo. E mata-o efectivamente. Torna-o inútil. Mas obnubila o ser (continuo a sentir repulsa em maiuscular os conceitos filosóficos, porque me cheira demais a uma tendência para ênfase retórica que apenas esconde a platitude das ideias). Quanto mais se fala de forma desordenada, mais se esconde e desvia do que é essencial.

Eticamente faz nascer o irresponsável, que mais não é que o responsável por acaso, a título fortuito. Numa sociedade humana em que não haja a responsabilidade ética na construção do discurso, este torna-se aleatório e torna-se cada vez mais difícil perceber a diferença entre o sentido e o “flatus uocis”. Entre dois sujeitos falantes, ambos emitem ondas sonoras. Estabelecer os critérios que distinguem o que faz sentido e o que apenas o esconde torna-se cada vez mais difícil.

O ágora foi sempre o local do mexerico, do rumor, e em geral da tagarelice. Seja em que regime for. Mas a democracia inspira e instala um regime de desresponsabilização que tem os seus custos. A ideia é nobre e boa (a democracia é um ideal aristocrático por excelência, é bom de ser ver), mas a prática mostra que à liberdade se segue facilmente a cacofonia.

E é esse o sentido político desta obra. A democracia exacerba a tagarelice, dá-lhe um estatuto de discurso oracular, tende a tornar indistinto o discurso com valor do que o não tem. Não se trata mais uma vez de maltratar a democracia, trata-se tão simplesmente de a olhar com lucidez. A mais bela mulher já teve pontos negros. Esquecê-lo não ajuda em nada à sua limpeza de pele.

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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Descarrilar

««- Mãe, quando chegamos?
- Ainda demora, aguenta, é a vida.
- O que é a vida, Mãe?
- A vida era nós as duas numa piscina, sinal que a Mãe era rica e não precisava de ir trabalhar.
- Oh Mãe, então isto não é vida?
- Não, Filha, isto não é vida».

Esta conversa, no banco de trás da 1ª classe / conforto do Alfa Faro - Lisboa, entre uma criança de três anos e a sua Mãe, deu-se no exacto dia em que saíram novos números sobre o desemprego em Portugal. A miúda era um amor, fazia uma conversa inteligente, animada, sem incomodar. Mas tive vontade de me levantar e de chamar todos os nomes que me ocorressem àquela Mãe. «Burra! Incompetente! Ingrata! Preguiçosa! Alienada! Mimada! Limitadíssima! A cair de parva!», e mais que viesse. Como é possível, com o País no estado em que está, ir para o trabalho depois de umas férias no Algarve e não dar Graças a Deus pelo emprego e pela possibilidade de passar uns dias na praia?! Como se desperdiça uma pergunta destas? «A vida era nós as duas numa piscina sinal que a Mãe era rica e não precisava de trabalhar».
Não vamos lá assim.
O amor salva, o trabalho regenera, a produtividade destribui, a ambição mobiliza e a educação prepara.

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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

SERMÃO AOS POVOS


Sê condescendente com a memória, que ela te esquece.

Critica os políticos, e serás sempre justo: porque são eles o teu espelho.

Opina sobre tudo. Só abona em teu favor teres a coragem de enveredares por terrenos que te são completamente estranhos.

Usa a tua liberdade de expressão sem freios. Descansa que o teu ridículo não durará muito. Também serás esquecido.

Preserva o povo. Já resta tão pouco. É uma espécie em vias de extinção. O que sobra é o que não está em lugar nenhum, gente a meia-haste, um funeral de categoria.

A única tragédia do plebeu enriquecido é o facto de ser efémero. Não é por isso muito importante. Acumula títulos que na melhor das hipóteses lhe vêm do mérito. Diferencia-se de mil maneiras o melhor que pode e esquece que é igual aos outros que estão ocupados no mesmo esforço de diferenciação. As cores dos cartões de crédito apagam-se com mais facilidade que as dos brasões.

Chamas louco a quem tem juízo e a quem o é apenas por medo e não por justiça. E tens razão no teu motivo mesmo que não a tenhas no teu juízo.

A tua rapidez a emitir conclusões é directamente proporcional à tua incompreensão dos seus pressupostos.

Continua confundindo o atrevimento com a coragem.

O sentimento da igualdade tem geralmente a ver com a baixeza dos comparandos ou a menoridade de vistas.

Julgas-te superior pelos cargos que ocupas. Julgas que o mérito os justifica. A uns e outros, mesmos que existam, a caducidade dará uma palavra mais dia, menos dia.

Revoltam-te tanto mais nos outros os seus defeitos quanto eles são os teus.

Quando gritas contra a injustiça é ela que te aborrece ou antes apenas o facto de dela seres vítima?

Despreza a grandeza e destruirás quem faz por ti. Confia cegamente nela e a mesma passa a padecer dos teus defeitos.

É o olhar dos outros que te aflige? Talvez seja o momento de desviares os teus olhos para melhor paisagem.

Quem está disposto a dar prontamente a sua opinião geralmente não está disposto a dar mais nada.

Quem chora por um soneto não o faz necessariamente por uma criança. Quem o faz por uma criança pode ser igualmente grosseiro.

Julga os outros, mas apenas para seres julgado.

Quando chamas de loucura a grandeza dás ao que vês o nome que mereces. Nem tudo o que te aflige é condenável.

Destruíste os antigos títulos e agora corres aflito a criar uma nova profusão de títulos. A tua ânsia de os criares é fruto de teres contestado a validade de todos os títulos quando não os tinhas. Agora sofres por precisares do que desprestigiaste.

Não cubras a tua vulgaridade com títulos. Colas assim a poeira ao teu corpo.

Quem fala com frequência nas pratas de família deve verificar se a genética não lhe deixou nas mãos marcas do limpa-pratas.

É uso hoje em dia ver-se mulherzinhas cheias de jóias no campo ou na praia. Jóias de peixeira, é certo, mas sempre são jóias de família.

A tecnologia permite a disseminação do bem-estar, mas não da distinção.

Define-nos muitas vezes mais o que nós aceitamos ouvir que o que dizemos.

Se insistes para que sejamos todos iguais pergunto-me pelos motivos da tua insistência e onde pretendes colocar essa igualdade.

A relatividade é o desespero dos sábios e o descanso dos ignorantes. Os primeiros apenas a aceitam como uma desistência os segundos como uma forma de legitimação.

A ânsia de mostrar bons sentimentos é sempre sinal do que nos faltam verdadeiros. E boas ideias.

Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Os sonhos erram? II

Encaremos pois a pergunta: os sonhos erram?

Para a respondermos temos de deixar qualquer uma das respostas estreitas. A partir do momento em que sonhamos, é actividade pertinente. Seria a mesma coisa que ignorar a fala, a sexualidade ou a respiração. Se está na realidade pode e deve ser objecto da nossa curiosidade. Não podemos aceitar que exista apenas uma porta para essa realidade. Mas não devemos dar aos sonhos, sem questionar, um papel oracular, tanto quanto não o devemos fazer em relação à fala, ao sexo ou à respiração.

O problema dos sonhos é que neles são uma e a mesma coisa a linguagem e o seu objecto. Quando eu falo, de uma forma ou de outra tento dirigir-me a outras realidades, mesmo que essas realidades sejam a linguagem. Quando o discurso fala directamente sobre si mesmo entra no paradoxo. Os gregos já o sabiam quando criaram o paradoxo do mentiroso. Quando sonhamos, o sonho refere-se sempre a outra coisa que o sonho, mas é o sonho enquanto tal que é o nosso objecto. Não falamos em sonhos sobre os sonhos, e se o fazemos é isso sonho de novo.

Que os sonhos errem parece-me evidente. O sonho é algo trapalhão a comunicar. Usa do que pode e do que sabe. Tem mais sabedoria que nós, até porque usa os nossos desperdícios. Tem menos que nós, porque lhe falta a nossa forma de dialogar. Tem as suas próprias. Mas vê-lo como oracular, sempre oracular, é fazer do sonho porta de entrada dos deuses, sempre e apenas isso. E mais uma vez temos a porta do merceeiro, a única porta de entrada para o mundo a actuar. No fundo, os que têm uma visão exclusivamente oracular do sonho são apenas mais uma modalidade do merceeiro com porta aberta e apenas uma.

Nisto, e não apenas nisto, Freud participava do mesmo preconceito de merceeiro do que os acusam. Quando instigou insistentemente Jung para "tomar conta do sexo", como se de coisa frágil se tratasse e em vias de evaporação, mostrava que a sua era apenas uma ânsia e não lucidez. Quando impõe ao sonho a metáfora do mecanismo, a analogia do relojoeiro, em que o mundo do inconsciente tem uma estrutura estratificada, concatenada, hierarquizada, quis construir uma hierarquia celeste para substituir a que pretendeu destruir. O seu modelo é a estante do merceeiro bem arranjada, um inconsciente bem ordenado com uma chave única que se compreende de fora. O sexo tem para Freud o papel da etiqueta com o preço, o livro de inventário. Ordena tudo e ficamos descansados. Não lhe nego os méritos, apenas lhe saliento os imensos limites. Todos sabem que quando o diagnóstico terminava no sexo Freud aliviava a sua angústia. Tanto melhor para ele. Popper dizia que a teoria de Freud era o epítome da teoria irrefutável. E sabe Deus como para ele esse era o maior insulto.

Os sonhos erram. Não erram apenas, mas também erram. E por isso podemos inverter a frase de Santo Agostinho. Os sonhos também dizem: “graças a Deus não sou responsável pelo meu sonhador”. No que como Santo Agostinho, têm uma parte, só parte, mas uma grande parte, de razão.







Alexandre Brandão da Veiga



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China, a mega claustrofobia






A China recusou a entrada da Sagres em Macau, solicitada meses antes por via diplomática, ao abrigo de uma viagem de instrução para oficiais de Marinha portugueses e de uma acção de promoção de Portugal no Mundo.
Não terá sido um burocrata chinês a recusar os pedidos do Estado português alegando o perigoso precedente que poderia constituir a autorização de entrada de um vaso de guerra estrangeiro num dos seus territórios autónomos. Pequim não abriu esta cortês excepção a Portugal por duas razões:
1) Ainda no passado mês de Março pude constatar em Macau a tomada de posse inequívoca e integral do Império do Meio sobre o pequeno território, desde 1999. Para além do acordado sobre a Língua Portuguesa e sobre a cedência, a prazo, do imponente Consolado português sobre a ponte de Edgar Cardoso, pouco de singular os liga a Portugal que justifique a excepção para esta autorização. Preservam a calçada à portuguesa (colocada pelo Governador Vasco Rocha Vieira nos anos 90, antes de sair) como exlibris de interesse turístico, mantêm as fachadas das igrejas de S. Paulo, de S. Domingos e da Senhora do Carmo como postal, photo-oportunity e amostra de multiculturalidade. Tudo mais é jogo para chinês se arruinar e interesse submerso para outro chinês engordar. Se a primeira razão da recusa é penosa para Portugal, a segunda será grave para a China.
2) Foi exactamente pela lógica continental de autosuficiência e controlo interno que o gigante amarelo nunca acordou para o Mundo. Entre 1421 e 1422, o Almirante chinês Zheng He navegou até ao Canal de Moçambique, passando por Mogadishio e Zanzibar. Mas, com a morte de Zheng, a Dinastia Ming desistiu da política de expansão marítima com o argumento de que o comércio era uma «actividade baixa» e a expansão representava um risco para a integridade do Império. A pirataria japonesa na costa Oriental e as ameaças dos mongóis e manchus na fronteira Norte terão concentrado as atenções do Império chinês na defesa das suas fronteiras, por vários séculos.
Essa interioridade, anestesiada pelo ópio, tornaria depois a grande potência asiática num servo de pequenos Estados europeus a milhares de quilómetros de distância ou simplesmente do ilhéu nipónico vizinho. Nem o bloco comunista no século XX beneficiaria a «natural» expansão da China. À excepção das sangrentas incursões na Indochina, em concurso com a URSS, o gigante manteve-se politicamente adormecido para o Mundo.
E seria «a actividade baixa do comércio» a autorizar uma permeabilidade chinesa efectiva em África, na Índia e na América Latina (se descontarmos os retalhistas, sobretudo na Europa do Sul e do Leste) no final do século passado. Para assegurar a participação no comércio mundial, em 2006 a China anunciou a expansão da sua marinha mercante propondo-se liderar a indústria de construção naval num período de dez a quinze anos, com investimentos de mais de um bilião de dólares logo nos primeiros cinco anos. Na semana passada, o Império do Meio passou o Japão tornando-se na terceira economia do Mundo.
E como pode a China prejudicar-se com a recusa de entrada de um navio-escola português em Macau? Como sempre: nem as regras internas da China são internacionalizáveis; nem o chinês consegue moldar-se à liberdade exterior sem perder a coesão interna. Entre a elasticidade do negócio e a ditadura interna terá de escolher um dos dois sistemas do seu País. Mais depressa do que supõe.

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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Os sonhos erram? I









Na nossa época que se crê muito científica esta pergunta nunca é colocada: os sonhos erram? Nela encontramos uma de três posturas: os sonhos são disparate, nem vale a pena perder tempo com eles, os sonhos apenas podem ser analisados na perspectiva das neurociências, ou então os sonhos são a porta de entrada para a verdade.

Que os sonhos sejam mero disparate é a postura do marinheiro céptico, do corsário e o merceeiro que em nada acreditam que não possa estar na ponta do mastro, do sabre ou do lápis. Muitos cientistas não adoptam postura científica, mas apenas colocam no papel os seus preconceitos de origem social. Não foi só Jung que assistiu a sessões de mediunidade, foi Pierre Curie também. A verdadeira curiosidade científica não recusa nada - para poder fazê-lo com critério.

Que os sonhos sejam apenas objecto de neurociências é atitude que adoptam outros um pouco mais sofisticados e mais informados, descendentes dos primeiros. Descobriram uma porta de acesso ao sonho, porta que parece segura, e dela não saem. Recusam menos, mas por porta estreita. Não deixaram o preconceito de merceeiro, apenas lhe juntaram uma porta ao lado.

A terceira atitude é a da psicanálise dita clássica. Daria todo um tratado a análise das acções e reacções dos Freudianos e anti-Freudianos em relação aos sonhos. Freud descobriu um dogma: sexo é Deus e o sonho é o seu profeta. Como Jung e a filologia clássica (não penso sequer nos mais velhinhos, mas em Jacques Jouanna por exemplo) e a antropologia sempre salientaram, Freud distorcia o sentido dos mitos apenas para caberem neste dogma fundamental. Mesmo que a filologia, a antropologia e os casos clínicos desmintam as suas teorias, os seus seguidores continuam a ignorar o dado empírico e tentam enfiá-lo a todo o custo na teoria.

É curioso como os cientistas tendem a detestar – de modo injusto até certo ponto – Freud. Todos os que conheço quando muito têm simpatia por Jung, mas desprezam Freud. É curioso igualmente como Freud é considerado mais científico... por não cientistas. Este é mais um dos sintomas da triste separação entre ciências e letras que existe na nossa época. A tradição é bem antiga. Pauli escolhe Jung e não Freud. E se Einstein escolhe Freud, é por precisamente reconhecer a sua total incapacidade em perceber, não apenas as suas ideias, mas a sua relevância.

De uma forma ou de outra, a verdade é que na revista de moda, na notícia de jornal, Freud ganhou o espaço público. O sonho é oracular, mesmo que se dê ao oráculo uma atenção distraída, não menos distraída que os gregos muitas vezes davam aos seus. Ou então uma desatenção nervosa, como Jocasta de Sófocles que nega a validade dos oráculos. Imagine-se, diz ela a Édipo, que um oráculo lhe disse que ela se casaria com o filho.

A atitude mais sensata, embora talvez nem sempre justa, foi a de Santo Agostinho que afirmou “graças a Deus não sou responsável pelos meus sonhos”. Algo injusta, porque talvez tenhamos algum contributo para os nossos sonhos. Bem sensata, porque é sinal que percebeu que não temos sobre eles controlo pleno. O que nos dizem pode ser muito pertinente, é-nos atirado para o plano da nossa vida, mas nem sempre nos ajuda ou nos define.

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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Algarve: um novo mundo pede novas palavras


«Limpa, a luz recorta promontórios e rochedos. É tudo igual a um sonho extremamente lúcido e acordado. Sem dúvida um novo mundo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como o chão».

Sophia de Mello Breyner Andersen, Livro Sexto, 1962

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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Patriarcado judaico-cristão?








A expressão é tão pretensiosa que até me custa comentá-la. Mas o que anda no ar de tempo, como as poeiras e os cheiros menos desejáveis, faz parte do nosso ambiente e carece que dele curemos.

O argumento, que foi aduzido por um artista meu conhecido, é o seguinte: a civilização judaico-cristã institui o Deus único, patriarcal e consagra a monogamia, tudo isto artificial. Esta sequência de palavras – pouco mais é que isso, já a ouvi tantas vezes, e no entanto parece-me ser pouco mais que uma sequência de palavras –, esconde muitas confusões numa aparente clareza. Há ordem numa fileira de formigas. Mas esta fiada de palavras mostra que pouco se leu, e mal.

Quanto à idioteira que é o conceito de civilização judaico-cristã já disse o que tinha a dizer. Conceito tendencioso, nada científico, sem nenhuma função explicativa.

Associar o Deus único a esta civilização em exclusivo ou dando-a como fonte única deste Deus único é no mínimo temerário. Porque há que distinguir três realidades diversas. Uma coisa é o monoteísmo: só há um Deus, o resto são falsos deuses, demónios, ou inexistentes. Outra o henoteísmo: existindo ou não vários deuses, apenas se adora um. Uma terceira é o sistema de avatares em monopólio, à falta de melhor expressão.

O monoteísmo encontra-se na dogmática oficial do cristianismo, do judaísmo pelo menos a partir de certo momento e no Islão. O henoteísmo existiu entre os judeus até ao cativeiro da Babilónia (mas é sempre artificial dizer algo sobre isso), ou até Moisés (quem saberá dar uma resposta unívoca a esta questão?). O sistema de avatares em monopólio encontra-se em certos temas dos Vedas (o Bhraman é uno, é tudo, etc.), entre os gregos e romanos (que falam em Deus no singular, apesar de referirem a vários deuses), ou eventualmente o Diaus Piter dos indo-europeus. Avatares porque se reconhece que os vários deuses são manifestações de um único divino, e em monopólio porque o divino é único. Quem efeito, podem existir avatares em politeísmo puro.

É evidente que um especialista em História das religiões teria mil objecções a colocar à minha classificação e dar-lhe-ei razão. As combinações são infinitamente mais complexas. Por outro lado, há que distinguir as enunciações filosóficas, as teológicas e os sentimentos populares colectivos e individuais na matéria. Há que distinguir os discursos, das prácticas e das crenças. Para muitos, por exemplo, a ortodoxia cristã (ocidental e oriental) ou certas versões do Islão (xiitas, karedhjitas) seriam parte de um sistema de avatares em monopólio. Há de tudo, as épocas teriam igualmente de ser diferenciadas.

Paro por aqui. O que interessa é mostrar o seguinte: Deus único e civilização judaico-cristã não são ligação evidente, de causa e efeito, exclusiva.

Já quanto ao patriarcado a questão é outra. Este tipo de afirmações parece dar entender que foi a tal da judaico-cristã que inventou essa coisa fétida que é o patriarcado. O problema é que ele se encontra entre os semitas (sabe Deus como o Islão é tradicionalmente muito mais patriarcal que o cristianismo), entre os chineses, os japoneses, os indianos. As mulheres tiveram o azar de quase todas as culturas serem patriarcais, salvo alguns espaços da Ásia e, paradoxo para os ignaros, a Velha Europa pré-indo-europeia. Em que graus, de que modo, é questão que é especulação querer descrever em pormenor.

O que interessa, para os efeitos que ora importam é o seguinte: patriarcado e judaico-cristianismo não estão em relação de causa e efeito. O cristianismo conquistou um espaço que era já ele patriarcal, seja indo-europeu, seja semita.

E eis que aparece a monogamia, que é antinatural. À monogamia opõe-se a poligamia. A verdade é que num sistema patriarcal a poligamia é sempre poliginia, ou seja, um homem pode ter várias mulheres, mas uma mulher não pode ter vários homens. Num mundo patriarcal a monogamia é protecção das mulheres, como o seria num mundo matriarcal a protecção dos homens. Que a monogamia tenha resultado de um papel fundamental do cristianismo, concordo. Como a liberdade de consentimento para o casamento, como forma de protecção da liberdade das mulheres. Mas não creio que o cristianismo se tenha de envergonhar de ter mantido estas duas conquistas para as mulheres: não terem de ser uma entre muitas, e de serem livres (dentro dos limites de uma sociedade que nunca sendo perfeitamente cristã, não tinha agrado nesta liberdade) para se unir a um homem ou não.

Nova questão é a de saber se isto é natural. Admitamos que não o seja (o que é natural sabe Deus o que seja). Também é antinatural que o forte não possa espancar o fraco, nomeadamente que se proíba a eugenia, o genocídio, a carnificina. Afinal, a grande maioria das culturas praticaram alegremente estes feitos sem problemas de consciência. Se o critério da nossa acção for apenas a natureza (resta saber qual, e quem base em que critérios forjados se constrói), talvez quem for detido de menos força possa sair prejudicado.

Após este percurso rápido, dir-se-á mesmo apressado, pelas falácias desta ideia tão espalhada, desçamos à política, e vejamos que tipo de efeitos tem sobre ela.

O discurso oficial é o dos direitos do homem, do sentimento lacrimejante pelas desgraças do mundo. Mas ao mesmo tempo minam-se todos os fundamentos que sustentam esse discurso lacrimejante e sentimental. Mina-se a sua fonte, o cristianismo, mina-se a noção de limites, a noção de condições para a acção. Parece que veio daí um bicho chamado civilização judaico-cristã só para nos impedir de gozar um pouco nesta vida. Além de isto ser uma visão algo pateta do que é o cristianismo mostra um proletariado recém-chegado à cultura que se sente incomodo pelos limites que se lhe apresentam.

Na política gera uma raça de gentes que abomina limites e por isso tanto mais tende a fazer discursos sobre o sofrimento alheio. Abomina que a sua vontade seja contraída, que os seus apetites sejam contidos e por compensação mais se sente no dever de proclamar os seus sentimentos. Daí que possamos estabelecer uma regra prática: quanto mais se vê alguém proclamar quanto chora, maior deve ser a nossa desconfiança. Apenas espreita uma boa oportunidade para ultrapassar limites que identifica como servidão e não como serviço. Descendente de escravos, as fronteiras não são marcas do seu domínio, mas entraves à sua acção. Pisa-as porque para ele essa é uma forma de libertação e se chora pelo sofrimento que provoca e de que nem reconhece ser o autor é porque uma vaga memória de postura senhorial que observou à distância lhe lembra que ter sentimentos é privilégio dos grandes. Saíram-lhe do coração e passaram-lhe para a boca.

O patriarcado judaico-cristão? Mais um flatus uocis, produzido em massa para justificar o que somos apenas por o ser. Podiam ser estas palavras, ou outras quaisquer. Arbitrário uso da palavra, desrespeitoso dela e em consequência da justiça e do sentimento. É a isso que se rende o espaço público entre as três vias da plebe romana: a trivialidade. Agora sob a capa de construção elaborada.




Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A Deus

O teu caminho, na esquerda do jornalismo, não me inspirava nada de bom ou de elevado. Em plena década de 80, soava-me a revolução retardada, mal arrefecida, aburguesada. Era assim mesmo.
Devagar, sem alarido nem proximidade, pudeste explicar-me, sem saber que estavas a falar comigo, que se pode chegar de vários ângulos ao mesmo ponto: à procura da realidade, como é, de cada vez. Pudeste dizer-me, ao ritmo de cada artigo ou comentário televisivo, que «todo o ponto de vista é a vista de um ponto», como diz Leonardo Boff. Fazias essa demonstração suavemente, com simpatia, quase sem querer ferir o contraponto.
Cheguei a fazer o exercício: como é que ele vai justificar a vitória inequívoca das Autárquicas de 2001? A saída de Guterres ou, o que foi mais difícil, o final esperado do XVI Governo Constitucional, em Novembro de 2004?
Seguia, atenta, a tua argumentação. Mais equilibrada do que habilidosa, mais honesta do que facciosa, mais inteira do que parcial. Sinto falta disso. Antes de ser preciso. Porque és preciso.

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

O enjoado lúdico









Todas as idades trazem tipos, espécimes zoológicos, que as caracterizam. É raro que sejam muito originais, apenas se demarcam mais ou menos em épocas diversas. Um dos espécimes típicos da nossa época é exactamente o enjoado lúdico.

O enjoado lúdico reconhece-se pela filosofia que enuncia sobre si mesmo, mas mais ainda pelos sintomas que apresenta e pelas causas que estão por detrás desses sintomas.

A sua ideologia é de que nada existe de digno, absoluto, e quando muito lhe interessa o seu pequeno jardim de Cândido. Por isso, sempre que alguém lhe refere a existência de valores, coisas valiosas, dotadas de grandeza, sorri e ataca a sua valia.

Se essa é a sua enunciação do mundo, bem mais importantes são os sintomas que apresenta. A sua fácies mostra um profundo enjoo perante o mundo. Não contesta, não argumenta.

A sua postura é a de quem está cansado de argumentar e contestar, o que diz mais sobre a sua falta de energia que sobre a valia da discussão que se poderia travar. Encontra-se permanentemente fatigado, e qualquer referência a ideais, missões, ou objectivos suscita-lhe um esgar de enjoo.

Fadiga, enjoo, ataque, são os seus sintomas essenciais. Juntemos-lhes um quarto: o lado lúdico. Perante a discussão séria, o tema nobre, assume atitude de bobo da corte, brinca, quer à viva força demonstrar que nada disso tem importância. É nisso que gasta a sua energia vital: na demonstração da irrelevância.

Falta-nos um quinto sintoma, que o enjoado lúdico nunca confessaria, que lhe vai no fundo da alma: o dogmatismo. A sua forma de ataque revela a sua natureza profundamente fanática. As frases que utiliza são sempre definitivas, cortantes, irrevogáveis: não há obras de arte maiores, a Europa morreu, não há motivos nobres, nada é genial ou tudo o é (o que dá no mesmo) só para dar alguns exemplos. O que visa é cortar a discussão, mostrar a sua irrelevância.

Se bem virmos estes cinco sintomas estão mutuamente ligados. Fadiga, enjoo, ataque, lúdico, dogmatismo são apenas várias faces de uma mesma figura. Mas para a percebermos termos de ir às suas causas.

O seu paradigma é o Cândido de Voltaire, que de tanto se rir dos motivos nobres acaba por ficar à dimensão do seu jardim. A História do iluminismo dito crítico (que pouco teve disso, salvo na Alemanha) mostra que resulta sempre na amargura e na misantropia. Chamfort é o melhor exemplo disso, mas muitos outros poderiam ser dados. Ou na idolatria histérica, como a religião da deusa razão de Robespierre o mostra.

Qual o percurso que cria um divertido lúdico? Sem dúvida trata-se de pessoas com algum grau de inteligência. Não são igualmente destituídos de curiosidade. Estudaram. Mas, confrontados com a genialidade e a grandeza não foram capazes de seguir percurso criativo. Fenece-lhes a potência para o fazer. Seja a energia vital, seja a dose suplementar de inteligência, seja a capacidade de perseverança na aprendizagem. O seu percurso ficou a meio. Por isso é natural que pretendam que as vidas fiquem a meio, inacabadas.

Em boa verdade trata-se de mais uma figura nascida do ressentimento. Mais uma entre tantas outras. A sua diferença específica surge do facto de não serem totalmente destituídos, ao contrário do medíocre. O problema é que a vida não se basta com uma pequena dose suplementar de lucidez. Esta apenas envenena a vida quando não é bastante.

A sua vida é por isso permanentemente envenenada pelo confronto com a grandeza que tem altura bastante para ver, mas não a que baste para emular. Não são capazes de canalizar a energia para uma finalidade e por isso a própria ideia de finalidade os assusta.

Explica-se assim tanto a enunciação da sua ideologia, como os sintomas que apresentam. Se nada tem importância, salvo o seu jardim, é porque tentaram dar um salto fora dele e apenas tropeçaram. Sentem-se cansados apenas porque não perceberam terem tentado dar caminhadas superiores às suas forças. Estão enjoados porque a vida deu-lhes as tonturas de promessas grandes, mas descobrem para seu desagrado que há promessas bem maiores. Atacam, porque sentem que toda a grandeza é ameaça ao seu pequeno jardim. O que dizem ser uma escolha é apenas uma falta de alternativa. São grandes no seu jardim, só nele o podem ser.

O seu lado lúdico apenas resulta de uma imensa tristeza de não poderem ser maiores. Por isso desmerecem o resto, é a forma de dar dimensão ao seu pequeno jardim. Se é verdade que este não tem grande importância, afinal nada tem, e por isso não é grave. Fazem-se palhaços da sua própria doença, assistidos em hospitais da sua imaginação. E como é típico do palhaço, caem no dogmatismo. O bobo da corte critica todos e não admite críticas. Sabe-se diminuto perante os grandes, mas a sua consolação é o seu estatuto. É a sua menor dimensão que o imuniza. São ciosos dele como se de privilégio aristocrático se tratasse.

É certo que é figura triste, mas a nossa época tem muitas outras. No seu caso apenas lamento que não sejam mais bem aproveitados. Seriam muito bons servidores de senhores mais altos se fossem mais bem-educados. A sua forma de redenção é a de serem cortesãos. Mas para isso carecem de senhores maiores.




Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 19 de julho de 2010

STABAT Mater







STABAT Mater dolorosa
iuxta Crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.

Quando medimos a grandeza de uma civilização temos de medir aos sues picos mais altos, mas igualmente a sua capacidade de reelaborar os dados de base. Que um evento do séc. I contado nesse mesmo século e no século seguinte dê uma poesia no século XIII, inspire uma música no século XVIII e audições no XXI é-nos tão trivial que esquecemos o que este mecanismo de transmissão tem tudo menos de evidente.

Que Pergolesi se tivesse deixado inspirar por este hino não é de espantar, se tivermos em conta a sua beleza. Que esta se tenha preservado numa cultura tantos séculos, viva o suficiente para meio milénio depois de ser feito ainda tocasse um músico, é que é de espantar.

O primeiro elemento, muito esquecido, é o da permanência da literatura em língua latina por mais de 1000 anos após a tão batida queda do império romano. Quando e diz que a língua latina é morta cada um sabe se fala da sua. Viva o bastante para inspirar obras-primas na musica.

Mas viva o suficiente para inspirar obras-primas na literatura também. Quando se fala na novidade do realismo como movimento, tendemos a esquecer-nos de que os seus instrumentos são seculares.

Stabat. Em bom latim dir-se-ia “erat”. E de boa forma se traduziria por “estava”. Mas em latim “stabat” tem um significado mais preciso, que um autor de poesia latina não ignorava. Não foi por isso por evolução semântica que teria usado um verbo incorrectamente. Sabia bem que verbo estava a usar: “stare” significa estar de pé, firme, assente, sólido. O seu parentesco com estável, estaca é evidente. De quem se fala estava bem ancorada no solo, firme, plenamente segura do que fazia, o seu corpo obedecia-lhe, não fraquejava exteriormente.

E quem estava? Uma “mater”. Não que as religiões não tivessem já falado de mães de deuses, ou do sofrimento de Cibele, nem a tristeza que invadia quem perdia os seus nas histórias divinas. Mas é de uma mãe concreta que se trata. Uma e só uma. Aquela, aquela que efectivamente viveu o que viveu, e por isso única, e exemplo para as outras.

Dolorosa. É um dos lugares comuns falar-se do dolorismo do cristianismo, e sobretudo do catolicismo. Uma civilização que criou oi Carnaval, o gótico e o barroco está bem longe de ser dolorista. A síntese histórica em mão de cavador é natural que cheire a grão de terra. Em vez de os terem nas mãos têm-no nos pés. Por isso é natural que análise pareça sempre feita com os pés. Dolorosa porque a vida na sua intensidade máxima tem também momentos de dor profunda, insuportável. Nada é esquecido, nada é poupado a uma vida plena. É sabido que o dogma da assunção, que Jugie analisou com grande profundidade e beleza é neutro em relação à morte de Maria. Não se pronuncia sobre ela. Por isso e morte de compaixão à frente da cruz é aceite por muita teologia. Sofrer pelo outro ao ponto de ter morte na alma é expressão de diferenciação sentimental bem maior que o da ataraxia estóica. Não se foge à vida. Deixa-se-a fluir plenamente em nós.

Uxta crucem. Onde está esta Mãe? Ao pé da cruz. É natural que não dê pulos de contentamento. É natural que não seja esse o momento de bodas ou alegria. Não padeceu da cruz directamente, mas da forma indirecta mais profunda. É a tese da com-paixão de Nossa Senhora, que muitos teólogos entenderam como o martírio de Maria, o seu verdadeiro martírio e não um legendário que gerasse a sua morte. Co-redemptora em com-paixão.

Lacrimosa. E eis que chora. Não é uma mãe de plástico. Toda divertida por saber que o seu Filho afinal vai estar bem. Ao contrário das crenças muçulmanas, que vem de algumas heresias gnóstica, acreditando que na cruz apenas estava um simulacro de homem, estava um homem pleno na cruz. E em vez de uma impassibilidade estóica, que poderia ser a única fundante da civilização cristã, entra em jogo pela primeira vez, e de forma nobilitada, uma expressão essencial do sentimento humano: a lágrima.

Dum pendebat. Não é em qualquer momento que esta mãe é vista. É num momento concreto. Enquanto alguém pendia na cruz. Na perspectiva do eu poético somos obrigada a vê-la enquanto ela vê alguém. Sob o ponto de vista da criação de situações, esta mostra arte bem complexa. Não é para o crucificado que olhamos, mas para a mãe, que por sua vez vê alguém. Somos obrigados a focar a nossa atenção, como num filme, para uma só pessoa, para percebermos indirectamente a sua situação. Não se olha para o crucificado, mas para quem O olha.

Filius. Não é qualquer um que está a ser visto pela mãe. É o seu próprio Filho. E eis que a coisa se revela em toda a sua veracidade e pertinência. Que houvesse relações filiais parte de histórias divinas já se sabia. Que estas se passassem na terra, também temos muitos exemplos na mitologia. Que o sentimento da Mãe que perde o Filho seja presente, também se sabia. Cidipe chora pelos seus filhos, presume-se. Não são apenas deusas que o fazem. Mas que duas pessoas humanas, plenamente humanas vivam a mais humana e terrível das situações, e que seja essa humanidade a revelar o plano divino para o mundo, essa é a novidade.

A poesia neolatina não é um conjunto de artificialidades de corte. Que o Império Romano tenha acabado com data certa e encerramento de contas é mito constitutivo da Europa, mas em boa verdade mito. Com tudo o que isso tem de pertinente, mas de falseador também. Não é por vontade de erudição que se verte em latim um dos momentos mais relevantes da História da humanidade. Procura-se a universalidade? É bem provável. Procura-se a língua sagrada? Admitamo-lo. Mas encontra-se sobretudo o que é a língua natural da vida intensa, bem mais que o vernáculo na época. Não é por necessidade tabular que se latiniza. É por inevitabilidade vital. Latim, Idade Média e cristianismo apenas são realidades menores para quem não as viu. O turista distraído prefere o sorvete tanto ao pequeno episódio que se passa à sua frente quanto ao grande monumento que o constituiu. O maior e o mais pequeno são-lhe estranhos. Apenas vive com base no directo, o imediato, o mediano. Que um facto tão irrelevante (Tibério soube algum dia desta crucifixão?) seja afinal o mais importante é categoria estranha para o turista. Mas para ele é sempre estranho o que é relevante.



http://www.youtube.com/watch?v=mNt13Vw-K6Q
http://www.preces-latinae.org/thesaurus/BVM/SMDolorosa.html
http://www.stabatmater.info/
http://www.lastfm.com.br/music/Giovanni+Battista+Pergolesi/_/Stabat+mater+dolorosa
http://www.wf-f.org/Sorrows.html
http://campus.udayton.edu/mary/resources/poetry/stbmat.html


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 16 de julho de 2010

O pavor estéril do PSD


Ontem António Barreto e José Miguel Júdice indignaram-se por o líder da Oposição do PSD raras vezes ter lugar na Assembleia da República (SIC-Notícias com Mário Cresco).
Na verdade, alguns líderes do PSD não têm humildade democrática nem sentido de Estado para, antes das eleições, incluírem no futuro arco parlamentar os rivais que lhes podem suceder no caso de perderem as eleições. Constroem bancadas, supostamente sólidas, fiéis e monocromáticas. Sem futuro.
Em 85, Cavaco não inclui Salgueiro, com quem se batera na Figueira da Foz. Em 87 e 91, o peso do cavaquistão inibiu alternativas e purgas. Nogueira inclui muitos em 95, mas não se terá lembrado de Marcelo que parecia fora de órbita mas conquistaria o PSD, sem voz própria na bancada. A história de Guterres poderia ter sido diferente com aquele rival parlamentar.
Em 99, Durão não se demite perdendo as eleições e fica com verbo em São Bento. Em 2002, não incluiu Santana ocupado com a Câmara de Lisboa. Santana inclui Marques Mendes em 2005. Meneses - também incluído por Santana - prefere a Câmara de Gaia ficando parlamentarmente afónico durante a liderança do PSD. Manuela Ferreira Leite exclui Passos Coelho em 2009.
Conclusão: houve apenas uma sequência de líderes adversários com voz no Parlamento: Santana Lopes - Marques Mendes.
Se o Povo diz que a sorte protege os audazes é caso para dizer que o medo não tem protegido o PSD.

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terça-feira, 13 de julho de 2010

SERMÃO AOS INTELECTUAIS

Quem anda sempre atrás dos bons sentimentos deixa ficar para trás os seus.

Não há temas inteligentes, mas formas inteligentes de os estudar e exprimir.

A revolta de quem está sentado numa cadeira é sempre mais fácil que a concessão de quem enfrenta a luta.

Criticar o poder e estabelecer máximas de governação é de quem sendo impotente pretende definir o prazer dos outros.

Não acredito nos que defendem a liberdade com uma voz tão alta que não deixam os outros falar.

Só pode mostrar a indignação quem pretende pagar o serviço ou o sabe prestar.

Não desprezes os técnicos por ignorarem o que tu sabes, pois sabem eles fazer o que tu não fazes.

Invocar a humildade é bem pior que mostrar a arrogância. O segundo é parvo, o primeiro é perigoso.

Não grites tanto que não te ouves pensar.

Estranho sentimento de revolta que não afecta a digestão.

Tanto idolatras a intranscendência que ela te vence.

Criticas o burguês. Mostra primeiro a tua árvore genealógica. Se tiveres sangue real a correr-te nas veias duvido que o faças.

Não confundas as tuas indisposições com a lucidez.

Quem suspira por ideias corre o risco de não o fazer por pessoas. Quem não o faz corre o risco de não as entender.

Quem diz que ninguém o influenciou ou é ignorante ou destituído. Porque só ignorando ou não percebendo se pode ser insensível às obras-primas do passado.

Os teus dois maiores inimigos são o cansaço e a estupidez. Muitas vezes o que escreves vê-se que resulta da falta de férias. O segundo vício, no entanto, não se corrige com a posição horizontal.

Os que fazem alarde de serem responsáveis pelos outros são muitas vezes os menos responsáveis com a própria vida. Querer olhar apenas para as multidões, os grandes espaços, ou a humanidade em geral é sinal de desejo de afastamento, mais que de comunhão. Quem não verte uma lágrima pelo próximo aconchega-se na melhor das hipóteses com abstracções de justiça social.

Andam muito esquecidos aqueles que criticam a futilidade. Nada há de mais fútil que a criação cultural. É por isso necessária.

A tua adesão a um movimento político só o prestigia aos olhos de quem não percebe que nele apenas serás útil se tiveres competência política.

Opinar sobre as sortes do mundo ou abster-te de o fazer é algo que deverias ter a coragem de fazer como pessoa e não como intelectual.

Sempre que apoiares uma guerra arrisca primeiro o teu sangue. Sempre que a condenares compensa quem perde com a sua ausência. Não o fazendo tens direito à palavra ou ao silêncio. Mas como qualquer vendedor ambulante o faria numa conversa transeunte.

Se não tens fome de absoluto, pouco te dá saciedade. Se apenas falas nele confundes o tema com a pertinência.


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 9 de julho de 2010

A liberdade vai passar por aqui


«Havana vai libertar 52 presos políticos» anunciou esta semana a TSF. Raul Castro cede assim, finalmente, aos pedidos da Igreja Católica na «mais formosa das ilhas», como lhe chamou Colombo.
Poucas notícias internacionais me deixaríam mais satisfeita. Conheci a situação da oposição cubana a Fidel Castro no início dos anos 90. Tinha recolhido no escritório de Madrid do exilado Carlos Alberto Montaner a lista destes políticos para entrar em Cuba como turista acidental. Levava uma mala cheia de literatura anti-Castro que Montaner me pedira para entregar a Elizardo Sanches.
Para além do emblemático Elizardo que, sob a defesa dos Direitos Humanos, se mantinha fora do cárcere na ilha, falei com uma série de gente valente que tentava o impossível para manter acesas a chama da liberdade interior e a esperança da liberdade pública.
Foram três semanas surrealistas. Evito os nomes porque desconheço a situação actual destes cubanos. Lembro a poetisa com grades nas janelas e nas portas para evitar a delinquência política diária dos jovens da revolução. Não esqueço o homem de meia-idade que, nos subúrbios de Havana, me passou apressadamente um molhe de papéis manuscritos com os seus pensamentos e denúncias. Já era perto das dez da noite e atravessávamos uma pequena mata entre a sua casa e a paragem do autocarro que me traria à cidade. Tirou então os papéis de dentro da camisa e falou muito depressa. Ali sabia que não tinha microfones.
Recordo ainda o tristíssimo encontro com um velho opositor de Castro, num terceiro ou quarto andar, com escada suja e vigiada. A casa parecia uma cela. Com guarda, colchão no chão e pouco mais. Mas a verdadeira prisão estava dentro deste homem de barbas brancas. Ao fim de alguns anos, não resistiu ao cárcere, denunciou os amigos e pôde sair. Vivia assim atormentado pela traição, pela fúria das familias dos presos seguintes e pela amargura de um sacrifício em vão. Estava preso na ilha. E não pertencia a ninguém. Para não ser tão trágica, também me lembro de um actor de aparente sucesso que estava revoltado com Fidel alegadamente porque este lhe prometera uma bicicleta mas, por causa uma pequena liberdade de verbo, perdera o direito de a receber... Vá-se lá saber se é verdade. Este não estava na lista de Montaner.
Muitos já estão no exílio. Outros na prisão. Podem ter sido denunciados em troca de uma lata de carne, de um par de calças de ganga ou da manutenção de um posto de trabalho.
O único espaço de liberdade ficava dentro das igrejas onde Fidel Castro, reconhecido pelo papel de assistência social dos católicos num país órfão dos dinheiros soviéticos, permitia maiores liberdades de culto. Ali se trocavam documentos. Ali se procurava a ponte com o exterior. De ali partiram vozes que chegaram ao Vaticano. E que chegaram da Santa Sé, em discurso directo, na histórica viagem de João Paulo II em Janeiro de 1998 quando o Papa exortou: «Que o Mundo se abra a Cuba e que Cuba se abra ao Mundo!». Não conseguiu o fim do embargo, ponto de honra de americanos e de alguns cubanos radicais de Miami. Penso que a única vitória imediata foi mesmo a de transformar o dia de Natal, finalmente, em dia feriado. Ou talvez não. A mesma semente de liberdade dá hoje frutos em Havana com a libertação de 52 presos, como dará amanhã na Venezuela de Chavez.

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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Só visto.


Em boa hora a Cinemateca Portuguesa, na secção «Abrir os Cofres» fez passar, há dias ao fim da tarde, uma série de doze filmes inéditos, do período de 1902 a 1932. Lá estava Rui Ramos para os comentar e enquadrar políticamente com a capacidade de se surpreender que só os melhores historiadores mantém pura. «Foi como se, de repente, estivesse a ver o Ramsés II a mexer-se e a andar de um lado para o outro. Lá estavam todos, vivos, o Rei, o Hindze Ribeiro, o José Maria de Alpoim, que aqui segue o cortejo mas sabemos que os haveria de trair, os revolucionários nas calmas...», dizia, animado com a descoberta.
No anfiteatro da Cinemateca, à cunha, adivinhavam-se monárquicos, intelectuais ligados ao cinema de arquivo e republicanos. Foi divertido «assistir à assistência» ao longo daqueles 40' de pequenos filmes, quase todos tornados cómicos pelos protagonistas na época e pelos espectadores 100 anos depois. A normal contenção «democratico-cerimoniosa» do público cedeu cada vez que a fita desautorizou a versão histórica do século republicano.
Ver os heróis de Chaves (que esmagaram uma incursão monárquica) levarem tabefes do instrutor que lhes endireitava o boné e os reprimia pelo estado em que tinham a arma, foi uma delícia. Reparar na amabilidade das capturas de monárquicos no campo, filmadas pela propaganda republicana para provar que não havia execuções sumárias e que o inimigo era levado a julgamento, foi outra delícia. Só faltava pôr o figurante a dizer: «Não vale aleijar! Porra, isto é só para o boneco!».
Assistir à sesta dos revolucionários no chão do Rossio, em plenos combates do 5 de Outubro, rodeados de Povo, de mantas e de comida foi revelador da violência da refrega. E a maneira como os bravos soldados da Rotunda se exibiram para a câmara, mortos de riso, em pose de guerra, apontando armas, não para o inimigo, mas para o camaramen que continuava a gravar descansado, foi hilariante.
A assistência da Cinemateca não se conteve. Republicanos e monárquicos riram, sem cuidar das trincheiras tal como os soldados da reportagem. Parabéns à Cinemateca. É para descobrir a História que servem as efemérides. Esperemos que a RTP tenha a mesma abertura e passe estas imagens inéditas.

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terça-feira, 6 de julho de 2010

Inglaterra e Turquia

É bem sabido que a Inglaterra é desde sempre, juntamente com os Estados Unidos, o mais fervoroso adepto da adesão turca à União Europeia. É sabido, e assumido pela Inglaterra, pública, oficial e recorrentemente. A mesma Inglaterra que não quis nunca uma união política e nunca foi criadora da integração europeia.

É bem conhecido o episódio em que a senhora Thatcher (baronesa, corrijo, mas não senhora; a Inglaterra tem isto de maravilhoso, que é o de a manter como low middle class por mais baronizada que tenha sido) quis a adesão imediata de todos os países da Europa central à União Europeia logo a seguir à queda do muro de Berlim. Os interessados desdenharam a oferta porque bem sabem o vale a generosidade de oferecer aquilo que é sobretudo dos outros. As intenções de dissolução da União Europeia num mero mercado são bem conhecidas, e mais uma vez, embora mais discretamente, assumidas.

Que a Inglaterra tenha interesse em impedir o aprofundamento da União, ou melhor que tenha essa vontade, é de seu direito. Cada povo escolhe da sua vida. Posso achar que são pouco lúcidos quanto aos seus próprios interesses, mas não nego a legitimidade de tal decisão.

O que tem de ser analisado é porque razão a Inglaterra tanto quer a adesão turca, o que espera ganhar com ela, e o que efectivamente ganhará.

A Inglaterra não tem um passado de especial ligação à Turquia. A presença francesa e sobretudo alemã na Turquia é bem mais forte. A Turquia deve à Alemanha grande parte do seu Direito, a estruturação do seu exército (e exército e identidade turca estão correlatas desde há quase um século), a modernização tecnológica. A maior comunidade turca no estrangeiro está na Alemanha e daí vem uma das mais preciosas fontes de divisas para a Turquia. A Alemanha é dos principais parceiros económicos da Turquia, senão mesmo o maior. Da França a Turquia recebeu uma certa versão do pensamento laico, ao mesmo tempo que os restantes países turcófonos da Ásia Central, embora sob a forma cesaropapista do “turquificar, islamizar, europeizar”, válida para todo o Turquestão. Se a língua inglesa tem peso na Turquia é por via americana e não britânica. E se tipicamente a Inglaterra é o segundo mercado da exportação da Turquia sob o ponto de vista da importação é pouco representativa.

Porque insiste a Inglaterra então nesta adesão? Porque lhe dá tanta importância? Em primeiro lugar joga um factor de pura mentalidade. A Inglaterra, não menos que os outros países, está formada pela Guerra-fria, que distorceu a auto-imagem da Europa. A imagem da Europa é a da Europa NATO, entidade que nasceu de uma tara, uma divisão artificial da Europa e que, de bom penso, tem acumulado ao longo dos anos o pus da sua malsã origem.

Em segundo lugar porque sabe que, entrando a Turquia, nunca haverá união política. E que qualquer aprofundamento da União será muitíssimo mais difícil. Uma União implica sacrifícios, mesmo que os ganhos de longo prazo os justifiquem. E nem a Turquia quer a União Política, nem as outras populações europeias a quererão caso a Turquia entre. Dissolver aumentando é o moto britânico, e assim pretende fazer também com a adesão turca.

Em terceiro lugar, porque pensa que, sendo paladino da adesão turca, terá na Turquia um fiel aliado. Em quarto, porque não tendo a forte imigração turca ao contrário da Alemanha, pensa que o preço desta imigração incidirá sobretudo na Europa continental e não nas suas fronteiras (recentemente o governo britânico já deu a entender que mesmo em relação à Roménia e à Bulgária não terá a generosidade de regime migratório que mostrou em relação aos restantes novos aderentes, o que não faria com uma adesão turca?). Em quinto, porque pensa que reforçará a dimensão NATO da Europa, aproximando-a mais da sua visão europeia. Finalmente, porque projecta no plano internacional a sua política interna multicultural.
Resta saber se a Inglaterra ganhará alguma coisa a longo prazo com esta adesão, se a sua aposta é ganhadora.

Em primeiro lugar os padrões da Guerra-fria desapareceram. E quando o substrato desaparece a mentalidade pode teimar em inércia de movimento mas vai perdendo cada vez mais a sua base. Pode durar muito mais que o seu fundamento, mas não durará perenemente para além dele. Por isso, uma Europa formada sob os padrões NATO está condenada a desaparecer. Mesmo que se queiram manter artificialmente hostilidades com a Rússia estas são insustentáveis a longo prazo. Mesmo para os que não gostam, a Rússia é um parceiro importante e sê-lo-á cada vez mais. Ou seja, a imagem sob que se baseia a sua decisão é a de um mundo em retrocesso.

Em segundo lugar tem razão que com a adesão turca nunca haverá real aprofundamento da União. O paradoxo britânico é que precisa de uma União estável. Cada vez mais irrelevante para os Estados Unidos pela a sua dimensão e força estratégica a importância do Reino Unido depende cada vez mais da importância da União Europeia. Uma União instável, com fracturas internas, torna a Inglaterra cada vez mais irrelevante como país.

O terceiro aspecto é aposta fraca. Duvidosamente a Turquia poderia ser aliado perene da Inglaterra. É evidente que teriam interesses comuns. Seriam os dois extremos da União, e ambos com interesse em que esta não seja uma união política. Mas a Inglaterra tem interesse numa política social e estrutural pouco custosa: exactamente o oposto dos interesses turcos. Dificilmente se veria a Turquia como paladina do liberalismo económico. A Turquia tem interesse na dimensão militar da Europa, exactamente o oposto do interesse britânico. Além do mais os turcos bem sabem que o apoio britânico não se baseia numa particular simpatia pela Turquia mas numa antipatia pela Europa. E bem conhecem o desprezo britânico pelos turcos (“se Portugal e a Hungria entraram, os turcos podem entrar”, ouvi muitas vezes). Os ingleses não podem esperar gratidão turca. As populações turcas desprezam os ingleses como lacaios dos americanos bem mais que o europeu continental, que sente afinidades de civilização com os britânicos. A Turquia dificilmente teria aliados europeus estáveis, obrigando a Europa a dirigir os seus interesses para o Médio Oriente e para a Ásia central. E se a Inglaterra tem interesses nessa zona o centro de gravidade da Europa ficaria mais a Leste. Seria, pelo menos a longo prazo, o país mais reivindicativo de fundos estruturais, que a Inglaterra não está disposta a dar. Os conflitos financeiros seriam um dos pontos de fractura perene da Inglaterra e a Turquia. Além disso a regra tem sido a de as alianças serem moldáveis. A Turquia estaria mais próxima da França na sua concepção de Estado, da Alemanha na sua dimensão e relações económicas, dos Balcãs na proximidade geográfica, dos países da Europa mediterrânica quanto ao grau de desenvolvimento.

Em quarto lugar, a Inglaterra já não pode contar com a constância dos fluxos migratórios tradicionais. Sendo conhecido como país de mais flexível mercado de trabalho e com menos exigências de integração (apesar das novas leis de imigração terem endurecido, estas não seriam aplicáveis a futuros cidadãos comunitários), a Inglaterra seria um dos pontos principais de chegada das novas imigrações turcas. E numa população que está cada vez mais cansada do modelo multicultural (a Inglaterra dar-nos-á surpresas nesta matéria no futuro), é a própria estabilidade interna que estará em jogo.

Além do mais terá de arbitrar entre alianças cada vez mais contraditórias, entre os países da Europa central e a Turquia. A visão NATO da Europa mostrará aí mais um dos seus campos de falência. Para países em que a experiência multicultural foi a de serem dominados e não dominadores a adesão turca será, não apenas concorrencial sob o ponto de vista dos fundos, mas sobretudo contraditória com o seu sonho de Europa.
E para finalizar, a Turquia retirará importância estratégica à Inglaterra. Sempre que os Estados Unidos quiserem uma Europa mais unida, não é com a Inglaterra que contam. Ford ligou-se a Giscard e Schmidt. Sempre que quiserem desestabilizar a Europa, a Turquia fará bem melhor papel. De boa ou má vontade, o peso da Turquia junto dos Estados Unidos aumentará a expensas da Inglaterra.

Alguns americanos começam a perceber mais depressa que os ingleses o erro da aposta turca. É natural que quem está à frente veja mais coisas. O problema é que se a inversão da política americana nesta matéria, a ocorrer, poderá ser tardia, a da Inglaterra poderá sê-lo de forma desastrosa.

São os ingleses estúpidos e não percebem que esta política lhes é desvantajosa? - Adivinho a pergunta. Duvido. Mas pior que a estupidez é a cegueira e a força de inércia. Os atenienses não eram estúpidos, mas deixaram que a inércia das suas rivalidades abrisse caminho para Filipe. O pior cego é o que não quer ver. Sobretudo numa época em que se quer pôr pedras nas bocas em Demóstenes que delas não carecem.


Alexandre Brandão da Veiga



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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Agora e sempre os espanhóis


As grandes bandeiras de D. Nuno Álvares Pereira que ontem se viram no estádio da Cidade do Cabo evocavam Aljubarrota no jogo de futebol entre Portugal e Espanha. Digam que é ridículo, eu gostei. Os espanhóis ganharam desta vez. Não discuto. Foi golo em off side, foi Ronaldo que passou de líder a liderado, foi a neura de sempre de Queirós, foi Coentão e Eduardo que não podem jogar por 11, foi o fatalismo lusitano depois do esférico (é assim, não é?) penetrar nas redes portuguesas, foi mérito do adversário. Admito, foi mérito do adversário, os nossos fizeram o que puderam pelo seu País e respeito as regras do jogo.
Diferente é o que se passa com o raide da espanhola Telefónica no braço português da PT, no Brasil. Eles querem dois pés nas telecomunicações de uma das maiores economias do Mundo que, pelos últimos boletins, cresce a 9%. As empresas são negócio e existe a livre concorrência. As regras do jogo também são claras mas há outras implicações a considerar: quem fizer tudo pelas regras, pode vender mas estará a fazer tudo contra as outras regras, que não precisam de ser escritas para serem praticadas, as que decorrem da nossa obrigação de defender o interesse de Portugal. Estes são os novos campos de Aljubarrota e todos os outros países os reconhecem e defendem sem pudor nem tibieza.
Tudo depende, por isso, do comportamento de portugueses e espanhóis, vulgo accionistas. E já se vêm os suspeitos do costume a venderem o que têm ou a prometerem vender. Sócrates fez o que pôde para defender a nossa posição. Justiça se faça. A Europa, higienicamente, ditará a sentença contra a golden share do Governo português.
Peço de volta o estandarte do Santo Condestável para mostrar a quem brada no Beato, «Compromisso Portugal!», mas vende os nossos interesses na primeira oportunidade de lucro fácil. Sem visão de lucro sustentado, sem passado, sem honra nem glória. Peço ainda o Tratado de Tordesilhas para lembrar que, naquele Mundo, nos entendemos em português.

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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Poder

O poder é o mais obsceno dos vectores de análise da política hoje em dia. Dizer que se quer poder roça a indecência. O poder é substituído por expressões elípticas e algo frouxas como “necessidades”, “enquadramento geo-estratégico”, “gestão de finalidades”, “estratégia” e outras quejandas. O poder está escondido, vive clandestino. A Europa fala pouco em poder, envergonha-se do que tem, tem medo de o usar e escuda-se nas paráfrases e no silêncio.

Quando se fala pouco de alguma coisa apenas nos valem os instintos, o que em si pode ser uma boa coisa, mas é em geral uma desgraça no espaço público. No mundo partilhado é pela comunicação que se é eficaz, e, convenhamos, a palavra não é dos piores meios de o fazer. O gesto pode ser curto e a arma algo longa demais.

Aprendi a não idolatrar a simplicidade por si mesma, porque em geral esconde deficiência intelectual. Mas a igualmente admirá-la quando nos ajuda a orientar de forma clara por caminhos algo obscuros. Em termos simples, portanto, vejo várias formas de poder. O politico, que se reduz à força simbólica ou física, o económico, o cultural e o social.

O paradoxo que vivemos é que verificando cada uma das dimensões do poder, rapidamente chegaríamos à conclusão que a Europa tem todas as condições para ser, a larga distância, o maior de todos. O maior PIB do mundo, uma economia que tem uma tripla possibilidade de crescimento: a comum, pelo crescimento da economia, o crescimento pelo desenvolvimento dos países periféricos que a integram (um dos maiores sucessos da integração europeia) e o crescimento pela adesão de novos países. Quase meio bilião de pessoas, sendo o terceiro maior agregado populacional do mundo. E não meio bilião de chineses, mas meio bilião de europeus, incomparavelmente mais cultos criativos e desenvolvidos. O sétimo maior país do mundo em dimensão, com três milhões e meio de quilómetros quadrados que não são Sahará nem Sahel. E uma potencialidade de expansão geográfica imensa por todo o verdadeiro território europeu (que irrompe na Rússia e não em janízaras paragens).

Esta auto-imagem de impotência daquela que é potencialmente a região mais poderosa do mundo, e é-o já actualmente em muitos aspectos, é das situações mais caricatas que a História já viu, não fora a tristeza de um espaço público desértico como o Sahará explicar esta desolação. Porque este horror ao poder, qual a necessidade de ter poder?
O ser humano teve sempre esta desagradável tendência de não fazer aquilo que nós queremos que ele faça. Por isso ou lhe forçamos a alma, ou lhe forçamos o corpo. Mas para quê este vício de queremos impor a nossa vontade aos outros? Bom, desde logo, porque existem outros que tem esse vício e pode-se dar o caso de a sua vontade não nos agradar. Dá-se o caso igualmente de termos interesses ou valores que seriam violados caso tivéssemos de obedecer a vontades alheias. Em último, mas não menos importante, lugar, porque impor a nossa vontade aos outros pode ser muitas vezes a única forma de podermos ter vontade própria.
A vida mostra-se pelo poder, alimenta-se do poder, molda-se pelo poder. O que um animal ou uma planta podem fazer é limite para o que efectivamente fazem. Quem não quer ter poder nenhum nada quer fazer. A inacção, a passividade delimita-o. O horror ao poder é igualmente horror à vida.

É evidente que o exercício e o crescimento do poder implicam risco. Daí que vejamos os bem-pensantes fazer o ar de mais compungida obstipação (é o que de mais próximo vêem como sendo inteligência) dizendo que temos de ser ponderados, que temos de ter consciência das nossas modestas dimensões. Julgam-se realistas, mas em suma são apenas limitados.
A verdade é que se espalhou um pudor em relação ao poder que me parece doentio. A palavra é omitida, a realidade é evitada. Mas desemboca com frequência no ódio a tudo o que cheire a poder. Só que a parte inconveniente desta postura é que o poder é sempre sinal de vida e é ele que abre as possibilidades. Um país fraco decide pouco, escolhe pouco para o seu futuro. Trabalha em margens de manobra que são definidas por outros. O facto de, não apenas se aceitar este destino para a Europa, mas se querer esse mesmo destino, mostra tão-somente um ódio à possibilidade, à abertura, em suma, à vida. Odiar o poder, todo ele, é sempre sintoma suicidário, tanto quanto o idolatrar.

Mas odiar o poder é igualmente odiar a liberdade, porque o poder é sempre a condição empírica da liberdade. Salvo se pretendermos colocar a Europa em levitação ou em perpétuo orgasmo místico como Santa Teresa de Ávila (estado difícil de atingir para todo um continente e igualmente difícil de manter, se tal fosse possível) não há liberdade empírica sem poder. O paradigma do cauteloso, do ponderado oficial, do pretensamente realista, é assim o orgasmo místico. Julga que não precisa de trabalhar para o poder porque tem o seu jardinzinho interior. Mas como não tem a graça divina pura e simplesmente é destituído de graça.

Um das vertentes desta triste postura é uma ideologia de fonte anglo-americana que vê a Europa como a grande soft power por oposição aos Estados Unidos, que seria o hard power. A expressão tem o requinte imagético de um amolador de facas de cozinha, mas atrevamo-nos a traduzi-la. Soft power: potência mole. Será eventualmente ideia excitante para alguns, e o ponto máximo de excitação que pretendem encontrar na vida, mas temo bem que mais uma vez seja desiderato de impotentes.

Nunca tal me havia passado pela cabeça mas temo bem que tenha alguma lógica. Todos os realistas tendem para o cristianismo e para o dogma como se vê com os tomistas e fenomenologistas primeiros da escola de Husserl, por exemplo. Compreende-se que assim seja na perspectiva da ontologia. O cristão, pelo menos os ortodoxos ocidentais e orientais, tem de aceitar a presença real na hóstia. E sob o ponto de vista metodológico o facto de se ir à procura das coisas, como Husserl gostava de dizer, levou os seus discípulos a converter-se ao cristianismo, por razões que se começam a tornar cada vez mais transparentes, e mesmo a formar uma mártir como Edith Stein.

Já os idealistas tendem a estabelecer fontes autónomas de legitimidade. A Renascença colocou ao lado do cristianismo ideias pagãs no mesmo plano, de um só golpe enriquecendo o cristianismo e enfraquecendo o seu monopólio. O curioso é que percebi até que ponto na nossa época impera o idealismo. A nossa época é idealista na perspectiva da ontologia. E fica-lhe muito mal. Porque o idealismo em coração aristocrático cai bem e em bolsa burguesa cheira a grosseria.

Renunciar ao poder é renunciar à realidade. Odiá-lo é odiá-la. Negá-lo é negá-la. A realidade, da velha e banal raiz “res”, coisa, só pode ser agida através do poder. Bastar-se com um poder mole é querer ter um contacto mole com a realidade, com as coisas. Recusar ter poder, recusar falar sobre ele, é recusar a possibilidade de agir sobre a realidade. Um discurso que se instala na Europa contra a realidade, em nome de um idealismo de taberneiro, em que o mundo ideal impera, apelando apenas para o Direito, vagos valores nunca ou mal enunciados (a liberdade, a tolerância, etc.), é profundamente anti-pragmático e consequentemente amoral. A consequência é a inacção e o fatalismo. O mundo que nos rodeia é constituído por um conjunto de inevitabilidades. Que se nos impõem. É inevitável o declínio demográfico da Europa, a invasão migratória, o capitalismo selvagem, a adesão da Turquia, a decadência da Europa perante a Ásia, a dominação americana. O mundo das inevitabilidades é um mundo sem intensidade, sem suco vital, sem liberdade, e em suma sem importância.

O idealismo imperante que nega o poder e o considera obsceno é no fundo um mundo da desconsideração, do desprezo pela realidade. E tendo a realidade pessoas, e sendo elas o seu mais importante foco, é em boa verdade um mundo de desprezo pelo ser humano. Larvas enfiadas em casulos, acham a borboleta ridícula e efémera mas esquecem-se de outras vidas bem mais garridas a que o seu estatuto nem permite aspirar. E numa Europa que silencia o discurso do poder, apenas os instintos o dirigem, sem lugar para o adoçamento pela razão. O que se segue é previsível. É o que acontece sempre que prevalecem os instintos no espaço comum.


Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 22 de junho de 2010

A utopia, a festa e a parvoíce


Estive recentemente em Paris, Marselha e Aix en Provence e, nos três destinos, deparei-me com o uso da bicicleta como transporte municipal. Basta um pequeno cartão (a primeira meia hora é grátis favorecendo a rotatividade), parques com bicicletas nas esquinas mais frequentadas, uma rede de ciclovias, faixas de autocarro à disposição e pode dizer-se que a utopia funciona.
Erro. Funciona em Paris e em Aix.
Os planíssimos e longos quarteirões de Lutécia tornam-se percorríveis com a agradável sensação de liberdade, cabeça ao vento, cenários e luzes sem filtros de vidro. Dia e noite, a cidade revela-se, magnífica e próxima. Dá-nos um sentimento de pertença. Transporta-nos para um filme idílico do qual somos protagonistas sem esforço.
Em Aix en Provence, é menor o contraste. As ruinhas e praças com fontes da capital medieval do Sul de França, muitas sem acesso de carros, tornam este transporte numa solução natural, antiga, retomada, sem novidade. As distâncias são muito curtas e o expediente do cartãozinho parece desnecessário. Mas também se repete a agradável sensação de pertença e sossego de pernas.
Mas em Marselha, bastam os ligeiros declives que emergem do porto e do centro da cidade para tropeçar, em cada esquina, naquele investimento paralisado. Já não falo na subida à Igreja de Notre Dame, também cidade, ou no passeio pela marginal a que chamam Corniche. É claro que lá andam alguns furiosos do pedal, com capacete, licras, costas vergadas ao volante e ao suor. Mas não é nada disso que nós, mortais com alegria de viver, queremos para as nossas vidas.
Moral da História: Lisboa é ainda mais acidentada do que Marselha. Deixou-se forrar por quilómetros de ciclovias socialistas que prometem maranhar pelas sete colinas. Deixem-se ficar pelo rio e pelas Avenidas do século XX. O resto é impenetrável. Diz-me quem sabe que se pode estudar um sistema complementar de bicicletas e transportes públicos aplicado em cidades acidentadas do Norte europeu. Não vejo quais, não vejo como.
(PS: Soube entretanto que estas comodíssimas bicicletas são construídas no Norte de Portugal)

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