terça-feira, 17 de agosto de 2010

Algarve: um novo mundo pede novas palavras


«Limpa, a luz recorta promontórios e rochedos. É tudo igual a um sonho extremamente lúcido e acordado. Sem dúvida um novo mundo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como o chão».

Sophia de Mello Breyner Andersen, Livro Sexto, 1962

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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Patriarcado judaico-cristão?








A expressão é tão pretensiosa que até me custa comentá-la. Mas o que anda no ar de tempo, como as poeiras e os cheiros menos desejáveis, faz parte do nosso ambiente e carece que dele curemos.

O argumento, que foi aduzido por um artista meu conhecido, é o seguinte: a civilização judaico-cristã institui o Deus único, patriarcal e consagra a monogamia, tudo isto artificial. Esta sequência de palavras – pouco mais é que isso, já a ouvi tantas vezes, e no entanto parece-me ser pouco mais que uma sequência de palavras –, esconde muitas confusões numa aparente clareza. Há ordem numa fileira de formigas. Mas esta fiada de palavras mostra que pouco se leu, e mal.

Quanto à idioteira que é o conceito de civilização judaico-cristã já disse o que tinha a dizer. Conceito tendencioso, nada científico, sem nenhuma função explicativa.

Associar o Deus único a esta civilização em exclusivo ou dando-a como fonte única deste Deus único é no mínimo temerário. Porque há que distinguir três realidades diversas. Uma coisa é o monoteísmo: só há um Deus, o resto são falsos deuses, demónios, ou inexistentes. Outra o henoteísmo: existindo ou não vários deuses, apenas se adora um. Uma terceira é o sistema de avatares em monopólio, à falta de melhor expressão.

O monoteísmo encontra-se na dogmática oficial do cristianismo, do judaísmo pelo menos a partir de certo momento e no Islão. O henoteísmo existiu entre os judeus até ao cativeiro da Babilónia (mas é sempre artificial dizer algo sobre isso), ou até Moisés (quem saberá dar uma resposta unívoca a esta questão?). O sistema de avatares em monopólio encontra-se em certos temas dos Vedas (o Bhraman é uno, é tudo, etc.), entre os gregos e romanos (que falam em Deus no singular, apesar de referirem a vários deuses), ou eventualmente o Diaus Piter dos indo-europeus. Avatares porque se reconhece que os vários deuses são manifestações de um único divino, e em monopólio porque o divino é único. Quem efeito, podem existir avatares em politeísmo puro.

É evidente que um especialista em História das religiões teria mil objecções a colocar à minha classificação e dar-lhe-ei razão. As combinações são infinitamente mais complexas. Por outro lado, há que distinguir as enunciações filosóficas, as teológicas e os sentimentos populares colectivos e individuais na matéria. Há que distinguir os discursos, das prácticas e das crenças. Para muitos, por exemplo, a ortodoxia cristã (ocidental e oriental) ou certas versões do Islão (xiitas, karedhjitas) seriam parte de um sistema de avatares em monopólio. Há de tudo, as épocas teriam igualmente de ser diferenciadas.

Paro por aqui. O que interessa é mostrar o seguinte: Deus único e civilização judaico-cristã não são ligação evidente, de causa e efeito, exclusiva.

Já quanto ao patriarcado a questão é outra. Este tipo de afirmações parece dar entender que foi a tal da judaico-cristã que inventou essa coisa fétida que é o patriarcado. O problema é que ele se encontra entre os semitas (sabe Deus como o Islão é tradicionalmente muito mais patriarcal que o cristianismo), entre os chineses, os japoneses, os indianos. As mulheres tiveram o azar de quase todas as culturas serem patriarcais, salvo alguns espaços da Ásia e, paradoxo para os ignaros, a Velha Europa pré-indo-europeia. Em que graus, de que modo, é questão que é especulação querer descrever em pormenor.

O que interessa, para os efeitos que ora importam é o seguinte: patriarcado e judaico-cristianismo não estão em relação de causa e efeito. O cristianismo conquistou um espaço que era já ele patriarcal, seja indo-europeu, seja semita.

E eis que aparece a monogamia, que é antinatural. À monogamia opõe-se a poligamia. A verdade é que num sistema patriarcal a poligamia é sempre poliginia, ou seja, um homem pode ter várias mulheres, mas uma mulher não pode ter vários homens. Num mundo patriarcal a monogamia é protecção das mulheres, como o seria num mundo matriarcal a protecção dos homens. Que a monogamia tenha resultado de um papel fundamental do cristianismo, concordo. Como a liberdade de consentimento para o casamento, como forma de protecção da liberdade das mulheres. Mas não creio que o cristianismo se tenha de envergonhar de ter mantido estas duas conquistas para as mulheres: não terem de ser uma entre muitas, e de serem livres (dentro dos limites de uma sociedade que nunca sendo perfeitamente cristã, não tinha agrado nesta liberdade) para se unir a um homem ou não.

Nova questão é a de saber se isto é natural. Admitamos que não o seja (o que é natural sabe Deus o que seja). Também é antinatural que o forte não possa espancar o fraco, nomeadamente que se proíba a eugenia, o genocídio, a carnificina. Afinal, a grande maioria das culturas praticaram alegremente estes feitos sem problemas de consciência. Se o critério da nossa acção for apenas a natureza (resta saber qual, e quem base em que critérios forjados se constrói), talvez quem for detido de menos força possa sair prejudicado.

Após este percurso rápido, dir-se-á mesmo apressado, pelas falácias desta ideia tão espalhada, desçamos à política, e vejamos que tipo de efeitos tem sobre ela.

O discurso oficial é o dos direitos do homem, do sentimento lacrimejante pelas desgraças do mundo. Mas ao mesmo tempo minam-se todos os fundamentos que sustentam esse discurso lacrimejante e sentimental. Mina-se a sua fonte, o cristianismo, mina-se a noção de limites, a noção de condições para a acção. Parece que veio daí um bicho chamado civilização judaico-cristã só para nos impedir de gozar um pouco nesta vida. Além de isto ser uma visão algo pateta do que é o cristianismo mostra um proletariado recém-chegado à cultura que se sente incomodo pelos limites que se lhe apresentam.

Na política gera uma raça de gentes que abomina limites e por isso tanto mais tende a fazer discursos sobre o sofrimento alheio. Abomina que a sua vontade seja contraída, que os seus apetites sejam contidos e por compensação mais se sente no dever de proclamar os seus sentimentos. Daí que possamos estabelecer uma regra prática: quanto mais se vê alguém proclamar quanto chora, maior deve ser a nossa desconfiança. Apenas espreita uma boa oportunidade para ultrapassar limites que identifica como servidão e não como serviço. Descendente de escravos, as fronteiras não são marcas do seu domínio, mas entraves à sua acção. Pisa-as porque para ele essa é uma forma de libertação e se chora pelo sofrimento que provoca e de que nem reconhece ser o autor é porque uma vaga memória de postura senhorial que observou à distância lhe lembra que ter sentimentos é privilégio dos grandes. Saíram-lhe do coração e passaram-lhe para a boca.

O patriarcado judaico-cristão? Mais um flatus uocis, produzido em massa para justificar o que somos apenas por o ser. Podiam ser estas palavras, ou outras quaisquer. Arbitrário uso da palavra, desrespeitoso dela e em consequência da justiça e do sentimento. É a isso que se rende o espaço público entre as três vias da plebe romana: a trivialidade. Agora sob a capa de construção elaborada.




Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A Deus

O teu caminho, na esquerda do jornalismo, não me inspirava nada de bom ou de elevado. Em plena década de 80, soava-me a revolução retardada, mal arrefecida, aburguesada. Era assim mesmo.
Devagar, sem alarido nem proximidade, pudeste explicar-me, sem saber que estavas a falar comigo, que se pode chegar de vários ângulos ao mesmo ponto: à procura da realidade, como é, de cada vez. Pudeste dizer-me, ao ritmo de cada artigo ou comentário televisivo, que «todo o ponto de vista é a vista de um ponto», como diz Leonardo Boff. Fazias essa demonstração suavemente, com simpatia, quase sem querer ferir o contraponto.
Cheguei a fazer o exercício: como é que ele vai justificar a vitória inequívoca das Autárquicas de 2001? A saída de Guterres ou, o que foi mais difícil, o final esperado do XVI Governo Constitucional, em Novembro de 2004?
Seguia, atenta, a tua argumentação. Mais equilibrada do que habilidosa, mais honesta do que facciosa, mais inteira do que parcial. Sinto falta disso. Antes de ser preciso. Porque és preciso.

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

O enjoado lúdico









Todas as idades trazem tipos, espécimes zoológicos, que as caracterizam. É raro que sejam muito originais, apenas se demarcam mais ou menos em épocas diversas. Um dos espécimes típicos da nossa época é exactamente o enjoado lúdico.

O enjoado lúdico reconhece-se pela filosofia que enuncia sobre si mesmo, mas mais ainda pelos sintomas que apresenta e pelas causas que estão por detrás desses sintomas.

A sua ideologia é de que nada existe de digno, absoluto, e quando muito lhe interessa o seu pequeno jardim de Cândido. Por isso, sempre que alguém lhe refere a existência de valores, coisas valiosas, dotadas de grandeza, sorri e ataca a sua valia.

Se essa é a sua enunciação do mundo, bem mais importantes são os sintomas que apresenta. A sua fácies mostra um profundo enjoo perante o mundo. Não contesta, não argumenta.

A sua postura é a de quem está cansado de argumentar e contestar, o que diz mais sobre a sua falta de energia que sobre a valia da discussão que se poderia travar. Encontra-se permanentemente fatigado, e qualquer referência a ideais, missões, ou objectivos suscita-lhe um esgar de enjoo.

Fadiga, enjoo, ataque, são os seus sintomas essenciais. Juntemos-lhes um quarto: o lado lúdico. Perante a discussão séria, o tema nobre, assume atitude de bobo da corte, brinca, quer à viva força demonstrar que nada disso tem importância. É nisso que gasta a sua energia vital: na demonstração da irrelevância.

Falta-nos um quinto sintoma, que o enjoado lúdico nunca confessaria, que lhe vai no fundo da alma: o dogmatismo. A sua forma de ataque revela a sua natureza profundamente fanática. As frases que utiliza são sempre definitivas, cortantes, irrevogáveis: não há obras de arte maiores, a Europa morreu, não há motivos nobres, nada é genial ou tudo o é (o que dá no mesmo) só para dar alguns exemplos. O que visa é cortar a discussão, mostrar a sua irrelevância.

Se bem virmos estes cinco sintomas estão mutuamente ligados. Fadiga, enjoo, ataque, lúdico, dogmatismo são apenas várias faces de uma mesma figura. Mas para a percebermos termos de ir às suas causas.

O seu paradigma é o Cândido de Voltaire, que de tanto se rir dos motivos nobres acaba por ficar à dimensão do seu jardim. A História do iluminismo dito crítico (que pouco teve disso, salvo na Alemanha) mostra que resulta sempre na amargura e na misantropia. Chamfort é o melhor exemplo disso, mas muitos outros poderiam ser dados. Ou na idolatria histérica, como a religião da deusa razão de Robespierre o mostra.

Qual o percurso que cria um divertido lúdico? Sem dúvida trata-se de pessoas com algum grau de inteligência. Não são igualmente destituídos de curiosidade. Estudaram. Mas, confrontados com a genialidade e a grandeza não foram capazes de seguir percurso criativo. Fenece-lhes a potência para o fazer. Seja a energia vital, seja a dose suplementar de inteligência, seja a capacidade de perseverança na aprendizagem. O seu percurso ficou a meio. Por isso é natural que pretendam que as vidas fiquem a meio, inacabadas.

Em boa verdade trata-se de mais uma figura nascida do ressentimento. Mais uma entre tantas outras. A sua diferença específica surge do facto de não serem totalmente destituídos, ao contrário do medíocre. O problema é que a vida não se basta com uma pequena dose suplementar de lucidez. Esta apenas envenena a vida quando não é bastante.

A sua vida é por isso permanentemente envenenada pelo confronto com a grandeza que tem altura bastante para ver, mas não a que baste para emular. Não são capazes de canalizar a energia para uma finalidade e por isso a própria ideia de finalidade os assusta.

Explica-se assim tanto a enunciação da sua ideologia, como os sintomas que apresentam. Se nada tem importância, salvo o seu jardim, é porque tentaram dar um salto fora dele e apenas tropeçaram. Sentem-se cansados apenas porque não perceberam terem tentado dar caminhadas superiores às suas forças. Estão enjoados porque a vida deu-lhes as tonturas de promessas grandes, mas descobrem para seu desagrado que há promessas bem maiores. Atacam, porque sentem que toda a grandeza é ameaça ao seu pequeno jardim. O que dizem ser uma escolha é apenas uma falta de alternativa. São grandes no seu jardim, só nele o podem ser.

O seu lado lúdico apenas resulta de uma imensa tristeza de não poderem ser maiores. Por isso desmerecem o resto, é a forma de dar dimensão ao seu pequeno jardim. Se é verdade que este não tem grande importância, afinal nada tem, e por isso não é grave. Fazem-se palhaços da sua própria doença, assistidos em hospitais da sua imaginação. E como é típico do palhaço, caem no dogmatismo. O bobo da corte critica todos e não admite críticas. Sabe-se diminuto perante os grandes, mas a sua consolação é o seu estatuto. É a sua menor dimensão que o imuniza. São ciosos dele como se de privilégio aristocrático se tratasse.

É certo que é figura triste, mas a nossa época tem muitas outras. No seu caso apenas lamento que não sejam mais bem aproveitados. Seriam muito bons servidores de senhores mais altos se fossem mais bem-educados. A sua forma de redenção é a de serem cortesãos. Mas para isso carecem de senhores maiores.




Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 19 de julho de 2010

STABAT Mater







STABAT Mater dolorosa
iuxta Crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.

Quando medimos a grandeza de uma civilização temos de medir aos sues picos mais altos, mas igualmente a sua capacidade de reelaborar os dados de base. Que um evento do séc. I contado nesse mesmo século e no século seguinte dê uma poesia no século XIII, inspire uma música no século XVIII e audições no XXI é-nos tão trivial que esquecemos o que este mecanismo de transmissão tem tudo menos de evidente.

Que Pergolesi se tivesse deixado inspirar por este hino não é de espantar, se tivermos em conta a sua beleza. Que esta se tenha preservado numa cultura tantos séculos, viva o suficiente para meio milénio depois de ser feito ainda tocasse um músico, é que é de espantar.

O primeiro elemento, muito esquecido, é o da permanência da literatura em língua latina por mais de 1000 anos após a tão batida queda do império romano. Quando e diz que a língua latina é morta cada um sabe se fala da sua. Viva o bastante para inspirar obras-primas na musica.

Mas viva o suficiente para inspirar obras-primas na literatura também. Quando se fala na novidade do realismo como movimento, tendemos a esquecer-nos de que os seus instrumentos são seculares.

Stabat. Em bom latim dir-se-ia “erat”. E de boa forma se traduziria por “estava”. Mas em latim “stabat” tem um significado mais preciso, que um autor de poesia latina não ignorava. Não foi por isso por evolução semântica que teria usado um verbo incorrectamente. Sabia bem que verbo estava a usar: “stare” significa estar de pé, firme, assente, sólido. O seu parentesco com estável, estaca é evidente. De quem se fala estava bem ancorada no solo, firme, plenamente segura do que fazia, o seu corpo obedecia-lhe, não fraquejava exteriormente.

E quem estava? Uma “mater”. Não que as religiões não tivessem já falado de mães de deuses, ou do sofrimento de Cibele, nem a tristeza que invadia quem perdia os seus nas histórias divinas. Mas é de uma mãe concreta que se trata. Uma e só uma. Aquela, aquela que efectivamente viveu o que viveu, e por isso única, e exemplo para as outras.

Dolorosa. É um dos lugares comuns falar-se do dolorismo do cristianismo, e sobretudo do catolicismo. Uma civilização que criou oi Carnaval, o gótico e o barroco está bem longe de ser dolorista. A síntese histórica em mão de cavador é natural que cheire a grão de terra. Em vez de os terem nas mãos têm-no nos pés. Por isso é natural que análise pareça sempre feita com os pés. Dolorosa porque a vida na sua intensidade máxima tem também momentos de dor profunda, insuportável. Nada é esquecido, nada é poupado a uma vida plena. É sabido que o dogma da assunção, que Jugie analisou com grande profundidade e beleza é neutro em relação à morte de Maria. Não se pronuncia sobre ela. Por isso e morte de compaixão à frente da cruz é aceite por muita teologia. Sofrer pelo outro ao ponto de ter morte na alma é expressão de diferenciação sentimental bem maior que o da ataraxia estóica. Não se foge à vida. Deixa-se-a fluir plenamente em nós.

Uxta crucem. Onde está esta Mãe? Ao pé da cruz. É natural que não dê pulos de contentamento. É natural que não seja esse o momento de bodas ou alegria. Não padeceu da cruz directamente, mas da forma indirecta mais profunda. É a tese da com-paixão de Nossa Senhora, que muitos teólogos entenderam como o martírio de Maria, o seu verdadeiro martírio e não um legendário que gerasse a sua morte. Co-redemptora em com-paixão.

Lacrimosa. E eis que chora. Não é uma mãe de plástico. Toda divertida por saber que o seu Filho afinal vai estar bem. Ao contrário das crenças muçulmanas, que vem de algumas heresias gnóstica, acreditando que na cruz apenas estava um simulacro de homem, estava um homem pleno na cruz. E em vez de uma impassibilidade estóica, que poderia ser a única fundante da civilização cristã, entra em jogo pela primeira vez, e de forma nobilitada, uma expressão essencial do sentimento humano: a lágrima.

Dum pendebat. Não é em qualquer momento que esta mãe é vista. É num momento concreto. Enquanto alguém pendia na cruz. Na perspectiva do eu poético somos obrigada a vê-la enquanto ela vê alguém. Sob o ponto de vista da criação de situações, esta mostra arte bem complexa. Não é para o crucificado que olhamos, mas para a mãe, que por sua vez vê alguém. Somos obrigados a focar a nossa atenção, como num filme, para uma só pessoa, para percebermos indirectamente a sua situação. Não se olha para o crucificado, mas para quem O olha.

Filius. Não é qualquer um que está a ser visto pela mãe. É o seu próprio Filho. E eis que a coisa se revela em toda a sua veracidade e pertinência. Que houvesse relações filiais parte de histórias divinas já se sabia. Que estas se passassem na terra, também temos muitos exemplos na mitologia. Que o sentimento da Mãe que perde o Filho seja presente, também se sabia. Cidipe chora pelos seus filhos, presume-se. Não são apenas deusas que o fazem. Mas que duas pessoas humanas, plenamente humanas vivam a mais humana e terrível das situações, e que seja essa humanidade a revelar o plano divino para o mundo, essa é a novidade.

A poesia neolatina não é um conjunto de artificialidades de corte. Que o Império Romano tenha acabado com data certa e encerramento de contas é mito constitutivo da Europa, mas em boa verdade mito. Com tudo o que isso tem de pertinente, mas de falseador também. Não é por vontade de erudição que se verte em latim um dos momentos mais relevantes da História da humanidade. Procura-se a universalidade? É bem provável. Procura-se a língua sagrada? Admitamo-lo. Mas encontra-se sobretudo o que é a língua natural da vida intensa, bem mais que o vernáculo na época. Não é por necessidade tabular que se latiniza. É por inevitabilidade vital. Latim, Idade Média e cristianismo apenas são realidades menores para quem não as viu. O turista distraído prefere o sorvete tanto ao pequeno episódio que se passa à sua frente quanto ao grande monumento que o constituiu. O maior e o mais pequeno são-lhe estranhos. Apenas vive com base no directo, o imediato, o mediano. Que um facto tão irrelevante (Tibério soube algum dia desta crucifixão?) seja afinal o mais importante é categoria estranha para o turista. Mas para ele é sempre estranho o que é relevante.



http://www.youtube.com/watch?v=mNt13Vw-K6Q
http://www.preces-latinae.org/thesaurus/BVM/SMDolorosa.html
http://www.stabatmater.info/
http://www.lastfm.com.br/music/Giovanni+Battista+Pergolesi/_/Stabat+mater+dolorosa
http://www.wf-f.org/Sorrows.html
http://campus.udayton.edu/mary/resources/poetry/stbmat.html


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 16 de julho de 2010

O pavor estéril do PSD


Ontem António Barreto e José Miguel Júdice indignaram-se por o líder da Oposição do PSD raras vezes ter lugar na Assembleia da República (SIC-Notícias com Mário Cresco).
Na verdade, alguns líderes do PSD não têm humildade democrática nem sentido de Estado para, antes das eleições, incluírem no futuro arco parlamentar os rivais que lhes podem suceder no caso de perderem as eleições. Constroem bancadas, supostamente sólidas, fiéis e monocromáticas. Sem futuro.
Em 85, Cavaco não inclui Salgueiro, com quem se batera na Figueira da Foz. Em 87 e 91, o peso do cavaquistão inibiu alternativas e purgas. Nogueira inclui muitos em 95, mas não se terá lembrado de Marcelo que parecia fora de órbita mas conquistaria o PSD, sem voz própria na bancada. A história de Guterres poderia ter sido diferente com aquele rival parlamentar.
Em 99, Durão não se demite perdendo as eleições e fica com verbo em São Bento. Em 2002, não incluiu Santana ocupado com a Câmara de Lisboa. Santana inclui Marques Mendes em 2005. Meneses - também incluído por Santana - prefere a Câmara de Gaia ficando parlamentarmente afónico durante a liderança do PSD. Manuela Ferreira Leite exclui Passos Coelho em 2009.
Conclusão: houve apenas uma sequência de líderes adversários com voz no Parlamento: Santana Lopes - Marques Mendes.
Se o Povo diz que a sorte protege os audazes é caso para dizer que o medo não tem protegido o PSD.

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terça-feira, 13 de julho de 2010

SERMÃO AOS INTELECTUAIS

Quem anda sempre atrás dos bons sentimentos deixa ficar para trás os seus.

Não há temas inteligentes, mas formas inteligentes de os estudar e exprimir.

A revolta de quem está sentado numa cadeira é sempre mais fácil que a concessão de quem enfrenta a luta.

Criticar o poder e estabelecer máximas de governação é de quem sendo impotente pretende definir o prazer dos outros.

Não acredito nos que defendem a liberdade com uma voz tão alta que não deixam os outros falar.

Só pode mostrar a indignação quem pretende pagar o serviço ou o sabe prestar.

Não desprezes os técnicos por ignorarem o que tu sabes, pois sabem eles fazer o que tu não fazes.

Invocar a humildade é bem pior que mostrar a arrogância. O segundo é parvo, o primeiro é perigoso.

Não grites tanto que não te ouves pensar.

Estranho sentimento de revolta que não afecta a digestão.

Tanto idolatras a intranscendência que ela te vence.

Criticas o burguês. Mostra primeiro a tua árvore genealógica. Se tiveres sangue real a correr-te nas veias duvido que o faças.

Não confundas as tuas indisposições com a lucidez.

Quem suspira por ideias corre o risco de não o fazer por pessoas. Quem não o faz corre o risco de não as entender.

Quem diz que ninguém o influenciou ou é ignorante ou destituído. Porque só ignorando ou não percebendo se pode ser insensível às obras-primas do passado.

Os teus dois maiores inimigos são o cansaço e a estupidez. Muitas vezes o que escreves vê-se que resulta da falta de férias. O segundo vício, no entanto, não se corrige com a posição horizontal.

Os que fazem alarde de serem responsáveis pelos outros são muitas vezes os menos responsáveis com a própria vida. Querer olhar apenas para as multidões, os grandes espaços, ou a humanidade em geral é sinal de desejo de afastamento, mais que de comunhão. Quem não verte uma lágrima pelo próximo aconchega-se na melhor das hipóteses com abstracções de justiça social.

Andam muito esquecidos aqueles que criticam a futilidade. Nada há de mais fútil que a criação cultural. É por isso necessária.

A tua adesão a um movimento político só o prestigia aos olhos de quem não percebe que nele apenas serás útil se tiveres competência política.

Opinar sobre as sortes do mundo ou abster-te de o fazer é algo que deverias ter a coragem de fazer como pessoa e não como intelectual.

Sempre que apoiares uma guerra arrisca primeiro o teu sangue. Sempre que a condenares compensa quem perde com a sua ausência. Não o fazendo tens direito à palavra ou ao silêncio. Mas como qualquer vendedor ambulante o faria numa conversa transeunte.

Se não tens fome de absoluto, pouco te dá saciedade. Se apenas falas nele confundes o tema com a pertinência.


Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 9 de julho de 2010

A liberdade vai passar por aqui


«Havana vai libertar 52 presos políticos» anunciou esta semana a TSF. Raul Castro cede assim, finalmente, aos pedidos da Igreja Católica na «mais formosa das ilhas», como lhe chamou Colombo.
Poucas notícias internacionais me deixaríam mais satisfeita. Conheci a situação da oposição cubana a Fidel Castro no início dos anos 90. Tinha recolhido no escritório de Madrid do exilado Carlos Alberto Montaner a lista destes políticos para entrar em Cuba como turista acidental. Levava uma mala cheia de literatura anti-Castro que Montaner me pedira para entregar a Elizardo Sanches.
Para além do emblemático Elizardo que, sob a defesa dos Direitos Humanos, se mantinha fora do cárcere na ilha, falei com uma série de gente valente que tentava o impossível para manter acesas a chama da liberdade interior e a esperança da liberdade pública.
Foram três semanas surrealistas. Evito os nomes porque desconheço a situação actual destes cubanos. Lembro a poetisa com grades nas janelas e nas portas para evitar a delinquência política diária dos jovens da revolução. Não esqueço o homem de meia-idade que, nos subúrbios de Havana, me passou apressadamente um molhe de papéis manuscritos com os seus pensamentos e denúncias. Já era perto das dez da noite e atravessávamos uma pequena mata entre a sua casa e a paragem do autocarro que me traria à cidade. Tirou então os papéis de dentro da camisa e falou muito depressa. Ali sabia que não tinha microfones.
Recordo ainda o tristíssimo encontro com um velho opositor de Castro, num terceiro ou quarto andar, com escada suja e vigiada. A casa parecia uma cela. Com guarda, colchão no chão e pouco mais. Mas a verdadeira prisão estava dentro deste homem de barbas brancas. Ao fim de alguns anos, não resistiu ao cárcere, denunciou os amigos e pôde sair. Vivia assim atormentado pela traição, pela fúria das familias dos presos seguintes e pela amargura de um sacrifício em vão. Estava preso na ilha. E não pertencia a ninguém. Para não ser tão trágica, também me lembro de um actor de aparente sucesso que estava revoltado com Fidel alegadamente porque este lhe prometera uma bicicleta mas, por causa uma pequena liberdade de verbo, perdera o direito de a receber... Vá-se lá saber se é verdade. Este não estava na lista de Montaner.
Muitos já estão no exílio. Outros na prisão. Podem ter sido denunciados em troca de uma lata de carne, de um par de calças de ganga ou da manutenção de um posto de trabalho.
O único espaço de liberdade ficava dentro das igrejas onde Fidel Castro, reconhecido pelo papel de assistência social dos católicos num país órfão dos dinheiros soviéticos, permitia maiores liberdades de culto. Ali se trocavam documentos. Ali se procurava a ponte com o exterior. De ali partiram vozes que chegaram ao Vaticano. E que chegaram da Santa Sé, em discurso directo, na histórica viagem de João Paulo II em Janeiro de 1998 quando o Papa exortou: «Que o Mundo se abra a Cuba e que Cuba se abra ao Mundo!». Não conseguiu o fim do embargo, ponto de honra de americanos e de alguns cubanos radicais de Miami. Penso que a única vitória imediata foi mesmo a de transformar o dia de Natal, finalmente, em dia feriado. Ou talvez não. A mesma semente de liberdade dá hoje frutos em Havana com a libertação de 52 presos, como dará amanhã na Venezuela de Chavez.

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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Só visto.


Em boa hora a Cinemateca Portuguesa, na secção «Abrir os Cofres» fez passar, há dias ao fim da tarde, uma série de doze filmes inéditos, do período de 1902 a 1932. Lá estava Rui Ramos para os comentar e enquadrar políticamente com a capacidade de se surpreender que só os melhores historiadores mantém pura. «Foi como se, de repente, estivesse a ver o Ramsés II a mexer-se e a andar de um lado para o outro. Lá estavam todos, vivos, o Rei, o Hindze Ribeiro, o José Maria de Alpoim, que aqui segue o cortejo mas sabemos que os haveria de trair, os revolucionários nas calmas...», dizia, animado com a descoberta.
No anfiteatro da Cinemateca, à cunha, adivinhavam-se monárquicos, intelectuais ligados ao cinema de arquivo e republicanos. Foi divertido «assistir à assistência» ao longo daqueles 40' de pequenos filmes, quase todos tornados cómicos pelos protagonistas na época e pelos espectadores 100 anos depois. A normal contenção «democratico-cerimoniosa» do público cedeu cada vez que a fita desautorizou a versão histórica do século republicano.
Ver os heróis de Chaves (que esmagaram uma incursão monárquica) levarem tabefes do instrutor que lhes endireitava o boné e os reprimia pelo estado em que tinham a arma, foi uma delícia. Reparar na amabilidade das capturas de monárquicos no campo, filmadas pela propaganda republicana para provar que não havia execuções sumárias e que o inimigo era levado a julgamento, foi outra delícia. Só faltava pôr o figurante a dizer: «Não vale aleijar! Porra, isto é só para o boneco!».
Assistir à sesta dos revolucionários no chão do Rossio, em plenos combates do 5 de Outubro, rodeados de Povo, de mantas e de comida foi revelador da violência da refrega. E a maneira como os bravos soldados da Rotunda se exibiram para a câmara, mortos de riso, em pose de guerra, apontando armas, não para o inimigo, mas para o camaramen que continuava a gravar descansado, foi hilariante.
A assistência da Cinemateca não se conteve. Republicanos e monárquicos riram, sem cuidar das trincheiras tal como os soldados da reportagem. Parabéns à Cinemateca. É para descobrir a História que servem as efemérides. Esperemos que a RTP tenha a mesma abertura e passe estas imagens inéditas.

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terça-feira, 6 de julho de 2010

Inglaterra e Turquia

É bem sabido que a Inglaterra é desde sempre, juntamente com os Estados Unidos, o mais fervoroso adepto da adesão turca à União Europeia. É sabido, e assumido pela Inglaterra, pública, oficial e recorrentemente. A mesma Inglaterra que não quis nunca uma união política e nunca foi criadora da integração europeia.

É bem conhecido o episódio em que a senhora Thatcher (baronesa, corrijo, mas não senhora; a Inglaterra tem isto de maravilhoso, que é o de a manter como low middle class por mais baronizada que tenha sido) quis a adesão imediata de todos os países da Europa central à União Europeia logo a seguir à queda do muro de Berlim. Os interessados desdenharam a oferta porque bem sabem o vale a generosidade de oferecer aquilo que é sobretudo dos outros. As intenções de dissolução da União Europeia num mero mercado são bem conhecidas, e mais uma vez, embora mais discretamente, assumidas.

Que a Inglaterra tenha interesse em impedir o aprofundamento da União, ou melhor que tenha essa vontade, é de seu direito. Cada povo escolhe da sua vida. Posso achar que são pouco lúcidos quanto aos seus próprios interesses, mas não nego a legitimidade de tal decisão.

O que tem de ser analisado é porque razão a Inglaterra tanto quer a adesão turca, o que espera ganhar com ela, e o que efectivamente ganhará.

A Inglaterra não tem um passado de especial ligação à Turquia. A presença francesa e sobretudo alemã na Turquia é bem mais forte. A Turquia deve à Alemanha grande parte do seu Direito, a estruturação do seu exército (e exército e identidade turca estão correlatas desde há quase um século), a modernização tecnológica. A maior comunidade turca no estrangeiro está na Alemanha e daí vem uma das mais preciosas fontes de divisas para a Turquia. A Alemanha é dos principais parceiros económicos da Turquia, senão mesmo o maior. Da França a Turquia recebeu uma certa versão do pensamento laico, ao mesmo tempo que os restantes países turcófonos da Ásia Central, embora sob a forma cesaropapista do “turquificar, islamizar, europeizar”, válida para todo o Turquestão. Se a língua inglesa tem peso na Turquia é por via americana e não britânica. E se tipicamente a Inglaterra é o segundo mercado da exportação da Turquia sob o ponto de vista da importação é pouco representativa.

Porque insiste a Inglaterra então nesta adesão? Porque lhe dá tanta importância? Em primeiro lugar joga um factor de pura mentalidade. A Inglaterra, não menos que os outros países, está formada pela Guerra-fria, que distorceu a auto-imagem da Europa. A imagem da Europa é a da Europa NATO, entidade que nasceu de uma tara, uma divisão artificial da Europa e que, de bom penso, tem acumulado ao longo dos anos o pus da sua malsã origem.

Em segundo lugar porque sabe que, entrando a Turquia, nunca haverá união política. E que qualquer aprofundamento da União será muitíssimo mais difícil. Uma União implica sacrifícios, mesmo que os ganhos de longo prazo os justifiquem. E nem a Turquia quer a União Política, nem as outras populações europeias a quererão caso a Turquia entre. Dissolver aumentando é o moto britânico, e assim pretende fazer também com a adesão turca.

Em terceiro lugar, porque pensa que, sendo paladino da adesão turca, terá na Turquia um fiel aliado. Em quarto, porque não tendo a forte imigração turca ao contrário da Alemanha, pensa que o preço desta imigração incidirá sobretudo na Europa continental e não nas suas fronteiras (recentemente o governo britânico já deu a entender que mesmo em relação à Roménia e à Bulgária não terá a generosidade de regime migratório que mostrou em relação aos restantes novos aderentes, o que não faria com uma adesão turca?). Em quinto, porque pensa que reforçará a dimensão NATO da Europa, aproximando-a mais da sua visão europeia. Finalmente, porque projecta no plano internacional a sua política interna multicultural.
Resta saber se a Inglaterra ganhará alguma coisa a longo prazo com esta adesão, se a sua aposta é ganhadora.

Em primeiro lugar os padrões da Guerra-fria desapareceram. E quando o substrato desaparece a mentalidade pode teimar em inércia de movimento mas vai perdendo cada vez mais a sua base. Pode durar muito mais que o seu fundamento, mas não durará perenemente para além dele. Por isso, uma Europa formada sob os padrões NATO está condenada a desaparecer. Mesmo que se queiram manter artificialmente hostilidades com a Rússia estas são insustentáveis a longo prazo. Mesmo para os que não gostam, a Rússia é um parceiro importante e sê-lo-á cada vez mais. Ou seja, a imagem sob que se baseia a sua decisão é a de um mundo em retrocesso.

Em segundo lugar tem razão que com a adesão turca nunca haverá real aprofundamento da União. O paradoxo britânico é que precisa de uma União estável. Cada vez mais irrelevante para os Estados Unidos pela a sua dimensão e força estratégica a importância do Reino Unido depende cada vez mais da importância da União Europeia. Uma União instável, com fracturas internas, torna a Inglaterra cada vez mais irrelevante como país.

O terceiro aspecto é aposta fraca. Duvidosamente a Turquia poderia ser aliado perene da Inglaterra. É evidente que teriam interesses comuns. Seriam os dois extremos da União, e ambos com interesse em que esta não seja uma união política. Mas a Inglaterra tem interesse numa política social e estrutural pouco custosa: exactamente o oposto dos interesses turcos. Dificilmente se veria a Turquia como paladina do liberalismo económico. A Turquia tem interesse na dimensão militar da Europa, exactamente o oposto do interesse britânico. Além do mais os turcos bem sabem que o apoio britânico não se baseia numa particular simpatia pela Turquia mas numa antipatia pela Europa. E bem conhecem o desprezo britânico pelos turcos (“se Portugal e a Hungria entraram, os turcos podem entrar”, ouvi muitas vezes). Os ingleses não podem esperar gratidão turca. As populações turcas desprezam os ingleses como lacaios dos americanos bem mais que o europeu continental, que sente afinidades de civilização com os britânicos. A Turquia dificilmente teria aliados europeus estáveis, obrigando a Europa a dirigir os seus interesses para o Médio Oriente e para a Ásia central. E se a Inglaterra tem interesses nessa zona o centro de gravidade da Europa ficaria mais a Leste. Seria, pelo menos a longo prazo, o país mais reivindicativo de fundos estruturais, que a Inglaterra não está disposta a dar. Os conflitos financeiros seriam um dos pontos de fractura perene da Inglaterra e a Turquia. Além disso a regra tem sido a de as alianças serem moldáveis. A Turquia estaria mais próxima da França na sua concepção de Estado, da Alemanha na sua dimensão e relações económicas, dos Balcãs na proximidade geográfica, dos países da Europa mediterrânica quanto ao grau de desenvolvimento.

Em quarto lugar, a Inglaterra já não pode contar com a constância dos fluxos migratórios tradicionais. Sendo conhecido como país de mais flexível mercado de trabalho e com menos exigências de integração (apesar das novas leis de imigração terem endurecido, estas não seriam aplicáveis a futuros cidadãos comunitários), a Inglaterra seria um dos pontos principais de chegada das novas imigrações turcas. E numa população que está cada vez mais cansada do modelo multicultural (a Inglaterra dar-nos-á surpresas nesta matéria no futuro), é a própria estabilidade interna que estará em jogo.

Além do mais terá de arbitrar entre alianças cada vez mais contraditórias, entre os países da Europa central e a Turquia. A visão NATO da Europa mostrará aí mais um dos seus campos de falência. Para países em que a experiência multicultural foi a de serem dominados e não dominadores a adesão turca será, não apenas concorrencial sob o ponto de vista dos fundos, mas sobretudo contraditória com o seu sonho de Europa.
E para finalizar, a Turquia retirará importância estratégica à Inglaterra. Sempre que os Estados Unidos quiserem uma Europa mais unida, não é com a Inglaterra que contam. Ford ligou-se a Giscard e Schmidt. Sempre que quiserem desestabilizar a Europa, a Turquia fará bem melhor papel. De boa ou má vontade, o peso da Turquia junto dos Estados Unidos aumentará a expensas da Inglaterra.

Alguns americanos começam a perceber mais depressa que os ingleses o erro da aposta turca. É natural que quem está à frente veja mais coisas. O problema é que se a inversão da política americana nesta matéria, a ocorrer, poderá ser tardia, a da Inglaterra poderá sê-lo de forma desastrosa.

São os ingleses estúpidos e não percebem que esta política lhes é desvantajosa? - Adivinho a pergunta. Duvido. Mas pior que a estupidez é a cegueira e a força de inércia. Os atenienses não eram estúpidos, mas deixaram que a inércia das suas rivalidades abrisse caminho para Filipe. O pior cego é o que não quer ver. Sobretudo numa época em que se quer pôr pedras nas bocas em Demóstenes que delas não carecem.


Alexandre Brandão da Veiga



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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Agora e sempre os espanhóis


As grandes bandeiras de D. Nuno Álvares Pereira que ontem se viram no estádio da Cidade do Cabo evocavam Aljubarrota no jogo de futebol entre Portugal e Espanha. Digam que é ridículo, eu gostei. Os espanhóis ganharam desta vez. Não discuto. Foi golo em off side, foi Ronaldo que passou de líder a liderado, foi a neura de sempre de Queirós, foi Coentão e Eduardo que não podem jogar por 11, foi o fatalismo lusitano depois do esférico (é assim, não é?) penetrar nas redes portuguesas, foi mérito do adversário. Admito, foi mérito do adversário, os nossos fizeram o que puderam pelo seu País e respeito as regras do jogo.
Diferente é o que se passa com o raide da espanhola Telefónica no braço português da PT, no Brasil. Eles querem dois pés nas telecomunicações de uma das maiores economias do Mundo que, pelos últimos boletins, cresce a 9%. As empresas são negócio e existe a livre concorrência. As regras do jogo também são claras mas há outras implicações a considerar: quem fizer tudo pelas regras, pode vender mas estará a fazer tudo contra as outras regras, que não precisam de ser escritas para serem praticadas, as que decorrem da nossa obrigação de defender o interesse de Portugal. Estes são os novos campos de Aljubarrota e todos os outros países os reconhecem e defendem sem pudor nem tibieza.
Tudo depende, por isso, do comportamento de portugueses e espanhóis, vulgo accionistas. E já se vêm os suspeitos do costume a venderem o que têm ou a prometerem vender. Sócrates fez o que pôde para defender a nossa posição. Justiça se faça. A Europa, higienicamente, ditará a sentença contra a golden share do Governo português.
Peço de volta o estandarte do Santo Condestável para mostrar a quem brada no Beato, «Compromisso Portugal!», mas vende os nossos interesses na primeira oportunidade de lucro fácil. Sem visão de lucro sustentado, sem passado, sem honra nem glória. Peço ainda o Tratado de Tordesilhas para lembrar que, naquele Mundo, nos entendemos em português.

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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Poder

O poder é o mais obsceno dos vectores de análise da política hoje em dia. Dizer que se quer poder roça a indecência. O poder é substituído por expressões elípticas e algo frouxas como “necessidades”, “enquadramento geo-estratégico”, “gestão de finalidades”, “estratégia” e outras quejandas. O poder está escondido, vive clandestino. A Europa fala pouco em poder, envergonha-se do que tem, tem medo de o usar e escuda-se nas paráfrases e no silêncio.

Quando se fala pouco de alguma coisa apenas nos valem os instintos, o que em si pode ser uma boa coisa, mas é em geral uma desgraça no espaço público. No mundo partilhado é pela comunicação que se é eficaz, e, convenhamos, a palavra não é dos piores meios de o fazer. O gesto pode ser curto e a arma algo longa demais.

Aprendi a não idolatrar a simplicidade por si mesma, porque em geral esconde deficiência intelectual. Mas a igualmente admirá-la quando nos ajuda a orientar de forma clara por caminhos algo obscuros. Em termos simples, portanto, vejo várias formas de poder. O politico, que se reduz à força simbólica ou física, o económico, o cultural e o social.

O paradoxo que vivemos é que verificando cada uma das dimensões do poder, rapidamente chegaríamos à conclusão que a Europa tem todas as condições para ser, a larga distância, o maior de todos. O maior PIB do mundo, uma economia que tem uma tripla possibilidade de crescimento: a comum, pelo crescimento da economia, o crescimento pelo desenvolvimento dos países periféricos que a integram (um dos maiores sucessos da integração europeia) e o crescimento pela adesão de novos países. Quase meio bilião de pessoas, sendo o terceiro maior agregado populacional do mundo. E não meio bilião de chineses, mas meio bilião de europeus, incomparavelmente mais cultos criativos e desenvolvidos. O sétimo maior país do mundo em dimensão, com três milhões e meio de quilómetros quadrados que não são Sahará nem Sahel. E uma potencialidade de expansão geográfica imensa por todo o verdadeiro território europeu (que irrompe na Rússia e não em janízaras paragens).

Esta auto-imagem de impotência daquela que é potencialmente a região mais poderosa do mundo, e é-o já actualmente em muitos aspectos, é das situações mais caricatas que a História já viu, não fora a tristeza de um espaço público desértico como o Sahará explicar esta desolação. Porque este horror ao poder, qual a necessidade de ter poder?
O ser humano teve sempre esta desagradável tendência de não fazer aquilo que nós queremos que ele faça. Por isso ou lhe forçamos a alma, ou lhe forçamos o corpo. Mas para quê este vício de queremos impor a nossa vontade aos outros? Bom, desde logo, porque existem outros que tem esse vício e pode-se dar o caso de a sua vontade não nos agradar. Dá-se o caso igualmente de termos interesses ou valores que seriam violados caso tivéssemos de obedecer a vontades alheias. Em último, mas não menos importante, lugar, porque impor a nossa vontade aos outros pode ser muitas vezes a única forma de podermos ter vontade própria.
A vida mostra-se pelo poder, alimenta-se do poder, molda-se pelo poder. O que um animal ou uma planta podem fazer é limite para o que efectivamente fazem. Quem não quer ter poder nenhum nada quer fazer. A inacção, a passividade delimita-o. O horror ao poder é igualmente horror à vida.

É evidente que o exercício e o crescimento do poder implicam risco. Daí que vejamos os bem-pensantes fazer o ar de mais compungida obstipação (é o que de mais próximo vêem como sendo inteligência) dizendo que temos de ser ponderados, que temos de ter consciência das nossas modestas dimensões. Julgam-se realistas, mas em suma são apenas limitados.
A verdade é que se espalhou um pudor em relação ao poder que me parece doentio. A palavra é omitida, a realidade é evitada. Mas desemboca com frequência no ódio a tudo o que cheire a poder. Só que a parte inconveniente desta postura é que o poder é sempre sinal de vida e é ele que abre as possibilidades. Um país fraco decide pouco, escolhe pouco para o seu futuro. Trabalha em margens de manobra que são definidas por outros. O facto de, não apenas se aceitar este destino para a Europa, mas se querer esse mesmo destino, mostra tão-somente um ódio à possibilidade, à abertura, em suma, à vida. Odiar o poder, todo ele, é sempre sintoma suicidário, tanto quanto o idolatrar.

Mas odiar o poder é igualmente odiar a liberdade, porque o poder é sempre a condição empírica da liberdade. Salvo se pretendermos colocar a Europa em levitação ou em perpétuo orgasmo místico como Santa Teresa de Ávila (estado difícil de atingir para todo um continente e igualmente difícil de manter, se tal fosse possível) não há liberdade empírica sem poder. O paradigma do cauteloso, do ponderado oficial, do pretensamente realista, é assim o orgasmo místico. Julga que não precisa de trabalhar para o poder porque tem o seu jardinzinho interior. Mas como não tem a graça divina pura e simplesmente é destituído de graça.

Um das vertentes desta triste postura é uma ideologia de fonte anglo-americana que vê a Europa como a grande soft power por oposição aos Estados Unidos, que seria o hard power. A expressão tem o requinte imagético de um amolador de facas de cozinha, mas atrevamo-nos a traduzi-la. Soft power: potência mole. Será eventualmente ideia excitante para alguns, e o ponto máximo de excitação que pretendem encontrar na vida, mas temo bem que mais uma vez seja desiderato de impotentes.

Nunca tal me havia passado pela cabeça mas temo bem que tenha alguma lógica. Todos os realistas tendem para o cristianismo e para o dogma como se vê com os tomistas e fenomenologistas primeiros da escola de Husserl, por exemplo. Compreende-se que assim seja na perspectiva da ontologia. O cristão, pelo menos os ortodoxos ocidentais e orientais, tem de aceitar a presença real na hóstia. E sob o ponto de vista metodológico o facto de se ir à procura das coisas, como Husserl gostava de dizer, levou os seus discípulos a converter-se ao cristianismo, por razões que se começam a tornar cada vez mais transparentes, e mesmo a formar uma mártir como Edith Stein.

Já os idealistas tendem a estabelecer fontes autónomas de legitimidade. A Renascença colocou ao lado do cristianismo ideias pagãs no mesmo plano, de um só golpe enriquecendo o cristianismo e enfraquecendo o seu monopólio. O curioso é que percebi até que ponto na nossa época impera o idealismo. A nossa época é idealista na perspectiva da ontologia. E fica-lhe muito mal. Porque o idealismo em coração aristocrático cai bem e em bolsa burguesa cheira a grosseria.

Renunciar ao poder é renunciar à realidade. Odiá-lo é odiá-la. Negá-lo é negá-la. A realidade, da velha e banal raiz “res”, coisa, só pode ser agida através do poder. Bastar-se com um poder mole é querer ter um contacto mole com a realidade, com as coisas. Recusar ter poder, recusar falar sobre ele, é recusar a possibilidade de agir sobre a realidade. Um discurso que se instala na Europa contra a realidade, em nome de um idealismo de taberneiro, em que o mundo ideal impera, apelando apenas para o Direito, vagos valores nunca ou mal enunciados (a liberdade, a tolerância, etc.), é profundamente anti-pragmático e consequentemente amoral. A consequência é a inacção e o fatalismo. O mundo que nos rodeia é constituído por um conjunto de inevitabilidades. Que se nos impõem. É inevitável o declínio demográfico da Europa, a invasão migratória, o capitalismo selvagem, a adesão da Turquia, a decadência da Europa perante a Ásia, a dominação americana. O mundo das inevitabilidades é um mundo sem intensidade, sem suco vital, sem liberdade, e em suma sem importância.

O idealismo imperante que nega o poder e o considera obsceno é no fundo um mundo da desconsideração, do desprezo pela realidade. E tendo a realidade pessoas, e sendo elas o seu mais importante foco, é em boa verdade um mundo de desprezo pelo ser humano. Larvas enfiadas em casulos, acham a borboleta ridícula e efémera mas esquecem-se de outras vidas bem mais garridas a que o seu estatuto nem permite aspirar. E numa Europa que silencia o discurso do poder, apenas os instintos o dirigem, sem lugar para o adoçamento pela razão. O que se segue é previsível. É o que acontece sempre que prevalecem os instintos no espaço comum.


Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 22 de junho de 2010

A utopia, a festa e a parvoíce


Estive recentemente em Paris, Marselha e Aix en Provence e, nos três destinos, deparei-me com o uso da bicicleta como transporte municipal. Basta um pequeno cartão (a primeira meia hora é grátis favorecendo a rotatividade), parques com bicicletas nas esquinas mais frequentadas, uma rede de ciclovias, faixas de autocarro à disposição e pode dizer-se que a utopia funciona.
Erro. Funciona em Paris e em Aix.
Os planíssimos e longos quarteirões de Lutécia tornam-se percorríveis com a agradável sensação de liberdade, cabeça ao vento, cenários e luzes sem filtros de vidro. Dia e noite, a cidade revela-se, magnífica e próxima. Dá-nos um sentimento de pertença. Transporta-nos para um filme idílico do qual somos protagonistas sem esforço.
Em Aix en Provence, é menor o contraste. As ruinhas e praças com fontes da capital medieval do Sul de França, muitas sem acesso de carros, tornam este transporte numa solução natural, antiga, retomada, sem novidade. As distâncias são muito curtas e o expediente do cartãozinho parece desnecessário. Mas também se repete a agradável sensação de pertença e sossego de pernas.
Mas em Marselha, bastam os ligeiros declives que emergem do porto e do centro da cidade para tropeçar, em cada esquina, naquele investimento paralisado. Já não falo na subida à Igreja de Notre Dame, também cidade, ou no passeio pela marginal a que chamam Corniche. É claro que lá andam alguns furiosos do pedal, com capacete, licras, costas vergadas ao volante e ao suor. Mas não é nada disso que nós, mortais com alegria de viver, queremos para as nossas vidas.
Moral da História: Lisboa é ainda mais acidentada do que Marselha. Deixou-se forrar por quilómetros de ciclovias socialistas que prometem maranhar pelas sete colinas. Deixem-se ficar pelo rio e pelas Avenidas do século XX. O resto é impenetrável. Diz-me quem sabe que se pode estudar um sistema complementar de bicicletas e transportes públicos aplicado em cidades acidentadas do Norte europeu. Não vejo quais, não vejo como.
(PS: Soube entretanto que estas comodíssimas bicicletas são construídas no Norte de Portugal)

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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Interesses

A mais que banal, mas não menos verdadeira, etimologia ensina-nos que o interesse é “inter esse”, estar entre, ou mais profundamente existir entre. O interesse é assim uma integração e uma limitação, uma pertença e um constrangimento. Quando fisicamente um país está entre dois outros, esses outros fazem parte do seu interesse, definem-no. Mas as fontes e as modalidades de interesses podem ter a mais variada origem. Os interesses associam-se a situações de vida, dos quais o espaço físico é apenas uma delas.

Algumas vezes diz-se dos místicos, ou de quejandas pessoas, por razões caracteriais ou outras, que são desinteressados. Em boa verdade não é esse o caso. Muitas vezes são bem mais interessados que os outros, estão bem mais integrados e delimitados pelo que lhes interessa que o comum dos mortais. Desinteressado significa apenas o que não está entre as coisas comuns. A ligação entre alguém e um interesse tem sempre elementos de inevitabilidade e de escolha. Portugal não pode decidir ser africano. Mas pode decidir dar mais ou menos ênfase às suas relações africanas.

Questão diversa é a da percepção dos interesses. A História tem demonstrado que sendo os interesses muito diversos, consoante as pessoas e o longo ou curto prazo, também as percepções dos interesses podem estar profundamente erradas. Mas, definidos os interesses, é perfeitamente legítimo defendê-los.

O que leva as pessoas as errarem na percepção dos interesses e o que as leva a não os defender diz muito sob o estado de espírito de uma civilização. A Europa tem quase tanta vergonha de falar dos seus interesses quanto de falar do seu poder. Ora não se faz política sem uma percepção clara de interesses.

A primeira escolha a fazer tem a ver com a definição dos centros de interesses. Esta é efectivamente uma escolha, com tudo o que isso implica de aleatório e determinado, de racional e irracional. Eu posso aplaudir a vitória de uma empresa só porque é do meu país ou da minha formação política, mesmo que pessoalmente nada ganhe com isso. Mas desde que reconheça um tecido mais vasto de que essa empresa faça parte como um todo, então já terá sentido em sentir essa vitória como minha. O que escolhemos como o que fica dentro desse centro leva a definir o que escolhemos como ficando fora do mesmo e mesmo a ele contraposto. Quando alguém fala do interesse de outrem seja ele país, seja ele região, fala de uma escolha. A desonestidade de muito discurso público é a de dar cheiro de necessidade metafísica o que mais não é (e já basta) que escolha.

Por isso é necessário que para cada um o centro de interesses esteja definido. O meu é a Europa, e por isso a ela me dedico. Para além de outros motivos exigindo bem mais longa confissão, há um muito simples. Portugal sozinho não tem real poder no mundo. As alternativas de aliança são apenas forma de submissão sem poder. Logo, a única forma de Portugal ter poder no mundo é participar num poder maior. Um em que participe e não seja apenas protectorado.

Um interesse demasiado estreito sufoca, um demasiado largo quebra. O estreito aperta as possibilidades de vida, um largo demais estilhaça-as por incorporar em si maior número de contradicções. Um interesse que seja centrado no mundo como um todo apenas acolhe em si interesses contrários entre si, em que os pontos de desunião e fractura são e serão sempre bem mais fortes que os de união.

Comecemos pelos interesses da Europa. O primeiro interesse de qualquer organização política é o de definir os limites do seu poder. De preferência aumentando-o. Poder político, mas igualmente económico, cultural, social. O interesse da Europa é igualmente o da manutenção e de desenvolvimento de um património, de uma determinada concepção do ser humano, e mais importante, de um determinado modo de viver como ser humano. Foi a Europa que o criou e só a Europa se tem mostrado capaz de o desenvolver plenamente. Um cruzamento de expansão para o futuro com um profundíssimo enraizamento no passado. Uma fortíssima comunhão de vivências (muito mais forte da que cabe aos ignaros julgar) e uma diversidade que só tem paralelo (quase) equivalente na Índia.

O interesse da Europa é abranger o seu espaço total, sob pena de vivermos sobre a fractura. Ou seja, a mais ou menos longo prazo o de incluir os países russófonos na sua esfera. A História tem demonstrado que as fracturas da Europa são simultaneamente temporárias e empobrecedoras na medida em que se mantenham. O cisma do ocidente dá-se no século XVI e foi bem profundo. Mas simultaneamente o comércio europeu nunca foi posto em causa. Os dois maiores espaços europeus, o francês e do sacro império eram híbridos, atravessados pelo protestantismo e catolicismo. As alianças entre a católica França e a protestante Holanda, a Inglaterra e mais tarde a Suécia foram perenes, entre o católico Portugal e a protestante (como quem diz...) Inglaterra igualmente, apenas para citar alguns exemplos. A Renascença e o Barroco atravessam a Europa toda sem distinção de cismáticos ou ortodoxos. A cisão da Europa corresponde assim a uma dissipação e a um desperdício de energias.

O interesse da Europa é o de uma cada vez maior união, representando igualmente a soberania de cada um dos Estados na escolha de quem participa nessa união. E é igualmente de que os povos europeus participem, acreditem se empenhem nessa união.

Estando os interesses da Europa em concorrência com outros (o entre onde estão os outros difere do nosso) é interesse da Europa que os nossos interesses não sejam prejudicados nem confundidos com os de outros. Similitudes de interesse tem a Europa com os Estados Unidos, mas igualmente com a América Latina, noutros casos com a África, noutros ainda com a Índia, por vezes com o Japão (se não falo da Rússia é porque no longo prazo entendo que o interesse é o mesmo). Enlear interesses de forma rígida apenas com um parceiro rigidifica as possibilidades de actuação. A obsessão amorosa com os americanos mostra-se assim como uma patologia do segundo pós-guerra que é limitadora e masoquista. Uma boa gestão dos interesses implica sempre estabilidade, mas igualmente flexibilidade de alienação, salvo nos casos em que se pretende fusão.

A incapacidade de discursar sobre o interesse, de pensar sobre ele, de lhe dar lugar nobre na forma de legitimação política, mostra não apenas menoridade moral, mas igualmente espiritual. O “entre” é a parte mais profunda do evangelho apócrifo de Tomé (“Parte este madeiro em dois e ver-me-ás entre eles”, dizia o Senhor), um dos centros do pensamento hermético, de Nicolau de Cusa, do pensamento morfológico de Goethe. O pensamento do “entre” é sempre uma superação de uma lhaneza. Quando Tucídides pensa nos interesses dos gregos para se guerrearem entre si, Filipe o Belo ou Henrique VIII no interesse da coroa ou Heisenberg tenta ler dados espectrográficos, estão todos apostados a ler entre, o que significa inevitavelmente (o que diz algo sobre a estrutura do mundo), aprofundamento. O desmerecimento dos interesses é sempre obra de novo-rico com medo de se meter no meio, em má imitação de fidalga abnegação. É obra de equivocados que conduzem o mundo ao equívoco. Ignoram que o empenho o interesse é a única forma de aprofundamento.

Dos três eixos da análise da política, o dos interesses é o visto com mais desprezo pela pudibundice contemporânea. O do poder é visto com horror, o dos interesses é visto com aristocrático desprezo. Falar de interesses cheira a muito menos nobre que falar em direitos do homem, da missão proselistista laica da Europa ou outras infantilidades. A validade desse desprezo (presunçosamente) aristocrático desfalece logo pela visão dos seus portadores. Mais destinados ao penduricalho que ao brasão, desonram pela sua simples presença a necessidade de demonstração infirmadora.


Alexandre Brandão da Veiga


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sexta-feira, 18 de junho de 2010

A morte de Saramago


Ensinam-nos a honrar os mortos.
Talvez isso venha do facto de já cá não estarem para se defenderem. E parece-me bem que assim seja.
Todos somos maiores do que as nossas vidas. Para os não crentes, pelo menos enquanto perduramos na memória ou no coração de quem fica.
Mas alguns de nós, como Saramago, são maiores do que o direito à inexistência do escrutínio da sua vida pública. Por isso me sinto autorizada a falar de José Saramago sem a obrigação estrita de o honrar como homem público.
Para quem não apreciava Saramago, vai sendo um lugar comum dizer que o Nobel teria caído melhor em Cardoso Pires, Agustina ou Lobo Antunes. A agressão ao sagrado dos outros e a pontuação completavam o quadro da antipatia. Mas podemos reconhecer um mérito literário capaz de dobrar o juri do melhor prémio do mundo para a escrita. E, sobretudo, a gratidão que lhe devemos pelo que fez pela nossa Língua no Mundo.
Para quem não apreciava Saramago, era imperdoável aquele àvontade com que criticava o nosso País para lá de Badajoz e a forma como ouviu a Mulher falar de Portugal e dos nossos poderes, sem respeito nem contenção. Mas podemos reconhecer que ali se pressentia uma história de amor, porventura mais bonita do que as que o autor soube ficcionar no papel.
Para quem não apreciava Saramago, ficou sempre aquele amargo de boca sobre o episódio dos despedimentos por delito de opinião, no Diário de Notícias, quando o escritor dirigiu o jornal depois da Revolução. Mas podemos reconhecer que a sua fidelidade ao PCP, até à morte, depois do desencanto soviético, representa uma lealdade à prova de constrangimento para qualquer intelectual reconhecido pela liberdade do verbo e por uma certa inteligência.
Para quem não gostava de Saramago, torna-se difícil honrá-lo depois de morto. Mas inevitável fazê-lo.

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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Valores

Quando se discutiu a Constituição europeia falou-se muito do Cristianismo. Quem era contra dizia que não havia que pôr Deus na Constituição. Como se o cristianismo não fosse um facto histórico. Daí se começou a falar de valores cristãos. Como se uma religião se reduzisse a valores. E pior ainda valores morais. Este cúmulo de reduções mostra a vida reduzida e o reduzido espaço intelectual que atravessa o espaço público.

A Europa passou os extremos da negação dos valores e é natural que retome o seu passado cristão (humanista, dizem uns) de negação da natureza instrumental do ser humano. Quando cientistas do Institut Pasteur tornaram do domínio público o genoma humano para que não pudesse ser patenteado por uma empresa senti-me orgulhoso de ser europeu. Apesar de tudo há limites. Mas há sobretudo limites para reduzir tudo aos valores.

Os valores são sempre uma auto-limitação. Assumir valores implica sempre contrair possibilidades de vida, mesmo que isto sirva de impulso para nos lançarmos a outras possibilidades. Como em tudo, depende do grau sabermos se o balanço final é de alargamento de vida ou a sua anulação. O facto de ser uma auto-limitação não significa sempre autonomia ou liberdade. O escravo que assume a obediência não é menos escravo por isso. O escravo revoltado por dentro não assumiu o valor da obediência. O submisso, embora isso tenha sido fruto de contracções externas, auto-limitou as suas possibilidades.

Os valores opõem-se por isso a tudo o que os complementa: as hetero-limitações e os alargamentos. Todos nós nascemos com limitações que nos são impostas: a família, o sexo, a beleza física, a inteligência. Não contribuimos em nada para isso. Não faz parte dos meus valores ser homem, ter nascido em África ou na Europa, ser burro ou inteligente. Do lado dos alargamentos, não faz igualmente parte dos meus valores ter recebido uma herança, ou actuar desta ou de outra forma, ter-me expandido como pessoa ou não. Quando muito alguns alargamentos podem ser consequência dos nossos valores, mas não são os valores em si mesmos. Em suma, o que se opõe aos valores são as inércias. Sejam de movimento, sejam de repouso.

A discussão sobre os valores da Europa mostra por isso desde logo um vício lógico: o da incompletude. Discutir os valores europeus é esquecer o que são as limitações externas e os alargamentos europeus, a sua herança, a sua natureza, os seus condicionamentos históricos. Discutir apenas os valores europeus como fundamento da Europa é assim fazer de conta que é europeu o Eufrates, europeu o janízaro, europeu o clima tropical. As ficções em si mesmas podem ser bastante agradáveis mas têm o inconveniente de serem fraco sustento para projectos a longo prazo. A ficção gera o vício e a dependência e nunca sustentou a liberdade. A liberdade é privilégio dos lúcidos.

Independentemente de se considerar as hetero-limitações e os alargamentos como inevitáveis, inultrapassáveis ou não, a verdade é que representam uma imensa inércia histórica. Querer ultrapassá-los tem um custo. E entra aqui o segundo vício lógico da discussão sobre os valores europeus. É que ir além das inércias, integrar um quarto do Médio Oriente tem custos, mais que económicos, de configuração da coisa europeia. E nenhum desses custos foi posto na mesa, bem como as vantagens são apenas adjectivadas e nunca concretizadas.

O terceiro vício, em consequência, foi o de se confundirem valores e identidade. Eu posso ter exactamente os valores do meu vizinho, mas não me identifico com ele. A identidade política não se constrói apenas de valores, mas de inércias. O minhoto e o galego podem ser mais parecidos nos seus valores que o minhoto e o algarvio e no entanto partilham de diversas inércias.

Mas a discussão sobre os valores padeceu concretamente de outro vício. O quarto. É que esses valores nunca foram enunciados. E quando o são, mostram que afinal não existe Europa. Porque se trata de democracia ou liberdade, então tenho de concluir que fora da Europa só há ditaduras, ou então em todos os continentes existe Europa.

É que o problema reside exactamente na discussão incompleta sobre os valores. Muito provavelmente os valores políticos europeus distinguem-se pouco dos americanos ou dos de outros democracias. Existem sobretudo modos diversos de viver esses valores. E esses modos diversos têm origem em valores que não vêm da politica e inércias que estão dentro e fora dela. Concretamente, o modo de fazer política associa valores estéticos (a crítica a certos governantes é em grande medida mais de repulsa estética que de oposição a um programa), moral, ou outros. E se o modo de fazer política na Europa diverge do de outras democracias, e muito profundamente, tem a ver com instituições, não apenas políticas, mas familiares, sociais, e modos de vida que evoluíram da Europa de modo diverso e de acordo com uma História bem mais profunda.

Na discussão sobre os valores em nada ajudou o facto de os políticos, jornalistas, comentadores pouco saberem do que é a Europa. Poucos vão a mais de umas décadas de História europeia, poucos conhecem algo de ciência ou matemática, de filosofia europeia só ouviram súmulas mal digeridas, da arte europeia incluindo a literatura conhecem sinais de tráfego geralmente mal instalados. Quiseram discutir aquilo para que exactamente são mais ineptos. E o problema que têm os valores, em relação aos interesses e o poder, é que apenas são convenientes com base no testemunho. Não é por acaso que a maior religião do mundo se baseia no testemunho de uma vida (e que vida). Ora dá-se o caso de serem os mesmos que falam de liberdade que dão factos consumados aos povos, os mesmos que falam em democracia que ou fazem leis à sua medida ou fazem-nas sem medir o que os povos pretendem.

Os valores são dizíveis, mas raramente há quem o saiba fazer. E foram precisamente os mais ineptos como teóricos e menos autorizados para testemunhar que mais insistiram na questão. É natural que a discussão sobre os valores esteja inquinada.

O problema é que necessariamente toda a acção e construção política estão banhadas de valores. Ao contrário do que dizem os pudicos, os valores são inevitáveis. Faz parte da nossa condição humana individual e colectiva auto-limitar-nos. É essa uma das nossas grandezas. E características. Na política um dos valores principais é o de aumentar o respectivo poder o mais que se puder. Outros valores estão aí para limitar não a dimensão do poder, mas o uso que dele se faz. E os interesses estão aí para modelar o seu concreto uso.

Quais são os valores da Europa? Braudel dizia que era não a liberdade, mas as liberdades. É uma menos má síntese para um historiador. Mas quem ler Homero, o Novo Testamento, Euclides e Dante fica com uma boa ideia aproximada do que sejam. Prefiro não entrar no campo das banalidades.

A discussão é tão primitiva neste momento que ainda falta dizer e fazer o essencial, o ponto de partida. Que não basta discutir valores, mas é preciso discutir igualmente inércias; que os custos de se contrariar essas inércias, bem como as vantagens têm de ser claramente discutidos à luz do dia, que discutir valores não nos isenta de discutir a identidade europeia, que só está apto para entrar na liça quem saiba ou quem possa ser testemunho e que, finalmente, dado que creio que falamos de política, o poder tem de ser claramente assumido como um valor, deixando para outros valores e interesses a questão do seu uso.



Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Notícias umbilicais


Toda a manhã informativa foi tomada pelo assalto de alguns sul africanos às coisas de dois jornalistas portugueses e um espanhol. Trabalhando com a televisão ligada, pude assistir ao frenesi das reportagens sugerindo o perigo a que valentemente estavam sujeitos, a falta de condições de segurança a que indecentemente estavam expostos e, até, ao verdadeiro Soweto que os rodeava. Nunca vi nada tão ridículo. Há que ter a noção do interesse público e do interesse do público. O pequeno furto mereceu 15 segundos de antena num canal brasileiro e nenhum segundo na BBC World. Em Portugal, nunca seria notícia se os visados não fossem os próprios jornalistas visivelmente impreparados para estarem no terreno dada a mariquice de receios que expuseram sobre o local onde estão.
Poderíam ser reporteres de guerra, sem deixar de falar nas condições logísticas?
Poderíam fazer dossier sobre grupos oposicionistas numa qualquer ditadura, sem deixar de exibir a sua galhardia?
Que saudades tenho das reportagens de Cândida Pinto, Santos Pereira, Jorge Araújo ou José Rodrigues dos Santos, entre outros. Gente que se faz invisível para um trabalho de utilidade pública e notória.
Em Julho de 1993, em Washignton, pedi para assistir a uma reunião de redacção da National Public Radio, a cadeia radiofónica que atravessa todos os Estados dos EUA, género TSF, e que, nessa altura, marcava a agenda política e televisiva (CNN incluída) daquela potência hegemónica mundial.
Lá fiquei calada e pasmada durante 50 minutos a ouvir o que aqueles senhores diziam que devia ser notícia no mundo, nesse dia. Pasmada porque perderam 30 minutos com o simples facto de um cão ter mordido num carteiro. Esse era o light motiv para mesas redondas sobre salivas de cão, modelos de segurança das casas, donas de casa isoladas, legislação sobre o direito a ter cão, etc. Os restantes 20 minutos foram distribuídos por outras notícias nacionais e, apenas, três temas internacionais: 1) sobre a Somália, onde as tropas norte-americanas estavam estacionadas; 2) sobre uma instabilidade governamental em Moscovo; 3) sobre uma ligeira abertura económica na China. Em suma: tudo interesses domésticos americanos, compatíveis com o facto da maioria dos senadores nunca terem tido um passaporte.
Uma vez mais me envaideci com a nossa universalidade. Até ao baque desta manhã.

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segunda-feira, 7 de junho de 2010

A República vai nua!

O show começou. Um grupo de professores de Aveiro decidiu vestir 1200 crianças com a farda da Mocidade Portuguesa para evocar os 100 anos da República. (Público 07/06/10) Está certo: o Estado Novo ocupou quase metade desse tempo magnífico que agora se comemora com alegria. Logo o deputado do Bloco de Esquerda, Pedro Soares, se insurgiu: «esta iniciativa obriga alunos menores a serem actores de um acto laudatório e acrítico de uma página negra da História de Portugal». Concordo. Não gosto de ver as crianças de Aveiro assim vestidas. Mas, quando se procura a verdade, arriscamo-nos a não gostar da descoberta.
Há meses, apelei a António Costa, na Assembleia Municipal de Lisboa, para que aproveitasse este Centenário para comemorar «100 anos de República» e não «100 anos de propaganda». É uma ocasião única para promover a investigação, a publicação e divulgação do que realmente aconteceu neste período (post anterior «A República de António Costa»). Entre os estudiosos, Rui Ramos tinha feito o mesmo repto contrastando com o cepticismo de Vasco Pulido Valente, António Barreto e Filomena Mónica, que nada esperam de bom destes festejos.
Na altura, o Presidente da CML reagiu com humor e agressividade. Fico com o primeiro enfoque mas não deixo passar esta maré que nos sai cara e que foi lavrada por um protocolo entre a Câmara de Lisboa e a Comissão para as comemorações do Centenário.
Nesse sentido, vi nos Paços do Concelho a exposição «O jogo da Política Moderma!», desenho humorístico e caricatura na I República. Lá estava, logo na primeira frase da brochura, a irresistível propaganda: «A I república trouxe consigo a explosão das práticas de humor social e político». Nem Bordalo escapa! Ignora-se que uma das armas contra a Monarquia, antes de 1910, foi precisamente a prática intensiva de humor social e político. Uma prática que podia acontecer porque havia liberdade de imprensa. Pelo contrário, depois do 5 de Outubro, instalou-se um regime de partido único e a liberdade de imprensa foi uma das primeiras vítimas da Revolução.
Se quiséssemos falar verdade nesta exposição da CML, deveríamos poder ver, igualmente, o encerramento dos jornais monárquicos ou de facções republicanas que não estiveram, a cada momento, com a situação e que tentavam publicar a «explosão das práticas de humor social e político». Também a actividade da censura deveria estar ai retratada uma vez que, como se sabe, não foi exclusiva do Estado Novo.
Tal como na história do Rei vaidoso, venham de novo as crianças, agora vestidas de Mocidade Portuguesa, com o único mérito de dizerem: «A República vai nua!».

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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Valores, poder e interesses

Neste abatido espaço público que invade a Europa encontramos a discussão política crivada de tópicos argumentativos cada vez mais erráticos, desconexos, sem tino. Os argumentos apelam para os perigos, logo, para os medos, ou para o direito, logo para a formalidade. É preciso lutar contra o terrorismo, ou outros novos perigos, ou então temos de seguir as formas do Direito internacional. Discute-se pedagogia (como ensinar bárbaros a não queimar embaixadas, ou então igrejas, ou talvez mesquitas), discutem-se eficácias duvidosas.

Sou tentado a lembrar dois tópicos que me vêm à mente. De um lado a teorização dos regimes políticos dos gigantes Platão e Aristóteles, lembrando que cada forma de regime tem a sua versão degenerada, e uma referência de Thomas Mann no seu diário em meados dos anos 30, lembrando como as populações, e quanto mais politizadas internamente, podem ser cegas para as relações internacionais, que são de poder.

No que me respeita nunca idolatraria a simplicidade pela simples simplicidade, se isso significa empobrecimento. Mas para meu uso interno, e sinto-me bem acompanhado na História, parece-me que a política só se pode analisar de forma completa caso se tenham em conta os valores, mas igualmente os interesses e o poder. Em cada facto político de relevo (não falo do anedótico ou do meramente tribal) pergunto-me que valores se defendem, que interesses se protegem, que equilíbrio de poder se gera. Parece-me simples e bastante completo.
Um dos problemas do século XX (a que pertencemos e que não abandonámos ainda, por mais que propaganda contrário diga o inverso) é o unilateralismo. Uns apegam-se aos valores como se de religião se tratasse. Outros vêem tudo como um jogo de interesses. Outros ainda vêem sede de poder. Análises em que confluem todos estes aspectos são escassas.

O problema é que cada uma destas formas, quando vistas unilateralmente, geram formas degeneradas de se compreender a política.

A obsessão com o poder gera a crueldade desabrida. Os Europa o exemplo máximo é o do nazismo, ou por forças exteriores a ela, a de muitas conquistas: hunos, turcos, tártaros, mongóis são movidos por ânsia de poder no seu estado mais destilado. A degeneração da política em simples poder gera a soberba grosseira, a cegueira, a falta de testemunho e uma vitória fugaz. Não deixa marca, não deixa rastro, não deixa boa memória. É a política dos soldados de fancaria.
A obsessão com os interesses gera a mesquinhez grosseira, acabando muitas vezes num jogo pelo puro prazer do jogo, em que se envolveram com frequências diplomacias europeias da época Moderna. O jogo de espelhos caracteriza-a, e acaba por lhe destruir qualquer sentido útil. É a política dos fanqueiros de pacotilha.

A obsessão com os valores gera a cegueira perante os modos de realização a longo prazo, e acaba por redundar no mero formalismo do cumprimento dos rituais da ordem nacional e internacional, num discurso tartufo, beato, que desemboca sempre na vida pobre do homem que é o mero Direito. É a política dos juristas de feira.

Mas ter poder em si mesmo é essencial. Sem poder não há liberdade empírica. Poder é poder decidir, poder fazer o que se quer, poder dar prevalência aos nossos interesses quando assim entendermos. Os interesses em si mesmos não são pecaminosos. Uma criatura sem interesses é não só desinteressada, mas sobretudo desinteressante. Ter interesses é “estar entre”, “inter esse”. Quem não defende os seus interesses, quem não os tem claros, não sabe onde está e é bem capaz de ser obrigado a abandoná-los. Os valores não significam apenas numa versão piegas de cristianismos de substituição, uma lacrimejante postura perante o mundo. A confiança em si, o orgulho no que se é, a ambição, são igualmente valores que a Europa soube cultivar durante milénios.

O problema é de definir o espaço relevante desta tríplice união. Quem o assenta no Estado nacional poderá faze-lo se for chinês, americano ou indiano. Se for europeu reduz-se à impotência. Este simples teste mostra-me que o espaço nacional não pode ser na Europa o principal centro de formação de poder, sob pena de impotência.

Se assim é, resta saber se existem interesses comuns que sejam mais importantes que as fronteiras nacionais. Porque sem eles qualquer união de poderes fica vazia de motivo. E os europeus têm mais interesses em comum que divergências. Participam dos mesmos fenómenos de sociedades, dos mesmos problemas demográficos, da mesma situação geográfica, das mesmas ameaças, políticas, étnicas e económicas. No entanto, se junto ao meu vizinho puder ser mais forte e tiver interesses partilhados, pouca solidez tem esta construção se não se basear em valores comuns. Os interesses têm o problema de serem muito variáveis na sua configuração concreta e por isso é natural que, vistos na perspectiva curta, sejam muitos diversos dos do meu vizinho. Só posso aceitar sacrificar interesses de curto prazo se vir que existem outros de longo prazo que merecem esse sacrifício.

Mas se o jogo se basear apenas em interesses, dificilmente posso fundar uma realidade tão irracional quanto uma unidade política. Porque, convenhamos, uma medida de política é sempre irracional em muitos aspectos. Todos os que têm alguma diferenciação sentiram mais afinidades com pessoas de outras nacionalidade que com a maioria dos seus concidadãos. Um escritor, um amigo, um cientista, um movimento de outros países é-nos mais próximo que o nosso vizinho de prédio. Podemos ter mais interesses em comum com o nosso vizinho mas mais afinidades com alguém longínquo. A nossa vida, e também a colectiva, é feita de união de valores. E os valores da Europa sempre foram mais comuns que diversos. Os movimentos culturais, de populações, sociais, de sentimentos sempre foram mais ou menos síncronos na Europa. A mútua contaminação desde sempre existiu. E esses valores comuns só numa perspectiva limitada se poderiam reduzir à democracia, à economia de mercado ou a estruturas jurídicas. O que de melhor há na vida vai para além disso. E fazer uma união apenas com base em instrumentos é apenas empobrecedor.

O facto de o discurso político não saber integrar estas três frentes mostra mais uma das vertentes da infantilização do espaço público, tratando os destinatários como atrasados mentais ou meros espectadores de um ballet. Esquerda, direita, progressistas e conservadores e outros conceitos mais ou menos vazios de sentido enchem um espaço falho de reais ideias e vão manchado as páginas dos jornais e distraindo as gentes.
O paradoxo é o de se obrigar o discurso político a um duplo registo: quando são políticos a falar devem falar sobretudo de valores. Quando são comentadores devem falar sobretudo de interesses. Quando muito de poder.

Uma política que não queira poder não existe. É pura farsa. Uma política sem valores é puro capricho. E uma sem interesses é pura perda de tempo. Uma Europa que não se construa segundo estes três eixos é uma Europa feita de lerdos para lerdos, uma canção de embalar contada a crianças por encantadores de serpentes. Imagina-se o que quem as conta julga ter à frente.

O realismo político tem de ter em conta sempre estes três eixos. E num espaço público recheado de anões, apenas podemos exigir que ao menos sejam adultos. E que se abandone a infantilização do discurso. Os seus portadores perdem tempo fazendo-se crianças. E os seus destinatários merecem mais que isso.

Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Conservadores e progressistas

No clássico livro de Kirk sobre o estado de espírito conservador (talvez melhor tradução para o “The Conservative Mind”, que “o pensamento conservador”), surge uma fileira de criaturas, a maior parte das quais decentes, embora nem todas, mas em geral, convenhamos, muito pouco eróticas. Tirando o conde de Tocqueville, esse grande estudioso da democracia e o sempre comovente Burke, poucas personagens me suscitam real interesse. Se o livro não fosse tão centrado no mundo anglo-americano, o que não lhe retira interesse, mas torna-o algo provinciano, poderia referir nomes tão ou mais importantes do pensamento conservador e bem mais excitantes, como Ortega y Gassett, Thomas Mann, Chateaubriand, Popper, Goethe, Baudelaire e De Maistre, cada um no seu género e à sua maneira bons representantes do pensamento conservador.

A primeira ideia popular é a de que não existe um pensamento conservador. Um conservador não pensa, apenas existe. De seguida surge outra ideia difusa, a de que o conservador se opõe ao progresso, logo ao desenvolvimento económico, à democracia. O mundo mais uma vez é simples e está explicado.

Como a destrinça entre a esquerda e a direita, que cheira mais a explicativa do que sabe, a divisão entre conservadores e progressistas é frequentemente artificiosa, fonte de equívocos e pouco útil.

Há basicamente duas espécies de progressistas. Uns definiram de antemão o que seja o Futuro da humanidade. E tudo o que se desvie desse futuro que conhecem por iluminação divina deixa de ser progressista. Atenção porque este futuro foi incarnado por laicos, radicais, comunistas, mas também pelos sacerdotes da economia de mercado e da democracia como forma última e mais perfeita da humanidade. São os progressistas escatológicos. A segunda espécie de progressistas é composta dos que estão insatisfeitos com o que existe só porque existe. Por isso aceitam qualquer mudança. O facto de ser mudança já é bom. São os progressistas fracturantes.

Há igualmente duas espécies básicas de conservadores. Uns reconhecem não apenas coisas boas no passado, mas crêem que a vida é tradição, ou seja, passagem de testemunho. São os conservadores tradicionalistas. Outros recusam a mudança porque o passado é sempre melhor que o futuro. São os conservadores passeístas.

A destrinça entre conservador e progressista tem a ver com a relação do homem com o tempo. Nada tem a ver com a destrinça entre revolucionários e reformadores. Houve revoluções conservadoras e mesmo reaccionárias (Savonarola, Juliano o Apóstata) e reformas notoriamente progressistas (as de Bismarck na Alemanha ou as de Adenauer ou De Gaulle). A grande diferença entre um revolucionário e um reformador tem a ver não com o tempo directamente, mas com a velocidade.

Se conservador e progressista são conceitos que têm a ver com o passado e o futuro questão diversa é a que os distingue em relação ao presente. Os dois extremos que definem esta distinção encontram-se nos reaccionários e oportunistas. O reaccionário é o que nega o presente, seja em nome do passado ou do futuro, o oportunista é o que o aceita por uma ou outra razão. Oportunista é um conceito francês do século XIX, como tantos outros em uso na política, e que não tem a carga negativa que depois se deu. Oportunista é o que aproveita a oportunidade, embora tenha de se reconhecer que tipicamente o faz sem grande elegância.

Existem por isso toda a espécie de combinatórias nesta matéria. Há conversadores oportunistas e reformadores (Disraeli e Bismarck), reaccionários revolucionários (conservadores como Mao Tse Tung ou progressistas como Robespierre), progressistas reformistas reaccionários (como Thatcher) e assim por diante.

O grande problema é que estas destrinças mais uma vez têm um significado político muito variável e muitas vezes o mesmo projecto é defendido por conservadores e progressistas de toda a espécie. É esse o caso do projecto europeu.

Quem são os conservadores? A resposta a esta pergunta mostra a vacuidade do conceito. Conservadores são os de da esquerda à direita defendem um conceito de Estado-Nação forjado no século XIX. Conservadores igualmente os que defendem uma Europa meramente burocrática tal como criada nos anos de 1950. Conservadores o que em França lutam pela manutenção dos acquis sociaux. Mas igualmente os que em Inglaterra pretendem manter uma concepção de mercado construída um quarto de século antes. Conservador Brejnev que tenta manter a gerontocracia no poder. Conservadoras as democracias que se pretendem impor como modelo ao mundo. Conservadores os que da esquerda à direita têm uma concepção da Europa baseada no fim dos anos de 1940, em que a Europa é a Europa NATO, e em consequência querem a Turquia na União Europeia. Conservadores estes e tantos outros que em miscelânea vaga se comprazem de tudo e de coisa nenhuma.

Progressistas, conservadores, reformistas revolucionários, oportunistas e reaccionários são todos eles conceitos ligados ao tempo de uma forma ao de outra, ao passado ao presente, ao futuro ou à velocidade. Nada nos dizem sobre conteúdos. Têm a vantagem sobre as ideias de esquerda e direita, que em si nada dizem e apenas resultam de falta de imaginação topológica, de ao menos em cada época histórica nos permitirem definir um movimento, um vector, se se quiser. Mas exactamente por isso nada nos dizem sobre os conteúdos que se defendem. Defender a protecção social é progressista no século XIX, conservador no XXI. Defender o mercado pode ser progressista ou conservador consoante os momentos históricos.

É evidente que colocado em cada momento histórico e em cada situação ser conservador ou progressista ou revolucionário e assim por diante não é irrelevante. Como figuras vectoriais que são podem ser muito importantes para conformar as vidas das pessoas, para lhes modificar a maneira de estar, de viver, de sentir. Mostram direcções e sentidos sob o ponto de vista geométrico, denotam forças em acção. Mas mais uma vez nada dizem sobre para onde nos dirigimos, o que queremos, o que nos interessa, o que nos move.

No entanto, têm sido estes os conceitos sobre os quais se tem construído o discurso político dos últimos duzentos anos. Sobre meras metáforas temporais ou espaciais primitivas como estas se tem tentado dar algum sentido ao discurso político, quanto nenhum destes conceitos transporta em si nenhum sentido. Se conseguíssemos transformar o discurso em imagens teríamos como que um ballet em que uns se dirigem mais para um lado da cena e outros para outro, uns saltam mais depressa, outros fazem piruetas, outros ainda aceitam o solo em que pisam, ou outros ainda pretendem escapar à força da gravidade. Conceitos mais potentes pelo fascínio que concedem que pela sua força explicativa, mostram um discurso político que se resguarda em meros símbolos e perde todo o contacto com a realidade.

Mas tendo eu criticado as mais simbólicas traves mestras do discurso político da nossa época longa, vejo-me obrigado a fornecer uma alternativa. Para quem queira ver a política com olhos adultos, ela tem de se basear numa tripla ideia: poder, valores e interesses. É sobre esses três eixos que toda a política deve ser analisada, e no caso que me interessa, a política europeia. É pois de um discurso político adulto que tentarei tratar da próxima vez.



Alexandre Brandão da Veiga

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