domingo, 2 de maio de 2010

«O Vietname não é uma guerra. É um País»

Sempre que penso em Saigão, lembro-me da versão do Apocalipse Now, dobrada em castelhano, que a TVE passou talvez no final do ano de 79 ou 80. Nas primeiras cenas, ao som das pás de um helicoptero, com a imagem de uma ventoínha de tecto, o personagem abre a janela do quarto e diz: «Saigón, mierda». Nada como o castelhano para transformar uma tragédia em comédia.
Neste fim-de-semana, passam 35 anos sobre a queda de Saigão. E, tal como na dobragem da fita de Coppola, o drama desse tempo foi tomado pelo seu contraste.
Atravessei recentemente o País. De Norte a Sul procurei nas amabilíssimas caras de cada vietnamita o ódio de um vietcong disposto a matar-me devagarinho, como mostra a indústria de hollywood. Nada feito. Procurei então os sinais opressores do regime tuletado pela União Soviética, mesmo depois de 75, quando o perigo conheceu as cores do Camboja, sob o peso da China. «O Partido Comunista atrapalha as vossas vidas?», pergunto a Kuang, à saída de Ha Noi. «Ainda não convém fazer manifestações sobretudo quando se discorda», e adianta: «Mas a maioria dos vietnamitas está muito ocupada a trabalhar para as suas vidas».
A lei da sobrevivência, a ausência de um tecto oficial (no emprego, na saúde ou na segurança social) e, sobretudo, a pujança do crescimento económico no País tornam possível e desejável a cada vietnamita a realização do verdadeiro sonho americano, na sua terra.
No more boat people. No more kiling fields. A iniciativa privada é lei. Os grandes investimentos no Turismo - pagos por chineses, franceses, autralianos e sulcoreanos - são secundados por milhares de pequenos negócios de roupa, comida, transportes, pesca ou turismo, à mão da nova ambição vietnamita. Ao luxo asiático soma-se o requinte francês. No restauro da Ópera de Ha Noi ou na recuperação dos melhores hotéis da viragem dos séculos XIX-XX. Ali se come o mais fresco fois ao som de Aznavour, «Non Je n'ai rien oublié, rien oublié». Uma pequena multidão de franceses, nostálgica do seu breve império (1850-1954), garante o negócio: «Pour un flirt avec toi je ferait n'importe quoi», canta Michel Delpech, enchendo a pista de dança...
Dizem os estrategas que «o vencedor é, muitas vezes, assimilado pelo vencido». O Vietname será hoje um bom objecto de estudo. Os veteranos de guerra norte-americanos voltam aos campos de batalha com os guerreiros viets. Querem deixar escritos os nomes numa pedra. Vivem memórias em comum: «Nós estávamos aqui quando vocês nos atacaram». Recuperam os postos no terreno, sem agressão. Tudo é mais fácil desde que Bill Clinton visitou Ho Chi Min, em 2001.
«Quem é hoje o vosso inimigo?» pergunto em todas as conversas. «A China!» respondem, sem hesitar. A memória do apoio dado pelos chineses aos Kmers Vermelhos no abate da elite viet, há 30 anos, é refrescada agora pela disputa de duas ilhas junto à fronteira, perto da magnífica Baía de Ha Long. Vale a pena percorrê-la num Junco, ali dormir entre os penhascos que emergem do mar e pensar que aquele cenário de sonho está imune a quaisquer conflitos. Tal como vem escrito, talvez na revista do avião, para informar os incautos: «O Vietname não é uma guerra. É um País».

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sexta-feira, 30 de abril de 2010

O desprestígio dos criadores II


Comecemos pela primeira causa. A pretensão soberana abusada. Poeta, criador, existem ligações semânticas entre um e outro conceito. Ou porque revela, ou porque põe o que não estava antes, o criador é um exercitante de poder. A grande arte é sempre uma forma de soberania.

O romantismo tem má fama e provavelmente justa em alguns países latinos onde passou apenas pela via do sentimento e sem a elaboração teórica germânica, bem mais racional e estruturada do que se conhece em terras meridionais. Mas tem de se reconhecer que teve um efeito perverso que se mantém até hoje em dia: a presença do autor na obra de arte. A sua marca é inevitável, a sua presença não. Ora quando o discurso e a prática dão ênfase ao autor em demasia, o soberano entra apenas porque entrou como soberano. Não para fazer justiça, não para corrigir o mal, não para servir. Apenas entra, em representação.

Isto já de si criaria risco, mas pode ser necessário. Os senhores da Flandres, da Borgonha e depois da Bélgica, faziam as "Joyeuses Entrées", os reis medievais peregrinavam nos seus reinos. Essa presença do soberano é importante em certas situações. Mas fazer essa peregrinação sem ter consciência dos riscos é apenas temerário.

Mas associada a esta pretensão soberana ocorrem dois fenómenos que vêm aumentar o seu risco: a democratização da soberania e o triunfo do excesso.

Quando um Mozart ou um Beethoven, ou mesmo um Balzac lutam pelo estatuto do criador, fazem obra útil numa sociedade que os valoriza cada vez mais, mas lhes deixa pouco espaço de liberdade e ainda não lhes confere o estatuto que mereciam. Mas ao longo do século XIX o estatuto do artista vai em crescendo até que chegamos à primeira metade do século XX e atinge o seu apogeu.

O artista sente-se no direito de imperar sobre a sociedade, de lhe orientar não apenas os gostos, mas o modo de vida e as decisões políticas. Se o génio antes era injustamente tratado pela sociedade, passa-se rapidamente do reconhecimento pela sociedade ao abuso pelos artistas.

O artista torna-se insaciável, tirânico, quer cada vez mais ser idolatrado. E cada vez expressa mais o seu desprezo pela sociedade, que seria ignorante, incapaz de apreciar o seu valor, indigna para receber as suas migalhas. Não se espante por isso o artista que o feitiço se tenha virado contra si. De tanto desprezar passou a ser desprezado. As pessoas não gostam de ser permanentemente chamadas de ignorantes, de intranscendentes, de filistinas. O povo fartou-se e o soberano é apupado nas ruas. Há alguma justiça poética nisso.

Mas para o desprestígio dos autores conta também a democratização da soberania. Todos quiseram ser artistas, criadores, autores. E, para o poderem ser, desvalorizam a possibilidade de grandeza. O que os fez subir é o que os faz objecto de desprezo. Se qualquer um pode pretender ser artista ser artista, esta é tarefa para qualquer um.

Abusaram pois da soberania duplamente. Abusando do poder que lhes dava, e subindo graças ao seu desvalor. Não se pode pois acusar as populações de desprezarem de modo mais ou menos clandestino ou público os criadores. Não se gera respeito desprezando.

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quinta-feira, 29 de abril de 2010

O desprestígio dos criadores I






Não é novidade para ninguém. No entanto, por vezes faz-se de conta que não se repara. Os criadores caíram em desgraça. Escritores, pintores, escultores, filósofos são todos metidos no mesmo saco, relegados para a sua irrelevância.

Passa-se um pouco com os criadores como o que se passou com a antiga nobreza. Suscitam alguma inveja, mas são desprezados por terem perdido poder e em muitos casos autoridade. Por vezes tem de se engolir em seco perante a sua grandeza, mas nada socialmente força a que o respeito se manifeste. A inveja pode exsudar pela porta da igualdade.

A versão oficial não é essa. A cultura é muito importante, a criação cultural é fundamental. A continuam as laudas. São convidados como os antigos representantes das casas reais e senhoriais, como um elemento de prestígio, uma nota de magnanimidade, mas são irrelevantes na tomada de grandes decisões. Pior ainda: deixaram de ser respeitados e muito menos objecto de grande admiração.

O fenómeno é mais importante do que parece, e revela muito do que o nosso tempo é, do que ganhou em lucidez amarga e do que perdeu em capacidade de admiração, ou seja de possibilidade e vontade de avançar.

No que me respeita creio que esta situação tem três causas: uma pretensão soberana abusada, a comercialização da criação e do criador, e a banalização da superioridade. De uma forma ou de outra a responsabilidade encontra-se nos próprios criadores, do mesmo modo que os reis destronados podem ser vítimas de azar, mas os regimes que caem são geralmente vítimas da sua fraqueza interna.

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Sol na eira e chuva no nabal













Ontem, parte dos Deputados Municipais do Partido Socialista não votou favoravelmente uma moção de boas vindas ao Papa Bento XVI. Fez assim companhia ao Partido Comunista Português e ao Bloco de Esquerda.
Está no seu direito. Resta saber se os Lisboetas também não estarão no direito de saber quais as razões que levaram os deputados a não serem favoráveis ao acolhimento do Chefe de Estado do Vaticano.
Importa saber se um gesto tão agressivo para com mais de 88% da população católica do nosso País não deveria ser justificado.
Não. Isso seria dar o flanco. Exibir o complexo, a ignorância ou a aversão. Por respeito aos meus colegas da Assembleia Municipal de Lisboa, penso que terá sido por aversão à visita do Papa.
Mas lá está outra parte do PS a votar a favor para garantir que não é um dogma partidário. E lá estará no acolhimento António Costa, com a chave de ouro da Cidade, com um discurso de boas-vindas, para assegurar que não há qualquer desrespeito pelos sentimentos religiosos da maioria do Povo português.
O texto da moção não podia ser mais laico e socialista. Até citava José Sócrates, no mês passado, à porta da Mesquita: «O Estado português é um Estado laico mas não somos uma sociedade laica» (esquecendo-se de dar os direitos de autor a Sarkozy). Nessa altura, nenhum Deputado do PS se manifestou contra. Porque se tratava de outra comunidade religiosa que não a Católica ou porque foi dito pelo líder.
Talvez tenha razão quem, há dias, me explicava assim a aversão de alguns à Igreja: «São pessoas que odeiam as origens dos Pais que eram católicos e usavam naperons. Pensam que alcançam a modernidade se odiarem a Igreja e se não tiverem naperons». Não irei por aqui, literalmente. Mas incomoda-me esta maneira de estar que não é contra, muito menos a favor; que agride mas não assume a agressão; que quer ter uma quota no ateísmo jacobino mas também vota a favor; que usa o punho fechado e a rosa, conforme convém.

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segunda-feira, 26 de abril de 2010

Há um ano


Faz hoje um ano que um dos nossos foi feito Santo.
Parte da Igreja temeu chamar-lhe herói.
Parte do Estado (PR e PM) temeu assistir à Canonização.
Foi preciso um Papa alemão para lhe chamar herói e santo. Afinal, como o Povo desde sempre lhe chamou: Santo Condestável.
Excertos da Homilia de Bento XVI a 26 de Abril de 2009, em Roma:
«Sabei que o Senhor fez em mim maravilhas. Ele me ouve quando eu O chamo» (Sal 4.4).
Estas palavras do salmo responsorial exprimem o segredo da vida do bem-aventurado Nuno de Santa Maria, herói e santo de Portugal. Os 70 anos da sua vida situam-se na 2ª metade do século XIV e na 1ª do século XV que viram aquela nação consolidar a sua independência de Castela e extender-se depois pelos oceanos - não sem um desígnio particular de Deus - abrindo novas rotas que haviam de propiciar a chegada do Evangelho de Cristo até aos confins da terra. (...)
Características dele são uma intensa vida de oração e absoluta confiança no auxílio divino. Embora fosse um óptimo militar e um grande chefe, nunca deixou os dotes pessoais sobreporem-se à acção suprema que vem de Deus. São Nuno esforçava-se por não pôr obstáculos à acção de Deus na sua vida. (...)
No ocaso da sua vida, retirou-se para o convento do Carmo, por ele mandado construir. Sinto-me feliz por apontar à Igreja inteira esta figura exemplar nomeadamente pela presença de uma vida de fé e de oração em contextos aparentemente pouco favoráveis à mesma, sendo a prova de que, em qualquer situação, mesmo de carácter militar e bélica, é possível activar e realizar os valores e princípios da vida cristã, sobretudo se esta é colocada ao ao serviço do bem comum e da glória de Deus».

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O Pirata de Estado


Leve, livre e certeiro o discurso de José Pedro Aguiar Branco foi o mais revolucionário do 25 de Abril de 2010.
Falou quem nada tinha a perder: nem a fama, tão arreigada, da burguesia conservadora do Porto, nem a liderança do PSD nem um futuro ministeriável com Passos Coelho, aparentemente garantido.
Aguiar Branco pirateou os autores e os símbolos «de esquerda» como um corsário com «cem anos de perdão» que resgatou dos abusadores oficiais o que era de todos e que era seu.
Neste sentido, foi «ladrão» que «roubou a ladrões»: atreveu-se ao cravo encarnado e à citação de figuras históricas que o próprio Partido Comunista Português evita. E gozou, com deleite, a alergia da esquerda à palavra Pátria, que também é de todos e não apenas da Direita. Neste caso, dividiu magnanimamente o saque da pirataria que fez em todos os navios.
No alto da sua gravata às riscas, exibiu com humor a verdadeira sede e os actores do preconceito. Demostrou que o estar e o verbo pseudo-libertos da esquerda mais não são do que grilhões inamovíveis de ideias feitas de uma gente que registou patentes que não lhe pertencem e se deixou enclausurar nesse bafio. Pelo meio, disse o que tinha a dizer sobre o País, com clareza e sentido de Estado.
Gostei a valer.

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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Orgulho e preconceito




Na mesma semana, Mário Soares diz que a Descolonização do Ultramar português foi «a melhor possível» e Irene Pimentel anuncia que afinal descobriu uma «relação tensa» entre Salazar e o Cardeal Cerejeira.
Ambos se atravessam na história assinando a memória futura.
Soares, sabe-se, tem coragem física. Mais do que isso, tem um discernimento político invulgar que lhe abriu caminho para a corrida a Belém, em 1985, com 8% das intenções de voto e que me deu algum descanso enquanto foi Presidente da República durante a hegemonia cavaquista. Foi um dos homens que enfrentou tenazmente a ambição comunista, em 1975. Mas cedo aceitou, sem contestar, o isolamento desse protagonismo político. Ora quem tenha a memória limpa de vaidades, sabe, por exemplo, que foi José Manuel Casqueiro quem travou a Reforma Agrária, de pé, na estrada, junto a Rio Maior. Sabe que foi o Bispo de Aveiro quem tocou os sinos, semanas a fio, desencadeando a resistência do Norte. Sabe que também Sá Carneiro estava na Fonte Luminosa e que boa parte da multidão na Alameda o seguia, e não a Soares. Sabe que, com todos os equívocos, foi Freitas do Amaral quem integrou na democracia uma direita prejudicada e revoltada. Sabe que foram os católicos, e não os laicos, que defenderam o Patriarcado, no Campo de Santana, do cerco da vanguarda de esquerda. Sabe que os «Nove» militares que assinaram o documento no Verão Quente arriscaram a pele, como devem, e que Eanes conduziu com coragem e mestria o contragolpe do 25 de Novembro que nos restituiu a democracia. E sabe que foi Mário Soares quem conduziu uma descolonização muito difícil e miserável. Os próprios líderes africanos estranharam a facilidade da entrega que sacrificou milhares de colonos e de autóctones e que favoreceu inequívocamente a vantagem soviética no xadrez da Guerra Fria. Não é preciso passar à história sem mácula. É preciso passar com verdade.
A mesma verdade que Irene Pimentel agora resgata, tardiamente, depois de ter publicado, sobre o século XX português, um número de obras suficiente para lhe garantir o Prémio Pessoa. Como é possível só agora ter ficado surpreendida com as divergências entre o Presidente do Conselho e o Cardeal-Patriarca de Lisboa? Não conheceria a correspondência entre ambos? Não teria avaliado os dados, para além da história ideológica do Estado Novo e da esquerda pós-Abril?
Irene Pimentel espanta-se com o «casamento difícil» e a «relação muitas vezes tensa (de Cerejeira) com o amigo de Coimbra». E louva a forma destemida como o prelado se opôs à presença da Juventude hitleriana num evento em Portugal ou como, em 1938, falou de uma forma moderna sobre os totalitarismos. O seu livro mais recente, nas palavras de José Manuel Fernandes, «revela um Cardeal bem diferente do que a historiadora imaginava antes de iniciar a investigação». Antes tarde.

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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Existem ciências humanas?

Mantenho a regra de não citar medíocres. E se lhe vou citar o nome é exactamente por não o achar um medíocre. O Professor António Manuel Baptista fez muito pela ciência em Portugal. Defendi a sua posição quando era atacado por pós-modernos sobre a absoluta relatividade da ciência.

E não me posso esquecer o que lhe devemos quando a divulgação científica quase não existia em Portugal. Tirando um livro de Bento Jesus Caraça, maravilhosa introdução à matemática, e mais uns poucos livros esparsos, pouco havia em Portugal que nos fizesse aceder à ciência. Na altura não existia Gradiva nem editora equivalente. A Cosmos ia publicando o que podia, com os meios que tinha, mas reconheçamos que a divulgação científica foi paupérrima em Portugal até há pouco tempo.

O Professor António Manuel Baptista era das raras luzes nesta escuridão total que era a ciência no espaço público português. E, não menos importante que isso, lembro-me da sua probidade intelectual. Uma vez propôs num programa o conceito de “dialéctrico” em vez de dieléctrico porque estaria mais de acordo com o “dia-” grego (“através de”) e não com o “di-“, sinal de dualidade. Um espectador corrigiu-o e teve a honestidade de reconhecer que tinha cometido uma calinada filológica. Um cientista é assim. Está mais preocupado com a verdade que com o seu orgulho de quinta.

É por isso recordando essa gratidão e esse respeito que o critico ferozmente agora. Afirmou há pouco tempo que não existiam ciências humanas. Ciências são as ciências naturais. O problema é que esta frase talvez decorra da irritação perante as fraudes nas ciências humanas, o que se compreende, mas peca a vários títulos por desconhecimento e incoerência.

Em primeiro lugar, o que incluímos nas ciências naturais? A matemática? Assim sendo, temos de reconhecer que tem uma estrutura e métodos bem diversos das outras ciências ditas naturais. Que as outras usem a matemática não invalidada este facto. Uma demonstração matemática é diversa de uma demonstração física. Assim sendo Hilbert seria bem mais idolatrado que Einstein. A matemática não é uma ciência natural. Seria ciência na acepção desejada?

Em segundo lugar, as ciências naturais incluem a química e as ciências da vida? O problema é que se é possível operar uma redução da química à física e da biologia à química em grande medida, nem na aprendizagem, nem na História do seu desenvolvimento, nem nos conteúdos, esta redução explica tudo.

Tanto a química como a biologia nasceram como ciências naturais, efectivamente naturais, ao contrário da física, que aliás só no fim do século XIX aparece como conceito usado em toda a sua generalidade. Basta vermos os manuais e enciclopédias do início do século XX onde ainda é comum separar a mecânica ou o electromagnetismo da física por exemplo.

A química e a biologia, para simplificar, surgem em grande medida como fruto de indução erudita, e nesse aspecto na sua génese estão mais próximas da filologia clássica ou da gramática na sua História. Os mineralogistas do Norte da Europa que classificam minérios, os naturalistas que procuram tipologias morfológicas, trabalham mais próximo dos filólogos que dos matemáticos. O seu esforço de recolha, sistematização e ordenação está mais intimamente ligado ao mecanismo filológico, se se quiser aristotélico, que platónico, o que forma a física. O grande erro, pelo menos estratégico, de Goethe foi o de querer impor à física este mesmo método morfológico.

Em terceiro lugar, os mecanismos da própria demonstração matemática encontram a sua origem, pelo menos parcialmente explicada por Serres, na argumentação judicial grega. A demonstração matemática grega quer-se imbatível, inatacável, e vai beber pelo menos em parte ao advogado rigoroso e obsessivo parte do seu modo de pensar. Sei que muitos matemáticos não ficarão muito satisfeitos com origens menos nobres da sua ciência, mas todas as grandes linhagens começam em algum lugar.

Em quarto lugar, a matematização de algumas ciências humanas começa antes da aplicação dessa metodologia à biologia por exemplo. Na indo-europeística Grassman, o grande matemático alemão, descobre as estruturas matemáticas das isoglossas antes de se pensar em estudar biofísica e muito antes de alguém pensar usar teorias de grupos na química ou na biologia. A indo-europeística, ciência de língua, teve historicamente um comportamento bem mais próximo da física que muitas áreas da biologia, com previsões que se relevaram acertadas.

Em quinto lugar são ciências humanas que levam os cientistas a ter conhecimento de muitos dos seus pressupostos. Não fora o longo estudo da ciência grega e moderna feito em grande medida por cientistas com abertura para isso (Paul Tannery é o único autor a quem Willamowitz chama de “amador de génio”), muito do desenvolvimento da mecânica quântica não se compreenderia. Heisenberg não tinha medo de se inspirar nos clássicos. E físicos existem em que a obra histórica e a criação científica se alimentam intimamente, como Duhem e Mach.

É evidente que as ciências não obedecem aos mesmos protocolos e infelizmente nem todas têm os mesmos mecanismos de controlo. As ciências humanas têm oferecido lugar à pulsão ideológica, quando não a algo bem pior, a pura e simples converseta. A facilidade e a desonestidade campeiam frequentemente, estuda-se o autor do Burkina Fasso em versão traduzida, apenas porque nunca se foi capaz de estudar Juvenal. Estuda-se a época contemporânea para fugir ao latim ou então acha-se bastante viver de traduções para dissertar sobre a época clássica. Em nome da integração da subjectividade o antropólogo faz panfleto em vez de obra de ciência e o sociólogo esconde por detrás de estatísticas a sua incapacidade de compreender o que os números dizem.

As fraudes existem em toda a parte mas há que reconhecer que nas ciências humanas os seus mecanismos de controlo não são tão apertados quanto nas ciências ditas naturais. É verdade.

Mas é igualmente verdade que a História da ciência está repleta de resultados que, justamente ou não, são votados ao desprezo. O flogisto na química, as sangrias na medicina, o éter na física são bons exemplos disso. Nem a matemática escapa a esses fenómenos ideológicos. Thom é criticado pela sua teoria das catástrofes e a tendência para a aberração e é em parte graças a ele que existe a teoria dos fractais. Os números imaginários são o horror dos matemáticos e sem eles não haveria boa parte da obra de Cauchy. A lista de perversões na psiquiatria do século XIX faria sorrir um especialista actual.

A História da ciência não é isenta de erros, mas mais importante que isso, de preconceitos ideológicos de toda a espécie. Cientistas naturais e humanos (para usar esta distinção) são homens integrados na História, nela vivem. Far-se-iam livros sobre os múltiplos snobismos, medos e obstáculos ideológicos sobre esta História. O “hypotheses non fingo” de Newton não é afinal a sua maior, mesmo que parcialmente, mentira?

É igualmente verdade que é apenas a incultura da nossa época que não permitiu uma maior aproximação da matemática e das ciência humanas, na História por exemplo. O argumento do concreto tem o valor que tem. Se é verdade que Dante não pode ser metido numa equação, uma pedra também não o pode ser. A física não estabelece relações entre calhaus mas entre conceitos cuja experimentação (eventualmente até com calhaus) permite controlar.

Mas que daí se diga que não existem ciências humanas parece-me que se está a dar um grande passo. Toda a ciência é uma tentativa mais ou menos bem conseguida. E as diferenças de sucesso podem ser imensas, reconheço-o. Mas senhor professor, em relação ao qual o respeito e a gratidão são sinceros, lembro-lhe que já há anos teve a honestidade de reconhecer a correcção por um classicista quando usava um conceito científico. Também nas ciências humanas não vale tudo. Também nas ciências humanas há fronteiras bem definidas do erro, embora haja outras menos difusas. Podemos discutir a justeza do conceito de caso. Mas um instrumental nunca será um nominativo, mesmo que em polaco possam ter usos estranhos para uma língua latina. Mas para o saber, é preciso aprender: as boas das ciências humanas.






Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Fúria de viver

As reportagens do dia mostram a Festa da Flor na Madeira com ruas e lágrimas secas.
Presto homenagem àquela raça de portugueses que parece ter herdado melhor o sangue que nos levou para o Atlãntico. E retomo a manchete que o DN fez, três dias depois da tragédia, com o azul do céu, do mar e da piscina, sem uma gota da lama. O título - «Madeira começa a regressar lentamente à normalidade» - peca por defeito perante o rápido brilho da festa da flôr que hoje anima a ilha.
Na Divina Comédia, Virgílio dirige-se aos preguiçosos do Purgatório explicando a Dante: «esta gente pecou por lento amor». Dir-se-ia que os madeirenses passaram do Inferno ao Paraíso pela virtude do amor que não pôde esperar.

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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Esquerda e direita

Em Bizâncio dividiam-se os verdes e os azuis. Inicialmente eram apenas partidos desportivos, equipas de aurigas. Transformaram-se em partidos religiosos (uns monofisitas, outros ortodoxos), políticos (uns representando o centro do império, outros as províncias), sociais (uns representando as classes mais baixas outros as mais altas). Misturaram-se, fizeram alianças, e ao longo do tempo as destrinças iniciais perderam-se. Na Itália medieval Guelfos e Gibelinos combateram-se. Uns a favor do papa, outros a favor do imperador, mas dividiram-se e misturaram-se de tal forma que tivemos votos em sentidos contrários dentro de cada partido. Monárquicos e republicanos, destrinça fundamental. Mas seria talvez bom lembrar que há mais semelhanças entre a monarquia espanhola actual e a França actual que entre a república francesa e a republicana Alemanha nazi ou a Rússia comunista.

A substância das destrinças politicas visíveis teve desde sempre uma eficácia histórica reduzida. Na melhor das hipóteses são quando muito seculares, nunca atingem o milénio. Na História da Europa apenas duas ideias são milenares: o império (romano e seus herdeiros) e as liberdades, sob o fundo cristão e pagão indo-europeu.

É evidente que não temos de desprezar algo só porque não é milenar. Mas algum sentido de justiça leva-nos a considerar a relatividade do seu valor. A ideia que ainda impera como centro de discussão na Europa (talvez menos noutros continentes) é a que separa a esquerda de direita. A voz comum tende a afirmar que é com a queda do muro de Berlim que acabam as ideologias ou então que não acabam, quando o fundo da questão não passa por um acto tão simbólico, mas nesta matéria tão pouco significativo. A queda do muro é facto fundamental noutra sede e não pequena: o fim de uma divisão esquizofrénica da Europa.
Vejamos então o que caracteriza a esquerda e a direita, para verificarmos até que ponto se trata de conceitos importantes.

Para uns a diferença é de política económica. A esquerda quer mais Estado, a direita menos. Nesse sentido o critério não se aplica fora da Europa, em que democratas liberalizam por vezes bem mais que republicanos. E mesmo dentro da Europa grande parte das reprivatizações é feita por partidos socialistas. A esquerda radical francesa do século XIX era muito mais liberal sob o ponto de vista económico que Bismarck. Logo Bismarck, um dos grandes criadores do Estado Social, seria de esquerda e os radicais laicos franceses de direita.

Para outros a diferença tem a ver com a política social. A esquerda protege mais as classes desfavorecidas que a direita. Nesse caso de novo Bismarck é de esquerda, Hitler é de esquerda, enquanto as esquerdas europeias modernas, com coloração de fascismo fúcsia, são bem mais de direita, dado que não é prioridade das suas agendas a questão social, mas a moral.

A esquerda é mais livre sob o ponto de vista moral. Usando esta grelha de análise temos que a França do Ancien Régime era à esquerda e a Revolução Francesa foi uma viragem à direita, que a classe mais à esquerda sempre foi a nobreza e a pequena burguesia a mais à direita. O chefe histórico do partido comunista perguntado sobre a homossexualidade evitou responder e, perante a insistência, apenas soube afirmar que “é uma grande tristeza”. A rainha de Nápoles é de esquerda, bem como a sua irmã a imperatriz Sissi, contra o sindicalista britânico que é de direita. A libertinagem foi sempre historicamente um luxo aristocrático, que alguma esquerda sem referências expressas assumiu.

A esquerda é internacionalista enquanto a direita é mais nacionalista. Nesse sentido os movimentos operários historicamente são mais à direita dado que foi o liberalismo capitalista que fomentou o internacionalismo. O cosmopolitismo aristocrático do séc. XVII a XX é de esquerda, sendo os operários russos de direita. Foram democratas cristãos a criar a construção europeia, sendo eles de esquerda portanto e a maior oposição à construção europeia veio da esquerda totalitária, mesmo sob a capa de defensores do internacionalismo. São pois de direita.
A esquerda tem uma visão optimista do homem enquanto a direita tem uma visão pessimista. A diferença seria assim antropológica. Rousseau, que não acreditava no retorno ao homem da natureza era assim o grande antecessor da direita, e a escatologia ortodoxa do império tzarista é de esquerda, porque assenta na divinização do homem (não se conhece destino mais optimista para a humanidade).

A esquerda é mais intelectual, enquanto a direita é mais estúpida. Logo Heidegger era estúpido, Thomas Mann do início, um imbecil, Heisenberg quase um idiota, Richard Strauss um lerdo, Céline um tontinho, como é fácil de demonstrar. A esquerda portuguesa tem o hábito de dizer que a direita portuguesa é a mais estúpida da Europa. O problema é que a observação é da esquerda francesa em relação à sua direita. No que se prova que a esquerda francesa pode ser muito injusta, mas é original, enquanto a portuguesa, mesmo se mais justa, carece de imaginação.
A esquerda é ateia, enquanto a direita é cristã, em geral bem mais crente. Pasolini era homem de direita, o movimento social-cristão tem de ser apagado da História e Hitler e Mussolini eram uns perigosos esquerdistas, assim sendo.

Uma ditatorial observação afirma que quem diz que não é de esquerda nem de direita é sociologicamente de direita. Ou seja, faz-se saltar o conceito da política para a sociologia. De repente existem lados sociais, uns de direita e outros de esquerda seja quais eles forem.

Schopenhauer era um grande conhecedor de óptica, apesar de ser conhecido mais como filósofo. Afirmava ele que alguém que vê só com a esquerda ou só com a direita padece de falta de estereoscopia. Não pode ter a noção de profundidade. Sensata observação. Adoptar uma postura com o custo de perda de lucidez parece-me negócio de fraco ganho.

São conceitos úteis mas divisão do mundo pouco lúcida. Porque varia no tempo. Porque varia no espaço. E porque sobretudo padece de pobreza topológica. São os mesmos que dizem que não vêem o mundo a preto e branco que se apressam a dizer que são de esquerda ou de direita. Não vejo diferença entre um mundo bi-colorido e um outro bi-situado. Se apenas me dão duas hipóteses de vida, parece-me que a concepção de vida muito pobre é em qualquer caso. Cortar o mundo à esquerda e à direita é esquecer a variabilidade do mundo, da vida, do tempo, das pessoas. Esquece que as divisões geram tensões seja corrosivas (tanto pior), seja criativas (tanto melhor), e muitas vezes necessárias. Mas igualmente que os principais problemas, mesmo os políticos, nunca se mediram por essa bitola.

Libertar a França da ocupação nazi, criar o II Reich alemão, construir a Europa, para já não falar de movimentos bem mais antigos, como a criação dos Estados nacionais, a centralização do poder, a criação do império carolíngio, em suma, os mais importantes movimentos políticos, em nada se explicam pela destrinça entre esquerda e direita. Se nada explica fora da política, a esquerda e direita dão explicação apenas fraca a fenómenos políticos de curto prazo. A desonestidade nesta discussão é não reconhecer que a destrinça é simbólica, irracional, precisamente por aqueles que se afirmam mais racionais na análise política.

O problema não está tanto na esquerda e na direita enquanto facto político de natureza simbólica. Enquanto símbolo a sua influência foi bem real e ainda o é. Enquanto ideia a sua potência explicativa é nula. Enquanto não se reconhecer a sua natureza totalmente irracional não se podem perceber dois aspectos bem mais relevantes na política actual. O primeiro: que esquerda e direita são tão importantes, ou menos ainda, que ser guelfo ou gibelino, verde ou azul. O segundo, e bem mais importante, se falarmos de política como valores, interesses e poder, ou seja única forma adulta de falar de política, a grande discussão a ter na Europa é a do poder da Europa, e a construção europeia.

Hilbert, o grande matemático alemão, criou os chamados espaços de Hilbert, com um número infinito de dimensões. A ciência política de vulgo apenas sabe trabalhar com uma. Idolatrar a divisão entre esquerda e direita traduz assim vários vícios. Uma ignorância e estreiteza geométrica. Uma imposição ditatorial ao mundo de dois lados onde ele não cabe em justiça. Uma infantilização e teimosia, salvo raros casos de necessidade histórica, que tão duramente caracteriza o espaço público. “Sou de direita”, ou “sou de esquerda” acaba por ter um odor de birra. Ser de um lado só da vida, que claustrofóbica existência, que folclórica vivência. Uma falta de estereoscopia. E em consequência uma cegueira para os reais problemas de poder, interesses e valores na época actual. Tantos defeitos são apenas poucos para quem gosta de ser pouco.

Alexandre Brandão da Veiga

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A Leste nada de novo



«What diference does it make?! A piece of Poland changes hands, a new prince is established in Austria. Oh it's so boring to worry about things like that!», desabava a Condessa Bezukhov, no «Guerra e Paz», o filme em que King Vidor adapta Leo Tolstoi.
A longa planície de aristocratas, mineiros e camponeses, que é a Polónia, sempre assim foi tratada por qualquer tendência hegemónica. Tártaros, franceses, austríacos, suecos, alemães, turcos ou russos olharam para ali como a loira russa Bezukhov: «a piece of land to change hands» (vale a pena ler «Poland», de James Michener, Random House 1983).
Mas o pior invasor foi sempre a Rússia. Hoje, acidentalmente, como ontem indiferentemente, o gigante a Leste testemunhou a morte da elite polaca no exacto momento em que se evocaria o massacre de Katyn, em 1940, uma barbárie que, durante décadas, a URSS emprestaria à reputação nazi.
Dentro de cinco anos poderemos lembrar igualmente os 70 anos do horror vivido no «Levantamento de Varsóvia», mesmo no final da II Guerra Mundial, (apesar do lobby judeu ocupar eficazmente o pleno da memória histórica das perseguições nazis, na capital polaca, com o guetto de Varsóvia). Nessa altura, a resistência polaca morreu nas mãos dos alemães em fúria, perante a passividade do exército russo «aliado», que esperou no outro lado do rio Vistula pelo fim do massacre, para depois ocupar a cidade sem problemas. Há três anos que o museu do «Uprising» em Varsóvia corrige o apagamento dessa tragédia, com verdade e sobriedade.
O que importa reter é que a planície sem defesa, os vizinhos sem escrúpulos ou o País sem elites nada podem contra a verdadeira força da Polónia: o Espírito.

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Armas, autores e alibis de um crime imperfeito


Devagar e de repente a verdade dá-se a conhecer.
Em 2004 testemunhei directamente aquilo que agora, através do depoimento de Miguel Pais do Amaral, se pôde saber melhor: que a «TVI funcionou como plataforma de derrube desse governo».
Trabalhava no Gabinete do Primeiro-Ministro e, por duas vezes, fui contactada por pessoas da TVI que não escondiam o incómodo com o alinhamento editorial do casal Moniz-Guedes contra o XVI Governo Constitucional. Também Miguel Pais do Amaral manifestava internamente o seu distanciamento em relação ao carácter persecutório dos conteúdos dos serviços informativos.
Essas pessoas questionavam-se sobre o que poderia ser feito para alterar o estado de coisas. Por vício profissional e dever institucional respondia que essa era uma questão interna da TVI sobre a qual o PM não quereria mexer uma palha.
Sabia que Miguel Pais do Amaral devia estar numa situação de grande embaraço porque tinha uma prática respeitadora da autonomia dos jornalistas e dos seus editores (trabalhara sob a sua administração n'O Independente). Pior: todos os Domingos o seu cunhado Marcelo Rebelo de Sousa reforçava o pendor de alinhamento censório sobre o Executivo o que agravava o desagrado do accionista da TVI.
Como se sabe, com o pedido de contraditório de Rui Gomes da Silva, em Outubro de 2004, Marcelo aproveitou para sair pondo a responsabilidade no Governo. Depois foi a Belém ampliar o acontecido e à ERC alistar motivações que nada tiveram a ver com o acontecido (cito post de 26/02/10). Na ERC, como Marcelo agora disse, Pais do Amaral não expôs publicamente as críticas que terá feito internamente a Moniz. Nem podia fazê-lo: ou conseguia o seu despedimento ou evitava expô-lo em público. E, com a estrondosa saída do comentarista, perdera condições para uma remodelação interna.
O derrube do Governo resultou, também, devido a outros factores que se conjugaram. Mas, tal como num policial bem investigado, descobrem-se agora armas, autores e alibis de um crime sem castigo.

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Traição vence ironia


Estou em estado de choque com a ideia de haver portugueses dispostos a hastear a bandeira espanhola nas suas casas. Acompanho as suas razões: não equipar o território nacional de estruturas que garantam a independência de serviços básicos na saúde, na educação, nas comunicações, na segurança interna ou externa é abalar, gradual e subitamente, os alicerces de uma nação que levou oito séculos a construir. Nesse sentido, não se pode colocar uma elvense perante o dilema de ter um filho espanhol saudável ou um filho português doente ou nado morto. Trata-se de uma questão de coesão nacional que é ainda mais sensível na raia onde se mede, com impacto directo, a geoestratégia das políticas de Lisboa.
Habituei-me, desde sempre, a respeitar a solidez das bonitas muralhas de Elvas, mesmo em frente do terraço da casa dos meus Avós. Contava-se então que as mães das crianças espanholas, que não queriam comer a sopa, diziam: «Mira que vienem los portugueses». Mas não são os mitos por aggiornar que me deixam atónita perante o que se passa em Valência do Minho nestes dias. O hino, a bandeira ou a língua não podem entrar nas negociações da logística de atendimento ao público ou na agenda política circunstancial.
Gosto do tom de pirataria que envolveu a colocação das bandeiras monárquicas nos Paços do Concelho e no alto do Parque. Mas tratou-se de um desafio respeitoso uma vez que, pela Lei, todas as bandeiras portuguesas, desde o século XII, são consideradas oficialmente como bandeiras nacionais. (Por isso, em 2009, a CML perdeu a causa quando quis remover a bandeira azul e branca de Real Associação de Lisboa, no Largo de Camões). Mas o que agora se passa é uma falta de respeito pelo nosso País e pela nossa história. A ironia do protesto cede perante um verdadeiro acto de traição à Pátria.

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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Eugene Terre'Blanche

Conheci-o em Fevereiro de 1992. Eugene Terre'Blanche era o «garante» musculado da manutenção das terras na posse dos Boers, numa África do Sul em mudança radical com desfecho imprevisível.
Mandela tinha saído da prisão, todos os dias havia violência no Soweto e os brancos tentavam uma coexistência pós-Apartheid, em regime de «damage control». O ambiente era assustador. Coexistia a euforia multi-negra, a prudência de Nelson Mandela e de Frederik de Klerk, um pequeno grupo anglófilo e a turma AWB dos africânder, toda vestida de caqui, liderada por um homem irredutível, Eugene Terre'Blanche.
Há quase três semanas que tentava falar com ele. Todos os dias a agenda era alterada por razões de segurança. Terre'Blanche tinha a cabeça a prémio. Era o general do povo herdeiro dos primeiros Boers que, no século XVI, encontrara na África do Sul a terra prometida para fugir às perseguições religiosas que infligiam violentamente os Países Baixos.
Por fim, veio a resposta. «Amanhã à noite em Upington. Haverá um comício. Mr Terre'Blanche estará presente». No mapa, esta terra ficava longíssimo, junto à Namíbia, num deserto onde as margens do rio concedem algum verde às explorações agrícolas de uma forte comunidade Boer. Lá cheguei, no único vôo, da única avioneta que me levou ao único carro da Avis do único stand de aluguer da pequena pista.
O comício era num pavilhão no meio do campo, cheio de boers que entoavam hinos religiosos, em Africânder. Com a noite, caira também uma trovoada tremenda com trovões próximos que rivalizavam com aquele côro semi-guerreiro. O climax deu-se com a entrada do líder. Acho que nunca vi nada assim. A sobrevivência, a imprevisibilidade, a violência, a certeza do ódio ao branco, e ao preto, a religião, o apego à terra e a possibilidade de a perder, o líder - uniam aquela multidão numa só voz.
De repente, a tempestade faz apagar as luzes. Um dos homens, incauto, aponta a laterna para o palco iluminando o alvo «a abater». Já o líder estava rodeado por um escudo de homens vestidos de preto, com boinas cor-de-vinho, para o protegerem daquilo que parecia ser um atentado. O homem da lanterna foi neutralizado no chão e as músicas voltaram ainda com mais força, agora às escuras. Não quero impressionar ninguém - já acho um bocadinho vedética a fotografia do post - mas a verdade é que o momento foi aterrador. O barracão podia estar cercado e os homens de caqui estavam todos armados. A falta de luz e a confusão da trovoada propiciariam a desordem, em caso de ataque. A reportagem estava assegurada. Eu não.
Nada aconteceu. A luz voltou, o homem da lanterna foi salvo, ouviu-se uma hora de discurso em africânder e jantei com Terre'Blanche alguma coisa intragável.
Era um homem normalíssimo no trato. Voz grossa, conversador, garantia que aquela terra era mais boer do que branca ou preta. Dizia que tinha muitos amigos na comunidade de emigrantes portuguesa e que dispunha de um exército preparado para defender o que era dos seus. Convidou-me para tomar o pequeno-almoço, no dia seguinte, na casa de uma Família africânder onde me mostraria uma cassete com os treinos dessa tropa.
Lá fui. Eugene Terre'Blanche era tratado como um príncipe africano pelos donos da casa. Dava ordens e recebia mordomias. O gosto era recíproco. No vídeo, viam-me mulheres a serem treinadas para a defesa pessoal e das suas casas; homens a cavalo, para o ataque a multidões; rapazes com instrução militar rigorosa, como só vi em Israel.
Acho que ainda tenho essa cassete. Ela nunca foi «usada» no terreno. Como dizia alguém, ontem na BBC, «Terre-Blanche era um embaraço mais do que uma ameaça para a democracia sul-africana». Ironicamente, esta morte violenta, depois de todas as batalhas prometidas e preparadas, poderá ser o «play» do vídeo de Fevereiro de 92.

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quinta-feira, 1 de abril de 2010

São Gregório Palamas crítico de Heidegger







Quando era criança passava no Norte de Portugal boa parte do meu tempo e dormia no que se chamava então o quarto do bispo. Era escuro e tinha duas imagens assustadoras para uma criança. Uma do Sagrado Coração de Jesus e outra do Sagrado Coração de Maria.

Nunca vi em Portugal São Gregório Palamas ser referido. Facto demonstrativo da falta de abertura que existe precisamente numa época que se diz aberta. A ele penso voltar noutras núpcias, mas não queria deixar de o referir e à sua importância fundamental para a compreensão da nossa época.

Ettore Perrella tem um trabalho maravilhoso de análise e tradução da sua obra. É um psicanalista que nas horas vagas traduz grego. A cultura italiana (como a alemã) é uma grande cultura e não se dedica apenas à boa culinária. Pensando em boa parte dos psicanalistas médios, traduzem em geral apenas o que a sua alma lhe diz ou pior ainda, lêem Hemingway, que lhes está bem mais acessível. Outros ainda dedicam-se a estudos por alto sobre personagens históricas para fazerem diagnósticos tão profundos quanto o latim que conhecem ao ler os documentos originais.... ou más traduções.

Parte da ideia é dele e por isso se o cito viso apenas não o roubar. Ele chama a atenção para o facto de o conceito de “coração”, “kardia”, ser central no pensamento teológico grego, aliás muito menos substancialista que o que resulta da tradição latina medieval e de que somos herdeiros. O coração é simultaneamente centro e abertura vital.

Não é acaso se estes dois conceitos são usados com um papel fundamental por Heidegger. Diz ele que o centro da clareira se afasta quando nos tentamos aproximar dele. E é de abertura do Dasein que fala.

Significativo este conceito de Dasein. Se por um lado se lhe tem de reconhecer uma evitação inteligente das conotações que têm as palavras “Homem”, “ser humano”, “pessoa”, indivíduo” (Heidegger pode ser chamado de muita coisa mas não é nem inculto nem tonto) tem igualmente de se reconhecer por outro que é uma evitação.

Esta dissonância, este desencontro permanente entre o centro e a abertura em Heidegger, mostra até que ponto ele era lúcido sobre o problema do homem moderno. E tem a mesma fonte que a evitação que é o Dasein.

O que fez Heidegger foi em certo sentido continuar o profundo percurso da imensa cultura alemã do fim do século XIX, mas que tinha os seus começos muito antes com Goethe. Ir aos gregos. Mas no seu caso, e desde o fim do século XIX, ir aos pré-socráticos, como os ingleses queriam ser pré-rafaelitas. O século XX inaugura-se querendo ser futurista ou “pré” qualquer coisa, o que são duas motivações próximas. Em suma quer-se evitar.

Neste sentido Palamas profetiza a existência de um Heidegger. Percebe que o percurso da cultura ocidental (com toda a sua imensa grandeza, saliento eu) sofria de um mal original. A separação entre a essência e acto, a tendência a substancializar o externo que redunda em visões ditas objectivas ou em idealismo (duas faces de uma mesma moeda puritana) estavam criar uma civilização de imensa glória, mas ao preço de uma separação do centro e da abertura.

Por isso a polémica da iluminação do Monte Tabor, polémica “bizantina” se a há, tem um pano de fundo bem mais pertinente para a nossa época do que parece. Por isso a Europa ortodoxa (Khomiakov é uma das suas faces e Soloviev outra) com a sua crítica (pertinente) e a sua intransigência (por vezes mera teimosia) da Europa Ocidental é fundamental para nos compreendermos.

Só os de cultura bizantina nos conseguem ver simultaneamente de dentro e de fora e dar-nos avisos que devemos ouvir, mesmo se nem sempre os devemos seguir.

Há imagens que são assustadoras para as crianças, e nomeadamente a imagem do coração que se mostra como centro e abertura, como solução de um problema que se torna impossível resolver seja pela via da objectivação seja pela via da idealização. Mas é este homem moderno com a sua grandeza e profundidade, mas igualmente com os seus medos, que Heidegger representa. O mesmo Heidegger que, tendo abandonado o catolicismo segundo dizia, se benzia com água benta nas igrejas. Que medo é este o de um homem que se diz ao ar livre e tem medos infantis como se estivera num escuro quarto? É que o grande risco da modernidade é o de passar de aventura a mera evitação. Porquê? Porque teme o coração.





Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 22 de março de 2010

A herança do nazismo

Um dos aspectos em que mais se revela a infantilidade da nossa época é a sua relação com o nazismo. Transformado no mal absoluto, essa mesma transformação tem consequências patológicas de toda a espécie. Vejamo-las: a) todo o povo alemão é culpado, b) o nazismo não faz parte da História mas do mito, c) o nazismo foi apagado e só aparece em margens.

Pode-se dar o caso de todo o povo alemão ser culpado, admitamo-lo. Como a França e a Inglaterra que com ele pactuaram e que tiveram nas suas elites fortes defensores do nazismo, o mesmo se dizendo de Portugal, Espanha, Roménia... A lista não pararia. E a verdade é que se trata do único povo da Historia que pagou efectivamente os custos das suas asneiras. E em grande medida motu proprio. A principal teorização anti-nazi parte em grande medida da própria Alemanha e nunca um povo com o poder que tem o alemão desde os anos 60 pagou tão colossais indemnizações de guerra.

Para o pensamento oficial o nazismo não faz parte da História, é como uma Encarnação do Mal, uma História de Anticristo. Ao contrário de todos os outros fenómenos históricos, que têm uma perspectiva de compreensão humana, o nazismo é dado como o incompreensível. Até Átila, as crueldades assírias, dos turcos e mongóis, o genocídio dos arménios e assírios pelos turcos em 1915, até isso tem explicação e pode ser objecto mesmo de simpatia. Mas o nazismo é considerado fora da compreensão humana.

O nazismo para esse mesmo pensamento oficial foi apagado. Mas como tudo o que é afastado por um passe de mágica aparece onde menos se espera. Em vez de se ter integrado o nazismo no nosso passado comum, praticou-se um exorcismo; faz-se de conta que já foi apagado, salvo uns grupúsculos que são considerados como casos clínicos.

Este pensamento oficial é ele mesmo patológico e infantil. Porque nada está fora da História, nada na vida humana está fora da vida humana, mesmo que se possa entender que a sua fonte lhe é externa. O nazismo como uma anti-Encarnação é um mito anticristão ele mesmo, mas construído com instrumentos de pensamento cristãos. Nada se apaga da História, e quanto mais recalcada uma realidade, mais ela se manifesta de forma difusa, inconveniente, inesperada. Por isso as metástases do nazismo são tão insistentes na nossa época.

É isso que tentarei fazer. Ver as heranças do nazismo que imperam no actual espaço público.

Algumas são evidentes. Existe uma herança cultural que não se deve tanto ao nazismo, mas à Alemanha enquanto era nazi. Enquanto o era não deixou de ser Alemanha, e não deixou de produzir génio e excelência. Heidegger, Benn, Heisenberg, Richard Strauss não passaram a ser lerdos só porque viviam num regime totalitário, como Prokofiev ou Chostakovski não passaram a ser duros de ouvido por viverem em ditadura. São conhecidas as caças aos cientistas e descobertas alemães depois do nazismo. E se os Estados Unidos devem o programa espacial a von Braun, o caso mais conhecido, ainda estão por esclarecer os roubos que americanos e soviéticos fizeram à ciência alemã. Malvados e imperdoáveis os nazis, mas pelos vistos bastante valiosos para os vencedores.

Mas esta não é uma herança do nazismo propriamente dito, embora Heidegger, um dos grandes mestres da esquerda libertária europeia, esteja bem longe de ser um anti-nazi. A sua herança encontra-se noutros planos.

Em primeiro lugar, o anti-cristianismo. O nazismo não inventou o anti-cristianismo. Este existe desde que existe cristianismo. Todos os grandes movimentos geram reacções e adversários. E em graus diversos sempre existiu na Europa, sob a capa da heresia, da política de Estado, interesses comerciais ou outros. Mas o nazismo é filho da Revolução Francesa (onde se viu um cabo austríaco a governar um país, como lhe chamava o aristocrata Churchill), da revolução industrial inglesa, do empirismo e do racionalismo, tanto quanto dos movimentos irracionalistas do século XIX. Hoje em dia alguns intelectuais anticristãos (penso em Onfrey em França, por exemplo) inventam simpatias do nazismo pelo cristianismo que não existiram. Mas a frase de Hitler: “primeiro os judeus, depois os católicos”, a perseguição de clérigos, a perseguição das aparições marianas dos anos 30 em nome da ciência (?) e da ordem pública (!), o especial cuidado em eliminar os judeus convertidos ao catolicismo, e a própria mensagem racista e eugénica negam frontalmente tanto os ensinamentos crísticos como o das igrejas institucionais. Isto associado à simpatia de Himmler pelo Islão, de tal forma que criou Waffen SS constituídas exclusivamente por muçulmanos. O nazismo não foi original neste papel em comparação com o comunismo, salvo na preservação das igrejas como monumentos históricos. É o mesmo modelo que se encontra hoje em dia. Acarinham-se os templos como meros monumentos históricos, ao mesmo tempo que se recusa o seu papel constitutivo da cultura europeia. Nisto a Europa actual é herdeira do nazismo mais uma vez.

Em segundo lugar, o ódio à tradição. A tradição não é o antigo, ao contrário do que se pensa. É o transmitido. O que é transmitido pode ser bem mais recente. Muitos tradicionalistas do Vaticano I foram confrontados com críticos que se escoravam... nos Padres da Igreja. E para se criticar a moral cristã recorreu-se mil vezes a Epicuro e aos cirenaicos, muito mais antigos que os ensinamentos de Cristo. Também nisto o nazismo não é original. Participa do mito da criação do homem novo, e da mesma seiva dos movimentos futuristas. O futuro como exclusivo motor associado a um passado reinventado é apanágio das ditaduras do século XX, sobretudo do nazismo e estalinismo. Uma Europa que se quer construir com base num passado mítico, em que afinal tivemos mil imperadores e génios muçulmanos, em que afinal fomos apenas encruzilhada de civilizações e não uma civilização em pleno título, associado a uma ideia que nos temos de virar para o futuro depois de termos arrumado sumariamente o passado é o paradigma da actual fase da construção europeia.

Em terceiro lugar, o culto da natureza, do corpo e do desporto associado a uma ideia de superioridade moral do vegetarianismo. Também aqui o nazismo não é original, tendo ido beber à República de Weimar a sua imensa capacidade de antecipar o futuro do século XX. Ainda está por se fazer um hino ao desporto como o filme de Leni Riefenstahl sobre Munique. Mas está lá antecipado muito do espírito da Europa actual. O que nos ocupa tempo dá-nos a medida da importância que objectivamente lhe damos. O tempo que nos ocupam estas tendências diz muito sobre que solo se quer construir a Europa actual, mais uma vez aqui antecipada pelo nazismo (lembro mais uma vez que dos primeiros panfletos ecológicos em papel reciclado era anti-semita, da extrema esquerda alemã).
Em quarto lugar, o racionalismo mágico, que é esta mistela entre referências científicas não digeridas e usadas como fonte de legitimação associadas a uma concepção mágica da vida, em que se julga ser o futuro moldável apenas por esquecimentos e desejos. As curas “quânticas” (!!!), a simpatia pelo lado reptiliano (os dinossauros e os répteis nunca estiveram tanto na moda), a associação entre a alta tecnologia e uma diferenciação moral primeva são todos eles sinais do parentesco da época actual com o nazismo.

Em quinto lugar, como não podia deixar de ser, o anti-semitismo: no fórum altermundialista de Durban circulavam entre ecologistas, altermundialistas e fundamentalistas islâmicos o Protocolo dos Sábios de Sião e o Mein Kampf. O anti-semitismo passou a ser frequentável, e refere-se hoje em dia expressamente ao nazismo, não tanto nos movimentos de direita (que salvo franjas recorrem mais à tradição anti-judaica cristã que ao anti-semitismo) mas mais do lado das novas esquerdas. Sob a capa do anti-sionismo o ódio ao judeu instila-se nos sacerdotes da verdade absoluta dos relativismos culturais.
Em sexto lugar, a teoria da mentira de Goebbels. Uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade. Todo o político mente, mas foram os nazis que instauraram esta necessidade compulsiva de construir a verdade absoluta com base na mentira. É sua a ideia da política como reposição de verdades escoradas em mentiras. É o que se fez com a guerra do Iraque (“armas de destruição em massa” passa a ser “democracia” como motivos), mas sobretudo com a adesão turca à Europa. Tanto se dirá que a Turquia é um país europeu que as pessoas passarão a acreditar. Mas a História não terminou bem para Rosenberg nem para Goebbels. E este mundo político pretende estar na reforma quando o boomerang se voltar contra eles.

Em suma, e em tema difícil de caber em poucas linhas, dois efeitos teremos desta invasão nazi no nosso espaço público. Uma diferenciação sentimental que se esbate, orientalizando a Europa, que já está disposta a ter residentes oprimidos em nome em nome de culturas em declínio e abrindo mais ainda o espaço à crueldade. E consequentemente à guerra. E uma Europa de mentiras marteladas até cheirarem ao sangue da verdade. Até que comece a correr um outro mais verdadeiro.

Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 17 de março de 2010

A escolha de Obama

Obama vem a Portugal, no próximo mês de Novembro, cumprindo a agenda da NATO. Terá recusado um convite prévio em solo espanhol dando um sinal que tardou, mas não falhou.
Na verdade, muitos se interrogaram sobre a razão que levou Durão Barroso a acolher, nos Açores, a cimeira que reuniu Bush, Blair e Aznar para debaterem a Guerra do Iraque. Porquê Aznar e Durão nesse encontro? Porque o Primeiro-Ministro espanhol tinha transferido o eixo tradicional da política externa de Madrid, do Continente para o Atlântico. Queria ser o parceiro de Washington na Península Ibérica, lugar ocupado por Portugal desde o centenário Tratado de Windsor, «herdado» pelos americanos no século XX.
Evitar ser secundarizado na geoestratégia do Atlântico terá movido Durão para a pista das Lages ficando conhecido como «o porteiro da Europa». Pior sorte tiveram os povos de Aznar e de Blair que sofreram atentados nos comboios e no metropolitano. Bush, pelo seu lado, passou à história como o homem da guerra dispensável sendo ainda cedo para saber se essa guerra foi ou não decisiva para evitar a reincidência do terrorismo nos EUA.
Nessa altura, Zapatero deveu a sua vitória à mentira da Direita sobre a matança de Atocha quando todas sondagens confirmavam Aznar no poder (que inicialmente atribuiu a responsabilidade à ETA). Logo depois, o socialista espanhol apressou-se a rever o pendor Atlântico da política externa de Madrid, invertendo os compromissos assumidos com Washington.
Obama recupera, em Lisboa, o valor seguro de uma aliança que não conhece flutuações politico-partidárias. Olé!

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terça-feira, 16 de março de 2010

O poder de Ricardo Costa


Acompanhei o Congresso do PSD em Mafra, no Sábado, e em casa, no Domingo. Não sendo congressista, conhecia as propostas de alterações dos estatutos e ouvi as intervenções dos autores. No Domingo, quando assisti à confusão das votações percebi, em directo pela TV, que a mesa do congresso não estava a par das exigências processuais previstas; que os principais candidatos não tinham estados de alma sobre as alterações; e que a maioria dos jornalistas também não estava atenta ao que tinha sido proposto.

Ricardo Costa, mais rápido e mais experiente, também não me pareceu a par do conteúdo da proposta de sanções para deslealdades de militantes durante as campanhas (e pré-campanhas) eleitorais. E, em directo, quando realizou o que estava a ser votado, incrédulo, disse qualquer coisa como: «Será que os delegados sabem o que estão a votar? Eles não se aperceberam disto, com certeza. Isto é uma lei da rolha! É uma verdadeira lei da rolha!».

Com a velocidade dos auriculares e dos telemóveis, o congresso mudou em 30 segundos. De repente, aquilo que nenhum dramatizara antes, passou a ser uma objecção de consciência, um pecado democrático, um nojo. Os reporteres à saída usaram a expressão de Ricardo Costa nas perguntas aos três candidatos que, em uníssono, se distanciaram da iniciativa. Posso dizer, com alguma nostalgia, que a competência do jornalista, ainda que tardia, se sobrepôs largamente à dos três candidatos e da mesa do congresso, liderando a questão em vez de a seguir. Isso não invalida o que penso sobre a medida. (post anterior)

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segunda-feira, 15 de março de 2010

Vi numa barca farta e pútrida

Vi numa barca farta e pútrida
Um velho homem cansado do seu ofício
- Eu não existo – declarou solene –
- Uma moeda pela tua passagem.

Soltei a corda de uma surda bolsa
Que só viu noites em sombria caixa.
- Não pago – pensei eu -. Ao leme
Não pode estar quem não fez viagem.

Ficar na margem ou ir para outra:
Aceitar uma viagem é obediência,
E quer ficar o que desiste.

- Não há escolha – disse eu ao sorriso do homem –
- E não haverá viagem nem permanência
Quando um não paga e o outro não existe.
Alexandre Brandão da Veiga

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domingo, 14 de março de 2010

A liberdade, a rolha e o PSD


O Congresso do PSD foi um festim de unidade e democracia que terminou com delegados e jornalistas a votarem e a comentarem a proposta de sanções para a deslealdade em tempo campanha.
É irónico ver como um encontro, convocado em nome do debate e da expressão livre, não consegue digerir a ideia, tão comum em Inglaterra, de respeito à informação classificada em tempo de guerra. Também na política os objectivos da conquista do poder e da sobrevivência se sobrepõem momentaneamente a algumas liberdades cívicas, indiscutíveis no tempo em que se limpam armas.
Só um País politraumatizado por 64 anos de ditadura não entende que o dever da lealdade mínima supera, por vezes, o das manifestações de opinião em público. Um trauma que nenhum dos candidatos pôde desconsiderar.
Dois meses de espírito comum é muito tempo? Conte-se a agenda mediática e veja-se se as Presidenciais não estão a ser discutidas com um ano de antecedência.
Uma coisa é certa: um pouco mais de carácter, de lealdade ou de sentido de corpo e este preceito seria dispensável.

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