quinta-feira, 15 de abril de 2010

Fúria de viver

As reportagens do dia mostram a Festa da Flor na Madeira com ruas e lágrimas secas.
Presto homenagem àquela raça de portugueses que parece ter herdado melhor o sangue que nos levou para o Atlãntico. E retomo a manchete que o DN fez, três dias depois da tragédia, com o azul do céu, do mar e da piscina, sem uma gota da lama. O título - «Madeira começa a regressar lentamente à normalidade» - peca por defeito perante o rápido brilho da festa da flôr que hoje anima a ilha.
Na Divina Comédia, Virgílio dirige-se aos preguiçosos do Purgatório explicando a Dante: «esta gente pecou por lento amor». Dir-se-ia que os madeirenses passaram do Inferno ao Paraíso pela virtude do amor que não pôde esperar.

(mais)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Esquerda e direita

Em Bizâncio dividiam-se os verdes e os azuis. Inicialmente eram apenas partidos desportivos, equipas de aurigas. Transformaram-se em partidos religiosos (uns monofisitas, outros ortodoxos), políticos (uns representando o centro do império, outros as províncias), sociais (uns representando as classes mais baixas outros as mais altas). Misturaram-se, fizeram alianças, e ao longo do tempo as destrinças iniciais perderam-se. Na Itália medieval Guelfos e Gibelinos combateram-se. Uns a favor do papa, outros a favor do imperador, mas dividiram-se e misturaram-se de tal forma que tivemos votos em sentidos contrários dentro de cada partido. Monárquicos e republicanos, destrinça fundamental. Mas seria talvez bom lembrar que há mais semelhanças entre a monarquia espanhola actual e a França actual que entre a república francesa e a republicana Alemanha nazi ou a Rússia comunista.

A substância das destrinças politicas visíveis teve desde sempre uma eficácia histórica reduzida. Na melhor das hipóteses são quando muito seculares, nunca atingem o milénio. Na História da Europa apenas duas ideias são milenares: o império (romano e seus herdeiros) e as liberdades, sob o fundo cristão e pagão indo-europeu.

É evidente que não temos de desprezar algo só porque não é milenar. Mas algum sentido de justiça leva-nos a considerar a relatividade do seu valor. A ideia que ainda impera como centro de discussão na Europa (talvez menos noutros continentes) é a que separa a esquerda de direita. A voz comum tende a afirmar que é com a queda do muro de Berlim que acabam as ideologias ou então que não acabam, quando o fundo da questão não passa por um acto tão simbólico, mas nesta matéria tão pouco significativo. A queda do muro é facto fundamental noutra sede e não pequena: o fim de uma divisão esquizofrénica da Europa.
Vejamos então o que caracteriza a esquerda e a direita, para verificarmos até que ponto se trata de conceitos importantes.

Para uns a diferença é de política económica. A esquerda quer mais Estado, a direita menos. Nesse sentido o critério não se aplica fora da Europa, em que democratas liberalizam por vezes bem mais que republicanos. E mesmo dentro da Europa grande parte das reprivatizações é feita por partidos socialistas. A esquerda radical francesa do século XIX era muito mais liberal sob o ponto de vista económico que Bismarck. Logo Bismarck, um dos grandes criadores do Estado Social, seria de esquerda e os radicais laicos franceses de direita.

Para outros a diferença tem a ver com a política social. A esquerda protege mais as classes desfavorecidas que a direita. Nesse caso de novo Bismarck é de esquerda, Hitler é de esquerda, enquanto as esquerdas europeias modernas, com coloração de fascismo fúcsia, são bem mais de direita, dado que não é prioridade das suas agendas a questão social, mas a moral.

A esquerda é mais livre sob o ponto de vista moral. Usando esta grelha de análise temos que a França do Ancien Régime era à esquerda e a Revolução Francesa foi uma viragem à direita, que a classe mais à esquerda sempre foi a nobreza e a pequena burguesia a mais à direita. O chefe histórico do partido comunista perguntado sobre a homossexualidade evitou responder e, perante a insistência, apenas soube afirmar que “é uma grande tristeza”. A rainha de Nápoles é de esquerda, bem como a sua irmã a imperatriz Sissi, contra o sindicalista britânico que é de direita. A libertinagem foi sempre historicamente um luxo aristocrático, que alguma esquerda sem referências expressas assumiu.

A esquerda é internacionalista enquanto a direita é mais nacionalista. Nesse sentido os movimentos operários historicamente são mais à direita dado que foi o liberalismo capitalista que fomentou o internacionalismo. O cosmopolitismo aristocrático do séc. XVII a XX é de esquerda, sendo os operários russos de direita. Foram democratas cristãos a criar a construção europeia, sendo eles de esquerda portanto e a maior oposição à construção europeia veio da esquerda totalitária, mesmo sob a capa de defensores do internacionalismo. São pois de direita.
A esquerda tem uma visão optimista do homem enquanto a direita tem uma visão pessimista. A diferença seria assim antropológica. Rousseau, que não acreditava no retorno ao homem da natureza era assim o grande antecessor da direita, e a escatologia ortodoxa do império tzarista é de esquerda, porque assenta na divinização do homem (não se conhece destino mais optimista para a humanidade).

A esquerda é mais intelectual, enquanto a direita é mais estúpida. Logo Heidegger era estúpido, Thomas Mann do início, um imbecil, Heisenberg quase um idiota, Richard Strauss um lerdo, Céline um tontinho, como é fácil de demonstrar. A esquerda portuguesa tem o hábito de dizer que a direita portuguesa é a mais estúpida da Europa. O problema é que a observação é da esquerda francesa em relação à sua direita. No que se prova que a esquerda francesa pode ser muito injusta, mas é original, enquanto a portuguesa, mesmo se mais justa, carece de imaginação.
A esquerda é ateia, enquanto a direita é cristã, em geral bem mais crente. Pasolini era homem de direita, o movimento social-cristão tem de ser apagado da História e Hitler e Mussolini eram uns perigosos esquerdistas, assim sendo.

Uma ditatorial observação afirma que quem diz que não é de esquerda nem de direita é sociologicamente de direita. Ou seja, faz-se saltar o conceito da política para a sociologia. De repente existem lados sociais, uns de direita e outros de esquerda seja quais eles forem.

Schopenhauer era um grande conhecedor de óptica, apesar de ser conhecido mais como filósofo. Afirmava ele que alguém que vê só com a esquerda ou só com a direita padece de falta de estereoscopia. Não pode ter a noção de profundidade. Sensata observação. Adoptar uma postura com o custo de perda de lucidez parece-me negócio de fraco ganho.

São conceitos úteis mas divisão do mundo pouco lúcida. Porque varia no tempo. Porque varia no espaço. E porque sobretudo padece de pobreza topológica. São os mesmos que dizem que não vêem o mundo a preto e branco que se apressam a dizer que são de esquerda ou de direita. Não vejo diferença entre um mundo bi-colorido e um outro bi-situado. Se apenas me dão duas hipóteses de vida, parece-me que a concepção de vida muito pobre é em qualquer caso. Cortar o mundo à esquerda e à direita é esquecer a variabilidade do mundo, da vida, do tempo, das pessoas. Esquece que as divisões geram tensões seja corrosivas (tanto pior), seja criativas (tanto melhor), e muitas vezes necessárias. Mas igualmente que os principais problemas, mesmo os políticos, nunca se mediram por essa bitola.

Libertar a França da ocupação nazi, criar o II Reich alemão, construir a Europa, para já não falar de movimentos bem mais antigos, como a criação dos Estados nacionais, a centralização do poder, a criação do império carolíngio, em suma, os mais importantes movimentos políticos, em nada se explicam pela destrinça entre esquerda e direita. Se nada explica fora da política, a esquerda e direita dão explicação apenas fraca a fenómenos políticos de curto prazo. A desonestidade nesta discussão é não reconhecer que a destrinça é simbólica, irracional, precisamente por aqueles que se afirmam mais racionais na análise política.

O problema não está tanto na esquerda e na direita enquanto facto político de natureza simbólica. Enquanto símbolo a sua influência foi bem real e ainda o é. Enquanto ideia a sua potência explicativa é nula. Enquanto não se reconhecer a sua natureza totalmente irracional não se podem perceber dois aspectos bem mais relevantes na política actual. O primeiro: que esquerda e direita são tão importantes, ou menos ainda, que ser guelfo ou gibelino, verde ou azul. O segundo, e bem mais importante, se falarmos de política como valores, interesses e poder, ou seja única forma adulta de falar de política, a grande discussão a ter na Europa é a do poder da Europa, e a construção europeia.

Hilbert, o grande matemático alemão, criou os chamados espaços de Hilbert, com um número infinito de dimensões. A ciência política de vulgo apenas sabe trabalhar com uma. Idolatrar a divisão entre esquerda e direita traduz assim vários vícios. Uma ignorância e estreiteza geométrica. Uma imposição ditatorial ao mundo de dois lados onde ele não cabe em justiça. Uma infantilização e teimosia, salvo raros casos de necessidade histórica, que tão duramente caracteriza o espaço público. “Sou de direita”, ou “sou de esquerda” acaba por ter um odor de birra. Ser de um lado só da vida, que claustrofóbica existência, que folclórica vivência. Uma falta de estereoscopia. E em consequência uma cegueira para os reais problemas de poder, interesses e valores na época actual. Tantos defeitos são apenas poucos para quem gosta de ser pouco.

Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

A Leste nada de novo



«What diference does it make?! A piece of Poland changes hands, a new prince is established in Austria. Oh it's so boring to worry about things like that!», desabava a Condessa Bezukhov, no «Guerra e Paz», o filme em que King Vidor adapta Leo Tolstoi.
A longa planície de aristocratas, mineiros e camponeses, que é a Polónia, sempre assim foi tratada por qualquer tendência hegemónica. Tártaros, franceses, austríacos, suecos, alemães, turcos ou russos olharam para ali como a loira russa Bezukhov: «a piece of land to change hands» (vale a pena ler «Poland», de James Michener, Random House 1983).
Mas o pior invasor foi sempre a Rússia. Hoje, acidentalmente, como ontem indiferentemente, o gigante a Leste testemunhou a morte da elite polaca no exacto momento em que se evocaria o massacre de Katyn, em 1940, uma barbárie que, durante décadas, a URSS emprestaria à reputação nazi.
Dentro de cinco anos poderemos lembrar igualmente os 70 anos do horror vivido no «Levantamento de Varsóvia», mesmo no final da II Guerra Mundial, (apesar do lobby judeu ocupar eficazmente o pleno da memória histórica das perseguições nazis, na capital polaca, com o guetto de Varsóvia). Nessa altura, a resistência polaca morreu nas mãos dos alemães em fúria, perante a passividade do exército russo «aliado», que esperou no outro lado do rio Vistula pelo fim do massacre, para depois ocupar a cidade sem problemas. Há três anos que o museu do «Uprising» em Varsóvia corrige o apagamento dessa tragédia, com verdade e sobriedade.
O que importa reter é que a planície sem defesa, os vizinhos sem escrúpulos ou o País sem elites nada podem contra a verdadeira força da Polónia: o Espírito.

(mais)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Armas, autores e alibis de um crime imperfeito


Devagar e de repente a verdade dá-se a conhecer.
Em 2004 testemunhei directamente aquilo que agora, através do depoimento de Miguel Pais do Amaral, se pôde saber melhor: que a «TVI funcionou como plataforma de derrube desse governo».
Trabalhava no Gabinete do Primeiro-Ministro e, por duas vezes, fui contactada por pessoas da TVI que não escondiam o incómodo com o alinhamento editorial do casal Moniz-Guedes contra o XVI Governo Constitucional. Também Miguel Pais do Amaral manifestava internamente o seu distanciamento em relação ao carácter persecutório dos conteúdos dos serviços informativos.
Essas pessoas questionavam-se sobre o que poderia ser feito para alterar o estado de coisas. Por vício profissional e dever institucional respondia que essa era uma questão interna da TVI sobre a qual o PM não quereria mexer uma palha.
Sabia que Miguel Pais do Amaral devia estar numa situação de grande embaraço porque tinha uma prática respeitadora da autonomia dos jornalistas e dos seus editores (trabalhara sob a sua administração n'O Independente). Pior: todos os Domingos o seu cunhado Marcelo Rebelo de Sousa reforçava o pendor de alinhamento censório sobre o Executivo o que agravava o desagrado do accionista da TVI.
Como se sabe, com o pedido de contraditório de Rui Gomes da Silva, em Outubro de 2004, Marcelo aproveitou para sair pondo a responsabilidade no Governo. Depois foi a Belém ampliar o acontecido e à ERC alistar motivações que nada tiveram a ver com o acontecido (cito post de 26/02/10). Na ERC, como Marcelo agora disse, Pais do Amaral não expôs publicamente as críticas que terá feito internamente a Moniz. Nem podia fazê-lo: ou conseguia o seu despedimento ou evitava expô-lo em público. E, com a estrondosa saída do comentarista, perdera condições para uma remodelação interna.
O derrube do Governo resultou, também, devido a outros factores que se conjugaram. Mas, tal como num policial bem investigado, descobrem-se agora armas, autores e alibis de um crime sem castigo.

(mais)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Traição vence ironia


Estou em estado de choque com a ideia de haver portugueses dispostos a hastear a bandeira espanhola nas suas casas. Acompanho as suas razões: não equipar o território nacional de estruturas que garantam a independência de serviços básicos na saúde, na educação, nas comunicações, na segurança interna ou externa é abalar, gradual e subitamente, os alicerces de uma nação que levou oito séculos a construir. Nesse sentido, não se pode colocar uma elvense perante o dilema de ter um filho espanhol saudável ou um filho português doente ou nado morto. Trata-se de uma questão de coesão nacional que é ainda mais sensível na raia onde se mede, com impacto directo, a geoestratégia das políticas de Lisboa.
Habituei-me, desde sempre, a respeitar a solidez das bonitas muralhas de Elvas, mesmo em frente do terraço da casa dos meus Avós. Contava-se então que as mães das crianças espanholas, que não queriam comer a sopa, diziam: «Mira que vienem los portugueses». Mas não são os mitos por aggiornar que me deixam atónita perante o que se passa em Valência do Minho nestes dias. O hino, a bandeira ou a língua não podem entrar nas negociações da logística de atendimento ao público ou na agenda política circunstancial.
Gosto do tom de pirataria que envolveu a colocação das bandeiras monárquicas nos Paços do Concelho e no alto do Parque. Mas tratou-se de um desafio respeitoso uma vez que, pela Lei, todas as bandeiras portuguesas, desde o século XII, são consideradas oficialmente como bandeiras nacionais. (Por isso, em 2009, a CML perdeu a causa quando quis remover a bandeira azul e branca de Real Associação de Lisboa, no Largo de Camões). Mas o que agora se passa é uma falta de respeito pelo nosso País e pela nossa história. A ironia do protesto cede perante um verdadeiro acto de traição à Pátria.

(mais)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Eugene Terre'Blanche

Conheci-o em Fevereiro de 1992. Eugene Terre'Blanche era o «garante» musculado da manutenção das terras na posse dos Boers, numa África do Sul em mudança radical com desfecho imprevisível.
Mandela tinha saído da prisão, todos os dias havia violência no Soweto e os brancos tentavam uma coexistência pós-Apartheid, em regime de «damage control». O ambiente era assustador. Coexistia a euforia multi-negra, a prudência de Nelson Mandela e de Frederik de Klerk, um pequeno grupo anglófilo e a turma AWB dos africânder, toda vestida de caqui, liderada por um homem irredutível, Eugene Terre'Blanche.
Há quase três semanas que tentava falar com ele. Todos os dias a agenda era alterada por razões de segurança. Terre'Blanche tinha a cabeça a prémio. Era o general do povo herdeiro dos primeiros Boers que, no século XVI, encontrara na África do Sul a terra prometida para fugir às perseguições religiosas que infligiam violentamente os Países Baixos.
Por fim, veio a resposta. «Amanhã à noite em Upington. Haverá um comício. Mr Terre'Blanche estará presente». No mapa, esta terra ficava longíssimo, junto à Namíbia, num deserto onde as margens do rio concedem algum verde às explorações agrícolas de uma forte comunidade Boer. Lá cheguei, no único vôo, da única avioneta que me levou ao único carro da Avis do único stand de aluguer da pequena pista.
O comício era num pavilhão no meio do campo, cheio de boers que entoavam hinos religiosos, em Africânder. Com a noite, caira também uma trovoada tremenda com trovões próximos que rivalizavam com aquele côro semi-guerreiro. O climax deu-se com a entrada do líder. Acho que nunca vi nada assim. A sobrevivência, a imprevisibilidade, a violência, a certeza do ódio ao branco, e ao preto, a religião, o apego à terra e a possibilidade de a perder, o líder - uniam aquela multidão numa só voz.
De repente, a tempestade faz apagar as luzes. Um dos homens, incauto, aponta a laterna para o palco iluminando o alvo «a abater». Já o líder estava rodeado por um escudo de homens vestidos de preto, com boinas cor-de-vinho, para o protegerem daquilo que parecia ser um atentado. O homem da lanterna foi neutralizado no chão e as músicas voltaram ainda com mais força, agora às escuras. Não quero impressionar ninguém - já acho um bocadinho vedética a fotografia do post - mas a verdade é que o momento foi aterrador. O barracão podia estar cercado e os homens de caqui estavam todos armados. A falta de luz e a confusão da trovoada propiciariam a desordem, em caso de ataque. A reportagem estava assegurada. Eu não.
Nada aconteceu. A luz voltou, o homem da lanterna foi salvo, ouviu-se uma hora de discurso em africânder e jantei com Terre'Blanche alguma coisa intragável.
Era um homem normalíssimo no trato. Voz grossa, conversador, garantia que aquela terra era mais boer do que branca ou preta. Dizia que tinha muitos amigos na comunidade de emigrantes portuguesa e que dispunha de um exército preparado para defender o que era dos seus. Convidou-me para tomar o pequeno-almoço, no dia seguinte, na casa de uma Família africânder onde me mostraria uma cassete com os treinos dessa tropa.
Lá fui. Eugene Terre'Blanche era tratado como um príncipe africano pelos donos da casa. Dava ordens e recebia mordomias. O gosto era recíproco. No vídeo, viam-me mulheres a serem treinadas para a defesa pessoal e das suas casas; homens a cavalo, para o ataque a multidões; rapazes com instrução militar rigorosa, como só vi em Israel.
Acho que ainda tenho essa cassete. Ela nunca foi «usada» no terreno. Como dizia alguém, ontem na BBC, «Terre-Blanche era um embaraço mais do que uma ameaça para a democracia sul-africana». Ironicamente, esta morte violenta, depois de todas as batalhas prometidas e preparadas, poderá ser o «play» do vídeo de Fevereiro de 92.

(mais)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

São Gregório Palamas crítico de Heidegger







Quando era criança passava no Norte de Portugal boa parte do meu tempo e dormia no que se chamava então o quarto do bispo. Era escuro e tinha duas imagens assustadoras para uma criança. Uma do Sagrado Coração de Jesus e outra do Sagrado Coração de Maria.

Nunca vi em Portugal São Gregório Palamas ser referido. Facto demonstrativo da falta de abertura que existe precisamente numa época que se diz aberta. A ele penso voltar noutras núpcias, mas não queria deixar de o referir e à sua importância fundamental para a compreensão da nossa época.

Ettore Perrella tem um trabalho maravilhoso de análise e tradução da sua obra. É um psicanalista que nas horas vagas traduz grego. A cultura italiana (como a alemã) é uma grande cultura e não se dedica apenas à boa culinária. Pensando em boa parte dos psicanalistas médios, traduzem em geral apenas o que a sua alma lhe diz ou pior ainda, lêem Hemingway, que lhes está bem mais acessível. Outros ainda dedicam-se a estudos por alto sobre personagens históricas para fazerem diagnósticos tão profundos quanto o latim que conhecem ao ler os documentos originais.... ou más traduções.

Parte da ideia é dele e por isso se o cito viso apenas não o roubar. Ele chama a atenção para o facto de o conceito de “coração”, “kardia”, ser central no pensamento teológico grego, aliás muito menos substancialista que o que resulta da tradição latina medieval e de que somos herdeiros. O coração é simultaneamente centro e abertura vital.

Não é acaso se estes dois conceitos são usados com um papel fundamental por Heidegger. Diz ele que o centro da clareira se afasta quando nos tentamos aproximar dele. E é de abertura do Dasein que fala.

Significativo este conceito de Dasein. Se por um lado se lhe tem de reconhecer uma evitação inteligente das conotações que têm as palavras “Homem”, “ser humano”, “pessoa”, indivíduo” (Heidegger pode ser chamado de muita coisa mas não é nem inculto nem tonto) tem igualmente de se reconhecer por outro que é uma evitação.

Esta dissonância, este desencontro permanente entre o centro e a abertura em Heidegger, mostra até que ponto ele era lúcido sobre o problema do homem moderno. E tem a mesma fonte que a evitação que é o Dasein.

O que fez Heidegger foi em certo sentido continuar o profundo percurso da imensa cultura alemã do fim do século XIX, mas que tinha os seus começos muito antes com Goethe. Ir aos gregos. Mas no seu caso, e desde o fim do século XIX, ir aos pré-socráticos, como os ingleses queriam ser pré-rafaelitas. O século XX inaugura-se querendo ser futurista ou “pré” qualquer coisa, o que são duas motivações próximas. Em suma quer-se evitar.

Neste sentido Palamas profetiza a existência de um Heidegger. Percebe que o percurso da cultura ocidental (com toda a sua imensa grandeza, saliento eu) sofria de um mal original. A separação entre a essência e acto, a tendência a substancializar o externo que redunda em visões ditas objectivas ou em idealismo (duas faces de uma mesma moeda puritana) estavam criar uma civilização de imensa glória, mas ao preço de uma separação do centro e da abertura.

Por isso a polémica da iluminação do Monte Tabor, polémica “bizantina” se a há, tem um pano de fundo bem mais pertinente para a nossa época do que parece. Por isso a Europa ortodoxa (Khomiakov é uma das suas faces e Soloviev outra) com a sua crítica (pertinente) e a sua intransigência (por vezes mera teimosia) da Europa Ocidental é fundamental para nos compreendermos.

Só os de cultura bizantina nos conseguem ver simultaneamente de dentro e de fora e dar-nos avisos que devemos ouvir, mesmo se nem sempre os devemos seguir.

Há imagens que são assustadoras para as crianças, e nomeadamente a imagem do coração que se mostra como centro e abertura, como solução de um problema que se torna impossível resolver seja pela via da objectivação seja pela via da idealização. Mas é este homem moderno com a sua grandeza e profundidade, mas igualmente com os seus medos, que Heidegger representa. O mesmo Heidegger que, tendo abandonado o catolicismo segundo dizia, se benzia com água benta nas igrejas. Que medo é este o de um homem que se diz ao ar livre e tem medos infantis como se estivera num escuro quarto? É que o grande risco da modernidade é o de passar de aventura a mera evitação. Porquê? Porque teme o coração.





Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

segunda-feira, 22 de março de 2010

A herança do nazismo

Um dos aspectos em que mais se revela a infantilidade da nossa época é a sua relação com o nazismo. Transformado no mal absoluto, essa mesma transformação tem consequências patológicas de toda a espécie. Vejamo-las: a) todo o povo alemão é culpado, b) o nazismo não faz parte da História mas do mito, c) o nazismo foi apagado e só aparece em margens.

Pode-se dar o caso de todo o povo alemão ser culpado, admitamo-lo. Como a França e a Inglaterra que com ele pactuaram e que tiveram nas suas elites fortes defensores do nazismo, o mesmo se dizendo de Portugal, Espanha, Roménia... A lista não pararia. E a verdade é que se trata do único povo da Historia que pagou efectivamente os custos das suas asneiras. E em grande medida motu proprio. A principal teorização anti-nazi parte em grande medida da própria Alemanha e nunca um povo com o poder que tem o alemão desde os anos 60 pagou tão colossais indemnizações de guerra.

Para o pensamento oficial o nazismo não faz parte da História, é como uma Encarnação do Mal, uma História de Anticristo. Ao contrário de todos os outros fenómenos históricos, que têm uma perspectiva de compreensão humana, o nazismo é dado como o incompreensível. Até Átila, as crueldades assírias, dos turcos e mongóis, o genocídio dos arménios e assírios pelos turcos em 1915, até isso tem explicação e pode ser objecto mesmo de simpatia. Mas o nazismo é considerado fora da compreensão humana.

O nazismo para esse mesmo pensamento oficial foi apagado. Mas como tudo o que é afastado por um passe de mágica aparece onde menos se espera. Em vez de se ter integrado o nazismo no nosso passado comum, praticou-se um exorcismo; faz-se de conta que já foi apagado, salvo uns grupúsculos que são considerados como casos clínicos.

Este pensamento oficial é ele mesmo patológico e infantil. Porque nada está fora da História, nada na vida humana está fora da vida humana, mesmo que se possa entender que a sua fonte lhe é externa. O nazismo como uma anti-Encarnação é um mito anticristão ele mesmo, mas construído com instrumentos de pensamento cristãos. Nada se apaga da História, e quanto mais recalcada uma realidade, mais ela se manifesta de forma difusa, inconveniente, inesperada. Por isso as metástases do nazismo são tão insistentes na nossa época.

É isso que tentarei fazer. Ver as heranças do nazismo que imperam no actual espaço público.

Algumas são evidentes. Existe uma herança cultural que não se deve tanto ao nazismo, mas à Alemanha enquanto era nazi. Enquanto o era não deixou de ser Alemanha, e não deixou de produzir génio e excelência. Heidegger, Benn, Heisenberg, Richard Strauss não passaram a ser lerdos só porque viviam num regime totalitário, como Prokofiev ou Chostakovski não passaram a ser duros de ouvido por viverem em ditadura. São conhecidas as caças aos cientistas e descobertas alemães depois do nazismo. E se os Estados Unidos devem o programa espacial a von Braun, o caso mais conhecido, ainda estão por esclarecer os roubos que americanos e soviéticos fizeram à ciência alemã. Malvados e imperdoáveis os nazis, mas pelos vistos bastante valiosos para os vencedores.

Mas esta não é uma herança do nazismo propriamente dito, embora Heidegger, um dos grandes mestres da esquerda libertária europeia, esteja bem longe de ser um anti-nazi. A sua herança encontra-se noutros planos.

Em primeiro lugar, o anti-cristianismo. O nazismo não inventou o anti-cristianismo. Este existe desde que existe cristianismo. Todos os grandes movimentos geram reacções e adversários. E em graus diversos sempre existiu na Europa, sob a capa da heresia, da política de Estado, interesses comerciais ou outros. Mas o nazismo é filho da Revolução Francesa (onde se viu um cabo austríaco a governar um país, como lhe chamava o aristocrata Churchill), da revolução industrial inglesa, do empirismo e do racionalismo, tanto quanto dos movimentos irracionalistas do século XIX. Hoje em dia alguns intelectuais anticristãos (penso em Onfrey em França, por exemplo) inventam simpatias do nazismo pelo cristianismo que não existiram. Mas a frase de Hitler: “primeiro os judeus, depois os católicos”, a perseguição de clérigos, a perseguição das aparições marianas dos anos 30 em nome da ciência (?) e da ordem pública (!), o especial cuidado em eliminar os judeus convertidos ao catolicismo, e a própria mensagem racista e eugénica negam frontalmente tanto os ensinamentos crísticos como o das igrejas institucionais. Isto associado à simpatia de Himmler pelo Islão, de tal forma que criou Waffen SS constituídas exclusivamente por muçulmanos. O nazismo não foi original neste papel em comparação com o comunismo, salvo na preservação das igrejas como monumentos históricos. É o mesmo modelo que se encontra hoje em dia. Acarinham-se os templos como meros monumentos históricos, ao mesmo tempo que se recusa o seu papel constitutivo da cultura europeia. Nisto a Europa actual é herdeira do nazismo mais uma vez.

Em segundo lugar, o ódio à tradição. A tradição não é o antigo, ao contrário do que se pensa. É o transmitido. O que é transmitido pode ser bem mais recente. Muitos tradicionalistas do Vaticano I foram confrontados com críticos que se escoravam... nos Padres da Igreja. E para se criticar a moral cristã recorreu-se mil vezes a Epicuro e aos cirenaicos, muito mais antigos que os ensinamentos de Cristo. Também nisto o nazismo não é original. Participa do mito da criação do homem novo, e da mesma seiva dos movimentos futuristas. O futuro como exclusivo motor associado a um passado reinventado é apanágio das ditaduras do século XX, sobretudo do nazismo e estalinismo. Uma Europa que se quer construir com base num passado mítico, em que afinal tivemos mil imperadores e génios muçulmanos, em que afinal fomos apenas encruzilhada de civilizações e não uma civilização em pleno título, associado a uma ideia que nos temos de virar para o futuro depois de termos arrumado sumariamente o passado é o paradigma da actual fase da construção europeia.

Em terceiro lugar, o culto da natureza, do corpo e do desporto associado a uma ideia de superioridade moral do vegetarianismo. Também aqui o nazismo não é original, tendo ido beber à República de Weimar a sua imensa capacidade de antecipar o futuro do século XX. Ainda está por se fazer um hino ao desporto como o filme de Leni Riefenstahl sobre Munique. Mas está lá antecipado muito do espírito da Europa actual. O que nos ocupa tempo dá-nos a medida da importância que objectivamente lhe damos. O tempo que nos ocupam estas tendências diz muito sobre que solo se quer construir a Europa actual, mais uma vez aqui antecipada pelo nazismo (lembro mais uma vez que dos primeiros panfletos ecológicos em papel reciclado era anti-semita, da extrema esquerda alemã).
Em quarto lugar, o racionalismo mágico, que é esta mistela entre referências científicas não digeridas e usadas como fonte de legitimação associadas a uma concepção mágica da vida, em que se julga ser o futuro moldável apenas por esquecimentos e desejos. As curas “quânticas” (!!!), a simpatia pelo lado reptiliano (os dinossauros e os répteis nunca estiveram tanto na moda), a associação entre a alta tecnologia e uma diferenciação moral primeva são todos eles sinais do parentesco da época actual com o nazismo.

Em quinto lugar, como não podia deixar de ser, o anti-semitismo: no fórum altermundialista de Durban circulavam entre ecologistas, altermundialistas e fundamentalistas islâmicos o Protocolo dos Sábios de Sião e o Mein Kampf. O anti-semitismo passou a ser frequentável, e refere-se hoje em dia expressamente ao nazismo, não tanto nos movimentos de direita (que salvo franjas recorrem mais à tradição anti-judaica cristã que ao anti-semitismo) mas mais do lado das novas esquerdas. Sob a capa do anti-sionismo o ódio ao judeu instila-se nos sacerdotes da verdade absoluta dos relativismos culturais.
Em sexto lugar, a teoria da mentira de Goebbels. Uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade. Todo o político mente, mas foram os nazis que instauraram esta necessidade compulsiva de construir a verdade absoluta com base na mentira. É sua a ideia da política como reposição de verdades escoradas em mentiras. É o que se fez com a guerra do Iraque (“armas de destruição em massa” passa a ser “democracia” como motivos), mas sobretudo com a adesão turca à Europa. Tanto se dirá que a Turquia é um país europeu que as pessoas passarão a acreditar. Mas a História não terminou bem para Rosenberg nem para Goebbels. E este mundo político pretende estar na reforma quando o boomerang se voltar contra eles.

Em suma, e em tema difícil de caber em poucas linhas, dois efeitos teremos desta invasão nazi no nosso espaço público. Uma diferenciação sentimental que se esbate, orientalizando a Europa, que já está disposta a ter residentes oprimidos em nome em nome de culturas em declínio e abrindo mais ainda o espaço à crueldade. E consequentemente à guerra. E uma Europa de mentiras marteladas até cheirarem ao sangue da verdade. Até que comece a correr um outro mais verdadeiro.

Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

quarta-feira, 17 de março de 2010

A escolha de Obama

Obama vem a Portugal, no próximo mês de Novembro, cumprindo a agenda da NATO. Terá recusado um convite prévio em solo espanhol dando um sinal que tardou, mas não falhou.
Na verdade, muitos se interrogaram sobre a razão que levou Durão Barroso a acolher, nos Açores, a cimeira que reuniu Bush, Blair e Aznar para debaterem a Guerra do Iraque. Porquê Aznar e Durão nesse encontro? Porque o Primeiro-Ministro espanhol tinha transferido o eixo tradicional da política externa de Madrid, do Continente para o Atlântico. Queria ser o parceiro de Washington na Península Ibérica, lugar ocupado por Portugal desde o centenário Tratado de Windsor, «herdado» pelos americanos no século XX.
Evitar ser secundarizado na geoestratégia do Atlântico terá movido Durão para a pista das Lages ficando conhecido como «o porteiro da Europa». Pior sorte tiveram os povos de Aznar e de Blair que sofreram atentados nos comboios e no metropolitano. Bush, pelo seu lado, passou à história como o homem da guerra dispensável sendo ainda cedo para saber se essa guerra foi ou não decisiva para evitar a reincidência do terrorismo nos EUA.
Nessa altura, Zapatero deveu a sua vitória à mentira da Direita sobre a matança de Atocha quando todas sondagens confirmavam Aznar no poder (que inicialmente atribuiu a responsabilidade à ETA). Logo depois, o socialista espanhol apressou-se a rever o pendor Atlântico da política externa de Madrid, invertendo os compromissos assumidos com Washington.
Obama recupera, em Lisboa, o valor seguro de uma aliança que não conhece flutuações politico-partidárias. Olé!

(mais)

terça-feira, 16 de março de 2010

O poder de Ricardo Costa


Acompanhei o Congresso do PSD em Mafra, no Sábado, e em casa, no Domingo. Não sendo congressista, conhecia as propostas de alterações dos estatutos e ouvi as intervenções dos autores. No Domingo, quando assisti à confusão das votações percebi, em directo pela TV, que a mesa do congresso não estava a par das exigências processuais previstas; que os principais candidatos não tinham estados de alma sobre as alterações; e que a maioria dos jornalistas também não estava atenta ao que tinha sido proposto.

Ricardo Costa, mais rápido e mais experiente, também não me pareceu a par do conteúdo da proposta de sanções para deslealdades de militantes durante as campanhas (e pré-campanhas) eleitorais. E, em directo, quando realizou o que estava a ser votado, incrédulo, disse qualquer coisa como: «Será que os delegados sabem o que estão a votar? Eles não se aperceberam disto, com certeza. Isto é uma lei da rolha! É uma verdadeira lei da rolha!».

Com a velocidade dos auriculares e dos telemóveis, o congresso mudou em 30 segundos. De repente, aquilo que nenhum dramatizara antes, passou a ser uma objecção de consciência, um pecado democrático, um nojo. Os reporteres à saída usaram a expressão de Ricardo Costa nas perguntas aos três candidatos que, em uníssono, se distanciaram da iniciativa. Posso dizer, com alguma nostalgia, que a competência do jornalista, ainda que tardia, se sobrepôs largamente à dos três candidatos e da mesa do congresso, liderando a questão em vez de a seguir. Isso não invalida o que penso sobre a medida. (post anterior)

(mais)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Vi numa barca farta e pútrida

Vi numa barca farta e pútrida
Um velho homem cansado do seu ofício
- Eu não existo – declarou solene –
- Uma moeda pela tua passagem.

Soltei a corda de uma surda bolsa
Que só viu noites em sombria caixa.
- Não pago – pensei eu -. Ao leme
Não pode estar quem não fez viagem.

Ficar na margem ou ir para outra:
Aceitar uma viagem é obediência,
E quer ficar o que desiste.

- Não há escolha – disse eu ao sorriso do homem –
- E não haverá viagem nem permanência
Quando um não paga e o outro não existe.
Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

domingo, 14 de março de 2010

A liberdade, a rolha e o PSD


O Congresso do PSD foi um festim de unidade e democracia que terminou com delegados e jornalistas a votarem e a comentarem a proposta de sanções para a deslealdade em tempo campanha.
É irónico ver como um encontro, convocado em nome do debate e da expressão livre, não consegue digerir a ideia, tão comum em Inglaterra, de respeito à informação classificada em tempo de guerra. Também na política os objectivos da conquista do poder e da sobrevivência se sobrepõem momentaneamente a algumas liberdades cívicas, indiscutíveis no tempo em que se limpam armas.
Só um País politraumatizado por 64 anos de ditadura não entende que o dever da lealdade mínima supera, por vezes, o das manifestações de opinião em público. Um trauma que nenhum dos candidatos pôde desconsiderar.
Dois meses de espírito comum é muito tempo? Conte-se a agenda mediática e veja-se se as Presidenciais não estão a ser discutidas com um ano de antecedência.
Uma coisa é certa: um pouco mais de carácter, de lealdade ou de sentido de corpo e este preceito seria dispensável.

(mais)

quarta-feira, 10 de março de 2010

Read my lips!


«Read my lips, no new taxes!».
A declaração de George Bush (Pai) na Convenção Nacional Republicana que o confirmou como candidato às Presidenciais, em 1988, seria desautorizada pelo próprio depois das eleições, com a subida de impostos, e tornar-se-ia na frase mais sintética para ilustrar as promessas invertidas dos políticos, antes e depois de serem eleitos.
Também José Sócrates prometeu não subir impostos; não falou em reduzir as deduções fiscais (como ficam as famílias numerosas com despesas de educação e de saúde?) ou em criar novos escalões no IRS; já para não falar no adiamento do TGV ou no congelamento de salários, com os quais concordo mas que representam o mesmo logro para quem votou acreditando nos seus lips. Isto, quando o PEC já estava previsto e as medidas para o alcançar também.
O que importa: falar verdade ou «adiar» a verdade? Não conhecíamos já esta performance quando, em 2005, prometeu não cobrar nas SCUT, não aplicar taxas moderadoras ou criar 150 mil postos de trabalho? Não foi reeleito, há pouquíssimo tempo, com inteiro respeito pelas regras da democracia?
Certamente porque lhe faltou alternativa. Ou porque, como diz Jean Jaques Rousseau: «Os escravos, com os seus ferros, tudo perdem, até o desejo de os quebrar, amam o cativeiro como os companheiros de Ulisses amavam o embrutecimento».

(mais)

segunda-feira, 8 de março de 2010

O que é a Europa? V

O universalismo destes quatro critérios parece-me cada vez mais assente. Porque não o vou buscar as declarações políticas. Mas a todos os campos da cultura da Europa, e a todos os campos em que a confronto com as outras. Como tenho vindo a demonstrar, desde a matemática, à física, a ciência em geral, teologia, filosofia, História, às vivências do dia a dia, a categorias que usamos, os sentimentos que nos atravessam estão permeados destas inércias.

Elas não nos limitam: definem-nos. Todos os seres humanos no mundo vivem felizes com a sua definição. Os europeus parecem querer apagar-se do mapa, por não quererem ser distintos. A indistinção dissolve, e todo o discurso que recuse diferença específica à Europa, é apenas destruidor. Bastou-me um Átila e um Tamerlão. De turco-mongóis já tivemos experiências que cheguem: adoráveis, para quem gosta, gloriosas, no modo de empilhamento de caveiras, mas sem dar uma ponta de viço à alma europeia.

Que o discurso político actual se confronte com a destruição e o parasitismo, diz mais sobre quem o profere que sobre a justiça do que afirma. Ficam com o seu autor os motivos suicidários. Aprovo-lhes a motivação, apenas lamento não terem coerência para consumarem o facto.

Não termina aqui o problema. Temos de avançar para mais uma das suas dimensões: o debate entre a inércia e a vontade. Bacon dizia que para dominar a natureza temos de obedecer às suas leis. Frase muito simples, mas que constituiu a base mais fundamental de toda a ligação entre a ciência e a tecnologia na cultura europeia. Negá-la é cair no fetichismo.

Ora bem, que nos dizem os sapientes da hora? A Europa é uma construção anti-histórica (ou seja, sem inércia, ou seja, sem lei da natureza). O que seja a Europa depende apenas da nossa vontade (ou seja, mais uma vez pertence a uma natureza sem leis).

O discurso político apoia-se assim em puro fetichismo. Contrário à ciência, invoca em vão o seu nome.

O plano da vontade implica por isso mais duas questões: o da possibilidade e dos custos. O primeiro é o do efectivo poder da vontade para mudar as coisas. O segundo o do que se perde com essa mudança.

O que significa uma inércia histórica? Que nada pode ser mudado? De todo. Muito pode ser mudado, mas desde que se percebam e se apoie na inércia histórica. Que esta seja usada exactamente para ajudar o impulso e não o contradizer continuamente.

A Rússia soviética aproxima-se cada vez mais da política tzarista. É natural: inércia histórica. A revolução francesa deixa incólumes estruturas antigas e até reforça algumas estruturas desigualarias: inércia histórica. Os países do Médio Oriente tiveram desde há décadas de optar entre laicidade e democracia, da Turquia ao Egipto, nunca os podendo conciliar: inércia histórica.

Estamos obviamente a falar de inércias históricas de diferentes fôlegos. De fôlego muito menor do que é constitutivo da Europa. E por isso muito menos poderosas. Quanto mais será o poder do quádruplo pilar da Europa.

Podemos mudar? Sim, mas com custos. Podemos querer transformar países asiáticos em europeus. Mas com um esforço imenso e com o permanente risco da elasticidade os fazer retornar com ainda mais força ao seu asiatismo.

Podemos mudar de sexo, fazer operações às pernas para ficarem maiores. Os sofrimentos compensam os benefícios? Talvez. Existe a certeza de não haver sequelas? Nunca. E quando falamos de massas elásticas, induzidas pela inércia, corremos o risco sempre e mais uma vez de o retorno à situação original ser ainda mais violento. De querer transformar em Europa o que não é acabamos por criar uma Ásia ainda mais se torna Ásia.

Nas discussões científicas usa-se com frequência um termo que muitos julgam jurídico, mas vem da dialéctica: o de ónus da prova. Este é invertido quando alguém propõe um modelo. Está invertido. Mas para o rebater que não se indiquem jornais, nem documentos burocráticos, nem boas intenções. Ter consistência é um atrevimento na nossa época. Que alguém de atreva, pois.




Alexandre Brandão da Veiga

(mais)

sexta-feira, 5 de março de 2010

O Terreiro socialista


Tem sido confrangedor assistir ao sectarismo jacobino do actual Executivo da Câmara Municipal de Lisboa sobre a visita do Papa Bento XVI no próximo mês de Maio. O governo da cidade que mais cristãos deu ao Mundo e que, também por isso, é (com Veneza) sede de um dois únicos Patriarcados da Igreja Ocidental, não faz o mínimo esforço por receber com dignidade o Chefe da Igreja Católica.
Do ponto de vista puramente secular, esta é uma oportunidade de ouro para projectar Lisboa internacionalmente dada a cobertura que as visitas pontifícias sempre despertam em todo o Mundo. Sendo a missa de Lisboa no Terreiro do Paço, não deveria a Câmara empenhar-se nesta projecção? O que não dariam os alcaides de Barcelona, Valência ou Sevilha por uma oportunidade destas? (para não falar de Madrid).
António Costa, e a sua equipe, ao nada contribuírem para o palco, os écrans, o som e o embelezamento do Terreiro do Paço estão a limitar, de forma escandalosa, o direito dos Lisboetas e de Portugal receberem dignamente o seu líder espiritual. Recorde-se que, pelo censo, 94% dos portugueses se declaram católicos.
Diz o autarca que ninguém lhe pediu nada. (Será que alguém lhe pediu para gastar milhões na comemoração da República?) Nuno Abecasis, em 1982, no Parque Eduardo VII, e Jorge Sampaio, em 1991, no Estádio do Restelo, apoiaram generosamente as visitas de João Paulo II. Tiveram alcance: do lugar da cidade no mundo e do lugar da religião no seu povo. António Costa ainda pode inflectir o radicalismo em que se acantonou. Mas dificilmente os Lisboetas esquecerão a resistência que pôs nesta colaboração.

(mais)

quinta-feira, 4 de março de 2010

O que é a Europa? IV

Entremos no quarto critério: o mito da queda do império romano. Que disparate, dirão alguns. Vejamos então onde estaria o dislate.

Este critério tem duas partes, se bem repararmos. Por um lado temos de ver a relevância do império romano na actualidade. Em segundo lugar, o da relevância da sua queda, e da sua queda como mito.

A História de Europa é um permanente renascimento da ideia imperial. O simples facto de a palavra existir com esta relevância já é de si estranho. Afinal, na república romana o "imperium" era algo de bem mais trivial. Uma mera função militar e não um estado. E no entanto a Europa sente-se renascer com o renascimento do império, por múltiplas vias.

O renascimento carolíngio, o renascimento otoniano. Mesmo as Espanhas não fugiram a esta ideia imperial com Afonso VII, ou com o tsar dos búlgaros, ou o czar russo (ambas as palavras variantes de “Kaisar”, César). A Europa de Verdun de 843 é reproduzida em 1951 e em 1957 com a CECA e a CEE. Em modos diversos os Habsburgos, Dante, Napoleão, Bismarck e Hitler tentaram fazer renascer o império.

Trata-se de uma inércia histórica fortíssima, que aparece sob as mais diversas capas e com os mais diversos modelos. E se a Inglaterra a partir do século XVIII foge na aparência a esse modelo com o império colonial, ainda Henrique VIII ambicionou a coroa imperial. Mesmo na dominação fora da Europa de que se lembraram os países europeus? De fazer “impérios”, ainda por cima “coloniais”, expressões ambas romanas, e que teriam de ser analisadas mais de perto para se verificar o que têm de nada trivial ou justo. A actual União Europa é a reactivação desse complexo, para falar na linguagem dos psicanalistas, e não é estranho que uniões africanas, asiáticas e quejandas tenham um sabor de postiço, de imitação. É da Europa que nasce esse mito de unificação. A fórmula de Barraclough, unidade na diversidade, para definir a Europa descreve tanto as nossas angústias como a nossa grandeza.

A queda do império romano é um mito. A frase parece estranha, porque a títulos bem diversos, bem sabemos que o império morreu. Seja em 476, data simbólica, seja, noutro momento, seja numa contínua evanescência, o império romano acabou. Parece por isso paradoxal afirmar que se trata de um mito. No entanto para percebermos a sua natureza mitológica temos de olhar para Bizâncio, onde o mito inverso permaneceu: o mito da continuidade do império romano. Imperadores de origem arménia, no século XIII o império de Niceia. E no entanto, continuaram-se a chamar-se a si mesmo de “Romaioi”, romanos, por oposição aos “Latinos”, os da Europa ocidental.

Um mito não é forçosamente uma mentira. É uma história que tem força própria, que impulsiona para a acção. A Europa constituiu-se com base da ideia de “Translatio Imperii”, a translação do império (Peter Sloterdijk percebeu esta parte, mas caiu no politicamente correcto e no indefinido, não sabendo completar a sua teorização). E todo o pensamento político europeu foi marcado pelo império romano caído. Pelas modalidades da sua sucessão (partilhada pelos vários soberanos, ou concentrada no imperador, separando o gládio e o pálio, ou juntando em teocracia ou cesaropapismos, ou nos sistemas regalista, galicano ou ultramontano). Mas também pelas modalidades da sua reconstrução. Os já citados casos dos Otonianos, Habsburgos, Dante, Napoleão e da União Europeia.

(mais)

quarta-feira, 3 de março de 2010

A República de António Costa

A Câmara de Lisboa assinou um protocolo com a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República. Pretende «associar as características do regime republicano aos valores da cidadania numa sociedade democrática» (ponto 2.1) e, simultaneamente, «aprofundar o conhecimento dos acontecimentos», «até à época actual» (ponto 2.2).

Trata-se de uma contradição nos termos: como vamos associar a I República aos «valores da cidadania nuna sociedade democrática» se, como todos sabemos, esta revolução substituiu um regime constitucional, com alternância democrática, imprensa livre e liberdade de culto por um regime de partido único, sem liberdade de imprensa, onde se confundiu laicismo com ateísmo jacobino e houve lugar para perseguições aos sindicatos? Já para não falar no crime fundacional que constituiu o assassinato do Chefe de Estado.

E o que dizer do que se passou depois na chamada «longa noite» com o mesmo sistema de partido único, sob a capa de União Nacional, a censura e o condicionamento das liberdades religiosa, sindical e de associação?

Temos assim 64 anos de República, ou de ditadura, ou das duas coisas. Diz António Costa que a II República não conta. Defende então uma memória ideológica? Uma espécie de historiografia de supermercado em que se vai buscar, a cada prateleira, apenas o que se quer ter em casa? Se os valores democráticos da República só contam a partir de 74, que centenário é este celebrado com tanta antecedência?

Não me coloco contra estas comemorações que confundem o que esteve para ser, com o que foi. Nem proponho, pelo contrário, que se celebre a República confiando no desfecho autofágico das comemorações expostas ao ridículo de uma propaganda anacrónica, desnecessária, dispendiosa.

Proponho que se aproveite esta oportunidade histórica para se incentivar a investigação e a divulgação do que esteve para acontecer, mas não aconteceu, e do que realmente aconteceu. Talvez assim se resgatem alguns valores da ética que, aparentemente, precisa de não ser republicana para ser verdadeiramente ética.

(mais)

O que é a Europa? III

As contribuições do cristianismo foram tão vastas quanto as do paganismo e mais contínuas nos últimos dois mil anos. Não há terreno da nossa vida que não seja por ele marcado. A nossa concepção das idades humanas, do corpo, da sensibilidade, da estética é determinada pelo cristianismo.

A nossa paisagem, as nossas cidades, os nossos conceitos, nada deixou de passar pelo crivo cristão. Mentira tem coloração bem diversa em grego que hoje em dia. O que seja a dimensão da fragilidade humana e como a ela se deve reagir está marcado pelo cristianismo. Girard disse-o bem: o cristianismo traz ao mundo uma fundamental inovação antropológica – a vítima é inocente. Uma civilização assente nesta conclusão e premissa tão estranha e improvável só poderia dar resultados inesperados. Que todo o bicho homem seja pessoa, outro conceito improvável, também traz o inusitado. Com o cristianismo a Europa constrói-se sobre a improbabilidade. A Europa é a civilização improvável por excelência.

O nosso maior pecado e maior virtude como europeus, a abissal diferenciação sentimental que o cristianismo induziu, é marca disso mesmo. Quanto mais se estuda a patrística e a filosofia medieval, seja europeia ocidental, seja bizantina, mais vemos que não há duas frases que possamos dizer que não estejam marcadas por esse pensamento. “Objectivo” e “subjectivo”, os mais elementares conceitos da lógica com que laboramos no dia a dia, estão marcados por uma leitura restante de Boécio, mas sob o olhar cristão. A tonalidade afectiva de cada uma das palavras que usamos foi delimitada pelo cristianismo, a um ponto que pouco conseguimos dizer sem essa marca. E o célebre espírito científico como oposto ao cristianismo vai beber triplamente à sua fonte (a valorização positiva do infinito, a bondade do corpo e da matéria, o movimento rectilíneo como natural foram os impulsos para a ciência moderna).

É evidente que existem heróis de pacotilha que afirmam que ultrapassaram o cristianismo. São esses os primeiros a não o conseguir fazer. A dificuldade de enunciar as filosofias antigas, que mesmo depois de mais de dois séculos de estudo crítico ainda são objecto de grandes equívocos, os limites com que podemos enunciar o pensamento hindu, budista, confucionista, têm a ver com um dado trivial: nenhuma cultura pode ser integralmente transposta noutra. Mas no caso da Europa têm a ver com um dado que lhe é peculiar: é que o elemento de força é o mesmo que gera a dificuldade de transposição. Foi o cristianismo que deu à Europa a abertura para estudar outras culturas. Se todas a culturas são etnocêntricas, talvez a europeia seja a que o é menos. Na Europa estudam-se todas as culturas. Vejo com dificuldade que no Paquistão se estude Plotino ou na Turquia São Gregório Palamas, salvo em pequenos seminários ortodoxos isolados.

Perceber o paganismo indo-europeu e o seu contributo foi um acto de reconquista de uma herança em parte perdida e em parte filtrada. Sair do cristianismo é a tentativa inversa e em geral mal conseguida. É esse, quer se queira quer não, o nosso ambiente natural. Tenho a prova disso com frequência quando começo a falar como um grego, hindu ou um budista. A plateia tende a ficar chocada porque não uso a linguagem aproximativa, mitigada e propagandística dos que apresentam essas culturas no fundo como uma espécie de cristianismo exótico. A maioria das pessoas adora as outras culturas desde que não sejam plenamente confrontadas com a sua diferença. Adoram contemplá-las como se vêm os leões no circo ou no jardim zoológico: com barras protectoras. Dá-se o caso de as barras protectoras serem cristãs. Por isso os cultores do multiculturalismo no fundo são pequenos burgueses que vão passear ao fim de semana ao jardim zoológico. Reconhecem o leão à distância, mas não querem ter intimidade com ele. A sua simpatia é directamente proporcional à distância que com ele estabelecem.

Seria obviamente lírico tentar sequer fazer uma síntese do contributo do cristianismo para a Europa. O que interessa salientar é que é tão presente que dele não se escapa, e tanto menos quanto mais se acha que é obra fácil fazê-lo.

(mais)

terça-feira, 2 de março de 2010

O que é a Europa? II

O paganismo indo-europeu onde se manifesta? Na herança romana e grega, comum a toda a Europa. Mas igualmente na herança celta germânica, eslava. Sem o ciclo arturiano, ou o dos Nibelungos perde-se uma parte fundamental da nossa concepção do que pode ser a literatura. Mas mais importante, perde-se uma parte fundamental do que é e pode ser a vida humana. O que damos por evidente é construído. Como amamos, como nos movemos, a que damos importância, ainda vai buscar a estas fontes.

Os nossos medos, os nossos demónios são diversos dos de outras culturas. Eles são (também) herdados do paganismo. Bem como muitas das nossas soluções. Na Europa existe uma relação com a adversidade cultivada nas elites que é estóica, não budista. Cada povo segrega e aceita o seu tipo de heroísmo próprio. O nosso é o do estóico e do cavaleiro medieval. O tártaro de Tolstoï é sempre dado por contraste, por oposição, como forma de mostrar não que temos de o imitar, mas que nos esquecemos do nosso heroísmo.

É evidente que me podem afirmar que estas figuras estão ultrapassadas. Mas são os mesmos que o dizem que são os primeiros que criticam faltarem estas qualidades a terceiros. Não se compreende metade do discurso da oposição política sem conhecer estes valores. Qual o problema de ser corrupto, o problema de mudar de posição de acordo com os ventos? Se quem afirma que estes valores já não se usam, se não lhes reconhecesse alguma força, não os invocaria.

De Roma herdámos a noção de que são as leis e não os homens que governam. O génio romano foi o de dar instância para julgar onde começa a tirania. Incumprir a lei, onde está o problema? Em todas as culturas o incumprimento da lei é condenado, é verdade. Mas a ideia de que o poder tem todo ele a fonte na lei, para o bem e para o mal, é herança prática romana.

Um visitante grego em Roma definiu as matronas romanas como rainhas. Todas elas eram rainhas. A ideia de república traduz esta de partilha da soberania. A laticlave de púrpura era usada pelos senadores romanos. Todos eles tinham uma parte de púrpura, mas nunca se atreviam a vestir integralmente de púrpura. Por mais absoluto que fosse o poder na Europa, os limites impostos pelos parlamentos a Luís XIV são um bom exemplo dos limites do poder que sempre constituíram a Europa. Não são apenas limites de facto, todos os regimes os tiveram, não são apenas limites de legitimação, todas as culturas os têm. O que é distintivo da Europa é o facto de a própria existência de limites ser constitutiva do poder. Seja com Antígona, seja mais tarde com a sinfonia bizantina.

Mas a força do paganismo não assenta no vazio. É carreada pela imensa maioria dos povos que habitam a Europa, mas é apoderada pelos que não a carreiam em igual dimensão. Os fino-ungáricos, os bascos, o magiares puros, os petchenegues ou foram absorvidos até não ficarem traços étnicos nem língua, ou apenas ficou a língua. E quando restaram os dois a destrinça cultural é ténue. Um basco pode sentir a sua natureza de basco com muita intensidade. A sua língua e os seus costumes. E está no seu direito. Mas desafio alguém a tentar destrinçar um basco de um francês, ou italiano apenas pelo seu modo e pensar ou sentir o mundo.

O substrato sobre o qual agiu a onda indo-europeia não era uniforme. Os povos da Velha Europa, eventualmente os etruscos (língua indo-europeia arcaica segundo alguns, não interessa, para estes efeitos, aprofundar a questão, neste momento apenas especulativa) foram absorvidos. No início do império ainda se reconheciam os etruscos de origem em Mecenas e poucas mais personagens. As marcas que deixaram nas línguas (na toponímia nomeadamente), e eventualmente em alguns valores, estão de tal forma fundidas com a restante cultura que já não pode dela ser destrinçada.

O que seja este contributo dos substratos é meramente conjectural. Seria preciso que conhecêssemos efectivamente as culturas da Velha Europa (como lhe chamam os arqueólogos), e as múltiplas culturas minoritárias desse substrato europeu. As tentativas de encontrar nesse meio traços de matriarcado que se encontrariam ainda em Creta e na Etrúria, uma relação especial com o culto solar e das estrelas são mais hipóteses que teses demonstradas. O período de antecedeu e imediatamente seguiu a queda do império romano mostrou a capacidade criativa da etnogénese, de como povos se fundem noutros, e como rapidamente se chamam a si mesmo godos vândalos que foram por aqueles vencidos. A fusão gera entropia. Será sempre muito difícil extrair a pepita pura do pensamento pré-indo-europeu.

O facto de o contributo deste substrato não poder ser definido nos seus traços gerais não significa que não tenha relevância. É para a Europa a matéria e a energia negra de que falam os cosmólogos. Sabemos que tem peso, mas ao contrário dos últimos não podemos ainda quantificar o seu peso. Apenas podemos verificar que o facto de as restantes componentes da Europa se terem instalado num determinado continente e em mistura com povos anteriores tem um peso. Afinal, os cristãos de Malabar têm marca indo-europeia, são cristãos, mas não são europeus.

A Europa não é etnicamente pura. É verdade. Como nada é. Se um argumento tiver de assentar nestas generalidades deixa de o ser.

(mais)

segunda-feira, 1 de março de 2010

O que é a Europa? I

As declarações políticas usam a palavra, os tratados da União europeia usam a palavra, o cidadão comum usa a palavra.

É evidente que não temos de ter uma definição científica para cada palavra que usamos. Mas quando pretendemos arvorar legitimidade intelectual no nosso discurso, e dizemos que este e outro país são europeus ou não, temos de ter a certeza de que a nossa sapiência não é filtrada por jornais e revistas.

A Europa é tolerância, democracia, direitos do homem? Não me parece. Por duas razões muito simples: porque não o foi durante pouco tempo, e apenas o foi com interrupções. Dezoito séculos de História europeia seriam metidos no lixo se quiséssemos que fosse este o critério. A Alemanha nazi, a Rússia comunista, ou Portugal salazarista não seriam Europa neste critério. Em segundo lugar, porque é no fundo ou simples ilogismo ou arrogância. Arrogância se isso significar que é o nosso traço distintivo. Nós somos a democracia e tudo à nossa volta são regimes ditatoriais. Ou é ilogismo, porque significa que não criamos nenhum critério de distinção da Europa em relação aos restantes países.

A incapacidade de exprimir sequer um pouco o que seja a Europa mostra além de uma profunda incultura da nossa época, o seu profundo ódio ao pensamento científico. A nossa época é fascinada por tecnologia, simples fetiche. Mas em geral odeia a ciência e o que ela nos obriga a pensar. Porque a ciência implica um fortíssimo conjunto de vinculações. É essa em geral a condição de toda profunda liberdade, e a ciência não é excepção à regra. Não posso partir de uma premissa porque a acho engraçada e deitá-la fora no restante discurso. O pensamento científico reconhece que a perda dessa vinculação é perda de valor. O que de original fez Dirac foi conciliar a mecânica quântica e a teoria da relatividade. Poderia é certo deitar ao lixo estas duas teorias e partir de premissas completamente arbitrárias. Mas isso seria mera birra e não trabalho científico. Incoerência, arbitrariedade, capricho são inimigos da ciência.

Por isso quem fala da Europa tem de saber do que fala. Para isso tem de conhecer a matéria de que trata. Esta não é dada por declaração divina, por iluminação. O que seja a essência da Europa é terreno para discussão fora da ciência. Discussão legítima, mas que não é a que me interessa agora. Guardo a questão para outras núpcias.

Uma construção científica da Europa implica a construção de um modelo que represente as suas maiores inércias. A inércia não significa que seja impossível mudança. Significa que se encontrou o centro das forças da Europa, o seu núcleo mais resistente e fundamental. É essa a perspectiva sobre a qual se tem de delimitar o que seja Europa ou não.

Percorrendo o campo de estudo chamado Europa encontro quatro elementos que definem a Europa:
a) O paganismo indo-europeu;
b) Assente sobre povos autóctones da Europa;
c) O cristianismo;
d) O mito da queda do Império Romano.

Nenhum país é europeu se não tiver estas quatro características. Poderá ser democrático, poderá ser limítrofe. Poderá ser simpático, estratégico, importante. Mas não é europeu.

(mais)