Praça pública



Tem-se falado muito de um avião da Air France que caiu algures no oceano Atlântico com 228 pessoas a bordo. Não sei se é só impressão minha, mas sinto na experiência pública desta notícia algo diferente relativamente a muitas outras que, de vez em quando, lá surgem, sobre quedas de aviões e as consequentes mortes de quem lá ia.
Para além da tragédia da morte aparentemente despropositada de um grupo grande e heterogéneo de pessoas, bem como do medo instintivo que tolhe, pelo menos no meu caso, aquele que se imagina preso a um corpo em acelerada, prolongada e desesperada queda livre, há aqui algo que me parece ser diferente, nomeadamente a absoluta estranheza da morte, que, enquanto tal (isto é, absoluta e estranha), tão arredada anda das consciências.
Com efeito, não há aqui reportagens em directo, tentativas de salvamento, companhias de seguros… na verdade, há apenas nada! Somente a perplexidade de um avião que, pura e simplesmente, desapareceu na vastidão de um oceano. Não se sabe onde caiu, nem quando caiu, ou porque caiu... A nossa crença numa eficácia objectiva de um controle tecnológico extensível, desde o espaço, a toda a terra, foi desfeita.
Há um vazio que, de repente, se nos impõe. E é isto, talvez, esta inexplicabilidade desta morte, a ausência de qualquer contacto com ela, que a torna mais silenciosa, mais funda e, estranha e intimamente, mais nossa. Há uma calma que paira sobre todos os esforços de reconhecimento do local, uma certa aceitação da tragédia, tão atípica nas coberturas dos telejornais.
Foi isso que ressaltou em mim nas serenas mas comovidas palavras de Lula da Silva, presidente operário do Brasil e representante político da esquerda brasileira, quando disse, ainda ontem, qualquer coisa como isto: «É uma tristeza, uma dor imensa. Mas nada mais podemos fazer, a não ser rezar pelas famílias dos que morreram e pedir a Deus que uma tragédia destas não volte a acontecer.»
Por todo o lado vejo e leio que a campanha eleitoral para as eleições europeias está a ser "fraca", que não se debatem temas europeus.
Gostava de perceber exactamente qual é a questão. Se quem o diz e escreve acha que os candidatos nada sabem sobre o tema, ou se sabendo, dele não querem falar.
Relativamente aos candidatos dos dois maiores partidos, Paulo Rangel e Vital Moreira, e embora este último não seja o candidato da minha preferência, não tenho quaisquer dúvidas de que ambos são pessoas muitissimo bem preparadas do ponto de vista dos conhecimentos sobre a área.
Rigorosamente creio que são, sob esse prisma,das pessoas mais bem preparadas que temos tido como candidatos ao PE. Ou alguém acha que o Dr. Mário Soares sabia mais de direito europeu e comunitário e dominava melhor os dossiers?
Aliás, gostava de saber quantos, de entre os que os criticam, já leram os livros de ambos. Se se quiserem dar à maçada, talvez encontrem neles bastantes temas de debate e discussão que poderiam lançar e até talvez confrontar os candidatos com incoerências ou insuficiências.
Se ainda fossemos a tempo, gostaria de propor às campanhas do PS e PSD uma acção conjunta: reunir todos os jornalistas, comentadores, cronistas e opinion makers descontentes com a campanha num amplo anfiteatro, para duas intervenções( quatro horas cada) sobre direito europeu. O candidato Paulo Rangel faria a intervenção da manhã, das 9.00 às 13.00. O candidato Vital Moreira falaria das 14.00 às 18.00.
Duas aulas de direito europeu puro e duro. Os presentes manter-se-iam calados, não fariam comentários, nem perguntas, não haveria fait-divers.
Veríamos nesse dia os verdadeiros cultores de política e direito europeus.
PS - Os telemóveis ficavam guardados à entrada e devolvidos no final da sessão. Nada de mensagens, nem twitter, nem email, nem facebook.
Pelo menos desde Abel e Caim, sabemos todos que não há guerras tão letais como as guerras fraticidas.
Ninguém escreverá nada sobre Dias Loureiro e o BPN como escrevem hoje Vasco Pulido Valente e Miguel Júdice no jornal Público de hoje.
Os restantes escribas podem baixar a pena.
Nos tempos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, a febre revolucionária de esquerda estava ao rubro. Muitos portugueses, saídos de uma ditadura de direita, sonhavam com a patine de uma ditadura do proletariado. O ódio ao capital e aos capitalistas, se já existia, ganhou corpo nessa altura e perdurou até hoje.
Muitos filhos família ainda conservavam alguns sinais recentes de abastança, aventurando-se a sair de casa com o carro, cabelos ao vento. Os comentários variavam, mas não destoavam entre o “burguês” e o “reaccionário”. A resposta vinha então, na cartilha politicamente correcta de então: “- Ando a descapitalizar os meus pais”.
Portugal continua um país pobre, descapitalizado, que cultiva o ódio aos ricos, olha de lado quem cria riqueza, não encoraja os empreendedores, não celebra a iniciativa privada. Muitos olham o Estado como o providenciador natural, alguns até esperam que o Estado lhes faça a riqueza.
Portugal tem hoje 2 milhões de pobres e ainda não percebeu que estaria bem melhor se tivesse 2 milhões de ricos. A riqueza não deve ser motivo de vergonha para um país, só a pobreza o é.
35 anos depois, discute-se a possibilidade de criminalizar o enriquecimento ilícito. Admito que seja um caminho possível para combate ao flagelo da corrupção, mas fico com a impressão de que se trata apenas da criminalização do enriquecimento.
O ilícito aqui vai só à boleia.

No último Domingo celebrou-se na Igreja a festa da ascensão de Jesus ao céu. Depois de morto e ressuscitado, Jesus continuou a aparecer junto dos apóstolos, ensinando-lhes o caminho e manifestando-se-lhes através dos seus sentidos. Com efeito, eles viam-no, ouviam-no, tocavam-no e cheiravam e comiam (peixe) com ele, tal como todos nós fazemos diariamente uns com os outros. Ao fim de 40 dias, porém, elevou-se aos céus, deixando de estar visivelmente presente entre nós.
Ora, a primeira leitura desse dia diz algo que me tem deixado pensativo e que aqui resolvi partilhar. Respondendo à habitual pergunta dos seus seguidores, que mais uma vez queriam saber se aquele era o momento em que ele iria restaurar a realeza de Israel, Jesus «respondeu-lhes: ”Não vos compete saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a Sua autoridade. Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.” Dito isto, elevou-se à vista deles e uma nuvem subtraiu-o a seus olhos. E como estavam com os olhos fixados no céu enquanto ele se afastava, surgiram de repente dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: “Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o céu? Esse Jesus, que vos foi arrebatado para o céu, virá da mesma maneira, como agora o vistes partir para o céu.”» (Act. 1, 1-11)
A verdade é que, também eu, esperando quase sempre que Deus venha forçar os outros ao reconhecimento da minha realeza e autoridade, tenho muita dificuldade em relacionar-me com este Jesus que deixou de mostrar-se, como tudo o resto, aos nossos sentidos. E é por isso que tenho ficado a pensar nesta última afirmação destes dois homens, surgidos de repente entre aqueles que o procuravam, como sendo uma profunda lição de fé: «Da mesma maneira que o vistes subir para o céu, assim o verás descer até junto de vós.»
Mas fico a pensar: como vi eu Jesus subir aos céus? Sei bem que me hão de dizer que Jesus se “vê” agora nos seus gestos, na sua palavra e na sua Igreja e que esses foram os “contactos” que durante esses 40 dias resolveu deixar entre nós. Está muito bem. Mas isso é a teoria. Na prática, de facto, nos seus gestos, na sua palavra e na sua Igreja, como vejo eu Jesus elevar-se ao céu?
A verdade é que olho pouco, vejo pouco e creio pouco. Fico sempre olhando mais para essa glória que espero venha a ser aqui restaurada, para essa vitória que Deus me há-de dar sobre todos os outros, e até sobre mim, que fielmente O servirei se assim Ele bem me servir! E, no entanto, estes dois homens, vestidos de branco, puros, castos, despidos da sua vã glória, continuam repetindo para que eu os oiça: «Assim como o viste subir ao céu, assim o verás descer junto de ti.»
Na verdade, que vemos nós, olhando a cruz, onde Jesus já não se encontra? Vemos a cruz, que carregando, no-lo mostrará!? Será? Talvez. Assim eu veja, em mim, esse caminho que Jesus fez em toda a sua vida e que culminou na sua própria elevação ao céu, para que na minha vida ele se me descubra, de repente, em tudo, em todos, agora, tornando-me mais forte por vê-lo e por sabê-lo dentro de mim.
Porque é que há arquitectos que pensam tanto sozinhos em outras coisas que não arquitectura, em vez de pedirem ajuda? E porque é que este admira tanto o poder? O poder, em geral, claro. Para ele, Lisboa não precisa de praças para estar. Mas sim praças monumentais. Para vermos bem o Rei. Tiananmen deve ser a que fica mais próxima, em estilo. Vamos ter um bom sítio para concursos de papagaios de papel.
Esta é talvez a melhor parte (com vários erros históricos): "A minha posição é que não há nada para restaurar. Na época pombalina não havia desenho algum, era um terreiro, ponto final. A não ser que queiram restaurar o desenho do Estado Novo, feito no início dos anos 1930. Deixar o que está também não faz sentido porque é um desastre, é a ocupação daquela praça pelo automóvel."
Mas claro, também se fala de ritual (nunca falta essa palavra nestas coisas): "O cais adivinha-se ao longe mas está ligeiramente submerso, por isso a chegada será uma espécie de ritual."
E a cereja no topo: "O problema que a praça tem é o desconforto ambiental para as pessoas estarem. Parto do princípio que não é uma praça para estar, como as praças espanholas fechadas, cheias de esplanadas. É uma praça de cenografia, de grandes acontecimentos, que nas suas bordas terá sítios onde as pessoas possam estar e criaremos as condições para isso."
E, pronto, um homem dá-nos aquilo que quer e a mais não é obrigado. E os cidadãos, servem para quê? E ficamos assim, sem pestanejar?
O Chavismo A é uma doença epidémica, que se propaga de um país com um regime totalitário de esquerda e está a atingir Portugal em grande velocidade e intensidade.
As manifestações mais recentes e reconhecíveis, são:
.Uma vontade irrepreensível de nacionalizar empresas e contornar regras nacionais e comunitárias de aquisição de produtos.
.Jovens estudantes barbudos, com ar desvairado revolucionário de esquerda,nascidos em Democracia, a gritarem impropérios e a chamarem fascista ao Primeiro-Ministro que visitava uma escola secundária em Lisboa.

Diz o Jornal «i» que, por lapso, os administradores do Banco de Portugal não receberam durante o ano passado o aumento que lhes era devido e que, por causa disso, o mesmo aconteceu aos corpos directivos das outras Entidades Reguladoras. Como tal, para reparar o mal, as administrações do Banco de Portugal e das ditas Entidades deverão receber este ano um aumento de 5% (2,1% relativo a 2008 e 2,9% relativo a 2009). Parece-me justo, pelo menos em nome do direito de cada um à remuneração devida pelo trabalho realizado, coisa que, na nossa civilização, apesar de ser tão maltratada a tradição judaico-cristã, vem sendo defendido desde o livro do Eclesiastes.
A oposição, no entanto, barafusta, dizendo que isto é uma vergonha e que o Governo tem que inverter esta situação, já que de nenhum modo se pode aceitar uns tais aumentos neste terrível tempo de crise em que vivemos. Convenhamos que também têm razão. Segundo ouvi, na TSF, o aumento destes administradores, em alguns casos, representa, por si só, mais de dois ou três salários mínimos. Ora, quando tanta gente não tem aumentos, nem emprego, nem coisa nenhuma, não está certo que os altos quadros da administração pública sejam assim recompensados pelo Governo.
Para além de tudo, não poderá deixar de nos parecer estranho que o Governo, ainda que por lapso, não aumente os ditos gestores quando deve e pode fazê-lo, aumentando-os, no entanto, agora, quando não o pode nem deve. O «Expresso On-Line», talvez por isso, confirmando embora o lapso de 2008 e o prejuízo que isso causou aos dirigentes das várias Entidades Reguladoras, noticiou ao final da tarde o comunicado feito pela administração do Banco de Portugal, no qual afirmam que, contrariando até o disposto na lei, também este ano não receberão qualquer aumento, com o que infirmam o que no jornal «i» e nas rádios se vai dizendo.
Enfim, a confusão está instalada e cada um há-de pensar o que quiser. Fica, no entanto, a pergunta: será que o Sr. Governador do Banco de Portugal não recebe, no fim do mês, um recibo de ordenado, como toda a gente na função pública? Será que não o assina, ficando com uma cópia, na qual pode ler o que recebeu, o que descontou, as despesas de representação e o subsídio de almoço? Então e não reparou que não tinha sido aumentado? E não o reparou durante um ano inteiro? E não sabia que disso dependia a justa remuneração de alguns dos seus pares? E ninguém lhe disse nada? Nenhum dos outros administradores? Nenhum dos seus assessores? Nem o seu motorista?
Ora, a dúvida que nos foi imposta desde o deficit estabelecido por este Banco às contas do Governo de Santana Lopes, depois dos casos do BCP (de que ninguém parece já lembrar-se), do BPN, do BPP, dos estranhos empréstimos da CGD, etc., instalou-se agora definitivamente entre nós. Com efeito, como poderemos nós acreditar que o Banco de Portugal é capaz de exercer o seu papel regulador no mercado financeiro em Portugal, se o Sr. que o dirige não é sequer capaz de controlar o que recebe ao fim do mês?
A questão é grave, porque, na descrença quase total que os portugueses vão tendo relativamente à legitimidade da autoridade dos seus governantes, esta é mais uma instituição pública que vai ficando irremediavelmente manchada. Não podemos estranhar, portanto, que, também em relação a esta Entidade, as pessoas se comecem cada vez mais a perguntar: Afinal, para que serve o Banco de Portugal? Ou: Afinal, a quem serve o Banco de Portugal? Com efeito, é normal que entre nós se instale esta desconfiança, quando a incompetência e o erro parecem ser a única constância do Banco de Portugal.
A feira do livro deste ano esteve diferente e muito melhor. Muito melhor mesmo. Incomparavelmente. Quem foi o responsável? Quem pôs na ordem os grémios dos editores? Alguém sabe?
vejamos, nas legislativas não vou votar. Volta e meia assim faço. Não votarei por duas razões. Gostava de ter um governo de maioria relativa, para irmos aprendendo a viver com esse estilo tão europeu, e não gosto de nenhum dos candidatos em quem poderia deitar o meu voto, como se diz.
Nas europeias, acho que vou votar (se estiver por cá, claro). Para contrariar, se calhar. Mas também porque a Europa é o melhor que nos aconteceu e acontecerá. Ora, seguramente não votarei no homem de Coimbra que representa o que de mais antigo este país tem. Nele não voto de certeza.
E hoje li uma entrevista de que gostei. Gostei muito mesmo. Um homem de direita e católico (coisas que não sou muito) e com ideias bem fabricadas (coisa de que gosto e muito). Achei mesmo interessante. E gosta de Europa sem complexos. Tem uma posição inteligente sobre o federalismo (não é um bicho-de-sete-cabeças), sobre os referendos (não são sacrossantos) e sobre o défice democrático (existe sempre que se tem poder executivo - acho que é mais ou menos isto).
Mas depois pensei (erro): mas será que vou deitar o voto nele e ele vai mesmo para lá? E se for mesmo? Depois muda a direcção do partido e ele fica silencioso? Bem, não se pode ter tudo e vou mesmo votar no Paulo Rangel (se não mudar de ideias e estiver por cá, claro). Por causa de uma entrevista? E porque não?
Não é ainda comum neste país dizer-se em quem se pensa votar, mas aqui fica dito.
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No café Nicola em Lisboa, teve lugar ontem um encontro do candidato Paulo Rangel com bloggers. O candidato,blogger actualmente em licença sabática,é autor do livro de ensaios "O estado do Estado".
Foram mais de duas horas de troca de ideias. Falou-se de fetichismo, exclusividade e hiperidentidade.
O ESTADO, que já não existe tal qual o pensámos.
Defende o candidato que "A evolução tecnológica e as possibilidades de mobilidade que lhe andam associadas alteraram radicalmente as condições de manifestação e de exercício do poder político e, designadamente, do poder político estadual. Desligaram-no definitivamente do comutador territorial: o espaço deixou de ser a base fundamental das relações políticas".
A esta mudança de natureza das relações de poder, Paulo Rangel chama a " medievalização do poder", no que quer significar " a enorme dispersão e multiplicidade dos centros de poder e a erosão do seu fundamento territorial".
O que vem a culminar na constatação de que "o modelo estatal, enquanto modelo único e homogéneo de organização de convivência política, exibe sinais de degenerescência e declínio."
Paulo Rangel defende ainda que se assiste " a um fortalecimento de um sem-número de poderes de facto (económicos, desportivos, religiosos, culturais), muitos deles com origens transversais, sem qualquer elemento de conexão ao tradicional poder dos Estados.
A EXCLUSIVIDADE, que já não existe.
A existência de centros autónomos de imputação de poder, significa também que esses nichos de poder criam laços de pertença com as pessoas que os integram "criando nexos de lealdade política que competem com o Estado. Laços que por não serem esclusivos são sobreponíveis ao vínculo estadual".
A EUROPA, a hiperidentidade portuguesa.
Paulo Rangel declarou-se não ser um fetichista do referendo (momento quente da noite) denunciando a estratégia antifederalista: "urdiram uma estratégia maquiavélica cujos contornos só agora se tornam claros. Primeiro tornaram "federalista" um insulto,depois adoptaram uma solução desigual e agora denunciam a desigualdade dessa solução!
Quanto à perda de identidade nacional, suscitada pela audiência, Paulo Rangel respondeu com o conceito de "hiperidentidade" de Eduardo Lourenço, um povo que diz tão mal de si próprio, tem de estar bem seguro da sua identidade.
A TURQUIA, A RÚSSIA.
As dificuldades da integração turca ( a ter em conta o deficit democrático e e o estatuto subalterno das mulheres turcas), e a necessidade de pensar em soluções progressivas para a integração. Registou-se alguma contestação na sala.
A defesa da ideia de uma Europa do Atlântico aos Urais. A constatação de que os Russos são europeus e que a cultura europeia não abdica dos contributos de Tolstoi, Dostoievski, Tchaikovsky ou Prokofiev. Por esta altura sentiu-se um friozinho siberiano na sala.
Noite quente no Nicola, um candidato com ideias firmes sobre o projecto europeu, o estado do Estado em pano de fundo.
Paulo Rangel, o candidato que é o estado da arte nas eleições europeias.
Todavia, fica-me uma pergunta. Não será justamente por causa de uma obra de arte de um russo que tantas vezes concebemos os russos como não europeus?
Será que de cada vez que pensamos na Rússia pensamos nesssa obra maior de Serguei Eisenstein "Ivan, o Terrível". Será que uma obra de arte tem tanto poder?
O Yes, Minister/Prime Minister era a série favorita de Margaret Thatcher. E também de Friedrich Hayek. Não é difícil compreender porquê. Para além de ser uma série engraçada, o Yes, Minister tem também uma acentuada consonância ideológica com as posições de Hayek ou Thatcher. A série apresenta uma forte influência da teoria da escolha pública; a concepção da intervenção estatal como geradora de custos e ineficiências, ou a noção de uma motivação egoísta no comportamento de políticos e burocratas – os primeiros motivados pelo desejo de ganhar eleições e exercer o poder, os segundos pela maximização orçamental dos seus serviços, da qual derivam prestígio e poder – são temas recorrentes da série. Como referem John Blundell e Colin Robinson, do Institute of Economic Affairs (“the UK's original free-market think-tank”): “To anyone versed in economics these programmes are not only entertaining but also pure public choice”. Um dos criadores da série, Antony Jay (ou melhor, Sir Antony Jay – foi nomeado cavaleiro em 1988, por sugestão do governo… Thatcher) descreveu a teoria da escolha pública como estando na base de praticamente todos os episódios do Yes, Minister/Prime Minister (para além de se auto-descrever como um “radical right-winger”). A sua perspectiva é corroborada ainda hoje: um artigo de 2006 na revista do Institute of Economic Affairs, a Economic Affairs, caracteriza a série como um instrumento ideal para leccionar a teoria da escolha pública.
Isto leva-me a uma questão: o humor é ideológico? A ligação entre o Yes, Minister/Prime Minister e a teoria da escolha pública sugerem que não: afinal, há muita gente que rejeita a escolha pública ou é de esquerda mas aprova o Yes, Minister/Prime Minister. O melhor exemplo é Tony Benn: doyen e símbolo da esquerda britânica, mas também fã da série. Contudo, creio que a resposta não é tão simples: o YM/YPM foi co-escrito por um anti-Thatcherista, Jonathan Lynn (depois de Thatcher ter participado num sketch do Yes, Minister, Lynn disse que ela tinha tomado “her rightful place in the field of situation comedy”); e a série tem um lado que apela à esquerda também. Sir Humphrey representa não apenas o burocrata que defende os seus interesses, ele é também o símbolo do privilégio, da tradição, das classes sociais educadas em escolas privadas (e que enviam os seus filhos a escolas privadas), das “old boy networks” de Oxbridge. Seria a série tão popular sem este lado? Suspeito que não.
O teste mais contemporâneo à relação entre humor e ideologia é-nos dado por programas como o Colbert Report ou o Daily Show. Suspeito que há muitas pessoas de direita em Portugal que gostam do Colbert e do Jon Stewart (aliás, há algum tempo atrás, João César das Neves caracterizou o Daily Show como “genial” num artigo de opinião – embora o seu “compliment” se tornasse crescentemente “backhanded” ao longo do texto). Mas esse não me parece um indicador fiável: é muito mais fácil rirmos do humor político quando ele é sobre outros países, sobre políticos em quem não podemos votar, e cujas decisões nos favorecem ou prejudicam de forma muito mais indirecta. Nos EUA, há uma boa parte da direita que não acha nenhuma piada ao Jon Stewart (como disse o Bill O’Reilly, “You're Jon Stewart. If you go to Alabama you're going to be killed. You can't go where these center-right people are because they'll stone you to death”). E, igualmente, há uma boa parte da esquerda que não acha piada p.ex. ao P.J. O’Rourke (ver este artigo do New Republic. Frase-tipo: “Can [O'Rourke]’s stuff really being getting worse every time, we wonder? Of course the answer never ceases to be in the affirmative.”) Em Portugal, temos muito pouco humor político (aliás, temos muito pouco humor tout court, mas essa é outra história…) que seja ideologicamente alinhado: o humor político que temos aponta em geral para os alvos fáceis e óbvios, e raramente se aventura por questões controversas. Uma excepção em termos de humor politicamente alinhado (& nothing else of what I said above…) é o sketch dos Gato Fedorento sobre o aborto. A reacção muito distinta que suscitou da parte de figuras ‘pró-vida’ e de ‘pró-escolha’ leva-me a pensar que o humor é (também) mediado pela posição ideológica.