quarta-feira, 3 de junho de 2009

Praça pública



Afinal ainda pode haver esperança de que não vá para a frente mais uma intervenção idiossincrática. Pode assinar uma petição e estar atento ao desenrolar dos acontecimentos.
Junto à discussão exemplos de bom e de mau arranjo. Note-se, no mau exemplo, o pormenor da "deslocalização do elemento estatuário": aqui também se deve ter falado de "eixos" e de "percursos". No bom exemplo, note-se a diferença que as árvores fazem.

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terça-feira, 2 de junho de 2009

A morte em directo...



Tem-se falado muito de um avião da Air France que caiu algures no oceano Atlântico com 228 pessoas a bordo. Não sei se é só impressão minha, mas sinto na experiência pública desta notícia algo diferente relativamente a muitas outras que, de vez em quando, lá surgem, sobre quedas de aviões e as consequentes mortes de quem lá ia.
Para além da tragédia da morte aparentemente despropositada de um grupo grande e heterogéneo de pessoas, bem como do medo instintivo que tolhe, pelo menos no meu caso, aquele que se imagina preso a um corpo em acelerada, prolongada e desesperada queda livre, há aqui algo que me parece ser diferente, nomeadamente a absoluta estranheza da morte, que, enquanto tal (isto é, absoluta e estranha), tão arredada anda das consciências.
Com efeito, não há aqui reportagens em directo, tentativas de salvamento, companhias de seguros… na verdade, há apenas nada! Somente a perplexidade de um avião que, pura e simplesmente, desapareceu na vastidão de um oceano. Não se sabe onde caiu, nem quando caiu, ou porque caiu... A nossa crença numa eficácia objectiva de um controle tecnológico extensível, desde o espaço, a toda a terra, foi desfeita.
Há um vazio que, de repente, se nos impõe. E é isto, talvez, esta inexplicabilidade desta morte, a ausência de qualquer contacto com ela, que a torna mais silenciosa, mais funda e, estranha e intimamente, mais nossa. Há uma calma que paira sobre todos os esforços de reconhecimento do local, uma certa aceitação da tragédia, tão atípica nas coberturas dos telejornais.
Foi isso que ressaltou em mim nas serenas mas comovidas palavras de Lula da Silva, presidente operário do Brasil e representante político da esquerda brasileira, quando disse, ainda ontem, qualquer coisa como isto: «É uma tristeza, uma dor imensa. Mas nada mais podemos fazer, a não ser rezar pelas famílias dos que morreram e pedir a Deus que uma tragédia destas não volte a acontecer.»

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Post emprestado e de resposta: Uma falsa boa ideia

O João Marques de Almeida escreveu um artigo no Diário Económico em que critica um ponto importante do meu artigo no I e que também publiquei aqui. Teve a atenção de me o enviar e espero que não se importem que o reproduza no blog. Continuo a não concordar com o João mas reconheço a importância dos argumentos que ele apresenta e procurarei responder a eles noutro post (e quando tiver um pouco mais de tempo...).

"Miguel Poiares Maduro escreveu um excelente ensaio no jornal "I", sobre as eleições europeias. Por isso, felicito-o. Concordo com dois argumentos do ensaio: a legitimidade política e democrática da União em geral e da Comissão em particular são fundamentais; e as discussões sobre as políticas devem sobrepor-se aos debates institucionais.

Discordo, no entanto, de um ponto fundamental: a transformação da Comissão num "governo europeu". É fundamental distinguir a politização da partidarização da Comissão. A primeira é desejável e inevitável. Por exemplo, o Presidente da Comissão deve ser um político com passado democrático nacional e não apenas um alto funcionário burocrata, como era a regra até meados dos anos de 1990. Além disso, é positivo que as famílias políticas apoiem os seus membros para a liderança da Comissão. Mas o apoio não é o mesmo que ser um candidato de uma família política. A Comissão não pode apoiar-se num programa partidário.

Em primeiro lugar, os Comissários são indigitados pelos governos nacionais e não pelos partidos políticos europeus. O que significa que são da cor política desses governos, e nem sempre da família política do Presidente. O resultado será inevitavelmente uma Comissão multipartidária. Em segundo lugar, a Comissão não é apenas uma instituição política, também é um órgão quase-judicial que avalia de um modo objectivo o respeito pelas regras comunitárias. Essa imparcialidade seria afectada se a Comissão tivesse uma forte identidade partidária. Por fim, no Parlamento Europeu, é quase impossível uma família política alcançar a maioria absoluta. Seria muito difícil, para uma Comissão partidarizada, construir os consensos necessários para alcançar votações positivas. Ou seja, estaríamos perante o risco de paralisia legislativa.

Julgo que a visão errada da natureza da Comissão resulta de dois problemas com o argumento de Miguel Poiares Maduro. Em primeiro lugar, não consegue escapar ao modelo do Estado para discutir a democracia europeia. Por isso, identifica a legitimidade democrática com maiorias partidárias e com governos. Em segundo lugar, desvaloriza a importância dos interesses nacionais. A crescente natureza ideológica dos votos no Parlamento conta apenas metade da história. A outra metade são as decisões do Conselho, as quais obedecem sobretudo aos interesses nacionais. E são precisamente os governos nacionais que não querem que a Comissão se torne num "governo europeu". Ora, como reconhece o Miguel Poiares Maduro, eles representam democraticamente os cidadãos nacionais. Foram as democracias europeias que escolheram que a Comissão não fosse um "governo europeu". Enquanto se mantiver essa escolha, fazer o contrário não seria democrático. "
João Marques de Almeida

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segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dietrich Bonhoeffer 1906-1945: Une biographie Ferdinand Schlingensiepen Salvator (25 octobre 2005)


Um livro sobre o ambiente rarefeito da igreja protestante e das dificuldades que teve durante o nazismo, decorrentes da sua eclesiologia. Um homem comovente pela sua profunda procura de veracidade pessoal e das dificuldades e sofrimentos decorrentes de uma eclesiologia do livre exame, com todas as suas grandezas e fragilidades. E mais um entre os muito exemplos da origem do ecumenismo e como a II Guerra mundial contribuiu para ele.

Poucas biografias são simultaneamente tão comoventes e tão sinalizadoras de desperdício. Uma imensa figura moral e sem heroísmo fácil, uma imensa figura religiosa, mas sustentada numa teologia sobretudo problemática. Encontramos em Dietrich Bonhoeffer o paradoxo de Lutero, que Lutero iniciou, e que se vê com o século XX desenvolvido às últimas consequências. O dito livre exame redunda em cesaropapismo e não em mais liberdade eclesial. Mais dependência perante as variações do século e não mais liberdade individual. E no entanto, gera personagens que, exactamente pela sua solidão, se tornam em certo sentido mais heróicas.

Em nome da liberdade muita tirania foi criada, seja o regime puritano inglês, seja o Terror, seja o bolchevique. Em nome da liberdade diluíram-se estruturas que a poderiam garantir. Nada sai de graça nesta vida. Não é a valia do livre exame que está aqui em causa, mas conhecer-se os riscos do mesmo. Uma eclesiologia homeopática na sua consistência permite a apropriação da igreja pelo poder civil. Não separa a igreja e o Estado, permite a absorção da primeira pelo segundo. Nesse sentido, os nazis continuaram a política da Kulturkampf de Bismarck.

Dietrich Bonhoeffer não conseguiu sair das suas primeiras premissas. Observou com nostalgia a vida monástica católica e tentou mimá-la. Mas não conseguiu perceber que o cenobitismo apenas ganha consistência quando integrado numa igreja maior. A sua equação era impossível. Um dos muitos pioneiros do ecumenismo não poude, assim, como muitos do lado católico e ortodoxo, dar o passo seguinte. O de que a desunião dos cristãos é a principal ferida do cristianismo, mais que as jornalísticas inquisições e cruzadas, perseguições calvinistas e puritanismos não conformistas. Mas, tendo pago um preço grande por esse facto, não merece qualquer desprezo e muito menos condescendência. Bem pelo contrário: inspira-nos um profundo respeito.


1) http://www.arts.uwaterloo.ca/~diebon06/index.html
2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Dietrich_Bonhoeffer
3) http://www.sociedadebonhoeffer.hpg.ig.com.br/olegado.htm
4) http://ovelhaperdida.wordpress.com/2007/12/13/poema-de-dietrich-bonhoeffer/
5) http://www.pensador.info/autor/Dietrich_Bonhoeffer/
6) http://www.ushmm.org/museum/exhibit/online/bonhoeffer/





Alexandre Brandão da Veiga

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Perdoai-lhes, Senhor

Por todo o lado vejo e leio que a campanha eleitoral para as eleições europeias está a ser "fraca", que não se debatem temas europeus.

Gostava de perceber exactamente qual é a questão. Se quem o diz e escreve acha que os candidatos nada sabem sobre o tema, ou se sabendo, dele não querem falar.

Relativamente aos candidatos dos dois maiores partidos, Paulo Rangel e Vital Moreira, e embora este último não seja o candidato da minha preferência, não tenho quaisquer dúvidas de que ambos são pessoas muitissimo bem preparadas do ponto de vista dos conhecimentos sobre a área.
Rigorosamente creio que são, sob esse prisma,das pessoas mais bem preparadas que temos tido como candidatos ao PE. Ou alguém acha que o Dr. Mário Soares sabia mais de direito europeu e comunitário e dominava melhor os dossiers?

Aliás, gostava de saber quantos, de entre os que os criticam, já leram os livros de ambos. Se se quiserem dar à maçada, talvez encontrem neles bastantes temas de debate e discussão que poderiam lançar e até talvez confrontar os candidatos com incoerências ou insuficiências.

Se ainda fossemos a tempo, gostaria de propor às campanhas do PS e PSD uma acção conjunta: reunir todos os jornalistas, comentadores, cronistas e opinion makers descontentes com a campanha num amplo anfiteatro, para duas intervenções( quatro horas cada) sobre direito europeu. O candidato Paulo Rangel faria a intervenção da manhã, das 9.00 às 13.00. O candidato Vital Moreira falaria das 14.00 às 18.00.

Duas aulas de direito europeu puro e duro. Os presentes manter-se-iam calados, não fariam comentários, nem perguntas, não haveria fait-divers.

Veríamos nesse dia os verdadeiros cultores de política e direito europeus.

PS - Os telemóveis ficavam guardados à entrada e devolvidos no final da sessão. Nada de mensagens, nem twitter, nem email, nem facebook.

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sexta-feira, 29 de maio de 2009

Abel e Caim

Pelo menos desde Abel e Caim, sabemos todos que não há guerras tão letais como as guerras fraticidas.

Ninguém escreverá nada sobre Dias Loureiro e o BPN como escrevem hoje Vasco Pulido Valente e Miguel Júdice no jornal Público de hoje.
Os restantes escribas podem baixar a pena.

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O descapotável

Nos tempos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, a febre revolucionária de esquerda estava ao rubro. Muitos portugueses, saídos de uma ditadura de direita, sonhavam com a patine de uma ditadura do proletariado. O ódio ao capital e aos capitalistas, se já existia, ganhou corpo nessa altura e perdurou até hoje.
Muitos filhos família ainda conservavam alguns sinais recentes de abastança, aventurando-se a sair de casa com o carro, cabelos ao vento. Os comentários variavam, mas não destoavam entre o “burguês” e o “reaccionário”. A resposta vinha então, na cartilha politicamente correcta de então: “- Ando a descapitalizar os meus pais”.
Portugal continua um país pobre, descapitalizado, que cultiva o ódio aos ricos, olha de lado quem cria riqueza, não encoraja os empreendedores, não celebra a iniciativa privada. Muitos olham o Estado como o providenciador natural, alguns até esperam que o Estado lhes faça a riqueza.
Portugal tem hoje 2 milhões de pobres e ainda não percebeu que estaria bem melhor se tivesse 2 milhões de ricos. A riqueza não deve ser motivo de vergonha para um país, só a pobreza o é.
35 anos depois, discute-se a possibilidade de criminalizar o enriquecimento ilícito. Admito que seja um caminho possível para combate ao flagelo da corrupção, mas fico com a impressão de que se trata apenas da criminalização do enriquecimento.
O ilícito aqui vai só à boleia.

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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Este desporto não é para o Ronaldo?


Ronaldo perdeu por causa do Manchester ou o Manchester perdeu por causa de Ronaldo? Hoje ouvia-se, sobretudo, que foi a equipa do Manchester que não esteve à altura de Ronaldo. Ao contrário do Barcelona que teve uma equipa, o Manchester pareceu depender totalmente de Ronaldo. Mas fica no ar a dúvida se isso se deveu à ausência de alternativas ou ao domínio que Ronaldo exerce nas equipas que joga. Ronaldo foi de longe o melhor jogador do Manchester. Mas até que ponto a sua presença numa equipa não transforma o futebol: o jogo deixa de ser colectivo para passar a ser o jogo do Ronaldo. Há uma diferença entre o Manchester não ser muito mais que o Ronaldo e o Manchester sumir-se perante Ronaldo.
Esta impressão é provavelmente injusta para o Manchester e o Ronaldo: muitas vezes o Manchester juntou o colectivo à diferença do Ronaldo mas quando ontem o colectivo sentiu dificuldades desistiu de o ser e investiu tudo no Ronaldo. Só que esta impressão (ainda mais presente na selecção) começa a fazer de Ronaldo um jogador quase antipático: individualista, sem saber perder, o que foi muito acentuado pela transmissão televisiva e alguns comentários que ouvi no estrangeiro. Foi então que me ocorreu que o Ronaldo pode estar no desporto e continente errados. Ele é o típico ídolo desportivo americano: rejeita perder, é igualmente competitivo com colegas e adversários, quer ser ele a decidir os jogos. Nos EUA é isto que faz um grande atleta: os americanos consideram o carácter competitivo e a recusa em perder como um dos maiores atributos pessoais (realçaram isso em Obama quando ele jogou basketball durante a campanha) e gostam do individualismo no jogo (consideram que se trata de assumir a responsabilidade do jogo). Na Europa, tudo isto é normalmente entendido como vaidade e egoísmo...
A verdade é que o Ronaldo promove a concentração do capital desportivo enquanto na Europa se prefere o capitalismo popular…

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Do I: As eleições europeias são tudo menos europeias

As eleições europeias costumam ser tudo menos europeias. Por vezes fala-se de Europa, mas não se faz política europeia. E o que falta à Europa é política. Melhor, um debate político correspondente à sua relevância política. O denominado défice democrático europeu é mais produto da falta de política que da falta de instrumentos democráticos. A prová-lo está o paradoxo de ao crescimento dos poderes do Parlamento Europeu ter correspondido uma diminuição na participação eleitoral europeia.
A União Europeia é dos entes políticos que mais e mais diferentes formas de representação democrática prevêem. Muita da legislação europeia envolve a participação dos governos nacionais (representando os seus cidadãos e controláveis pelos parlamentos nacionais), do Parlamento Europeu (directamente eleito pelos cidadãos) e da Comissão Europeia. Acresce que as políticas europeias beneficiam normalmente de um processo muito alargado de consulta dos interesses afectados. Há até quem defenda que a União é democraticamente superior aos estados. Do que a União necessita é de um debate político correspondente ao seu impacto político. No debate europeu discute-se sempre a razão de ser da União e não as suas políticas. É como se cada discussão entre duas pessoas casadas se transformasse sempre numa discussão sobre a subsistência do próprio casamento.
A Europa e a política.
Alguns estudos indicam que mais de 50% da legislação que entra em vigor nos estados-membros é de origem europeia. Partes importantes (se não mesmo predominantes) das políticas sociais, de protecção do ambiente e do consumidor, por exemplo, são fixadas a nível europeu. Mas a Europa também determina o que podem os estados fazer e como o podem fazer. Fá-lo de forma directa ao regular as formas de intervenção do estado na economia ou ao alargar o leque de beneficiários de muitas políticas sociais dos estados aos cidadãos de outros estados-membros. Fá-lo também de forma indirecta ao criar um espaço político e económico de mobilidade de pessoas, empresas, serviços e produtos. Este espaço põe em concorrência as próprias políticas dos estados que competem entre si para atrair investimento, empresas e pessoas. A nossa mobilidade exprime a nossa preferência relativamente a essas políticas. Esta mobilidade não se esgota na economia, mas alarga-se a outras dimensões da vida. A circulação dos cidadãos europeus pode hoje ter na sua base a procura de uma melhor educação ou cuidados de saúde ou até mesmo a escolha de um modelo de vida diferente, o que facilmente põe em tensão valores fundamentais de diferentes sociedades. Que direitos deve ter em Portugal um casal homossexual casado em Espanha e que decide vir viver para Portugal ao abrigo da liberdade de circulação?
O impacto político da União é hoje mais que pressentido; é claramente sentido. Só não é entendido. Trata-se a política europeia como política internacional. Vive-se na ilusão de que o essencial da política europeia ainda é a protecção do interesse nacional. A verdade é que na grande maioria das políticas europeias não existe "um" interesse nacional. Existem antes diferentes posições ideológicas sobre a melhor política em geral. As políticas europeias são hoje mais fruto de diferentes interesses políticos que dos interesses nacionais. Para qualquer actor social e político, a Europa é apenas mais um nível de decisão através do qual procura promover os seus interesses e preferências políticas. Se num estado a sua posição é minoritária, é mais que natural que tente promover certas políticas através da Europa. A preferência pela Europa é, neste caso, um mero resultado da preferência por uma certa opção política. Os sindicatos britânicos "preferem" a Europa ao seu próprio estado como centro de decisão das políticas sociais, pois sabem que o equilíbrio de forças lhes é aí mais favorável. Os ambientalistas portugueses encontraram na Europa uma forma de reforçar o seu poder. O mesmo sucede aliás com os governos nacionais que por vezes "transferem" para a Europa decisões com elevados custos políticos a nível nacional.
A natureza ideológica e não nacional da política europeia é confirmada por vários estudos que concluem que o voto parlamentar europeu assume crescentemente uma natureza ideológica, de acordo com a tradicional divisão esquerda/direita. A disciplina partidária nos grupos políticos europeus apresenta igualmente resultados muito semelhantes aos dos parlamentos nacionais e até ligeiramente superiores aos do Congresso norte-americano. Os deputados europeus votam mais de acordo com a ideologia que com a nacionalidade.
Isto só surpreende quem não se dá ao trabalho de pensar nas questões suscitadas por alguma da legislação mais importante recentemente adoptada ou discutida na Europa. Matérias como a regulação do tempo de trabalho, os contratos a prazo, o direito de asilo, a protecção de dados pessoais ou dos direitos de autor, a liberalização de certos sectores económicos ou o combate ao aquecimento global, são matérias em que não existe "um" interesse nacional. A divisão é sobretudo ideológica e vai muito para além das fronteiras nacionais.
É possível que nalgumas matérias ainda exista "um" interesse nacional e os governos nacionais agem sempre como se assim fosse, mas muitas vezes quando se fala de interesse nacional o que existe é uma preferência governamental por alguns interesses nacionais em vez de outros. A correspondência necessária entre a dimensão política da Europa e o debate político que a deve suportar exige que as eleições europeias sejam menos sobre a nossa posição na Europa e mais sobre qual a Europa que queremos. Mas não é fácil tornar europeias as eleições europeias.
O governo europeu.
Uma primeira hipótese é transformar as eleições europeias na escolha de um "governo europeu". A candidatura de Durão Barroso à presidência da Comissão antes das eleições é um primeiro passo nesta direcção. Claro que haverá quem lembre que as regras do Tratado dizem que é o Conselho que escolhe a Comissão e o seu presidente, e que o Parlamento "apenas" aprova tal escolha. Mas algumas revoluções políticas fazem-se através da prática constitucional. Será possível o Conselho escolher outro presidente no caso de a maioria parlamentar corresponder aos partidos que apoiam Durão Barroso? Os partidos ficam politicamente vinculados ao candidato que apoiarem perante o eleitorado. É verdade que os grupos políticos europeus ou apoiam Barroso ou criticam o seu nome, mas sem apresentarem uma alternativa. Estas eleições europeias ainda não serão um confronto entre diferentes líderes europeus e os partidos que os apoiam. Porém, o simples facto de se ser contra ou a favor de Barroso é uma forma de personalização da campanha e, goste-se ou não, é dessa forma que as pessoas se identificam com a política.
A candidatura de Barroso criou um precedente. Os eleitores europeus vão começar a associar as eleições europeias à escolha do presidente da Comissão. Tem dúvidas de que nas próximas eleições vamos ter uma competição eleitoral entre diferentes grupos políticos europeus e os seus candidatos a presidentes da Comissão?Há outra consequência. Durão Barroso será o primeiro presidente da Comissão "sujeito" a um sufrágio universal. Se vencer, terá uma legitimidade popular de que nenhum outro presidente da Comissão beneficiou.
Claro que existe um limite e um risco na "politização" da Comissão Europeia. O limite é que a sua composição está dependente de propostas de governos ideologicamente distintos, resultando numa heterogeneidade ideológica que mesmo um presidente forte não conseguirá dominar totalmente. O risco é que a sua politização afecte a sua imagem de neutralidade e independência técnica. Teme-se que a politização da União a possa desintegrar. A sua natureza consensual seria fundamental para evitar uma maior oposição social e política. Este risco existe, mas alimentar a actual ilusão pode comportar um risco ainda maior: o de que União seja vista como uma forma de fazer política sem debate político. É por isto que o debate sobre as políticas europeias se transforma sempre num debate pró ou contra a Europa.
São as políticas, estúpido!
Ficou famosa a frase colocada no quartel-general da candidatura de Clinton à presidência norte-americana: it?s the economy, stupid. Na Europa também precisamos de algo que nos lembre o que é decisivo para os cidadãos. O discurso europeu é dominado por uma espécie de existencialismo institucional permanente. É um discurso dominado pelas elites e que fica frequentemente reduzido a um discurso entre elites que discutem incessantemente o desenho institucional da União. Está tanta gente ocupada com a mecânica do carro que ninguém se lembra da sua condução.
Enquanto isso, os cidadãos continuam a avaliar a União a partir das políticas que os afectam. E a assimetria não podia ser maior entre as esperanças que os cidadãos depositam na Europa e a capacidade desta para lhes corresponder. De acordo com o eurobarómetro, entre as matérias em que os cidadãos mais desejam que a União intervenha estão o combate ao crime, a ciência e a tecnologia, o crescimento económico, a energia, a imigração, a defesa e a política externa. Tudo matérias em que a União tem pouco poder?
Mesmo em áreas como os sistemas sociais, de educação e fiscais, uma maioria de europeus (embora com importantes divergências entre estados) defende a existência de uma verdadeira política europeia. Mas isso não acontecerá com o actual orçamento. Este corresponde a pouco mais de 1% do PIB, enquanto a média nos estados anda próxima dos 20%. A União é sobretudo uma força reguladora. Pode oferecer direitos e impor deveres, mas apenas legislando, e não pagando. Tem um chicote grande e uma cenoura pequenina.
É por tudo isto que a atitude dos cidadãos face à Europa é quase esquizofrénica. Recorda uma piada de Woody Allen: duas pessoas que passam o tempo a dizer mal da comida de um restaurante e concluem a queixar-se que as doses são pequenas. E se nas presentes eleições os partidos, em vez de falarem das doses e da arquitectura do restaurante, nos dissessem o que gostariam de servir ao jantar?

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Onde está!? Que agora é só pau, ou pedra...


No último Domingo celebrou-se na Igreja a festa da ascensão de Jesus ao céu. Depois de morto e ressuscitado, Jesus continuou a aparecer junto dos apóstolos, ensinando-lhes o caminho e manifestando-se-lhes através dos seus sentidos. Com efeito, eles viam-no, ouviam-no, tocavam-no e cheiravam e comiam (peixe) com ele, tal como todos nós fazemos diariamente uns com os outros. Ao fim de 40 dias, porém, elevou-se aos céus, deixando de estar visivelmente presente entre nós.
Ora, a primeira leitura desse dia diz algo que me tem deixado pensativo e que aqui resolvi partilhar. Respondendo à habitual pergunta dos seus seguidores, que mais uma vez queriam saber se aquele era o momento em que ele iria restaurar a realeza de Israel, Jesus «respondeu-lhes: ”Não vos compete saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a Sua autoridade. Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.” Dito isto, elevou-se à vista deles e uma nuvem subtraiu-o a seus olhos. E como estavam com os olhos fixados no céu enquanto ele se afastava, surgiram de repente dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: “Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o céu? Esse Jesus, que vos foi arrebatado para o céu, virá da mesma maneira, como agora o vistes partir para o céu.”» (Act. 1, 1-11)
A verdade é que, também eu, esperando quase sempre que Deus venha forçar os outros ao reconhecimento da minha realeza e autoridade, tenho muita dificuldade em relacionar-me com este Jesus que deixou de mostrar-se, como tudo o resto, aos nossos sentidos. E é por isso que tenho ficado a pensar nesta última afirmação destes dois homens, surgidos de repente entre aqueles que o procuravam, como sendo uma profunda lição de fé: «Da mesma maneira que o vistes subir para o céu, assim o verás descer até junto de vós.»
Mas fico a pensar: como vi eu Jesus subir aos céus? Sei bem que me hão de dizer que Jesus se “vê” agora nos seus gestos, na sua palavra e na sua Igreja e que esses foram os “contactos” que durante esses 40 dias resolveu deixar entre nós. Está muito bem. Mas isso é a teoria. Na prática, de facto, nos seus gestos, na sua palavra e na sua Igreja, como vejo eu Jesus elevar-se ao céu?
A verdade é que olho pouco, vejo pouco e creio pouco. Fico sempre olhando mais para essa glória que espero venha a ser aqui restaurada, para essa vitória que Deus me há-de dar sobre todos os outros, e até sobre mim, que fielmente O servirei se assim Ele bem me servir! E, no entanto, estes dois homens, vestidos de branco, puros, castos, despidos da sua vã glória, continuam repetindo para que eu os oiça: «Assim como o viste subir ao céu, assim o verás descer junto de ti.»
Na verdade, que vemos nós, olhando a cruz, onde Jesus já não se encontra? Vemos a cruz, que carregando, no-lo mostrará!? Será? Talvez. Assim eu veja, em mim, esse caminho que Jesus fez em toda a sua vida e que culminou na sua própria elevação ao céu, para que na minha vida ele se me descubra, de repente, em tudo, em todos, agora, tornando-me mais forte por vê-lo e por sabê-lo dentro de mim.

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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Tanta teoria

Porque é que há arquitectos que pensam tanto sozinhos em outras coisas que não arquitectura, em vez de pedirem ajuda? E porque é que este admira tanto o poder? O poder, em geral, claro. Para ele, Lisboa não precisa de praças para estar. Mas sim praças monumentais. Para vermos bem o Rei. Tiananmen deve ser a que fica mais próxima, em estilo. Vamos ter um bom sítio para concursos de papagaios de papel.

Esta é talvez a melhor parte (com vários erros históricos): "A minha posição é que não há nada para restaurar. Na época pombalina não havia desenho algum, era um terreiro, ponto final. A não ser que queiram restaurar o desenho do Estado Novo, feito no início dos anos 1930. Deixar o que está também não faz sentido porque é um desastre, é a ocupação daquela praça pelo automóvel."

Mas claro, também se fala de ritual (nunca falta essa palavra nestas coisas): "O cais adivinha-se ao longe mas está ligeiramente submerso, por isso a chegada será uma espécie de ritual."

E a cereja no topo: "O problema que a praça tem é o desconforto ambiental para as pessoas estarem. Parto do princípio que não é uma praça para estar, como as praças espanholas fechadas, cheias de esplanadas. É uma praça de cenografia, de grandes acontecimentos, que nas suas bordas terá sítios onde as pessoas possam estar e criaremos as condições para isso."

E, pronto, um homem dá-nos aquilo que quer e a mais não é obrigado. E os cidadãos, servem para quê? E ficamos assim, sem pestanejar?

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domingo, 24 de maio de 2009

Do Expresso: «Geração Maizena»


“O Dr. Paulo Rangel tem que comer muita papa Maizena antes de chegar aos calcanhares do Dr. Basílio Horta!”…

A frase deu manchetes e primeiras páginas coloridas. Mas, como tudo o resto, logo foi esquecida. E talvez não devesse.

Manuel Pinho pôs-se na posição do ancião, senhor do juízo último sobre o estatuto dos demais. Nesse palanque, estabeleceu uma hierarquia entre Paulo Rangel e Basílio Horta. E alvitrou que, para vencer a distância, Paulo Rangel deveria crescer.

Se fosse vista por um estrangeiro, a cena soaria muito estranha. É claro que não saberia o estrangeiro que uma certa geração se julga dona e senhora da democracia portuguesa.

Embora tenha acedido ao poder há muito pouco tempo, Pinho depressa passou para o lado dos que tratam a democracia como coisa sua. E, como todos os conversos, a sua defesa é veemente e implacável. Rangel é apontado como o usurpador. E, ainda por cima, um usurpador atrevido, já com veleidades de comentar adultos quando, na menoridade dos seus 41 anos (!), mal deixa os cueiros.

Esquecer depressa demais esta história é, afinal, recusarmo-nos a perceber uma das mais sérias patologias da nossa democracia. O seu fechamento em torno de alguns, poucos, identificados geracionalmente com aqueles que fizeram o 25 de Abril, antes deste, a resistência ao Estado Novo e, depois, o PREC e o 25 de Novembro.

Paulo Rangel não fez nada disso. Por uma razão simples: era uma criança. Enquanto os outros preparavam ou faziam a revolução, ele aprendia a ler e a contar.

Apesar disso, ou talvez por causa disso, é, seguramente, uma lufada de ar fresco na nossa política recente. É diferente, bem preparado, gosta da reflexão tanto quanto da acção, vem da sociedade civil, tem uma carreira profissional sólida. Não precisa da política, mas gosta dela. Entrega-se-lhe com sentido cívico e com ela firma um compromisso moral.

Aliás, é bom notar que Paulo Rangel não é o único. É apenas um dos poucos que conseguiu romper a blindagem do regime. Mas há mais, muito mais. Gente válida, com sucesso nos seus percursos profissionais. Gente interessada na coisa pública e genuinamente empenhada em causas colectivas.

Estão por aí, em todo o lado, disponíveis para um país que lhes vira as costas. À espera de um sinal, de uma abertura, de uma razão para intervir. Da política, não querem benesses, nem estatuto, nem dinheiro. Tudo isso arranjariam noutro lado. Da política apenas gostariam de ter a oportunidade de participar na construção de um país capaz de futuro e ambição.

São a Geração Maizena. E estão aí. Arredados dos corredores do poder. Pelos Drs. Pinhos desta vida.

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sábado, 23 de maio de 2009

Chavismo

O Chavismo A é uma doença epidémica, que se propaga de um país com um regime totalitário de esquerda e está a atingir Portugal em grande velocidade e intensidade.

As manifestações mais recentes e reconhecíveis, são:

.Uma vontade irrepreensível de nacionalizar empresas e contornar regras nacionais e comunitárias de aquisição de produtos.

.Jovens estudantes barbudos, com ar desvairado revolucionário de esquerda,nascidos em Democracia, a gritarem impropérios e a chamarem fascista ao Primeiro-Ministro que visitava uma escola secundária em Lisboa.

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

A Constância do Banco de Portugal...


Diz o Jornal «i» que, por lapso, os administradores do Banco de Portugal não receberam durante o ano passado o aumento que lhes era devido e que, por causa disso, o mesmo aconteceu aos corpos directivos das outras Entidades Reguladoras. Como tal, para reparar o mal, as administrações do Banco de Portugal e das ditas Entidades deverão receber este ano um aumento de 5% (2,1% relativo a 2008 e 2,9% relativo a 2009). Parece-me justo, pelo menos em nome do direito de cada um à remuneração devida pelo trabalho realizado, coisa que, na nossa civilização, apesar de ser tão maltratada a tradição judaico-cristã, vem sendo defendido desde o livro do Eclesiastes.
A oposição, no entanto, barafusta, dizendo que isto é uma vergonha e que o Governo tem que inverter esta situação, já que de nenhum modo se pode aceitar uns tais aumentos neste terrível tempo de crise em que vivemos. Convenhamos que também têm razão. Segundo ouvi, na TSF, o aumento destes administradores, em alguns casos, representa, por si só, mais de dois ou três salários mínimos. Ora, quando tanta gente não tem aumentos, nem emprego, nem coisa nenhuma, não está certo que os altos quadros da administração pública sejam assim recompensados pelo Governo.
Para além de tudo, não poderá deixar de nos parecer estranho que o Governo, ainda que por lapso, não aumente os ditos gestores quando deve e pode fazê-lo, aumentando-os, no entanto, agora, quando não o pode nem deve. O «Expresso On-Line», talvez por isso, confirmando embora o lapso de 2008 e o prejuízo que isso causou aos dirigentes das várias Entidades Reguladoras, noticiou ao final da tarde o comunicado feito pela administração do Banco de Portugal, no qual afirmam que, contrariando até o disposto na lei, também este ano não receberão qualquer aumento, com o que infirmam o que no jornal «i» e nas rádios se vai dizendo.
Enfim, a confusão está instalada e cada um há-de pensar o que quiser. Fica, no entanto, a pergunta: será que o Sr. Governador do Banco de Portugal não recebe, no fim do mês, um recibo de ordenado, como toda a gente na função pública? Será que não o assina, ficando com uma cópia, na qual pode ler o que recebeu, o que descontou, as despesas de representação e o subsídio de almoço? Então e não reparou que não tinha sido aumentado? E não o reparou durante um ano inteiro? E não sabia que disso dependia a justa remuneração de alguns dos seus pares? E ninguém lhe disse nada? Nenhum dos outros administradores? Nenhum dos seus assessores? Nem o seu motorista?
Ora, a dúvida que nos foi imposta desde o deficit estabelecido por este Banco às contas do Governo de Santana Lopes, depois dos casos do BCP (de que ninguém parece já lembrar-se), do BPN, do BPP, dos estranhos empréstimos da CGD, etc., instalou-se agora definitivamente entre nós. Com efeito, como poderemos nós acreditar que o Banco de Portugal é capaz de exercer o seu papel regulador no mercado financeiro em Portugal, se o Sr. que o dirige não é sequer capaz de controlar o que recebe ao fim do mês?
A questão é grave, porque, na descrença quase total que os portugueses vão tendo relativamente à legitimidade da autoridade dos seus governantes, esta é mais uma instituição pública que vai ficando irremediavelmente manchada. Não podemos estranhar, portanto, que, também em relação a esta Entidade, as pessoas se comecem cada vez mais a perguntar: Afinal, para que serve o Banco de Portugal? Ou: Afinal, a quem serve o Banco de Portugal? Com efeito, é normal que entre nós se instale esta desconfiança, quando a incompetência e o erro parecem ser a única constância do Banco de Portugal.

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JBC... sempre


João Bénard da Costa vai fazer-nos muita falta. Porque morreu um homem maior.

Com João Bénard da Costa parte o testemunho vivido de uma boa parte da nossa história recente. Parte alguém capaz de intervir e de pensar, um homem de cultura, um homem de causas, um homem de valores, um homem de princípios.

O cinema sentirá o vazio que deixa. Mas, muito para além do cinema, é também o seu lugar na sociedade que é insubstituível. Faltará a sua palavra atenta, o seu olhar inteligente. A sua inconfundível voz, pausada pelo peso de um discurso sempre relevante.

João Bénard da Costa era um homem raro. Um homem admirável. E Portugal anda falho de gente susceptível de admiração.

Hoje, ficámos mais pobres, mais tristes, mais órfãos. Por isso, numa ironia plena de sentido, chorar por João Bénard da Costa será também chorar por nós.

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terça-feira, 19 de maio de 2009

Feira do Livro

A feira do livro deste ano esteve diferente e muito melhor. Muito melhor mesmo. Incomparavelmente. Quem foi o responsável? Quem pôs na ordem os grémios dos editores? Alguém sabe?

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Ora bem,

vejamos, nas legislativas não vou votar. Volta e meia assim faço. Não votarei por duas razões. Gostava de ter um governo de maioria relativa, para irmos aprendendo a viver com esse estilo tão europeu, e não gosto de nenhum dos candidatos em quem poderia deitar o meu voto, como se diz.
Nas europeias, acho que vou votar (se estiver por cá, claro). Para contrariar, se calhar. Mas também porque a Europa é o melhor que nos aconteceu e acontecerá. Ora, seguramente não votarei no homem de Coimbra que representa o que de mais antigo este país tem. Nele não voto de certeza.
E hoje li uma entrevista de que gostei. Gostei muito mesmo. Um homem de direita e católico (coisas que não sou muito) e com ideias bem fabricadas (coisa de que gosto e muito). Achei mesmo interessante. E gosta de Europa sem complexos. Tem uma posição inteligente sobre o federalismo (não é um bicho-de-sete-cabeças), sobre os referendos (não são sacrossantos) e sobre o défice democrático (existe sempre que se tem poder executivo - acho que é mais ou menos isto).
Mas depois pensei (erro): mas será que vou deitar o voto nele e ele vai mesmo para lá? E se for mesmo? Depois muda a direcção do partido e ele fica silencioso? Bem, não se pode ter tudo e vou mesmo votar no Paulo Rangel (se não mudar de ideias e estiver por cá, claro). Por causa de uma entrevista? E porque não?
Não é ainda comum neste país dizer-se em quem se pensa votar, mas aqui fica dito.

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II. Riscos do Vaticano II

Mas o segundo vício que foi potenciado com o Vaticano II é o da submissão ao século. E este vem dos não católicos. Como a Igreja vem ter com eles, acham que vem prestar vassalagem. Simpatizam com ela vagamente quando faz o que a modernidade quer. Aceitam as suas desculpas tanto quanto as exigem quando se trata de Galileu ou da colonização, acham-na simpática quando tem actividade humanitária, querem-na julgar apenas pelas suas categorias de modernidade. Mas não admitem que seja uma religião. E que tenha doutrina própria.

Quando a Igreja vê os seus missionários morrer em África ou na América Latina ou na Ásia, vítimas de perseguições e de uma presença de humanidade no terreno, acham que mais não faz que o seu dever, e deixam quando muito saltar uns condescendentes elogios de passagem. Mas sempre que se afasta da modernidade, sempre que lembra que não é feita para a modernidade porque a ultrapassa, surge logo o coro de protestos. Não se admite que a Igreja invoque a eternidade, porque isso é obsceno para a modernidade. Que seja simpática, agradece-se. Que seja uma religião, parece retrógrado.

Este fenómeno diz muito mais sobre a modernidade que sobre a Igreja. A modernidade está aberta ao diálogo, mas apenas nos seus termos. Não admite uma efectiva – logo, profunda – diferença, mas apenas a disparidade que ela mesma criou. A modernidade é um jardim à inglesa que sob a aparente liberdade obedece a regras bem estrictas que não se deixam enunciar à primeira vista.







Alexandre Brandão da Veiga

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O Estado do Estado, no Nicola



No café Nicola em Lisboa, teve lugar ontem um encontro do candidato Paulo Rangel com bloggers. O candidato,blogger actualmente em licença sabática,é autor do livro de ensaios "O estado do Estado".
Foram mais de duas horas de troca de ideias. Falou-se de fetichismo, exclusividade e hiperidentidade.

O ESTADO, que já não existe tal qual o pensámos.

Defende o candidato que "A evolução tecnológica e as possibilidades de mobilidade que lhe andam associadas alteraram radicalmente as condições de manifestação e de exercício do poder político e, designadamente, do poder político estadual. Desligaram-no definitivamente do comutador territorial: o espaço deixou de ser a base fundamental das relações políticas".

A esta mudança de natureza das relações de poder, Paulo Rangel chama a " medievalização do poder", no que quer significar " a enorme dispersão e multiplicidade dos centros de poder e a erosão do seu fundamento territorial".

O que vem a culminar na constatação de que "o modelo estatal, enquanto modelo único e homogéneo de organização de convivência política, exibe sinais de degenerescência e declínio."

Paulo Rangel defende ainda que se assiste " a um fortalecimento de um sem-número de poderes de facto (económicos, desportivos, religiosos, culturais), muitos deles com origens transversais, sem qualquer elemento de conexão ao tradicional poder dos Estados.


A EXCLUSIVIDADE, que já não existe.

A existência de centros autónomos de imputação de poder, significa também que esses nichos de poder criam laços de pertença com as pessoas que os integram "criando nexos de lealdade política que competem com o Estado. Laços que por não serem esclusivos são sobreponíveis ao vínculo estadual".

A EUROPA, a hiperidentidade portuguesa.

Paulo Rangel declarou-se não ser um fetichista do referendo (momento quente da noite) denunciando a estratégia antifederalista: "urdiram uma estratégia maquiavélica cujos contornos só agora se tornam claros. Primeiro tornaram "federalista" um insulto,depois adoptaram uma solução desigual e agora denunciam a desigualdade dessa solução!

Quanto à perda de identidade nacional, suscitada pela audiência, Paulo Rangel respondeu com o conceito de "hiperidentidade" de Eduardo Lourenço, um povo que diz tão mal de si próprio, tem de estar bem seguro da sua identidade.

A TURQUIA, A RÚSSIA.

As dificuldades da integração turca ( a ter em conta o deficit democrático e e o estatuto subalterno das mulheres turcas), e a necessidade de pensar em soluções progressivas para a integração. Registou-se alguma contestação na sala.
A defesa da ideia de uma Europa do Atlântico aos Urais. A constatação de que os Russos são europeus e que a cultura europeia não abdica dos contributos de Tolstoi, Dostoievski, Tchaikovsky ou Prokofiev. Por esta altura sentiu-se um friozinho siberiano na sala.

Noite quente no Nicola, um candidato com ideias firmes sobre o projecto europeu, o estado do Estado em pano de fundo.

Paulo Rangel, o candidato que é o estado da arte nas eleições europeias.

Todavia, fica-me uma pergunta. Não será justamente por causa de uma obra de arte de um russo que tantas vezes concebemos os russos como não europeus?
Será que de cada vez que pensamos na Rússia pensamos nesssa obra maior de Serguei Eisenstein "Ivan, o Terrível". Será que uma obra de arte tem tanto poder?

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segunda-feira, 18 de maio de 2009

O humor tem ideologia?

O Yes, Minister/Prime Minister era a série favorita de Margaret Thatcher. E também de Friedrich Hayek. Não é difícil compreender porquê. Para além de ser uma série engraçada, o Yes, Minister tem também uma acentuada consonância ideológica com as posições de Hayek ou Thatcher. A série apresenta uma forte influência da teoria da escolha pública; a concepção da intervenção estatal como geradora de custos e ineficiências, ou a noção de uma motivação egoísta no comportamento de políticos e burocratas – os primeiros motivados pelo desejo de ganhar eleições e exercer o poder, os segundos pela maximização orçamental dos seus serviços, da qual derivam prestígio e poder – são temas recorrentes da série. Como referem John Blundell e Colin Robinson, do Institute of Economic Affairs (“the UK's original free-market think-tank”): “To anyone versed in economics these programmes are not only entertaining but also pure public choice”. Um dos criadores da série, Antony Jay (ou melhor, Sir Antony Jay – foi nomeado cavaleiro em 1988, por sugestão do governo… Thatcher) descreveu a teoria da escolha pública como estando na base de praticamente todos os episódios do Yes, Minister/Prime Minister (para além de se auto-descrever como um “radical right-winger”). A sua perspectiva é corroborada ainda hoje: um artigo de 2006 na revista do Institute of Economic Affairs, a Economic Affairs, caracteriza a série como um instrumento ideal para leccionar a teoria da escolha pública.

Isto leva-me a uma questão: o humor é ideológico? A ligação entre o Yes, Minister/Prime Minister e a teoria da escolha pública sugerem que não: afinal, há muita gente que rejeita a escolha pública ou é de esquerda mas aprova o Yes, Minister/Prime Minister. O melhor exemplo é Tony Benn: doyen e símbolo da esquerda britânica, mas também fã da série. Contudo, creio que a resposta não é tão simples: o YM/YPM foi co-escrito por um anti-Thatcherista, Jonathan Lynn (depois de Thatcher ter participado num sketch do Yes, Minister, Lynn disse que ela tinha tomado “her rightful place in the field of situation comedy”); e a série tem um lado que apela à esquerda também. Sir Humphrey representa não apenas o burocrata que defende os seus interesses, ele é também o símbolo do privilégio, da tradição, das classes sociais educadas em escolas privadas (e que enviam os seus filhos a escolas privadas), das “old boy networks” de Oxbridge. Seria a série tão popular sem este lado? Suspeito que não.

O teste mais contemporâneo à relação entre humor e ideologia é-nos dado por programas como o Colbert Report ou o Daily Show. Suspeito que há muitas pessoas de direita em Portugal que gostam do Colbert e do Jon Stewart (aliás, há algum tempo atrás, João César das Neves caracterizou o Daily Show como “genial” num artigo de opinião – embora o seu “compliment” se tornasse crescentemente “backhanded” ao longo do texto). Mas esse não me parece um indicador fiável: é muito mais fácil rirmos do humor político quando ele é sobre outros países, sobre políticos em quem não podemos votar, e cujas decisões nos favorecem ou prejudicam de forma muito mais indirecta. Nos EUA, há uma boa parte da direita que não acha nenhuma piada ao Jon Stewart (como disse o Bill O’Reilly, “You're Jon Stewart. If you go to Alabama you're going to be killed. You can't go where these center-right people are because they'll stone you to death”). E, igualmente, há uma boa parte da esquerda que não acha piada p.ex. ao P.J. O’Rourke (ver este artigo do New Republic. Frase-tipo: “Can [O'Rourke]’s stuff really being getting worse every time, we wonder? Of course the answer never ceases to be in the affirmative.”) Em Portugal, temos muito pouco humor político (aliás, temos muito pouco humor tout court, mas essa é outra história…) que seja ideologicamente alinhado: o humor político que temos aponta em geral para os alvos fáceis e óbvios, e raramente se aventura por questões controversas. Uma excepção em termos de humor politicamente alinhado (& nothing else of what I said above…) é o sketch dos Gato Fedorento sobre o aborto. A reacção muito distinta que suscitou da parte de figuras ‘pró-vida’ e de ‘pró-escolha’ leva-me a pensar que o humor é (também) mediado pela posição ideológica.

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