quarta-feira, 29 de abril de 2009

Árvores no Terreiro do Paço


Segundo li na imprensa outra vez, o arquitecto responsável pela proposta do novo "plano" para o Terreiro do Paço, plano que ao que parece ainda ninguém pôde ver e que tem como emblema um eixo "estruturante" entre o arco e o cais das colunas (pois toda a gente que entra na praça vai apanhar o batel), defende que não se podem plantar lá árvores porque as pequenas são ridículas (concorde-se) e as grandes tapam os edifícios. Afinal é mesmo preciso ir a Paris. Menos arquitectura e mais paisagem é o que aquela praça precisa. Ou não será?

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A Dra. Manuela Ferreira Leite não lê o Expresso


No rescaldo da entrevista do Primeiro-Ministro à RTP,Ricardo costa escreveu esta semana no Expresso um "Curto memorando para uma próxima entrevista".

Não é tão curto quanto isso, tem vinte pontos. O primeiro diz: " Não repetir que o caso Freeport começou em 2004 e que teve "mão" de adversários políticos. Apesar de ser verdade, interessa pouco para o caso;" O décimo: "Não colocar o PR como opositor. Apesar disso desvalorizar o PSD, acaba por ser prejudicial ao Governo. A história mostra isso mesmo;" e para terminar o ponto 20 " Pôr o Ipod no máximo quando Santos Silva e Lello falam."

Manifestamente a Dra. Manuela Ferreira Leite não leu estes conselhos de Ricardo Costa, ou se leu, ignorou-os olimpicamente.

Só esta atitude de desconhecimento ou indiferença da líder do maior partido da oposição pelos conselhos jornalísticos/comunicacionais, justifica que vá a uma entrevista em prime time e esteja verdadeiramente preocupada com os problemas do país, mais do que com a performance comunicacional.

E a verdade é que quando estamos verdadeiramente empenhados e focados no nosso desempenho profissional, é difícil também ficarmos bem na fotografia. Mal da Vanessa Fernandes ou da Telma Monteiro se durante as provas duras que estão a disputar se lembrarem que estão descompostas, coradas ou com o cabelo desalinhado - é a derrota certa.

No final da dita entrevista a Dra. Manuela Ferreira Leite disse: "-Se perder, perdi." Lá está,ignorou que a vontade dos jornalistas/assessores/bloggers era que dissesse: "- Não vou perder" ou "- Se perder, demito-me da liderança do PSD." Isso sim, seriam bons momentos de prime time.

Começo a desconfiar que a Dra. Manuela Ferriera Leite, para além de não ler o Expresso, também não ouve Ipod.

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terça-feira, 28 de abril de 2009

Há que "malhar" no "malhador"...



Estamos há muito tempo habituados a ser tratados pelos media como gente estúpida, o que, no que diz respeito a questões políticas, faz com que, por exemplo, sempre que algum político faça um qualquer discurso, tenhamos ente 2 a 5 comentadores, em cada meio de comunicação, a explicar-nos aquilo que ele disse e aquilo que ele não disse, as razões pelas quais o disse e o não disse, e se o fez bem ou se o fez mal.
É claro que este processo está sujeito a desvirtuamentos, que deveriam ser equilibrados pelo bom senso dos comentadores e das audiências. Hoje, porém, instalada a confusão entre políticos e comentadores, acabou-se o equilíbrio e o bom senso, ficando assim a decisão sobre o modo de comunicar entregue, apenas, à quantificação das audiências e, nesta medida, à maior ou menor capacidade de entretenimento dos políticos-comentadores e dos comentadores-políticos.
Quem percebeu isto muito bem foi o actual PS e o seu secretário-geral - e nosso primeiro-ministro -, que deram mais um salto qualitativo, embora para baixo, na maneira de fazer política – e, sobretudo, de comunicá-la – no nosso país. Assim, desde os alinhamentos dos noticiários até às explicações sobre as notícias, tudo é favorecido pela espectacularidade comunicativa do governo e do PS, que entretendo mais as pessoas, consegue mais audiências e, nesse sentido, se diz que faz melhor política (isto, que era há já muito tempo praticado pelo Bloco de Esquerda, só com o PS ganhou a dimensão própria do poder, que o torna especialmente perigoso).
Do outro lado, temos o PSD e Manuela Ferreira Leite, que é diariamente criticada, sobretudo, pela sua imagem. Fala-se dos seus cartazes, da sua roupa, da sua maneira de comunicar, da sua falta de dinamismo, enfim… da maneira como ela aparece aos portugueses. E como a sua imagem, segundo nos dizem, não cativa as audiências, conclui-se, em uníssono, que não serve para primeiro-ministro e que não ganhará as eleições.
Há 15 dias, no Expresso, aparecia mesmo um artigo onde um qualquer publicitário, supostamente especialista na área da comunicação política, criticava Ferreira Leite pelo facto de, nos seus cartazes, usar a palavra “política”, que é algo que hoje não atrai as pessoas e deve, por isso, ser evitado. Ora, tratando-se de um cartaz de um partido político, não deixa de ser extraordinário. A mensagem, portanto, é clara: enganar não faz mal; mentir não faz mal; pecado é não entreter.
É nesse sentido que quero alertar para a maneira como sistematicamente nos são dadas a conhecer as opiniões de Manuela Ferreira Leite: por interposta pessoa, nomeadamente por via do alinhamento noticioso quase sempre garantido pela interpretação que o ministro Augusto Santos Silva faz das palavras de Manuela Ferreira Leite.
Estrategicamente definido, pelas empresas de comunicação do PS, que José Sócrates nunca se deve dirigir directamente a Ferreira Leite, com o objectivo de a desvalorizar a ela e às as suas intervenções, Santos Silva foi o escolhido para, assim que ela acabe de falar, recentrar a discussão em torno, não daquilo que ela disse, mas daquilo que ele disse sobre aquilo que ela disse, ou, na maioria dos casos, não disse. E o ministro, que vê nessa sua própria desvalorização uma oportunidade para o reconhecimento do seu valor, “malha” com gosto na presidente do partido oposto, num espectáculo que tem tido, aliás, algum sucesso.
O facto é que, em inúmeros casos, a maioria das pessoas diz que Manuela Ferreira Leite disse, não o que ela disse, mas o que o ministro disse que ela disse - o que é inclusivamente confirmado quando a própria Ferreira Leite vem depois dizer que não foi aquilo que ela mesma disse, ou quiz dizer, mas uma outra coisa, com o que faz com que até ela e o PSD falem, não do que eles próprios pensam e dizem, mas do que Santos Silva diz que eles dizem e pensam.
Ontem, por exemplo, a líder do PSD deu uma entrevia à SIC. Hoje, a TSF, a meio do seu noticiário, "informava" que a dirigente social-democrata já veio explicar que, nessa entrevista, não disse nem quiz dizer que estava disposta a fazer um governo de bloco central, quando disse aquelas palavras na entrevista – que então passam via rádio –, as quais foram, no entanto, assim interpretadas pelo ministro Augusto Santos Silva, que, para além disso, acha ainda que a presidente do PSD é incoerente e demagógica e isto e aquilo – passam então as palavras do ministro Santos Silva –, coisas que ficam - e permanecerão - no ar enquanto se passa para à próxima notícia.
Conclusão? Só esta: Parece claro que o país prefere José Sócrates para tempos de campanha eleitoral e Manuela Ferreira Leite para governar o país. Infelizmente as pessoas vêm sendo convencidas a votar de acordo com a capacidade que um político tem de fazer campanha. Por isso, talvez Manuela Ferreira Leite devesse, sem nunca deixar de escrever “política” nos seus cartazes e de procurar a "verdade" nos seus discursos e acções, prestar alguma atenção ao que se passa nos media, mandando alguém, com patente inferior à sua, “malhar” também em Santos Silva, logo a seguir à entrevista (até pode ser antes de ele falar), pelo facto de ele não prerceber o que ela disse.

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segunda-feira, 27 de abril de 2009

A roda dentada


Ainda sobre a entrevista de Sócrates a Judite de Sousa e José Alberto Carvalho. O que mais impressionou foi a forma como os três se "encaixaram" uns nos outros.

Há ali uma coreografia, um andamento próprio, um mecanismo uniformizador. Não há uma lógica diversa entre políticos e jornalistas.

Forma e conteúdo de uns e outros são idênticos. Os jornalistas estão mais sofisticados do que há vinte anos( veja-se o pendente H. Stern no pescoço da jornalista), mas evoluiram na continuidade.

Quem mudou decisivamente foram os políticos. Submeteram-se à lógica dos jornalistas e da comunicação. Deixaram-se capturar por ela. Rodearam-se por assessores, jornalistas ou com formação na área, e desistiram do real.

Sócrates entrou neste mecanismo e opera-o como ninguém o tinha feito ainda em Portugal. Aliás, infelizmente é preciso dizê-lo, chega a ser visto noutros partidos como modelo de comunicação e eficácia a seguir.

Diz-se "desemprego": pacote de medidas. Diz-se "saúde", outro pacote. Os jornalistas enunciam outra questão, e lá vem outro pacote.

Eu gostava de ver rupturas, uma visão de Portugal, uma visão de futuro. Dizerem-me onde querem que Portugal esteja daqui a cinco, dez, vinte anos. Quais são as nossas prioridades.

Internamente, gostava de perceber se o envelhecimento do país é ou não um problema grave. De cada vez que saio das auto-estradas e viajo pelo interior vejo um país deserto e envelhecido.

Gostava de saber se queremos mesmo apostar no turismo, como fonte de riqueza e potenciador de turismo e se sim porque é que o nosso património está a caír aos bocados.

Externamente, gostava de saber que política para conciliar a União Europeia e a nossa história Atlântica, que modelo de relação com os PALOP.

Podíamos ter visto aquele programa através do vidro da tv. Sem som, apenas observando o ritmo cadenciado e monocórdio do perfeiro encaixe daquelas rodas dentadas.

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Humanidade e inclusão social


Há oitocentos anos um português, um lisboeta, notabilizou-se pela sua acção, preocupação e dedicação aos outros. Esse homem, Santo António, padroeiro de Lisboa é, simultaneamente, padroeiro dos pobres. Lisboa tem essa marca impressa na sua história e na sua cultura. A humanidade não pode ser substantivo só usado em certas alturas do ano e, muito menos, como arma de arremesso político.

A humanidade, ao invés, tem de ser sempre a raiz fundadora de qualquer acção política.A humanidade resulta da consideração da alteridade. Olhar o outro como um sujeito na sua plenitude de direitos e deveres. Não olhar o outro como objecto de uma mera acção de caridade. Ver o outro como sujeito e nunca como objecto, é o fundamento da humanidade.

Oitocentos anos depois, Lisboa ainda persiste uma cidade murada, sitiada e cercada, já não pela cerca do castelo, mas pelas modernas vias, eixos, circulares e pontes. Por um lado, rodeiam a cidade sucessivos níveis de periferias, justapostas no tempo, que afastam os cidadãos da sua cidade. Estes estão cada vez mais longe, com custos cada vez mais elevados e generalizados de tempo, dinheiro e de vida. Em suma, uma escala que é desumana.

Por outro lado, mas ao mesmo tempo, Lisboa é hoje, como há oitocentos anos, centro de atracção daqueles que vindos de fora procuram nela uma vida melhor. Muitos não conseguem encontrar respostas para o que buscam. José Luís Peixoto escreveu há pouco tempo, palavras para Lisboa que os The Weasel fizeram música “(…) a realidade não foge. A realidade está sentada, espera toda a noite por nada, ou encosta-se a uma parede, talvez com fome, talvez com sede, fuma um cigarro infinito e distingue na escuridão um grito, dentro de si própria(…).”

Que pode o poder local fazer? Pode pensar melhor, articular melhor, racionalizar mais, usar mais e melhor os meios e os instrumentos sociais, políticos, económicos, jurídicos, já existentes. Mas pode, muito mais decisivamente, fazer pontes, encarar as questões numa perspectiva mais transversal e multidisciplinar. Fomentar a partilha de recursos escassos entre o poder central e o poder local, potenciando a utilização de recursos humanos e materiais.

Deve incrementar a participação de privados, incentivar a que participem na construção da comunidade a que pertencem.

Pode olhar para o urbanismo como factor decisivo de promoção da inclusão social, adoptando as medidas adequadas para que o parque habitacional existente não sirva para excluir, mas ao contrário, como instrumento de inclusão. Instrumento e políticas sujeitos a regras claras e justas. Pode convocar a sociedade civil a participar, incentivar as entidades privadas a colaborar com o projecto da sua comunidade, num sentido de responsabilidade colectiva, motivadas pelo necessário compromisso social.

Pode reorganizar administrativamente o município, repensar o tamanho, modelo e organização das Freguesias, torná-las muito mais próximas dos munícipes, mais atentas, operantes e eficazes. Dotá-las dos meios para que possam colaborar na educação, na cultura, na prática desportiva, verdadeiros factores determinantes da inclusão social.

Pode aplaudir e incentivar o papel das associações públicas e privadas que, sem fins lucrativos, desempenham há muito um papel fundamental no apoio aos mais desfavorecidos e carenciados, com acções diárias e concretas, a operar no terreno há muito tempo.

Se, como dizia o escritor, a realidade em Lisboa está sentada, vamos levantá-la.

Queremos uma Lisboa com gente e vida dentro.

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sábado, 25 de abril de 2009

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O Túnel do Marquês



É do livro de Job o dito "Post tenebras spero lucem".
Foi este ditame que Juan de La Cuesta usou e cunhou em D. Quixote quando pela primeira vez imprimiu a obra.

Muitos de nós usam o Túnel do Marquês. Podemos não saber latim, Não conhecer D. Quixote,e ainda assim pensar ou dizer baixinho: depois das trevas, a luz.

Todos sabem o que significa: post tenebras spero lucem.

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III. La meglio gioventù, Marco Tullio Giordana, Itália, 2003

Trata-se de um filme saudável, humano, verdadeiramente comovente. Em que com apontamentos religiosos discretos se vê que a última geração se dedica ao restauro de um passado significativo ou a aventuras desejadas pelas gerações anteriores. Cumprem uma dupla missão portanto: contra o esquecimento e contra a inércia. Sob a aparência pacata é por isso um profundo e verdadeiro filme de aventuras.

É possível estar envolvido na coisa pública sem perder a vida pessoal, embora o risco exista. É possível ter vida pessoal sem que isso signifique ensimesmamento, embora o suicídio exista. É possível viver, não isento de sofrimento, porque isso seria impossível, mas não centrado nele, porque isso seria limitativo.

Bem sei que há pessoas que vêm a vida como náusea e vómito. Mas isso apenas significa que os seus olhos estão fixados no espelho. Em vez disso temos aqui a diversidade da paisagem italiana, da sua paisagem física, da densidade da sua História, cheia de locais ricos de sangue humano, e das suas manifestações de diversidade pessoal.

É certo que na nossa época isso não basta, mas é de se reconhecer que a melhor apologética é sempre a simples exposição. O filme não é um panfleto e devemos estar-lhe gratos por isso. É um tapete de Bayeux das possibilidades humanas. Porque é raro que um filme institua para uma época uma possibilidade para o ser humano. Este fá-lo. É possível, faz sentido, é aliás a única coisa que faz sentido, ser feliz. Significativo que para isso seja necessária a presença dos mortos que abençoam os nossos amores. Sem estupidez, não destituído de uma ponta de ingenuidade, mas essa é a característica da bela sobrevivência que nos faz avançar.


Alexandre Brandão da Veiga

1) http://www.amazon.fr/gp/search?__mk_fr_FR=%C5M%C5Z%D5%D1&title=&select-title=field-title&field-actor=&field-director=Marco+Tullio+Giordana&field-subject=&field-cnc-rating=&index=dvd&mysubmitbutton1.x=0&mysubmitbutton1.y=0
2) http://it.wikipedia.org/wiki/Marco_Tullio_Giordana
3) http://it.wikipedia.org/wiki/La_meglio_giovent%C3%B9
4) http://www.raifiction.rai.it/raifiction2006fiction/0,,1803,00.html
5) http://www.italica.rai.it/index.php?categoria=biografie&scheda=giordana&lingua=ita
6) http://www.movieplayer.it/film/322/la-meglio-gioventu/

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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Latina América

Na América Latina não se organizam processos contra políticos.
Só contra jornalistas.

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A entrevista

Ontem, ocorreu-me que há duas formas de estar na política.
Há quem vista vestido azul, e nos queira tomar a todos por parvos.
Gosto muito mais da senhora Clinton, na aspereza do seu tailleur.

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terça-feira, 21 de abril de 2009

A vertigem do decote


Do cimo de um 13º andar, vê-se Lisboa inteira. Um exército de automóveis refulge sob o sol atravessando inclemente a ponte 25 de Abril. Almoça-se no restaurante, fumam-se cigarros na varanda mobilada com mesas e cadeiras. Nesse 13º andar existem computadores de uso livre com ligação à net. Outros sentam-se nos sofás a ver tv. Ao fundo, as crianças brincam no parque infantil. Tudo tem um ar clean e profissional. Não chega a ser intimista, mas é acolhedor e agradável.
Os recepcionistas homens vestem fato escuro, as recepcionistas mulheres também vestem um fato escuro, com a saia abaixo do joelho. Médicos e higienistas, homens e mulheres, vestem-se de forma asséptica e de modo exactamente igual: calças e pólo claros.
Aquele prédio de 13 andares alberga uma das clínicas dentárias privadas mais conhecidas do país com filiais em vários continentes.
Para uma mulher que lá queira trabalhar impõe-se uma questão: ou a indumentária é importante, ou não é. Se o vestuário for importante, tem duas opções: ou adapta o seu estilo pessoal às regras existentes, ou não o faz e procura outro local para trabalhar.
Para mim a opção seria simples. Não poderia aceitar: tenho medo das alturas.

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II. La meglio gioventù, Marco Tullio Giordana, Itália, 2003

A Itália é vista na caricatura como o país dos exageros e da gesticulação. Mas não podemos esquecer que, juntamente com a França, embora em épocas diversas, foi o país que mais contribuiu para o espírito de contenção, policé, clássico, de actuação. O cortesão do Castiglione e o salão da italiana Madame de Rambouillet contribuíram tanto para o afinamento dos costumes quanto a corte de Versailles ou os trovadores franceses.

O filme em questão mostra-nos uma verdadeira lição de contenção. Não uma cristalina e hierática movimentação, que acaba mais no exagero que na contenção, mas uma verdadeira lição de vida contada com restrição, cuidado, respeito, delicadeza, finura.

A vida respira por todos os lados neste filme, exactamente por não a deixar espirrar a todo o momento, nem toda a espécie de circulação aérea que possa passar pelos nossos esfíncteres ser exposta.

Damos como assente que a exposição de seres humanos numa obra de arte é fácil. É, no entanto das coisas mais difíceis que posse existir. Na maioria dos casos os filmes apresentam produtos tipificados, figurações meramente convencionais, planas, mais que previsíveis. O que é mais fácil é transformar actores em caricaturas e é bem mais fácil fazer gigantones que David de Donatello.

Ligar o vulcão interior e exterior (o Etna tem uma forte presença na obra) ao cuidado na sua exposição, o pudor na apresentação das personagens que as deixa mais frágeis com o resguardo dos seus sentimentos, a vida pessoal às vicissitudes políticas e sociais, não é obra para todos.

Fazer um hino à felicidade, em que curiosamente a Madonna e Aquiles se apresentam nos momentos chave, rodear de pessoas – passo o palavrão – boas, circunstâncias difíceis que não as impedem de procurar o melhor caminho, fazer isto tudo sem cair na lamechice nem no extremo contrário da dissecação neurótica das motivações, eis de novo obra rara.

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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Melancolia moderna


Os caminhos da modernidade levam-nos por uma contradição em que muitos se deleitam, por gostarem de se deixar arrastar pelas seduções da doce ilusão da felicidade efémera e, presumidamente, sempre reconstruível. Vivemos, contraditoriamente, de efémero em efémero numa compaixão de nós próprios que não nos deixa ver além dos sentidos: o mundo reduzido aos prestígios de engenharias sentimentais.
Dificilmente percebemos que nos enganamos a nós próprios, porque fazemos da vida um filme em que somos a personagem principal, sem termos a humildade de nos disponibilizarmos para os outros e, assim, para nos encontrarmos a nós mesmos. Vemo-nos de fora de nós sem nos fazermos outros de nós. Somos para nós próprios a imagem que fizemos de nós a partir de fora de nós. Sem centro nem reflexo, vagueamos incertos e insatisfeitos.
Não estamos, não somos, efectivamente presentes: derivamos sem destino, à espera, nem sabemos bem de quê, até que um dia descubramos que é tarde para recomeçar. Mesmo assim não será tarde demais, se tal dia de facto chegar. Até lá cheiramos as flores mas o seu aroma não se impregna no nosso ser profundo, envolto em teias de compromissos em que estamos ausentes e em que nos escondemos de nós próprios.
Admitimos que é uma condição do tempo, admitimos que não somos os únicos e o espírito da heroicidade não nos habita, nem sequer nos visita. Desistimos. Vamos procurar longe o que teimamos em não encontrar perto. Cegamos a nossa esperança a troco da possibilidade de viver vidas que não são a nossa. Não nos reconhecemos no palco do nosso teatro. E é como estrangeiros que presumimos que toda a nossa felicidade está lá ao fundo, nas nuvens que passam, como o estrangeiro de Baudelaire.
Transformamos tudo num jogo, num entretenimento, numa pretensão. Caímos no insuportável niilismo com justificações e discursos à cerca de nós próprios e do mundo em que vivemos mas que não construímos, nem conservamos. Contemplamo-nos e enchemo-nos de compaixão de nós próprios. Nada permanece para nós, em nada nos fixamos, tudo abandonamos. Insatisfeitos, insaciáveis, inconsequentes.


O Estrangeiro de Charles Baudelaire

— De quem gostas mais homem solitário? De teu pai, de tua mãe, de tua irmã, ou irmão?
— Não tenho pai, nem mãe, nem irmãos.
— Dos teus amigos?
— É uma expressão de que não sei o sentido.
— Da tua pátria?
— Não sei onde está situada.
— Da Beleza?
— Amá-la-ia se a conhecesse, e a sua imortalidade.
— Do oiro?
— Odeio-o tanto como vós a Deus.
— Então que amas tu, singular estrangeiro?
— Amo as nuvens... as nuvens que passam... lá longe... as maravilhosas nuvens!

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Quando For Grande X

Quero ser como o Clint Eastwood.

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I. La meglio gioventù, Marco Tullio Giordana, Itália, 2003


Todo o intelectual que se preze, quando se quer mostrar aberto, qualidade que isoladamente sempre me pareceu suspeita, diz que gosta de futebol e de filmes americanos. Quanto ao primeiro gosto pergunto-me se poderia ultrapassar tais hábitos familiares, quanto ao segundo gosto outro tanto haveria a dizer.

Há muito cinema americano, muito do qual mais não é que cinema europeu forçado à legibilidade por força do mercado, o que nem sempre lhe fez mal, e acabou por ser uma purga salutar para a obsessão investigativa de muita da arte europeia. Há muita coisa que é apenas divertida, como um sorvete, sem mais, mas também não menos. Muita coisa há que é apenas um produto industrial, incaracterístico, desfigurado.

A questão passa agora por outro lado. É que tendo uma força nos mercados, sobretudo desde os anos 80 até hoje dia, que se pode caracterizar de monopolista, a verdade é que o cinema americano que actualmente se produz é efectivamente um produto normalizado, expectável, com uma retórica apertada e mais que previsível. Em bens não essenciais a culpa está sempre mais em quem compra do que em quem vende e por isso o público acaba por ter o que merece, pelo menos na sua maioria.

Mas de vez em quando surgem, mais que resistências, pontos de luz que nos permitem respirar melhor. O curioso é que esses pontos de luz, respirando humanidade, vêm em geral do cinema europeu, tão desacreditado por um excesso de intelectualismo que hoje em dia cada vez menos pratica, mas de que ainda se está a purgar.

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domingo, 19 de abril de 2009

Geração de 59

Esta blog ficou mais pobre, há que dizê-lo com frontalidade. Havemos de recuperar, mas ficou mais pobre. Querem um bom exemplo disso? Nunca tanto se falou dele.

O MSF escrevia posts cultos. Há outros posts cultos por aqui, claro, mas não são como os dele (todos são únicos, aliás). Uma das coisas de que eu gostava era que podia apenas perceber metade - por só conhecer metade das referências cultas dadas - mas percebia sempre o sentido todo. O PN tinha outro efeito. É que era a metade dos comandos essencialmente liberais deste blog. A ideia era sempre que o que tem de ser feito muita força tem e a mais se não é obrigado. Por outras meias-palavras, se aparecia feito era porque assim tinha de ser e se não aparecia era porque assim não tinha de ser. Enfim, aqui jaz a minha capacidade de explicar a falta que esses dois fazem. Para apenas falar dos mais assíduos e não falar dos jantares (mas aí a conversa será outra seguramente).

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sábado, 18 de abril de 2009

What has Europe Ever done for us?

Sem quere fazer política (que não posso) não resisto, na sequência, da referência aos Monty Pyton do Carlos Jalali a colocar este video (autoria MEP mas inspirado num site inglês: http://www.whathaseuropedone.eu/)

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O sétimo Python?

Is it just me, ou a coluna de hoje de Vasco Pulido Valente no Público denota uma influência dos Monty Python?



'O PC recusa qualquer espécie de aliança com um PS que "virou completamente à direita" e acha como sempre que o PS se deve emendar. O Bloco, que António Costa descreveu como "um partido oportunista, que parasita a desgraça alheia", com certeza que não anda ansioso por se abraçar ao referido Costa. Ou, para não ir mais longe, a um PC que o despreza e combate. De resto, fora este ódio trilateral, há um ódio comum (e suponho que retribuído) aos "Cidadãos por Lisboa" de Helena Roseta e ao índio sem tribo Sá Fernandes, que não pára de arranjar sarilhos. Vale a pena perguntar qual é o objecto de tantas querelas? Vale a pena perguntar quais são, do PS a Roseta, as grandes diferenças políticas sobre Lisboa? Não vale. A esquerda gosta de se dividir e detestar; e a seguir de sofrer porque se dividiu e se detesta.' (VPV, Público, 18-4-2009)

PS: Sou fã de VPV - mesmo (ou até talvez especialmente quando) não concordo com o que ele diz. Ele já foi comparado neste blog aos ABBA - para mim, ele é o Morrissey dos comentadores portugueses.

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O primeiro post...



A crise que, terrível, se abateu sobre todo o mundo, chegou também ao Geração de 60. Tentámos combatê-la: mantivemos a qualidade do nosso produto, animámos os trabalhadores, investimos em novas contratações (diversificámos, como agora se diz), enfim: fizemos tudo o que podíamos para continuar esta nossa missão de debatermos temas sérios, ainda que em tom divertido.
Mas não devemos ignorar os factos. Depois da Quimonda, e apesar dos inúmeros esforços do ministro Manuel Pinho, também o Geração de 60 foi vítima desta crise e, assim, obrigado a prescindir, temporária e/ou definitivamente, de alguns dos seus trabalhadores.
Dito isto, temos as contas sanadas. Os contratos foram rescindidos de comum acordo e a nossa missão poderá agora continuar. Os que saíram são nossos amigos e virão aqui regularmente visitar-nos. Os que ficam estão alegres, porque acreditam nesta sua empresa, pela qual trabalharão a dobrar por apenas metade do salário.
Estamos assim, com um espírito renovado, pois que, como diz um antigo provérbio chinês: «a escassez dos recursos aguça o engenho» (eles dizem sem os "éles").
A todos os nossos habituais leitores, comentadores e amigos, portanto, fica aqui feito o aviso: a nossa equipa está pronta a dar o seu melhor para continuar, assim o esperamos, a ser uma voz (in)conveniente, séria, culta e divertida, em prol de uma actividade social e política que tem urgentemente de ser credibilizada, também aqui, na blogosfera.
Continuaremos, por isso, como diz o nosso editorial, que se mantém inalterado, a ser «um espaço público onde, de modo livre e incondicionado, sem preconceitos e sem dogmas, se confrontam teorias e concepções distintas, ideias e visões opostas, das quais, em última análise, acabarão por brotar valores que nos implicam em tudo o que tem a ver com a nossa vida: da filosofia ao sexo, da arte à política, da história à moral, da liberdade a Deus.»
«Alea jacta est.» Contem connosco. Apareçam. Nós cá estaremos.

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quinta-feira, 16 de abril de 2009

O último post

Este é o meu último post no meu primeiro blog, o “Geração de 60”. Sinto-me muito infeliz por ir embora. E um bocadinho feliz por saber que estou livre e posso, agora, fazer tudo o que me apetecer, a começar por não escrever nem mais uma linha nos próximos 7 anos.
Outros valores se levantaram, não necessariamente mais altos. Ainda por cima, tinha acabado de convidar o Miguel (sim, o MEC) e o João (claro, o JPC), e ao abrigo de uma resma de artigos de caserna que regem as relações de rapazes da nossa idade frequentadores de tasquinhas onde se come um decente peixe grelhado e nunca escalado, eles entendem que devem sair também. Pelos inconvenientes causados aos meus adorados companheiros de blog e aos meus dois recentíssimos convidados, apresento-me a Sua Majestade a blogosfera, como o velho Egas, de corda ao pescoço. Conto com a Sua infinita misericórdia.
A questão – sair ou não sair – nem é estética, nem política, nem moral. O mundo está sério, dramático e a pedir tanta acção que o lema que me trouxe para o “Geração de 60” – chatices não! – já olha para mim de lado, e com ar sarcástico e ameaçador. Faço-lhe a vontade e vou sentar-me no meu cantinho hedonista. É que não me apanham, nem a escrever comentário anónimos.
O que interessa é que o “Geração de 60” continua. Já não tenho nada que me meter, mas arrisco-me a profetizar que, respondendo a estes tempos de perplexidade presente e futuro de solvabilidade incerta, o blog vai ser directo e contundente como nunca, focando-se no seu propósito cívico inicial. Para mim, ter convivido com as pessoas talentosas, brilhantes e generosas que o constituem, foi “one hell of a ride” – e se, como espero, um destes meus co-bloggers chegar a primeiro-ministro, garanto-vos que Portugal ficará decente e honestamente servido.
Mas não quero, nem é assim tão apaixonante, adivinhar o futuro. Se há paixão é sempre no passado e, ao longo destes dois anos, os meus camaradas do “Geração de 60” deram-me tudo: ternura, emoção, gentileza e sincera amizade. Meço as palavras e recordo o que pouco recomendável Bukowski disse num dos seus raros dias de sobriedade: “That’s what friendship means: sharing the prejudice of experience.
Devo ao Pedro Norton o convite. O Pedro foi cúmplice mesmo nas quando tropecei em disparatadas divagações, poupando-me a desmentidos e contraprovas que arrasariam a reputação do mais pintado dos engenheiros, quanto mais a minha. Eu ia falar do “La Chunga”, infame cabaret da coxa que estamos sempre a apontar à cabeça um do outro, mas isso seria roubar um mote que lhe é querido e que, estou certo, ainda dará brilho a uma dezena dos muitos posts que há-de escrever.
Vou-me embora, já a morrer de saudades, mas com um baú recheado de recordações calorosas. As almas conspirativas podem estar descansadas: as partilhas vão ser fáceis e ninguém pedirá pensão de alimentos.
Viva o “Geração de 60”. Até sempre.

Good-night? ah! no; the hour is ill
Which severs those it should unite;
Let us remain together still,
Then it will be good night.

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