sexta-feira, 6 de março de 2009

Horton Foote morreu: quem?

Um dos maiores argumentistas da segunda metade do século XX morreu, e os jornais não sabem muito bem o que fazer com ele.
Na tradição discreta, quase anónima dos argumentistas, cujo trabalho - o guião cinematográfico - não tem valor em si mesmo, servindo sempre para valorizar o trabalho de terceiros (o guião nunca é um fim, é sempre um meio, um esboço, uma planta, um projecto de engenharia mental), Foote era o supremo "unsung hero": os seus heróis (?) eram gente como ele, que não se vê, não se nota, texanos proletários e trabalhadores rurais, cantores de "country" zangados com o romantismo para toda a vida, mulheres agarradas aos objectos de infância, miúdos que, mesmo quando transportados para o sudeste, têm saudades do que nunca foram, e passam mais tempo a ouvir as histórias dos pais e dos avós do que excitados com a irresistível mudança dos tempos.
Horton Foote ganhou dois Óscares (pela lindíssima adaptação de "To Kill a Mockingbird" de Harper Lee, a talentosa amiga de infância de Truman Capote, em 1963, e por "Tender Mercies", 29 anos depois), um Emmy (autor de telefilmes maduros e reflexivos, sobretudo com Peter Masterson, conseguiu-o graças a "Old Man", uma adaptação de Faulkner) e o Pulitzer teatral por "The Young Man from Atlanta". Cantava, ao pôr do sol, os pecadilhos da gente comum, num lirismo redentor distante do heroísmo fácil dos cowboys, dos triunfos da indústria petrolífera, da força da "civilização". Os seus conflitos eram interiores, o seu universo a ruralidade (de certa forma ,nunca deixou de escrever sobre a terra natal, Wharton, uma vilazinha agrícola a 80 kilómetros de Houston).
Se quiserem conhecê-lo, podem começar por "Tender Mercies": é a melhor interpretação da carreira de Duvall (o que não é dizer pouco), e a escrita, outra vez solitária, sobre alguém que quer voltar a caminhar como um homem, já não é deste tempo. Mas deveria ser.

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Uma "Quadratura do Círculo" empírica

As considerações que deixo aqui hoje sobre a relação entre os media e a política, resultam da minha participação/observação em três eventos recentes do PSD. Digo participação, na medida em que faço parte, mas digo também observação porque procuro manter uma atitude atenta, crítica e construtiva face ao que observo.

Aliás, a minha primeira experiência do género começou pela observação de várias sesssões no Parlamento e o escrutínio posterior dos relatos respectivos nos jornais e televisões.

Interessa-me observar os fenómenos a acontecer, a sua mediação e a posterior divulgação.

O primeiro.

No dia 24 de Janeiro fui ao jantar-comício do PSD em Vila Nova de Famalicão. Neste dia, à mesma hora do jantar, jogava-se um Braga-Porto. Eu não sabia o que esperar, mas ainda assim, não estava à espera de ver uma multidão. Todavia, foi mesmo isso que sucedeu.

Compareceram mais de 2.000 (duas mil) pessoas. Jantei numa mesa apinhada, numa sala apinhada, que não tinha capacidade para tanta gente, num restaurante que teve de improvisar uma segunda sala para quem chegou depois.

Estavam presentes os meios de comunicação social.

No próprio dia, nos noticiários da meia-noite, e no dia seguinte não vi nenhuma referência ao número de pessoas presente. Conheciam-se as questões internas do PSD. Juntar num jantar mais de duas mil pessoas parece-me um feito assinalável. Contudo, ninguém o assinalou.

Que nem os media que lá estiveram reportaram o facto, foi óbvio. Resta-me a dúvida sobre se o PSD lhes tenha chamado a atenção sobre o mesmo - penso que talvez não o tenha feito.

Podemos pensar que os números não são importantes, mas são. Poucos dias depois, vi referido por várias vezes nos noticiários, que o candidato a Secretário Geral do PS,Eng. José Sócrates, em jantar-comício tinha juntado, 500 (quinhentas) pessoas.

Poderemos sempre dizer a culpa da ausência da notícia do sucesso do jantar de Vila Nova de Famalicão é exclusivamente dos media tradicionais, por inépcia ou má-fé. Também poderemos dizer que naquele caso a culpa foi exclusivamente do PSD que não adoptou a melhor forma de se relacionar com os media naquele dia.

Seja como for, parece-me que tem de existir maior profissionalismo das duas partes. Do lado dos jornalistas, um esforço de independência, isenção e rigor. Se estão à espera de um fiasco e aparecem 2.000 pessoas não podem omitir o facto, nem fazer de conta que as pessoas não estão lá.

Da parte do PSD, uma preparação profissional que permita quer um bom relacionamento com os media tradicionais, no sentido de que facitem o trabalho dos profissionais dos media, como uma aposta decisiva nos novos meios: transmissão on line, redes sociais, presença de bloggers, etc - tudo o que permita ao público acompanhar de perto, ver, ouvir, o que se está a passar.


(a continuar)

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quinta-feira, 5 de março de 2009

Uma entrevista notável


Alexandre Soares dos Santos deu ontem uma entrevista notável a José Gomes Ferreira, no programa Negócios da Semana, da SIC-Notícias. Com a autoridade que só a coerência e o exemplo permitem, foi claro, directo e frontal. Lapidar mesmo.

Elogiou a verdade, apontando o dedo a uma sociedade que convive com a mentira com crescente e preocupante naturalidade. Instou ao exercício da cidadania e à promoção activa da denúncia cívica e da participação política, recusando a demissão dos que silenciam. Valorizou o trabalho e o direito ao trabalho, distinguindo-os da reivindicação acomodada ao emprego. Apelou ao sindicalismo construtivo, distanciando-se da lógica de um sindicalismo de fricção radicalizada, fechado sobre si mesmo. Elogiou a nobreza da política e a relevância social da actividade dos políticos, elevando-lhes os padrões de qualidade, exigência e responsabilidade. Deu testemunho das opções concretas que, em tempos de crise, podem fazer a diferença quando se emprega mais de 20.000 trabalhadores… No fim, referiu ainda o projecto da ‘sua’ Fundação Francisco Manuel dos Santos, dando corpo a um consistente compromisso de responsabilidade social que, marcando-lhe a vida, perpassou toda a entrevista.

Quando se fala em medo, em cumplicidades tácitas, em silêncios úteis, a entrevista de Alexandre Soares dos Santos foi um bálsamo.

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segunda-feira, 2 de março de 2009

DFA


Acabei de ler o segundo volume das “Memórias Políticas” de Diogo Freitas do Amaral, que se intitula “A transição para a democracia”. O texto cobre os anos pós-PREC de 1976 a 1982 e é um magnifico fresco desse período em que a democracia em Portugal dava os seus primeiros e periclitantes passos.

Confesso que ao ler estas memórias se apoderou de mim uma enorme nostalgia por esses anos e sobretudo pela memoria de uma esperança que hoje se encontra completamente ausente da minha existência e sobretudo de quase todo o discurso politico.



Os aspectos que mais achei de nota nestas memórias foram quatro.

1. O período coberto pelo livro foi caracterizado por aquilo que se podem descrever hoje como “Low Hanging Fruits” políticos. Não que estes fossem fáceis de colher mas eram relativamente óbvios para quem defendia a social-democracia e um modelo aberto e justo de sociedade. A necessidade da revisão da constituição, da extinção do conselho da revolução, da criação de uma lei da defesa e das forças armadas, da devolução do património nacionalizado, da verdadeira reforma agrária que a lei Barreto preconizava e da normalização das relações com as antigas colónias, eram em si factos políticos que embora difíceis de concretizar, e requerendo uma coragem politica e um músculo intelectual consideráveis, eram imperativos políticos e económicos evidentes. Penso que foi este facto que permitiu à AD criar um “roadmap” credível e transparente que deu aos eleitores a segurança de lhe dar a maioria absoluta por duas vezes.


2. Ao contrário do que talvez esperasse, o que transpira destas memorias não é o relato de um combate primitivo entre a direita e a esquerda mas sim de uma constante busca da parte dos elementos do centro moderado (de direita e de esquerda) de encontrar pontos de contacto e de opinião na tentativa de colher os já referidos “Low hanging fruits” e isolar com isso os extremos políticos (à direita e à esquerda). Parecem-me verdadeiramente diferentes os nossos dias em que a politica parece fazer-se nos interstícios da discórdia e em que direita e esquerda se degladiam numa ânsia patética de estabelecer elementos de diferenciação que não produzem nem proporcionam à sociedade qualquer tipo de valor e progresso.


3. Ao longo desse periodo, Freitas do Amaral foi convidado primeiro, em 1979 pelo PS para ser Primeiro-Ministro de um segundo governo PS-CDS (numa conversa surreal com Almeida Santos que entendia posicionar Diogo Freitas do Amaral como Vice Primeiro-Ministro de Mário Soares no dito governo, passando depois a Primeiro-Ministro em 80 com a hipotética eleição de Mário Soares à presidência - Ramalho Eanes viria a ganhar como sabemos) e depois em 1980 por Sá’ Carneiro e Adelino Amaro da Costa para ser o candidato presidencial da AD às eleiçoes desse ano (e em alternativa à figura parda e desconhecida do General Soares Carneiro que acabaria por ser o candidato da AD). Tinha 37 e 38 anos de idade respectivamente. Das duas vezes recusou (bem na primeira ocasião, possivelmente mal na segunda). Numa conversa com Adelino Amaro da Costa em que este ultimo critica a sua decisão de recusar a candidatura, Freitas do Amaral diz-lhe que o futuro lhes dirá se fez bem ou mal mas que pelo andar das coisas, ainda iria ter um futuro na vida política portuguesa. Confessa o autor num paragrafo triste, que em respeito a esta sua ultima afirmação se enganou, que afinal não viria a ter um futuro na vida política portuguesa e que “os frutos ou se colhem maduros das arvores ou apodrecem”.


4. Naqueles tempos, fazer política era excitante e adrenalinico. O discurso empolgante e envolvente deste livro é prova disso. Políticos jovens com ideais concretos, alguns mais convictos e realistas, outros mais experimentais e idealistas mas todos empenhados naquilo que pensavam ser a solução para um pais à beira de uma nova era. Hoje na política não me revejo e não encontro quaisquer pontos de estímulo e por conseguinte vou dedicando as minhas capacidades civis na tentativa de fazer funcionar o modelo democrático que pessoas como Diogo Freitas do Amaral na altura ajudaram a criar, ele sim com uma coragem e determinação políticas e humanas que nunca pensei vir tanto a admirar.

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Beijo. Mudo e sueco.



O Gonçalo pediu e eu obedeço. O realizador é sueco e o filme - embora da fase «americana» de Sjostrom - é mudo. O beijo, enlouquecido pelo vento, não tem pátria.

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Baci belli da morire

Sem dúvida “hetero”, muitíssimo íntimos, mas absolutamente estupendos estes beijos de gente em imorais “preparos”.

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Quando for grande...

...quero ter uma editora com um catálogo com uma capa assim.

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domingo, 1 de março de 2009

Igualdade? Sim. Liberdade? Também.



Em diálogo com os posts do Pedro Norton e da Sofia Rocha sobre este assunto, julgo que uma breve passagem pelos significados latinos do verbo tolerare (de onde provém o português tolerar) e do adjectivo aequus (de onde provém o português igual) nos podem ajudar a enquadrar estas questões (que devemos ter o cuidado de não reduzir a apenas uma).
Tolerância, com efeito, tanto quer dizer aceitar o outro naquilo que tem de diferente em relação a mim, como significa afirmar perante o outro a minha própria diferença. Esquecer esta última parte, como quase sempre se faz, implica considerar a igualdade como mera uniformidade, desprezando a proporção e a harmonia. Implica, portanto, coagir a liberdade a um mínimo denominador comum no qual tudo se torna progressivamente indiferente, como se o mundo pudesse, ou devesse, ser, todo ele, uma planície sem relevo, isto é, um lugar indistinto e irrelevante.
Posto isto, concordo francamente com o reconhecimento social e político das uniões amorosas (a razão da união pode ser outra, mas julgo que sempre se reconduzirá, mais ou menos, a esta) entre casais do mesmo sexo, de tal modo que lhes devam ser legalmente conferidos todos os direitos que costumam atribuir-se a esse tipo de uniões, sejam eles fiscais, sucessórios, ou quaisquer outros. Tais direitos, aliás, devem ser acompanhados do mesmo conjunto de deveres que a essas uniões são também normalmente exigidos, como é o caso da assistência, do respeito, da fidelidade, etc. Sobre isto devemos hoje ser claros: não pode nem deve haver discriminação.
Isto não faz, porém, com que as uniões homossexuais e as heterossexuais sejam exacta ou absolutamente iguais, pois que, para além desta sua igualdade, que deve ser garantida, há entre elas uma diferença essencial, que também deve ser tolerantemente afirmada. Essa diferença, que decorre da própria natureza das coisas, é esta: a união entre duas pessoas do mesmo sexo não pode reproduzir-se, enquanto a união entre pessoas de sexos diferentes pode. Isto é fundamental, porquanto duas pessoas de sexos diferentes podem, a partir de si mesmas, constituir-se como uma família, enquanto duas pessoas do mesmo sexo, a partir de si mesmas, podem constituir-se apenas como um casal.
É claro que acontece a um homem, ou mulher, ter filhos, como resultado de uma união heterossexual, e depois amorosamente unir-se a alguém do mesmo sexo. E é claro que, vivendo o filho, ou filhos, com o casal homossexual, constituirão, então, uma família, na qual, como várias experiências comprovam, as crianças podem ser amadas, protegidas, educadas e felizes. O ponto, porém, é que o facto de eles serem uma família não decorre dessa união homossexual, mas de uma outra união prévia, heterossexual, a qual faz, aliás, necessariamente parte desse agregado familiar.
Assim, o facto de casais de pessoas do mesmo sexo poderem viver familiarmente com filhos de um ou de outro membro do casal, não anula a diferença essencial que há entre estas duas formas de união: uma pode reproduzir-se e a outra não. A existência de filhos num dado casal homossexual é sempre acidental do ponto de vista da própria união homossexual, na medida em que não decorre essencialmente dela. Deste modo, é justo pedir-se que o legislador distinga estes dois tipos de união amorosa, pois que é justamente a partir do facto da reprodução decorrente da união heterossexual que a própria sociedade garante, no futuro, a sua sobrevivência. Ora, essa é, talvez, a primeiríssima função do Estado.
Com efeito, não é a partir de qualquer pressuposto religioso, moral, histórico, ou cultural, que esta distinção deve ser afirmada, mas a partir de um pressuposto natural básico que é o facto da família, independentemente da sua forma, ser um grupo social indispensável à existência futura de qualquer sociedade humana, a qual, como um todo, deve, por isso, proteger e garantir a sua continuidade. Ora, a união amorosa entre pessoas de sexos diferentes é a única que garante a existência de famílias no seio de qualquer sociedade, devendo, nesse sentido, ser socialmente distinguida e afirmada.
Daqui não se segue, por exemplo, que casais homossexuais não possam, como alguns pretendem, adoptar crianças. Ao contrário, a experiência mostra que isso é possível e pode ter bons resultados. Não podemos esquecer, porém, que a existência de crianças não decorre da união homossexual, sendo-lhe, ao contrário, acidental. Deste modo, sempre que esteja em causa entregar uma criança à guarda de um casal homossexual ou heterossexual, e não havendo outras razões que suficientemente determinem essa escolha (económicas, psicológicas, sociais, etc.), esta diferença deve ser explicitamente tida em conta e deve ser factor de decisão (como já acontece, aliás, ao considerar-se a adopção por pessoas solteiras), isto é, a sociedade deve afirmar a sua opção pela entrega da criança ao casal heterossexual, que é o modelo familiar que naturalmente garante a sua própria continuidade enquanto todo social.
Tratar de modo igual o que é igual e de modo diferente o que é diferente: eis o que aqui deve pedir-se. Lutar para que os homossexuais vejam reconhecidos direitos sem os quais não podem, na nossa sociedade, ser naturalmente felizes, é um imperativo moral. Nesse sentido, é justo que lhes sejam garantidos os mesmos direitos e deveres que hoje se garantem aos casais heterossexuais. Naquilo que têm de diferente, porém, devem também ser tratados como diferentes, pelo que, ao sairmos do âmbito da união amorosa entre dois seres para o campo mais amplo da família (que, pela sua própria natureza, decorre unicamente das uniões heterossexuais), é também um imperativo moral distinguir entre uma e outra, devendo a sociedade afirmar a sua preferência (não, contudo, exclusiva) pelo modelo familiar baseado na união heterossexual.

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Processo de "Ter Juízo" em Curso.


As minhas quatro coisas preferidas do conclave socialista.

1 - A calça de ganga, com blaser e gravata do Secretário-Geral.

2 - A leitura da moção ontem por António Costa. Foi bem pensado por o Costa a ler aquilo. Ao menos, aquele ar que ele tem, bate certo com aquele discurso: ele tinha uns papéis na mão, um ar menos artificioso, menos arrumadinho, menos profissional. Quando ele diz "camaradas", "camaradas" o olho brilha-lhe, a gente acredita. Aquilo sim, é PS.

3 - Augusto Santos Silva, em versão fim-de-semana: blaser de "veludo cotelé" para a entrevista na RTP, camisa aos quadrados, com t-shirt por baixo, para o conclave.

4 - Manuel Maria Carrilho, a dizer com ar senatorial que não sabia de nada, porque estava ausente do país em missão, muito importante. Desculpem-me estou enganada ou o homem esteve humilhantemente uns dois anos à espera para ir para Paris e só foi há coisa de 15 dias?


5 - Almeida Santos ontem à entrada do conclave a dizer que os portugueses têm de ter juízo. É coerente, é sabido que Almeida Santos sempre foi um homem de muito juízo.


O que eu gosto de um conclave.

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

60% de muito pouco

Vai começar daqui a pouco o Congresso do PS.
Por causa disso, analistas e politólogos repetem a fórmula de que a esquerda tem em Portugal 60% ( PS - 40%; PCP - 10%, BE - 10%) e a direita 40%.

Eu digo que é 60% de muito pouco.

A abstenção é muito alta. É isso que em preocupa. Como chegámos aqui? Porque é que tantos portugueses estão distantes da política? Porque já não votam? Porque deixaram de se interessar?

Obrigatoriamente os partidos têm de olhar, neste ano de três eleições, para o país e para os portugueses e compreender que não podem governar contra as pessoas ou sem elas.

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O princípio da igualdade - a questão da homossexualidade

O Pedro Norton postou aqui sobre o casamento homossexual. Comecei por escrever um comentário, que já ía longo, daí o presente post.

Embora o Pedro fale em tolerância, e eu perceba o sentido, como pessoa, como mulher e como jurista, tendo a discordar.

Eu não quero tolerância para homossexuais, para negros, ciganos, mulheres ou jovens vindos de bairros desfavorecidos.

Eu quero um princípio de igualdade, na sua dimensão negativa - proibição de discriminação-, mas mais importante na sua dimensão positiva: promoção efectiva da igualdade.

Eu quero ver em Portugal uma cultura que não discrimine as pessoas pelo género, pela cor, pela religião ou orientação sexual, ou pela morada.


Não vemos em Portugal negros no Parlamento, não vemos mulheres CEO, não vemos casais do mesmo sexo a passearem de mãos dadas.

Todos temos amigos ou familiares homossexuais, mas vivem "com discrição" a sua situação ou até a negam, por receio de olhares reprovadores ou represálias.

Portugal não assume a diversidade, e muito menos lhe confere representatividade. Quem olhar para os órgãos de soberania, para a gestão de empresas, pensa que não existem mulheres, negros ou homossexuais no país.

Será que o casamento homossexual, só por si, resolve esta questão? Tenho dúvidas. Continuará a ser um acto privado, cheio de simbolismo é certo, mas privado. Celebrado entre amigos e familiares. No dia a seguir estes casais não poderão ir para a rua de mãos dadas, porque Portugal continuará a ser o mesmo país e o debate não se fez.

Tenho receio que a invocação do tema, e até a aprovação do casamento homossexual, só sirva para deixar tudo lampedusamente na mesma.

Gostava que se debatesse seriamente a questão da falta gritante de igualdade de oportunidades no país e que se tomassem medidas efectivas para a combater.

A título de exemplo, em França um reputado economista socialista recomenda que todas as empresas e o Estado divulguem anualmente um relatório com os dados relativos à contratação, com referência expressa ao género, raça e proveniência, como forma de publicamente fomentar as boas práticas e evitar a discriminação.

Gostava que o meu país promovesse a igualdade com medidas efectivas como esta. Esta é, aliás, a única situação em que gosto e acarinho este desgraçado princípio.

Todavia, já sei que mais facilmente se aprova o casamento homossexual do que se obrigam contratadores públicos e privados a divulgarem quantas mulheres, negros, ou residentes no Barreiro contratam.

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Da Visão: Um elogio da tolerância

Vale a pena abordar a questão do casamento dos homossexuais sob três diferentes pontos de vista. O da oportunidade de tal debate, o da forma em que este decorrerá e, obviamente o mais importante, o da sua substância.
1 – Do primeiro ponto de vista, há que chamar os bois pelos nomes. Ao incluir a questão do casamento homossexual na moção que apresentará ao próximo congresso do PS, José Sócrates, longe de revelar um agudo sentido de oportunidade, revela um tremendo instinto de oportunismo. O que está verdadeiramente em causa não é a substância do problema. É o «jeito» que dá discuti-lo. Com o país e o Mundo mergulhados numa crise económica profunda, com um PS muito mais ameaçado à sua esquerda do que à sua direita (seja porque à direita não há lideranças, seja porque o ambiente macroeconómico em que vivemos tende a favorecer o discurso da esquerda), o que melhor pode acontecer ao PS do que liderar uma causa «fracturante» que esvazie o espaço do Bloco e que distraia o país dos problemas mais prementes que atravessa? No plano da pura táctica política há que dar a César o que é de César: «chapeau».
2 – Vamos à forma. Dificilmente este debate sobre uma questão que, na sua essência, é uma questão de tolerância não se fará sob o signo da intolerância. Mais paradoxal ainda, e esta não é senão uma suposição minha, a intolerância será mais marcada «à esquerda» do que propriamente «à direita». Talvez porque os defensores do «não» tenham já interiorizado algumas lições do passado, mas sobretudo porque os tempos são hoje os da estigmatização mediática do «politicamente incorrecto». O «ar dos tempos» não permitirá nunca um debate equilibrado. Quer queiramos quer não, nasce inquinado. Ainda antes de se começarem a esgrimir argumentos, em campo estarão, de um lado, os progressistas, do outro, os homofóbicos ou reaccionários. Ora um debate que se queira sério tem de ser baseado na discussão da substância e não na rotulagem dos protagonistas. A táctica é conhecida mas é anti-democrática e profundamente iliberal. E o facto de se ter tornado aceitável é um preocupante sinal dos tempos.
3 – Dito isto, devo dizer que, em matéria substantiva, apoio sem reservas o direito ao casamento dos homossexuais. Digo bem: ao casamento. Não estou a falar de uma equiparação de direitos de uma qualquer união de facto, mas do direito ao casamento propriamente dito. Porque, no fim do dia, o que estará verdadeiramente em discussão é uma luta simbólica. De um lado, estarão todos quantos, estando inclusivamente dispostos a conceder uma equiparação de direitos, recusam aquilo que – com toda a legitimidade – vêem como uma ameaça para uma instituição que acreditam dever servir os valores da família e da reprodução. Do outro, os que reivindicam que o Estado tem a obrigação de dar à sociedade um sinal político, sem qualquer ambiguidade, de que repele toda a discriminação com base na orientação sexual. Num país em que, mal grado o que acima ficou dito acerca do ambiente «politicamente correcto» em que o debate se fará nos media, a plena integração social da homossexualidade continua a ser uma miragem, estou ao lado dos segundos. Mas sei bem que estaremos a pedir aos primeiros uma violentação das suas consciências. Quanto mais não seja por isso, os seus argumentos merecem o meu total respeito.

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Melómano


Já se escreveu e disse tudo sobre a entrevista de Pedro Passsos Coelho de domingo.

A entrevista tinha três fotos: Callas, uma rapariga cantora das Doce e Francisco Sá Carneiro.

Gostaria de acrescentar que para mim foi uma revelação.

Só quando vi a a foto é que percebi.

Não fazia ideia que o Dr. Francisco Sá Carneiro gostasse tanto de música.

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Deus não pode matar-se

Chariots of the Gods, Asha Menghrajani
Ao criar Deus, o homem conferiu-lhe um conjunto de atributos essenciais e únicos. Elejo, entre outros, a omnipotência, a omnisciência e a omnibenevolência. Para que seja consistente a narrativa romanesca e filosófica com que os humanos Lhe cantam a biografia, os atributos divinos têm de revestir necessidade lógica e resistir ao desafio infame do paradoxo. Feito o exercício, é notório que exagerámos largamente pelo menos um dos atributos de Deus, o da sua omnipotência.
Por exemplo, Deus não pode matar-se. Cada um de nós pode, se assim o entender e for oportuno, suicidar-se. Deus não. A arbitrariedade do gesto negaria a Sua eternidade. Ao que acrescem razões morais: Deus não se pode matar porque o pecado Lhe é interdito. Fomos aliás tão mesquinhos ao criá-Lo que, não Lhe conferindo essa autonomia, chegámos ao ponto de O diminuir autorizando-nos a prerrogativa de O matarmos nós – um alemão, Friedrich Nietzsche, foi o seu mais patético e minucioso executor, no final do século XIX.
Mas há mais. Há outro impoder a beliscar a omnipotência divina. Deus não pode fazer que quem viva, não tenha vivido. Estaline ou Mao-Tsé-Tung, a coberto da espúria liberdade do relativismo, deleitaram-se com a manipulação do passado, apagando vidas e reescrevendo a história. É um poder reservado aos humanos. Deus está, nesse aspecto, de mãos atadas: negar existência ao que existiu seria mentir, matéria em que Deus, por lógica, metafísica e ética, é incompetente. A omnipotência divina aplicar-se-á ao presente e ao futuro (com a excepção da possibilidade de se matar), mas não se aplica ao passado.
Deus é uma possibilidade que criámos numa noite de insónia. Oferecemos-Lhe a eternidade para que Ele a viva, minuto a minuto, como um infinito pesadelo.

(Divagação melancólica e livre sobre excertos da “História Natural”, de Plínio, filtrados por “Porquê Ler os Clássicos?” de Italo Calvino, e sobre os artigos “Divine Atributes” e “Paradoxs of Omnipotence” do “The Cambridge Dictionary of Philosophy”)

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Pornografia

Se a população de Braga lesse blogs, saberia que aquela ilustração era de um pintor famoso. Não vou fazer nenhum link, mas lembro-me de ter visto aquela ilustração num post do Manel.

Não resisto a perguntar o que seria se episódios como o do Magalhães no corso em Torres Vedras e da apreensão do livro se passassem com um Governo PSD?

Algumas pistas:Manuel Alegre falaria no alto da sua experiência de resistência anti-fascista, alguém leria poemas, íamos ouvir falar em fascismo, ditadura e 25 de Abril, democracia and so on. Cairía o Carmo e a Trindade. O BE faria umas passeatas nocturnas com umas velinhas em frente a um qualquer mausoléu, ou da embaixada dos EUA.

Governados por um governo de direita tínhamos conversa para um mês e à socapa ainda teríamos um pedido de dissolução da Assembleia da República.

Agora digam-me se desta vez não foi tudo tão civilizado? Onde está o deputado Manuel Alegre? Onde estão os defensores da liberdade?

Desculpem-me por não colocar fotos, mas acho isto tudo muito pornográfico.

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Onde está o teu coração?



Começa hoje a quaresma, os quarenta dias que antecedem a Páscoa e nos quais devemos preparar a passagem do espírito de Deus que, na terra dos homens, distingue e liberta o que é vivo e o que é morto.
Ainda no Egipto, todos os que viviam da verdadeira vida o assinalaram na ombreira da porta de suas casas com o sangue do cordeiro que, em família, comeram no temor do seu Senhor. E logo deixaram de ser escravos e o Faraó os deixou partir para que buscassem o seu Deus.
Jesus Cristo, mais tarde, tornou-se ele próprio no cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, oferecendo-se a todos e a cada um para que, comendo-o, nos tornemos dignos dessa libertação verdadeira pela qual podemos livre e eternamente buscar o verdadeiro Deus.
Uma das diferenças entre as duas Páscoas, sem dúvida, é esta: Deus, agora, está mais próximo, está intimamente presente dentro de cada um de nós. Continuamos a ter que reunir-nos em família, entre irmãos, como é próprio da natureza humana, mas a ombreira da porta tornou-se agora no coração de cada um de nós, no qual Deus toca, libertando e salvando nessa sua terrível e exigentíssima passagem.
Ora, o que aqui quero sugerir, independentemente daquilo em que cada um crê, ou julga crer, é a meditação sobre o coração. Muitas tradições falam do coração como lugar privilegiado dos homens: íntimo, sensível, puro. Mas de que é que falamos quando falamos do coração? Quem já o experimentou, no regresso desse percurso em que fora de nós, buscávamos a Deus, que agora procuramos dentro de nós? Quem já o reconheceu, nesse caminho, em que nos tornámos, e que passa sempre pelas portas da nossa carne?
Crentes e não crentes têm em comum este mesmo mistério: aquilo que eles próprios são e a partir do qual procuram, ou não, a Deus. Deixemos que o nosso pensamento passe pelas portas da carne e se eleve e aprofunde cada vez mais dentro de si. O resto é uma questão de fé: de graça e de liberdade. A este caminho até si, porém, cada um à sua maneira, estamos todos obrigados.

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Os livros que lemos e quando os lemos

Batalhas sangrentas, estadistas megalómanos, os mais utópicos dos profetas, alguns laboriosos cientistas, bombistas coléricos, talvez mesmo predicantes economistas, antropólogos ou criminosos em série influenciaram, em algum momento, o curso do mundo em que viveram, moldando assim o que cada um de nós é hoje e, por tabela, o mundo em que vivemos. Tenho a certeza de que o meu interesse perverso por Billy the Kid – que aos 21anos registava a tétrica contabilidade de um morto por cada ano de vida – o meu fascínio cheio de segundas intenções por Madame Curie, uma camisa que, em teenager, usei com colarinho à Dr. Jivago, terão influenciado o que sou hoje e que, confesso, oscila entre a vontade de ser um assassino com ética, o desejo de me fechar no primeiro laboratório com a mais radioactiva das físicas e o nobre idealismo individualista do médico de Pasternak.
Por maioria de razão, os livros que lemos acabam por pintar, a cores mais alegres ou mais sombrias, a personalidade que temos. Os livros que lemos e quando os lemos, tal e qual como os que não lemos quando os devíamos ter lido.
Escrevo isto enquanto folheio, de Andrew Taylor, um livro de despretensiosa divulgação, “Books That Changed the World”. Folheio-o com uma mão enquanto, com a outra, ergo, triunfal e autoritário, “Porquê Ler os Clássicos” de Italo Calvino.
Descobri, assim, apavorado, que a minha vida podia ter sido diferente. Com alguma comiseração biográfica, Goethe escreveu “Os Sofrimentos do Jovem Werther” em 1774. Escassos anos depois, dois apenas, Adam Smith redigiu, com porfiado método, a “A Riqueza das Nações”. O que é que me terá levado, em data incerta, entre 68 e 70, a ler o suicidário Werther, desconhecendo olimpicamente o ensaio de Smith? O romance de Goethe, que li em tradução brasileira e livro de bolso, por mais que eu queira não me sai da cabeça e, por mais que eu não queira, virá sempre atrapalhar-me no amor. Não me arrasta para o suicídio exasperado e romântico, é certo, mas faz-me imaginar que leio os cantos de Ossian à mulher amada, com a consequente e arrebatada erupção amorosa, “beijos vorazes” e proibidos (ou porque proibidos?), afogados gritos e fuga para reservados aposentos.
Se eu tivesse então lido “A Riqueza das Nações” a que outros arrebatamentos teria sido transportado? Estaria eu muito mais interessado na “mão invisíivel do mercado” do que nos “lábios trémulos e balbuciantes” de Charlotte?
Li “Moby Dick” de Melville em vez de ter lido “Das Kapital: Kritik der politischen Ökonomie” de Karl Marx, apesar de ambos serem ficções escritas na segunda metade do século XIX.
Seis anos separam o “Ulysses” de “O Amante de Lady Chatterly”, um e outro escritos na modernista década de 20, no século passado. Atraído pelas lições de classe e sexo de D.H.Lawrence, desrespeitei a cronologia e deixei para adiadas calendas a hermética subversão das convenções narrativas proposta por James Joyce.
Se, rapazinho, frescas faces e cheio de vida, tenho lido primeiro “Das Kapital” em vez do pescador de baleias, se tenho lido primeiro “Ulysses” em vez das saudáveis descrições sexuais de Lawrence, será que estaria hoje a braços com a crise do BPN? Ou enterrado num departamento de estudos semiológicos?
Feliz por ter lido o que li, e quando li, tranquiliza-me o que acabei mesmo agora de ler em Calvino: “Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos, mas quem leu primeiro os outros e depois lê esse, reconhece logo o seu lugar na genealogia."
O arrebatamento de Charlotte e Werther

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Particularidades "IIX"



Para juntar às idiossincrasias destes bloggers do Geração.....

1. Como se pode constatar aqui, vivo obcecado com Tsunamis. Desde miúdo terei tido mais de trinta sonhos envolvendo um tsunami. A onda que chega, o pânico causado pela sua sombra e o seu rumor avassalador terminam sempre com um acordar em sobressalto. Seria recomendável visitar um médico, mas de alguma forma comecei a apreciar a realidade virtual destas experiencias. Estou convencido que vivia em Lisboa para os lados de Santos já no ano de 1755.

2. Gostei de comer os restos de todo o tipo de papas e sopas e mistelas inacreditáveis que os meus filhos comiam quando eram pequenos. Sobretudo se polvilhadas com um pouco de Parmiggiano Reggiano “grattuggiato” de primeira qualidade.

3. Tal como a Sofia G. gosto de ler vários livros ao mesmo tempo. Gosto de consumir os minutos iniciais de uma leitura em curso e entre muitas outras, a tentar situar de novo os personagens ou as linhas de raciocínio do autor, como quando em viagem, acordando num quarto de hotel e não sabendo em que cidade estou, procuro mentalmente refazer o percurso da noite anterior.

4. Gosto de política mas não gosto de partidos políticos Sou gregário mas não gosto de clubes. Ser do Sporting e escrever neste blog são já por si clubismos que representam para mim mesmo uma grande excentricidade.

5. Gosto das cidades Asiáticas tipo “Blade Runner”: Bankok, Seoul, Xangai, Mumbai. Poluídas, densamente povoadas, ricas de experiencias olfactivas estonteantes, consumidas por uma opulência decadente e uma pobreza esmagadora. Tudo me atrai e estimula. São aquilo que uma cidade da idade média provavelmente seria à 1000 anos atrás somando-lhes o motor de explosão, os sacos de plástico, o McDonald’s e as lojas do Louis Vitton.

6. Apesar do irritante reinado de Sócrates (e dos seus clubistas detractores também) continuo a alimentar o sonho de voltar a viver em Portugal “full time”. Apesar de tudo e’ ainda um soalheiro e prazenteiro canto do mundo e a cidade de Lisboa, por mais que a queiramos descrever como um destroço nas mãos de sucessivos incompetentes, continua a resistir ao assalto, mantendo-se orgulhosamente como a mais bela da Europa.

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Barcelona, Barcelona, Barcelona - Vicky,Christina


Os périplos de Woody Allen pelo velho continente já nos deram três filmes ingleses, sendo Match Point um 5 estrelas, agora um espanhol(catalão)e fala-se num próximo francês.

Este filme é desavergonhadamente um serviço ao turismo da capital catalã. Estão lá todos os postais de Gaudi.

O filme é um postal filmado a amarelo, laranja e encarnado. As americanas de serviço em passeio turístico por Barcelona são uma rapariga com físico de girafa e a musa Scarlett.

Ambas vão ser alvo da luxúria do pintor Javier Bardem.

Está tudo muito bem até aparecer Penélope Cruz que nos é oferecida em versão muito morena, louca, deusa do sexo, sensual, louca, culta, talentosa, virtuosa, amante livre. Está lá tudo, até a cena a andar de bicicleta, descalça, de chapéu de abas largas na cabeça.

De repente as americanas parecem tão deslocadas como daquela vez que Ava Gardner veio a Espanha ver os touros e os toureiros.

De vez em quando a Academia deixa-se levar por estes arroubos de histórias de países longínquos e gosta de mostrar que mulheres de pele escura, cabelo escuro e narizes tortos até têm um certo interesse.

É um cliché, evidentemente. Por isso gosto da Pê quando Almodovar a filma, não como um poster de mulher fatal, mas como uma mulher bela de carne ( que mata e cozinha) e osso ( quando morre de Sida).

Se o cliché resulta?

Resulta, porque raramente resistimos ao belo.

Quem resistiria a um Javier Bardem especado no meio da arena a agitar levemente a capa encarnada, ainda que saibamos que por baixo está a espada que nos matará?

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Particularidades Partilhadas



Depois de ler as “confissões” das minhas amigas e dos meus amigos da Geração de 60 detectei que algumas das minhas particularidades não eram, afinal, assim tão particulares.

Diminuído na minha singularidade, mas melhor acompanhado, deixo-vos um (pequeno) resumo das mesmas:

1. Partilho com a Sofia Galvão a particular forma de me calçar ainda que com algumas nuances (nunca somos absolutamente iguais, nem nas nossas excentricidades).

No meu caso, calço meias e sapatos enfiando sempre primeiro o pé direito mas visto as calças começando sempre pela perna esquerda. É proibido e, como é evidente, perigoso, trocar os pés nesta importante tarefa.

2. Partilho com o Pedro Norton a escolha dos restaurantes (ou, melhor, a ausência de escolha).

Para mim, são sempre os mesmos. Se um dia for mal servido ou mal tratado, não me queixo. Desapareço para nunca mais voltar (e o cuidado no serviço é muito mais importante do que a qualidade do repasto).

Mas não é apenas o restaurante que deve ser o mesmo. Também os pratos não podem variar. Como se diz no desporto, em equipa que ganha não se mexe.

3. Partilho com o Gonçalo a forma de ler através do sublinhado ainda que (cá está mais uma nuance) apenas quando leio “não ficção”.

Não sei ler de outra maneira. As palavras perdem o sentido e não “casam” umas com as outras. Dançam nas páginas e apenas o sublinhado as alinha e lhes dá a lógica original. Acredito que, na ficção, seja o fio da história o traço unificador.

4. Partilho com a família real inglesa (não faço a coisa por menos) a proibição, por mim instituída entre os Guimarães, de viajarmos juntos de avião.

Na melhor (?) das hipóteses, vamos a Mariana e eu, mas, nunca!, nós e os miúdos (e, estes, nunca todos ao mesmo tempo). E, em qualquer dos casos, sempre com seguro feito na véspera e um testamento assinado e confiado à minha Mãe.

5. Partilho com um grupo de bons amigos o gosto por ser fisicamente amassado jogando rugby numa equipa de veteranos.

Esta particularidade permite-me, de caminho, gastar a totalidade do subsídio de férias em sessões de fisioterapia, anti-inflamatórios e emplastros Leão.

6. Finalmente, e porque não há regra sem excepção, não partilho a opinião negativa da Sofia Rocha sobre "a visão estilizada da vida de muitas mulheres” marcada pelo “contorcionismo e maleabilidade para agradar a terceiros".
Isto, desde que o terceiro seja eu, claro...

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