segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Degustando Florença

Como ando em incumprimento reiterado das minhas obrigações "bloguisticas" resolvi fazer batota e economias de escala… Publico, igualmente, aqui uma boa parte de um post que acabo de publicar num novo blog sobre gastronomia (http://deguste-com.blogspot.com/).
Foi há quase quinze anos que abandonei Florença depois de cinco fantásticos anos de vida. Tenho continuado a visitar a cidade com frequência mas, preparando agora um regresso mais estável, voltei a visitar a cidade com um olhar diferente. Mais atento ao que mudou e ao que está na mesma. Na verdade: quase tudo está na mesma. A modernidade em Florença está sempre na forma como reinventa o seu passado. A cidade parece permanecer arrogantemente indiferente ao que muda à sua volta certa de que o seu fascínio sobrevive à sua apenas aparente decadência. Florença nunca aceitou "actualizar-se" e sempre entendeu que aquilo que na cidade não mudava era sempre o que de mais moderno o resto do mundo podia encontrar. Como se fosse o mundo que ainda tivesse muitos anos de atraso em relação a Florença. Para os florentinos o mundo ainda não atingiu a modernidade que se encontra no passado de Florença.Um dos melhores exemplos disso é a cozinha. Dos grandes restaurantes à mais simples trattoria dominam os grandes clássicos: ribollita, papa al pomodoro, faggioli al olio, bistecca, cogumelos porcini (cepes) em várias combinações. Pratos de uma cozinha pobre em cidade rica. Muda o refinamento dos produtos, alguns toques na execução e o cuidado na apresentação. Não se equivoquem, no entanto. Isto não deve ser confundido com inércia ou falta de curiosidade intelectual: vários chefes florentinos conhecem bem e até gostam da cozinha mais vanguardista mas não a praticam pois acham que a modernidade da cozinha florentina se encontra no seu passado. Quando inventam é apenas um pequeno retoque numa receita conhecida ou a redescoberta de um produto quase desaparecido. Abordam a sua cozinha com o mesmo respeito que merecem os monumentos da cidade: são restaurados e, quando muito, expostos de forma diferente. A inovação na cozinha florentina é fruto da arqueologia gastronómica e não da pura criatividade. Os grandes chefes florentinos são arqueólogos do gosto. Tal como com o resto da cultura e arquitectura florentina, são capazes de nos convencer que nada é mais moderno do que o seu passado.É por isso também que os grandes restaurantes florentinos permanecem os mesmos. Pouco muda no panorama da restauração de Florença. Um óptimo exemplo disto mesmo é o grande "clássico moderno" de Florença: Cibreo. Fez agora 30 anos. Criado por Fábio Pichi, "filho" dos revolucionários anos 60, que, provavelmente, o levaram a criar um restaurante que ainda hoje tem uma versão para ricos e uma versão para pobres. No restaurante e na trattoria comessem os mesmos pratos (com uma selecção mais pequena na segunda), apenas o serviço muda (não sendo, igualmente, possível reservar para a trattoria). Os preços também mudam: duas vezes mais caros no restaurante (impressiona ver os menus com os mesmos pratos lado a lado). Nos meus tempos de estudante em Florença o Cibreo já existia mas a versão pobre era mais ou menos clandestina (uma sala, nas traseiras da cozinha, em que se partilhavam as mesas). A trattoria pode assim ser considerada como um aburguesamento… Um local de classe média… Para além destes dois espaços, Fábio Pichi criou mais recentemente o Teatro del Sale. Trata-se de um clube (têm de se inscrever como sócios para poder entrar…) em que, por um lado, a cozinha é tratada como uma arte cénica e, por outro, como um local de encontro e socialização. A comida vai saindo, anunciada pela voz imponente do Fábio Pichi, de uma enorme cozinha aberta. Come-se em espaços comunais enquanto esperamos por algum espectáculo no palco.
Embora os espaços (e os preços…) variem, a comida de Pichi é substancialmente a mesma nos três locais: receitas (sobretudo florentinas) em grande parte quase desaparecidas que ele ajudou a recuperar e em que a cozinha pobre é dominante. Poucas ou nenhumas massas que é coisa pouca toscana. Os clássicos paté de fígados ou tripas à florentina para começar. Um extraordinário creme de pimentos (a melhor sopa que alguma vez comi) ou uma sopa de peixe como entradas. Um estufado de carne ou umas almôndegas como pratos principais. Uma torta de chocolate ou de laranja para terminar. Tudo pratos de uma aparentemente enorme simplicidade. E, no entanto, comemos e saímos com uma sensação de enorme requinte. Este é o segredo de Fabio Pichi: transformar uma refeição pobre de aldeia num banquete de luxo. E, no restaurante, paga-se o luxo: mais de 100 euros por cabeça. Já na trattoria pode ficar tudo à volta de 30 e no teatro del sale são 25 euros tudo incluindo (mais 8 ou 10 euros para a inscrição no clube).
É visível em Pichi uma certa concepção ideológica do acto de comer. Através das diferentes manifestações da sua cozinha ele socializa, redistribui, mobiliza. Para além de tudo isto, no entanto, está um chefe perfeccionista e fiel à tradição florentina de que não há nada mais moderno no mundo que o passado de Florença.

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O paradoxo das competências


Nas sociedades desenvolvidas, cresce o abismo entre as competências disponíveis no mercado de trabalho. Mas, pior, com esse abismo surge um novo e nocivo paradoxo: afinal, os menos competentes são os menos aptos para programas de formação e, portanto, aqueles relativamente aos quais a progressão se revela mais improvável. As consequências económicas e sociais são tão evidentes quanto terríveis.

É um verdadeiro círculo vicioso. Enquanto as competências são mais valorizadas do que nunca, milhões continuam sem atingir níveis básicos. E, nesse contexto de profunda desigualdade, as acções de treino e aprendizagem dirigem-se, privilegiadamente, àqueles que já são os mais qualificados.

Cresce assim a polarização das competências e, com ela, o risco de sociedades inevitavelmente menos produtivas e menos justas.

Ora, quem estuda estas problemáticas (ver aqui), sabe bem que, para fazer face à tendência, é urgente definir uma estratégia integrada que intervenha, simultaneamente, no mercado de trabalho, no sistema de formação e no quadro de vida quotidiana dos mais desfavorecidos. Para lá da propaganda e do efeito fácil, se o objectivo for sério, a verdade é que, só agindo nas três frentes, será possível abrir àqueles que mais precisam – e mais merecem – a perspectiva de um futuro melhor.

Num tempo de tantas e tantas dúvidas acerca dos resultados do programa «Novas Oportunidades», talvez valha a pena lembrar algumas coisas simples e essenciais.

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domingo, 8 de fevereiro de 2009

As Bruxas de Alcochete

No século XVIII, o médico William Griggs sugeriu que havia bruxas em Salem.

A explicação para as estranhas convulsões de duas meninas só podia ficar a dever-se as forças ocultas. O diabo andava à solta em Salem. Começou a caça às bruxas.Muitas mulheres acabaram penduradas pelo pescoço.

Por estes dias em Portugal, a presença do mal também se faz sentir. Sussurra-se que se sente a presença das forças ocultas. Não tardará que o mal também ganhe nome. Amanhã ou depois um doutor moderno, um spin doctor, dirá que tudo isto tem afinal uma explicação muito simples.

Tudo se ficará a uma manobra do demo: a vingança das televisões privadas pela concessão governamental de um quinto canal.

Só espero que as bruxas de hoje, mesmo quando sintam a corda a ser-lhe posta no pescoço, continuem a estrebuchar.

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Uma semana é muito tempo

Não tenho escrito no blog nos últimos tempos. Tal não se tem devido a desinteresse da minha parte: ao longo destas semanas, escrevi alguns posts “mentalmente”, mas – devido a uma série de compromissos e obrigações – não os pude “converter” para um formato menos virtual.

Embora de forma não-intencional, esta experiência de “não-escrita” acaba por ser reveladora. Dos quatro ou cinco posts que tinha “pensado”, na prática só um ou dois ainda são vagamente interessantes.
Os outros – a entrevista de Sócrates e como esta esvaziou as previsões do Banco de Portugal, anunciadas no dia seguinte; a novelette em torno das datas das eleições; os comentários de D. José Policarpo sobre o Islão; a vitória de Ronaldo e o editorial do Público a descrever Alex Ferguson como um gentleman (só se for na definição de Oscar Wilde: “A true gentleman is one who is never unintentionally rude”) – basicamente perderam, todos eles, a sua relevância.

O que é que isto demonstra? Bem, para começar, estende a aplicabilidade da velha máxima de Harold Wilson que “uma semana é muito tempo em política”. Uma semana é muito tempo na blogoesfera também.

Mas não é só isso. A rápida rotação de temas – ontem a data das eleições, hoje o caso Freeport (e amanhã quase certamente a arbitragem do jogo desta noite…) – também acaba por gerar uma espécie de ‘cegueira inatencional’ colectiva, em que perdemos de vista um tema central ao longo dos últimos oito anos, e que atravessa praticamente os últimos quatro governos: o fraco desempenho da economia nacional. O nosso PIB per capita tem divergido da média europeia sistematicamente desde 2002, e a taxa de desemprego mais do que duplicou desde 2000.

Num momento em que estamos a viver uma crise económica internacional, pode parecer paradoxal sugerir atenção à dimensão nacional. Aliás, a narrativa crescentemente dominante neste momento é que a responsabilidade pelo estado actual da economia nacional deve-se à crise internacional, e as sondagens mais recentes indicam que esta perspectiva tem eco na opinião pública.

Não disputo, obviamente, o efeito da crise internacional sobre a situação económica nacional actual. Contudo, o fraco desempenho económico português não é recente, nem inteiramente explicável por factores exógenos. Ignorarmos as causas domésticas pode ser uma estratégia apelativa a curto prazo, mas acarreta um sério risco: o da crise mundial acabar, e o crescimento nacional continuar débil. As consequências prováveis desse cenário são substanciais, tanto em termos políticos como sociais.

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A cidade e as serras (I)


Há cinquenta anos atrás, criavam-se nas aldeias animais para depois os vender nas feiras e mercados.

Os tempos não eram de abastança, animais e homens não exibiam fartura de carnes. Criar vacas não era tarefa fácil e os animais apresentavam o esqueleto. Os ossos dos quartos traseiros espetavam resolutos para o ar.
Quando se aproximava a feira e o momento de os vender, era necessário dar outra compostura ao bicho.

O engenho era aguçado pela necessidade. Toca de dar sal com fartura ás vacas. As desgraçadas, estonteadas pela sede, punham-se a beber água com fartura. Tanta água bebiam que de barriga cheia lá avançavam para a feira com outra dignidade.

Ontem, como hoje, dizem que é carne.
Eu digo que é só água e sal.

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Uma proposta que ( não ) se pode recusar

Noticia a TSF que na reunião de ontem no Largo do Rato, para discutir as moções do PS, Edmundo Pedro, histórico do partido, disse que havia medo no partido, que os militantes tinham medo de falar.

Augusto Santos Silva ter-se-á escusado a falar sequer sobre o assunto, "desviando as atenções para o exterior", ao mesmo tempo que exprimia o seu desprezo por "sujeitos" e "sujeitas" que à direita e à esquerda se opunham à governação socialista.

A linguagem e a postura lembraram-me vagamente a tirada serena, certa do seu efeito: " Faço-lhe uma proposta que ele não pode recusar..."

Ao Sr. Edmundo Pedro gostaria de deixar o seguinte pensamento: Por mais que nos sejam façam propostas que não são para recusar, podemos sempre recusá-las.
E não digo que não haja motivos para ter medo, digo apenas que nunca o devemos mostrar.

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Back to business as usual?


A incerteza é total, a desorientação quase absoluta. Mas intui-se que a crise – esta crise – mudou o mundo. E mudou-nos com o mundo.

Mudou o quê? E, mais exactamente, mudou como? Isso ninguém sabe muito bem ainda. E Davos falhou precisamente porque nos deixou sem respostas.

"Confiança", "cooperação", "medidas excepcionais para circunstâncias excepcionais". Palavras que, sem mais, dizem pouco. Muito pouco.

No meio das dúvidas, alguém lembrou os sete pecados sociais denunciados por Gandhi: política sem princípios, comércio sem moral, riqueza sem trabalho, educação sem carácter, ciência sem humanidade, prazer sem consciência, religião sem sacrifício… Terá sido isto? E como mudaremos o essencial?

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É mentira! Mas como é que souberam?


"FC - Suspeita-se que lhe terão sido pagas comissões, que foram para duas offshores…

JM - Duas offshores em meu nome?

FC- Sim. A Glenstal Trading Limited, constituída em Gibraltar pelo BCP e com conta numa sucursal no Funchal, mas que também tem conta no BPN, aberta em Cayman; e outra offshore também criada pelo BCP mas num estado americano, com conta em Cayman.

JM - Realmente isso existe. Quer dizer, existiu. Mas não teve movimento nenhum, nem conseguem provar. É uma pura mentira que eu tenha recebido… Até fiquei muito chateado por o Smith nem me agradecer – e isto era altamente confidencial. Mas como vieram a saber das minhas offshores?"

Lê-se e não se acredita. Às vezes tenho vergonha da concepção de país, cidadania, comunidade e sociedade que transmitimos aos nossos jovens. Vergonha.

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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Tratado de bem escrever



Daqui até aos Óscares, sei que terei uma dúzia de bons motivos para ir ao cinema. Vou em peregrinação, sabendo de antemão que, daqui a um ano, já não saberei dizer o que que vi.

Gravei há dias este filme do canal RTP memória. Dá-me vontade de o parar constantemente. Anotar cada frase, ver cada fotograma. A escrita é de antologia.

Deixo três falas:

" Há homens que se escondem atrás do desdém, como mulheres se escondem atrás da beleza".

" Os fortes lutam com os fortes pela posse dos fracos".

" Não morri por causa do que tu significas para ela, deixo te ir pelo que significas para mim."

E depois temos as imagens: a selvajaria, o ar sexualmente ambíguo, de Anthony Quinn quando despe a camisa e se deita na cama para fazer a sesta. O filme é todo dele. Roubou-o.

E é nosso. É um tratado de bem escrever e de fazer cinema. Sei que não vou ver nada assim.

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An orgasm

foto pilhada ao aliciante

O dito, saudavelmente célebre, é da actriz Mae West: "An orgasm a day keeps the doctor away".
Ocorreu-me perguntar se, nestes tempos de crise e pessimismo, a receita poderá passar a uma unânime doutrina social. Trabalhadores e empresários de todo o mundo, governos e oposições uni-vos. De facto.

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sábado, 31 de janeiro de 2009

Os trabalhos e os dias

Venho só marcar o ponto de Janeiro. Para além de pessoalíssimos humores, mais ou menos radicais, que até a mim intimidam, tenho estado técnica e invulgarmente ocupado. Faço a lista das minhas culpas, cheio de ciúmes do quality time que estas coisas me roubaram:
Tive um affair com este filme que, entretanto, já me trocou por mais de 200 mil espectadores.

Aventurei-me, com instintos homicidas, no terreno de públicos vícios do documentário. Este acabou exibido pela RTP.

Dei comigo voyeur das privadas fraquezas (ou forças) do nosso incontrolável ditador, cuja angústia sexual vai surpreender os telespectadores quando a SIC a exibir em breve.
Entretive-me com a hermenêutica da "anatomia do ciúme" entre intelectuais. Já a podem encontrar nas livrarias.
Desesperado, chamei em meu socorro o Agente ZigZag. Não é todos os dias que nos deixam entrar na história de um traidor, amante, herói e espião, numa linha de fazer inveja ao Le Carré. À venda.
Volto em Fevereiro se os meus trabalhos e os meus dias o autorizarem e os meus humores forem tocados por aquele módico de narcisismo que motiva toda a escrita.

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O tampão

A experiência profissional de dez anos, em dois planos distintos, até porque também sou trabalhadora dependente, as novas questões económicas, das empresas, e os seus reflexos sociais, temáticas como o desemprego ou os novos conceitos como a flexisegurança e a deslocalização, fazem-me sobretudo questionar paradigmas.
Que sentido e qual a valia de um edifício jurídico erigido sobre e para um modelo económico que mudou dramaticamente nas últimas décadas? Que dizer da realidade paralela dos milhares de trabalhadores falsamente independentes que não gozam de qualquer tipo de protecção? Como é possível que existam dois sectores - público e privado - com uma realidade tão díspar? Como é que se harmonizam os direitos dos trabalhadores com a realidade das empresas? Qual é hoje o papel dos sindicatos? Quais as consequências na economia e na competitividade nacional do regime existente?Como é que outros países têm abordado estas questões? Com que resultados?

Pode e deve o Direito do Trabalho ser um ramo de direito que busca soluções gerais que resistam ao avanço do tempo, conseguindo assim perenidade mas perdendo relevância no plano social, ou pelo contrário, ao querer intervir e dessa forma procurando a legtimidade pela caução da realidade, torna-se frágil e presa fácil de interesses difusos?

Escrevi este texto há dois anos, como parte da minha carta de motivação ao mestrado científico em Direito do Trabalho.
Lembrei-me dela por estes dias ao ver que o drama económico e social do desemprego, embora mencionado diariamente, não tem convocado nenhum especialista da área do Direito do Trabalho a manifestar-se.

Por estes dias, quando se fala do desemprego, fala-se apenas da necessidade de baixar a taxa social única, e de subsídios, ou seja fala-se do QUANTO, dos custos do trabalho. Isto é, essencialmente do Direito de Segurança Social.

Todavia, falta a coragem para encarar o problema do COMO, como se contratam os trabalhadores. Não é este o momento, para encarar o problema das formas legalmente admissíveis de contratar em Portugal? Ou de discutir a questão dos subsídios sociais, reforçando a sua concessão, mas em medidas efectivas combinadas com o mercado de trabalho? De que é que adianta conceder incentivos, se se desincentiva a contratação? Ora, o COMO, compete ao Direito do Trabalho.

Neste caso primam pela ausência, mais do que os políticos, os Professores e cultores do Direito do Trabalho. Pelo menos, que houvesse a coragem para fazer as perguntas. Por exemplo, seria ou não de abordar a possibilidade de adoptar medidas legais excepcionais, e limitadas no tempo, face ao quadro absolutamente execepcional em que vivemos?

Se contiuarmos a dificultar a contratação vamos criar um "tampão", de que o Estado, e todos nós, são os prejudicados, porque o Estado vai pagar com subsídios, aquilo que deviam ser os empregadores a pagar com salários.

Os Professores que conheço e com quem tive oportunidade de discutir a questão, nas universidades públicas, em Lisboa e em Coimbra, e numa Universidade privada - a Católica em Lisboa - discordam todos de mim. Esses Professores abarcam o leque partidário que vai desde o PCP,o PS,o PSD e o CDS.

Chegou o tempo de políticos e de Professores, com uma nova visão ( que é nova porque é a que resulta da experiência da vida de quem tem hoje trinta ou quarenta anos), procurarem novas soluções, que sejam efectivas soluções para a sociedade, para quem trabalha e para quem emprega.

Não posso admitir que me digam, como me disseram na entrevista, que eu estava aceite no mestrado, mas que ali não era o lugar para discutir o papel do Direito do Trabalho, mas tão somente as soluções do direito vigente.

Se o Direito se demite assim de dar soluções aos problemas, que os políticos chamem a si essa responsabilidade, que sempre foi sua, dando-lhe uma nova VISÃO. É certo que vão contar com a contestação de uns quantos, mas Portugal inteiro está à espera.

Esta análise impõe-se: antes que o desemprego atinja uma taxa de dois dígitos.

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Casei...

...com uma politóloga, professora de Ciência Polítca e agora tambérm blogger. Isto agora ainda vai fiar mais fininho. Lá em casa estamos sempre de acordo.

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Da Visão: Baton na Cueca




Em tempos, em pleno Senado Brasileiro, um político pediu a palavra, sacou de uma pilha de documentos que alegadamente seriam a prova cabal da existência de um escandaloso esquema de corrupção e gritou, a alto e bom som: «Isso aí, seus deputados, isso aí é baton na cueca!». O episódio, delicioso como por vezes é a política brasileira, voltou-me à memória, adivinha-se porquê, com o recente ressurgir do chamado «caso Freeport». Sobre o qual vale a pena escrever algumas notas.
1 – A primeira, sejamos sérios, é que ainda não estamos perante um caso de «baton na cueca». Pelo menos, e parafraseando o senador brasileiro, «na cueca do Primeiro-Ministro». A fazer fé na imprensa, a história está mal contada, «cheira mal» e está plena de contradições. Há demasiadas coincidências, demasiadas declarações comprometedoras, demasiados indícios, para que possa ser ignorada ou para que não seja rapidamente investigada. Mas para já é só fumo.
2 – A segunda é a seguinte: no longo prazo pouco interessará este caso em concreto. O que importa que fique claro, se queremos fazer alguma coisa acerca do futuro deste país, é que, mesmo que desta vez nada de ilegal tenha acontecido, Portugal criou todas as condições administrativas, processuais e legais para que a corrupção possa medrar. A burocracia, já se sabe, é a mãe da corrupção.
2 – O terceiro ponto que vale a pena registar é a excelência e a inteligência da assessoria política e de comunicação de José Sócrates. O Primeiro-Ministro tardou umas horas a reagir, mas quando o fez foi de um profissionalismo desarmante. Pleno de ironia, controlado, dir-se-ia que calmo, pediu que a justiça fosse célere mas sobretudo lembrou a coincidência entre o duplo rebentar deste escândalo e o calendário das legislativas. De uma penada, ressuscitou a tese da cabala e passou da defesa ao ataque. Em poucas palavras: resistiu ao primeiro «round» e passou a bola para o terreno kafkiano dos processos da justiça.
3 – E isso leva-nos ao quarto ponto: o país merece uma explicação sobre os «timings» deste processo. Haverá seguramente muito boas razões para que ele se arraste há tantos anos. Mas, para o comum dos mortais, é de facto difícil de perceber porque reemerge, de tempos a tempos, e sempre em vésperas de eleições. Se não há aqui uma gestão de informação bem planeada, parece. E seria bom, a bem da credibilidade da justiça, que alguém explicasse as razões de tanta coincidência.
4 – Quarta nota: tenho criticado muitas vezes a liderança e a política de comunicação do PSD. É chegada a altura de reconhecer que Manuela Ferreira Leite fez, nesta matéria, o que se espera de um líder da oposição responsável: ficou em silêncio. «A César o que é de César» e a líder do PSD tem-se recusado a comentar (pelo menos não o fez ainda à hora em que escrevo) um assunto que está ainda no domínio da justiça e sobretudo que não parece ficar por aqui. Além de formalmente correcta é a forma mais inteligente de lidar com o tema. Quando falar (se falar), Manuela Ferreira Leite fá-lo-á com uma dupla autoridade: a de quem é reconhecidamente «impoluta» e a de quem soube esperar pelos avolumar de provas que o justifiquem. Guardou para si o direito a desferir a última estocada.
5 – Mas relembro: não andemos, nós também, com o carro à frente dos bois. «Baton na cueca» é coisa séria e, até ver, ainda ninguém o encontrou.

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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Ai, Deus, e u é?

Temos nós aprendemos na escola as flores de verde pino do rei D. Dinis.

Ai, flores, ai, flores do verde pino
--- Ai, flores, ai, flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai, Deus, e u é?
Passa-se o mesmo com a base de dados das aquisições públicas. Queremos aceder a ela. Queremos aceder a ela (http://www.base.gov.pt/Paginas/Default.aspx) e apenas temos como resposta
Ai, flores, ai, flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
Ai, Deus, e u é?
Não se acede à base da transparência. Diz-se que se fomenta a transparência, e acho bem que se fomente. Mas tentando aceder a ela, apenas ouvimos a trova:
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
Ai, Deus, e u é?
Tentamos aceder novamente e eis que surge de novo a resposta:
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi à jurado?
Ai, Deus, e u é?
Ao que perante a nossa perplexidade ouvimos responder:
Vós me preguntades polo vosso amigo?
E eu ben vos digo que é sano e vivo.
Ai, Deus, e u é?
E como? Perguntamos nós. E eis que descobrimos uma solução (http://transparencia-pt.org/?search_str=%22Presid%C3%AAncia+do+Conselho+de+Ministros%22)
Vós me preguntades polo vosso amado?
E eu ben vos digo que é vivo e sano.
Ai, Deus, e u é?
Em Portugal as pessoas queixam-se de uma sociedade civil não actuante e mole. Mas eis que descobrimos que esta sociedade civil afinal tem momentos de glória e actividade. Foi um conjunto de cidadãos que deu transparência à coisa (http://transparencia-pt.org/?page_id=2):
E eu ben vos digo que é sano e vivo
e seerá vosco ante o prazo saido.
Ai, Deus, e u é?

Basta? É evidente que não. Mas os governos nunca bastam sem sociedades que lhes dêem desafios. Porque em nome da transparência não deixa disponível o governo o dito site das aquisições públicas? Porque ficamos a saber, nada mais nada menos que serve de flores em geometria não euclidiana uma empresa http://publicacoes.mj.pt/pt/Pesquisa.asp?sFirma=&dfDistrito=&dfConcelho=&dInicial=&dFinal=&iTipo=0&sCAPTCHA=&pesquisar=Pesquisar&dfConcelhoDesc=&iNIPC=508769531
A apressada senhora Maria (http://publicacoes.mj.pt/pt/Pesquisa_Detalhe.asp?iID=1340421) constituiu a sociedade mesmo a tempo (Insc. 1 - AP. 15/20081016 11:42:08 UTC - CONSTITUIÇÃO DE SOCIEDADE, DESIGNAÇÃO DE MEMBRO(S) DE ÓRGÃO(S) SOCIAL(AIS)).

Ainda bem. O sítio dos contratos públicos não está acessível pelos seus efeitos cómicos. Governar é coisa séria, e não se brinca com coisas sérias.

E eu ben vos digo que é vivo e sano
e seerá vosco ante o prazo passado.
Ai, Deus, e u é?



Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O que eu sei sobre as mulheres


Espantosamente, a Ana Sousa Dias achou que eu deveria saber algo de interessante sobre as mulheres e decidiu entrevistar-me. Saiu na Pública de ontem. Gostava de partilhar isto, quanto mais não seja porque o texto é dela - e ela escreve muito bem.

"Sei muito pouco sobre as mulheres, mas isso é um lugar-comum. Teoricamente, teria obrigação de saber mais porque cresci numa família de mulheres: a minha mãe e três irmãs mais velhas. O meu pai faleceu quando eu tinha seis anos, tenho umas memórias muito longínquas dele. Meio a brincar, digo que tive quatro mães.

Há uma questão de comunicação. Tendencialmente, os homens são animais do hemisfério esquerdo, ligado às questões da lógica, do espírito analítico, do raciocínio numérico, aritmético. O hemisfério direito está ligado a outras questões - à intuição, à comunicação não verbal, à linguagem dentro de contexto. Felizmente, todos temos hemisfério esquerdo e direito. Mas as mulheres são mais intuitivas, de decisão mais rápida e imediata, com uma comunicação não verbal dentro de contexto mais perceptível. Os homens precisam de mais tempo e mais dados para tomar decisões, são mais racionais, se as coisas não estão preto no branco não são capazes de se aventurar.

Na casa da minha mãe, às vezes parecia que elas estavam a falar entre si em código. Diziam uma coisa imprecisa, entendiam-se e eu ficava sempre de fora. Quando a minha mulher foi lá pela primeira vez, a minha mãe a certa altura disse-lhe - "Ó Catarina, passa aí o coiso dos coisos." Ela percebeu: era a base para pôr os tachos quentes. Eu vivia lá em casa e não sabia. E a ela bastou-lhe olhar para perceber o contexto. Ainda hoje falamos sobre isso. Isso faz parte da comunicação informal que funciona via hemisfério direito. Nós devemos ter umas ligações menos eficientes.

Acho que se aplica aqui o princípio de Pareto [Vilfredo Pareto, 1848-1923], estabelecido por um economista que viu que 80 por cento da riqueza em Itália era detida por 20 por cento das pessoas. A regra dos 80-20 funciona bem em muitos contextos. Por exemplo, 80 por cento do nosso trabalho é feito em 20 por cento do tempo. As mulheres funcionam assim: tomam decisões com 20 por cento dos dados e 80 por cento das vezes a decisão está certa. Os homens são mais analíticos, mais chatos, precisam de mais dados, correm o risco de paralisar por excesso de análise.

O maior prémio mundial da Matemática, a medalha Fields, nunca foi atribuído a uma mulher. É espantoso, porque as ciências duras - Física, Química, Biologia - precisam de material, de laboratórios, e há mulheres com Nobel nessas áreas. A Matemática é papel e lápis, pode ser feita em casa. Em Portugal, sempre houve muitas estudantes mas depois ficavam no ensino, não iam para a investigação. Talvez seja um fenómeno geracional. Isto tem raízes históricas, evidentemente.

A francesa Sophie Germain [1776-1831] queria fazer Matemática mas não podia inscrever-se na École Polytechnique por ser mulher. Fez-se passar por um homem para ter acesso aos apontamentos, tomou um lugar de um aluno chamado Antoine-Auguste Le Blanc que deixou de ir às aulas. Estudava em casa, submetia os trabalhos resolvidos. O maior matemático da altura, Joseph Lagrange, chamou o Monsieur Le Blanc porque as soluções eram extraordinárias: apareceu-lhe à frente uma mulher. Ela fez contribuições importantes em Matemática mas, quando faleceu, o epitáfio identificava-a simplesmente como "rentière-annuitante", uma mulher que vivia de rendimentos.

A alemã Emmy Noether [1882-1935] foi uma matemática de primeira linha. Em 1915, David Hilbert, o mais destacado matemático de então, convidou-a para trabalhar com ele em Gottingen mas o departamento não aceitou, por ser uma mulher. Ficou quatro anos a dar aulas e a fazer investigação sem ser paga, até aceitarem contratá-la. O Hilbert perguntava, com muita graça: "Mas isto é um departamento de Matemática ou é um balneário?" Não foi há tanto tempo assim, foi há 90 anos!

A par do rigor lógico, a investigação matemática tem uma componente de intuição que é subvalorizada. São necessários os dois hemisférios: o direito para adivinhar os resultados e o esquerdo para prová-los. À partida, as mulheres não têm qualquer handicap para a profissão matemática.

Sou casado há mais de 18 anos e às vezes descobrimos coisas inesperadas um no outro. Temos interesses comuns, às vezes dizemos a mesma coisa ao mesmo tempo, sabemos que gostamos do mesmo tipo de filmes, exposições, literatura. Conhecemo-nos cada vez melhor. Não obstante, o universo feminino para mim é bestialmente misterioso. Quando vejo nas revistas femininas coisas como os jogos de sedução, parece-me a descrição da vida em Marte. Não me considero um nerd, mas penso - onde é que isto acontece?"

Ana Sousa Dias (a partir de uma conversa com Jorge Buescu)

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Só sei que nada sei

Tenho lido o que se tem escrito, ouvido tv, sobre o caso Freeport.

Quem tem responsabilidades públicas, políticas, diz o que tem de dizer, que a justiça fará o seu trabalho. Ou não comenta. Parece-me bem e o adequado face ao caso.

No entanto, nos outros casos, jornais, comentadores, opiniadores, parece-me que deixam escapar uma questão fundamental: a natureza da corrupção, e sobretudo a de grande escala, a forma como opera.

Estas pessoas têm da corrupção uma ideia cinéfila: uma conversa explícita, comprometedora, de preferência gravável, uma mala cheia de dinheiro. Tal e qual como no filme português Call Girl. Tudo muito óbvio e para a posteridade. Provas, muitas e para todos os gostos e todos os ordenamentos jurídicos.

Agora, por causa disso, nos media procura-se afanosamente o dinheiro, muito dinheiro, todo juntinho.

É claro que quem se dedica a estas questões sabe como é que estas coisas efectivamente se passam.

Sabem que quase sempre há poucas conversas, nada escrito, nem sempre o preço é dinheiro, mas sim trocas cruzadas de favores, uma terceira entidade que é beneficiada, favores pessoais, emprego, cargos, visibilidade, chantagem com questões do foro pessoal, e muitos técnicos especializados ( em leis, fiscais, contabilidade) envolvidos.

Nestes casos, a fronteira entre legalidade e ilegalidade é sempre ténue - e nem sequer é por acaso.

Talvez fosse bom ouvirmos especialistas nesta área -corrupção- para que tivessemos maior conhecimento sobre o fenómeno e se deixasse de imaginar malas cheias de dinheiro.

Só para dar um exemplo: nos EUA foi desmantelado um cartel que funcionou durante muitos anos. Havia quatro empresas que concertaram os preços e fizeram-no durante anos. Nunca houve acerto de contas, nunca houve contactos.

Sabem como? De acordo com a fase da lua. Em cada fase da lua, cada uma delas era raínha absoluta, ditando o seu preço.

Simples,engenhoso e eficaz, não?

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Pentimento: "A Troca"

O mais recente Clint Eastwood a estrear em Portugal é uma desilusão. Não belisca o lugar de Clint (já pus moedas num parquímetro de Carmel, a terrinha pacata junto ao Pacífico da qual o senhor foi "mayor", portanto posso tratá-lo assim) entre os grandes directores americanos vivos, ao lado de Coppola, Scorsese, John Sayles, Spielberg, Woody Allen e Michael Mann. Mas Eastwood é, entre todos, o que melhor continuou, actualizando, (os outros revolucionaram, e Eastwood - e Sayles - não são de revoluções, são de reformas) a tradição do cinema clássico americano, nascido em 1929 e morto por volta de 1960 (Godard, Antonioni, Cassavettes e Karel Reisz carregaram o caixão).
"A Troca", baseado num caso que abalou a Califórnia em 1928, é um melodrama sobre a luta de uma mãe solteira (Jolie, impecável) para encontrar o filho de nove anos desaparecido, depois de a polícia de Los Angeles lhe entregar um rapaz que ela jura não ser o seu. Durante meio filme, a máquina do destino é posta em marcha, e o percurso de Christine Collins é feito de sofrimento e angústia contra a indiferença, a incúria e as conveniências políticas da LAPD, num quadro social de época que amordaça as mulheres que se atrevem a sair de um certo silêncio parcimonioso. Christine/Jolie é desprezada, insultada, enfiada num sanatório e tida como louca, e nós sofremos as suas agruras como se fossem nossas - é a arte de Eastwood.
Mas, a certa altura, opta-se pela distensão do tempo dramático quando mais deveríamos acelerar rumo ao objectivo que nos foi proposto de início: conseguirá Christine encontrar o filho Matthew? O filme começa a ocupar-se de dois julgamentos (o do presumível assassino de Matthew, numa replicação dos Wineville Chicken Murders que chocaram a América dos anos 20, e o das forças policiais de Los Angeles, que enganaram e oprimiram Christine), colocando o espectador demasiado à frente das personagens: as cenas são longas, arrastam-se, e todos já pressentimos o seu inevitável desfecho.
Quando pensamos ir regressar ao que nos trouxe à sala - e a pobre mãe, recupera o filho? -, Clint faz mais um desvio, mostrando-nos com pormenor a execução por enforcamento do presumível assassino, numa cena de opções éticas e estéticas dissonantes do resto do filme - a "câmara subjectiva" do infanticida o que está ali a fazer? -, sem qualquer tipo de informação útil para a progressão da intriga (Clint, sendo um firme opositor da pena de morte, quer mostrar-nos a lenta e cega violência da solução de Estado, mas já o tinha feito em "Crime Real").
Ao regressarmos - finalmente - ao que nos levou a sair de casa, enfrentar a chuva, aturar os arrumadores, gastar doze euros, suportar os telemóveis, tolerar os espirros, ignorar os lapsos de focagem e tentar esquecer o cheiro das pipocas, Eastwood (já estou irritado, é altura de o tratar pelo apelido) retira-nos a recompensa emocional, rematando tudo num epílogo apressado.
Não se trata da brilhante austeridade - e do quase bergmaniano "silêncio de Deus" (desculpem, tropecei no texto de um crítico português encartado e ia quase caíndo) - de "Million Dollar Baby" e "Mystic River". Trata-se de uma inexplicável ruminância de factos e recursos dramáticos no coração emocional do filme - o desenlace da via sacra de Christine -, deixando-nos sempre dois passos à frente da protagonista. Eastwood sabe bem a diferença entre surpresa e suspense, mas parece ter-se esquecido momentaneamente dela em troca de um respeito demasiado estrito pela sequência dos factos (o filme baseia-se, muitas vezes de forma literal, em documentos depositados na Câmara de L.A. e nas transcrições originais dos julgamentos).
Eastwood de qualidade, sem dúvida, mas bem longe do Clint "vintage". Esperemos pelo próximo, que chega já em Fevereiro: "Gran Torino".

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Só me faltava mais esta!

Parece hoje muito certa aquela afirmação de Montaigne, que diz: «Não há menos tormento no governo de uma família do que no de um Estado inteiro.»
Não se preocupem que não vou aqui falar sobre a história do Freeport e do eventual envolvimento que nele possa ter tido o nosso primeiro-ministro. As pessoas devem ser investigadas - quando tal se justifique - com ordem e com correcção pela justiça e pelos jornais e nesse âmbito, apenas, devem essas suas acções ser julgadas e avaliadas. Neste caso, além disso, tudo indica que não poderemos queixar-nos, como sempre nos queixamos, da ineficácia da nossa justiça e dos nossos jornais, porque ambas as investigações, ao que parece, estarão a ser desenvolvidas em Inglaterra. Esperemos, apenas, que, desta vez, não seja só para inglês ver.
Há, no entanto, uma conclusão política que talvez se possa já tirar de todo este processo. Refiro-me às putativas medidas de esquerda que, tendo sido tomadas por este governo, todos teimavam em afirmar que mais não eram do que meras jogadas políticas para conquistar esse eleitorado mais radical, que alegremente se afastava do espectro socialista de Sócrates. Ora, vemos agora como isso pode ser infame e totalmente falso. Com efeito, podemos hoje aventar, não sem razão, que as várias medidas de ruptura que este governo introduziu no âmbito das políticas de família, não terão tanto a ver com questões eleitorais, nem ideológicas, mas com a experiência pessoal negativa que, neste campo, é, de uma forma evidente, a do nosso primeiro-ministro. É que, como disse Marcelo Rebelo de Sousa, para uma figura pública, de facto, é uma maçada ter uma família assim!

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Um bom exemplo

Os americanos vão poder acompanhar a implementação do American Recovery and Reinvestment Plan, mal este seja aprovado pelo Congresso. Um exemplo a seguir na Europa. Ler mais aqui.

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