domingo, 12 de outubro de 2008

Scolari Vs Queiroz - Liderança, emoção, comunicação e afins

Scolari Vs Queiroz - que tipo de líder é um e o outro?

A questão assume a maior importância porque a exposição ou sobre exposição mediática introduziu novas regras. O escrutínio é total e permanente e há vinte anos não estaríamos aqui a falar sobre estes temas.

As pessoas que estão expostas à visibilidade conferida pelos media ou têm certas características ou não, e se não as têm, vão ter grandes dificuldades em ser aceites pelos públicos.

Aqui no blog, existem pessoas que podem confirmar isto: há pessoas que "vendem" bem. Quando aparecem na capa de revistas estas vendem, quando aparecem na tv,as audiências sobem. É uma espécie de "it", qualidade indefinível, mas que é mensurável, uns têm-na outros não.

Aplico este raciocínio aos treinadores de futebol. São protagonistas de um dos espectáculos mais vistos e apreciados no mundo inteiro e por mais que esse facto seja escamoteado e nos admiremos todos com a dimensão do fenómeno, o futebol, enquanto espectáculo, é uma poderosa indústria.

Concretamente no que se refere aos treinadores aqui mencionados, e porque a questão da liderança, das relações de poder, de estilo de comunicação me interessam muito, tenho a opinião de que se trata do sucesso com que os próprios abordam os seus aspectos emocionais, e aqueles do(s) público(s) a que se dirige.

A razão de ser do sucesso de Scolari em Portugal tem a ver com a natureza do público a que se dirige. Quer o grupo imediato, os jogadores, quer a maioria do povo português. No que toca aos jogadores, Scolari é muito parecido com os atletas, estão no mesmo nível, se bem que tenham intensidade diferente. Scolari é mais inteligente, mais determinado, mais organizado e metódico do que os seus atletas, mas é facilmente reconhecido e reconhecível como um igual.

O que mais me intriga é quando as pessoas, líderes e liderados, estão em níveis diferentes, percursos diferentes, abordagens diferentes, metodologias diferentes. Isto é, como que alguém que escolheu uma abordagem académica, mais sustentada, com uma linguagem radicalmente diferente, consegue comunicar, mais do que isso liderar, fazendo com que os outros o sigam. Esta é para mim a maior dificuldade.

Quase apetece dizer que falta racionalidade aos primeiros e emoção aos segundos.

Como é que estes líderes conseguem obter resultados com os seus liderados? Parece-me que só pela exploração de aspectos mais emocionais. A inteligência e preparação técnica só por si não chegam nestes casos de grande exposição. A começar pelos seus próprios. Passando pela desmontagem do discurso, aproximando-o de um discurso mais facilmente apreensível do público.

Não quero com isto dizer que se deva caír no facilistismo, muito longe disso. Mas não fica nada mal a alguém que é mais inteligente, ou tem uma melhor preparação pessoal ou académica, fazer um esforço para chegar às pesssoas. Ganhar as pessoas.

Afinal de contas, estamos a falar de um espectáculo. As pessoas têm de ser ganhas para comprar bilhete, comprar merchandising, gastar dinheiro.

Há dias o Presidente do Sporting queixava-se que não tinha conseguido o número de sócios que queria. Tenho um palpite. Paulo Bento não vende, Fernado Santos não vende. Rui Costa vende, Quique Flores vende.

Uma vez um director de marketing disse-me que essa qulidade se chamava " qualidade aspiracional".

Sr. Queiroz faça-nos acreditar, faça-nos querer. Com muita força.

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Queiroz, um outro Mamede


Deus queira que me engane.

Ninguém põe em causa a competência técnica ou a inteligência do discurso.

Não se questiona o papel de pai da Geração de Oiro do futebol português, nem o contributo efectivo ao Manchester de Mestre Ferguson.

O que se pode pôr em causa é se Carlos Queiroz tem o que é preciso para ser o número 1 de uma equipa. O seu líder e comandante supremo.

Sporting, Selecção Nacional (numa primeira encarnação), Real Madrid e os primeiros jogos ao comando da selecção de todos nós (num anunciado segundo mandato) são prenúncios de uma (falta de) vocação que, a mim, me parece evidente.

Deus queira que me engane.

Nunca simpatizei particularmente com Scolari mas dificilmente poderia ter posto em causa o élan que transmitia à selecção nacional. Com o brasileiro aos comandos habituámo-nos a esperar (sempre) o melhor. Passámos a acreditar nas vitórias fosse contra quem fosse e que o destino torcia por nós. Pusemos para trás das costas as (tristes) vitórias morais.

Com Queiroz volta o fado português. Voltam as contas para o apuramento. A famosa matemática. Os golos (contra) nos últimos minutos. Com Queiroz não vale a pena esperar por um rasgo de sorte, um vento favorável do destino, porque nada disso chegará.

Queiroz é uma espécie de Mamede. Não se duvida das qualidades mas não se acredita nos êxitos. Tem tudo a seu favor mas nos momentos chave falha. Traz consigo as competências mas na hora H estas não chegam. Desafia o destino mas nunca encontra a sorte.

Olho para esta selecção e vejo o Portugal de outros tempos.

Deus queira que me engane.

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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Um rapaz às direitas


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Yearbook Yourself



Co-bloggers: aceitem um desafio. Vão até aqui e zelem pela vossa imagem. Eu sempre achei que tinha vocação para Little Richard.

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quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A crise contada aos mortais



O melhor que ouvi até agora sobre a crise encontra-se aqui:
Uma entrevista de Alain Minc na France Info que nos recorda que se calhar um dos problemas desta crise foi a desvalorização do respiro e capacidade de contextualizar as coisas no tempo associada à experiência "des grands esprits". Veja-se também como Warren Buffet voltou a ser o guru da moda nos EUA. No fundo, na origem desta crise também está a falta de memória económica resultante da política dos jovens lobos na finança. Mas também é necessário não substituir agora essa memória por outra memória...

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terça-feira, 7 de outubro de 2008

Europa e a crise: mais Europa sem menos Estado?


A reacção de muitos à ausência de uma verdadeira resposta europeia à crise financeira lembra um anedota de Woody Allen em Annie Hall : duas senhoras passam o jantar a criticar a comida e, no fim, queixam-se de como as doses são pequenas… De que outra forma se pode qualificar o paradoxo de no mesmo discurso em que se acusam alguns Estados de agirem de forma isolada e sem atenderem ao interesse dos outros se recuse veementemente uma política comum europeia! ("I want my cake and eat it" como dizem os ingleses).

Resiste-se à ideia de mais Europa com receio de que isso signifique menos Estado. Mas a verdade é que só a Europa pode repor o poder do Estado neste mercado.

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Não deitar fora o bébé com a água do banho

O ruido ideológico faz-me voltar à questão relativa às culpas e diferença entre Estado e mercado no contexto da actual crise financeira. Desta vez, no entanto, para defender o mercado. É que a narrativa da crise tem apenas acentuado as culpas do mercado, talvez como instrumento de um combate ideológico masi alargado. Mas temo que tal apenas confunda de novo ideologia com Estado e mercado (sei que este é um combate perdido mas não desisto).
Acontece que muitos se esquecem que as duas primeiras instituições que estiveram na origem desta crise (Fannie May and Freddy Mac) eram agências federais americanas, entidades públicas encarregues de facilitar a concessão de crédito à habitação. Foi, igualmente, o Congresso americano que insistiu que estas instituições financiassem muitos dos créditos de mais elevado risco de forma a fomentar uma política de habitação (como lembrou recentemente o ex-Presidente Clinton). Isto não quer dizer que a responsabilidade seja do Estado. Lembro isto apenas para reforçar que o problema fundamental na origem desta crise é a inexistência de qualquer relação entre a tomada de risco e a responsabilidade pelo mesmo. Mas isso passou-se tanto no mercado como no Estado e não tem primordialmente a a ver com Estados liberais, socialistas ou sociais-democratas (basta recordar que nos anos 90 a Suécia passou por um colapso idêntico do seu sistema financeiro: não creio que a Suécia seja um exemplo de neo-liberalismo…).

E aqui o desenvolvimento.

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20 computadores Magalhães


Pelas minhas contas este ano ofereci 20 computadores Magalhães e nenhum foi ao meu filho.
É só fazer as contas.
O que este ano, sem nenhuma justificação, que não o aumento desbragado dos impostos, o fisco não me devolveu, dá para comprar 20 computadores Magalhães, com acesso à internet incluído.
Não gostei.
Em primeiro lugar, porque ninguém me avisou que os ía oferecer.
Em segundo, porque em ano de compra de casa e pagamento de IMT, este não era o melhor momento.
Terceiro, porque estou a oferecer computadores a crianças que provavelmente não necessitavam dele ou cujos pais nem sequer vêm com bons olhos a iniciativa.
Quarto, porque como ninguém disse que era eu que oferecia os 20 computadores, ninguém me vai agradecer.

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ERC - Estamos a Reparar em Ci

Porque os meus colegas acham que sou organizadinho e porque havia algo que precisava de um novo impulso sou director de uma revista académica chamada Análise Social. Hoje, vinha a subir as escadas do meu Instituto, quando uma zelosa funcionária me veio dizer que me tinha mandado o seguinte email:
"Tive de fazer a alteração da direcção da Análise Social junto da Entidade Reguladora para a Comunicação Social e para além do formulário que já enviei assinado pelo Presidente do Conselho Directivo, ainda exigem uma declaração assinada pelo mesmo comprovativa de que o Pedro é o actual director da Análise Social. Pedem ainda uma fotocópia do seu BI."
Não sabia que estava sob a alçada de tão eminente instituição e muito orgulhoso fico de ela querer a minha foto. E, claro, tenho de obedecer senão ainda me fecham a revista. E, caros colaboradores, agora tenham mais tento no que escrevem.
Agora a sério: fiquei chocado e não sou fácil de chocar. O que é que a ERC tem a ver com uma revista académica? É assim no mundo civilizado? Alguém sabe? Se calhar é normal. Mas se calhar não.

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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Crise de Vocações


Em crise de vocação pessoal, dei comigo à procura de soluções na internet. Descobri, com estarrecida surpresa, uma preciosidade. O mundo onde vão entrar ultrapassa todos os requintes da vossa imaginação. Preparem-se para a viagem existencial das vossas vidas.
Gostas de homens, de discotecas e de umas massas? Apaixonas-te com facilidade?
A pergunta não é minha, nem é uma daquelas vigorosas provocações lançadas pelo primeiro iconoclasta de serviço. E não surgiu de nenhum blog de “dating” ou engates. É um dos desafios do sítio “Mi vocación”, dinamizado por umas ousadas Hermanas de la Caridad Dominicas de la Presentación de la Santísima Virgen, cuja página oficial podem consultar aqui.
As inocentes irmãzinhas, em luta contra a crise de vocações, não olharam a meios e ainda menos a argumentos. Criaram uma página online para conquistar mentes e corações, com desafios quentes e arrojados, como os dos exemplos que se seguem: “Gostas de sonhar? És uma romântica? Clica aqui.” Ou, e limito-me a citar com propriedade o original espanhol, “Te va la marcha frenética? Es una vividora? Pincha aqui”.
O argumentário para estes convites desabridos é desarmante. As irmãzinhas, recorrendo a uma dialéctica imbatível, esclarecem assim as mais improváveis aderentes à causa: “De entre todas as opções que existem na vida, toda a jovem deveria colocar-se seriamente estas duas: ser gigola ou ser freira?
A retórica prossegue, entre o rubicundo do ser heideggeriano e o nada lógico-positivista, mas eu poupo-vos, até por ter a certeza de que se me leram até aqui, vão agora querer ler o original, no doce castelhano que as monjas usam com habilidade e malícia. Vão lá ver para verem que não minto.
Seja como for, não resisto a citar o mais controverso, e porventura blasfemo, dos argumentos de Sor Ana Isabel, Sor Gemma e Sor Conchi, as três freirinhas artífices do “Mi Vocación”. A uma jovem que se julgue “Borrachina? Marchosa? Enamoradiza?”, que é como quem diz, às que gostam de beber, são mais atrevidas e namoradeiras, as freiras recomendam, mais do que às outras, recolherem ao convento. O facto de já conhecerem melhor o mundo (gentil eufemismo), é uma vantagem, dizem as monjas. Confere a essas mulheres (perdidas, julgava eu), experiência para ajudar os outros. Ah, e não se envergonhem, nem pensem que são as primeiras. Para não ir mais longe, e as palavras, juro-vos, são delas, Santa Maria Madalena “también fue una cachonda como tú”, o que no meu torpe português quer dizer, também foi uma entesoada como tu.
Quem é que, depois disto, não sentirá o arrebatamento de uma vocação? Se não for o amor, o que é que, afinal, pode salvar o mundo?
Texto roubado descaradamente ao Pnet Homem, sítio que, correm rumores, vai sofrer grandes modificações, apoiadas por estas gentis monjas.

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domingo, 5 de outubro de 2008

Bail me out!


Enquanto escrevo, a leadership do segundo maior banco Alemao de “Real Estate” reune com o respectivo governo numa tentativa desesperada de salvar o que resta de uma instituicao financeira faminta de fundos e carregada de mau credito.

Tenho vindo a seguir atonito ao evoluir deste processo em particular enquanto na ultima semana uma das directoras legais deste banco, fechada vinte e quatro horas por dia num escritorio do centro de Milao, procurava com o resto dos seus pares de outras filiais Europeias reunir a documentaçao necessaria para a construçao de uma estrutura legal que permitisse o inevitavel bail-out.

Ontem o “bail-out” nao passou e nao sabendo ainda o resultado destas ultimas negociaçoes com o governo Alemao, aqui me vejo esperando que a decisao final seja de algum modo definitiva e que a dita directora regresse a casa (com ou sem uma caixa de cartao com as fotografias dos filhos dentro) e que a minha vida volte ao normal.

O aspecto mais surreal de todo este processo, foi ver na sexta-feira passada alguns membros do staff de Milao serem promovidos a posicoes hierarquicas de maior responsabilidade dentro da estrutura Europeia do banco em questao. Sem querer, vieram-me à memoria tremidas imagens a preto e branco de imberbes e vitais adolescentes da juventude Hitleriana, a serem promovidos a cargos de chefia por um muito envelhecido Furer, enquanto o exercito vermelho bombardeava ja’ a periferia de Berlim.

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Portugal e os Portugueses vistos de fora


Há uns anos atrás, um encarte (pago) na TIME apresentava a nossa vizinha Espanha como sendo a Western Europe’s last frontier. O título era obviamente enganoso. Num ápice peguei na caneta (ao tempo não havia email, pelo menos pelas minhas bandas) e escrevi para a Direcção da revista lembrando que Portugal, esse sim, encarte pago ou não pago, representava a última fronteira da Europa a Ocidente. Não recebi qualquer resposta, nem vi a minha missiva publicada nas Letters to the Editor. Nada que fosse inesperado.

A verdade é que, desde sempre, procurei prestar atenção à forma como Portugal é representado - ou apresentado - pela imprensa internacional e, na maior parte dos casos, com tristeza.

Vem isto (também) a propósito de um dos últimos números da TIME (a mesma que, se bem me lembro, pôs na capa as Mulheres de Bragança…) dedicado aos Heróis do Ambiente. Procurei, procurei e, mais uma vez (what else is new?), nem um “tuga” para amostra.

Há tempos, na já clássica lista (da mesma publicação) das 100 pessoas mais influentes do mundo, a mesma coisa. Nem um. Na política, o Presidente da Comissão Europeia não era considerado e, no desporto, nem Ronaldo, nem Mourinho, contavam pró Totobola da TIME.

Tenho para mim, como sempre tive, que isto se deve mais a nós do que aos outros. Que a culpa da pouca projecção das nossas gentes passa pela forma pequena como nos vemos e retratamos, pela pouca fé que temos em nós próprios, pela falta de um orgulho nacional que, atenta a história de Portugal, não deveria existir.

Continuo a acreditar que a história não tem que representar apenas a linhagem a que recorrem aristocratas falidos quando se fala da riqueza dos outros.

É mais do que isso, muito mais. Foi da história que nascemos, mas fomos nós que a fizemos (e continuamos a fazer). E devemos levá-la com orgulho.

Acredito que tudo passa por uma afirmação internacional, perfeitamente possível, apesar da nossa inserção num mundo com intervenientes reconhecidamente maiores e mais poderosos.

Uma afirmação que não se faz com pedidos de favores, nem com uma postura de menino pequeno. Faz-se com coragem e com sacrifícios; faz-se com um “chegar-se à frente” quando outros se chegam para atrás; mas faz-se também pelo ensino do que é a nossa cultura e a nossa história; com a promoção daqueles que são os nossos heróis.

E aqui também os media nacionais têm um importantíssimo papel.

No dia em que se assinalam 865 anos sobre a independência de Portugal (celebrada em Zamora a 5 de Outubro de 1143) valia a pena pensar nisto.

Breve nota final: curiosamente, enquanto pensava nisto tudo, peguei numa Tatler (ao acaso) e, num encarte dedicado aos 101 melhores Spas do mundo, lá estavam o do Reid’s (na Madeira) e o do Vila Joya (no Algrave). Nem tudo está perdido (a não ser que a referência tenha sido paga…).








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O Ukelele do Táxi


Como se pode ver pela imagem, o ukelele a que o Taxi queria referir-se aqui era este.

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sábado, 4 de outubro de 2008

Dinis Machado

Gostávamos todos do Dinis. Estabelecemos o pacto – pacto de grupo – em Tróia, no clássico festival de cinema, e depois andámos anos em jantares e aniversários. Bom sinal, tanto nos juntou a alegria de sucessos, como a tristeza dos fracassos.
Gostávamos todos do Dinis. Mas havia dois que o amavam. Primeiro, a Dulce, carinhosa e vigilante. Depois, o Pedro Bandeira Freire, que era, Dinis, teu irmão mais novo e teu irmão mais velho. Nunca vi ninguém tão desinteressadamente atento como ele o foi contigo. A vossa amizade, franca e forte, é uma das lições da minha vida. E iluminou-me mais do que tudo o que, de há uns anos a esta parte, tenho ouvido dizer de ti.
Sei bem que escreveste livros – que, aliás, li com gosto, eu que só tenho metade da mania de ler que tu cultivaste até à exaustão. Mas se queres que te diga, hoje que fui contigo dar a última volta até ao Alto de São João, do que me recordo mais é mesmo de teres sempre continuado a ser um puto de Lisboa (sei que eras do Bairro Alto, mas insisto que também eras de Alcântara, onde ias jogar pelo Atlético). Um puto de bairro, um bocadinho envergonhado com a gentileza que te inundava.
É disso que me vou recordar por mais uns anos, espero. E dos teus casacos de tweed, como o que levavas hoje. Das cigarrilhas, a que hoje te poupaste.
Morreste porque todos temos de morrer, é mesmo assim. Mas escolheste morrer como o Bogart, que morreu de cancro de pulmão por causa de milhões de cigarros e de whiskies a que nunca lhe passou pela cabeça resistir.
Morreste com estilo – “Encostei a cabeça para trás e fechei os olhos.” – como sempre escreveste com estilo.
Acreditavas na sorte. Com sorte, o Pedro está lá a tua espera. O Hammett de um lado e o Chandler do outro, que é a guarda de honra que mereces. Espero que gostes de um bom dry martini. Foi o que lhes sugeri para começo de conversa. With an olive, está claro.

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O Nosso Mundo


Caro Manuel, Respondo-lhe agora ao difícil desafio que me pôs aqui, mais por amizade estou em crer, e devido ao meu inqualificável absentismo no Geração de 60, do que propriamente por esperar que eu consiga deslindar esta encruzilhada contemporânea em que nos encontramos.

Recordo o texto que então propôs:

"Our society seems to be locked into a position in which the user’s and voter’s choices determine how we shall live in the future. A disturbing collective urban life in a giant Big Brother House looms, a material and social world in which sensationalistic media and its commercial translation dominate.
Our sense of what is real and what is quality is on the verge of collapse. The practice and education of the engineers of this society is determined by short-term effect instead of long-term social responsibility. Culture becomes little more than a market, politics its façade and the city its stage.
Instead of reviving old school high modernist social engineering or claiming the need for an intellectual junta, we solicit new forms of social engineering. Where shall this lead?
"


Tudo isto é uma situação em que o domínio da quantidade tomou o passo do domínio da qualidade. É o resultado do industrialismo que era uma promessa, do historicismo marxista que se tornou na única versão da história, do racionalismo auto-suficiente que iluminou o pensamento filosófico, etc. Agora é difícil inverter as mentalidades, repor a ordem e a justiça e dar realidade ao mundo.

Não queremos política de fachada? Mas como é que se conquistam os votos anónimos que legitimam o poder e o plebiscitam nas urnas? Não queremos literatura ordinária? Mas como é que se criam best-sellers com obras de qualidade literária a que poucos continuam a ter acesso e interesse? Não queremos televisões rascas? Mas como é que se entretêm as massas sem o sentimentalismo vazio ou alienação que lhes preenche o vazio de que nem sequer têm consciência?

A pergunta que temos de fazer é: quem andamos nós, todos, a saciar? E se soubermos a resposta perguntemo-nos de novo: como conseguiremos nós derrubá-los e expulsá-los do seu quartel? Aquilo de que todos nos apercebemos é que as promessas da modernidade falharam e o mundo moderno que destruiu o mundo tradicional não tem um objectivo que una as pessoas. Percebemos, agora, que o que eram erros no mundo antes da modernidade não careciam da modernidade para serem corrigidos, teriam que corresponder a uma renovação de dentro e não a uma tábua rasa que anunciasse que tudo era novo a partir de então. Esta presunção iluminada, diria até, arrogância provinciana de que se participa de uma nova era construída sobre os escombros de outros tempos, é a fonte de todos os insucessos em que vamos esbarrando até ao non sense final.

O domínio da quantidade é isto, todos iguais, todos básicos, todos cordeiros. Não sei se haverá algo de bom. E não sei se há algo que se possa fazer. A energia vital vai-se esvaindo lentamente. Um mundo governado por emoções de massas, por comícios e por futebol, por prémios Nobel e por prime times, por chantagens plutocráticas e por chantagens estatais, um mundo governado por realidades virtuais, por políticos a prazo que serão consultores ou CEOs na reforma, por promiscuidades entre os poderes executivo, legislativo e judicial, por ineficiências na educação e na justiça, um mundo reduzido a viver em socialismo ou em capitalismo onde, sobretudo, é negado o direito a uma individualidade feita de singularidade e diferença.

São agora os indivíduos que, ainda sem rejeitarem o mundo moderno vêm procurar a conciliação entre a sua evidente necessidade de individualismo e um discurso do tempo que em tudo lhe a nega.

Na arquitectura e no urbanismo este problema põe-se com maior evidência. Perguntam-se uns, como é possível uma licenciatura intervir num património comum como é a cidade, a história, o modo de vida das pessoas, etc.? Mas não o dizem por causa de uma fachada que ficou menos harmoniosa, dizem-no porque observam a ausência de um valor comum que dê unidade e sentido à arquitectura e ao urbanismo e que esse valor comum traduza uma identidade com o património de uma comunidade. Porém, a arquitectura e o urbanismo apenas constroem as formas e os significados que existem já, mais discreta ou mais patentemente, na vida comum dos povos. O que não vemos claramente na cultura e que até podemos dispensar do nosso convívio mais imediato, torna-se opressivo na arquitectura e no urbanismo. Todas as tendências, movimentos e escolas, que existem na cultura em geral, seja na música seja na pintura ou no teatro e na literatura podem ser ignoradas, combatidas ou assumidas e defendidas, mas na arquitectura elas são construídas e todos de alguma forma são chamados, na sua vida quotidiana, a participar nela, quando se vai ao teatro, quando se vai a uma repartição pública, quando se vai a uma escola ou quando, simplesmente, se passeia por uma rua. Aquilo que era, num determinado plano, uma tendência cultural, um movimento ou uma escola, torna-se na expressão e no retrato do nosso mundo. E quando não gostamos desse retrato estamos implicitamente a concluir que a cultura sem uma matriz concreta na existência das comunidades é uma agressão a cada um dos indivíduos dessa comunidade e não é motor de aperfeiçoamento, por não corresponder a uma forma de convívio entre diferentes onde tem de haver sempre a expressão do que liga e não um incessante combate pelo que separa.

Há falta dos valores que ligam, há falta de reconhecimento de uma substância comum, resta-nos o respeito pela história e resta-nos interpretar os princípios que intemporalmente estão na base da nossa cultura. Só assim talvez consigamos encontrar um património comum e recomecemos a pensar no valor e no sentido das expectativas que individualmente temos naquilo que nos é comum aos outros. Só assim, não transformaremos o mundo num laboratório de ensaios onde não se procura um saber autêntico mas apenas exibir-se uma personalidades. Tem a arquitectura esta missão por ser através dela evidente o que em discussões estéreis de intelectuais raciocinantes não chega, tantas vezes, a ser perceptível, mas todos esses são tão responsáveis pelo retrato que na arquitectura e no urbanismo se vê como os arquitectos e os urbanistas.

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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Saramagô

Tentei ler o Memorial do Convento, no século passado, que me diziam que era o melhor, mas não consegui. Já estive com outros livros dele na mão a pensar, a pensar, mas não consegui. Já alguém me aconselhou a ler em inglês, que estão mais bem escritos, mas ainda não o fiz. Sou um confesso não-leitor.

Hoje estava a ler o jornal ao almoço quando orgulhosamente reparei numa crítica ao filme que foi feito com base no Ensaio Sobre a Cegueira. A ler, a ler, sim, pois, ideia boa, interessante, uma ideia que "testa a natureza humana", etc., etc., até chegar a esta frase: "S's lofty, ideologically defended humanism has no place for actual human beings (...)". Uma boa pista para perceber porque não consigo entrar naquilo. Mas parece que, apesar de tudo, segundo o crítico, vale a pena ver o filme de Fernando Meirelles, com Julianne Moore, Mark Rufallo e Alice Braga.

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Diz que é uma espécie de submundo

António Costa trouxe ontem à colação a blogosfera. Foi na Quadratura do Círculo. Que a blogosfera era um " Submundo", animado por pessoas que se refugiam no anonimato para darem azo à azia que as consome, gente sem nome nem rosto, que dislata, lança boatos, destilando mal e inveja, mafiosos, malandros, cobardes.

Verdade seja dita, Lobo Xavier, torceu o nariz à expressão "Submundo", disse que a blogosfera até tinha interesse sociológico, que lá ía ver o que as pessoas pensavam e tal, aferir certos factos e conferir argumentos.

Pacheco Pereira disse que 99% era lixo, que havia 1% que prestava. Que ninguém lia livros, nem via filmes, que eram uns invejosos, medíocres, intelectuais de meia-tijela. Disse que as caixas de comentários eram lixo.

Remata António Costa com a proporção, que se afinal são 99% contra 1%, talvez de devam tomar medidas. Eu acho que se devem tomar medidas.

Eu sugiro algumas:

Primeira: se O Geração de 60 achar bem, convidamo-los para o nosso próximo jantar, na condição de observadores, ou seja, não dão palpites nem bitaites.

Segunda: Podem pagar o jantar, para aliviarem a culpa ( relativamente à parte das caixas de comentários).

Terceira: No programa subsequente, falam muito bem deste blog, dando o dito por não dito.

Que tal?

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quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Da Visão: A minha linda casinha




No meio da vergonha de bíblicas dimensões em que se transformou a gestão e atribuição das mais de 3.200 casas que a CML foi recebendo como contrapartidas de negócios variados, retenho dois aspectos que me parecem dignos de nota.
O primeiro tem a ver com a candura com que todo o processo é encarado pelos diversos protagonistas desta história sinistra. Com uma ingenuidade argumentativa à prova de réplica, Pedro Feist, vereador da Câmara, fala em «realidade histórica» e confessa não entender a polémica porque os agora implicados «não fizeram nada mais do que sempre foi feito» (pois se ele próprio confessa que até já meteu umas «cunhas» …). João Soares, ex-Presidente, olha para o processo com desdém e vaticina que isto não vai dar em nada. Batista Bastos explica que «sempre foi prática a atribuição de casas a jornalistas e artistas» e entende que o valor da renda que paga é matéria «privada» (o interesse público, já se vê, só se invoca quando dá jeito). Mas é José Bastos, director do departamento de apoio da Câmara, que arrecada o prémio da «candura desarmante»: mantém um filho a viver na casa que Abecassis lhe atribuiu há dezoito anos (quando teve de lidar com um divórcio) porque «é a sua casa de reserva». E como se o argumento não bastasse ainda se dá ao trabalho de rematar, com a naturalidade dos inimputáveis: «se amanhã tiver de me separar outra vez, para onde vou?».
Mais do que exemplos mais ou menos «cómicos», mais ou menos grotescos, retenho o retrato de uma cultura de irresponsabilidade, de uma total ausência de valores e de uma vacuidade ética que constituem sinais de uma degeneração social que devia deixar-nos em pânico. É que quando uma sociedade perde a capacidade de indignação perante as iniquidades mais gritantes, os atropelos à Lei e à ética mais grosseiros, o nepotismo mais desabrido, terá perdido uma boa parte da sua capacidade de regeneração.
O segundo ponto que me parece ser de relevar prende-se com o lugar de Pedro Santana Lopes nesta história. No próprio dizer de Feist «não fez nada mais do que sempre foi feito». O que, acrescento eu, nada justifica e nada atenua. Mas dito isto, tenho dificuldade em entender porque é ele, sempre ele, o único «bombo da festa». A fazer fé nos factos revelados pela imprensa, o «bodo aos funcionários» vem muito de trás e chamusca todos os Presidentes. O regabofe é antigo e a mão pesada da justiça e da opinião pública não deveriam poupar ninguém. Mas Santana, ao contrário de alguns outros que dominam a arte de passear entre os pingos da chuva, é o grande protagonista de mais esta história. É ele que abre telejornais, é ele que ocupa lugar de destaque nas manchetes, é ele que põe o caso na agenda política. É dele que se ocupam os jornalistas, os investigadores, os adversários políticos. Para o caso não me interessa saber se por culpa própria, se por puro acaso. Não gosto, nunca gostei, do político. Mas mais ainda me desgostam os abutres (da política, dos jornais, da máquina judicial) que se mostram sempre muito lestos a apontar aos alvos fáceis mas não são menos exímios a fazer vista grossa às vacas sagradas da nossa paróquia.

ps: a imagem foi «rapinada» ao blog Gente de Lisboa

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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

III. La fondation de Rome, Alexandre Grandazzi, Les Belles Lettres

O que é comum na prática historiográfica é o universal aparecer nas entrelinhas das grandes sumas. Assim com Kantorowicz, Ranke, Curtius, entre outros. Pega-se num tema limitado e projecta-se nele toda uma nova forma de ver e de fazer a História. Compreende-se. A História, ao contrário por exemplo da psicologia, não viveu períodos de empirismo absoluto como com Fechner, e já William James, que era insuspeito, lembrava quão decepcionantes eram os resultados de tão grande esforço de investigação em psicologia experimental. Ou então deixou exportar parte da sua linfa gerando outras ciências, como a sociologia, que pretendia, com Comte e Durkheim (dos mais honestos dos sociólogos), ser uma espécie de História congelada.

No fundo o que chamamos de ciências é conjunto bem mais heteróclito do que parece à primeira vista quanto à sua genealogia. O físico é platónico por definição. Pode observar o comportamento de duas maçãs quando caem, mas em boa verdade as maçãs são apenas elemento a descartar. A ideia que lhes subjaz é o que é procurado. O astrónomo, o biólogo, já são mais morfológicos, e nisso são herdeiros mais de Aristóteles. Outras ciências são mais oscilantes. O psicólogo, quando pretende usar o paradigma mecanicista (como Freud e Fechner) é mais herdeiro de Platão, quando é mais morfólogo como Jung, ou nas psicologias diferenciais, mais herdeiro de Aristóteles quanto ao método.

A História tem uma vida mais atribulada. Mais antiga como prática auto-consciente que muitas das outras ciências, era vista como uma forma de literatura ou mesmo de poesia. Quando se pretende ciência, anda meio perdida. Concreto, típico ou universal? Muito aristotelicamente cola-se primeiro ao concreto e nunca o deixou. Invejosa dos êxitos da física tenta ser platónica a meia haste com o típico. E só ousa ser universal de forma despudorada pela pena do jornalista, do curioso, ou do (raro) génio.

A questão é que este estado de coisas gera vários problemas. A partir do momento em que o génio não aparece e o historiador comum abdica do universal (como por pudibundice tem acontecido desde os anos 60, em que já não se fazem Toynbee, Dawson, Collingwood e Ortega) este instala-se alhures. Onde? No discurso político, entre os jornalistas, os antropólogos. Ou seja, entre ignorantes de história, pelo menos estatisticamente falando. A demissão dos historiadores não é apenas teórica. Tem efeitos práticos e políticos. A universalidade na História está hoje em dia transformada numa espécie de prostituta de rua abandonada, que se entrega ao primeiro que lhe aparece.

No fundo, a discussão não deveria ter muito sentido. Os vários níveis têm o seu significado próprio e a História não deveria ter medo de nenhum deles. As invariâncias, o típico e o concreto, cada um deles é um aspecto relevante na história. Tão difícil é atingir o concreto absoluto, porque afinal os substantivos que usamos são comuns, como o universal, porque os mesmos substantivos têm vida própria, não tendo sido recebidos de alguma transcendência. Mas este é um problema trivial do método. Se bem virmos, o mesmo é válido para as restantes ciências. Certos objectos concretos têm forçosamente de merecer a atenção do físico ou do astrofísico. Certos tipos de objectos não podem ser descurados. É neles que se encontram frequentemente novas generalizações, e novas variantes. Para a psicologia uma só pessoa em que se demonstrasse inequivocamente a capacidade de telecinese seria fundamental para a mesma generalização. Mas seria fundamental em si mesma.

Em boa verdade, afirmar na História a luta entre estes três níveis resulta de um estreitamento da possibilidade do conhecimento. O que começa muitas vezes por probidade pode acabar por se tornar em tacanhez.








Alexandre Brandão da Veiga

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Domingo no Barreiro

No último domingo, depois do almoço, decidimos ir ver um jogo de Basquete sénior entre o Benfica e o CAB ( equipa medeirense), e tendo amigos dos dois lado da contenda, era uma boa ocasião para os ver.
O jogo disputava-se no Barreiro. Eu nunca tinha ido ao Barreiro. Atravessámos a ponte e nem de propósito, o céu tornava-se cada vez mais chumboso, a ameaçar saraivada.
Entrámos no Barreiro, percorremos ruas e ruelas, entrámos em bairros e becos. Durante uma hora varámos o Barreiro. Para trás, para a frente, a água ali ao pé.
Simplesmente não se dava com o pavilhão, de que também não sabíamos o nome.
Coisa que parecia impossível, nem uma placa, nada, as poucas pessoas que passavam na rua também não sabiam.
Víamos o Cristo Rei e Lisboa do outro lado. A redundância continuava porque na outra margem havia sol.
O Barreiro foi a terra portuguesa mais feia, pobre, abandonada, suja e desgraçada que vi até hoje.
O pavilhão, que descobrimos ser municipal, ficava num bairro miserável. Vimos o jogo.
O Benfica ganhou justamente, trazendo a taça.
Durante todo o tempo em que lá estive, ocorria-me que àquela gente ninguém dá um jeito, àquela gente ninguém arrenda casas por 35 euros. Com sorte, pagarão 350 euros, sabe lá Deus como.
Deve ser da vista, vê-se a Basílica de Estrela e o Cristo Rei, de costas, é certo, mas caramba, sempre tem a sua magnitude.

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