terça-feira, 30 de setembro de 2008

II. La fondation de Rome, Alexandre Grandazzi, Les Belles Lettres

Merece-me, no entanto, algumas críticas. Como vai sendo moda actualmente, fustiga-se Dumèzil e o trifuncionalismo indo-europeu. O pano de fundo é a fustigação de qualquer teoria geral. O amor pós-moderno ao fragmentário impera nesta obra.

O problema é que a imposição do fragmentário como modo de leitura da realidade padece sempre de um vício lógico. Não havendo conceito unitário, ou melhor unificador, não havendo invariâncias, como é possível aglutinar um fragmento? Porque mesmo um fragmento tem uma consistência própria. E havendo vários fragmentos só se poderia então analisar um de cada vez. Que critério de escolha deste fragmento? Se se analisa mais que um, que os liga entre eles?

A imposição do fragmentário é assim uma metodologia que omite premissas. Melhor, que as reprime. É que mesmo a descrição de um fragmento pressupõe uma procura de unidade, mesmo que menor. E essa procura de unidade pressupõe um critério unificador. A fragmentação tão amada pelos pós – modernos (nome agastante que se reduz a dizer que se é posterior a qualquer coisa que se define como modernismo por mera caricatura) é mais que uma porta para o arbitrário, é a sua tirania. A tirania é o seu critério unificador.

O segundo problema passa pela valoração do contributo indo-europeu. Uma questão é a de saber se a teoria unificadora tem falhas, e a do trifuncionalismo tem-nas como todas as teorias, uma questão igualmente é a de saber se o critério unificador dos povos indo-europeus sob o ponto de vista ideológico terá de ser outro. Provavelmente. Uma outra coisa, igualmente verdadeira, é que qualquer teoria unificadora não prescinde da apreciação de situações concretas. Querer explicar os druidas apenas pelo fundo indo-europeu, dado que não existem druidas em todos os povos indo-europeus, seria sempre falho. Mas esperar que povos que falam línguas com tão fortes parentescos entre si não tenham elementos ideológicos, religiosos e de mundivisão comuns parece-me irrealista.

É evidente que existem fenómenos de importação. Um tunisino pode falar francês, e isso não significa que esteja mais próximo dele um francês que o mesmo francês está da Alemanha. Mas as línguas pressupõem e conformam ao mesmo tempo vivências. Seria muito peculiar que não houvesse um fundo comum de modos de vivenciar entre os povos indo-europeus.

O terceiro problema, já aludido, tem a ver com o facto de as invariantes não poderem excluir a análise das concreções. Roma e Atenas fazem parte do espaço indo-europeu, em acréscimo com trocas muito intensas entre si. Mas Roma não é Atenas. Ninguém diz o contrário. E isso não pode ser descurado, obviamente. Visto da monografia percebe-se que o geral se torne irritante. Quando a verdade é que o geral está mais delimitado pela linguagem em que se enuncia que pela injustiça do que se diz.

Mas, e anuncia-se aqui o quarto problema de fundo e este geral na metodologia histórica, onde está o método e o objecto relevante? A História tem-se debatido com três posições de relevância: o universal, o típico e o concreto. A prática histórica oscila mais entre o típico (teorias estruturais, mentalidades etc.) e o concreto (seja o que for este concreto, se país, de cidade, se acontecimentos, se personagem). O universal tem sido objecto de estudo ou de amadores ou dos raros génios que a História como ciência teve.

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Paul Newman


O meu comentário a este belo texto do Pedro.

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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Newman: Somebody Up There Likes Him

Paul Newman morreu. Com ele, morreu a dignidade na derrota. Ninguém como Newman (nem Gary Cooper, nem John Garfield, nem Pacino, nem Montgomery Clift) mostrou o interior da dignidade no momento do ocaso, do falhanço, do fecho irremediável. Todo o cinema de Newman é construído nessa específica complexidade: e quando se perde tudo, como se mantém o mais importante?

Em "Nobody's Fool", o sexagenário Sully Sullivan (ninguém parecia menos sexagenário do que Newman apesar de o ser) sabe que perdeu as hipóteses de romance com Melanie Griffith, 25 anos mais nova, mas o seu discurso de derrota - no banco da frente de um carro nas traseiras de um bar de uma cidadezinha carregada de neve - sabe a vitória.
Em "The Color of Money", conseguimos sentir a dor física de "Fast" Eddie Felson depois de ser indecentemente aldrabado por Forest Whitaker, que se aproveita de um Felson imerso em auto-deslumbramento. Newman está de óculos escuros, mas sentimos os seus - terríveis, tremendos, doces - olhos azuis a ficarem castanhos com a vergonha e a melancolia.
Em "The Verdict", o "looser" Frank Galvin, advogado de meia-tigela, habituado a defender filhos miseráveis que ficam com a segurança social dos pais, tem uma última chance de recuperar a rectidão, e consegue agarrá-la, mas é preciso ver Newman a perceber que a cooperante - e amante - Charlotte Rampling o enganou em toda a linha para tocar na desilusão de um homem exausto .
Em "Butch Cassidy and the Sundance Kid", Butch, bandido simpático como poucos, mantém a cabeça próxima do céu segundos antes de entregar a vida às balas, roubando a cena (e o filme, e o cinema que ali estava a acabar) ao cintilante Robert Redford e ao realizador George Roy Hill.
Em "Cat on a Hot Tin Roof", a censura não permitiu a implosão da homossexualidade de Brick - o sólido, inquebrantável jogador de futebol americano que não correspondia aos sorrisos das "cheerleaders" na peça de Tennessee Williams - mas Newman deu-lhe a agonia de um animal ferido, a desaparecer devagarinho ao lado da pantera omnívora, Elizabeth Taylor.
Claro que há a célebre alma amaldiçoada de Eddie Felson enquanto jovem em "The Hustler", mas o retrato exacto da precária dignidade na derrota já estava no filme de estreia como protagonista, "Somebody Up There likes Me", com o seu Rocky (emulado do Marciano) a despedir-se de tudo no ringue, menos do sonho da honra.
Newman vai ficar bem. Por ser um dos mais firmes mensageiros da nossa extrema fragilidade, somebody up there likes him.



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" A PIZZA IS BORN "

It’s almost August in Lisbon, I decided to stick around and enjoy the peacefulness of this diverse and alternative city without all the usual traffic.While most of you were out and about working on your tan line this past summer, I was in my kitchen at La Brus”K”etta working on a different tan-one which involved “tanning the perfect pizza dough”...



Ever remodel your kitchen at home and have to put up with some bothersome issues which call for an aspirin and a good night sleep? Something about dealing with renovations….need I say more?  After it all came together it was time to play with my imported oven from Italy and patiently await the arrival of my teacher -Paolo.

Pizza dough can become extremely temperamental-almost that of a 4yr old child not getting his/her way! If it’s not handled correctly or left unattended chances are it becomes over worked and extremely difficult to put up with.Even a chef with my experience needs a little coaching once in a while-especially the kind of couching to help bring back some memories of my “teenage pizza days”. May sound easy but making the perfect pizza dough can be as difficult as making the perfect eggs over easy,“bacalhau com natas” or a smooth “leite creme”…practice definitely makes perfect!

A pizza man isn’t just about mixing water and flour. It involves understanding the dough’s silky exterior touch and delicate cushion consistency! Lucky for me, “Paolo o Pizzaiolo” a native “Napoletano” from my home town Ottaviano-Napoli was here to remind me of those forgotten “pizza tricks” and also added some new ones in order for us to reach perfection.

After our “espresso stretto”, we would head down to La Brus”K”etta. Our primary goal…to create the most scrumptious pizza’s ever to hit Lisbon.With his knowledge and my background using Portugal’s tasty ingredients- La Brus“K”etta was about to give birth to the new Portuguese Pizza’s! The menu would later develop-making sure we kept tradition alive by adding the “motherships” of pizza  such as a “margherita” and a “marinara” to the list. It doesn’t get more “simple tasty” than that ! Just the right amount of mozzarella cheese-or not.A true test with these two pizza's-you need to taste the freshness of  that ripe and juicy "seeded red fruit"-the fresh tomato!

We were able to reach our perfect batch of dough after the second attempt. The only ingredients we did not import, fresh yeast and water. We lucked out! “Lisbon’s water is not much different from that of Napoli. Come to think of it-the people, the way to prepare food and the family bonds here are not that much different from us ”, said Paolo.

It was time to put the pizzas to the test. Following the waiters to the dining room and keeping our distance, we were able to see the first reaction after the initial bite. We were content with all the happy faces shortly followed by plenty of “mmmm’s”!

Now for the fun part-Paolo could not understand why people were cutting the pizza with a knife and fork. I explained that Portuguese have some of the best table manors and “know how to eat” - no matter what background they come from. A napkin to pick up finger food, a knife and fork when seated at the table-always!

The reason for Paolo’s shock; pizza gets “butchered” when cutting it with a knife and fork. In order to get the full flavor-one needs to pick up the slice and eat as if you would a sandwich-which brings us to the reason why a pizza pie is sliced in the first place. Don’t worry about the paparazzi or neighboring friends-savor the true flavors of this flour and water creation without utensils and allow it to show its "casual romantic side"…grab that slice!

Chef Guerrieri

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I. La fondation de Rome, Alexandre Grandazzi, Les Belles Lettres


Quem fizer uma primeira leitura poderá pensar que é mais obra de metodologia histórica que de estudo de um caso concreto. Mas não seria justo afirmar isto desta maneira. Apenas prova que qualquer análise das origens implica sempre repensar o método. Porque o método pressupõe uma origem. Seja a origem a palavra crística, seja o surgimento de Hélade, ou a fusão bárbara no império romano. Roma não é o Cartaxo. A fundação de Roma tem um outro peso, histórico, mítico, ideológico, civilizacional.

Nesse aspecto é dos livros mais profundos que vi sobre um tema aparentemente tão restricto e tão nebuloso como a fundação de Roma. A uns parecerá que este já está dito e redito à exaustão. A outros parecerá que não se deve falar da questão, que deve ser relegada para o plano da lenda.

O que é fascinante neste livro – para além da seriedade e da erudição do autor, o que nunca é de desprezar – é a sua capacidade de nos mostrar como a complexidade dos métodos e a sua diversidade pode contribuir para uma compreensão mais profunda de uma questão que oscila entre ser rebarbativa ou esquecida, entre ser fundamental, ou mera curiosidade. Filologia, arqueologia, geologia, História, todas contribuem para delimitar o que seja a dita fundação de Roma.

Roma e Pavia não se fizeram num dia. Continua a ser verdade científica. Mas que tenha havido uma função de Roma, uma efectiva fundação, não no sentido de criação ex nihilo, mas de sagração das suas fronteiras, e consequentemente exposição da sua identidade, que tenha havido tal realidade, chame-se Rómulo ou não o seu fundador, e que a arqueologia nos corrobore, pelo menos neste sentido, esta fundação, apenas nos pode deixar em admiração. Depois das polémicas entre o hipercriticismo e o fideísmo históricos (para usar as felizes expressões do autor), percebe-se que a lenda como material tem de ser usada com mais cautela, e que por múltiplas vias (como a arqueologia nomeadamente) a lenda pode ser corroborada.

No fundo, existe um paradigma algo de negociante no hipercriticismo. Não é por sorte que surge em ambiente burguês. A sua lógica é a do merceeiro que desconfia sempre que o estão a enganar nas contas. A sua minudência, muitas vezes meritória, mais não é que um sinal de desconfiança generalizada na honestidade alheia. E um imenso gasto de energia em desperdício. Esperto é quem desconfia. Contesta-se tudo ou quase tudo, porque quanto maior o campo do indicado como suspeito menos crentes parecemos, e logo menos crédulos. O problema é que a descrença, aqui como noutras áreas da vida, só por si, ou como crítica de vida, leva sempre a empobrecimento. Acaba por ser acrítica, porque mais não é que recusa sem critério. Não é de espantar, acaba por redundar em birra.

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domingo, 28 de setembro de 2008

A life, vidinha

"Lifestyle" é, segundo artigo de reputada escritora no jornal " Sol" de ontem, a escolha consciente de mulheres diletantes, que não se divorciam para manterem "(...) carrinhas e jeeps, crianças educadas em colégios particulares com actividades extracurriculares que incluem natação, rugby ou equitação, todo um lifestyle programado ao milímetro que nos fizesse sentir adultos, responsáveis e arrumados na vida.".

Remata a autora que em nome desta abundância, estas mulheres não se querem divorciar, vivendo assim uma vida (infeliz?) em nome do "lifestyle".
É verdade, existem mulheres que vivem assim. Da Lapa até Cascais.Da Avenida da Boavista até à Foz, passando por uma das ruas mais belas de Portugal, a Rua de Gondarém, no Porto.

Com esta concepção, imagino a autora uma férrea apoiante da nova Lei do divórcio. E vejo agora onde o Primeiro-Ministro foi buscar os argumentos para a lei.
Estar casado, ou não, divorciar-se ou não, é só e apenas uma questão de "lyfestyle".
Com o devido respeito pela autora e pelo Primeiro-Ministro, estas mulheres não são representativas das mulheres em Portugal e generalizar esta concepção é uma ofensa para as mulheres portuguesas.

Tenho familiares, amigas, colegas de trabalho, conhecidas, em Lisboa, no centro, no norte do país, nas ilhas. Conheço advogadas, juízas, professoras, secretárias, administrativas, costureiras, empregadas de limpeza, empresárias, comerciais, e todas, em diverso grau, defrontam graves problemas económicos com o divórcio. Se os salários são baixos em Portugal, os salários das mulheres são ainda mais baixos. Uma mulher com o seu salário a sustentar-se a si e aos filhos, passa mal, muito mal, dependendo sempre da boa vontade de familiares mais próximos.

Não falo de não terem dinheiro para ir ao cabeleireiro. Falo de não ter dinheiro para a comida, para transportes, para pagar as contas da electricidade e água.

Já ouvi muitas mulheres dizerem-me que têm apenas um filho porque em caso de divórcio ainda o conseguem sustentar, mas não têm o segundo porque não estão certas de lhe conseguirem dar de comer...
Isto num país com uma taxa de natalidade baixa como a nossa.

A vida destas mulheres divorciadas que eu conheço não tem "style", é só life, ou vidinha, em bom português.

Dir-me-ão que se já não há afecto...É possível, mas muitas mulheres que conheço, percebem que da constância do casamento depende o mínimo para os filhos: comida, educação. Por isso pugnam tanto por ele. E por isso dependem tanto das questões patrimoniais da Lei do divórcio.

O "afecto" lembra-me sempre um cachorro lindo branco de focinho húmido preto que se compra da loucura do Natal e se abandona para morrer atropelado na auto-estrada a caminho das férias algarvias, quando ele cresce, come muito e tem doenças.

Bem vistas as coisas, também é coisa que sucede às mulheres. Damos à luz bebés,crescemos, comemos muito, e temos doenças. Compreendo, não há afecto que resista.

Ou mudo de amigas, ou torno-me escritora famosa, ou mudo de país.

E no entanto só me assalta a frase da minha avó Fernanda, a propósito de um divórcio famoso na família:

" - Quem lhe comeu a carne, que lhe roa os ossos...".

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" Ensaio sobre imanência e metafísica na masculinidade enquanto obra de arte".


O título é roubado de uma frase que o Manuel Fonseca escreveu no post do Dean Martin.

Lembrei-me desta obra de arte. Neste filme não sei qual dos dois é a imanência, nem qual é a metafísica.

Mas fiquei a saber o que era a masculinidade.

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Tintin contre Professeur Choron

No inicio dos anos 80, o meu Tio Antonio ofereceu-me a sua preciosa colecçao de cerca de 40 numeros do Hebdo Hara Kiri. Esse foi um momento de incandescente iluminaçao em que os discretos Tintin, Corantin, Coronel Clifton, Corto Maltese, o muito Portugues Espiao Acacio e muitos outros habitantes das paginas do ja’ nessa altura extinto “Tintin”, foram esmagados de forma visceral por um universo de humor “Bete et Mechant” onde a ironia se misturava com o grotesco, o absurdo e o neo-pornografico. As capas de um provocatorio absolutamente gratuito, o total desrespeito pelo bom gosto dos textos e a agressividade da banda desenhada do Hara Kiri abriram-me assim as portas a uma fascinante e "nova" ordem (a)cultural.


O Hebdo Hara Kiri fundado em Paris por George Bernier (aka Prof. Choron - 1929-2005) em 1960, tinha como slogan «Si vous avez deux francs à foutre en l'air, achetez Hara-Kiri, sinon, volez-le !». Com Choron ao comando, a revista encarna ao longo de mais de duas decadas o espirito ultra corrosivo de uma corrente anarquica e radical, que parte de uma contestaçao aberta a De Gaulle, passa pelo Maio de 68 e os libertinos anos 70, apoia a candidatura anarquista-burlesca de Coluche à presidencia em 81 para “ leur foutre au cul”, para vir depois gradualmente a perder a sua força e originalidade iniciais, vindo-se a extinguir completamente em 1989.

Nos anos, Hara Kiri deu tambem vida a uma corrente de desenhadores e argumentistas (Reiser, Gébé, Willem, Wolinski, Cabu, Vuillemin, Lefred Thouron, Nicoulaud, Fournier, Cavanna e o proprio Prof. Choron) que iria revolucionar a tradicional “Bande Dessiné” dos anos 50 e 60 e dar origem a tantas outras publicaçoes de sucesso como L’echo des Savanes, Charlie Hebdo, Circus, e Metal Hurlant. Saidos de algumas desta revistas, podem-se tambem considerar herdeiros directos do Hara Kiri, autores como Lauzier, Veyron, Bilal, Moebius, Tardi, Schuiten, Boucq, Manara, Comes e Bourgeon, que deram forma durante os anos 80 e 90 a um novo periodo de ouro da BD Franco-Belga. Embora o espirito original de subversao se tenha perdido nestes autores domados pela força das editoras e das "version luxe", a influencia seminal do Hara Kiri continua a sentir-se nesta “Neuvieme art”.

Hoje, em pleno seculo XXI e submerso de anglo-saxonicas “buzzwords” como “bail-outs”, “force multipliers” e “adverse morality”, vendido ao capital americano e vivendo uma vida ao sabor do meu “business acumen” e dos meus queridos “long-term stock-option incentives”, gostava de poder chamar o Prof. Choron para vir abrir uma grande frente de anarquica resistencia contra o cinzento esteril, hipocrita e desinspirado destes ultimos tempos. Um seu colaborador descreveu Choron como « .... un gentleman déguisé en salaud. Il a passé sa vie à rire avec talent d’une société de salauds déguisés en gentlemen : notre société. »

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Ameaça de privatização

Ao arrepio da senda de nacionalizações, linha gonçalvista, que o executivo liberal de Bush lançou nos Estados Unidos, com particular incidência nessas execráveis excrescências do capitalismo que são a Banca e os Seguros, ameaço privatizar este blog (tenho cá dentro as minhas alianças) se pelo menos 12 dos elementos do "colectivo", cujos nomes estão aqui à direita (salvo seja), não desatarem a mandar posts e a fazer sublir a cotação do "Geração de 60" na Bolsa.

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Provocações partidárias

As interferências de factores alienígenas na política são incalculáveis.

Por exemplo:
Com acentuada melhoria no cabelo e com óculos de massa preta, se Marques Mendes medisse um metro e setenta e cinco será que seria ainda, hoje, o sólido líder do PSD?

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Superioridade Ideológica













Julgo não haver dúvidas: a governação do presidente Lula é, em todos os aspectos, da política externa à gestão da economia e das finanças, política social e inovação, superior à do presidente Bush.
Será que os resultados conferem ao sistema ideológico de Lula consequente superioridade sobre o de Bush?

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Era Uma Vez Uma Canção, parte 2

Dean Martin com Mia Farrow e Sharon Tate: thrilling and smooth
Dean Martin foi o primeiro, em 1954, a cantar “Sway”. Já lá vamos.
Antes, recordo que, nesse ano, um tal Norman Gimbel, praticamente um desconhecido, escreveu em inglês, a letra da canção de que comecei por falar aqui. Uma letra notável, cheia de curvas, de suaves “pára, arranca”, escrita com olhos fechados e sonhadores. Não julguem que foi obra do acaso. Norman escreveria depois, e durante três décadas, centenas de sucessos. Ganhou Golden Globes, Emmys e o Oscar. E para não julgarem que estou a falar de uns monos quaisquer que já toda a gente esqueceu, lembro que a letra em inglês de “Girl from Ipanema” é dele, como é dele, já nos anos 70, a de “Killing Me Softly With This Song”.
Mas se a letra tem a técnica mágica de que se fala num dos versos, o essencial foi a voz e a interpretação de Dean Martin. Dino Paul Crocetti – assim se chamava este filho de italianos nascido no Ohio – só aprendeu a falar inglês na escola. Não sei se isso teve alguma influência ou não (parece-me que sim) na forma como Martin canta “Sway”. Há, queiram ou não queiram, um eco latino que impregna cada estrofe.
A “persona” de Dean Martin também influenciou o resultado final. Ele era o epítome do ladie’s man. Um womanizer, como agora, com má cara, se diz. Mas era o género de womanizer com muito boa cara que jantava todos os dias em casa com a família, if you know what I mean. Só um tipo assim seria capaz de insinuar a desmedida ternura e entrega que a canção pede, continuando a manter a pose masculina e cool de controle e segurança.
When we sway, I go weak”? A voz dourada de Dean Martin mostra charme, mas não fraqueza. Sobreviverá, com viril easy manner, a qualquer desenlace. Desculpem-me a provocação geracional, mas este tipo de homens deixou de se fabricar nos anos 50.
Se com “Sway” ainda não chegaram lá, e querem mesmo perceber, façam o favor de ver um dia destes um filme, “Some Came Running” de Vincent Minnelli. Olhem bem para a personagem de Dean Martin, comparem-na com a de Frank Sinatra, e não se espantem se vos apetecer escrever um ensaio sobre imanência e metafísica na masculinidade enquanto obra de arte. Banda sonora já têm: este “Sway”, thrilling e smooth, cantado por um italiano do Ohio.


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sábado, 27 de setembro de 2008

Era uma vez uma canção


Aviso: vai ser uma experiência dolorosa. Vão aturar-me durante 3 posts. Contrapartida: vão ver e ouvir 3 clips exaltantes.
Tudo para, e só para, contar a história de uma canção, de que deve haver 1001 interpretações. Hoje, cantam-na Michael Bublé, a francesa Arielle Dombasle, a mediática Jennifer Lopez, o excelente Peter Cincotti. Cantaram-na Dean Martin, Eydie Gormé, Julie London e Los Panchos.
Comece-se, então e como deve ser, pelo príncipio.
Era uma vez uma canção chamada “Quién Será”, tão cheia de ritmo e de balanço que um dia teria de se chamar “Sway”.
Pablo Béltran Ruiz, estudou um ano de leis e três de química. Acabou músico. Mexicano e maestro, escreveu um belo mambo em 1953, ano em Estaline morreu e milhões de russos felizardos nasceram (e também eu, ao lado do Côa, o rio da minha aldeia).
Quién Será” era um cha-cha-cha (ou mambo?) com ritmo doce e lírico que, um ano depois, o cinema mexicano adoptou, numa interpretação a que Pedro Infante emprestou uma ironia benigna, sublinhada sem acinte pela realização, como se verá no vídeo abaixo.
É uma canção simples, à volta de uma mitologia masculina simples. Não repeti o qualificativo por acaso: a canção, de tão simples, duas vezes simples, é mesmo maravilhosa.
A Pedro Béltran Ruiz – ainda hoje vivo, e ainda hoje à frente da sua banda – é de agradecer, com recuada e humilde vénia, a cortesia dos milhões de passos de dança que o seu “Quién Será” ofereceu a salões de bailes, y por supuesto a casais apaixonados, a cônjuges e adúlteros, num tempo em que o amor era de maior idade, com todas as barreiras e sem a mariquice fácil da lei do divórcio em coro e contrabaixo.
Por mais danzóns, merengues, cumbias e boleros que se tenham dançado, “Quién será la que me quiera a mi / Quién será la que me de su amor / Quién será, quién será” foram, em 1953, as estrofes do México. Todo. Inteiro. Dançaram-nas porteiros e telefonistas, chefes de repartição e enfermeiras, bacharéis e costureiras. Foi tal o balanço, o doce enlevo, a paixão e o calor que, do México, as estrofes passariam a fronteira. Com marimbas e o mesmo ritmo. Mas agora, em inglês.

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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Loneliness

Loneliness, Elena Vasilieva


O que é que Greta Garbo queria dizer quando disse: "I want to be alone"? Ou melhor, quando disse que não disse, ao dizer: "I never said, I want to be alone. I only said I want to be let alone".
Acabamos, seja como for, por descobrir que há um bocadinho de solidão na vida de cada um de nós.

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Why do crack dealers still live with their moms?


“TED Ideas worth spreading“ (Technology, Entertainment, Design) começou em 1984 como uma serie de conferencias juntando pessoas destas tres areas com o desafio de apresentarem ao vivo uma ideia excepcional em cerca 18 minutos e para um publico muitissimo exigente e de natureza digamos bastante “liberal”.

Este site reune a maioria das apresentaçoes feitas ate' hoje e inclui speakers como Isabel Allende, Jeff Bezos, Richard Branson, Richard Dawkins, Norman Foster, Frank Gehry, Peter Gabriel, Jane Goodall, o muito "Liberal" Gore e muitos outros(as).

Esta e’ uma apresentaçao de Steven Levitt, (co-autor de “Freakonomics”), que com um tremendo humor e tal como num dos capitulos do livro, tenta explicar a razao porque a maioria dos traficantes de droga vive ainda em casa da mae.

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Divórcio à portuguesa

Dizem-me que a lei do divórcio foi aprovada. Já não percebo nada.

Então era concubinato, união de facto, economia comum ou casamento aquilo que unia o Magalhães ao JP Sá Couto? Então e agora como é que vão dividir o património? Parece que é coisa para cima de 200 milhões de euros...

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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Desinspirado

Se a palavra existe, é assim que estou e retirei o post um pouco ridículo sobre um importante evento, que fica aqui ligado todavia. Volto mais tarde. Alguns acham que os posts devem ser definitivos. Eu sou mais adepto de rascunhos, revisões, jogar basket com bolas de papel no lixo, etc.

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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Palin, este é para ti.

Palin, tens razão. Alguém duvida?

ADÃO E EVA - José Régio

Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou qua achara
o par que a lama e a carne lhe pedia.

- E cada um de nós sonhou que o achara...

E entre nós dois
Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
...Se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão,
Me ofertaste, e eu mordi,o fruto do pecado.

- O meu nome é Adão...

E em que furor sagrado
Os nossos corpos nus e desejosos
Como serpentes brancas se enroscaram,
Tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos
Que as nossas pobres bocas se atiraram,
Sobre um leito de terra, cinza e pó!

Ó abraços que os braços apertaram,
Dedos que se misturaram!

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
Sede que nada mata, ânsia sem fim!
- Tu de entrar em mim,
Eu de entrar em ti.

Assim toda te deste,
E assim todo me dei:

Sobre teu longo corpo agonizante,
Meu inferno celeste,
cem vezes morri, prostrado...
Cem vezes ressucitei
para uma dor mais vibrante
E um prazer mais torturado.

E enquanto as nossa bocas se esmagavam,
E as doces curvas do teu corpo se ajustavam
Às linhas fortes do meu,
Os nosso olhos muito perto, imensos
No desepero desse abraço mudo,
Confessram-se tudo!
...Enquanto nós pairávamos, suspensos
Entre a terra e o céu.

Assim as almas se entregaram,
Como os corpos se tinham entregado.
Assim duas metades se amoldaram
Ante as barbas, que tremeram,
Do velho pai desprezado!

E assim Eva e Adão se conheceram:


Tu conheceste a força dos meus pulsos,
A miséria do meu ser,
Os recantos da minha humanidade,
A grandeza do meu amor cruel,
Os veios de oiro que o meu barro trouxe...

Eu os teus nervos convulsos,
O teu poder,
A tua fragilidade
Os sinais da tua pele,
O gosto do teu sangue doce...

Depois...

Depois o quê, amor? Depois mais nada,
- Que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada...

Continuamos a ser dois,
E nunca nos pudemos penetrar!

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A Graça dos Movimentos Simples


Pedi coisas simples, encontrei coisas simples.
A fotografia, de Dima Oukhov, intitula-se, com mérito e propriedade "Grace of Simple Movements".
E, no entanto, só espero que ela fique assim, sem se mexer, nunca, nunca mais.

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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Sinto a falta, parte II

À coeur ouvert, Geneviève Van der Wielen


Sinto a falta
De histórias maravilhosas e verdadeiras sobre mulheres e homens, sobre traições, facas e tangos, cigarros ansiosos e lençóis clandestinos (“... no de abrir-se a dentes línguas tão penetrantes quanto línguas podem...”);

Sinto a falta
De um pensamento que não se esgote em depressões taciturnas, em dores de cabeça do tamanho de um comboio, ou na venalidade de chás e bules (“... ó caro doutor Freud, arranjaremos pélvica e insuspeita maneira de sublimar o egoísmo”);

Sinto a falta
De uma academia consciente de que a nossa melhor metafísica é cómica (“... quando me fazes rir, sinto-me enredado numa inocência feliz”).

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