Um " género particolare"
Com a devida vénia, esta veio do sítio Pnet Homem
Para a ocasião, o rei Aga chamou Aquiles para jantar na sua tenda. A noite era auspiciosa, de quarto crescente, limpa e fria. No exterior, as fogueiras ardiam, os homens estavam de guarda. Aquiles atravessou o acampamento, saudando todos com mão firme e rosto distendido. Passou pelos gurdas e entrou na tenda do rei.
Cumprimentaram-se com um abraço. Sentaram-se lado-a-lado. A um sinal do rei, a ceia começou a ser servida. Falaram sobre os tempos em que ainda jovens corriam soltos, varando distâncias e profundezas. Lembraram batalhas, guerras e alguns companheiros que tinham atravessado o rio sem retorno.
Três músicos tocavam a um canto da tenda, enquanto os criados entravam e saíam, servindo comida e bebida.
Na tenda das mulheres, Briseida era preparada. As mulheres cuidavam dela em silêncio. Depois do banho, esfregaram-na com óleo emoliente, colocaram-lhe a túnica verde bordada a ouro. Sentada, foi penteada, os pés e as mãos, cuidadosamente pintados, assim como os olhos e a boca. Quando acabaram, afastaram-se para ver o trabalho. Briseida estava pronta. Em silêncio, cobriram-na com o véu negro.
Briseida não sabia ao que ía, apenas lhe tinham dado a ordem.
Foi levada à tenda do rei. Entrou, ficando de pé defronte dos dois homens.
" - A partir de hoje, pertences a Aquiles." - Disse o rei Aga a Briseida.
Aquiles olhou primeiro para Aga e depois para Briseida em assentimento.
E porque Aquiles se levantasse, o rei deitou-lhe o braço, dizendo:
"- Espera, sempre gostaria de ver aquilo de que abdico."
" - Aga, se nem eu sei aquilo que quis, porque hás-de tu conhecer o que já te não pertence?"
Briseida, enrolou o véu, tirando-o completamente. Os dois homens olhavam para ela e ela para eles. Aquiles calou-se. Por instantes, os olhos agudos, a boca fechada, o corpo hirto. Depois sorriu: " - Meu amigo, a tua magnificência não conhece limites. Deste-me a Ásia inteira."
Virou as costas, começando a andar. Disse: " - Vem!"
Briseida, seguiu-o, entrando na tenda de Aquiles dois metros depois dele.
Aquiles sentou-se, fazendo-lhe sinal que se sentasse à sua frente.
Ainda Briseida mal se havia sentado quando Aquiles diz:
" - És bela tu, podia dizer-te que te deitasses comigo uma hora, mas não é nada disso que tu queres, pois não?"
( a continuar)


É provável que você se sinta levemente enganado com o conteúdo deste post. Mas a verdade é que este outro post do Manuel Fonseca continua, vários meses após a sua publicação, a ser um chamariz internacional para este blog. E, por muito que me custe admiti-lo, eu não queria deixá-lo muito mais tempo a brilhar sozinho (a inveja, mesmo entre bloggers, é de facto uma coisa muito feia). Seja como for, agora que anda por aqui, está convidado a voltar. Não prometemos «mulheres nuas» nem «gajas boas» mas sempre se vão arranjando traições inconfessáveis e confissões verdadeiramente chocantes, sexo com animais, conversa de bola, alguma pornografia e, com algum jeito, até uma fotografia ou outra mais marota. Tudo, já se vê, boas razões para o seu regresso.
ps: agora que termino este post dou-me conta de quem é o maior contribuinte líquido para a «baixeza» deste blog.
José Sócrates, Primeiro-Ministro de Portugal, afirmou publicamente estar muito satisfeito com a decisão judicial que condenou o Estado português a pagar uma indemnização a Paulo Pedroso: «Não é difícil imaginar o meu estado de espírito – afirmou o Primeiro-Ministro – porque eu vivi intensamente essa época no Partido Socialista. Sei tudo o que se passou e acompanhei com detalhe todo esse processo». Ainda segundo a mesma fonte, quando foi instado a explicar melhor o que era isso que sentia, José Sócrates terá acrescentado: «A minha responsabilidade como político obriga-me a não comentar decisões judiciais, mas repito mais uma vez que não é difícil imaginar aquilo que sinto».
Sabendo que não é politicamente correcto falar deste assunto, devo dizer, no entanto, que me é muito difícil imaginar como é que se sente o Sr. Primeiro-Ministro. E isto pela simples razão de que não considero minimamente verificados os dois pressupostos básicos desta notícia, a saber: primeiro, que o Sr. Primeiro-Ministro é amigo de todos os portugueses, razão pela qual eles sabem como ele se sente; segundo, que o Sr. Primeiro-Ministro é amigo do Sr. Paulo Pedroso, razão a partir da qual podemos imaginar como ele se sente.
Quanto ao primeiro ponto, devo dizer que, no que me diz respeito, não sou amigo do Sr. Primeiro-Ministro. Não há aqui qualquer afirmação política, mas a simples indicação do facto de que eu não conheço pessoalmente José Sócrates. Não frequentámos as mesmas escolas, não temos o mesmo grupo de amigos, não nos cruzámos profissionalmente… enfim: não nos conhecemos. Daí que me é muito difícil saber como ele se sente: está triste com toda esta horrível história em que estão envolvidas crianças e pessoas que lhe são próximas? Está contente com esta vitória judicial de Paulo Pedroso? Está irritado e até zangado por, apesar da vitória e da inocência de Paulo Pedroso, em que acredita, este ir ficar obviamente marcado durante toda a sua vida? Nenhuma das anteriores? O facto é que eu não sei como se sente o Sr. Primeiro-Ministro e o mesmo julgo que se poderá dizer da esmagadora maioria dos portugueses.
Quanto ao segundo ponto, devo também dizer que não sei se o Sr. Primeiro-Ministro é ou não é amigo do Sr. Paulo Pedroso. E, sendo-o, não sei se é pouco amigo, muito amigo, mesmo muito amigo, ou quase irmão. Na verdade, sei que se conhecem do PS. Mas isso diz-me pouco, pelo que me é ainda mais difícil imaginar o que sente o Sr. Primeiro-Ministro. Tanto mais que, como se sabe, os sentimentos são coisa sempre difícil de explicar e muitas vezes não obedecem à razão.
Mas isto não é tudo, porque, na verdade, também me é difícil perceber que o Sr. Primeiro-Ministro tenha dito publicamente aquilo que disse. Porque se José Sócrates é amigo de Paulo Pedroso, está muito bem que, em privado, com ele partilhe os sentimentos que experimentou num caso que a este dizia respeito: que lhos dê a conhecer, que se emocionem e que se abracem. Tudo isso está muito bem. Nada justifica, porém, que o faça em público, ainda que apelando à imaginação dos portugueses. O que lhe dirá, então, em privado: que enquanto Primeiro-Ministro lhe custou muito ver o Estado português ser condenado?
A verdade é que não parece nada bem que o Primeiro-Ministro de um país se afirme publicamente satisfeito quando o Estado que representa é condenado. Muito menos quando essa questão resulta de um processo em que muitas pessoas alegadamente violentadas nos seus corpos e nos seus direitos esperam ainda uma resposta desse mesmo Estado, à guarda do qual estavam, aliás, desde pequenos. Para esses não tem o Sr. Primeiro-Ministro uma palavra pública? Não viveu intensamente esses seus dramas? Não acompanhou em detalhe os seus processos? Não duvido – que fique claro – que também com eles se preocupa o Sr. Primeiro-Ministro. Mas fica mal mostrar-se publicamente satisfeito quando um seu amigo é justificado, enquanto tantos outros, que não conhece, vão, nesse mesmo caso, desesperando da justiça.
Com efeito, não vale aqui a apregoada vitória da justiça, porque o que se perdeu em todo este caso foi, justamente, a justiça. Se há coisa que os portugueses sabem de todo este caso, é isto: que, ao que parece, um homem inocente foi dado como culpado; que, ao que parece, vários homens culpados serão dados como inocentes. E é aqui, Sr. Primeiro-Ministro, que poderá funcionar a imaginação dos portugueses, nomeadamente na procura de razões que expliquem estas injustiças. E se a série televisiva sobre o caso “ballet rose” serviu recentemente para exemplificar o nosso antigo regime e a podridão que o corrompia, pergunto: o que pensarão sobre o nosso regime aqueles que, daqui a uma ou duas gerações, virem a série televisiva sobre o caso “Casa Pia”?
A Guerra e Paz - acuso-me - vai editar, no último trimestre do ano, alguns grandes livros. Um desses livros é um fantástico ensaio, obcecado com uma só coisa, com o humor que resiste a tudo, a tempos de cólera e de brasa, a tempos de guerra e caos. No livro contam-se algumas anedotas excepcionais. Uma para amostra:

E se alguém perguntar ao Jazz porque é que o Jazz se chama Jazz? O mais certo é que o Jazz responda que o Jazz tem a resposta ... que cada Jazz tem.
Dito por outras palavras, há explicações para todos os gostos:
- Jazz vem de Jasper, um escravo dançarino de uma plantação vizinha de New Orleans que tinha precisamente a alcunha de Jazz...
- ... de Chas, um baterista que viveu no Mississipi em finais do século XIX...
- ... de um músico de Chicago chamado Jasbo Brown...
- ... do arábico Jazzib...
- ... de jasmim, uma fragrância muito em voga entre as prostitutas de New Orleans...
- ... da palavra homónima com que os negros apelidavam a «copulation»...
- ... e de onde mais se quiser.
Na dúvida, eu gosto de acreditar na versão do tresloucado La Rocca. O Jazz, antes de ser Jazz, era Jass. Mas o Jass teve de virar Jazz para os miúdos pararem de riscar o J nos cartazes do Jass. Que é como quem diz: «Jass sem rabo é J e Jass sem J é rabo».
Álvaro Pais, como é sabido, foi um político hábil que, à volta do Mestre de Aviz, soube congregar o povo e os vários partidos nacionais que então estavam em oposição. O seu desígnio, porém, foi nacional, e por isso a história lhe perdoa as manhas.
Já o mesmo não se poderá dizer de alguns políticos de hoje, que, no seio dos seus Partidos, tudo fazem para eleger os seus próprios mestres segundo lógicas exclusivamente pessoais. Podiam bem ser suas as palavras de Álvaro Pais, que, logo após a tomada de Lisboa, indicava ao futuro rei como havia de ganhar o poder. Entre ambos, porém, há a enorme diferença de que uns quiseram erguer um reino, que é o nosso, enquanto os outros não sabemos ao que vêm.
Aqui ficam as palavras, para quem tal possa interessar:
«As cobiças andavam acesas, e Álvaro Pais, com a sua experiência manhosa, aconselhava o Mestre:
– Senhor, fazei por esta guisa: dai aquilo que vosso não é; e prometei o que não tendes, e perdoai a quem vos não faltou... Ser-vos-á de grande ajuda neste negócio em que sois posto.
O Mestre seguia pontualmente o conselho, perdoando tudo, dando tudo, prometendo tudo.»*
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* Oliveira Martins, A Vida de Nun´Álvares, Ed. Guimarães, Lisboa, 1955, pág. 130.

«A voz gloriosa, partindo do nevado Parnaso, ordena que se busque o homem que se esconde; erra pelas florestas bravias, pelas cavernas, pelos rochedos, como um toiro, e anda vagabundo, o infeliz, miserável e solitário, para escapar ao oráculo saído do centro da terra; mas o oráculo, que não morre, o persegue por toda a parte.»*
«Maldito seja o que me desatou os pés cruelmente amarrados e me salvou da morte. Em nada lhe estou grato; se tivesse morrido nessa altura, não teria provocado tais dores, aos meus amigos e a mim!»*
Continuando esta pequena incursão por algumas das histórias dos antigos gregos, chegou a altura de lembrar o Rei Édipo, de Sófocles, no qual a questão da identidade se constitui como o centro de toda a acção, que nos mostra, porém, como a progressiva descoberta da identidade de Édipo vem inevitavelmente acompanhada da revelação de um crime. Édipo, com efeito, é aquele que quer, «venha o que vier, conhecer a sua origem, por mais obscura que seja», de tal maneira que assim possa escapar à tragicidade própria da sua existência: o seu crime, portanto, foi o de ter querido ou afirmar-se de tal modo que ele próprio se tornasse o princípio de todas as coisas; ou não se afirmar sequer... em ambos os casos, o seu crime foi o de ter querido a indiferença: ter querido, ainda criança, «fugir e esconder-se onde não pudesse ver cumprirem-se os oráculos vergonhosos e horríveis»; ter querido, já adulto, responder, de uma vez por todas, ao monstruoso enigma que trazia dentro de si: o que é o homem, este ser que questiona acerca de si mesmo?
O homem, de acordo com a concepção trágica de que Sófocles aqui nos dá conta, é este ser capaz de um encontro maravilhoso com a Esfinge: de um olhar de frente o próprio monstro que, no entanto, porque o homem lhe não pode dar resposta, logo a seguir o devora. Por isso nos diz Sófocles que a maior felicidade do homem é «a de parecer feliz e de logo morrer». Mas o homem é também este ser tentado a resolver o enigma e que, tal como Édipo, se subtrai à realidade e se substitui à natureza, sendo essa sua acção horrenda digna dos maiores castigos. É o próprio monstro, então, quem, desesperado, se mata, o que acarreta para o homem um castigo pior do que a morte, pois que agora, absolutamente determinado, já não se pode questionar.
É que «não era um homem qualquer que tinha obrigação de explicar o enigma, mas sim os adivinhos». É o próprio Tirésias quem o diz a Édipo: decifrar o obscuro enigma «foi exactamente o que te perdeu». O crime de Édipo, assim, foi ter ousado responder a «essa cadela, com as suas palavras obscuras, (...) sem o auxílio das aves e dos augúrios». Ele representa o homem que – aproveitando o dito de Protágoras – se impõe a si mesmo como medida de todas as coisas: o homem que se impõe ao próprio lógos ao invés de, colaborando com ele, participar nas delícias do divino palácio do ser.
Édipo, portanto, é o Adão do povo grego (sem esquecer, claro, que Adão é expulso por Deus do jardim do Éden, enquanto que Édipo pede, ele próprio, para sair), símbolo do homem pecador que, vítima do orgulho, se afirma, absolutamente definido, como o senhor de todas as coisas. Por isso se torna «para todos o irmão de seu próprio filho, o filho e o esposo daquela que o gerou, aquele que ocupa o leito de seu pai, depois de o ter matado». Ora, este homem indiferente, absolutamente igual a si mesmo, é o mais infeliz dos homens – porque vive sozinho. E o homem que vive sozinho, incapaz de ouvir as novidades que lhe trazem os mensageiros e os arautos, é um homem injusto: a cólera, a insensatez e o medo tomam sucessivamente conta de si.
A consciência da queda, no entanto, traz consigo a memória das alturas. O homem tem também, portanto, esta possibilidade de voltar a participar na vida dos deuses, que radicalmente se lhe manifesta nesse encontro com a Esfinge, «a Profetiza, a Virgem das garras recurvadas». A esse reencontro com o divino, no entanto, o homem só chega por via da comunidade com o outro, sendo que a comunidade com o outro só acontece por via da acção justa, isto é, da acção bela, corajosa e inteligente – as três verdadeiras virtudes do homem que caminha para o divino e que surgem a partir da própria natureza esfíngica da questão. Por isso nos diz Édipo: «ó encruzilhada, ó vale sombrio, ó bosques de carvalhos, ó estreito passo a que vão dar as três estradas».
Na verdade, o monstro, a que leva a estrada, está já presente no caminho, apresentando-se sob a forma de uma questão cuja figura é a de uma mulher com corpo de leão alado, símbolo das três instâncias que devem ser convocadas neste humano caminhar: a mulher, símbolo da beleza e da sensibilidade estética; o leão, símbolo da coragem, da força viril e primitiva; as asas, símbolo do espírito inteligente que compreende e une todas as coisas (cada uma destas três virtudes opondo-se imediatamente aos três vícios, atrás indicados, do homem só: a beleza opondo-se à cólera; a coragem ao medo; e a inteligência à insensatez).
Reconhecemos aqui, portanto, a estrutura, ou dinamismo, próprio do ser, tal como vinha expresso na Grécia já desde os poemas homéricos: Édipo é o símbolo do homem decaído, que, para expiar o seu crime, tem de, descobrindo e respeitando a estrutura virtuosa do real, reunir-se aos outros homens, com eles se transformando por relação ao que é sempre igual em todos e em cada um, para assim poderem regressar a casa.
A existência deste homem, no entanto, já não é mítica, antes se reconhece ordenada pelo lógos, que permite expressar universalmente essa experiência de um destino trágico a que nenhum homem pode escusar-se e que consiste ou em contrair «vergonhosas núpcias» – que são as do homem que, sozinho e, portanto, injusto, vive na indiferença –, ou em contrair «gloriosas núpcias» – que são as do homem que, em comunidade e, por isso, justo, acolhe em si mesmo o outro. Em ambos os casos, porém, o homem tem de escolher: é esse o seu destino.
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* SÓFOCLES, Rei Édipo, trad. Agostinho da Silva, Ed. Inquérito, Lisboa, 1939, págs. 34 e 69.
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Os posts da Sofia e do Manuel obrigam-me a libertar os meus receios.