quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Um " género particolare"

Ontem ao final dia, enquanto recolhia a roupa no cimo de um prédio de oito andares em Lisboa, veio-me a lembrança desse filme sublime de Ettore Scola, " Una giornata particolare".
Sophia Loren é nesse filme uma mulher ignorante e gasta, pelo tempo, pela prole numerosa, pelos filhos, pelo marido, pelas provações.
Vive num apartamento estreito, num prédio construído para a classe operária na Itália dos anos trinta que vive o furor da ditadura de Mussolini.
Esse filme mostra-nos um dia, apenas um dia, da vida dela. A vida numa gaiola, e do passáro que dela foge, por instantes. Um descuido, porta aberta e um assomo de liberdade.
A vida daquela mulher é uma imensa rotina de tarefas e de serviço, serve a família, que se serve dela.
Cultiva em casa um livro de recortes de Mussolini, o grande homem, idolatra-o, enquanto cozinha e limpa. Que para a festa vão os outros, vestidos de gala e a esperança escarrapachada na cara.
Quando o vizinho, lhe aparece, dignifica-se-lhe um certo viço. Esconde o buraco da meia, embora use chinelos e compõe a melena em frente ao espelho, apesar da bata.
Ensaia danças sensuais latinas, ri, desafia a autoridade das vizinhas que vestem de preto.
No alto do seu prédio, entre os lençóis, ensaiando desajeitada as asas e pensando que estava pronta para o voo, descobre a impotência do acto. O vizinho, elegantemente, não é homem para tanto.
No final desse dia o passáro volta para casa e para a gaiola. Afinal, não conhece outra mão, que não seja aquela que abre a gaiola, que a limpa, que lhe fará uma festa de vez em quando, que lhe dá de comer e que no final volta a fechar a portinhola.
Não é um ser pensante. É um útero ambulante. Um útero que não milita nem na extrema direita, nem na esquerda.
É um " género particolare". Deve ser a isto que se referem quando se fala na questão do género.

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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Três SMS e uma ideia perigosa

Regressado do melhor sítio do mundo - chama-se Preguiça -, e ainda emocionado com as 100 mil almas que sorriem com as nossas indiscrições, aqui fica:
- Sócrates (o nosso, o mestre em Engenharia Sanitária) regozijou esta semana com os recentes, e extraordinários, resultados escolares. Os testes do segundo ciclo em avaliação foram respondidos pelos alunos de forma exemplar através de esculturas de plasticina, livros de colorir e uma análise epistemológica da vida amorosa de Paris Hilton.
- "O Cavaleiro das Trevas" mostra que o mundo dos "comics" também pode ter "pathos" e filiações nobres: senão, interrompam a leitura de Musil ou Turgueniev e leiam - e vejam - Jack Kirby, Alan Moore, Neil Gaiman ou Frank Miller, alguns dos pais espirituais (e leitores atentos dos clássicos) de um filme desiquilibrado mas emocionante - uma BD biónica para o futuro.

- A melhor imagem das férias (à excepção de um fato de banho às risquinhas com a minha mulher lá dentro): um Caravaggio no micro-museu da Catedral de Toledo, na luz e no intangível que El Greco (a estrela - importada - lá da terra) nunca conseguiu captar (e não foi por falta de tentativas)
...Uma ideia perigosa (não é minha, é de Steven Pinker, e está num livrinho muito estimulante chamado "Grandes Ideias Perigosas", editado em Maio último pela Tinta da China):
"Os grupos humanos podem diferir geneticamente nos seus talentos e temperamentos médios".
Continua hoje à noite - desculpem lá, mas tenho que ir para o segundo melhor sítio do mundo: um campo de futebol.

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terça-feira, 9 de setembro de 2008

Mas que grande título


Lipstick

O título, magnífico convenhamos, abre hoje a "primeira página" de um dos meus sítios preferidos. Por lá, no Salon, escreve muita gente alinhada e outra bastante mais desalinhada, como é o caso da Camille Paglia. A viagem demora o tempo de clique.

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Aventureiro e Revolucionário

Com a devida vénia, esta veio do sítio Pnet Homem


Mao Tsé-Tung, esse irreal modelo de Andy Warhol, morreu há 32 anos em Pequim. Na altura, não passava pela cabeça do mais esparvoado dos seus sequazes que Pequim seria um dia palco de Jogos Olímpicos, com abertura coreografada por um cineasta chinês, meio dissidente, meio émulo do Busby Berkeley que fez a glória dos musicais americanos dos anos 40.
Há 32 anos eu estava em Angola. E pensava em tudo menos em eleições justas e livres e muito menos nas eleições que, agora, o MPLA ganhou com conforto (porventura menos justo) e com esmagadora maioria (porventura pouco livre). Se ligo Mao Tsé-Tung e Angola é porque há 32 anos, protegido pelo pequeno e tão citável Livro Vermelho do terrível mandarim, eu sentia, no generoso calor de África, que devia aos meus 20 anos a obrigação de ser aventureiro e revolucionário para ter a legitimidade de chegar, décadas mais tarde, a chefe de bombeiros.
As minhas aventuras foram irrisórias e estão condenadas ao esquecimento. A coisa resultou em nada ou coisa nenhuma. A bem dizer nem sequer tiveram a dignidade trágica do mau resultado que pais e outros afectos temiam.
Não foi o que aconteceu a um dos meus amigos. Ele e eu, ambos de Luanda, tínhamos caído de pára-quedas no Lobito e, desportivamente, demos em chatear a dominante Unita (Savimbi quando lá vinha ficava no prédio em frente e o Jorge Valentim era um cansativo prodígio de energia). Entre os muitos militantes do Galo Negro havia um idealista e jovem branco que era tu cá, tu lá comigo, mas embirrava com o frémito triunfal estampado no sorriso do meu amigo, julgo que até mais do que com o distinguo político que nos colocava em campos irreconciliáveis.
Chegados os dias de fogo e balas, a Unita começou a tomar conta da cidade. Num velho Citroen boca de sapo, o meu amigo e dois compagnons de route tentaram, já com algum atraso, sair do cerco inimigo. Apanharam uma barreira de imberbes guerrilheiros, putos do mato que, tímidos a descobrir a cidade dos flamingos, logo descobriram no chão do carro um carregador de pistola. Encostaram-nos à parede do Liceu Vasco Lopes Alves e preparavam-se para os fuzilar.
Guerra é guerra e era essa a guerra que todos faziam. Nem o meu amigo, dada a evidente imprudência do achado, lhes poderia levar a mal. Olho por olho.
O meu amigo e os outros dois ainda protestavam desenganada inocência quando se desenhou na esquina mais próxima o perfil trágico e vingador do nosso embirrante e branco adversário. O que os soldadinhos desconfiavam, ele sabia. E ele, do alto dos seus 17 anos militarizados, mandava. Pairava agora no ar uma exaltação de sangue e o meu amigo despediu-se silenciosamente da vida.
Mas num segundo, num só segundo estremecido e assombroso, tudo mudou. O sincero e combativo militante da Unita, que pela Unita continuaria a bater-se depois, declarou inocentes e apolíticos os três compungidos condenados. “Estes vão para o aeroporto apanhar o avião e sair de Angola”, disse ele aos guerrilheiros da Unita. E o carro, o cansado boca de sapo, lá adiante, em vez de seguir à direita para o aeroporto, virou traiçoeiramente à esquerda em direcção à Catumbela e a Benguela onde estava o MPLA.
Já encontrei este anjo salvador duas vezes. Ainda hoje não sabe explicar o que o levou a arriscar a própria vida para salvar a pele dos que o abominavam. Um luminoso respeito pela vida humana? Uma corrosiva solidariedade de raça? Ele não nega, como também não jura por nenhum destes grandes princípios, mas garantiu-me que a prosaica simpatia com que nos tratávamos foi uma das suas modestas razões. Receio bem nunca chegar a ter a coragem desta simplicidade.

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sábado, 6 de setembro de 2008

Briseida, a pelada ( continuação)

Para a ocasião, o rei Aga chamou Aquiles para jantar na sua tenda. A noite era auspiciosa, de quarto crescente, limpa e fria. No exterior, as fogueiras ardiam, os homens estavam de guarda. Aquiles atravessou o acampamento, saudando todos com mão firme e rosto distendido. Passou pelos gurdas e entrou na tenda do rei.
Cumprimentaram-se com um abraço. Sentaram-se lado-a-lado. A um sinal do rei, a ceia começou a ser servida. Falaram sobre os tempos em que ainda jovens corriam soltos, varando distâncias e profundezas. Lembraram batalhas, guerras e alguns companheiros que tinham atravessado o rio sem retorno.
Três músicos tocavam a um canto da tenda, enquanto os criados entravam e saíam, servindo comida e bebida.

Na tenda das mulheres, Briseida era preparada. As mulheres cuidavam dela em silêncio. Depois do banho, esfregaram-na com óleo emoliente, colocaram-lhe a túnica verde bordada a ouro. Sentada, foi penteada, os pés e as mãos, cuidadosamente pintados, assim como os olhos e a boca. Quando acabaram, afastaram-se para ver o trabalho. Briseida estava pronta. Em silêncio, cobriram-na com o véu negro.
Briseida não sabia ao que ía, apenas lhe tinham dado a ordem.
Foi levada à tenda do rei. Entrou, ficando de pé defronte dos dois homens.
" - A partir de hoje, pertences a Aquiles." - Disse o rei Aga a Briseida.
Aquiles olhou primeiro para Aga e depois para Briseida em assentimento.
E porque Aquiles se levantasse, o rei deitou-lhe o braço, dizendo:
"- Espera, sempre gostaria de ver aquilo de que abdico."
" - Aga, se nem eu sei aquilo que quis, porque hás-de tu conhecer o que já te não pertence?"

Briseida, enrolou o véu, tirando-o completamente. Os dois homens olhavam para ela e ela para eles. Aquiles calou-se. Por instantes, os olhos agudos, a boca fechada, o corpo hirto. Depois sorriu: " - Meu amigo, a tua magnificência não conhece limites. Deste-me a Ásia inteira."
Virou as costas, começando a andar. Disse: " - Vem!"
Briseida, seguiu-o, entrando na tenda de Aquiles dois metros depois dele.
Aquiles sentou-se, fazendo-lhe sinal que se sentasse à sua frente.
Ainda Briseida mal se havia sentado quando Aquiles diz:
" - És bela tu, podia dizer-te que te deitasses comigo uma hora, mas não é nada disso que tu queres, pois não?"

( a continuar)

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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Calor estival

Acabado de chegar de férias não pude deixar de confirmar os efeitos do calor estival nos meus amigos co-bloggers.
Senão vejamos:
Um rabo...

Dois rabos...

Não há três rabos mas há amor (?) na praia...



Maminhas (só uma na verdade - peço desculpa)...

Nu integral (fotograia que apareceu duas vezes)...



E a terminar um post intitulado "Gajas mesmo muito boas" em que se referem algumas coisas chocantes, entre as quais sexo com animais.
Em nome dos bons costumes espero que o Outono que aí vem nos traga a todos alguma decência.






































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Gajas mesmo muita boas





É provável que você se sinta levemente enganado com o conteúdo deste post. Mas a verdade é que este outro post do Manuel Fonseca continua, vários meses após a sua publicação, a ser um chamariz internacional para este blog. E, por muito que me custe admiti-lo, eu não queria deixá-lo muito mais tempo a brilhar sozinho (a inveja, mesmo entre bloggers, é de facto uma coisa muito feia). Seja como for, agora que anda por aqui, está convidado a voltar. Não prometemos «mulheres nuas» nem «gajas boas» mas sempre se vão arranjando traições inconfessáveis e confissões verdadeiramente chocantes, sexo com animais, conversa de bola, alguma pornografia e, com algum jeito, até uma fotografia ou outra mais marota. Tudo, já se vê, boas razões para o seu regresso.

ps: agora que termino este post dou-me conta de quem é o maior contribuinte líquido para a «baixeza» deste blog.

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quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Dos sentimentos de Sócrates

José Sócrates, Primeiro-Ministro de Portugal, afirmou publicamente estar muito satisfeito com a decisão judicial que condenou o Estado português a pagar uma indemnização a Paulo Pedroso: «Não é difícil imaginar o meu estado de espírito – afirmou o Primeiro-Ministro – porque eu vivi intensamente essa época no Partido Socialista. Sei tudo o que se passou e acompanhei com detalhe todo esse processo». Ainda segundo a mesma fonte, quando foi instado a explicar melhor o que era isso que sentia, José Sócrates terá acrescentado: «A minha responsabilidade como político obriga-me a não comentar decisões judiciais, mas repito mais uma vez que não é difícil imaginar aquilo que sinto».
Sabendo que não é politicamente correcto falar deste assunto, devo dizer, no entanto, que me é muito difícil imaginar como é que se sente o Sr. Primeiro-Ministro. E isto pela simples razão de que não considero minimamente verificados os dois pressupostos básicos desta notícia, a saber: primeiro, que o Sr. Primeiro-Ministro é amigo de todos os portugueses, razão pela qual eles sabem como ele se sente; segundo, que o Sr. Primeiro-Ministro é amigo do Sr. Paulo Pedroso, razão a partir da qual podemos imaginar como ele se sente.
Quanto ao primeiro ponto, devo dizer que, no que me diz respeito, não sou amigo do Sr. Primeiro-Ministro. Não há aqui qualquer afirmação política, mas a simples indicação do facto de que eu não conheço pessoalmente José Sócrates. Não frequentámos as mesmas escolas, não temos o mesmo grupo de amigos, não nos cruzámos profissionalmente… enfim: não nos conhecemos. Daí que me é muito difícil saber como ele se sente: está triste com toda esta horrível história em que estão envolvidas crianças e pessoas que lhe são próximas? Está contente com esta vitória judicial de Paulo Pedroso? Está irritado e até zangado por, apesar da vitória e da inocência de Paulo Pedroso, em que acredita, este ir ficar obviamente marcado durante toda a sua vida? Nenhuma das anteriores? O facto é que eu não sei como se sente o Sr. Primeiro-Ministro e o mesmo julgo que se poderá dizer da esmagadora maioria dos portugueses.
Quanto ao segundo ponto, devo também dizer que não sei se o Sr. Primeiro-Ministro é ou não é amigo do Sr. Paulo Pedroso. E, sendo-o, não sei se é pouco amigo, muito amigo, mesmo muito amigo, ou quase irmão. Na verdade, sei que se conhecem do PS. Mas isso diz-me pouco, pelo que me é ainda mais difícil imaginar o que sente o Sr. Primeiro-Ministro. Tanto mais que, como se sabe, os sentimentos são coisa sempre difícil de explicar e muitas vezes não obedecem à razão.
Mas isto não é tudo, porque, na verdade, também me é difícil perceber que o Sr. Primeiro-Ministro tenha dito publicamente aquilo que disse. Porque se José Sócrates é amigo de Paulo Pedroso, está muito bem que, em privado, com ele partilhe os sentimentos que experimentou num caso que a este dizia respeito: que lhos dê a conhecer, que se emocionem e que se abracem. Tudo isso está muito bem. Nada justifica, porém, que o faça em público, ainda que apelando à imaginação dos portugueses. O que lhe dirá, então, em privado: que enquanto Primeiro-Ministro lhe custou muito ver o Estado português ser condenado?
A verdade é que não parece nada bem que o Primeiro-Ministro de um país se afirme publicamente satisfeito quando o Estado que representa é condenado. Muito menos quando essa questão resulta de um processo em que muitas pessoas alegadamente violentadas nos seus corpos e nos seus direitos esperam ainda uma resposta desse mesmo Estado, à guarda do qual estavam, aliás, desde pequenos. Para esses não tem o Sr. Primeiro-Ministro uma palavra pública? Não viveu intensamente esses seus dramas? Não acompanhou em detalhe os seus processos? Não duvido – que fique claro – que também com eles se preocupa o Sr. Primeiro-Ministro. Mas fica mal mostrar-se publicamente satisfeito quando um seu amigo é justificado, enquanto tantos outros, que não conhece, vão, nesse mesmo caso, desesperando da justiça.
Com efeito, não vale aqui a apregoada vitória da justiça, porque o que se perdeu em todo este caso foi, justamente, a justiça. Se há coisa que os portugueses sabem de todo este caso, é isto: que, ao que parece, um homem inocente foi dado como culpado; que, ao que parece, vários homens culpados serão dados como inocentes. E é aqui, Sr. Primeiro-Ministro, que poderá funcionar a imaginação dos portugueses, nomeadamente na procura de razões que expliquem estas injustiças. E se a série televisiva sobre o caso “ballet rose” serviu recentemente para exemplificar o nosso antigo regime e a podridão que o corrompia, pergunto: o que pensarão sobre o nosso regime aqueles que, daqui a uma ou duas gerações, virem a série televisiva sobre o caso “Casa Pia”?

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IV. Khomiakov, L'Eglise latine et le Protestantisme au point de vue de l'Eglise d'Orient, Xenia Editions

São Histórias diversas as herdadas pelo mundo latino católico que gera o dito Ocidente e a que gera o mundo ortodoxo grego, eslavo. São ritmos históricos diversos, embora com sincronismos que não podem ser esquecidos. A queda do Islão na Península Ibérica coincide com a vitória de Dimitri Donskoï contra os turco-mongóis. O islão num e noutro extremo da Europa é expulso para permitir a plena realização da Europa. A Renascença entra na Rússia não muito mais tarde do que entra em Portugal. E Pedro II traz para a Rússia a modernização numa altura em que um outro Pedro, este o II de Portugal, tenta fazer a mesma coisa. Estranho mistério, este, o de dois países extremos da Europa se ignorarem de forma tão ostensiva, quando a nostalgia das estepes tem tantas afinidades com a do mar, e a ternura da poesia russa sempre encorpada pela virilidade, lembra tanto alguma da poesia portuguesa. Pushkine e Camões poderiam ser primos afastados.

A verdade é que esta deriva não pode ser esquecida na união entre ortodoxos e “ocidentais”. Esquecê-lo não seria apenas falta de realismo, seria ignorar dados essenciais de como a economia da salvação se manifesta na História. Qualquer união terá de ter em conta este facto.

Mas a outra questão é eminentemente eclesial, no seu fundo. Khomiakov insiste na natureza, não conciliar ou colegial da igreja, como frequentemente se diz que os ortodoxos defendem, mas, algo bem mais profundo, como uma união de amor, independente da hierarquia. Segundo este princípio, pouco espaço sobraria para o papado senão um protestantismo latino, uma rebelião, um fratricídio moral, como ele gostava de o chamar. No fundo, e embora Khomiakov não enfrente expressamente o problema, trata-te da conciliação entre a mensagem de Cristo a Pedro como Pedra (“Tu és Pedro” de Mt 16,18 e “eu estarei no meio de vós” (Mt, 18, 20, se bem me lembro).

A solução não pode ser política apenas porque geraria uma mera aliança, e aqui Khomiakov tem toda a razão. Não pode ser de mera tolerância, porque esse é o grau zero da hostilidade. Sendo de caridade mútua já se deu um passo. Mas é evidente que estamos em época algo diversa, e por isso Khomiakov não pode ser criticado em termos anacronísticos. Passaram entretanto duas guerras mundiais, o Vaticano II, os protestantes foram mudando desde o século XIX a sua visão da igreja católica (embora ainda hoje em dia tele-evangelistas americanos lembrem que, se os colonos fugiram para a América, foi para fugir à perseguição católica... da Inglaterra (?)), os ortodoxos embora de forma mais lenta vão mudando da sua perspectiva em relação à modernidade. Na fronteira da Polónia começa a haver ligações entre ortodoxos e católicos, e sobretudo Bento XVI, de forma discreta, mas muito eficaz, tem dado como prioridade ao seu pontificado a ligação aos ortodoxos, muito mais estiolada que a que existe com os protestantes, que se conjugaram no mesmo lado das mesmas guerras mundiais.

Também o mundo ortodoxo deixou de ter a pureza original que Khomiakov gostava de nele encontrar. Crítico dos uniatismos como mero negócio político, não poderia adivinhar as ligações que existem hoje em dia entre os ortodoxos e os monofisitas coptas em alianças não menos “políticas” para usar a sua expressão. Os críticos dizem que Khomiakov compara a igreja ortodoxa como deveria ser com as ocidentais como elas são, o que seria injusto. Nem refere o conceito bizantino de “symphonia” entre o poder político e religioso como justificação. Bem sabe o que ele significou. E como, se é verdade que existe uma união entre ortodoxos, esta muitas vezes foi lassa, pouco enérgica. Ou como na verdade os poderes políticos dominaram de forma muito pesada muitas vezes os poderes religiosos no mundo ortodoxo. Com todas as desvantagens do Património de Pedro, a Igreja Católica soube servir-se dele para ter uma autonomia bem maior em relação aos poderes políticos, embora não tenha sido isenta de domínios políticos (da França, do Império). Foi paradoxalmente o facto de assentar também como poder político que lhe permitiu transcender fronteiras. Mas a ortodoxia construiu-se sobre impérios (bizantino, búlgaro, russo). A igreja católica sobre os seus escombros, e coube-lhe a ela ajudar a reconstruí-los.

O mundo é outro, mas o problema teológico mantém-se. Não nos mesmos termos. De um lado a teologia católica tenta perceber melhor o filioque na perspectiva dos ortodoxos (Bruno Forte), do outro, há mais noção dos problemas ocidentais na Rússia do que por vezes se tende a pensar. Ninguém está inocente nesta matéria, e ninguém está inerte. Política, diálogo, tolerância, caridade, oração, pensamento teológico, inspiração, nada é demais para atingir esse objecto de união.

Khomiakov revela-se um grande erudito, nomeadamente da teoria da religião, mostrando capacidade de análise simbólica que só se volta a encontrar muitas vezes no século XX com Kerenyi ou Jung. A sua erudição é vasta e segura, embora obviamente dominada pelo espírito da época. Considerando o mundo eslavo herdeiro do mundo iraniano, quando em boa verdade é mais primo dele que filho, retira daí consequências que podem ser discutíveis (como a etimologia da palavra Bog, Deus). Pouco releva para o que nos interessa. Mais importante que tudo isto é o facto de Khomiakov dever ser levado a sério.

Hoje em dia querem-nos fazer acreditar que todas as culturas são maravilhosas, ricas, profundas, sem nos explicar em que o são. Os bem-pensantes aproximam-nos de altaicas presunções, doentia obsessão de asiáticos com a prosápia de serem europeus, nem que seja à força. Da parte que me toca continuo a preferir as grandes culturas, que efectivamente o são, às medíocres. A russa é uma grande, uma imensa cultura, que diz mais sobre o que a Europa é na sua riqueza que mil tratados sobre a igualdade presuntiva e presunçosa das civilizações. Hoje em dia mandam-nos compreender todas as culturas, mesmo quando são repugnantes em muitos aspectos e esquecemo-nos de ter um olhar de abertura ao que pensam e sentem os ortodoxos, que vivem ao lado de nós e na mesma casa em suma. As suas queixas não são nem destituídas nem plenas de razão. Perceber a parte de justiça de cada um delas pressupõe ouvi-las previamente.


O mais importante é ter em conta que a visão ortodoxa sobre si mesma e sobre o dito Ocidente da Europa não pode ser desmerecido ou tratado com condescendência. Não se trata de povos turco-mongóis, adoráveis, mas intranscendentes e sem produção cultural superior. Trata-se de gente com uma capacidade criativa superior e bem nutrida na sua capacidade crítica. Por isso, ler Khomiakov é uma bela lição para qualquer pessoa educada no cristianismo latino ou protestante. Faz-nos pensar que também nós estamos por vezes instalados na imutabilidade e no conforto de lugares comuns, em oposições cujos termos de base por vezes funcionam em círculo fechado. Khomiakov faz-nos abrir esse círculo, só por esse facto já lhe devíamos estar gratos.


Alexandre Brandão da Veiga

http://en.wikipedia.org/wiki/Aleksey_Khomyakov
http://www.editions-xenia.com/livres/khomiakov/index.html

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quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Hitler, ao meio-dia em ponto

A Guerra e Paz - acuso-me - vai editar, no último trimestre do ano, alguns grandes livros. Um desses livros é um fantástico ensaio, obcecado com uma só coisa, com o humor que resiste a tudo, a tempos de cólera e de brasa, a tempos de guerra e caos. No livro contam-se algumas anedotas excepcionais. Uma para amostra:

Dois Judeus têm um plano para assassinar Hitler. Ficam a saber que o carro dele passa por uma certa esquina todos os dias ao meio-dia, e fazem-lhe uma espera com as pistolas bem escondidas.
Ao meio-dia em ponto estão prontos para disparar, mas não há sinal de Hitler.
Cinco minutos depois, nada.
Passam mais cinco minutos, e nada de Hitler.
Às 12h15, começam a perder a esperança.
Um deles diz para o outro: «Valha-me Deus, espero que não lhe tenha acontecido nada».

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Jass sem rabo




E se alguém perguntar ao Jazz porque é que o Jazz se chama Jazz? O mais certo é que o Jazz responda que o Jazz tem a resposta ... que cada Jazz tem.

Dito por outras palavras, há explicações para todos os gostos:
- Jazz vem de Jasper, um escravo dançarino de uma plantação vizinha de New Orleans que tinha precisamente a alcunha de Jazz...
- ... de Chas, um baterista que viveu no Mississipi em finais do século XIX...
- ... de um músico de Chicago chamado Jasbo Brown...
- ... do arábico Jazzib...
- ... de jasmim, uma fragrância muito em voga entre as prostitutas de New Orleans...
- ... da palavra homónima com que os negros apelidavam a «copulation»...
- ... e de onde mais se quiser.

Na dúvida, eu gosto de acreditar na versão do tresloucado La Rocca. O Jazz, antes de ser Jazz, era Jass. Mas o Jass teve de virar Jazz para os miúdos pararem de riscar o J nos cartazes do Jass. Que é como quem diz: «Jass sem rabo é J e Jass sem J é rabo».

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A quem tal possa interessar...

Álvaro Pais, como é sabido, foi um político hábil que, à volta do Mestre de Aviz, soube congregar o povo e os vários partidos nacionais que então estavam em oposição. O seu desígnio, porém, foi nacional, e por isso a história lhe perdoa as manhas.
Já o mesmo não se poderá dizer de alguns políticos de hoje, que, no seio dos seus Partidos, tudo fazem para eleger os seus próprios mestres segundo lógicas exclusivamente pessoais. Podiam bem ser suas as palavras de Álvaro Pais, que, logo após a tomada de Lisboa, indicava ao futuro rei como havia de ganhar o poder. Entre ambos, porém, há a enorme diferença de que uns quiseram erguer um reino, que é o nosso, enquanto os outros não sabemos ao que vêm.
Aqui ficam as palavras, para quem tal possa interessar:

«As cobiças andavam acesas, e Álvaro Pais, com a sua experiência manhosa, aconselhava o Mestre:
– Senhor, fazei por esta guisa: dai aquilo que vosso não é; e prometei o que não tendes, e perdoai a quem vos não faltou... Ser-vos-á de grande ajuda neste negócio em que sois posto.
O Mestre seguia pontualmente o conselho, perdoando tudo, dando tudo, prometendo tudo.»*

_______________
* Oliveira Martins, A Vida de Nun´Álvares, Ed. Guimarães, Lisboa, 1955, pág. 130.

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O rapaz de Chicago


Tive finalmente a oportunidade de ler o artigo da New Yorker sobre Barak Obama, aquele que vinha no número da revista com a capa controversa. A capa é de facto um pouco excessiva, não tanto pelos disfarces com que Obama e a mulher aparecem vestidos, mas mais pela bandeira dos EUA a queimar na lareira. Enfim, todavia, nada de muito grave.

O que interessa mesmo é o artigo que é muito bom como quase sempre acontece com esta revista. São 18 páginas de biografia política aprofundada, com investigação junto de antigos colaboradores, leituras de colunas de imprensa de sua autoria, entre outras coisas. Esta é sem dúvida uma das melhores revistas do mundo e é nestes artigos que essa reputação foi conquistada.

O jornalista claramente arranjou motivos suficientes para não gostar de Barak Obama, enquanto pessoa. Obama aparece-nos aqui como alguém extremamente ambicioso que passou por cima de algumas coisas para avançar na rápida caminhada que o levou onde chegou hoje. Essa impressão é feita com base na recolha de algumas opiniões de ex-colaboradores que se viram deixar para trás. Parece que em muitas ocasiões teve comportamentos oportunistas. Ninguém se queixa de falta de carácter ou de algo semelhante, mas sim de uma grande ambição. Trata-se, para o jornalista, de um BUPPIE (black urban professional).

Obama define-se a ele próprio como sendo da ala “liberal” do partido já liberal que é o Democrático, algo que lhe poderia ter fechado algumas portas, sobretudo as do dinheiro. Mas não foi sempre isso. Obama foi presidente da Harvard Law Review, um cargo de enorme importância e prestígio. Parece que para conseguir essa nomeação percorreu um caminho muito estreito, satisfazendo os eleitores (de algum colégio eleitoral, presumo) à direita e à esquerda. Tudo isto ia acontecendo num ambiente em que muitas vezes Obama é referido já há algum tempo como futuro primeiro presidente negro da América.

O sucesso da ascensão de Obama teve essencialmente duas vertentes, segundo o artigo da New Yorker. A primeira foi ter conseguido ganhar para si a máquina do Partido Democrático de Chicago, um feito nada pequeno atendendo ao funcionamento da mesma. A segunda foi ter conseguido fazer uma ponte sólida entre os liberais do dinheiro, em Chicago e em outras partes dos EU, e os negros dos bairros mais problemáticos da cidade por onde foi eleito Senador.

A descrição que o artigo faz do funcionamento da política em Chicago mostra um aparelho partidário dominado por grandes caciques e com ligações muito próximas a dinheiros menos limpos. Não é propriamente a democracia na América de Tocqueville. Mas é a democracia na América. Obama, todavia, conseguiu passar por cima dos problemas mais graves e conquistar a nomeação para senador sem sujar as mãos (em Chicago a nomeação assegura a eleição). Foi a sua primeira grande vitória. Para o conseguir teve de arranjar dinheiro e fê-lo com uma facilidade inusitada, granjeando simpatias junto de alguns milionários abonados. Fez isso ao mesmo tempo que conseguia a simpatia das pessoas mais carenciadas através de um discurso convincente e também de ter conseguido levar a cabo algumas reformas, pôr de pé alguns projectos importantes, e livrar-se de políticos agarrados à máquina partidária mas menos populares.

Uma história de ascensão na máquina partidária apoiada por dinheiro e muito faro político. Ou seja, afinal é um homem normal. Só não é tão normal como os outros porque é um homem excepcionalmente inteligente. E também porque é negro. E não por acaso tudo isto aconteceu em Chicago, uma espécie de Massachusetts dos negros. 150 anos depois do fim da escravatura, não se pode dizer todavia que tenha sido cedo demais.

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III. Khomiakov, L'Eglise latine et le Protestantisme au point de vue de l'Eglise d'Orient, Xenia Editions

A verdade é que o problema da união das igrejas é simultaneamente um problema histórico e religioso. Uma verdadeira religião da Incarnação não pode ver a coisa de outra forma. É aqui que Khomiakov, com a sua imensa erudição, claudica. Tivera publicado apenas o seu primeiro ensaio seria bem mais difícil contestar muito do que diz. A partir daí publica novos ensaios e descobre o fundo do seu pensamento. Padece do preconceito tipicamente ortodoxo da imutabilidade do dogma na sua enunciação. O ortodoxo basta-se com os primeiros concílios ecuménicos e não mudou dogmas. Não juntou nomeadamente o mal afamado filioque. A sua mensagem mantém a pureza da mensagem apostólica. Seja. Isto vê-se particularmente quando critica a teoria de Newman do desenvolvimento.

É assim tão simples? Que haja apenas uma revelação, de uma vez por todas, todo o cristão, esquecendo apocalípticas revelações, o tem de aceitar. Mas que se diga que um ortodoxo é o único depositário da verdade intacta porque intocada é coisa que já pode merecer reparos. É que se Constantinopla I afirmou claramente que Niceia não podia ser alterado, a verdade é que Niceia existiu – depois dos Apóstolos. A relevação da verdade tem desenvolvimento histórico. Na enunciação é certo. Depois de Niceia, mesmo depois de Éfeso ficaram claras a incorrecções de expressão, mesmo os riscos de tão ortodoxa e católica figura quanto São Cirilo de Alexandria. Mas a História não é apenas um processo intelectual, ou mesmo espiritual, de enunciação (mesmo aqui o ortodoxo congelou a enunciação com os primeiros concílios ecuménicos). O próprio desenvolvimento histórico em si mesmo desvela à humanidade a economia da salvação e consequentemente, o que dela não pode ser desligado, o dogma. De tanto insistir na imutabilidade Khomiakov acaba por ter uma versão idealista da História, e acaba na armadilha do idealismo alemão que tanto admirava, mas criticou.

Historicamente existem desenvolvimentos diversos do cristianismo no Ocidente e no Oriente. É evidente. E não se contam desde o cisma de Photius que não foi tão definitivo como se diz, nem tão novo quanto se afirma. O cristianismo nasce no império romano e em zona helenizada. Região bem diversa da zona latina. Por mais fortes contactos que tivesse havido entre as duas partes do império, e mais forte fosse a circulação de pessoas, bens, ideias, mesmo de religiões (o caso do mitraísmo e das religiões mistéricas são bons exemplos disso), a verdade é que se trata de duas partes do império. Uma latina para o bem e para o mal, outra helenizada.

Se bem pensarmos, estranho é que sequer tenha havido um cristianismo latino. Mais: que o cristianismo tenha dado à língua latina filósofos e uma profundidade filosófica que antes nunca teve. A originalidade filosófica em língua latina começa com o cristianismo. Antes temos romanos muito cultos, profundos conhecedores da cultura grega, mas que não merecem citação entre os gregos e que não deixam marca no próprio pensamento ocidental mais profundo (salvo, e que excepção, na linguagem com Cícero, por exemplo, e a versão poética de ética com Séneca).

Mas não é com a queda do Império Romano do Ocidente, e muito menos com o cisma dos séculos IX a XI que se separa um e outro cristianismo. Os gregos não sabiam latim e os latinos pouco sabiam de grego. Se isso não lhes impedia a comunhão, permitiu que se gerassem malentendidos (pessoas e hipóstases, por exemplo são difíceis equivalências). Que a essa dificuldade profunda original se juntassem contextos históricos diversos, de queda no ocidente e sobrevivência a oriente, de germanização a ocidente e miscisgenação oriental em Bizâncio, apenas para dar uns exemplos, apenas mostra que esta diversa História não pode ser desconsiderada mesmo na perspectiva da economia da salvação.

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terça-feira, 2 de setembro de 2008

Nick La Rocca. A preto e branco.

Eis o registo. Ao vivo e...a preto e branco.

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II. Khomiakov, L'Eglise latine et le Protestantisme au point de vue de l'Eglise d'Orient, Xenia Editions



É fácil em relação à Rússia viver de oposições. Os ocidentalistas, modernos, contra os eslavófilos, reaccionários. O despotismo contra a anarquia. Os elementos da mais requintada civilização associados à maior barbárie. Depois de duas guerras mundiais estas opções tornam-se muito menos evidentes. Sobretudo mostram-nos que nunca foram efectivamente evidentes.

Os eslavófilos como retrógrados e reaccionários? Seja. Talvez fosse bom lembramo-nos que também eles lutaram pela libertação dos servos na Rússia e não apenas os ditos ocidentalistas. Que estavam bem longe de ignorar os movimentos intelectuais mais avançados da Europa. Não se trata de um conjunto de eruditos de paróquia mal informados e em permanente birra. Em certo sentido ensinam mais a Europa que muitos ocidentalistas, que apenas mostraram ser capazes de aprender em profundidade dos conceitos ditos ocidentais, mas sem grande inovação.

Khomiakov é dos mais belos exemplos da eslavofilia, ou melhor, da defesa da ortodoxia contra os ocidentais, sejam latinos sejam protestantes.

Os conceitos que usa não são irrelevantes e ainda hoje em dia nos fazem pensar, não apenas no plano político mas igualmente civilizacional. Distingue fortemente união de aliança. Alianças temo-las feitos com não europeus, sejam turcos, americanos, ou chineses. União é algo de mais profundo, mesmo que não estejamos a falar no plano especificamente religioso.

Qual é o ponto principal da sua argumentação? O clássico na ortodoxia. Há um cisma ocidental (no ocidente dizemos oriental), um protestantismo latino da Igreja de Roma, a que se segue um protestantismo germânico. Mais que cisma, há mesmo heresia. Quebra-se o dogma da Igreja como uma união de amor, quando se anuncia a supremacia papal. A esta heresia apenas se poderiam acoplar outras como a do filioque a Imaculada Conceição e assim por diante. Nisto repare-se que Khomiakov é consistente e mesmo convincente, se pensarmos apenas no seu primeiro ensaio. A sua eclesiologia não é disparatada, é a que resultaria dos primeiros concílios, de forma mais ou menos expressa ou confusa. É a clássica argumentação ortodoxa, e vendo o mundo com os olhos de um ortodoxo, teria imensa razão. A primazia particular da Sé de Roma, sobretudo quando em certos momentos críticos foram papas a defender a ortodoxia, nunca foi posta em causa pelos ortodoxos. Mas que essa primazia se arvore em princípio constitutivo de toda a Igreja é coisa que um ortodoxo não pode aceitar. E faz bem. Faz bem porque representa um ponto essencial da eclesiologia que desafia os nossos prejuízos ocidentais.

Khomiakov tenta demonstrar que a Igreja (ortodoxa) é por isso a única que concilia dentro de si o depósito da verdade (como os latinos) com a procura da verdade (como os protestantes). O que seria “apenas” eclesiologia passa a ser assento para mostrar qual o papel do fiel na igreja. O protestantismo romano (para usar a sua expressão) cai no despotismo, o germânico na anarquia.

A História deu alguma razão aos ortodoxos. Conseguiram manter a unidade sem depender de um órgão central e não caíram na fragmentação protestante. O vínculo de amor como base da união da igreja parece ter demonstração histórica. O problema é que este argumento do sucesso histórico é reversível. Se o sucesso for o critério, a Igreja católica é de longe a mais bem sucedida de todas. Nova argumentação: isso vem do facto de seguir o sucesso dos impérios em que assentou: espanhol, português, francês. Só em parte. E o mesmo se poderia dizer da relação da ortodoxia com os impérios em que assentou, seja russo, búlgaro ou bizantino. E isso não explicaria o facto de o maior sucesso que teve a igreja católica foi pós-colonial. Valendo as estatísticas o que valem, tudo indicam que triplicaram as conversões em África depois da saída dos impérios coloniais. O próprio interesse dos impérios coloniais em expandir o catolicismo foi muito relativo. A República laica francesa e mais tarde a portuguesa não seriam muito suspeitas de favorecimento das missões católicas, embora se tenha visto de tudo na História.

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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

I. Khomiakov, L'Eglise latine et le Protestantisme au point de vue de l'Eglise d'Orient, Xenia Editions


Impera hoje em dia uma russofobia que é apenas mais uma das formas de ódio à Europa. Querem-se admitir países asiáticos na União europeia quando se esquece ostensivamente o maior país europeu nesta União. A União é Europeia e os adjectivos têm algum significado. A Rússia é um país europeu, com todas as dificuldades que resultam de ser, não meio asiático, mas de ser o maior de todos os países europeus.

As raízes desta russofobia encontram-se em muitas fontes. O apreço das elites intelectuais inglesas, sobretudo anglicanas, foi substituído pelo espírito de merceeiro que rege a Inglaterra sobretudo depois da II Guerra Mundial e por maioria de razão depois da tomada de poder pelos conservadores nos anos 80. Um James Bond nunca surgiria de um espírito aristocrático inglês.

Mas as raízes são bem mais fundas. A oposição entre ocidentais e orientais é assumida tanto por protestantes como por católicos, que no fundo participam do mesmo movimento romano-germânico de formação da Europa, que, sendo o de mais forte impulso, não é o único. A Europa formada com a matriz bizantina (se Bizâncio era ou não Europa deixo para outras núpcias) é aceite ainda hoje em dia por muitos como uma espécie de Europa dos pequeninos, uma Europa adorável na melhor das hipóteses, mas que tem muito que aprender connosco, como se toda a Europa Oriental e Central fosse uniforme, e como s e não tivéssemos nós a aprender com ela.

Que a cultura russa seja uma imensa cultura não tenho dúvidas. Não por ser cultura, o que é trivial. Sempre me pareceu que há culturas desprezíveis, enfadonhas, sem originalidade. Quem gasta a admiração com todos acaba por mostrar apenas que não quer admirar efectivamente ninguém. A cultura russa é admirável, não por ser cultura, mas por não ser trivial no que é e no que nos deu.

Na matemática deu-nos Lobatchevski e Kolgomorov e só por isso já mereceria a minha vénia. Na química Mendeleev e assim o meu respeito. Na música, literatura tantos outros. Mas no pensamento, menos lembrado no Ocidente, embora não tenha criado grandes sistemas filosóficos, ou talvez por isso mesmo, mostrou um realismo, uma capacidade de nos lembrar de dados fundamentais, que lhe dá uma função equivalente à da filosofia inglesa.

Cada um na sua vertente, seja Soloviev, seja o Padre Gagarin, seja Herzen, ou tantos outros, disseram qualquer coisa que nos revela, enquanto ocidentais, como apenas uma parte da Europa. Não é por acaso. A elite russa dominava o francês, o inglês, o alemão, o latim, o grego e o russo. Estava por isso habituada a circular entre as grandes línguas cultas da Europa. A imensidão do seu país estava na medida da imensidão dos seus estudos. Era precisamente a consciência do seu atraso económico e de desenvolvimento como um todo, associado à noção da sua entrada recente (quão recente e quão pouco recente, é questão mais complexa) no concerto europeu que lhe dava a frescura das suas análises, e o realismo das suas críticas.

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Rei Édipo

«A voz gloriosa, partindo do nevado Parnaso, ordena que se busque o homem que se esconde; erra pelas florestas bravias, pelas cavernas, pelos rochedos, como um toiro, e anda vagabundo, o infeliz, miserável e solitário, para escapar ao oráculo saído do centro da terra; mas o oráculo, que não morre, o persegue por toda a parte.»*

«Maldito seja o que me desatou os pés cruelmente amarrados e me salvou da morte. Em nada lhe estou grato; se tivesse morrido nessa altura, não teria provocado tais dores, aos meus amigos e a mim!»*

Continuando esta pequena incursão por algumas das histórias dos antigos gregos, chegou a altura de lembrar o Rei Édipo, de Sófocles, no qual a questão da identidade se constitui como o centro de toda a acção, que nos mostra, porém, como a progressiva descoberta da identidade de Édipo vem inevitavelmente acompanhada da revelação de um crime. Édipo, com efeito, é aquele que quer, «venha o que vier, conhecer a sua origem, por mais obscura que seja», de tal maneira que assim possa escapar à tragicidade própria da sua existência: o seu crime, portanto, foi o de ter querido ou afirmar-se de tal modo que ele próprio se tornasse o princípio de todas as coisas; ou não se afirmar sequer... em ambos os casos, o seu crime foi o de ter querido a indiferença: ter querido, ainda criança, «fugir e esconder-se onde não pudesse ver cumprirem-se os oráculos vergonhosos e horríveis»; ter querido, já adulto, responder, de uma vez por todas, ao monstruoso enigma que trazia dentro de si: o que é o homem, este ser que questiona acerca de si mesmo?
O homem, de acordo com a concepção trágica de que Sófocles aqui nos dá conta, é este ser capaz de um encontro maravilhoso com a Esfinge: de um olhar de frente o próprio monstro que, no entanto, porque o homem lhe não pode dar resposta, logo a seguir o devora. Por isso nos diz Sófocles que a maior felicidade do homem é «a de parecer feliz e de logo morrer». Mas o homem é também este ser tentado a resolver o enigma e que, tal como Édipo, se subtrai à realidade e se substitui à natureza, sendo essa sua acção horrenda digna dos maiores castigos. É o próprio monstro, então, quem, desesperado, se mata, o que acarreta para o homem um castigo pior do que a morte, pois que agora, absolutamente determinado, já não se pode questionar.
É que «não era um homem qualquer que tinha obrigação de explicar o enigma, mas sim os adivinhos». É o próprio Tirésias quem o diz a Édipo: decifrar o obscuro enigma «foi exactamente o que te perdeu». O crime de Édipo, assim, foi ter ousado responder a «essa cadela, com as suas palavras obscuras, (...) sem o auxílio das aves e dos augúrios». Ele representa o homem que – aproveitando o dito de Protágoras – se impõe a si mesmo como medida de todas as coisas: o homem que se impõe ao próprio lógos ao invés de, colaborando com ele, participar nas delícias do divino palácio do ser.
Édipo, portanto, é o Adão do povo grego (sem esquecer, claro, que Adão é expulso por Deus do jardim do Éden, enquanto que Édipo pede, ele próprio, para sair), símbolo do homem pecador que, vítima do orgulho, se afirma, absolutamente definido, como o senhor de todas as coisas. Por isso se torna «para todos o irmão de seu próprio filho, o filho e o esposo daquela que o gerou, aquele que ocupa o leito de seu pai, depois de o ter matado». Ora, este homem indiferente, absolutamente igual a si mesmo, é o mais infeliz dos homens – porque vive sozinho. E o homem que vive sozinho, incapaz de ouvir as novidades que lhe trazem os mensageiros e os arautos, é um homem injusto: a cólera, a insensatez e o medo tomam sucessivamente conta de si.
A consciência da queda, no entanto, traz consigo a memória das alturas. O homem tem também, portanto, esta possibilidade de voltar a participar na vida dos deuses, que radicalmente se lhe manifesta nesse encontro com a Esfinge, «a Profetiza, a Virgem das garras recurvadas». A esse reencontro com o divino, no entanto, o homem só chega por via da comunidade com o outro, sendo que a comunidade com o outro só acontece por via da acção justa, isto é, da acção bela, corajosa e inteligente – as três verdadeiras virtudes do homem que caminha para o divino e que surgem a partir da própria natureza esfíngica da questão. Por isso nos diz Édipo: «ó encruzilhada, ó vale sombrio, ó bosques de carvalhos, ó estreito passo a que vão dar as três estradas».
Na verdade, o monstro, a que leva a estrada, está já presente no caminho, apresentando-se sob a forma de uma questão cuja figura é a de uma mulher com corpo de leão alado, símbolo das três instâncias que devem ser convocadas neste humano caminhar: a mulher, símbolo da beleza e da sensibilidade estética; o leão, símbolo da coragem, da força viril e primitiva; as asas, símbolo do espírito inteligente que compreende e une todas as coisas (cada uma destas três virtudes opondo-se imediatamente aos três vícios, atrás indicados, do homem só: a beleza opondo-se à cólera; a coragem ao medo; e a inteligência à insensatez).
Reconhecemos aqui, portanto, a estrutura, ou dinamismo, próprio do ser, tal como vinha expresso na Grécia já desde os poemas homéricos: Édipo é o símbolo do homem decaído, que, para expiar o seu crime, tem de, descobrindo e respeitando a estrutura virtuosa do real, reunir-se aos outros homens, com eles se transformando por relação ao que é sempre igual em todos e em cada um, para assim poderem regressar a casa.
A existência deste homem, no entanto, já não é mítica, antes se reconhece ordenada pelo lógos, que permite expressar universalmente essa experiência de um destino trágico a que nenhum homem pode escusar-se e que consiste ou em contrair «vergonhosas núpcias» – que são as do homem que, sozinho e, portanto, injusto, vive na indiferença –, ou em contrair «gloriosas núpcias» – que são as do homem que, em comunidade e, por isso, justo, acolhe em si mesmo o outro. Em ambos os casos, porém, o homem tem de escolher: é esse o seu destino.

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* SÓFOCLES, Rei Édipo, trad. Agostinho da Silva, Ed. Inquérito, Lisboa, 1939, págs. 34 e 69.

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domingo, 31 de agosto de 2008

Olha, já tivemos 100 mil visitas

Foto: SH

É SABIDO que a blogosfera está carregada de análises políticas GENIAIS. Sabemos também que há na "rede" circunspectos artigos que nem os nossos melhores jornais de referência mereceriam publicar. Confesso, nem sempre me parecem a melhor companhia.
No fim de semana e, na ressaca de um Benfica-Porto cheio de dores e estiramentos, arranjei forças para três ou quatro blogo-voltas. Tenho um lema: chatices não! Findas as voltas, aqui estão umas preciosidades pelas quais levanto com prazer o meu copo de tinto.

O regresso ao tropicalismo de Roberto Carlos, por sugestão do Armando Rocheteau.

Uma foto de mar salgado postada pela Madalena Palma e que me atrevi a publicar acima: “... E segreda-me todas as histórias sem fim.

A musical hermenêutica do mês de Agosto feita pelo Taxi Pluvioso: “Agosto é sinónimo de Portugal. Não só pela lazeira de nada fazer, na beach ou na night, mas porque acontecem coisas maravilhosas, coisas solares.”

Um post do insone Helder Guégués a dizer que Margarida Rebelo Pinto, quando jovem, não era “boa aluna, inteligente e comunicadora”, mas sim “boa aluna, inteligente e comunicativa”. Do erro está inocente a Margarida, vítima de radiofónico deslize da Antena 1.
Foi com voltas destas e por causa destas voltas que a Geração de 60 atingiu hoje as 100 mil visitas. Agradecemos a quem nos obsequiou com tão redondo número. Esperamos que se tenham divertido. Sejam exigentes, "Chatices, não! ", nem sequer as desta Geração.

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sábado, 30 de agosto de 2008

...but why not Barry?


Os posts da Sofia e do Manuel obrigam-me a libertar os meus receios.


Claro que vejo desde há muito o Barack Obama como uma lufada de ar fresco na política internacional. Desde o princípio que estou a torcer por ele. Lembro-me de estar de férias em Fevereiro e ir compulsivamente à Net ver se o Barack tinha batido a Hillary nos estados chave.

Sim, o homem tem brilho. Sim, o homem tem carisma. Sim, o homem tem mensagem. Sim, o homem traz esperança. Sim, o homem tem substância e não é apenas uma construção dos media. Sim, o homem é o melhor que nos poderia acontecer. SIM! Eu voto Obama.

Ou votaria, se pudesse. Isto é uma visão ultra-eurocêntrica das eleições americanas, infelizmente... acho que se as eleições americanas fossem na Europa o amigo Barack ganhava com 90% dos votos. Alas, poor Yorick: não são. São na América e, imposição da democracia, votam apenas os americanos.

Pelo que leio, a mensagem de Barack Obama passa bem nos centros urbanos, culturalmente sofisticados, white-collared. É na América profunda que começa a despertar uma vaga de fundo contra a sua candidatura. A América blue-collared reage: há estados em que a maioria democrática parece ir votar McCain. A mensagem Obama não convence a (perdoem-me a expressão) "classe operária".

O quê? Depois de uma vida de trabalho, ter um negro como presidente? E com ascendência islâmica? E se é tão bom americano, porque é que não mudou o nome de Barack para o bom, good old american, Barry? (imaginar a cena num bar do Midwest por um americano de camisa de alças a beber a 6ª cerveja; o arroto no fim é facultativo).

Abstenho-me de dizer o que penso destes comentários. Mas nem eu, nem a Sofia, nem o Manuel, votamos nas eleições americanas; este blue-collared reactionary, embora fictício, sim.

É ele o principal rival de Obama nas eleições.





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