sábado, 30 de agosto de 2008

Barack

Este post da Sofia fez-me voar no tempo. Back to the past. Fez-me lembrar que, noutro tempo, noutro lugar, já esperei por Barack.
Em 1975, em Luanda, tão jovem, tão comovido com a minha própria militância, sonhei que do nevoeiro, do cacimbo e do capim, surgiria um Barack.
Eu queria, eu sonhava. Por tudo, pela justiça que era devida a milhões de deserdados de mato e musseque, pelo exaltado e superior ideal que seria tirar da dúbia cartola de um conflito de classes e de raças o melhor e mais leibniziano dos mundos, eu esperava, eu tinha a certeza de que, negro e messiânico, encontraríamos, após longas horas de científico debate, ou de orgia de poder popular, um Barack redentor. Nunca, nunca chegou!
Aos 10 anos de idade, numa aula do 1º ano de liceu, no Salvador Correia de Sá e Benevides, soube que John F. Kennedy tinha sido assassinado. Lembro-me, ainda me lembro, que, dois anos antes, o meu pai me levara a ver, do outro lado da rua, o consulado americano apedrejado dois dias antes por razões patrióticas. No dia em que anunciaram a sua morte, alguém me disse a palavra mágica. Não sei se foi “Change” a palavra passe, se foi “Liberdade” ou apenas “Democracia”, sei que bastou para perceber, no dia da sua morte, que para mim este Barack chegara cedo de mais. Morto, não me servia para nada.
Em 1968, muito mais morto, já sem poder chegar, deram-nos a ver o corpo humilhado e ofendido do padre Martin Luther King Jr. Chegou sem poder chegar, sonho de Barack que não tinha como ser sonhado.
Nem cedo, nem tarde, o único Barack que chegou mesmo, na improvável África do Sul de 1994, foi Nelson Mandela. Confesso: nem em sonhos o esperava. Não importa, esperavam-no muitos milhões. A mais milhões, milhões de outros, fez sonhar e fez renascer.
E logo agora que este Barack vai chegar, ando às voltas a perguntar-me: já não estou à espera ou já não consigo acreditar?

(mais)

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

America, we cannot turn back…


Há um brilho especial neste homem. Um sopro de algo diferente que perpassa. Não há dúvida.

Barack Obama sente a História e parece encontrar-se com ela. Minutos depois da formalização da sua nomeação pela Convenção Democrata, a emoção do Congressista John Lewis, testemunho vivo da inesquecível marcha de Washington de 28 de Agosto de 1963, era eloquente. Ontem à noite, o seu discurso de aceitação, exactamente 45 anos depois, centrando-se no alcance político da “promessa americana”, ligando a grandeza dos EUA à ideia de um país que premeia o sonho, o trabalho e o mérito, no qual o filho de uma jovem americana de Kansas City e de um jovem queniano pode vir a ocupar a Casa Branca, assegurou-lhe uma nova e decisiva dimensão: a de protagonista histórico, num tempo que reclama a mudança e nela antecipa o futuro.

Em Obama, impressiona este sentido da História. A sua grande mensagem de ontem foi: America, we cannot turn back. Mas acrescentou, actualizando Martin Luther King Jr., we cannot walk alone

(...)
Change happens - change happens because the American people demand it, because they rise up and insist on new ideas and new leadership, a new politics for a new time.
America, this is one of those moments.
I believe that, as hard as it will be, the change we need is coming, because I've seen it, because I've lived it.
(…)
America, we cannot turn back. We cannot walk alone.
At this moment, in this election, we must pledge once more to march into the future. Let us keep that promise, that American promise, and in the words of scripture hold firmly, without wavering, to the hope that we confess.
Thank you. God bless you. And God bless the United States of America.
(versão integral, ver aqui)

Há em Obama um ‘back to basics’ politicamente inspirador. Retoma o elogio da vontade. Retoma o radical dos grandes princípios e valores políticos. Retoma o sonho.

Só por isso, e seja qual for o resultado, é caso para dizer: oxalá o mundo o oiça!

(mais)

The Slaying of Syncopation





Ironias das ironias, o Jazz, que nascera africano e crioulo, que era filho do blues e dos espirituais negros, nasceu imaculadamente branco para a industria discográfica. Pela mão do italo-americano Nick La Rocca e da sua alvíssima «Original Dixieland Jass Band» (Jass, sim, mas isso fica para outro post). «Livery Stable Blues» foi um êxito instantâneo. Êxito que, para não destoar, contribui também para desarranjar a frágil cabeça do jovem Dominic.
O homem que, muito antes dos Doors, tocara já no bar vetusto de um outro Morisson Hotel, o provocador que gostava de dizer que o Jazz «is the assassination of the melody, it's the slaying of syncopation» sucumbiu a um «nervous breakdown» («foi dos nervos», diríamos nós). E acabou os seus dias dedicado à construção civil mas sobretudo à divulgação de uma tese verdadeiramente peregrina: o Jazz era, sempre fora, coisa de brancos.

(mais)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O que no cache se adivinha

Entre o cache-sexe que eu julguei adivinhar aqui, no concavo recôndito de Kiki de Montparnasse, e o musical assomo com que o Pedro N. se expôs aqui, passo a oferecer o que, por distintas razões e distintos fins, aos dois cache-sexe igualmente serve.

Primeiro pende e se engrossa
depois arqueia-se aos saltos
e em soluços se ergue teso
arreganhando-se róseo.
Brilha de lisa a cabeça
sobre os rebordos violáceos
e veias finas palpitam
ao longo da grossa haste
que se adianta da confusa
negridão de que flutua
o saco de oblongas bolas
de esparsos pêlos coberto.


E quem será o poeta – grande entre os grandes – que escreveu este poema, parte de "adivinha dupla"? Se descobrirem prometo a outra contráctil parte da adivinha.

(mais)

Cache-sexe «à homem»

Comentário politicamente correcto a este post do Manel: «este Fonseca é um tipo verdadeiro misógino! Desde quando é que só as mulheres usam cache-sexe?»


(mais)

Fazer política

Em 2008 existiram mais ou menos incêndios do que em 2007? A esta pergunta aposto que a maioria de nós, cidadãos incautos, responderia que o número de incêndios diminuiu. Pois bem, segundo os dados da Direcção Geral dos Recursos Florestais, de 1 a 15 de Agosto de 2008, a área ardida em Portugal é cerca de 35% superior à que ardeu em igual período do ano passado (para ser totalmente honesto, terei também de dizer que, ainda assim, o número é muito inferior aos dos anos imediatamente anteriores).
Como explicar esta divergência entre a realidade estatística e a realidade percebida? Tenho uma tese não demonstrada: arrisco-me a apostar que o número de notícias sobre incêndios diminui em 2008.
E com isto, volto à «vaga» de criminalidade que alegadamente «assola» o país. De uma coisa ninguém terá dúvidas: a criminalidade «assola» o «país mediático». Mas nestas coisas convém lembrar que também há um «país real». E se acreditarmos no Secretário Geral do Gabinete Coordenador de Segurança, feitas as contas, a «vaga» corresponde a um aumento de 10% da criminalidade no 1º semestre deste ano.
Preocupante? Sem dúvida. Mas o fenómeno justifica uma intervenção do Presidente da República e uma oposição em bloco a reclamar a cabeça do Ministro da Administração Interna? A resposta dependerá da concepção que cada um de nós tiver do que deve ser «fazer política».

(mais)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Cache-sexe

Por razões supérfluas, pus-me a olhar melhor para a fotografia de Man Ray que, por pura funcionalidade, escolhi em post anterior e dei comigo a pensar que a nudez feminina tem mudado alguma coisa.
Olhando para Les Cheveux e, se fizermos justiça ao título, fixando-nos mais directamente no perfeito triângulo negro que se ergue no encontro de ventre e coxas, damo-nos conta de que a vulnerabilidade e ousada exposição do final dos anos 20 do século passado parece hoje, na primeira década do século XXI, quase um cache-sexe.
Ali, onde Man Ray homenageava a deusa do amor com o mais natural e ecológico dos montes, não sei se por efeito de algum pretenso aquecimento global, triunfa hoje uma planície em vias de desertificação.
Duvido que Man Ray, fotógrafo de Kiki (à esquerda) e de Primado da Matéria Sobre o Pensamento (à direita), apreciasse esta depreciação pilosa.











(mais)

I drink that much gin in a day!




Já o senhor de ar imponente desta fotografia tem a honra duvidosa de NÃO ter gravado o primeiro disco de jazz da história. Freddie Keppard (era o seu nome) foi a «next big thing» de New Orleans, depois de Bolden. O peso da herança, está visto, fez-lhe mal à cabeça. Inebriado com o sucesso, cioso da sua arte, começou por tapar as mãos com um lenço enquanto tocava. Tinha, dizia-se, um receio tremendo que alguém lhe roubasse o jeito que o celebrizou. Mas esta era ainda uma tara mansa. Foi a Victor Talking Machine Company que acabou por garantir-lhe um lugar nesta história de jazzers com um parafuso a menos. Teve, repito, a oportunidade de gravar o primeiro disco de jazz da história. Chegaram a acenar-lhe com a fabulosa quantia de 25 usd, imagine-se. Mas à Victor disse nada. Ou melhor, terá dito: «Twenty-Five dollars? I drink that much gin in a day!»
A verdade era outra. Keppard não era parvo nenhum. Sabia bem que só queriam «steal his stuff».

PS: Perdoem-me esta súbita investida pela arqueologia do Jazz. Estou a rever isto. O seu a seu dono.

(mais)

Poupar dinheiro

Há uns tempos o Presidente da República disse que os portugueses poupavam pouco e que era preciso poupar mais (e há mesmo razões macroeconómicas urgentes para o fazer). Numa entrevista que dei à data penso que à Antena 1 concordei com o Presidente e dei conselhos de poupança. Fiquei com um peso na consciência pois não sou por natureza poupado e estava a pregar à Frei Tomás. Peguei em mim e resolvi ver o que podia fazer e eis o que já consegui, com umas horas livres e sem virtualmente diminuir aquilo a que tenho direito:

Seguro da mota: menos cerca de 120 € ano
Seguro do carro: menos cerca de 500 € ano (!!!)
Anuidade do cartão de crédito: menos 50 € ano
Reembolso do arredondamento de créditos: 1.000 € (wishful thinking)

Próxima etapa: poupar nos supermercados. Aconselho vivamente a que revejam os seguros das “viaturas” pois houve ai uma silenciosa (et pour cause) revolução nos preços.

(mais)

Aquele querido mês de Agosto



Um filme simples, despretensioso, interessante, sensível, informado e muito, muito inteligente. Ao que parece feito com pouco dinheiro e tudo salvo por uma excelente montagem. Ainda por cima com uma história em sub-plot também muito interessante. Mas acima de tudo um filme inteligente. Só não consegui encontrar um trailer to look at à altura.

(mais)

A lenda do minotauro (II)



Há várias lições a retirar deste mito encantador. Em primeiro lugar, porém, esta: Teseu queria saber quem era. Nada era tão importante. Quando pensava em ir ter com o seu pai e dizer-lhe que era seu filho, Teseu ia à procura de si mesmo: ia perguntar ao pai quem era!
O problema da identidade, de facto, apesar de só ter sido expressamente colocado, de um ponto de vista filosófico, em 1690, por John Locke (An Essay concerning Human Understanding), surge central no pensamento grego. Porque se é verdade, como disse Parménides, que «o ser é e não pode não ser...», não é menos verdade, como disse Heraclito, que «os confins da tua alma nunca os encontrarás, mesmo que percorras todo o caminho.» Fica por saber, portanto, o que é “isto” que estranhamente persiste entre o uno e o múltiplo e que absolutamente resiste à uniformidade e à mudança.
Ora, a questão já aqui é colocada em toda a sua extensão, que vai do reconhecimento exterior – material e jurídico – de si mesmo (Teseu é primeiramente identificado pelas suas características físicas e pelos seus laços de parentesco), até ao encontro interior – moral e pessoal – de si próprio (Teseu vai-se progressivamente identificando pela consciência que os outros, primeiro, e ele próprio, depois, vão tendo das suas acções).
É muito estranho, de facto, sermos, sabermos que somos, e não sabermos quem somos, ou o que somos. É essa a grande jornada para a qual Ethra preparava o seu filho. Mas como é que nos procuramos a nós mesmos? Tal como Teseu: calçando as sandálias de nossos pais e empunhando as suas armas: fazendo obra! Porque nos conhecemos ao mesmo tempo que nos revelamos, ao mesmo tempo que nos fazemos. É desta encruzilhada, própria do ser humano, que repetidamente falam os gregos.
Ethra, por isso, chorava, ao ver o seu filho partir: porque não há garantias; porque nos podemos perder. Todos temos, dentro de nós, Egeu e Minos: e ambos querem governar. Essa escolha, porém, é interior. O olhar dos outros não me diz quem sou. Ao contrário, tenho que ser para poder olhá-los. Nessas idas e vindas entre o fundo da caverna e a luz do sol, de que falará Platão, preciso dos outros para ser e preciso de ser para os outros. Na outra margem, portanto, do outro lado, tem que estar Ariadne (que me olhou por eu ter coragem e cujo olhar me encorajou), segurando o frágil fio de seda – a palavra, o discurso, a razão (em grego: lógos) –, com o qual me comunico a mim e aos outros na estranheza deste meu caminho.
Nascemos. Somos preparados por nossa mãe (a natureza) para a grande jornada que há-de vir: descobrirmo-nos! Quando é chegada a hora vamos à procura de nós mesmos. Onde? Em todo o lado e ardentemente, como é próprio da juventude. Calçamos as sandálias de nosso pai e empunhamos a sua espada (cultura e civilização humanas) e, onde ele parou, continuamos. Mas não há garantias. Longo é o caminho até Atenas.
Seguimos, obstinados, até à nossa meta: olhar nos olhos de nosso pai! Então ele nos dirá quem somos. Quando lá chegamos, porém, ele olha-nos nos olhos e não nos reconhece. Mas se não nos perdemos no caminho, se nos provámos justos e corajosos, trazemos ainda a sua marca intacta em nós. Vendo-a, ele convidar-nos-á a governar junto de si. Mas a lição deve ser aprendida: o seu reino não é o nosso. Temos de descobrir-nos.
Na verdade, podemos acomodar-nos e sentar-nos ao lado de nosso pai, gozando os confortos do seu reino e as delícias do seu amor. Mas então não seremos livres. Ser príncipe não é ser filho de um rei: é tomar livremente sobre si as obrigações dos seus súbditos! É escolher, em cada dia, ir ao encontro de nós próprios e construir verdadeiramente o nosso reino.
Para sermos verdadeiramente nós próprios temos de enfrentar livremente essa batalha original. Depois de nos termos procurado em todo o lado, sem, contudo, nos reconhecermos ainda, falta olhar dentro de nós. Aí veremos, meio escondidos, Egeu e Minos... ambos querendo governar. Esse horrível monstro, metade homem e metade toiro, prendendo-nos à ferocidade do desejo que tudo quer para si mesmo, quer-nos esconder e subjugar. Temos, porém, de matá-lo, se queremos ser livres: se queremos ser nós!
Essa morte, no entanto, é dolorosa. Na nossa carne morre o monstro e, nele, parte de nós! E só um frágil fio de seda nos liga ainda aos olhos de um outro, aos quais nos mostramos cada vez mais, nos quais nos vemos cada vez melhor. O olhar que nos reconhece, porém, é agora nosso. Não é já o dos nossos pais. Esses têm de morrer (como acontece ao rei Egeu quando Teseu regressa a Atenas), para que a natureza e a cultura sejam, em nós, uma vez mais, reinventadas (é esta, bem entendido, a história de Édipo, que no próximo post, assim o espero, havemos de ver).

(mais)

Álvaro Siza ao DN


Alguns comentários a propósito da entrevista de Álvaro Siza Vieira ao Diário de Notícias de Domingo.

1. A sobreposição dos interesses do Estado (que não deveria ter interesses e muito menos encapotados) à livre concorrência quando “inventa” concursos públicos por obrigação de procedimento legal mas atribui as vitórias a quem previamente convidou para ganhar. Nunca se poderá provar. A não ser que os coniventes falassem (denunciassem) coisa que no seu interesse próprio nunca farão. Lembro-me de pelo menos três concursos em que à boca pequena se dizia para quem estavam destinados, o que mais tarde se confirmou. Avisar antes poderia ser condicionar os resultados e abrir um terrível precedente para futuros casos ou instalar uma suspeição constante e fácil sobre todos os concursos. Denunciar depois seria sempre mau perder.

Nos tempos que correm ter uma obra de um arquitecto internacional é como ter uma loja internacional num Centro Comercial. O interesse do mundo deixou de ser a diferença entre culturas e tradições para passar à pretensão de ter o mundo todo num mesmo lugar, o que resulta em tudo em todos os lugares, e que por fim é: tudo igual a tudo.

A perversão atinge os próprios arquitectos – estrelas. Já ninguém se interessa pelo arquitecto em si ou pelo projecto em si. Governantes e autarcas incultos e deslumbrados só querem uma coisa: uma assinatura que ponha os seus países ou as suas cidades no mapa. O que parece uma boa ideia feito uma vez, torna-se num pesadelo saloio para o poder, caro para o contribuinte e vazio para o próprio arquitecto.

2. Álvaro Siza é um caso que pode exemplificar uma forma diferente de ser arquitecto internacional. Tem como poucos a capacidade de se imbuir das culturas locais. Não deposita objectos aleatórios em paisagens indiferenciadas. Tendo aceite de uma forma comedida fazer projectos fora de Portugal, tem-nos feito sem corromper o seu trabalho e tem acrescentado valor e qualificação aos lugares onde intervém. Talvez porque, ao contrário de outros arquitectos do star system, a que Siza pertence por reconhecimento dos seus pares, o seu trabalho fora de Portugal teve sempre uma contextualização disciplinar que resulta da sua própria investigação e caminho dentro da arquitectura e do urbanismo. Disso resulta menos espectacularidade e mais arquitectura no sentido antigo de “fazer cidade”.

Habitação social na Alemanha e na Holanda onde Siza compreendeu os lugares e a sua tradição, tornaram edifícios, que pelo seu tema / programa seriam menos espectaculares, em obras de referência e em reflexões contemporâneas sobre a própria história e o destino da arquitectura. Intervenções no espaço público como em Lisboa (Chiado), Madrid (Paseo del Prado) e agora Milão (Avenida Sempione) são intervenções que fazem do arquitecto um intérprete cuja inteligência se dilui na obra que o público reconhece e a história assimila. Bem diferente das vedetas que criam objectos que, passado o efeito surpresa, se vão tornando obsolescentes e até maçadores.

Vale em Siza uma característica: a simplicidade e contextualização do exterior dos edifícios vs uma surpreendente concepção espacial no interior. Não será essa uma das grandes qualidades da arquitectura? Não será isso que nos surpreende no Panteão de Roma ou na igreja de S.Carlo alla quatre fontanni de Borromini também em Roma?
A afirmação internacional de Siza é a afirmação de uma cultura de resistência disciplinar.

3. Outra questão posta por Álvaro Siza é importância da legislação, do ordenamento do território, por exemplo (como da legislação em geral), para combater a arbitrariedade do gosto e dos interesses isolados sobre o espaço público ou do espaço enquanto património de uma comunidade. De facto, a questão do gosto não é contornável pela legislação. O gosto forma-se pelas tendências naturais e pela educação que ensine a ver e a fazer. Mesmo assim, será difícil e indesejável uma unanimidade. O gosto é sempre uma posição de maiorias dentro de grupos circunscritos. Pode falar-se no gosto dos decoradores, dos arquitectos, como pode falar-se do gosto entre outros grupos, por exemplo, sociais. O gosto funciona como um código de reconhecimento na relação biunívoca do indivíduo com o grupo e, por isso, é sempre dominado por maiorias dentro desses grupos.
A lei, o Direito, sobrepõe-se a esses grupos e a esses consensos circunscritos, garantindo um interesse geral que está para além do tempo e pode garantir uma unidade cultural, tradicional e até civilizacional que os interesses imediatos do dia-a-dia não podem, por si sós e pela sua natureza imediatista, fazer prevalecer.

4. Uma quarta questão posta por Álvaro Siza foi a do tempo de estudo que os projectos de qualidade exigem. Siza sabe que a facilidade, o jeito, até o talento, não dispensam uma reflexão que está para além do objecto arquitectónico. De algum modo está implícita uma reflexão filosófica que se realiza na história e na tradição —reflexão sobre o lugar — e no sentido da actualidade — que é uma reflexão sobre o tempo. A assimilação de que Siza fala e que mesmo nas rupturas (rupturas feitas com oportunidade e não a ruptura por preconceito de mudança geracional) acabam por se reintegrar na continuidade que a arquitectura sempre representa. De algum modo a arquitectura é sempre uma vitória do espaço (lugar, presença) que fica sobre o tempo que passa. Ficar é a prova da continuidade. A disciplinaridade é a resistência e a perduração do essencial.

(mais)

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O Meio do Céu

Man Ray, Les cheveux
Sei, sem sombra de dúvida sei, que os horóscopos são científicos.
Mesmo assim tenho alguma dificuldade em compreender como é que no mesmo dia, 27 de Agosto, nasceram Confúcio, Hegel, Man Ray e Cesária Évora. Virgem, todos. Virgem diz o Sol, diz a Lua, concordam os planetas. Claro, há os antecedentes e o meio do céu: séculos diferentes, línguas diferentes, locais diferentes.
Mas haverá destinos que a geografia, a cultura e o tempo tenham separado e que o zodíaco não consiga unir?
Os Anacletos de Confúcio, a dialéctica hegeliana, a Kiki de Man Ray, a ausência de Cesária, fazem todos parte da mesma poeira humana. Dispersa no cosmos, unificada no mapa astral.
Ah, “si asa um tivesse / pa voa na esse distancia”.

Cesária, Ausência

(mais)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O som de Bolden


O homem da fotografia viveu entre a década de 70 do século XIX e a década de 30 do século XX. Barbeiro de profissão, bêbedo muitíssimo competente, acabou os seus dias num hospital psiquiátrico do Estado do Louisianna. A foto, carcomida pela humidade, é o único registo que sobreviveu do homem e da sua obra. O que, convenhamos, é pena. «To say the least». Atendendo a que foi o primeiro a tocar uma música estranha, misto de blues, de gospel e de ragtime, a que anos mais tarde alguém chamaria ... jazz.
A que soaria, exactamente, o som de Bolden?

(mais)

Back to school (non è vero ma è bene trovato)


Mão amiga fez-me chegar uma daquelas mensagens apócrifas que circulam pela Internet: um discurso de Bill Gates aos alunos de uma escola secundária em 2002. É de cortar a respiração o retrato que, indirectamente, é feito dos adolescentes (confesso: sou pai de um e sinto-me muito atingido).

Então aqui estão as 11 unwritten rules de que Bill Gates falou aos finalistas da Escola Secundária Mt. Whitney, em Visalia, California na abertura do ano lectivo de 2002. Passo a citar o reformado mais rico do Mundo.

"Rule 1: Life is not fair -- get used to it!

Rule 2: The world won't care about your self-esteem. The world will expect you to accomplish something BEFORE you feel good about yourself.

Rule 3: You will NOT make $60,000 a year right out of high school. You won't be a vice-president with a car phone until you earn both.

Rule 4: If you think your teacher is tough, wait till you get a boss.

Rule 5: Flipping burgers is not beneath your dignity. Your Grandparents had a different word for burger flipping -- they called it opportunity.

Rule 6: If you mess up, it's not your parents' fault, so don't whine about your mistakes, learn from them.

Rule 7: Before you were born, your parents weren't as boring as they are now. They got that way from paying your bills, cleaning your clothes and listening to you talk about how cool you thought you are. So before you save the rain forest from the parasites of your parent's generation, try delousing the closet in your own room.

Rule 8: Your school may have done away with winners and losers, but life HAS NOT. In some schools they have abolished failing grades and they'll give you as MANY TIMES as you want to get the right answer. This doesn't bear the slightest resemblance to ANYTHING in real life.

Rule 9: Life is not divided into semesters. You don't get summers off and very few employers are interested in helping you FIND YOURSELF. Do that on your own time.

Rule 10: Television is NOT real life. In real life people actually have to leave the coffee shop and go to jobs.

Rule 11: Be nice to nerds. Chances are you'll end up working for one."

Inacreditável, hem? Para quem tem filhos adolescentes hoje em Portugal, parece um retrato de família. É quase mau demais para ser verdade.

Geralmente as coisas boas demais para serem verdade são mesmo boas demias, e portanto falsas. Neste caso é mau demais para ser verdade - e é falso.

A minha reacção visceral ao receber histórias destas por email é duvidar. No 1% de casos que merecem o meu tempo, vou ao meu detector de lendas urbanas favorito, o Snopes (ainda não sabe responder àqueles amigos que dizem que o Pai Natal é vermelho e branco por causa da Coca-Cola?), e é muito raro não encontrar lá informação sobre a história. Foi o que aconteceu neste caso: a história está desmontada aqui (lá está também uma versão mais detalhada dos 11 Mandamentos de Gates).

Non è vero. Ma è bene trovato! Quem não reconhece, nem fica deprimido, com os sintomas descritos nesta alegoria ponha o dedo no ar.

As minhas mãos estão para baixo.






(mais)

A lenda do minotauro (I)



A lenda do minotauro, na história dos portugueses, imediatamente remete para o episódio em que João Lourenço da Cunha, depois que el-rei D. Fernando lhe roubou a belíssima Leonor Teles, com quem era casado, decidiu passar-se a Castela, onde em todo o lado se apresentava brasonado de minotauro, ostentando na cabeça duas grandes hastes doiradas.
A lenda, obviamente, diz muito para além disto e merece bem ser conhecida por si mesma. Não cabendo aqui transcrevê-la, porém, e nem sequer resumi-la, realçarei, em dois breves posts, alguns dos seus aspectos que talvez mais possam interessar.
O herói da história é Teseu, que em criança foi educado por Ethra, sua mãe, no palácio do seu avô, o rei Piteus, na velha cidade de Trezena. O seu pai, o rei Egeu, vivia na Ática, em Atenas, a qual governava e, por isso, não podia abandonar, pois um monarca tem o dever de cuidar sempre do seu povo.
Enquanto crescia, Teseu perguntava muitas vezes pelo seu pai, que nunca vira e muito desejava conhecer. A sua mãe, no entanto, não o deixava partir e dizer ao rei Egeu quem era – de todos o seu maior anseio –, enquanto não fosse suficientemente crescido e capaz para uma tal jornada.
Todos os dias perguntava Teseu a sua mãe quando poderia partir, menino ainda que era. Um dia ela disse-lhe que quando ele fosse capaz de levantar a pesada pedra onde estavam sentados, conversando, consentiria em deixá-lo partir para Atenas para dizer ao pai quem era.
Era a tarefa de um gigante. No entanto, dia após dia ele o tentou, até que, passados anos, chegou o momento esperado e a enorme rocha cedeu ante os esforços de Teseu. Ethra ficou muito triste por ver que tinha chegado a hora de se separar do seu filho muito querido, mas percebendo que nada mais podia fazer, entregou-lhe uma espada com um punho de ouro e um par de sandálias que o rei Egeu lhe tinha deixado debaixo daquela pedra, quando, anos antes, a levantara com os seus poderosos braços, colocando-a no local de onde agora Teseu a retirava.
No longo caminho até Atenas, que percorreu com as sandálias de seu pai, viveu muitas aventuras, e muitos foram os salteadores e os bandidos que, empunhando a sua espada, derrotou, sem piedade, de tal maneira que a fama da sua coragem e do seu carácter chegou a Atenas antes dele. Aí, porém, os sobrinhos do rei, com medo que este agora o preferisse, esquecendo-se deles, preparam-lhe uma armadilha, apresentando-o como um traidor que vinha para o matar.
O rei, encolerizado por tamanha afronta, ordenou imediatamente que o prendessem e o matassem, embora sentisse, ao olhá-lo nos olhos, algo estranho. Parecia sentir que aquele homem era bom e justo, mas era confuso o que sentia. E foi já no último instante, ao ver a sua própria espada, que reconheceu o seu filho, o qual logo abraçou, banindo para sempre os verdadeiros traidores. Os dois, desde então, felizes, governaram Atenas, onde Teseu se tornou conhecido de todos pela sua coragem e pelo seu carácter.
Uma vez mais, porém, tudo se precipitou. Na ilha de Creta havia um horrível monstro, o minotauro, cujas formas eram em parte de um homem e em parte de um toiro. O rei Minos, que governava a ilha, gastara muito dinheiro na construção de uma habitação para o horrível monstro, que tinha a obrigação de alimentar. Ora, acontece que, alguns anos antes, os atenienses, entrando em guerra com Creta, foram derrotados, tendo a paz sido concedida com a condição de que Atenas enviasse anualmente sete jovens e sete virgens para serem devorados pelo monstro do cruel rei Minos.
Teseu, ao saber desta terrível história, ofereceu-se, contra a vontade do pai, para ser um dos sete jovens desse ano, os quais eram normalmente sorteados:
– É exactamente por ser um príncipe – disse ele ao pai – e o legítimo herdeiro do teu reino, que livremente tomo sobre mim as calamidades dos teus súbditos.
Deixando o pai muito triste, foi então para Creta, para ser devorado pelo minotauro. A sua atitude e coragem, no entanto, diferenciavam-no dos restantes jovens, o que não passou despercebido a Ariadne, filha do rei de Creta, que era contrária à crueldade do pai.
De noite, enquanto esperavam a aurora em que seriam sacrificados, os pobres atenienses choraram, até que, embalados pelos próprios soluços, adormeceram. Apenas Teseu se mantinha em pé, acordado, pensando numa forma de os salvar. Apareceu então a princesa Ariadne, que abrindo a porta da cela lhe pediu que rapidamente fugisse. Mas ele disse-lhe que não podia abandonar os seus companheiros, convencendo-a a levá-lo até ao refúgio do minotauro.
Percorreram um bosque escuro e cerrado até que chegaram a uma porta, único acesso a um escuro labirinto, no meio do qual estava o terrível monstro. O minotauro era fácil de encontrar, apesar do labirinto, pois os seus roucos rugidos indicavam o caminho a seguir. Mas como é que de lá sairia, se o matasse? Ariadne disse-lhe então que segurasse a ponta de um fio de seda, que lhe entregou; ela seguraria a outra extremidade e assim, se ele sobrevivesse, poderia sair do labirinto.
A luta foi longa e feroz e foi apenas no momento em que o minotauro estava prestes a devorá-lo que, de um só golpe, Teseu o matou. Rapidamente saiu do labirinto e, reunindo os outros, logo fugiram para Atenas. Ariadne decidiu ficar junto a seu pai, que, no fundo, amava, na ilha que um dia governaria.
Na viagem de regresso, no entanto, vinham todos tão felizes e excitados, que Teseu se esqueceu de içar velas brilhantes – e não pretas –, sinal de que vencera o minotauro, tal como o seu pai lhe pedira, o que fez com que o rei Egeu, do alto de uma montanha onde, todos os dias, esperava avistar o barco regressando, vendo que as velas eram pretas e pensando, por isso, que o seu filho tinha morrido, se atirasse com o seu ceptro e a sua coroa para o mar, que desde então tem o seu nome, por nele ter morrido afogado.*
Interpretarei no próximo post alguns aspectos desta lenda. Para já, porém, deixo-o assim solto à livre imaginação de cada um.


* Adaptação feita a partir do texto de Nathaniel HAWTHORNE, Narrativas e Lendas da Antiga Grécia, Ed. Paulistas, Lisboa, 1960, vol. II.

(mais)

domingo, 24 de agosto de 2008

Dúvida metafísica

Quem é o político português que, no seu blog pessoal, escolheu o «Geração de 60» como único - repito, ÚNICO - blog favorito?
A extraordinária resposta está aqui.


Muito presumido e minimamente educado, agradeço a cortesia. Inquieto, terrivelmente inquieto, pergunto a quem saiba mais destas coisas do que eu: tão simpática distinção fará de mim - tecnicamente - um Santanista?

(mais)

Sentido de Humor

Com fulgurante ironia, de dedo apontado à reserva de Sócrates sobre a criminalidade que campeia nas ruas, a habitual crónica da Manuela Ferreira Leite no caderno de economia do "Expresso" intitula-se "Silêncio Alarmante".
Se o título for da autoria da própria quero já registar o meu deslumbrado apreço pelo sentido de humor da líder da oposição.
O "Expresso" não quis, aliás, ficar-lhe atrás e, lá bem no coração do seu caderno principal, dedica-lhe um outro artigo com título à maneira do velho "Independente", e cito, "Maria Silenciosa".
Haverá por aí, no meio da sala ou no meio da rua, alguém a querer dizer qualquer coisa?

(mais)

Redenção Trotskista




«O que a sensatez exige é que o Estado e a Lei não se metam no que não é do Estado e da Lei». Quem terá proferido tão sensatas palavras? Locke? Montesquieu? Hayek?
Pasmo! Espanto! Comoção! Louçã, «lui-même»!
Mais duas ou três destas e estou disposto a ceder-lhe o meu lugar, aqui no Geração de 60.

(mais)

sábado, 23 de agosto de 2008

Manipulação stalino-maoísta

Os Jogos têm corrido bem. Mas nem tudo o que parece é. Consta que a perversa obsessão dos stalino-maoístas pela manipulação de imagens resisitiu à recente vaga de capitalismo primitivo, como se pode ver por estas terríveis imagens.




(mais)