sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Alter-Ego

A 22 de Agosto de 1972, há 36 anos, a Rodésia foi expulsa do Comité Olímpico Internacional devido às suas práticas racistas. Ian Smith, para dizer o mínimo, não deixou saudades. Mas se hoje voltasse ao local do crime descobriria o mais inesperado e radical dos alter-egos.

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Briseida ( continuação)

" - Eu não sou orfão, mas minha mãe pode perder o filho... "

" - Podem todas, basta que haja uma mãe e um filho." - Disse Briseida.

" - Se minha mãe me perder, usa de faculdade que fez sua."
" - Por lhe ter dado a vida?" - Perguntou ela.
" - Não. Porque podendo ter-me dado a eternidade, escolheu dar-me a finitude." - Disse Aquiles.
" - Julgava que Aquiles não era mortal..."
" - Julgam todos...O que me põe no chão, também me põe no céu."
Briseida terminava o seu trabalho quando na tenda entra o rei Aga que lhe ordena que saia.
Aquiles estende-lhe os braços: " - Meu rei."
" - Vejo que te recompuseste."
" Graças a ti, Aga."
" - Porque dizes tais palavras?", sorrindo acrescentou: " Referes-te por um acaso à escrava?"
" - Sim, a Briseida. " - Disse Aquiles.
" - Aquiles, raramente as mulheres são o que aparentam. As suas palavras leva-as o vento e as palavras ditas não são palavras sentidas."
" - Acredita-me Aga, eu, de todos os homens, sei que as mulheres, podendo escolher, escolhem ser caprichosas. sei isso melhor do que ninguém."
O rei Aga calou-se, olhou longamente para o amigo. Finalmente disse:" - É tua, se a quiseres. Diz-me, alguma vez a viste descoberta?"
" - Não. Porque perguntas?"
" - Por nada. Para que queres tu uma mulher assim?" - Perguntou-lhe o rei Aga.
" - Porque é bela para mulher feia e feia para mulher bela."
" -Tê-la-ás então..." Com estas palavras o rei Aga saíu da tenda.

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Benfica Olímpico




Quer parecer-me que não foi só o Vicente de Moura a falar antes de tempo. Não é Miguel?

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Islamismo e Zara Véu


Estou a ler Snow, um dos livros de um dos meus autores preferidos, Orhan Pamuk. Trata-se da história de um poeta com alguma fama e recursos que viaja para Kars, no leste da Turquia, a poucos quilómetros da Geórgia, da Arménia e do Iraque, para escrever umas palavras para o jornal secularista "O Republicano" sobre o suicídio de algumas jovens, aparentemente porque não as deixam usar véu nas escolas (embora a realidade parece ser outra: na verdade elas estão a fugir a casamentos combinados), e sobre a provável vitória de um partido islamista nas eleições locais. O poeta faz também esta viagem para se encontrar com uma mulher por quem pensa que tem uma paixão. O livro mostra como é grave a ascensão do islamismo, no leste da Turquia, e quanto isso colide com aquilo que acontece nas partes mais avançadas a oeste e junto das classes médias de Istambul.

Paralelamente, há umas semanas visitei a segunda maior mesquita do Mundo, em Casablanca, e fiquei fascinado com algumas coisas. A mesquita é um sucesso em vários aspectos. Foi financiada por um imposto especial, ninguém se importou muito com isso e todos estão orgulhosos dela. Está localizada na zona da praia da cidade, numa zona de passeio de famílias, e está sempre cheia de gente, com uma mistura "secular" entre lazer e reza. Essa interessante mistura entre turistas acidentais e pessoas com mais ou menos fé é parecida com o que se pode ver em S. Pedro em Roma. Uma festa, portanto, e longe da escuridão islâmica de Kars relatada por Pamuk. Nos degraus cá fora da mesquita há imagens de miúdas que, se fosse por cá, tinham saído das lojas Zara, só que com véus.

Para conhecer melhor o islamismo precisamos de ler mais e de viajar mais. Mas parece ser verdade que o islamismo não é todo igual. Ou então estou a ver mal a coisa.

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O Comunismo

Finalmente, uma explicação cabal:
"O Comunismo não funciona porque as pessoas gostam de ter coisas."
Frank Zappa

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O Menino de Sua Mãe


Malhas que o Império tece!

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quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Postais dos Açores

Flores, Açores. Agosto de 2008



Flores, Açores. Agosto de 2008

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Da Visão: Obrigado Obikwelu

1 - Obikwelu não é um português como os outros. Não o digo porque tenha nascido nigeriano. Nem porque só tenha chegado ao seu país de adopção com dezasseis anos já feitos. Não o digo (apenas) porque tenha passado muito mais dificuldades do que a maioria dos seus concidadãos: a emigração para um país distante, com uma língua incompreensível, de costumes estranhos; a miopia de um Benfica e de um Sporting que o rejeitaram quando dava os primeiros passos; a total ausência de apoios oficiais nos primeiros tempos; a dureza do trabalho nas obras; as noites passadas com as bancadas do Estádio do Restelo como único tecto. Não o afirmo sequer porque se tenha revelado senhor de uma contagiante simpatia, de uma perseverança sem par e de um sentido de responsabilidade pouco comum.
Obikwelu não é um português como os outros porque, ao contrário da maioria de nós, é português por opção. Obikwelu é português porque se afeiçoou a um país que, em boa verdade, fez muito pouco para o merecer. É português porque se sente agradecido a um país que se limitou a tratá-lo, antes dos seus dias de glória, com ligeiramente menos desprezo do que as autoridades nigerianas. E é português porque teve a fortuna de aqui encontrar exemplos de generosidade individual que, a bem dizer, existem felizmente em todos os cantos do Mundo.
Francis Obikwelu é, nesse sentido, muito mais português do que a maioria de nós. A sua cidadania é uma cidadania do desejo, da liberdade e da escolha. E como há meses escreveu Miguel Poiares Maduro (a quem devo a inspiração para este texto) num magnífico post, «a verdadeira e saudável identidade não existe no sangue nem se adquire onde se nasce: constrói-se, em relação com os outros através da adesão a uma comunidade. É uma identidade que não nos é dada nem oferecida mas que conquistamos. Só essa identidade é crítica e reflexiva e, como tal, positiva. Uma identidade que se abre e se define pela inclusividade e não pela exclusividade.»
Por tudo isto, porque é mais português do que nós, porque é mais responsável que a esmagadora maioria de nós, porque simboliza, muito melhor do que o país que escolheu para ser seu, os valores do trabalho, da persistência e da abnegação, Obikwelu não deve desculpas a ninguém. Na hora da derrota, como na hora da glória, é o país que continua a dever-lhe muito. Exemplos destes não medram exactamente por aí aos pontapés.
2 – E como um exemplo nunca vem só, o Expresso deste fim-de-semana dava conta da vida extraordinária de Demba Diabaye, um jovem senegalês que, entre setecentos outros alunos que cursam Estudos Portugueses na Universidade de Dakar, se apaixonou por Garrett e rumou a Lisboa para recolher informações para a tese de Mestrado. Como o dinheiro não abunda e ninguém se lembrou de apoiá-lo, sobrevive vendendo bugigangas nas praias da Caparica. Demba tem um sonho: «ser embaixador da língua portuguesa no Senegal». O país de Garrett é que, pelos vistos, não está disposto a contribuir para concretizá-lo.

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O Divórcio e a logística da Esquerda


Não se pode ignorar o Divórcio na Lei por razões de credo ou opção moral tal como não se podem alterar as leis que afectam a Família por motivos de fúria laical ou logística das esquerdas.

O Presidente da República decidiu vetar a nova Lei que regula o Divórcio em Portugal. E bem. Confesso que temi que, na aritmética política da cooperação estratégia entre Cavaco e Sócrates, não houvesse espaço para este veto no calendário próximo. Mas prevaleceu a objectividade e a Lei não passou tal como está.

Recomendo um esforço investigativo ao leitor sobre as implicações que o diploma impõe aos conjuges em situação mais fragilizada, neste caso, em larga maioria, as mulheres. Posso assegurar que há farto um menú de injustiças nas novas disposições da Lei, entre o fomento da conflitualidade nos recém casados sobre as despesas em comum; ou o logro que a Lei provoca sobre o investimento num projecto de dezenas de anos de vida em comum passando pela ambiguidade na futura tutela dos filhos menores.

Assisti à discussão dos dois projectos de Lei no Parlamento. Primeiro o do Bloco de Esquerda, no início da Primavera. Semanas depois, o do Partido Socialista.

Tratou-se de uma competição entre os dois pela conquista da esquerda. Discutia-se, por entre a tutela dos menores, quem tinha chegado primeiro à ideia de rever o Divórcio; quem era mais vanguardista na sua aplicação; a quem pertenceríam os louros da batalha, depois da Lei aprovada.

O PCP, com ideias claras e maior sentido de responsabilidade em relação às implicações sociais de tamanha revolução, ia sugerindo alterações, corrigia «pormenores», entre o gozo pela competência alheia e a vontade de poder construir, finalmente, o seu edifício jurídico sobre a Família. Votaria a favor, para não ficar fora da esquerda, confiando porventura na afinação que viesse com o expectável veto presidencial.

O CDS combateu o diploma com alguns dos argumentos da foice e do martelo sobre o desequilíbrio que gera, sobretudo nas mulheres. Contruíu assim o espaço político que lhe deixou um PSD mais amigo da liberdade de voto quando o caso é difuso. Salva-se a actuação do Presidente da República.

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Briseida ( continuação)

Aquiles lembrava-se de ter ouvido falar nessa doença que atacava as mulheres dessas paargens. Ficavam sem cabelo e em seu lugar tinham umas manchas arrepeladas no casco da cabeça, rosto e pescoço.
Os tratamentos resultavam nas melhoras de Aquiles que já se sentava na cama e alimentava sozinho.
Num desses dias Briseida disse-lhe:"- Não o incomoda a minha deformidade, senhor?"
"-Não " -Respondeu Aquiles.
" - Porque a não vê?"
" - Não. Porque a beleza e a bondade não são irmãs." - respondeu Aquiles.
" - Agradeço aos deuses o castigo que me impuseram." - Disse Briseida, acrescentando:
" -A beleza na mulher é fonte de todo o mal e dos maiores enganos. Desperta a cobiça e a inveja. Desperta o ódio no marido que quando a vê envelhecer se sente ludibriado e traído na promessa de eternidade."
Aquiles riu-se com gosto:" - Dizes isso porque és feia!"
" - Então sou orfã de pai e mãe." Rindo ela também.

( continua)

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O desporto, a Pátria e os mínimos olímpicos


Há uns anos, quando Fernando Mamede desistiu na corrida olímpica dos 10 mil metros, José Miguel Júdice apressou-se escrever na coluna de opinião que tinha no «Semanário» o título, «Somos um País de Mamedes!».
Hoje, como ontem, proliferam conclusões generalistas e cáusticas sobre os resultados obtidos pelos nossos atletas nos Jogos Olímpicos.
É normal. A excitação mediática dos dias da véspera favorece a desmesura das nossas expectativas e, no «day after», os mesmos protagonistas - jornalistas, políticos e público - procuram uma explicação para o desencontro no desfecho.
Tenho ouvido as declarações avulsas da última semana, sem ordem nem constância. Alguma me terá falhado. Registo em particular o «atleta» que dizia que as suas manhãs estavam mais calhadas para estar «na caminha» mas, de todas as que chegam, a que mais me impressionou foi a de Vanessa Fernandes.
Com os pés ainda quentes do pódium disse que havia colegas que não se esforçavam; que tinham ido para Pequim em passeio, que não sabiam o que estavam ali a fazer; que era preciso sentir lá dentro (como ela, apertando a mão contra o peito) o amor ao desporto e à representação de Portugal.
Concordo com o que disse a Vanessa Fernandes mas a galardoada devia ser a última a falar sobre este assunto. Havia demasiadas provas a decorrer para que um dos atletas, com a medalha garantida, surgisse a fazer queixas públicas sobre a motivação dos seus pares. Mais: nada a autoriza a supor a motivação dos outros. E, o que é pior, parece-me manifestamente injusto não fazer qualquer distinção entre os atletas que ali foram. Os fracos resultados da Naide Gomes, logo depois, podem agora ter mais uma explicação, ainda que improvável. Já a desistência das competições do velejador que ficou a um ponto do Bronze está seguramente ligada ao ambiente de purga que se gerou na selecção portuguesa de Pequim.
Bem pode Vanessa bater com a mão no peito e dizer que ali sente Portugal; bem pode doar o seu prémio ao menos favorecidos, bem pode explicar num programa televisivo «auto-biográfico» que «tem a simplicidade que muitos não têm». Pede-se mais do que uma medalha de cada desportista que ali foi. Pedem-se mais do que os mínimos olímpicos para concorrer.
Exige-se verdadeiro espírito desportivo e consideração por Portugal.

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Mark Serwotka

São estimulantes os franceses que defendem os mercados e os ingleses que o criticam. Ao contrário do que se pensa, numa visão muito rígida da vida, tanto a França tem uma longa tradição de defesa do liberalismo económico (Say, a Monarquia de Julho, por exemplo), como o Reino Unido tem uma longa tradição da sua crítica (o fabianimo, muito do pensamento das elites escocesas). Não se trata de um país ser mais ou menos liberal, mas antes de dar mais ou menos audiência ao liberalismo económico.

No que me respeita, este estado de coisas revela dois aspectos que seria curioso analisar em geral. Por um lado, a ideia de que o verbo “ser” é visto como produto congelado pelas classes mais desfavorecidas (entenda-se, opinion makers e quejandos). A Inglaterra “é”, a França “é”. Não se perguntam, o quê, quando, como, em que medida, em que aspecto. A ideia de que as coisas mudam assusta-os e por isso gostam de dizer que os franceses “são” e os ingleses “são... seja o que for.

Em segundo lugar, a importância das minorias, pelo menos das minorias visíveis. As maiorias nem sempre são silenciosas, mas muitas vezes não têm arautos. As minorias de pensamento (não as outras) são frequentemente obrigadas a muito maior cuidado na sua fundamentação, a maior isenção nas suas análises.

Por isso um Mark Serwotka, anti-trabalhista, líder de um sindicato não filiado no partido trabalhista, socialista despudorado, é uma personagem francamente interessante. Que desenfado em relação ao expectável e em relação à litania laudatória do mercado.


http://www.bbc.co.uk/iplayer/episode/b00d68lt/
http://en.wikipedia.org/wiki/Mark_Serwotka
http://www.guardian.co.uk/society/2004/oct/27/interviews.politics
http://www.personneltoday.com/articles/2007/03/06/39523/personnel-today-interviews-mark-serwotka-general-secretary-pcs.html
http://www.marxismovivo.org/bill6port.html



Alexandre Brandão da Veiga

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De Praga a Abbey Road

Há 40 anos, Praga passava directamente da Primavera a um penoso Inverno. Há provas. Veja-se uma, acima.
Um ano depois, os Beatles descobriam, em Abbey Road, a perfeita e sombria doçura do Outono.


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terça-feira, 19 de agosto de 2008

O carmesim da obscenidade

"Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul." É com esta frase que Vladimir Nabokov começa o romance que mais fama e mais proveito lhe deu em toda a sua carreira.
A tradução portuguesa, na versão que tenho, editada pela Teorema em 1987, acompanha com correcção o exaltado garbo com que Nabokov tratou a língua inglesa, e cito: “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma.” Reconhece-se o honesto esforço, mas escapa-lhe a cadência da aliteração do original e, tratando-se do que se trata, é pena que a tradução portuguesa tenha associado o fogo que emana da visão de Lolita a uma conceptual “virilidade”, quando em inglês o mesmo fogo abrasa com precisão anatómica os “loins” que são o pecado e a alma do narrador.

Se falo de “Lolita”, o romance de Nabokov que Graham Greene foi o primeiro a louvar e Stanley Kubrick o primeiro a adaptar ao cinema, não é para exercitar dotes de crítico literário que não tenho.

Recordo apenas que, neste 2008 em curso, faz 50 anos que o romance viu a luz do dia nos Estados Unidos da América. Antes, quatro editores tinham recusado o livro com receio – melhor, com medo – da controvérsia. Não era caso para menos. Por mais voltas que lhe possamos dar, “Lolita” é a história de um pedófilo. Narrada com admirável estilo – ou não tivesse Nabokov dito do seu narrador, Humbert Humbert: “É sempre de esperar num assassino uma prosa de estilo caprichoso” – continua ainda assim a ser a história de um pedófilo. Tratada com brilho literário, a monstruosidade não deixa de ser monstruosidade, a perversão tem sempre o leve cheiro a esgoto da perversão.

As fantasias desviantes de Humbert Humbert acabaram por ser acolhidas em livro, pela primeira vez, em França. O facto é tão irónico como justo. Afinal, Humbert Humbert, o protagonista de “Lolita”, é um parisiense, especialista em literatura francesa. E fora em França que se animara à inclinação para as ninfitas (ou ninfetas?) que constitui o centro do que virá a ser o seu périplo americano, “depois de um Inverno de tédio e pneumonia em Portugal”.

A publicação em França foi pacífica e discreta. Seguiu-se o escândalo da edição inglesa, em 1956. Dois anos depois, o livro foi editado nos Estados Unidos. Surpresa: sem polémica e com vendas astronómicas.

Não admira. Há coisas que baralham o mais pudico e resistente dos leitores: “Lolita”, a história de um pedófilo francês envolvido com uma ninfeta americana, é superiormente escrita em inglês por um autor russo. Depois de tão nebuloso e improvável puzzle, o leitor está pronto para enfrentar alguma lascívia, que é como quem diz, o carmesim da obscenidade.

Com a devida vénia, do Pnet Homem

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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Briseida, a pelada

A escrava atravessou o acampamento usando o longo pesado véu negro. Seguindo o rei, passou pelos guardas, entrou na tenda. O rei parou, olhou para Briseida e voltou a saír.
Ela deu alguns passos até ao centro da divisão. O grande cão cinzento deitado aos pés da cama do dono levantou a cabeça.
" - Ash, ash" - Disse Briseida que, criada com aqueles cães de pastor, sossegou o animal.
O dono estava encovado na cama. Não se parecia com Aquiles, o guerreiro.
O corpo entrapado cheirava a unguento e miséria. Tinha chagas nas pernas e nos pés, onde as unhas apodreciam.
Tirou-lhe as ligaduras, limpou-o, aplicou-lhe as ervas moídas, fez-lhe novos curativos. Retirou-se, sem que Aquiles abrisse os olhos.
No segundo dia quando Briseida entrou na tenda o cão não levantou o focinho. Aproximou-se da cama. Aquiles virou a cabeça, de olhos abertos:
"- Quem és tu?" - Indagou.
" - Chamo -me Briseida " - Retorquiu ela, enquanto tratava o ferido.
" - Ontem sonhei que duas águias negras me levavam, passando por rios e montanhas, até chão sagrado."
" - Águias ou abutres?" - Perguntou Briseida.
Aquiles não respondeu. Quando falou foi para dizer:
" - Com que defeito te asinalaram os deuses que te trazem coberta?"
" - Pelada, senhor".
Briseida acabou o tratamento e saíu.
( continua)

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domingo, 17 de agosto de 2008

Two Shots of Happy

Quando Frank Sinatra fez 80 anos, alguns dos melhores cantores de língua inglesa prestaram-lhe homenagem. Bono escreveu para ele esta canção, magnífica, que nunca mais, acho eu, voltou a cantar. É pena. "Two Shots of Happy, One Shot of Sad” é o mais perfeito fato à medida que alguém podia ter feito e oferecido ao velho Frank.

Ouçam e se vos apetecer cantar a letra segue depois do vídeo.




Two shots of happy, one shot of sad
You think I'm no good, well I know I've been bad
Took you to a place, now you can't get back
Two shots of happy, one shot of sad

Walked together down a dead end street
We were mixing the bitter with the sweet
Don't try to figure out what we might of had
Just two shots of happy, one shot of sad

I'm just a singer, some say a sinner
Rolling the dice, not always a winner
You say I've been lucky, well hell I've made my own
Not part of the crowd, but not feeling alone

Under pressure, but not bent out of shape
Surrounded, we always found an escape
Drove me to drink, but hey that's not all bad
Two shots of happy, one shot of sad

Guess I've been greedy, all of my life
Greedy with my children, my lovers, my wife
Greedy for the good things as well as the bad
Two shots of happy, one shot of sad

Maybe it's just talk, saloon singing
The chairs are all stacked, the swinging's stopped swinging
You say I hurt you, you put the finger on yourself
Then after you did it, you came crying for my help

Two shots of happy, one shot of sad
I'm not complaining, baby I'm glad
You call it a compromise, well what's that
Two shots of happy, one shot of sad

Two shots of happy, one shot of sad

(Happy birthday, Frank)

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Ter 115 anos não é sexy

Mae West: um reclinado conforto
Ter 115 anos não é sexy. Se estivesse viva, Mae West festejaria hoje esse aniversário. Temo que a ideia a encantasse.
Nascida em Queens e criada em Brooklyn, rosto redondo e corpo rectangular, com os qualificativos a valerem o que menos a uma mulher e à maior parte dos homens lhes interessa que valham, o certo é que Mae West se converteu num sex-symbol.
Começou cedo no teatro e cedo chegou à prisão. Em 1927, estreou Sex em Nova Iorque, acabando condenada a 10 dias de prisão por atentado à moral. Durante a penosa reclusão exigiu usar sempre roupa interior de seda. O director do estabelecimento, compreensivo e com inclinações artísticas, levou-a ao cinema todos os dias, menos dois, os que, por bom comportamento, já não cumpriu.
Hollywood, seduzida pela controvérsia, convidou-a para o cinema com a improvável idade de 38 anos. Não fez muitos filmes e talvez nenhum deles seja uma obra-prima. Mas com “She Done Him Wrong“ e “I’m no Angel” firmou uma reputação. Para mim bastaria a voz. Mas há quem, nela, veja outros altos valores. Por exemplo: os caracóis louros, o olhar malicioso, o corpo que talvez seja muito menos rectangular do que eu disse e muito mais próximo do reclinado conforto duma “chaise-longue” (o reclinado conforto é ideia minha, a “chaise longue” emprestou-ma o ensaísta David Thomsom) .
Repito, a mim bastar-me-iam as coisas que disse e a rouca maneira como as disse. Cito três das suas mais famosas réplicas:
“Tens uma pistola no bolso ou estás apenas contente por me voltar a ver?”, frase dela que o olhar discreto e baixo confirmava em “She Done Him Wrong”, parece ter sido o que, na vida real, disse ao polícia que, em L.A. a foi escoltar no regresso duma viagem.
Intraduzível (digo eu por timidez), é o que ela sugere a Cary Grant, no primeiro filme que fizeram juntos: “Come up and see me some time.”
“Quando sou boa, sou muito boa, mas quando sou má, sou muito melhor” constitui o momento mágico de “I’m No Angel”.
Estas réplicas, ditas como ela as disse, deram pela primeira vez substância à palavra libido, até aí um termo inútil.
Constrangida, Hollywood inventou o divertido Código Hays, que determinava o que se “podia” e o que “não se podia” fazer, fingir que se fazia ou dizer. Mae West reagiu bem: “Acredito na Censura. Fiz uma fortuna à conta disso.”



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sábado, 16 de agosto de 2008

( continuação)

O rei ficou sentado olhando o horizonte que ainda ardia da refrega. Levantou-se, caminhou até a uma tenda isolada. Os guardas afastaram-se para Aga passar. Na penumbra, mulheres e crianças dormiam aconchegadas, tomados todos, seus escravos. O rei olhou em volta. A um canto, viu o dorso de uma mulher. Deitada de lado, parecia de estatura mediana, de ossos compactos. Tinha o cabelo negro, crespo, que lhe descia até à cinta, a pele não era branca como a sua, mas amarelada. O rei Aga, ficou ali de pé. Saíu, sem lhe ver o rosto.
A mulher virou-se lentamente, mas só se quando teve a certeza que o homem saíra.
Pela aurora, o rei deu ordem para que a trouxessem.
Vinha suja e desgrenhada. Presa pelo tornezelo, caminhava direita. O rosto era anguloso, com feições definidas. Os olhos eram grandes, escuros.
O rei lembrava-se de ter visto grandes gatos selvagens com olhos daqueles, com impertinência. Sentado, olhou-a e disse: " - Não és Helena...mas servirás."
Deu ordem para que a lavassem, vestissem e perfumassem. De noite, quando as fogueiras do horizonte se começavam a extinguir, trouxeram-na à presença do rei. A um sinal, saíram todos. Aga levantou-se, deu dois passos até ficar perto dela. A mulher vestia túnica e na sua pele amarela refulgia ouro.
" - Tens nome?"
" - Briseida." - Disse a mulher
" - O maior guerreiro que já viveu precisa das tuas mãos para fazer a passagem. Sabes cuidar de feridos?" - Perguntou o rei.
" - Cuidei de meu pai e irmãos." - Respondeu-lhe ela.

O rei colocou-se à sua frente. Tinha cabelo castanho claro, media mais dois palmos do que a escrava. Tinha olhos de pedra, a boca era uma linha fina, apertada. Disse:" Entrarás na tenda de Aquiles sempre coberta por este véu negro que jamais tirarás. Se o tirares, mato à tua vista, os dois irmãos que trazes contigo."

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O magnânimo imperador

Depois de ler este riquíssimo post da Sofia Galvão, embora não tendo voz na matéria, por ser pobre ao pé dos ricos e rico ao pé dos pobres, a coisa ficou a moer-me. Lembrei-me de que a minha mãe me dizia, e felizmente ainda me diz, que tanto é pecado roubar dinheiro, como não se cuidar e proteger o que é legitimamente nosso.
Sabe Deus porquê – que Ele sabe, sabe, mas que Ele não me diz o que sabe, não me diz – deparei-me com uma ancestral prática chinesa que remonta à dinastia Yuan: aqueles que rasgassem as notas de dinheiro em papel eram vergastados com 100 bem aplicados golpes de cana de bambu. Pela simples e irredutível razão de que rasgar dinheiro era o equivalente a destruir documentos com o selo imperial.
Ora faz hoje, a 16 de Agosto de 2008, exactamente 624 anos, que o primeiro imperador Ming – depois de destronar a corrupta dinastia Yuan – teve um gesto de piedade. Trouxeram-lhe um casal que, no meio de desavença doméstica, rasgara as preciosas e imperiais notas. O magnânimo Hongwu ouviu as partes e concluiu que a paixão fora o motor da disputa: as notas tinham sido rasgadas sem intenção. O claro objectivo do casal era dilacerarem-se um ao outro. Pela primeira vez, na China imperial, o crime foi perdoado.
O que fazer, por isso, aos nossos mais e verdadeiramente ricos que, deixando-se empobrecer, empobrecem o país? Cana de bambu ou magnânimo e socrático perdão?

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Briseida, a pelada

- Aga, meu rei, vencemos?

- Vencemos sim. Os Deuses estiveram connosco. E tu estiveste com eles hoje, Aquiles.

- Não sei se vivo ou se morro...

- Viverás, para glória do teu rei e dos Aqueus.

- Morro pela glória, vivo pelo meu rei...


O rei Aga saíu da tenda deixando Aquiles deitado e gravemente ferido. Caminhou por entre os seus homens, que embriagados, dormiam abandonados, soltos e saciados à luz das fogueiras. A batalha tinha-se prolongado por muitos dias, os homens mereciam o seu descanso.

O rei caminhou até ao limite do acampamento. Sentou-se, enquanto se lembrava do dia em que tinha conhecido Aquiles, há muitos anos. Tornaram-se inseparáveis. O rei Aga não suportava a ausência do amigo, que sendo belo, dotado e veloz, o fazia sentir errante, terreno e mortal.


Recordaria sempre esse dia, porque esse foi o último dia feliz da sua vida.


( A continuar. Que me perdoem os deuses pela ousadia, já que respondi afirmativamente ao desafio do Gonçalo )

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