Alter-Ego

Quer parecer-me que não foi só o Vicente de Moura a falar antes de tempo. Não é Miguel?
1 - Obikwelu não é um português como os outros. Não o digo porque tenha nascido nigeriano. Nem porque só tenha chegado ao seu país de adopção com dezasseis anos já feitos. Não o digo (apenas) porque tenha passado muito mais dificuldades do que a maioria dos seus concidadãos: a emigração para um país distante, com uma língua incompreensível, de costumes estranhos; a miopia de um Benfica e de um Sporting que o rejeitaram quando dava os primeiros passos; a total ausência de apoios oficiais nos primeiros tempos; a dureza do trabalho nas obras; as noites passadas com as bancadas do Estádio do Restelo como único tecto. Não o afirmo sequer porque se tenha revelado senhor de uma contagiante simpatia, de uma perseverança sem par e de um sentido de responsabilidade pouco comum.
Obikwelu não é um português como os outros porque, ao contrário da maioria de nós, é português por opção. Obikwelu é português porque se afeiçoou a um país que, em boa verdade, fez muito pouco para o merecer. É português porque se sente agradecido a um país que se limitou a tratá-lo, antes dos seus dias de glória, com ligeiramente menos desprezo do que as autoridades nigerianas. E é português porque teve a fortuna de aqui encontrar exemplos de generosidade individual que, a bem dizer, existem felizmente em todos os cantos do Mundo.
Francis Obikwelu é, nesse sentido, muito mais português do que a maioria de nós. A sua cidadania é uma cidadania do desejo, da liberdade e da escolha. E como há meses escreveu Miguel Poiares Maduro (a quem devo a inspiração para este texto) num magnífico post, «a verdadeira e saudável identidade não existe no sangue nem se adquire onde se nasce: constrói-se, em relação com os outros através da adesão a uma comunidade. É uma identidade que não nos é dada nem oferecida mas que conquistamos. Só essa identidade é crítica e reflexiva e, como tal, positiva. Uma identidade que se abre e se define pela inclusividade e não pela exclusividade.»
Por tudo isto, porque é mais português do que nós, porque é mais responsável que a esmagadora maioria de nós, porque simboliza, muito melhor do que o país que escolheu para ser seu, os valores do trabalho, da persistência e da abnegação, Obikwelu não deve desculpas a ninguém. Na hora da derrota, como na hora da glória, é o país que continua a dever-lhe muito. Exemplos destes não medram exactamente por aí aos pontapés.
2 – E como um exemplo nunca vem só, o Expresso deste fim-de-semana dava conta da vida extraordinária de Demba Diabaye, um jovem senegalês que, entre setecentos outros alunos que cursam Estudos Portugueses na Universidade de Dakar, se apaixonou por Garrett e rumou a Lisboa para recolher informações para a tese de Mestrado. Como o dinheiro não abunda e ninguém se lembrou de apoiá-lo, sobrevive vendendo bugigangas nas praias da Caparica. Demba tem um sonho: «ser embaixador da língua portuguesa no Senegal». O país de Garrett é que, pelos vistos, não está disposto a contribuir para concretizá-lo.
"Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul." É com esta frase que Vladimir Nabokov começa o romance que mais fama e mais proveito lhe deu em toda a sua carreira.
Quando Frank Sinatra fez 80 anos, alguns dos melhores cantores de língua inglesa prestaram-lhe homenagem. Bono escreveu para ele esta canção, magnífica, que nunca mais, acho eu, voltou a cantar. É pena. "Two Shots of Happy, One Shot of Sad” é o mais perfeito fato à medida que alguém podia ter feito e oferecido ao velho Frank.
O rei ficou sentado olhando o horizonte que ainda ardia da refrega. Levantou-se, caminhou até a uma tenda isolada. Os guardas afastaram-se para Aga passar. Na penumbra, mulheres e crianças dormiam aconchegadas, tomados todos, seus escravos. O rei olhou em volta. A um canto, viu o dorso de uma mulher. Deitada de lado, parecia de estatura mediana, de ossos compactos. Tinha o cabelo negro, crespo, que lhe descia até à cinta, a pele não era branca como a sua, mas amarelada. O rei Aga, ficou ali de pé. Saíu, sem lhe ver o rosto.
A mulher virou-se lentamente, mas só se quando teve a certeza que o homem saíra.
Pela aurora, o rei deu ordem para que a trouxessem.
Vinha suja e desgrenhada. Presa pelo tornezelo, caminhava direita. O rosto era anguloso, com feições definidas. Os olhos eram grandes, escuros.
O rei lembrava-se de ter visto grandes gatos selvagens com olhos daqueles, com impertinência. Sentado, olhou-a e disse: " - Não és Helena...mas servirás."
Deu ordem para que a lavassem, vestissem e perfumassem. De noite, quando as fogueiras do horizonte se começavam a extinguir, trouxeram-na à presença do rei. A um sinal, saíram todos. Aga levantou-se, deu dois passos até ficar perto dela. A mulher vestia túnica e na sua pele amarela refulgia ouro.
" - Tens nome?"
" - Briseida." - Disse a mulher
" - O maior guerreiro que já viveu precisa das tuas mãos para fazer a passagem. Sabes cuidar de feridos?" - Perguntou o rei.
" - Cuidei de meu pai e irmãos." - Respondeu-lhe ela.
O rei colocou-se à sua frente. Tinha cabelo castanho claro, media mais dois palmos do que a escrava. Tinha olhos de pedra, a boca era uma linha fina, apertada. Disse:" Entrarás na tenda de Aquiles sempre coberta por este véu negro que jamais tirarás. Se o tirares, mato à tua vista, os dois irmãos que trazes contigo."
Depois de ler este riquíssimo post da Sofia Galvão, embora não tendo voz na matéria, por ser pobre ao pé dos ricos e rico ao pé dos pobres, a coisa ficou a moer-me. Lembrei-me de que a minha mãe me dizia, e felizmente ainda me diz, que tanto é pecado roubar dinheiro, como não se cuidar e proteger o que é legitimamente nosso.
- Aga, meu rei, vencemos?
- Vencemos sim. Os Deuses estiveram connosco. E tu estiveste com eles hoje, Aquiles.
- Não sei se vivo ou se morro...
- Viverás, para glória do teu rei e dos Aqueus.
- Morro pela glória, vivo pelo meu rei...
O rei Aga saíu da tenda deixando Aquiles deitado e gravemente ferido. Caminhou por entre os seus homens, que embriagados, dormiam abandonados, soltos e saciados à luz das fogueiras. A batalha tinha-se prolongado por muitos dias, os homens mereciam o seu descanso.
O rei caminhou até ao limite do acampamento. Sentou-se, enquanto se lembrava do dia em que tinha conhecido Aquiles, há muitos anos. Tornaram-se inseparáveis. O rei Aga não suportava a ausência do amigo, que sendo belo, dotado e veloz, o fazia sentir errante, terreno e mortal.
Recordaria sempre esse dia, porque esse foi o último dia feliz da sua vida.
( A continuar. Que me perdoem os deuses pela ousadia, já que respondi afirmativamente ao desafio do Gonçalo )