sábado, 16 de agosto de 2008

Gregos e Troianos (II)



Continuava ainda a pensar no quanto andamos distraídos da liquidez dos nossos caminhos (nós, que construímos sobre naves as igrejas e os centros comerciais; nós que abarcamos cientificamente a realidade; nós que pusemos no céu os astronautas; nós, que navegamos na internet; etc.), quando, relendo, ao acaso, a «Odisseia» (que a «Ilíada» não a tinha à mão), os meus olhos repararam no Canto IX, que começa assim:

«Quando a nave deixou o curso do rio Oceano e atingiu as ondas do mar de muitos caminhos, depois da ilha de Eeia, onde reside com seus coros a Aurora, que nasce de manhã cedo, onde se ergue Hélio, encalhámos logo à chegada a nau sobre as areias e saltámos para terra por entre a arrebentação do mar. Em seguida adormecemos esperando pela brilhante Aurora.»*

O texto continuava, entre o mar e a terra, a noite e o dia, a vida e a morte, falando-nos do caminho que somos chamados a fazer. Ia eu meditando estas coisas quando surgiu a Sofia Rocha, instando-nos, em nome da igualdade de género, a que escrevêssemos sobre gregas e troianas. Pediu mesmo ao Manuel, de belas palavras, que falasse do amor de Aquiles e Briseida, e de como era diferente do amor que ele tinha com Pátroclo, desafiando-nos a todos a falar da bela Helena, motivo da guerra de Tróia. Desprevenido, como sempre estão os homens ante os pedidos das mulheres, voltei ao texto, que dizia:

«Ela disse, e o nosso coração viril obedeceu-lhe. Assim, ao longo do dia, até ao pôr-do-Sol, ali ficávamos, repartindo entre nós carnes em profusão e doce vinho. Posto o Sol e sobrevindas as trevas, os meus homens foram dormir junto das amarras; mas Circe, tomando-me pela mão, obrigou-me a sentar-me longe deles, deitou-se a meu lado e interrogou-me sobre todos os pontos. Eu contei-lhe tudo, como devia. E a augusta Circe dirigiu-me então estas palavras: “Eis portanto esta prova cumprida até ao fim. Tu, escuta tudo o que te vou dizer; aliás, um deus em pessoa te fará recordá-lo. Chegarás primeiro à terra das Sereias, cuja voz seduz qualquer homem que caminhe para elas. Se algum se aproxima sem estar prevenido e as ouve, jamais a sua mulher e os seus filhos pequerruchos se reúnem em torno dele e festejam o seu regresso; o canto harmonioso das sereias cativa-o. Elas habitam num prado, e a toda a volta a margem está cheia das ossadas de corpos que se decompõem; sobre os ossos disseca-se a pele. Passa sem te deteres; amassa cera doce com mel e tapa as orelhas dos teus companheiros, para que nenhum deles as possa escutar. Quanto a ti, ouve, se quiseres; mas que sobre a tua rápida nau te atem as mãos e os pés, erguido junto ao mastro, e a ele te prendam por meio de cordas, a fim de que gozes o prazer de ouvires a voz das sereias. E, se tu suplicares e instares a tua gente para que te soltem, que eles dêem nós ainda mais numerosos. Depois, quando eles tiverem ultrapassado as sereias, já não te direi com precisão qual das duas rotas deverás seguir; cabe-te a ti deliberar em teu coração.»*

Dito isto, decidi seguir o meu caminho, que pelos deuses me parece estar já traçado, ainda que não saiba onde vai dar. Mas à Sofia, de sábios conselhos, relanço o próprio desafio, para que se junte a nós, «infelizes, que entramos vivos na morada de Hades e que morremos duas vezes, quando todos os outros homens não se finam senão uma»*, e aqui nos conte a sua visão da bela Helena. Ou de Andrómaca, ou de Penélope; ou de Calipso, a ninfa de belos caracóis, a augusta deusa que, na sua ilha, quis prender Ulisses, ao qual amava, mas cuja vida doce, que ali tinha, «corria em pranto pelo perdido regresso.»**


Quadro de: John William Waterhouse,Ulysses and the Sirens, 1891
* Odisseia, Canto XII (Ed. Europa-América, Mem Martins, s/d, págs. 133-134)
** Odisseia, Canto V (Ed. Europa-América, Mem Martins, s/d, pág. 63)

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sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Show Them To Me

Nunca é tarde para descobrir que, com um toque de humildade e uma pitada de gentileza, ainda há quem, graciosamente, faça o que lhe é pedido.
O vídeo é ligeiramente mais brejeiro do que a generalidade das propostas do "Geração de 60", mas tem a necessária elevação patriótica.

P.s. - Para que conste, a country music nunca foi a minha chávena de chá! Creio que vou proceder a uma revisão histórica.

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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Ricos


A constatação de que os mais ricos estão menos ricos não traz nada de bom. E só pode alegrar pelas piores razões.

O objectivo é que os pobres sejam menos pobres, convém não esquecer. Mas, para isso, é fundamental que haja riqueza para distribuir. Como será decisivo que a distribuição dessa riqueza seja progressivamente mais justa.

Mas o que hoje se sabe é que, em Portugal, os mais ricos estão menos ricos, sem que os pobres estejam menos pobres. Pelo contrário, os mais ricos estão menos ricos na mesma altura em que os pobres estão mais pobres.

A notícia do empobrecimento dos ricos é, pois, linearmente a expressão do empobrecimento do País. Ricos menos ricos e pobres mais pobres, sem que nada indicie mudança da tendência.

A merecer reflexão especial, os mais ricos dos mais ricos. Razão directa entre negócios e poder?

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O Calcanhar de Aquiles

A propósito da teoria da escolha que o Miguel elaborou aqui, e por causa deste post do Gonçalo, segue este post scriptum ao meu post anterior:
A tragédia de Heitor, o nobre troiano, é a de não ter escolha: a ele, e só a ele, compete defender a sua cidade e a sua comunidade.
A tragédia do glorioso e colérico Aquiles é a de que pode escolher entre dois destinos: uma vida longa e obscura e uma vida breve e heróica.

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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Aquiles dos pés velozes

Este post do Gonçalo desarrumou-me a noite. Acabei a trocar os Jogos Olímpicos pela minha velhinha edição da “Paideia”, de Werner Jaeger, e pela “Hélade” e “Estudos de História da Cultura Clássica”, da admirável Professora Maria Helena da Rocha Pereira.
A verdade é que para dialogar com o Gonçalo precisava de ajudas. E de grandes livros. Mas o que escrevo a seguir é teoria minha (ou será só preconceito meu). Foi o que ficou das horas de pouco e desordenado estudo que consegui encaixar nos anos de vida pouco recomendável em que coincidi passar pelos bancos da douta Academia.
O que escrevo não é, também, resposta ao Gonçalo cuja argumentação, convergindo para o Uno, não contesto, antes admiro. É só um diálogo de que saímos cada um por seu caminho.
Fiquei a pensar no que o Gonçalo escreveu: “não vejamos Aquiles e Heitor como dois – mas como um só!” Pensei, e depois de algumas peripatéticas voltas, a minha conclusão é sempre a mesma: na “Ilíada”, Aquiles não é um, é dois.
A sua origem é divina. Semi-deus, filho de um rei e da nereida Tétis, tão central como ausente na narrativa, Aquiles é o herói modelo. Nobre e corajoso, ele é o exemplo da areté (virtude) guerreira.
Mas Aquiles, o Aquiles que Homero nos apresenta é, desde o primeiro momento, humano, tragicamente humano. “Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles...” Aí está o homem: colérico, furioso e vingativo.
Aquiles é mesmo duas vezes vingativo: contra Agamémnon que lhe rouba Briseida, a escrava que recebera como troféu de guerra; contra Heitor que matou o seu fiel Pátroclo. O rancor de Aquiles contra Agamémnon é mais forte do que a obrigação de lutar ao lado dos seus guerreiros que, impávido, deixa perecer às mãos sangrentas dos troianos que os deuses, instados por sua mãe, agora protegem.
Mais tarde, regressado ao campo de batalha e movido por uma vingança desabrida, Aquiles arrasta o cadáver de Heitor à volta do túmulo do Pátroclo, o amigo (“arrastei para aqui Heitor, para os cães o comerem cru;”), sob o olhar desfeito e agónico de Príamo, o pai do nobre vencido. Ímpio, recusa-lhe depois sepultura.
Se em Homero (ou no poema das múltiplas vozes que o seu nome recobre) Aquiles dos pés velozes (mas de frágil calcanhar) era duplo – deus e humano, tão nobre e corajoso como colérico e vingativo – nos séculos que se seguiram os poetas deram-lhe variadas máscaras. Foi personagem de Ésquilo numa trilogia perdida. Píndaro atribui-lhe uma infância maravilhosa. Shakespeare transforma-o num monstro de vaidade em “Tróilo e Créssida”. Goethe, como na “Ilíada”, mostra-o consciente de que terá vita brevis.
Nesta pluralidade, de rostos resplandecentes e armaduras faiscantes, reside a beleza que me atrai e o consolo que procuro. Nenhuma síntese, mesmo verdadeira, me dará tanto som, tanta fúria.

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O que tem o Presidente da TAP a ver com os dois sequestradores brasileiros?

Jornal da Noite na SIC. Longa entrevista com o Presidente da TAP sobre o futuro da empresa e do transporte aéreo. Entrevista interessante até à pergunta final que, no mínimo, qualificarei de infeliz: Sendo o senhor brasileiro que comentário lhe merece o sequestro do BES? O Presidente da TAP, provavelmente surpreendido com a mudança de tema, lá responde as banalidades necessárias e manifesta o seu choque com a acção dos seus compatriotas…
Questiono-me de como me teria sentido eu, ou qualquer outro português, se, encontrando-me nos EUA nessa altura, me tivessem pedido, a despropósito, para comentar a violação por quatro portugueses de uma Americana em Newark (que deu azo a um famoso filme com Jodie Foster). Ou, vivendo eu no Luxemburgo, se de cada vez que há um crime cometido por um português me viessem pedir para o comentar? É que implícito na pergunta está a ideia de que se trata de um tema relativo a comunidade brasileira e não apenas um crime cometido por dois brasileiros (diferente seria se a pergunta pedisse ao presidente da TAP, enquanto "representante" destacado da comunidade brasileira em Portugal, para comentar o impacto que algumas reacções públicas ao crime poderiam ter na relação entre as comunidades brasileira e portuguesa ou até se a pergunta fosse precedida de dados indicando que uma percentagem desproporcional da criminalidade está associada aos imigrantes brasileiros o que as estatísticas, aliás, negam). No fundo a pergunta assume como legítima e natural a associação entre os dois criminosos brasileiros e os brasileiros. Como se os últimos tivessem de justificar ou explicar o comportamento dos primeiros. Que outra justificação existe para transformar um crime cometido por dois brasileiros numa pergunta à comunidade brasileira? Não creio que o jornalista tivesse más intenções mas é este tipo de associação irreflectida que conduz facilmente à xenofobia…
PS: No Público de hoje, Rui Tavares conta que no dia seguinte ao sequestro foi depositada uma coroa de flores que dizia "Em memória de Milton Sousa, morto neste local por ser brasileiro". Escusado será dizer que tal frase é igualmente xenófoba. Nada indica que o comportamento da policia seria diferente se se tratassem de portugueses.

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Quem vê cara não vê voz...


Já não chegava o doping desportivo agora também temos o doping artístico nas olimpíadas:
http://dn.sapo.pt/2008/08/13/desporto/pequim_falsificou_cerimonia_abertura.html

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terça-feira, 12 de agosto de 2008

Gregos e Troianos (I)



Fui inspirado pelo Manuel Fonseca, em diálogo que tivemos abaixo, a escrever algumas notas sobre textos dos antigos gregos. As minhas muitas limitações, porém, para além das que são próprias deste espaço, não o tornam tarefa fácil. Vou, portanto, precisar de ajuda (e não só do Manuel, que sei de bom grado a dará, mas também do Miguel Maduro, que assim nos poderá ir introduzindo na sua anunciada «Teoria da Escolha»). Dito isto, neste primeiro post, começo por uma afirmação e uma advertência.
A afirmação é de Paul Grenet, que no seu livro «Le Thomisme», julgo que logo na primeira página (mas pode bem ser na segunda), dizia que a questão fundamental em torno da qual se desenvolveu a inteligência grega foi a da relação entre o uno e o múltiplo. Vê-lo-emos expressamente num outro post – assim o espero –, ao visitarmos o «Rei Édipo», de Sófocles. Para já, porém, continuemos a ler a «Ilíada», na qual poderemos ver a verdade desta asserção, primeiro, e fazer a tal advertência, depois.
«Canta, ó deusa, a ira do Peleio Aquiles...» Assim começa esta história dos homens protagonizada em Tróia pelo grego Aquiles, filho do rei Peleu e da deusa Tétis e o mais corajoso de todos os guerreiros. Essa ira, que concretamente nos é mostrada a partir das desavenças e dos desamores do herói Aquiles, é o extremo brutal com que os seres humanos reagem perante a consciência trágica da sua própria condição (o outro extremo é o amor), obrigados que estão a escolher entre uma morte eterna e uma vida mortal (é aqui, aliás, que se joga o contributo da filosofia para a «Teoria da Escolha» do Miguel) – questão que Tétis irá expressamente colocar ao seu filho: morrer na guerra de Tróia e ser eternamente lembrado ou reinar longamente em Ftia e logo a seguir ser esquecido. Devemos lembrar, porém, que a narração da «Ilíada» acaba, muitos cantos à frente, no palácio do rei Príamo, com a pacífica celebração do esplêndido banquete fúnebre de Heitor, o herói troiano, o domador de cavalos, cujo corpo, depois de aplacada a sua ira, Aquiles finalmente entrega àquele destroçado pai.
Ora, o que aqui quero propor, a partir da afirmação de Paul Grenet e em íntimo diálogo com o Manuel Fonseca, é que não vejamos Aquiles e Heitor como dois – mas como um só! Aquiles e Heitor, na verdade, são dois aspectos sempre concorrentes numa mesma vida – e numa mesma morte. Tal como o corpo e o espírito; tal como o povo e o herói. Um não se dá sem o outro. Daí a guerra; daí a paz (esta é especialmente para o Manuel). É esta a nossa experiência: a de sermos um que é muitos; a de sermos muitos num.
No nosso tempo, porém, isto já não pode ser: Aquiles é um; Heitor outro... Não há relação entre os dois. Daí a minha propalada advertência. Ao poderoso mito do sólido, que hoje vale absolutamente, dizendo que só é aquilo que se vê com os olhos e que se agarra com as mãos, quero contrapor aquela pequena expressão da Ilíada, várias vezes repescada pelos poetas, segundo a qual os gregos viajavam pelos «líquidos caminhos»...
A moderna inteligência, de facto, científica, cartesiana, põe-se uma identidade firme a partir da qual se quer depois lançar à vida – como se esta não tivesse morte. O seu paradigma é o sólido; o seu fim a manipulação. No seu mundo o amor não tem lugar. E a ira, que, na sua crueza, surge na falta de um amor que houve e que há-de haver, não vai já além do ressentimento – que é a falta de um amor que não houve, não há e não vai haver!
Os antigos gregos, porém, viajavam pelos «líquidos caminhos», nos quais iam encontrando a terra firme. O sólido era sobre as águas, governadas por Poseidon, que com os deuses e os homens tinha guerra e tinha paz. Depois da tempestade, por isso, vinha a bonança. E uma não era sem a outra. E uma era na outra. E nós éramos entre uma e outra e elas eram também em nós. Por isso estas palavras já há tanto tempo escritas ainda hoje nos fazem chorar. Porque mergulham dentro de nós (que, ao que parece, também somos água), trazendo-nos a esse mar revolto e manso onde, escolhendo, cumprimos o nosso destino.

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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Pedido de Casamento

Para se casarem, há homens dispostos a tudo.

Há quem faça pedidos de casamento aos microfones de um avião em pleno vôo. Consta que um cavalheiro, na inequívoca posse das faculdades mentais, alugou um cavalo, vestiu armadura medieval e, a trote, avançou pelo jardim público à conquista da amada.

Um anel, um ramo de flores, o joelho no chão, já nada disso basta aos intrépidos amantes. Agora, por um “sim”, um simples “sim”, lançam-se de pára-quedas ou mergulham nas profundas dos oceanos. São desvarios que têm consequências. E custos. Mais de dois milhões de euros por dia é o preço que Portugal paga por esse deslumbramento emocional.

Explico-me: a paragem cerebral não é irreversível, os sujeitos recuperam a lucidez e o divórcio é a terapia milagrosa. Para todos? Menos para o Banco de Portugal que atribui um terço dos incumprimentos no crédito à imparável vaga de divórcios. Ao todo, no último ano, mais de 800 milhões de euros de dívidas incobráveis resultaram de precipitados arroubos amorosos que culminaram em rupturas caloteiras. Moral da história: emprestar dinheiro a apaixonados é mais alto risco do que emprestá-lo a doentes ou desempregados.

O meu sentido cívico obriga-me a dar uma pequena ajuda aos mais incautos. Um “não”, um rotundo “não”, pode evitar-vos problemas com o vil e espúrio crédito. Mulheres de Portugal: um “não” pode ser tão bom como um “sim” e garantir aos irreflectidos proponentes mais fama e posteridade.

Foi o que aconteceu a Oscar Wilde. Em 1881, o escritor pediu em casamento Charlotte Montefiore. Sabe-se lá se por sensatez ou pulsional desconfiança, Charlotte disse-lhe que “não”. Com mais ironia do que despeito, Wilde escreveu-lhe uma carta: “Lamento a decisão. Com o seu dinheiro e os meus miolos, tenho a certeza de que teríamos chegado longe.” Foram felizes os dois, longe um do outro.

Por mais apaixonados que estejam, sugiro-vos que vejam o mundo com o mesmo véu negro que Kafka, tendo em conta o episódio que se segue, deve ter colocado em frente aos seus desorbitados olhos. Apaixonado por Felice, que só vira uma vez em Berlim e a quem mandava 50 cartas por mês, Kafka acabou a escrever-lhe um insólito pedido de casamento: “Casa-te comigo e vais arrepender-te. Não te cases comigo e vais arrepender-te. Casa-te comigo e não te cases comigo, em ambos os casos arrepender-te-ás.” Felice resolveu o dilema buscando amparo em braços mais consoladores. Kafka vingou-se com o labiríntico e tormentoso “O Processo”.

Dois rotundos “nãos”: ficou a ganhar a literatura e o Banco de Portugal não se queixa.
Publicado, agora mesmo, no Pnet Homem

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domingo, 10 de agosto de 2008

De Homero a Campolide

Ainda a propósito (e se calhar já a despropósito) do sequestro e morte matada no BES de Campolide, eu escrevi isto e o Gonçalo respondeu-me assim. No fim, dizia que a nota dele era só um pequeno esclarecimento que eu certamente lhe perdoaria. Para que conste: ao Gonçalo eu não perdoo, agradeço. O comentário dele era muito melhor do que o post contestado e abriu-me o apetite para dar corda ao meu acrisolado espírito de contradição.
E onde é que o Gonçalo discorda de mim?! Simples e claro: rejeita a minha leitura dos poemas homéricos enquanto cantos de natureza violenta e cruel. Propõe, antes, que eles sejam uma filosófica síntese do ser na qual julgo reconhecer matriz platónica.
Discordamos? Não sei. Sei sim que temos, pelo que leio, uma relação emocional distinta com esses poemas primordiais. O que me interessa nos poemas homéricos é o luxo dos pormenores e da linguagem. Os adjectivos e as litúrgicas descrições. A Ilíada e a Odisseia são um faustoso e superlativo continente de factos e de personagens.
Talvez seja possível encerrá-las numa síntese ética ou filosófica. Algumas das mais brilhantes mentes de vários séculos de Ocidente fizeram-no. Pois, mas também se pode pôr Maradona, Eusébio ou Pelé a jogar xadrez. O espectáculo deve ser virtuoso, não creio é que seja exaltante. Por isso me parece que quem melhor leu essas narrativas fundadoras foram alguns poetas, de Alexander Pope e Butler (que as traduziram) a Borges que ironicamente as comentou. Das melhores traduções inglesas de Homero disse Borges: “Discursos e espectáculo: esse é Pope. Também é espectacular o ardente Chapman, mas o seu movimento é lírico, não oratório. Butler, em troca, demonstra a sua determinação de eludir todas as oportunidades visuais e de resolver o texto de Homero numa série de notícias tranquilas”.
Nesse espectáculo "homérico", às vezes delirante, outras vezes anacrónico, de batalhas e de traições, nas fabulosas invenções e charme de espírito, eu vejo uma poética do conflito. Cada um dos heróis da Ilíada é, por si só um campo de batalha. Poucos heróis há, no cânone ocidental, tão vilões como Ulisses. E quantos poetas, depois de Homero, o voltaram a utilizar – Virgílio, Ovídio, Dante, Shakespeare – propondo diferentes combinatórias da sua argúcia e perfídia, convertendo-o numa figura transgressiva.
Imoral? Amoral, diria eu. Como os jovens brasileiros, gentis com a vizinhança, um deles filho extremoso, ambos crentes, como Agamémnon, de que é possível roubar a escrava a Ulisses, sem com isso deixar de ser agathos, qualificativo que, na linguagem de Homero, quer dizer, o que é corajoso, ágil, poderoso na guerra e na paz. Ou seja, aquele que é bom.

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A benfiquização da nossa participação olímpica

Com este post é que o Manuel não estará de acordo de certeza…:
Podem ler aqui a consequência das recentes "aquisições" benfiquistas de algumas das nossas esperanças olímpicas: foram transformados em estrelas ainda antes de ganharem alguma coisa e tendo perdido a culpa é dos árbitros…
Prefiro o meu modelo sportinguista que encontra sempre um motivo de esperança no fracasso! .

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Prefiro o choque

Gostaria de subscrever e praticamente subscrevo tudo o que o Miguel Maduro disse aqui sobre o assalto e sequestro numa delegação do BES que acabou com um dos assaltantes abatido a tiro pela polícia.
E, de repente, o Miguel afirma: “A morte pode, como naquele caso, ser uma razão de alívio (porque significou a libertação das vítimas) mas nunca deveria deixar de nos chocar.” Nesta asserção está implícita uma certa crítica às televisões que transmitiriam, como se de uma ficção se tratasse, as imagens que antecederam e reproduziram o tiro certeiro do “sniper” e a queda irreversível do audacioso e jovem brasileiro.
Mas, Miguel, nós, ocidentais, temos desenvolvido, nas últimas décadas, uma cultura que visa “naturalizar” a morte! Procurámos a sanitização da morte para que ela deixasse de nos chocar. Nos funerais de “pessoas civilizadas” já ninguém chora. Esse extraordinário espectáculo de mulheres que se rojavam pelo chão aos gritos quando lhes morriam os maridos ou de homens que esmurravam o próprio peito ao perder a amada é considerado deslocado e socialmente constrangedor. As pessoas dão, com ar ligeiramente mais grave, os pêsames e, a seguir, juntam-se aos amigos procurando todos recordar episódios divertidos ou meio nostálgicos, mas sobretudo reprimem lágrimas e convulsões. Longe vão os ruidosos tempos de carpideiras e choros colectivos.
Só que, de vez em quando, a nossa natureza recalcada regressa e exibe-se triunfante. O caldo de violência de que a humanidade brotou é-nos intrínseco. A vontade de poder nitzscheniana não nos diz outra coisa. Como, da Ilíada ao Hamlet, com as sua narrativas de violência e morte, Homero e Shakespeare se de alguma coisa foram cantores, foi desse triunfo da natureza, do conflito e da crueldade.
Não quero comparar as televisões a nenhum daqueles poetas, mas parece-me que nenhuma “narrativa informativa” do assalto ao BES seria rigorosa se não figurasse a morte. Da mesma forma que nenhuma “narrativa ficcional” da vida contemporânea pode ignorar a violência diária, nenhuma “narrativa informativa” feita na noite de 6ª em Campolide poderia “effacer” o que os próprios assaltantes procuraram e, em certa medida, desejaram.
Recordo que os dois jovens brasileiros tinham aparentemente um status económico equilibrado, estavam socialmente inseridos, e eram estimados pelos vizinhos portugueses. O assalto que fizeram não nasceu de um quadro social de miséria e tormento. Os assaltantes pensaram a sua acção de forma amoral e determinada e terão mesmo decidido que seria preferível o suicídio e a violência a uma rendição pacífica. Não mostrar isso seria, uma vez mais, tratar de forma sanitária a realidade. Prefiro o choque.

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sábado, 9 de agosto de 2008

A ficcionalização da morte em directo



No caso do sequestro do BES perturbou-me a forma como me pareceu ser tratada a morte. A transmissão pela televisão da morte em directo não a tornou mais real mas sim quase ficcional. Subconscientemente penso que todos associámos as imagens com uma qualquer série de televisão e não com a realidade da morte. De tanto lidarmos com aquele tipo de imagens televisivas num contexto de ficção deixámos o choque da realidade ser dominado pela narrativa do cinema. O próprio tratamento pelas televisões parecia ficcionar aquilo a que assistimos: a história do crime e a sua resolução sobrepôs-se ao choque da morte. A morte pode, como naquele caso, ser uma razão de alívio (porque significou a libertação das vítimas) mas nunca deveria deixar de nos chocar.
A polícia foi muito elogiada pela sua eficácia mas eu queria sobretudo elogiá-la pelo seu comportamento ético. Foram os responsáveis policiais que, no dia seguinte, tiveram a inteligência e sensibilidade de nos recordar do drama da morte. Ouvir o comandante nacional da PSP a defender vigorosamente a necessidade de preservar a dignidade mesmo dos criminosos (protegendo a sua identidade, preservando as suas famílias e procurando evitar reacção xenófobas) e o responsável dos GOE a resistir à exaltação da operação, lamentando a morte e lembrando que esta é sempre a ultima ratio, encheu-me de orgulho e reforçou a minha confiança nas chefias das nossas forças policiais. Talvez seja necessário lidar com a morte para compreender que nunca se deve ficar indiferente a ela. O comportamento daqueles responsáveis fez-me acreditar que não temos apenas uma polícia tecnicamente competente mas, igualmente importante, uma chefia inteligente.


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Vivam os intelectuais...

Justificando incidentalmente o meu descanso no terrível tribunal do Manuel S. Fonseca, aproveito o tema dos intelectuais para reassumir funções no nosso blog. E cumprindo um preceito metodológico, próprio de quem já foi da «profissão», ajudarei as reflexões aqui havidas pondo a pergunta sempre central em filosofia: O que é um intelectual?
Ora, um intelectual é um homem do espírito, não um homem das letras. É, conforme a própria palavra, aquele que «lê por dentro» (do latim intus + legere), sendo que ler por dentro é conhecer a coisa a partir do espírito que a informa. A capacidade de participar na vida espiritual (leia-se, intelectual), portanto, é, desde sempre, o maior e mais essencial dom de todos deuses ao ser humano – a todos os seres humanos, independentemente das suas mais variadas condições!
Assim: 1. O intelectual é aquele que conhece na raiz a terra inteira. A superfície, para si, é acesso ao espírito. Não nega o prazer do que toca, mas transcende a oposição dos sentidos, partilhando e aprofundando as sensações. 2. O intelectual é um homem bom. O seu saber está obrigado à encruzilhada dos caminhos onde livremente escolhe o que há-de ser. 3. O intelectual é um peregrino que, humildemente errante neste mundo, descobre a luz que ele contém.
Intelectual, portanto, não é o mesmo que erudito. Pode acontecer em alguém que as duas coisas coincidam, mas de modo nenhum são sinónimas. Em Covas, de onde ontem vim de férias (esta parte é para o Manuel), terra longínqua que, entre Caminha, Vila Nova de Cerveira e Ponte de Lima, cresceu cercada por montes de muitos verdes, chegam muito devagar todas as letras. E, no entanto, também ali há gente sábia. Gente que, como Newton, reconhece nos seus gestos os movimentos dos outros – sejam eles coisas, pessoas ou deuses – e que na constância dessa relação é reconhecido pelos outros como um sábio que ilumina um pouco mais a realidade.
Os intelectuais não morreram, como bem dizia a Sofia. Morrendo, morrerá o homem. Mas não estão nas bibliotecas. Estão nas descobertas que fazem e que transmitem aos outros mudando interiormente as suas vidas. E, como em tudo na vida, há bem mais do que parece.

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Uma imagem que vale mil protestos


A verdadeira liderança exerce-se através do exemplo que frequentemente pode ser mais eficaz que a força ou as palavras. É o caso do porta-estandarte americano, de quem é e de como foi escolhido: http://news.yahoo.com/s/ap/20080806/ap_on_sp_ol/oly_us_flagbearer

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Marilyn quando era ELA

Abençoada morte. Em Hollywood e em vida toda a estrela é um cometa: num segundo ilumina o mundo, um minuto depois é já veneno de box-office. Depois da morte, e por causa da morte, Marilyn Monroe resistiu a tudo.
Qual sic transit gloria mundi! Marilyn está para lavar e durar. Provam-no milhões de postais, cartazes, fotos, livros e reedições de filmes.
No cinema, fez de adúltera, alcoólica, cantora, míope, gold digger e vizinha. Mas quantas vezes foi essa ela de que, numa espécie de deslize freudiano, Marilyn falou um dia a Susan Strasberg, uma das suas melhores amigas?
A história passou-se em Nova Iorque, na rua. Marilyn saíra sem pinturas, penteado ou traje especial. Podia, assim, passear pacificamente, sem temer as turbas de fãs. Mas, de repente, deu consigo aturdida pelo desejo de irrealidade que era chamar-se (ou poder ser) Marilyn. “Do you want me to be her?” (“Queres que eu seja ela?”), perguntou. E Strasberg só se lembra de a ver crescer, mudar, até ser ela. Marilyn tinha, afinal, consciência de trazer outro ser em si. Tinha-o no corpo e tinha-o na mão.
Em Evaristo Carriego, Jorge Luis Borges escreveu: “Que um individuo queira despertar noutro individuo recordações que apenas pertencem a um terceiro é um paradoxo evidente. Executar com despreocupação esse paradoxo é a vontade inocente de toda a biografia.” Que biografia alheia é que Marilyn executava quando era ela? Parafraseando os “recuerdos de recuerdos de otros recuerdos” de Borges, muitas devem ter sido as recordações de recordações de outras recordações crescendo nela, até lhe darem esse “a lot of animal magnetism” que levava um menino milionário, em Gentlemen Prefer Blondes, a ajudá-la a sair da escotilha em que a largura de ancas a deixara ficar presa.
Arrisco uma hipótese de explicação, modesta e tradicional. Marilyn, quando era ela, era antes de mais o eco dos múltiplos terceiros que foram as peças do puzzle da sua infância.
Vamos aos registos. Na papeleta do L. A. General Hospital consta o nascimento, a 1 de Junho de 1926, de Norma Jeane Mortensen. A breve trecho o patronímico desapareceria, fazendo justiça ao buraco negro da sua paternidade, desaparecendo também o último “e” de Jeane. Ficou só Norma Jean. Ou, para efeitos civis, Norma Jean Baker, do nome da mãe, Gladys Baker, com a qual Marilyn deixou de viver aos oito anos, altura em que a senhora Baker foi internada num hospital de saúde mental, tendo-lhe sido diagnosticado a mesma esquizofrenia que destruíra a vida dos seus pais e irmão.
A infância de Marilyn, com mãe internada e paternidade incógnita, pode arrolar-se nos milhões de infâncias infelizes que povoam orfanatos, tutores e famílias adoptivas. A Hollywood não escapou o segredo mal guardado dessa infância infeliz.
She seemed like a lost child”, comentou o actor Robert Mitchum. Ela parecia uma criança perdida, uma doce criança perdida. Há uma cena reveladora em The Asphalt Jungle, de John Huston.
Marilyn era, no filme, a sobrinha – eufemismo com que se recobria, aos olhos dos censores, a relação de mocinha nova com homem mais velho – de um advogado escroque, Louis Calhern. Nessa tal cena, a altas horas da noite, Calhern olha para Marilyn com a mais equívoca ternura paternal e diz: “Some sweet kid. It's later. Why don't you go to bed...” (“Doce menina. É tarde. Porque é que não vais para a cama”). Marilyn desliza com volúpia pelo sofá, dá-lhe um beijo de despedida e começa a andar para o quarto, “being her” – porque esse sendo ela é que faz o ponto da cena. O realizador corta o plano no andar dela e dá-nos o contracampo do rosto de Louis Calhern olhando-a e repetindo dubiamente: “Some sweet kid”.
A menina doce, a insistente e ambígua imagem de infância que se oferece (e entrega) à impureza gourmet do olhar adulto, talvez seja – pode ser que seja – o segredo da persistência da imagem de Marilyn, desse “being her” a que, quando queria e com vontade inocente, foi escrevendo a biografia. Com paradoxal despreocupação borgesiana.
Adaptação de artigo publicado no Expresso em Outubro de 1992.

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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Intelectuais, sempre...



Um monde sans intellectuels du tout?
Non, je ne m’y résous pas.
Bernard-Henri Lévy, Éloge des intellectuels,
Grasset 1987, p. 61.


Aprendi com o meu Pai, há muitos anos, que a inteligência obriga. E antes de tudo o mais, explicou-me, obriga o ser inteligente a não ser estúpido. Será sempre, aliás, essa recusa da estupidez concreta, a única prova idónea da inteligência presente em cada homem ou mulher históricos.

Aprendi assim. E assim me fiquei.

Por isso, recuso a notícia da morte dos intelectuais. E por isso recuso a aparente tranquilidade com que a mesma é recebida.

O intelectual é penhor da inteligência e do pensamento no espaço público. Sem ele – e o masculino é neutro, por politicamente incorrecto que seja –, a vulgata sub-cultural da actualidade, sustentada num ofensivo abuso de simplificações e estereótipos, produz o caldo próprio ao império da opinião.

Como pano-de-fundo, servindo a grande ilusão, a religião das maiorias. Sempre presentes, sempre eficazes, a opinião, as maiorias e a opinião das maiorias, rumo à paz totalitária... Porque sem teoria, sem crítica, sem complexificação, o futuro será totalitário. Garantidamente totalitário, ainda que – e isso é mesmo o pior – possamos não dar por tal.

Entre sacerdotes, conselheiros, profetas, monges e giróvagos, não é verdade, Alexandre?

Post Scriptum – Serve este post, também, para dizer a um dos nossos intelectuais dilectos, o Manuel S. Fonseca, que há co-bloggers do Geração de 60 que não têm escrito, ao contrário do que provocatoriamente foi aventado, pela pura e simples razão de estarem cheios – e aqui o masculino neutro é, sobretudo, critério de elegância literária… – de trabalho!

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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Manuela fica em casa


Nem Madeira, nem Pontal. Manuela Ferreira Leite não é muito de sair de casa, nem à noite. Esperemos que o recato e o decoro sejam inspiradores.

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Dog Day Campolide

Lisboa teve, hoje, direito a assistir a uma versão local do Dog Day Afternoon. Dog Day Campolide, com patrocínio do BES. Mais uma vez se viu que a vida não tem a limpeza do cinema. Não é Al Pacino quem quer.

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Confissão

Cheirava a cera, flores e incenso, a igreja que frequentava em miúda.
O confessionário ficava do lado esquerdo da porta principal. Desse tempo gostava sobretudo da leitura diária no mês de Maria que antecediam a reza do terço e que se fazia anunciar pelo bater dos sinos. Diferente de quando morria gente. Cultivava ainda uma paixão icónica, estética, pelas figuras de santinhos e santinhas que coleccionava com afinco e guardava no missal. Também os trocava quando era o caso de serem repetidos.

Não gostava da confissão. Não percebia o conceito, demasiado abstracto quando se tem oito anos. Para além de que educada a preservar a intimidade, a guardar pensamentos e ideias, não me agradava a ideia de partilhar os meus defeitos e pecadilhos com um estranho. Ainda que esse estranho fosse o pároco que me tinha dito que Sofia queria dizer sabedoria. Na minha presunção achei que o meu nome, afinal, me fazia justiça. Presunção e água benta cada um toma a que quer.

Na fila que se formava para a confissão, eu ía magicando pecados imaginários, três ou quatro. Qualquer coisa que, sob a admoestação do padre, me fizesse sentir culpada de verdade enquanto pensava no inconfessável e arrependida pelos meus actos, só um pouco de verdade misturada, para dar espessura.

Lembrei-me disto um outro dia. Não foi a primeira vez, parece que é tão costumeiro como a confissão da minha infãncia. Mesmo com 36 anos ainda acho demasiado abstracto o conceito.

Numa situação profissional formal, perguntam-me quais os meus três maiores defeitos.

Senhor Padre, disse palavrões, não obedeci à minha mãe, parti uma jarra e escondi-a debaixo do móvel, mando a minha irmã fazer as coisas que eu tenho medo de fazer.

Com que coragem é que podemos confessar que bebemos a água benta toda, mais a presunção que há nela, a pontos de pensarmos que somos melhores do que quem tem a ideia peregrina de nos fazer tal pergunta?

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