Prefiro o choque
Mas, Miguel, nós, ocidentais, temos desenvolvido, nas últimas décadas, uma cultura que visa “naturalizar” a morte! Procurámos a sanitização da morte para que ela deixasse de nos chocar. Nos funerais de “pessoas civilizadas” já ninguém chora. Esse extraordinário espectáculo de mulheres que se rojavam pelo chão aos gritos quando lhes morriam os maridos ou de homens que esmurravam o próprio peito ao perder a amada é considerado deslocado e socialmente constrangedor. As pessoas dão, com ar ligeiramente mais grave, os pêsames e, a seguir, juntam-se aos amigos procurando todos recordar episódios divertidos ou meio nostálgicos, mas sobretudo reprimem lágrimas e convulsões. Longe vão os ruidosos tempos de carpideiras e choros colectivos.
Só que, de vez em quando, a nossa natureza recalcada regressa e exibe-se triunfante. O caldo de violência de que a humanidade brotou é-nos intrínseco. A vontade de poder nitzscheniana não nos diz outra coisa. Como, da Ilíada ao Hamlet, com as sua narrativas de violência e morte, Homero e Shakespeare se de alguma coisa foram cantores, foi desse triunfo da natureza, do conflito e da crueldade.
Não quero comparar as televisões a nenhum daqueles poetas, mas parece-me que nenhuma “narrativa informativa” do assalto ao BES seria rigorosa se não figurasse a morte. Da mesma forma que nenhuma “narrativa ficcional” da vida contemporânea pode ignorar a violência diária, nenhuma “narrativa informativa” feita na noite de 6ª em Campolide poderia “effacer” o que os próprios assaltantes procuraram e, em certa medida, desejaram.
















