domingo, 10 de agosto de 2008

Prefiro o choque

Gostaria de subscrever e praticamente subscrevo tudo o que o Miguel Maduro disse aqui sobre o assalto e sequestro numa delegação do BES que acabou com um dos assaltantes abatido a tiro pela polícia.
E, de repente, o Miguel afirma: “A morte pode, como naquele caso, ser uma razão de alívio (porque significou a libertação das vítimas) mas nunca deveria deixar de nos chocar.” Nesta asserção está implícita uma certa crítica às televisões que transmitiriam, como se de uma ficção se tratasse, as imagens que antecederam e reproduziram o tiro certeiro do “sniper” e a queda irreversível do audacioso e jovem brasileiro.
Mas, Miguel, nós, ocidentais, temos desenvolvido, nas últimas décadas, uma cultura que visa “naturalizar” a morte! Procurámos a sanitização da morte para que ela deixasse de nos chocar. Nos funerais de “pessoas civilizadas” já ninguém chora. Esse extraordinário espectáculo de mulheres que se rojavam pelo chão aos gritos quando lhes morriam os maridos ou de homens que esmurravam o próprio peito ao perder a amada é considerado deslocado e socialmente constrangedor. As pessoas dão, com ar ligeiramente mais grave, os pêsames e, a seguir, juntam-se aos amigos procurando todos recordar episódios divertidos ou meio nostálgicos, mas sobretudo reprimem lágrimas e convulsões. Longe vão os ruidosos tempos de carpideiras e choros colectivos.
Só que, de vez em quando, a nossa natureza recalcada regressa e exibe-se triunfante. O caldo de violência de que a humanidade brotou é-nos intrínseco. A vontade de poder nitzscheniana não nos diz outra coisa. Como, da Ilíada ao Hamlet, com as sua narrativas de violência e morte, Homero e Shakespeare se de alguma coisa foram cantores, foi desse triunfo da natureza, do conflito e da crueldade.
Não quero comparar as televisões a nenhum daqueles poetas, mas parece-me que nenhuma “narrativa informativa” do assalto ao BES seria rigorosa se não figurasse a morte. Da mesma forma que nenhuma “narrativa ficcional” da vida contemporânea pode ignorar a violência diária, nenhuma “narrativa informativa” feita na noite de 6ª em Campolide poderia “effacer” o que os próprios assaltantes procuraram e, em certa medida, desejaram.
Recordo que os dois jovens brasileiros tinham aparentemente um status económico equilibrado, estavam socialmente inseridos, e eram estimados pelos vizinhos portugueses. O assalto que fizeram não nasceu de um quadro social de miséria e tormento. Os assaltantes pensaram a sua acção de forma amoral e determinada e terão mesmo decidido que seria preferível o suicídio e a violência a uma rendição pacífica. Não mostrar isso seria, uma vez mais, tratar de forma sanitária a realidade. Prefiro o choque.

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sábado, 9 de agosto de 2008

A ficcionalização da morte em directo



No caso do sequestro do BES perturbou-me a forma como me pareceu ser tratada a morte. A transmissão pela televisão da morte em directo não a tornou mais real mas sim quase ficcional. Subconscientemente penso que todos associámos as imagens com uma qualquer série de televisão e não com a realidade da morte. De tanto lidarmos com aquele tipo de imagens televisivas num contexto de ficção deixámos o choque da realidade ser dominado pela narrativa do cinema. O próprio tratamento pelas televisões parecia ficcionar aquilo a que assistimos: a história do crime e a sua resolução sobrepôs-se ao choque da morte. A morte pode, como naquele caso, ser uma razão de alívio (porque significou a libertação das vítimas) mas nunca deveria deixar de nos chocar.
A polícia foi muito elogiada pela sua eficácia mas eu queria sobretudo elogiá-la pelo seu comportamento ético. Foram os responsáveis policiais que, no dia seguinte, tiveram a inteligência e sensibilidade de nos recordar do drama da morte. Ouvir o comandante nacional da PSP a defender vigorosamente a necessidade de preservar a dignidade mesmo dos criminosos (protegendo a sua identidade, preservando as suas famílias e procurando evitar reacção xenófobas) e o responsável dos GOE a resistir à exaltação da operação, lamentando a morte e lembrando que esta é sempre a ultima ratio, encheu-me de orgulho e reforçou a minha confiança nas chefias das nossas forças policiais. Talvez seja necessário lidar com a morte para compreender que nunca se deve ficar indiferente a ela. O comportamento daqueles responsáveis fez-me acreditar que não temos apenas uma polícia tecnicamente competente mas, igualmente importante, uma chefia inteligente.


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Vivam os intelectuais...

Justificando incidentalmente o meu descanso no terrível tribunal do Manuel S. Fonseca, aproveito o tema dos intelectuais para reassumir funções no nosso blog. E cumprindo um preceito metodológico, próprio de quem já foi da «profissão», ajudarei as reflexões aqui havidas pondo a pergunta sempre central em filosofia: O que é um intelectual?
Ora, um intelectual é um homem do espírito, não um homem das letras. É, conforme a própria palavra, aquele que «lê por dentro» (do latim intus + legere), sendo que ler por dentro é conhecer a coisa a partir do espírito que a informa. A capacidade de participar na vida espiritual (leia-se, intelectual), portanto, é, desde sempre, o maior e mais essencial dom de todos deuses ao ser humano – a todos os seres humanos, independentemente das suas mais variadas condições!
Assim: 1. O intelectual é aquele que conhece na raiz a terra inteira. A superfície, para si, é acesso ao espírito. Não nega o prazer do que toca, mas transcende a oposição dos sentidos, partilhando e aprofundando as sensações. 2. O intelectual é um homem bom. O seu saber está obrigado à encruzilhada dos caminhos onde livremente escolhe o que há-de ser. 3. O intelectual é um peregrino que, humildemente errante neste mundo, descobre a luz que ele contém.
Intelectual, portanto, não é o mesmo que erudito. Pode acontecer em alguém que as duas coisas coincidam, mas de modo nenhum são sinónimas. Em Covas, de onde ontem vim de férias (esta parte é para o Manuel), terra longínqua que, entre Caminha, Vila Nova de Cerveira e Ponte de Lima, cresceu cercada por montes de muitos verdes, chegam muito devagar todas as letras. E, no entanto, também ali há gente sábia. Gente que, como Newton, reconhece nos seus gestos os movimentos dos outros – sejam eles coisas, pessoas ou deuses – e que na constância dessa relação é reconhecido pelos outros como um sábio que ilumina um pouco mais a realidade.
Os intelectuais não morreram, como bem dizia a Sofia. Morrendo, morrerá o homem. Mas não estão nas bibliotecas. Estão nas descobertas que fazem e que transmitem aos outros mudando interiormente as suas vidas. E, como em tudo na vida, há bem mais do que parece.

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Uma imagem que vale mil protestos


A verdadeira liderança exerce-se através do exemplo que frequentemente pode ser mais eficaz que a força ou as palavras. É o caso do porta-estandarte americano, de quem é e de como foi escolhido: http://news.yahoo.com/s/ap/20080806/ap_on_sp_ol/oly_us_flagbearer

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Marilyn quando era ELA

Abençoada morte. Em Hollywood e em vida toda a estrela é um cometa: num segundo ilumina o mundo, um minuto depois é já veneno de box-office. Depois da morte, e por causa da morte, Marilyn Monroe resistiu a tudo.
Qual sic transit gloria mundi! Marilyn está para lavar e durar. Provam-no milhões de postais, cartazes, fotos, livros e reedições de filmes.
No cinema, fez de adúltera, alcoólica, cantora, míope, gold digger e vizinha. Mas quantas vezes foi essa ela de que, numa espécie de deslize freudiano, Marilyn falou um dia a Susan Strasberg, uma das suas melhores amigas?
A história passou-se em Nova Iorque, na rua. Marilyn saíra sem pinturas, penteado ou traje especial. Podia, assim, passear pacificamente, sem temer as turbas de fãs. Mas, de repente, deu consigo aturdida pelo desejo de irrealidade que era chamar-se (ou poder ser) Marilyn. “Do you want me to be her?” (“Queres que eu seja ela?”), perguntou. E Strasberg só se lembra de a ver crescer, mudar, até ser ela. Marilyn tinha, afinal, consciência de trazer outro ser em si. Tinha-o no corpo e tinha-o na mão.
Em Evaristo Carriego, Jorge Luis Borges escreveu: “Que um individuo queira despertar noutro individuo recordações que apenas pertencem a um terceiro é um paradoxo evidente. Executar com despreocupação esse paradoxo é a vontade inocente de toda a biografia.” Que biografia alheia é que Marilyn executava quando era ela? Parafraseando os “recuerdos de recuerdos de otros recuerdos” de Borges, muitas devem ter sido as recordações de recordações de outras recordações crescendo nela, até lhe darem esse “a lot of animal magnetism” que levava um menino milionário, em Gentlemen Prefer Blondes, a ajudá-la a sair da escotilha em que a largura de ancas a deixara ficar presa.
Arrisco uma hipótese de explicação, modesta e tradicional. Marilyn, quando era ela, era antes de mais o eco dos múltiplos terceiros que foram as peças do puzzle da sua infância.
Vamos aos registos. Na papeleta do L. A. General Hospital consta o nascimento, a 1 de Junho de 1926, de Norma Jeane Mortensen. A breve trecho o patronímico desapareceria, fazendo justiça ao buraco negro da sua paternidade, desaparecendo também o último “e” de Jeane. Ficou só Norma Jean. Ou, para efeitos civis, Norma Jean Baker, do nome da mãe, Gladys Baker, com a qual Marilyn deixou de viver aos oito anos, altura em que a senhora Baker foi internada num hospital de saúde mental, tendo-lhe sido diagnosticado a mesma esquizofrenia que destruíra a vida dos seus pais e irmão.
A infância de Marilyn, com mãe internada e paternidade incógnita, pode arrolar-se nos milhões de infâncias infelizes que povoam orfanatos, tutores e famílias adoptivas. A Hollywood não escapou o segredo mal guardado dessa infância infeliz.
She seemed like a lost child”, comentou o actor Robert Mitchum. Ela parecia uma criança perdida, uma doce criança perdida. Há uma cena reveladora em The Asphalt Jungle, de John Huston.
Marilyn era, no filme, a sobrinha – eufemismo com que se recobria, aos olhos dos censores, a relação de mocinha nova com homem mais velho – de um advogado escroque, Louis Calhern. Nessa tal cena, a altas horas da noite, Calhern olha para Marilyn com a mais equívoca ternura paternal e diz: “Some sweet kid. It's later. Why don't you go to bed...” (“Doce menina. É tarde. Porque é que não vais para a cama”). Marilyn desliza com volúpia pelo sofá, dá-lhe um beijo de despedida e começa a andar para o quarto, “being her” – porque esse sendo ela é que faz o ponto da cena. O realizador corta o plano no andar dela e dá-nos o contracampo do rosto de Louis Calhern olhando-a e repetindo dubiamente: “Some sweet kid”.
A menina doce, a insistente e ambígua imagem de infância que se oferece (e entrega) à impureza gourmet do olhar adulto, talvez seja – pode ser que seja – o segredo da persistência da imagem de Marilyn, desse “being her” a que, quando queria e com vontade inocente, foi escrevendo a biografia. Com paradoxal despreocupação borgesiana.
Adaptação de artigo publicado no Expresso em Outubro de 1992.

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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Intelectuais, sempre...



Um monde sans intellectuels du tout?
Non, je ne m’y résous pas.
Bernard-Henri Lévy, Éloge des intellectuels,
Grasset 1987, p. 61.


Aprendi com o meu Pai, há muitos anos, que a inteligência obriga. E antes de tudo o mais, explicou-me, obriga o ser inteligente a não ser estúpido. Será sempre, aliás, essa recusa da estupidez concreta, a única prova idónea da inteligência presente em cada homem ou mulher históricos.

Aprendi assim. E assim me fiquei.

Por isso, recuso a notícia da morte dos intelectuais. E por isso recuso a aparente tranquilidade com que a mesma é recebida.

O intelectual é penhor da inteligência e do pensamento no espaço público. Sem ele – e o masculino é neutro, por politicamente incorrecto que seja –, a vulgata sub-cultural da actualidade, sustentada num ofensivo abuso de simplificações e estereótipos, produz o caldo próprio ao império da opinião.

Como pano-de-fundo, servindo a grande ilusão, a religião das maiorias. Sempre presentes, sempre eficazes, a opinião, as maiorias e a opinião das maiorias, rumo à paz totalitária... Porque sem teoria, sem crítica, sem complexificação, o futuro será totalitário. Garantidamente totalitário, ainda que – e isso é mesmo o pior – possamos não dar por tal.

Entre sacerdotes, conselheiros, profetas, monges e giróvagos, não é verdade, Alexandre?

Post Scriptum – Serve este post, também, para dizer a um dos nossos intelectuais dilectos, o Manuel S. Fonseca, que há co-bloggers do Geração de 60 que não têm escrito, ao contrário do que provocatoriamente foi aventado, pela pura e simples razão de estarem cheios – e aqui o masculino neutro é, sobretudo, critério de elegância literária… – de trabalho!

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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Manuela fica em casa


Nem Madeira, nem Pontal. Manuela Ferreira Leite não é muito de sair de casa, nem à noite. Esperemos que o recato e o decoro sejam inspiradores.

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Dog Day Campolide

Lisboa teve, hoje, direito a assistir a uma versão local do Dog Day Afternoon. Dog Day Campolide, com patrocínio do BES. Mais uma vez se viu que a vida não tem a limpeza do cinema. Não é Al Pacino quem quer.

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Confissão

Cheirava a cera, flores e incenso, a igreja que frequentava em miúda.
O confessionário ficava do lado esquerdo da porta principal. Desse tempo gostava sobretudo da leitura diária no mês de Maria que antecediam a reza do terço e que se fazia anunciar pelo bater dos sinos. Diferente de quando morria gente. Cultivava ainda uma paixão icónica, estética, pelas figuras de santinhos e santinhas que coleccionava com afinco e guardava no missal. Também os trocava quando era o caso de serem repetidos.

Não gostava da confissão. Não percebia o conceito, demasiado abstracto quando se tem oito anos. Para além de que educada a preservar a intimidade, a guardar pensamentos e ideias, não me agradava a ideia de partilhar os meus defeitos e pecadilhos com um estranho. Ainda que esse estranho fosse o pároco que me tinha dito que Sofia queria dizer sabedoria. Na minha presunção achei que o meu nome, afinal, me fazia justiça. Presunção e água benta cada um toma a que quer.

Na fila que se formava para a confissão, eu ía magicando pecados imaginários, três ou quatro. Qualquer coisa que, sob a admoestação do padre, me fizesse sentir culpada de verdade enquanto pensava no inconfessável e arrependida pelos meus actos, só um pouco de verdade misturada, para dar espessura.

Lembrei-me disto um outro dia. Não foi a primeira vez, parece que é tão costumeiro como a confissão da minha infãncia. Mesmo com 36 anos ainda acho demasiado abstracto o conceito.

Numa situação profissional formal, perguntam-me quais os meus três maiores defeitos.

Senhor Padre, disse palavrões, não obedeci à minha mãe, parti uma jarra e escondi-a debaixo do móvel, mando a minha irmã fazer as coisas que eu tenho medo de fazer.

Com que coragem é que podemos confessar que bebemos a água benta toda, mais a presunção que há nela, a pontos de pensarmos que somos melhores do que quem tem a ideia peregrina de nos fazer tal pergunta?

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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

42nd Street

Busby Berkeley:
não se nota, mas foi um génio
Se têm um átomo de paciência e não se importam de recuar a 1933, espreitem este “production number”, um dos vários prodígios assinados por Busby Berkeley no musical “42nd Street”, que a Warner Bros levou aos cinemas em 1933.
Berkeley era um génio e inventou tudo o que podem ver a seguir aos 2 minutos da canção de Ruby Keeler, a protagonista do filme. O que se segue é uma câmara imparável, a mais criativa das montagens, uma mise-en-scène divina, ou seja, um espectáculo em que Hollywood demonstrou toda a sua superioridade sobre a Broadway.
Há outros exemplos da “Berkeley technique”. Em todos, Busby Berkeley oferece deslumbrantes composições geométricas e caleidoscópicas. São algumas das mais belas paisagens oníricas que o cinema já fez e fará. Preparados para uma viagem melodramática? Aí vai:


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III. Os intelectuais

Que intelectual é esse que decaiu? O profeta. Porquê? Porque o profeta se tornou idólatra do giróvago e porque perdeu sentido crítico. O profeta Sócrates mostrava religioso respeito pelo monge Heraclito. Anacronismo à parte, duvido que tomaria Diógenes como paradigma. Quando o profeta bebe do giróvago há sempre sinal que anuncia a sua própria decadência. O palhaço em potência inquina-o e fá-lo cair no mesmo descrédito.

Quando o profeta toma o giróvago por paradigma condena-se ao descrédito. Afirma que no fundo lhe irreleva o povo a quem fala e os temas que enuncia. Decaiu porque desprezou o monge, que é o que lhe elabora as bases do discurso e a seiva do pensamento. Chama de cobarde o apolítico, ou, pior, de fascista. Decaiu porque não apenas atacou os monges concretos, mas quis acabar de vez com o estado monacal. Porque decaiu? Porque a religião única que apregoava era postiça. O modernismo, o marxismo, agora substituído pelo capitalismo ou pelo multiculturalismo ou post-modernismo. Religiões gastas à nascença, pobres de conteúdo e de efeito. Uma árvore conhece-se pelos seus frutos e conheço poucos hinos à economia de mercado, ainda menos sinfonias ao multiculturalismo.

Feito o diagnóstico, qual a terapêutica?

O intelectual soberano é em geral assustador. É preciso que seja soberano antes de intelectual e isso é matéria-prima rara. O conselheiro precisa de soberanos que pré-existam. Esses são mais comuns mas mesmo assim raros. Mas o profeta é ainda necessário, só que tem de ser de religiões ricas e observar o monge, não o giróvago. O giróvago tem de ser consistente com a sua natureza e ser pobre, sob pena de ser palhaço de hipocrisia. E o monge tem de ser respeitado exactamente por ser contemplativo, não pela sua acção social. Uma cultura saudável apresenta estas características. Dediquemo-nos a procurá-las.

http://epistolary.org/1643.html
http://www.fh-augsburg.de/~harsch/Chronologia/Lspost13/CarminaBurana/bur_car0.html
http://www.tylatin.org/extras/cb1.html




Alexandre Brandão da Veiga

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A Primeira Vez Que Vi Paris

Souci de connaissance
A primeira vez que vi Paris fiquei com os olhos rasos de água. Tinha acabado de tirar os olhos de Lisboa e começava a ver o que a vida tinha para me dar.
O avião sobrevoou a cidade e vi, lá de cima, o Sena apertado à esquerda e à direita, como vi a Torre Eifel a levantar-se, com estatura cartesiana, uma espécie de “cogito” urbano como não há em mais lado nenhum, a não ser em Nova Iorque onde os franceses plantaram, como “ersatz”, a Estátua da Liberdade.
Sei bem que a França não está na moda. Na moda tem estado, e julgo que ainda está, dizer que os franceses são arrogantes e os parisienses insuportáveis. Mas nesse dia, em que pela primeira vez vi Paris com olhar cândido e souci de connaissance, encontrei o meu par.
A minha França começara, quase por acaso, quando (terá sido em 1962?) o meu pai trouxe, do porto de Luanda, uns discos abandonados, 45 rpm, de Jean Ferrat, um crooner (ou um poeta-autor?) que me fez ouvir a estranha música de uma das mais belas línguas que conheço. Depois, um bom bocado depois, sozinho ou com ajudas, peguei de frente e de cernelha, os poetas, de Rimbaud a Éluard, de Baudelaire a René Char.
Antes, a França já tinha sido o meu passe-partout para atravessar a alegre tristeza da adolescência. Foi o meu yé-yé, com o Michel Polnareff da poupée qui fait non, foi o meu sonho do baile de sábado à noite em que Sylvie Vartan era la plus belle pour aller danser. Eu, que vivia em África, delirava com o Tour de France em que Jacques Anquetil invariavelmente esmagava Raymond Poulidor (o mais injustiçado dos ciclistas).
A primeira vez que vi Paris, deixei-me ficar. Tinha um quarto na Rue du Bac, no 6eme, entre a rue de Grenelle e o boulevard Saint Germain. Margem esquerda, a que me ficou no coração, mas a que hoje, aprendida a lição de Truffaut, sou infidelíssimo. Descobri, da Opéra à Madeleine, de Pigalle a Montmartre, a sensualidade da direita, a que me entrego com volúpia baudelairiana.
Não sei se a França de que continuo a gostar, por tanto a ter antes amado, ainda existe. Era, essa França que primeiro amei, a mesma França com que Hollywood sonhou quando fez “An American in Paris” ou “The Last Time I Saw Paris”. Elegante, generosa e cosmopolita. Luminosa e vã. Tenho a vaidade de pensar que lhe devo a minha eduação sentimental.

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terça-feira, 5 de agosto de 2008

O diabo no corpo


Hoje apetece lembrar Marylin. De vestido branco, corpete verde ou perdida nos "Inadaptados".
Perguntar-me de que matéria seria feita uma mulher capaz de se inventar e de se impor no imaginário colectivo por cinquenta anos.

Mulher com o diabo no corpo e outros demónios na cabeça.

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II. Os intelectuais

Cada um destes tipos gera perigos específicos. O rei-sacerdote tende para o totalitarismo. O conselheiro tende para se tornar um esbirro, um bajulador, um serviçal. O profeta tende a ser extremista, fechado sobre si mesmo, e de tanto dizer aos outros como devem viver a sua vida esquecer-se de como deve sequer viver a sua. O monge tem como perigo a indiferença. O giróvago o de transformar-se num mero palhaço.

Feito o balanço final, a História foi escassa em reis sacerdotes. Todos os outros tipos existiram em graus diferentes na História.

Qual é o intelectual que se encontra em decadência na nossa época afinal? Qual o destruído pela vitória (escassa e ilusória) do mundo ocidental contra o comunismo? O intelectual a que se referem quando falam desta queda é o profeta. O que anuncia os novos caminhos da humanidade. O que explica como se deve fazer a revolução, como no tristemente célebre e esquecido episódio em que Sartre vem a Portugal ensinar como se deve fazer uma revolução proletária para ser conforme aos ditames da dialéctica.

O giróvago continua a existir placidamente, sem ser incomodado. É o que se vê nas galerias de arte, é o palhaço caro a quem se pagam pinturas e instalações ou se deixa fazer poesia a que não se dá estatuto constitutivo, mas apenas lúdico.

O monge continua intocado, sobretudo na ciência, ou sob o estatuto do erudito, do estudioso, que faz livros que interessam apenas a outros monges. É no fundo irrelevante para o público em geral, entendido como figura menor, sem gerar excitação, apenas suscitando alguma condescendência. No fundo, é visto como o seria um espécime antropológico. Como o Bororó, é assim porque é assim, suscita alguma curiosidade dominical vespertina, nada mais. Nisso em nada mudou o seu estatuto desde há muito tempo.

O conselheiro desapareceu desde De Gaulle. Para que exista é preciso que haja soberanos.

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Mau Pai, Bom Filho, Grandes Pianistas

A moral em arte não risca. Bebo Valdés, hoje com 90 anos, é um dos sobreviventes dos anos dourados da música cubana. Nas décadas de 40 e 50, Bebo tocou rumbas, danzón e mambo. De vez quando, cruzou ritmos afro-cubanos com o jazz, o que fez dele um deus no mais lendário dos cabarets, o Tropicana, que acabou por dirigir.
Bebo Valdés é neto de escravos. Aos 17 anos, veio estudar música em Havana, ganhando a vida a descascar batatas. Cantava (o que eu jamais poderia ter feito) e tocava maracas (tão fácil que talvez eu pudesse ter tentado). Foi grande entre os grandes e ensinou Nat King Cole a cantar em espanhol.
Depois chegou Fidel. E os seus barbudos. Para Bebo o ritmo mudara. Um dia, tinha um dos seus músicos à espera, à porta de casa, com fusil revolucionário ao ombro, explicando-lhe, em compasso binário simples, que quem não é por nós é contra nós. Bebo tinha pai, mãe, mulher e cinco filhos. Foi comprar uma caixa de fósforos ao México e nunca mais voltou a Cuba. A mulher ainda soube que ele se ia embora. Aos filhos nem disse adeus. Um pai destes não se recomenda a ninguém.
Do México viajou para Estocolmo, onde viveu três décadas. Três esquecidas décadas a tocar em hotéis. Ressuscitou nos anos 90, quando Paquito D’ Riviera lhe editou o cd “Bebo Rides Again”. E “El Caballón”, como era conhecido o seu metro e oitenta e quatro, voltou a respirar pelas mãos. E que bem que Bebo respira quando as mãos dele tocam piano. Bebo, o homem que abandonou mulher e filhos, é hoje, aos 90 anos, uma estrela da música mundial, com direito a um documentário, “Old Man Bebo”. Mesmo sem o ter visto, considero-o já uma obra-prima (ganhou prémios nos festivais de Tribeca e Barcelona).
Chucho Valdés é filho de Bebo. Tinha 19 anos quando o pai o deixou a ele, à mãe, aos avós e aos irmãos. Acompanhara o pai para todo o lado e chegara a pianista na orquestra dele. Em 1960, ninguém disse a Chucho que o pai ia partir. Nem ao aeroporto o levaram. Quando descobriu, jurou à mãe que nunca a abandonaria. Cuidou dela e dos irmãos e converteu-se no maior pianista de Cuba.
Tocou com músicos fabulosos, nunca se envolveu em política e, sobretudo, recusou fugir da ilha cercada. Hoje convidam-no para tudo. Em Montreal, tocou na igreja da Santíssima Trindade, santuário de concertistas clássicos e de um público reservado e frio. Conta ele: “Primeiro toquei «Les Feuilles Mortes» em estilo barroco e quando acabei com um prelúdio de Bach o público pôs-se em pé e começou a gritar. Então, meti tumbaos a Debussy. Faço o que me apetece.” Dizem que é o melhor pianista do mundo. Ele diz que não, que é o pai!
São os dois, como se pode ver no reencontro emotivo, o segundo, do vídeo abaixo. Bebo terá sido mau pai. Chucho foi o melhor dos filhos. Está visto: a moral não toca piano.





Pai, piano e filho


Publicado no Pnet Homem

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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Solzhenitsin: in memoriam

Há dois momentos macabros na história da humanidade, no século XX: os campos de concentração nazis e os campos de concentração soviéticos. Salvo para algumas cabeças descabeladas e furiosas, a denúncia e a prova da barbárie nazi foram um dado adquirido desde o final da Guerra, em 1945. Não foi tão fácil denunciar a barbárie estalinista. A ideologia e a bondade idealista dos amanhãs que cantam queimavam como um ferro em brasa qualquer prova da inenarrável dor e mortandade que escapasse das sombras do socialismo científico.
Este homem, Alexander Solzhenitsin, com uma só palavra, Gulag, quebrou o tabu e ajudou a libertar a humanidade de um pesadelo torpe.
Uma palavra e duas mil páginas foram o legado de Solzhenitsin. Um legado que nos fez mais livres e, acredito, mais humanos.

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Bandeiras

O Verão, mesmo em Lisboa, tem as suas vantagens. Às 8 da noite ainda é muito de dia e quando se passa pelo cimo do Parque, a esplendorosa luz de Agosto faz da enorme bandeira nacional um ondulante espectáculo patriótico.
A bandeira, gigantesca, está à entrada do Jardim Amália. Luminosa e batida pelo vento, de repente a dimensão confere-lhe uma beleza que na Primavera não lhe adivinhávamos. É Verão. Na temporada Outono-Inverno voltaremos a vê-la como é e a recordar com nostalgia a sepultada brancura da bandeira monárquica.

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O intelectual guerreiro

Achei muito curiosa a tipologia que o Alexandre Brandão da Veiga (o único blogger da geração de 60 que, como eu, não fez férias em Agosto, como se vê) aqui nos propôs para os intelectuais.
Permito-me fazer uma nota de rodapé ao post dele e sugerir mais um tipo: o intelectual guerreiro, requerendo já o extremo favor de ninguém confundir a nomenclatura com meninos guerreiros, meninos de oiro ou afins.
Um exemplo meritório e controverso dessa categoria de intelectuais foi, no século XX, o escritor Ernst Jünger. Militar durante a I Grande Guerra, Jünger cantou, sem condescendência, a glória e a brutalidade da guerra, em "In Stahlgewittern".
Capitão das tropas alemãs, na II Guerra, conviveu e terá protegido Picasso e Cocteau, durante a Ocupação, em Paris. Foi soldado, botânico, zoólogo, entomologista e poeta. Do mal que lhe conheço a obra, elejo “Eumeswil”, um romance em que a liberdade individual persiste, servindo qualquer forma de poder: “A igualização e o culto das ideias colectivas não excluem o poder do individuo. Pelo contrário: nele se concentra o ideal das multidões como no foco de um espelho côncavo”. É o que escreve Jünger, mais adiante dizendo: “Não fracassamos pelos nossos sonhos, mas sim por não termos sonhado o suficiente”.
Acusado de simpatias nazis, mas também associado ao atentado contra Hitler, Jünger é o exemplo de um espírito livro, suficientemente equidistante dos poderes para poder garantir a sua an-arquia pessoal: "Cortejar as boas graças: também isto é uma arte. A expressão deve ter sido inventada por alguém que teve a mesma sorte da raposa com as uvas".

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I. Os intelectuais

O lugar comum deste tempo curto é que acabou o tempo dos intelectuais. Agora vivemos no tempo dos gestores. Oposição pobre como as conclusões a que chega. Mas vejamos o que nos ensina a experiência histórica.

Os ditos intelectuais ao longo dos séculos manifestaram-se em vários paradigmas:
1) O rei-sacerdote
2) O conselheiro
3) O profeta
4) O monge
5) O giróvago

Se bem virmos são estes os cinco tipos de intelectuais que a História viu nascer. Como todos os tipos, uns por vezes se sobrepõem aos outros, e muitas vezes ter um estatuto não impede que se ambicione outro.

O rei-sacerdote é o sonho da teocracia. O regime dos ayatolahs no Irão, mas igualmente a utopia platónica, ou em parte a ideologia bramânica deram exemplos deste modelo. Nele o intelectual, por o ser, tem o poder na sociedade. Savonarola, e Trotsky são duas tentativas falhadas deste tipo. Frederico o Grande da Prússia tentou sê-lo. Akhenaton igualmente.

O tipo de conselheiro é o do que, não tendo poder directamente, é a consciência do soberano. Platão junto do tirano de Siracusa, Alcuíno junto de Carlos Magno, Pierre de la Vigne junto de Frederico II de Hohenstaufen, Goethe junto do duque de Saxe-Weimar, Malraux junto de De Gaulle são os exemplos mais conhecidos.

O profeta não é poder, nem está nele integrado. Mas dirige-se ao poder e à sociedade para a fustigar, para a advertir. A tradição profética hebraica, São Bernardo, Santa Catarina de Siena, em parte Cristo (cum magno grano salis) são exemplos deste tipo. Zola e o intelectual típico francês, começando com Voltaire são os grandes representantes desta tradição que culmina com Sartre.

O monge é o que nem olha para o século. O monge pode estar retirado ou integrado numa organização. O conselheiro dirige-se ao soberano, o profeta ao mundo em geral, o monge olha para a interioridade. O paradigma do monge tem o seu herdeiro na tradição científica desde o fim do século XVIII, e no intelectual “apolítico” do II Reich, cujo testamento e maior declaração são as “Considerações de um apolítico” de Thomas Mann.

O giróvago é o que não se integra em instituição nenhuma. Ao contrário do monge observa o século, mas não para o mudar. Apenas para se rir dele, para o desprezar. A sua natureza é a mobilidade, seja de opiniões, seja geográfica. O mundo é diversão para ele. Ao contrário dos restantes, não sente responsabilidade nem pelo mundo nem pela sua alma. Ou pelo menos não faz dessa responsabilidade o centro do seu discurso. Os Carmina Burana são gerados por este tipo de intelectual. Ovídio e Catulo são exemplos dele. Diógenes o Cínico outro exemplo. O Maio de 68 idolatrou este tipo, embora se quisesse profético. Os poetas malditos (sejam quem eles forem) integram-se neste tipo. As bandas rock tradicionais, os artistas de performance são herdeiros destes giróvagos.



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sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Os dedos e os anéis



A sequência dos acontecimentos que envolveram a comunicação ao País do Presidente da República é eloquente sobre o sistema que atravessa a sociedade e que estabelece no topo da hierarquia o interesse dos media, depois o interesse dos «tradutores com opinião», depois o interesse da maioria dos portugueses e, finalmente, o interesse de Portugal.

  1. Fuga de informação para o Público sobre a intenção de o PR fazer uma comunicação ao País, sexta-feira, 31 de Julho e respectiva manchete no jornal do dia. Casa Civil confirma. Não é dado o assunto apenas a hora e a duração da intervenção.
  2. Frenesi mediático com leilão de apostas sobre o assunto: questão de vida e de morte do Presidente da República, inclusivé. Mesas com analistas nas rádios e televisões. Exitação dos que são pagos para suporem realidades. Crescendo das expectativas. Clima de País com o destino suspenso sobre as palavras prometidas para os primeiros cinco minutos depois das oito da noite. «Bombom» mediático no último dia de Julho quando apenas os fluxos dos veraneantes seríam notícia. 13 hora de produção de ansiedades - garante de audiências.
  3. Comunicação ao País sobre o novo Estatuto da Região Autónoma dos Açores, votado por todos os partidos do arco parlamentar em ano de eleições na Região. O Chefe de Estado entende que é perigoso precedente as leis ordinárias alterarem, gradual e subrepticiamente, os poderes dos Orgãos de Soberania; fá-lo depois de o Tribunal Constitucional ter detectado oito falhas no diploma (que não esta); mostra que os poderes do Presidente da República não estão sujeitos a este tipo de investidas aprovadas por todos os que não desagradam ao povo nas vésperas das eleições. Enfim: considera que matérias de coesão nacional, consolidadas ao mais alto nível na Constituição da República, não são sufragáveis por «dá lá aquela palha». Porta-se como fiel garante da instituições democráticas, como jurou ser e razão pela qual foi eleito e exerce funções.
  4. Desilusão total. O primeiro anel de opinion makers, constituído em cada TV e rádio por jornalistas, é demolidor para com o PR. Está desorientado. Cheguei a ouvir um deles dizer «Não sei o que é isto, nem do que se trata (Estatuto dos Açores) 99% dos portugueses também não sabe». Como se a gravidade dos assuntos tivesse, obrigatoriamente, alguma relação com o conhecimento alargado numa determinada população, com ilustração mediana.
  5. Segundo anel de analistas já não constituído por jornalistas mas por politólogos e políticos. Imperam as considerações de Estado do ponto 3 mais do que o carrocel emocional desfeito por um assunto «tão desinteressante».

O tabu de Cavaco é irritante e dispensável. O homem podia perfeitamente ter dito qual era o assunto. Mas não tinha que o fazer e não pode ser responsabilizado pela ansiedade que os media geraram e potenciaram ao longo do dia. Como político conhece e trabalha com o papel e o impacto dos seus actos nos media. Mas como Chefe de Estado não tem que se subordinar à sua lógica cada vez mais vinculada aos interesses de audiências e à exploração de crescendos emocionais, do que ao valor factual, não expeculativo, da matéria noticiosa.

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