quarta-feira, 6 de agosto de 2008

42nd Street

Busby Berkeley:
não se nota, mas foi um génio
Se têm um átomo de paciência e não se importam de recuar a 1933, espreitem este “production number”, um dos vários prodígios assinados por Busby Berkeley no musical “42nd Street”, que a Warner Bros levou aos cinemas em 1933.
Berkeley era um génio e inventou tudo o que podem ver a seguir aos 2 minutos da canção de Ruby Keeler, a protagonista do filme. O que se segue é uma câmara imparável, a mais criativa das montagens, uma mise-en-scène divina, ou seja, um espectáculo em que Hollywood demonstrou toda a sua superioridade sobre a Broadway.
Há outros exemplos da “Berkeley technique”. Em todos, Busby Berkeley oferece deslumbrantes composições geométricas e caleidoscópicas. São algumas das mais belas paisagens oníricas que o cinema já fez e fará. Preparados para uma viagem melodramática? Aí vai:


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III. Os intelectuais

Que intelectual é esse que decaiu? O profeta. Porquê? Porque o profeta se tornou idólatra do giróvago e porque perdeu sentido crítico. O profeta Sócrates mostrava religioso respeito pelo monge Heraclito. Anacronismo à parte, duvido que tomaria Diógenes como paradigma. Quando o profeta bebe do giróvago há sempre sinal que anuncia a sua própria decadência. O palhaço em potência inquina-o e fá-lo cair no mesmo descrédito.

Quando o profeta toma o giróvago por paradigma condena-se ao descrédito. Afirma que no fundo lhe irreleva o povo a quem fala e os temas que enuncia. Decaiu porque desprezou o monge, que é o que lhe elabora as bases do discurso e a seiva do pensamento. Chama de cobarde o apolítico, ou, pior, de fascista. Decaiu porque não apenas atacou os monges concretos, mas quis acabar de vez com o estado monacal. Porque decaiu? Porque a religião única que apregoava era postiça. O modernismo, o marxismo, agora substituído pelo capitalismo ou pelo multiculturalismo ou post-modernismo. Religiões gastas à nascença, pobres de conteúdo e de efeito. Uma árvore conhece-se pelos seus frutos e conheço poucos hinos à economia de mercado, ainda menos sinfonias ao multiculturalismo.

Feito o diagnóstico, qual a terapêutica?

O intelectual soberano é em geral assustador. É preciso que seja soberano antes de intelectual e isso é matéria-prima rara. O conselheiro precisa de soberanos que pré-existam. Esses são mais comuns mas mesmo assim raros. Mas o profeta é ainda necessário, só que tem de ser de religiões ricas e observar o monge, não o giróvago. O giróvago tem de ser consistente com a sua natureza e ser pobre, sob pena de ser palhaço de hipocrisia. E o monge tem de ser respeitado exactamente por ser contemplativo, não pela sua acção social. Uma cultura saudável apresenta estas características. Dediquemo-nos a procurá-las.

http://epistolary.org/1643.html
http://www.fh-augsburg.de/~harsch/Chronologia/Lspost13/CarminaBurana/bur_car0.html
http://www.tylatin.org/extras/cb1.html




Alexandre Brandão da Veiga

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A Primeira Vez Que Vi Paris

Souci de connaissance
A primeira vez que vi Paris fiquei com os olhos rasos de água. Tinha acabado de tirar os olhos de Lisboa e começava a ver o que a vida tinha para me dar.
O avião sobrevoou a cidade e vi, lá de cima, o Sena apertado à esquerda e à direita, como vi a Torre Eifel a levantar-se, com estatura cartesiana, uma espécie de “cogito” urbano como não há em mais lado nenhum, a não ser em Nova Iorque onde os franceses plantaram, como “ersatz”, a Estátua da Liberdade.
Sei bem que a França não está na moda. Na moda tem estado, e julgo que ainda está, dizer que os franceses são arrogantes e os parisienses insuportáveis. Mas nesse dia, em que pela primeira vez vi Paris com olhar cândido e souci de connaissance, encontrei o meu par.
A minha França começara, quase por acaso, quando (terá sido em 1962?) o meu pai trouxe, do porto de Luanda, uns discos abandonados, 45 rpm, de Jean Ferrat, um crooner (ou um poeta-autor?) que me fez ouvir a estranha música de uma das mais belas línguas que conheço. Depois, um bom bocado depois, sozinho ou com ajudas, peguei de frente e de cernelha, os poetas, de Rimbaud a Éluard, de Baudelaire a René Char.
Antes, a França já tinha sido o meu passe-partout para atravessar a alegre tristeza da adolescência. Foi o meu yé-yé, com o Michel Polnareff da poupée qui fait non, foi o meu sonho do baile de sábado à noite em que Sylvie Vartan era la plus belle pour aller danser. Eu, que vivia em África, delirava com o Tour de France em que Jacques Anquetil invariavelmente esmagava Raymond Poulidor (o mais injustiçado dos ciclistas).
A primeira vez que vi Paris, deixei-me ficar. Tinha um quarto na Rue du Bac, no 6eme, entre a rue de Grenelle e o boulevard Saint Germain. Margem esquerda, a que me ficou no coração, mas a que hoje, aprendida a lição de Truffaut, sou infidelíssimo. Descobri, da Opéra à Madeleine, de Pigalle a Montmartre, a sensualidade da direita, a que me entrego com volúpia baudelairiana.
Não sei se a França de que continuo a gostar, por tanto a ter antes amado, ainda existe. Era, essa França que primeiro amei, a mesma França com que Hollywood sonhou quando fez “An American in Paris” ou “The Last Time I Saw Paris”. Elegante, generosa e cosmopolita. Luminosa e vã. Tenho a vaidade de pensar que lhe devo a minha eduação sentimental.

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terça-feira, 5 de agosto de 2008

O diabo no corpo


Hoje apetece lembrar Marylin. De vestido branco, corpete verde ou perdida nos "Inadaptados".
Perguntar-me de que matéria seria feita uma mulher capaz de se inventar e de se impor no imaginário colectivo por cinquenta anos.

Mulher com o diabo no corpo e outros demónios na cabeça.

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II. Os intelectuais

Cada um destes tipos gera perigos específicos. O rei-sacerdote tende para o totalitarismo. O conselheiro tende para se tornar um esbirro, um bajulador, um serviçal. O profeta tende a ser extremista, fechado sobre si mesmo, e de tanto dizer aos outros como devem viver a sua vida esquecer-se de como deve sequer viver a sua. O monge tem como perigo a indiferença. O giróvago o de transformar-se num mero palhaço.

Feito o balanço final, a História foi escassa em reis sacerdotes. Todos os outros tipos existiram em graus diferentes na História.

Qual é o intelectual que se encontra em decadência na nossa época afinal? Qual o destruído pela vitória (escassa e ilusória) do mundo ocidental contra o comunismo? O intelectual a que se referem quando falam desta queda é o profeta. O que anuncia os novos caminhos da humanidade. O que explica como se deve fazer a revolução, como no tristemente célebre e esquecido episódio em que Sartre vem a Portugal ensinar como se deve fazer uma revolução proletária para ser conforme aos ditames da dialéctica.

O giróvago continua a existir placidamente, sem ser incomodado. É o que se vê nas galerias de arte, é o palhaço caro a quem se pagam pinturas e instalações ou se deixa fazer poesia a que não se dá estatuto constitutivo, mas apenas lúdico.

O monge continua intocado, sobretudo na ciência, ou sob o estatuto do erudito, do estudioso, que faz livros que interessam apenas a outros monges. É no fundo irrelevante para o público em geral, entendido como figura menor, sem gerar excitação, apenas suscitando alguma condescendência. No fundo, é visto como o seria um espécime antropológico. Como o Bororó, é assim porque é assim, suscita alguma curiosidade dominical vespertina, nada mais. Nisso em nada mudou o seu estatuto desde há muito tempo.

O conselheiro desapareceu desde De Gaulle. Para que exista é preciso que haja soberanos.

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Mau Pai, Bom Filho, Grandes Pianistas

A moral em arte não risca. Bebo Valdés, hoje com 90 anos, é um dos sobreviventes dos anos dourados da música cubana. Nas décadas de 40 e 50, Bebo tocou rumbas, danzón e mambo. De vez quando, cruzou ritmos afro-cubanos com o jazz, o que fez dele um deus no mais lendário dos cabarets, o Tropicana, que acabou por dirigir.
Bebo Valdés é neto de escravos. Aos 17 anos, veio estudar música em Havana, ganhando a vida a descascar batatas. Cantava (o que eu jamais poderia ter feito) e tocava maracas (tão fácil que talvez eu pudesse ter tentado). Foi grande entre os grandes e ensinou Nat King Cole a cantar em espanhol.
Depois chegou Fidel. E os seus barbudos. Para Bebo o ritmo mudara. Um dia, tinha um dos seus músicos à espera, à porta de casa, com fusil revolucionário ao ombro, explicando-lhe, em compasso binário simples, que quem não é por nós é contra nós. Bebo tinha pai, mãe, mulher e cinco filhos. Foi comprar uma caixa de fósforos ao México e nunca mais voltou a Cuba. A mulher ainda soube que ele se ia embora. Aos filhos nem disse adeus. Um pai destes não se recomenda a ninguém.
Do México viajou para Estocolmo, onde viveu três décadas. Três esquecidas décadas a tocar em hotéis. Ressuscitou nos anos 90, quando Paquito D’ Riviera lhe editou o cd “Bebo Rides Again”. E “El Caballón”, como era conhecido o seu metro e oitenta e quatro, voltou a respirar pelas mãos. E que bem que Bebo respira quando as mãos dele tocam piano. Bebo, o homem que abandonou mulher e filhos, é hoje, aos 90 anos, uma estrela da música mundial, com direito a um documentário, “Old Man Bebo”. Mesmo sem o ter visto, considero-o já uma obra-prima (ganhou prémios nos festivais de Tribeca e Barcelona).
Chucho Valdés é filho de Bebo. Tinha 19 anos quando o pai o deixou a ele, à mãe, aos avós e aos irmãos. Acompanhara o pai para todo o lado e chegara a pianista na orquestra dele. Em 1960, ninguém disse a Chucho que o pai ia partir. Nem ao aeroporto o levaram. Quando descobriu, jurou à mãe que nunca a abandonaria. Cuidou dela e dos irmãos e converteu-se no maior pianista de Cuba.
Tocou com músicos fabulosos, nunca se envolveu em política e, sobretudo, recusou fugir da ilha cercada. Hoje convidam-no para tudo. Em Montreal, tocou na igreja da Santíssima Trindade, santuário de concertistas clássicos e de um público reservado e frio. Conta ele: “Primeiro toquei «Les Feuilles Mortes» em estilo barroco e quando acabei com um prelúdio de Bach o público pôs-se em pé e começou a gritar. Então, meti tumbaos a Debussy. Faço o que me apetece.” Dizem que é o melhor pianista do mundo. Ele diz que não, que é o pai!
São os dois, como se pode ver no reencontro emotivo, o segundo, do vídeo abaixo. Bebo terá sido mau pai. Chucho foi o melhor dos filhos. Está visto: a moral não toca piano.





Pai, piano e filho


Publicado no Pnet Homem

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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Solzhenitsin: in memoriam

Há dois momentos macabros na história da humanidade, no século XX: os campos de concentração nazis e os campos de concentração soviéticos. Salvo para algumas cabeças descabeladas e furiosas, a denúncia e a prova da barbárie nazi foram um dado adquirido desde o final da Guerra, em 1945. Não foi tão fácil denunciar a barbárie estalinista. A ideologia e a bondade idealista dos amanhãs que cantam queimavam como um ferro em brasa qualquer prova da inenarrável dor e mortandade que escapasse das sombras do socialismo científico.
Este homem, Alexander Solzhenitsin, com uma só palavra, Gulag, quebrou o tabu e ajudou a libertar a humanidade de um pesadelo torpe.
Uma palavra e duas mil páginas foram o legado de Solzhenitsin. Um legado que nos fez mais livres e, acredito, mais humanos.

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Bandeiras

O Verão, mesmo em Lisboa, tem as suas vantagens. Às 8 da noite ainda é muito de dia e quando se passa pelo cimo do Parque, a esplendorosa luz de Agosto faz da enorme bandeira nacional um ondulante espectáculo patriótico.
A bandeira, gigantesca, está à entrada do Jardim Amália. Luminosa e batida pelo vento, de repente a dimensão confere-lhe uma beleza que na Primavera não lhe adivinhávamos. É Verão. Na temporada Outono-Inverno voltaremos a vê-la como é e a recordar com nostalgia a sepultada brancura da bandeira monárquica.

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O intelectual guerreiro

Achei muito curiosa a tipologia que o Alexandre Brandão da Veiga (o único blogger da geração de 60 que, como eu, não fez férias em Agosto, como se vê) aqui nos propôs para os intelectuais.
Permito-me fazer uma nota de rodapé ao post dele e sugerir mais um tipo: o intelectual guerreiro, requerendo já o extremo favor de ninguém confundir a nomenclatura com meninos guerreiros, meninos de oiro ou afins.
Um exemplo meritório e controverso dessa categoria de intelectuais foi, no século XX, o escritor Ernst Jünger. Militar durante a I Grande Guerra, Jünger cantou, sem condescendência, a glória e a brutalidade da guerra, em "In Stahlgewittern".
Capitão das tropas alemãs, na II Guerra, conviveu e terá protegido Picasso e Cocteau, durante a Ocupação, em Paris. Foi soldado, botânico, zoólogo, entomologista e poeta. Do mal que lhe conheço a obra, elejo “Eumeswil”, um romance em que a liberdade individual persiste, servindo qualquer forma de poder: “A igualização e o culto das ideias colectivas não excluem o poder do individuo. Pelo contrário: nele se concentra o ideal das multidões como no foco de um espelho côncavo”. É o que escreve Jünger, mais adiante dizendo: “Não fracassamos pelos nossos sonhos, mas sim por não termos sonhado o suficiente”.
Acusado de simpatias nazis, mas também associado ao atentado contra Hitler, Jünger é o exemplo de um espírito livro, suficientemente equidistante dos poderes para poder garantir a sua an-arquia pessoal: "Cortejar as boas graças: também isto é uma arte. A expressão deve ter sido inventada por alguém que teve a mesma sorte da raposa com as uvas".

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I. Os intelectuais

O lugar comum deste tempo curto é que acabou o tempo dos intelectuais. Agora vivemos no tempo dos gestores. Oposição pobre como as conclusões a que chega. Mas vejamos o que nos ensina a experiência histórica.

Os ditos intelectuais ao longo dos séculos manifestaram-se em vários paradigmas:
1) O rei-sacerdote
2) O conselheiro
3) O profeta
4) O monge
5) O giróvago

Se bem virmos são estes os cinco tipos de intelectuais que a História viu nascer. Como todos os tipos, uns por vezes se sobrepõem aos outros, e muitas vezes ter um estatuto não impede que se ambicione outro.

O rei-sacerdote é o sonho da teocracia. O regime dos ayatolahs no Irão, mas igualmente a utopia platónica, ou em parte a ideologia bramânica deram exemplos deste modelo. Nele o intelectual, por o ser, tem o poder na sociedade. Savonarola, e Trotsky são duas tentativas falhadas deste tipo. Frederico o Grande da Prússia tentou sê-lo. Akhenaton igualmente.

O tipo de conselheiro é o do que, não tendo poder directamente, é a consciência do soberano. Platão junto do tirano de Siracusa, Alcuíno junto de Carlos Magno, Pierre de la Vigne junto de Frederico II de Hohenstaufen, Goethe junto do duque de Saxe-Weimar, Malraux junto de De Gaulle são os exemplos mais conhecidos.

O profeta não é poder, nem está nele integrado. Mas dirige-se ao poder e à sociedade para a fustigar, para a advertir. A tradição profética hebraica, São Bernardo, Santa Catarina de Siena, em parte Cristo (cum magno grano salis) são exemplos deste tipo. Zola e o intelectual típico francês, começando com Voltaire são os grandes representantes desta tradição que culmina com Sartre.

O monge é o que nem olha para o século. O monge pode estar retirado ou integrado numa organização. O conselheiro dirige-se ao soberano, o profeta ao mundo em geral, o monge olha para a interioridade. O paradigma do monge tem o seu herdeiro na tradição científica desde o fim do século XVIII, e no intelectual “apolítico” do II Reich, cujo testamento e maior declaração são as “Considerações de um apolítico” de Thomas Mann.

O giróvago é o que não se integra em instituição nenhuma. Ao contrário do monge observa o século, mas não para o mudar. Apenas para se rir dele, para o desprezar. A sua natureza é a mobilidade, seja de opiniões, seja geográfica. O mundo é diversão para ele. Ao contrário dos restantes, não sente responsabilidade nem pelo mundo nem pela sua alma. Ou pelo menos não faz dessa responsabilidade o centro do seu discurso. Os Carmina Burana são gerados por este tipo de intelectual. Ovídio e Catulo são exemplos dele. Diógenes o Cínico outro exemplo. O Maio de 68 idolatrou este tipo, embora se quisesse profético. Os poetas malditos (sejam quem eles forem) integram-se neste tipo. As bandas rock tradicionais, os artistas de performance são herdeiros destes giróvagos.



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sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Os dedos e os anéis



A sequência dos acontecimentos que envolveram a comunicação ao País do Presidente da República é eloquente sobre o sistema que atravessa a sociedade e que estabelece no topo da hierarquia o interesse dos media, depois o interesse dos «tradutores com opinião», depois o interesse da maioria dos portugueses e, finalmente, o interesse de Portugal.

  1. Fuga de informação para o Público sobre a intenção de o PR fazer uma comunicação ao País, sexta-feira, 31 de Julho e respectiva manchete no jornal do dia. Casa Civil confirma. Não é dado o assunto apenas a hora e a duração da intervenção.
  2. Frenesi mediático com leilão de apostas sobre o assunto: questão de vida e de morte do Presidente da República, inclusivé. Mesas com analistas nas rádios e televisões. Exitação dos que são pagos para suporem realidades. Crescendo das expectativas. Clima de País com o destino suspenso sobre as palavras prometidas para os primeiros cinco minutos depois das oito da noite. «Bombom» mediático no último dia de Julho quando apenas os fluxos dos veraneantes seríam notícia. 13 hora de produção de ansiedades - garante de audiências.
  3. Comunicação ao País sobre o novo Estatuto da Região Autónoma dos Açores, votado por todos os partidos do arco parlamentar em ano de eleições na Região. O Chefe de Estado entende que é perigoso precedente as leis ordinárias alterarem, gradual e subrepticiamente, os poderes dos Orgãos de Soberania; fá-lo depois de o Tribunal Constitucional ter detectado oito falhas no diploma (que não esta); mostra que os poderes do Presidente da República não estão sujeitos a este tipo de investidas aprovadas por todos os que não desagradam ao povo nas vésperas das eleições. Enfim: considera que matérias de coesão nacional, consolidadas ao mais alto nível na Constituição da República, não são sufragáveis por «dá lá aquela palha». Porta-se como fiel garante da instituições democráticas, como jurou ser e razão pela qual foi eleito e exerce funções.
  4. Desilusão total. O primeiro anel de opinion makers, constituído em cada TV e rádio por jornalistas, é demolidor para com o PR. Está desorientado. Cheguei a ouvir um deles dizer «Não sei o que é isto, nem do que se trata (Estatuto dos Açores) 99% dos portugueses também não sabe». Como se a gravidade dos assuntos tivesse, obrigatoriamente, alguma relação com o conhecimento alargado numa determinada população, com ilustração mediana.
  5. Segundo anel de analistas já não constituído por jornalistas mas por politólogos e políticos. Imperam as considerações de Estado do ponto 3 mais do que o carrocel emocional desfeito por um assunto «tão desinteressante».

O tabu de Cavaco é irritante e dispensável. O homem podia perfeitamente ter dito qual era o assunto. Mas não tinha que o fazer e não pode ser responsabilizado pela ansiedade que os media geraram e potenciaram ao longo do dia. Como político conhece e trabalha com o papel e o impacto dos seus actos nos media. Mas como Chefe de Estado não tem que se subordinar à sua lógica cada vez mais vinculada aos interesses de audiências e à exploração de crescendos emocionais, do que ao valor factual, não expeculativo, da matéria noticiosa.

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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Os pobres, a direita e a esquerda

Os que dizem que não faz sentido distinguir a Direita da Esquerda, às vezes têm razão. Isso mesmo mostram as disputas (que não cito por preguiça, pedindo desculpas por isso), nos jornais e outros meios, por causa das recentes lutas entre ciganos e negros, algures na periferia de Lisboa.

A direita ex-marxista e a direita não católica escreveram coisas impressionantes, que basicamente se traduzem no seguinte: não ajudem os pobres, pois isso torna-os ineficientes e preguiçosos. Os ex-marxistas da direita continuam a achar que o Mundo pode ser corrigido e só o não é porque os homens maus não querem. Não aprenderam a lição com a queda do muro de Berlim. Os não católicos da direita acham que a busca da eficiência é o valor mais importante à face da Terra. Não aprenderam a lição olhando para as suas próprias vidas, para verem como também elas têm muito de ineficiente.

Ajudar os pobres é ineficiente? - Claro que é. Assim como olhar para o tecto à procura de inspiração. Ou discutir no corredor, longamente, a invenção da água quente.

(A verdade é que nada disso é ineficiente, quando tudo é bem medido, uma dedução impossível de expor a quem usa demais a ideologia.)

Mas a questão não é saber se ajudar os pobres é ineficiente ou não. E é aqui que entra a direita católica, para quem ajudar os pobres é tão natural como rezar. Esta direita está mais perto dos socialistas moles, que acham o mesmo. Sim, porque os socialistas duros são como a direita ex-marxista (et pour cause) e a não católica. Para eles, ajudar os pobres é alimentar o "sistema" e atrasar a revolução.

Meus caros, brinquem aos liberais mas parem quando há pessoas que precisam dos seus problemas resolvidos. De uma forma não malthusiana, de preferência.

Perdoe-se a generalização feita nestas linhas, mas retenha-se o que de válido ela dá.

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quarta-feira, 30 de julho de 2008

A palha

Acerca da questão dos médicos (breves notas).

Pouco tempo depois de ter começado a trabalhar numa institução pública, há vários anos atrás, cedo me convenci de que a situação dos trabalhadores deveria ser rigorosamente definida: ou público ou privado. Anos mais tarde, quando fui trabalhar para o sector privado, tive a certeza absoluta.

O que se passa no sector público é relativamente simples de explicar.

Existe um vínculo ( de nomeação ou contrato)de trabalho dependente. Ao abrigo deste vínculo, a entidade empregadora face ao funcionário ou trabalhador, tem determinados deveres, a que correspondem direitos desses mesmos trabalhadores. Para além da retribuição, a entidade empregadora tem de efectuar os descontos obrigatórios para a segurança social (reforma e doença), tem de pagar catorze retribuições, tem de justificar faltas relativas à maternidade, paternidade e doença, só para falar de alguns que são os que mais pesam no bolso de quem paga.

Ora, sabemos que quando um trabalhador já tem quem lhe pague estes direitos ( reforma, doença, maternidade), torna-se apetecível para o sector privado. E porquê?
Porque nestes casos, a entidade privada recorre a uma prestação de serviço, os chamados "recibos verdes". Paga-se uma determinda quantia, ou seja, as horas que são prestadas. Não há descontos para a segurança social, não há justificação de faltas, muito menos se paga a mulheres que estejam em casa com um filho de meses.

Ora, há duas questões que gostaria de colocar.

A primeira, é se os privados estão dispostos a pagar a integralidade dos deveres de uma entidade empregadora, e não apenas umas horas em prestação de serviços.
E eu até acredito que queiram, todavia quando o fazem, serão exigentes e rigorosos. De uma coisa estou certa, médico que trabalhe exclusivamente para uma entidade privada, não acumula em mais sítio nenhum, não tem tempo!

A segunda é, se nesse caso, os médicos estão interessados. É que a actual situação lhes é benéfica.De um lado, têm um patrão que não é muito exigente, podendo por causa disso, obter um um complemento salarial, nada dispiciendo.

Perante este cenário que deve o Estado fazer? Eu penso que quem paga pode e deve exigir. O princípio só pode ser o da exigência. O Estado tem de se comportar como uma entidade empregadora exigente, sob pena de se poder dizer que " muita palha come o burro, mais burro é quem lha dá".

Sendo que neste caso, burros são os portugueses que com os seus contratos, descontos e impostos sustentam tanta palha.

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segunda-feira, 28 de julho de 2008

Diplomacia Comercial


Um dos mais escandalosos sinais da ineficácia de Portugal hoje, é o desperdício de energia vital, seja intelectual, seja laboral. Sabemos que temos uma dimensão pequena (população e Km2 de território) e que estamos “encurralados” entre a Espanha e o Oceano infinito. Sabemos, também, que não temos petróleo nem outras matérias-primas valiosas. Sabemos que não temos indústrias poderosas e que a agricultura foi sendo inviabilizada pelas cotas europeias (ou francesas). E sabendo isto o que fazemos?

Um país não cresce se apenas produzir internamente para o mercado interno. A não ser que seja muito rico e auto-suficiente para, sem recurso à importação, satisfazer todas as suas necessidades. Não sendo, como mesmo os mais ricos não são, tem de estabelecer um equilíbrio entre as importações e as exportações. Ou seja, se importa e paga o que importa, também tem de exportar para ter dinheiro para comprar. Ora, sendo um país pequeno em população é um país pequeno em mercado interno e as suas actividades, se apenas se dirigirem ao mercado interno, não ganharão dimensão que lhes permita combater ou acompanhar a concorrência dos países estrangeiros que desenvolvam a mesma actividade e vejam no mercado português um destino para expansão do seu mercado-alvo. Pensar na concorrência obriga a ganhar dimensão e para ganhar dimensão é necessário ter os olhos postos não no mercado português mas no mercado mundial. Para concorrer no mercado mundial é preciso ter vantagens competitivas que, primeiro, justifiquem os custos da distância e que, segundo, justifiquem a opção pelos nossos produtos ou serviços. Estas duas vantagens têm de ser criadas, tem de ser pensadas, construídas e depois aplicadas.
Não vamos insistir no que é mais evidente para dar o primeiro grande passo no sentido do mercado internacional e que é obviamente o nível de educação dos portugueses. A educação, que não é só a literacia com que tantos hoje se contentam, deveria desenvolver as qualidades humanas que dão superioridade aos povos: disciplina, conhecimentos (sensibilidade e inteligência) e coragem.
Entretanto, teremos de começar a andar como sabemos, e a necessidade é a principal causa do desenvolvimento de qualidades que no remanso da pacatez conformada e abúlica estão adormecidas. E começar a andar, aqui, significa identificar as actividades que nos podem diferenciar e identificar os mercados a que elas se podem dirigir. Não penso que deva ser o Estado identificar essas actividades nem esses mercados. Essa tarefa cabe aos empresários ou aos empreendedores. Mas penso que o Estado tem uma obrigação fundamental pela capacidade que um Estado tem no diálogo com outros Estados. Ou seja, o Estado não tem de dizer aos empresários ou aos empreendedores o que fazer, mas tem o dever e o alto interesse de proteger ao mais alto nível os seus cidadãos estejam eles onde estiverem.

Era à diplomacia portuguesa que queria chegar. Das diversas funções e justificações para a actividade diplomática, uma deveria ter um forte investimento e uma forte fiscalização: identificação de oportunidades e preparação de terreno para o investimento português, protecção ao mais alto nível dos interesses dos portugueses, empresas ou empresários, que se internacionalizam e captação de investimento estrangeiro para Portugal. A diplomacia comercial é um vector absolutamente fundamental para criar uma corrente de confiança e de apoio à sustentação de uma política económica baseada na força da iniciativa privada e na disponibilidade com que alguns arriscam as suas vidas e os seus negócios gerando, directa ou indirectamente, benefícios para todos. Porque sempre que alguém faz a mala e parte sem garantias e sem rede é, lá fora, um português. É um português que há-de voltar. E é menos um português que aqui fica a lamber feridas enquanto o país precisa de se regenerar e de se arriscar. É um português que vai gerar oportunidades, que vai gerar emprego, que vai representar Portugal, que vai trazer capital, que vai trazer investimento, que vai ser um exemplo para outros e, por isso, demonstra-lhes que é possível.

As Embaixadas têm de estar onde se conseguir um equilíbrio entre o fluxo de portugueses e dos seus interesses e os custos dessa localização. Mas se houver um investimento em que o governo central exija resultados, então, toda a implantação de Embaixadas será dirigida para uma diplomacia comercial que envolve o Estado, mas que acima de tudo desenvolve uma actividade que dá frutos por ser dirigida e focada na identificação de oportunidades nos dois sentidos. Resulta da identificação de um mercado a que os empresários e os empreendedores estão despertos e, por isso, o Estado deve desenvolver iniciativas para se representar até ao ponto de, se não houver, abrir uma Embaixada.

Naturalmente, que essa actividade de diplomacia económica deverá ser acompanhada de uma diplomacia de representação com o desenvolvimento de encontros bilaterais, com fomento de relações geo-estratégicas, de protocolos de cooperação entre Estados, de programas especiais nas áreas da educação, do turismo, programas de geminação de cidades e com actividades de divulgação da cultura portuguesa, sobretudo, na perspectiva em que nos possamos diferenciar de anglo-saxónicos, alemães e holandeses, franceses, italianos e espanhóis.
Muitas das localizações têm já representação portuguesa. Mas essas nós perguntamos: o que têm feito para criar esta corrente comercial? Como justificam o investimento do Estado nas suas Embaixadas e o retorno que delas pode vir mas não vem? Se o Estado somos todos nós, então como é que o nosso dinheiro está a ser gasto se quando precisamos de o investir ele está a ser gasto sem qualquer vantagem para nós?

As embaixadas servem para representar mas também para potenciar, desenvolver e afirmar Portugal. Deve movê-las o estrito interesse nacional e o interesse nacional são os interesses dos portugueses actuais e vindouros. O interesse nacional é determinado por interesses políticos realizado em alianças, desenvolvimento das relações com os parceiros tradicionais, e pelo interesse económico determinado pelas conjunturas que propiciam o reforço ou a abertura de uma nova frente diplomática.
Acresce, no caso português, a relevância que podem ter as nossas características. A não hostilização da diferença, a adaptabilidade a novas condições, uma cultura de proximidade e de convívio bem contrária à tradição anglo-saxónica, são factores que podem diferenciar a presença portuguesa no mercado global e que, no fundo, é um património histórico que nos pertence. Mas ter uma rede é fundamental para ter um respaldo institucional, sobretudo, nos mercados onde as diferenças culturais, políticas e operacionais são muito grandes. É também na construção desse respaldo que a nossa competitividade pode aumentar.

Já que temos a despesa podíamos também ter algum proveito. Se as Embaixadas portuguesas fossem postos avançados, na Ásia, no Médio Oriente, na África, na América Latina e no leste europeu, naqueles lugares onde os nossos produtos e serviços podem ser vantajosos e competitivos, então, as portas do nosso pequeno mercado interno abrir-se-iam ao mundo e a nossa dimensão deixaria de ser um problema que nos atrasa e inibe de pensar na medida da nossa visão. A nossa dimensão será sempre a dimensão da nossa alma. O que queremos ver do outro lado do espelho?

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Zezinho, Huguinho, Eduardinho & outros

As recentes viagens diplomático-comerciais que assolam ambos os países da Península, lembraram-me uma história que me contaram em miúda.

Passava-se num asilo. Estava um grupo de doentes internados que deambulavam de bata de hospital, de cabelos desgrenhados e olhar perdido.
De repente, um deles saca de um pau afiado que havia escondido numa manga e sem aviso desata a correr atrás de outro. Perseguia-o pelo corredor com gritos assustadores, empunhando o pau, qual faca, ameaçador.
À sua frente, gritando de terror, o homem é perseguido até ao fundo do corredor, onde fica encurralado. O perseguidor pára defronte do homem. Empunha a arma, o braço levantado.
De olhar esgazeado, ri para o homem que tinha perseguido.
Diz-lhe então: " - Agora, corres tu atrás de mim!".

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Todos Gostamos de Viajar

O Alexandre pôs o dedo na ferida. O TGV tem de ser apreciado numa perspectiva alargada, que inclui os aspectos culturais. Não muito diferente da que Fontes Pereira de Melo teve para fazer o comboio para o Eça de Queirós ir a Paris. E, mais tarde, também os emigrantes. Mas é sempre preciso fazer algumas contas, pois os recursos são escassos. Como fazer essas contas? Uma forma é contar o número de pessoas de onde se podem retirar potenciais e sedentos viajantes entre Lisboa e Madrid. Esse número é maior em Lisboa, que concorre para ser a segunda cidade da península ibérica, do que em Sevilha, que concorre para ser a quinta, sendo que esta já tem o seu altamente rentável comboio de alta velocidade. O meu contributo com as habituais contas sobre o joelho pode ser visto aqui.

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Apanhando o TGV

Não percebo grande coisa de comboios. E no entanto a democracia exige-nos que formemos opiniões sobre algumas coisas que serão vagamente importantes no futuro e que nos sairão do bolso.

Sob o ponto de vista estratégico sempre fui favorável ao TVG. Numa Europa em que imperam as médias distâncias e em que os comboios funcionam a electricidade, dependendo a montante por isso de fontes energéticas que podem ser variadas e com maior autonomia energética da Europa, sempre pendi a favor do TGV. Isto além de razões estratégicas e ecológicas que me aprecem aceitáveis.

Seja como for, não sou especialista em comboios e por isso gostaria que me esclarecessem um pouco mais sobre o assunto. A verdade é que esta questão tem posto a nu um vício na discussão pública em Portugal, que vai muito para além da questão do TGV.

Quem fala? Economistas. Para dizer o que? Que é caro, não é rentável e não é necessário. Tudo matérias em que pessoas com formação económica são competentes para se pronunciar, é certo. Nem contesto a coisa. Mas serão completamente competentes?

Que sabem os economistas de construção de caminhos-de-ferro? De fontes de alimentação em energia? De saturação de tráfego? De desgaste de materiais? Que estudos fizeram sobre as velocidade médias efectivas dos comboios entre Lisboa e Porto? E Lisboa e Madrid?

Ignoro. E não tenho conhecimento bastante para fazer a crítica disto. Mas noutro dia ouvi pela primeira vez um engenheiro a falar sobre a questão. Fala se bem me lembro de 591 comboios por dia na linha Lisboa Porto e da sua saturação, de uma velocidade média de 40 km por hora nessa linha por força da saturação, e dos atrasos provocados pelos comboios de mercadorias, do desgaste de materiais.

Não sei. Mas pareceu-me de repente que estávamos a falar de linhas de comboio e que um engenheiro saberia mais da matéria que um economista. Que fale o economista sobre o investimento numa biblioteca, mas antes gostaria de ouvir quem lê livros, que fale sobre a construção de uma igreja, mas antes que me fale quem sabe de teologia.

O problema é geral. Em Portugal pede-se ao futebolista que fale de geoestratégia, ao comentador político que fale de cultura e à estrela de telenovela que se pronuncie sobre a crise financeira. Que o economista fale de investimentos, parece-me bem razoável. Mas sobre a utilidade a necessidade e a estrutura da coisa a investir gostaria de ouvir em primeiro lugar quem sabe da coisa. Muitos de nós teremos aprendido a falar sobre muita coisa. O problema é que em perspectivas diversas. Alguém que partiu uma perna é mais bem assistido por um médico que por um economista, mesmo que este seja importante para (ajudar a) determinar os custos da operação.

Continuo sem bases para discutir seriamente esta questão. Mas como serei eu, como contribuinte líquido desde sempre, a pagar esta operação, e como vai influenciar a relação do meu país com a Europa, sou parte interessada na coisa. Gostaria de ouvir pois um pouco menos de economistas e gestores sobre isto e mais quem saiba de comboios. Cada um tem o seu lugar. Já ouvi uns, gostaria de ouvir outros para ter fundamentos na minha opinião.






Alexandre Brandão da Veiga

http://www.ordemengenheiros.pt/altavelocidade/files/Alta%20Velocidade-Portugal%20mais%20pr%C3%B3ximo.pdf
http://www.europeanrailwayreview.com/
http://europa.eu/scadplus/leg/en/lvb/l24013.htm
http://www.railpass.com/
http://www.raileurope.com/us/rail/fares_schedules/
http://www.raileurope.co.uk/Default.aspx?tabid=454

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Pergunta e leitura

A Dra. Manuela Ferreira Leite não deveria deixar de escrever uma coluna de opinião na primeira página do suplemento de economia do "Expresso"? Se sim, porque é que ainda o faz? Por distracção? Porque ainda ninguém teve a coragem de lho lembrar? Ou será que não é importante?

Brilhante a última crónica de Henrique Raposo no "Expresso". É bom ler coisas de que se gosta, mesmo sem se concordar - é aliás muito melhor do que quando se gosta e se concorda. Uma parábola muito bem apanhada.

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domingo, 27 de julho de 2008

Le Corbusier e as Utopias no CCB


Estiveram em simultâneo no CCB duas exposições que se tangeram. Uma é sobre a obra multifacetada daquele que é considerado o principal arquitecto do século XX, Le Corbusier (1987-1965) e a outra é uma exposição de fotografia intitulada — Utopias — e onde se dá por definido que utopia são blocos de apartamentos todos iguais ou em subúrbios ou em contraste com outros contextos urbanos.

Apesar do abuso evidente de identificar as Utopias com blocos de apartamentos em subúrbios, a ligação entre as duas exposições tem uma intenção polemizante pois há obras de Le Corbusier nesse rol de utopias que aparecem como clamorosos falhanços de uma vontade normalizadora versus uma realidade individual, e a comparação deixa o visitante no mínimo de sobreaviso.
A ligação é por muitas razões curiosa. Por uma lado, a exposição de Le Corbusier é fascinante pelo seu lado de artista plástico formado por mestres artesãos, que teve a sua iniciação nas artes plásticas e no design e que prolongou essa sua liberdade conceptual para os domínios da arquitectura sendo o primeiro arquitecto a, em larga escala, revolucionar os princípios até então consensuais da arquitectura criando novas bases para o seu desenvolvimento — planta livre, os pilotis, fachadas de composição livre, janelas corridas e jardins nas coberturas—, por outro, o seu lado normativo e ideológico que se propunha destruir parcialmente o centro de Paris para erguer gigantescas torres cruciformes implantadas num terreno previamente aplanado e ajardinado que deveria conviver (não fosse a falta de visão dos académicos que disseram não!) com outras permanências da cidade como a torre Eiffel ou a Notre Dame. Desta obra devastadora não há senão maquetas, desenhos e desabafos, mas do Bloco de Marselha há fotografias dois pisos abaixo onde se expunham as fotografias das Utopias. Numa exposição mostra-se Le Corbusier a encaixar, como se uma gaveta se tratasse, um módulo de apartamento em duplex, na outra mostram-se edifícios onde as pessoas estavam engavetadas a serem demolidos.

Le Corbusier e inaugurou e pertenceu a um tempo em que as mudanças ideológicas e a sua esperança, posta no adjectivo moderno ou modernista, alteraram a ordem dos factores das relações sociais. Passou a dizer-se com o modernismo e a sua auto-confiança, o que o homem deve ser, o que o homem deve ter, o que o homem deve fazer, o que deve aceitar, em que é que deve confiar, o que o homem deve, o que o homem deve, o que o homem deve. Passou também a haver especialistas para construir um homem à imagem e semelhança de um novo ismo, o racionalismo materialista. Por isso, os homens deixaram de decidir sobre como queriam as suas casas para passarem a viver nas casas que os arautos do Progresso dissessem que eram as casas para eles viverem.

Também nas artes plásticas as novas tendências eram a procura de uma fundamentação científico-ideológica que tornasse a arte não numa revelação de alguma realidade menos concreta, mas pudesse adquirir a limpidez de um corolário científico. Como a ciência evolui mas nunca é definitiva apesar de assim se considerar e, por isso, estabelecer leis que não são metafísicas mas demonstráveis, mas em que o que hoje é verdade amanhã é mentira (ou uma fase da necessária evolução até ao desencobrimento final das opacidades deste mundo), todo o valor da ciência passou a estar datado. Assim, aconteceu com a arte que lhe seguiu modernamente os passos. Entretanto, isto aplicado à arquitectura, esta inconstância feita de aparentes constantes, foi fomentando algumas atrocidades na paisagem e na vida das subjugadas populações que a exposição Utopias bem demonstram.
O homem individual deixou de se interrogar e procurar a verdade ou o que quer que seja. O homem moderno, desassombrado e confiante, faz de professor e explica que há um tempo novo que todos têm de abraçar e aceitar porque tudo está descoberto ou é como se já estivesse. O caminho torna-se, assim, o caminho único.
As liberdades artísticas de uns resultam na infernização da vida de outros. Mas como o mundo, entretanto, se tornou dependente de especialistas para tudo, já quase ninguém consegue decidir sobre os seus destinos, e segundo os seus gostos, porque alguém encartado pelo Estado, ou reconhecido por alguma inteligência, está aí empregado, fazendo até depender a sobrevivência da sua especialidade, de decidir sobre e pelos outros que não o solicitaram.
Mas o arquitecto ditador, é hoje em dia apreciado e até invejado porque faz o que quer. Outros ditadores são pelos mesmos rejeitados mas aí é porque não são eles que ditam.

Esta sequência de exposições deixa esta nota de contraditório: de um lado a entronização de um génio; do outro, o seu lado sombrio. Haverá quem não o reconheça. Mas espero que ainda me seja permitido ter esta opinião.

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Os Amores de Astrea e Celadon


Há aí, pelas salas de cinema, um Rohmer para ver: “Os Amores de Astrea e Celadon”.

Não pude deixar de lembrar Manuel de Oliveira, o centenário realizador português que, como Alain Resnais, de quem comentei há tempos o último filme “Corações”, emprestam à realização uma simplicidade narrativa e um arrojo temático que libertam o cinema da necessidade da verosimilhança com o real e devolvem o cinema ao seu lado mágico ou alquímico. Há quem não goste. Mas eu prefiro esta penetração no mundo do maravilhoso feita por estes autores do que todas as infindáveis sagas de I a V que não têm qualquer suporte filosófico nem lógica narrativa.
N’”Os Amores de Astrea e Celadon” há uma medievalismo edénico e um código de honra que atravessam as personagens e fazem do real um ideal. De algum modo, lembrei-me de outro velho realizador que, mais novo então, Bergman em 1955, fez esta magia de elevar o real ao ideal no seu “Sorrisos numa Noite de Verão”.
Que prazer viver o tempo como se estivéssemos fora dele!

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