quinta-feira, 17 de julho de 2008

O país do "encosta"

Não há nada mais perigoso nos portugueses, e mais profundamente português, do que o "encosta".
O "encosta" são aqueles tipos (93% da população activa, reformados sem licença de renovação da carta, adolescentes que roubam o o chasso do pai, velhinhas hiper-activas e todos os alcoólicos não-anónimos) que encostam o seu carro a dois nanometros do carro da frente a 140 km/h nas auto-estradas e vias rápidas desta grande nação. Já perguntei a várias pessoas de inteligência consensual sobre o tema, e as que reconheceram fazer o "encosta" - uma apaixonada maioria - deram a mesma extraordinária justificação: "é para pressionar o gajo da frente a deixar-nos passar".
Poupando nos insultos (que me fizeram perder algumas amizades no momento da pouco inocente inquirição), parece-me que o "encosta" é o retrato exacto da desgovernada insubmissão aos romanos, da ruinosa gestão financeira das riquezas do Oriente e das Índias Ocidentais, da expulsão dos judeus, da atrasadíssima - e incipiente - revolução industrial, da insularidade envergonhada do século XX e do desbarato do maná europeu dos últimos 20 e poucos anos, entre outros requintes de visão estratégica e sentido comunitário.
Enquanto os portugueses não souberem governar o seu carro, não conseguirão perceber como devem ser governados. Enquanto não pressentirmos a humanidade dos que vão no carro à nossa frente, e a fragilidade de todos os que circulam no mesmo espaço, não perceberemos o que é essencial para nós próprios.
O condutor "encosta", e o seu peso percentual, são o retrato exacto da nossa arrogância, da nossa incapacidade de entreajuda, do vácuo da nossa natureza individualista. Se não há um rudimentar sentido cívico de Portugal, não há portugueses.
O "encosta", meus senhores, é o princípio do fim.

PS: Qualquer semelhança entre este texto e um desabafo catastrofista é mera coincidência


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Feliz em Cascais

No Paredão que liga Cascais a S. João do Estoril o dia começa cedo. A andar ou a correr inalo – cheiro! – o ar do mar. Ao longe, perto da Baía, vejo um mar caído e descansado apenas ligeiramente ondulado quando o vento sopra mais forte, criando pequenas cristas de espuma: os “carneirinhos”. O vento – esse mesmo vento que se diz dar aos habitantes da zona mais anos de vida do que aqueles a que teriam naturalmente direito – sopra-me na cara. Fresco e limpo traz consigo a sensação de que a vida pode ser boa, melhor, a garantia de que, aqui, a vida é boa.
Nascer nesta terra é nascer ao sol e com os pés dentro de água. Com frio ou com calor não se perde o pequeno grande prazer de sentir a areia húmida nos pés descalços. Qualquer que seja a estação do ano, nunca está frio demais para um mergulho. Na Praia da Conceição, vazia às primeiras horas, qualquer um pode ganhar uma vida nova e senti-la na pele fria de um corpo revitalizado. É o meu caso esta manhã.
De saída da praia subo até à Rua Direita, com a firme intenção de a descer, sentindo no corpo a roupa molhada e nos sapatos a areia que não limpei. Sem stress. Distraído, olho para as montras e vejo passar os outros. Uns outros que, tal como eu, não passam sem estas manhãs. Manhãs de fim-de-semana em que o mundo nos chama para fora e em que ficar em casa é apenas mais uma forma de dormir até tarde.
Depois de almoço, na praia do Guincho, olho para a serra de Sintra à minha direita. Por vezes envolta num capacete de nuvens mas sempre extraordinária. Um lugar sagrado entre lugares sagrados. No mar, surfistas “fazem” ondas, as mesmas ondas que eu, sem prancha, desço em “carreirinha”. Corpo hirto e braços estendidos por cima da cabeça, deslizando, de preferência, até à beira mar. Não estou sozinho. No Guincho as “carreirinhas” assumem-se como desporto (quase) Olímpico. Quando o vento cresce, saímos da água. Aparecem então outros surfistas, wind-surfistas, que aparelham as pranchas e proporcionam um espectáculo como não há outro. Centenas de velas coloridas rasgam o horizonte à medida que o sol se põe. Não quero ir embora, mas vou. Tem que ser. No entanto, levo comigo a certeza de que amanhã é outro dia e a esperança de que seja (mais um…) dia de Guincho.
Viver em Cascais faz-me sentir em férias. È, verdadeiramente, a melhor forma de ir para fora cá dentro. É viver num mundo próprio com sol todo o ano e um sorriso sempre na cara. Apenas a 30 kilómetros de Lisboa e, no entanto, um mundo à parte.
No Monte Estoril, alemães e suecos bebem à saúde de quem um dia lhes apresentou Portugal. Acreditam que aqui a vida anda mais devagar e que os dias são para ser vividos entre amigos. Na Frederico Arouca italianos comem gelados do Santini e confirmam, simplesmente, aquilo que já sabemos há gerações: são os melhores do mundo. Três portas abaixo, um outro italiano, escritor, António Tabuchi de seu nome, entra na sua livraria preferida, a Galileu. No epicentro de Cascais, o Largo Camões, espanhóis que vieram ver as motos ao autódromo sentam-se ao lado de irlandeses, queimados pelo sol, que não perdem todos os anos duas semanas de golfe nestas paragens. Nas mesmas esplanadas, sentam-se ingleses a beber cerveja, a comer marisco e hoje, fruto da modernidade digital, a ver jogos de futebol em ecrãs gigantes. Estão abrigados debaixo de guarda sóis e assistem a jogos que decorrem, exactamente naquele momento, em países onde a chuva nunca pára de cair. Maravilhas do mundo em que vivemos.
Quando o dia começa a chegar ao fim sento-me a jantar ao ar livre, no Lucullus, sentindo ainda na pele o calor de mais um dia de Sol. Não há melhor do que restaurantes onde nos conhecem e nos dão o que gostamos sem ter de pedir nada. Com as pernas estendidas e um copo, na mão deixo a noite correr. Como o vinho.
Mais tarde, um passeio pela Baía; uma espreitadela à Marina. Falo devagar com quem me faz companhia dando tempo ao tempo que demora pensar. Não há pressas e os passos são lentos e ritmados. Como as palavras. Sentamo-nos a olhar para o mar. A lua reflecte-se na água e ilumina os barcos. Ouve-se o som das ondas a morrer, devagarinho, na praia. O ar quente que sopra faz-me querer que o tempo pare. E, aqui, pára mesmo.
É por isso que todos os que por aqui passam cá querem ficar. Mas nem todos ficam. Ficam uns, sortudos como eu, felizes em Cascais.

(Este texto foi publicado no Guia ConVida sobre Cascais e Estoril. Agradeço à Sofia Paiva Raposo, quer o convite para o escrever, quer a autorização para aqui o colocar)

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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Autópsia


Existem duas formas de presenciar uma autópsia.


Uma, visceral, com som e cheiro. Vê-se o cadaver. Morto, inchado, nú, amarelo, deitado em cima da mesa onde vai ser esquartejado. A balança para o peso dos orgãos ao fundo.

O primeiro som que se ouve é o do corte frontal, para retirar o escalpe. Ouve-se o esticão, que deixa o crânio à mostra, amarelo, sem pele, como os ovos na canja.

Serra-se, corta-se, abre-se a barriga, o cheiro de podridão solta-se por golfadas. Os orgãos são retirados, pesados, com direito a risota:"- Olha o fígado tem 1 kg, rico menino, não gostava da pinga, não senhor!".

O estômago em convulsão e a jura eterna de não mais comer costoletas, cabidela e iscas.


Há, no entanto, outra forma, muito mais civilizada. Os alunos sentados, compenetrados, enquanto lhe trazem em tabuleiros, o fígado devidamente arranjado, limpo e fatiado para cuidadosa análise: " - O que é que lhe parece?" , " - Que há indícios de que talvez houvesse algum abuso de bebidas alcoólicas, Senhor Professor."


A morte é a mesma, mas os olhos não a vêm. Não vêm o corpo, e por isso abstraiem-se dele. Não lhes é dado ver o corpo, é-lhe apenas servido o orgão, impecavelmente limpo e fatiado. Rigorosamente asséptico.


Que prefiro eu? Ver o corpo esventrado. Primeiro, porque a vontade de comer volta em 15 dias. Depois, porque é coisa que nunca se esquece, sendo que a memória é um bom bordão para avançarmos vida fora.

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PAR

O P-A-R é uma proposta de uma consultora americana de recursos humanos. A consultora propõe para os trabalhadores em geral a seguinte metodologia. Face a um problema (P), devemos encetar uma acção (A), com vista à resolução (R) desse problema:PAR .
O nome é "catchy", e descontado o evidente simplismo da formulação, até pode ser um bom princípio para atacar o problema de frente.
Todos vocês se lembram do jogador do Sporting, o possante Rochemback, que só obteve um corpo de atleta quando se meteu num avião com destino a Inglaterra.
De modo que eu temi o pior quando vi as notícias do seu regresso a Portugal. Sosseguei no entanto, quando vi no jornal que ele regressava, sim senhor, mas tinha casado, e com uma nutricionista!
Fiquei tão feliz, porque finalmente Rochemback, encontrou o seu PAR!

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terça-feira, 15 de julho de 2008

Assimetria de pensamento

Gosto de coisas pirosas. Gosto deste blogue, porque está piroso na medida certa: e a medida do piroso é como tudo na vida – depende. O que dá que pensar: quando o piroso chegou, não era piroso. Era o que era. Cantava-se o We Are The World com a mesma convicção com que hoje se defendem cidades verdes ou se assistem a concertos como o bem português Boom festival, onde a água nacional será reciclada e o lixo português por lá feito decomposto todos os dias. Ou seja, a capacidade humana de se envolver em temas nobres (como era o de Wonder) não termina nunca: ela vai é ajustando a sua medida e o seu entusiasmo a novas circunstâncias. Será piroso daqui a uns anos não fumar nos restaurantes? Estas perguntas singelas empurram o raciocínio para a regulação – que não é pirosa, mas é assunto difícil em Portugal. E pode falar-se da Optimus como da concorrência entre pensamentos – vale tudo. Senão veja-se.

Na semana passada o regulador das telecomunicações – o ponderado Amado da Silva – tornou oficial uma decisão que já tinha anunciado meses antes: baixar as tarifas dos telemóveis entre as redes diferentes. O assunto parece complexo, mas é bem simples: quando um TMN liga para um Vodafone, é mais caro do que quando se liga entre TMN’s. Fácil, claro. Mas menos fácil é perceber que as tarifas cobradas por todos os operadores para essas chamadas entre si fossem em Portugal das mais caras da Europa. São. O regulador quer baixar esses preços. Quer, explicou ele, proteger o consumidor português – que pagará menos quando ligar para outras redes que não a do seu telemóvel. Este é o assunto. Sucede que, nessa decisão, o regulador decidiu proteger a existência de um terceiro operador. Entra a Optimus de que falava o anónimo no seu comentário. E é fácil de novo explicar a virtude do raciocínio do regulador – já lá vamos depois às opiniões pessoas. Quer ele ? coisas: (1) que os consumidores portugueses possam escolher entre três operadoras, e não apenas duas; (2) que se diminua o poder do efeito de rede dos dois grandes operadores (o palavrão efeito de rede significa, em português simples, a pulsão natural de um consumidor para escolher a rede onde, por exemplo, sabe que tem mais amigos) – e assim se assegure o desbalanceamento de tráfego – outro palavrão que mais não significa do que assegurar que a balança se equilibra entre todos os que vendem comunicações móveis. Ou seja, o regulador quis corrigir problemas de mercado nos preços exorbitantes que os três operadores (todos) cobravam pelas tarifas das chamadas entre eles. Depois disso, entendeu que como o efeito de rede era muito grande – e o mais pequeno (a Optimus) estava a perder quota de mercado – fazia sentido corrigir também esse desvio do mercado (uma vez que ele tinha sido provocado por essas tarifas altas demais que geraram uma balança de clientes desiquilibrada). O regulador, portanto, não foi piroso – ele ajustou-se às circunstâncias que tinha.

Agora pode discutir-se se é justo, equitativo e aplicar aqui muitos dos critérios da escolha pública. Eu avanço uma tentativa: quando um regulador intervém no mercado livre é bom que o faça pelas razões certas – isto é, para corrigir desvios a essa liberdade de actuação. Neste caso dos telemóveis, existia um desvio: os consumidores eram arrastados naturalmente para os grandes operadores. Pode dizer-se: mas isso é a lei do mercado – morrem os mais fracos, sobrevivem os mais fortes. É verdade. Sucede que este mercado dos telemóveis se tornou numa verdadeira commodity: as pessoas querem comunicar, precisam de fazê-lo e exigem preços baixos. Mas pode dizer-se também: as pessoas também precisam de comer, e isso não leva o regulador a subsidiar a abertura de novos supermercados ao lado do que já existem para com isso baixar os preços. Não leva? Claro que leva: não só através de incentivos ao investimento estrangeiro, como através da fiscalização da cartelização de preços junto dos produtores e, talvez tão ou mais importante, impedindo que um dos operadores se torne demasiado dominante. Nos telemóveis é igual: o regulador não quer aceitar que o mercado deixe de ter oferta de três redes de telemóvel apenas porque duas delas conseguiram gerar um volume de tráfego tão alto (ainda que baseado em bom serviço e equipamento) que isso impeça a sobrevivência de outros. Um supermercado, por melhor e mais eficaz que seja, não deve estar sozinho no mercado nem ser autorizado a ‘limpar’ os outros do mapa.

O assunto não é simples, e justifica muitas diferenças de opinião. Esse é o universo fascinante da regulação. Tal como ainda há hoje gente que vibra com o Stevie Wonder (e não o acha piroso), também muitos discordam da regulação quando ela é contrária ao que nos interessa ou mesmo aquilo em que acreditamos. Mas essa é a maravilha do mundo: o que uns acham piroso, outros consideram magnífico.

 

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Contra os canhões, procriar, procriar...

O nosso primeiro-ministro disse, há poucos dias, com o à-vontade que apenas se permite à esquerda, que é «de um partido onde era impossível um líder dizer que o principal objectivo da família é a procriação». As pessoas riram-se e a coisa passou. Mas é grave. Porque o senhor primeiro-ministro, que na prática detém os poderes legislativo e executivo no nosso país, confunde casamento e família.
Com efeito, se o senhor primeiro-ministro disser que pode haver família sem casamento e casamento sem família, eu estarei totalmente de acordo. Se disser que o casamento se pode livremente contrair e dissolver, eu estarei completamente de acordo. E se disser que o casamento não deve ter por único nem por principal fim a procriação, eu estarei inteiramente de acordo.
Agora, se o senhor primeiro-ministro confundir casamento e família, afirmando que qualquer tipo de união sexual entre duas pessoas constitui imediatamente uma família, eu discordarei. Se sustentar que a família é algo que se pode construir e destruir, também discordarei. E se pretender que o fim da família se confunde com os do casamento, mais uma vez discordarei.
Porque o fim da família é, de facto, a procriação (do latim procreare, que quer dizer produzir, trazer à existência), isto é, o trazer um novo ser à existência física e social, que justamente começa numa família. Só a partir da existência desse novo ser é que uma família se constitui enquanto tal, devendo essa sociedade familiar cumprir então alguns outros fins, nomeadamente a protecção, a educação e a integração económica e social dessa criança... Nenhum desses fins, porém, se dá antes da existência concreta desse filho.
Devo dizer, por último, que estarei ainda de acordo com o senhor primeiro-ministro se ele disser que na sociedade actual podem e devem considerar-se, avaliar-se e, em muitos casos, permitir-se e promover-se um conjunto de meios artificiais – médicos e legais – que complementem a procriação natural e, nesse sentido, a constituição das famílias. Agora, seja ela natural ou artificial, a procriação é, de facto, o principal fim de qualquer família - e não vejo em que é que a pertença a um partido politico possa mudar isto, pois que, seja qual for a ideologia que abracemos, antes de pertencermos a um partido já fazemos parte de uma família!

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E a nossa música Pimba de qualidade?

Não é preciso ir tão longe, por amor de Deus. Temos aqui tão perto coisas de tanta qualidade. É verdade, é Pimba e é de qualidade. Só não consegui encontrar um vídeo do concerto no Pavilhão Atlântico, que foi uma maravilha (não, não estive lá, mas vi na têvê!).

Abra a página e 1) escolha uma das línguas, pois o gabarito é internacional; 2) clique em "vídeos"; 3) escolha o do canto superior esquerdo que é a música "Mesmo que seja mentira". Se isto não é qualidade musical nacional, então não sei o que é qualidade, nem o que é musical, nem o que é nacional.

"Diz-me que não sais da minha da vida, mesmo que seja mentira, mesmo que seja por dó de mim. Diz-me tudo menos a verdade, talvez um dia mais tarde, mas por enquanto é melhor assim. Por isso mente-me até ao fim." Brilhante!

E, claro, repare ainda na sinceridade dos olhos, nos efeitos especiais e na bailarina (sobretudo quando ela empurra os cabelos para cima).

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segunda-feira, 14 de julho de 2008

Pentimento: "No Country for Old Men"

Só agora, na volta do correio e com meio ano de atraso (tenho um problemazinho com a pontualidade) é que vi o vencedor dos Óscares deste ano, "No Country for Old Men", dos senhores irmãos Coen. Um par de comentários:

- "No Country For Old Men" não é um filme, são três. O problema é que apenas um deles funciona.

a) o filme no osso, de repelões calculados ao milímetro, tenso como uma corda de cowboy, da fuga para a frente de um esperto desgraçado (Josh Brolin, a melhor interpretação do ano a oeste de Pecos) que encontra a oportunidade de uma vida na mala agarrada à mão morta de um mexicano 50 graus à sombra de um Texas sem poços de petróleo, cheerleaders e a ilusão do conforto. Esse filme é quase tão bom como o extraordinário "Charley Varrick" de Don Siegel (nem toda a gente pode ser Siegel, ou Walter Matthau), e é seguramente tão bom como "Bring Me the Head of Alfredo Garcia", de Sam Peckinpah. No luar venenoso, nos rios que aparecem do fundo da terra para nos salvar de um cão de morte, dos motéis insidiosos que abandonam um tipo à sua má sorte, do candeeiro que separa a fuga (e o México, e os sorrisos de uma mulher) dum tiro na cabeça, é do cinema mais excitante e digno das últimas - longas - temporadas.

b) O filme artificioso, demasiado brilhante para não ser tratado com uma minúcia febril às teclas do computador, de objectivos muito precisos (e tão indelevelmente conseguidos que se nota a perfeição da pintura, esquecendo-se a mensagem de Hawks, em que o mais simples é sempre o mais eficaz), a saber: vamos dar a estes gajos o melhor assassino que eles já viram. Quando a fita acabar, o Monsieur Verdoux é uma múmia, o Max von Sydow de "Os Três Dias do Condor" ajuda velhinhas a atravessar a rua e o Hannibal Lecter tirou um curso avançado de nutricionismo.
Javier Bardem, a pior interpretação do filme (porque a mais fácil), é demasiado perfeito nas suas imperfeições, os seus planos são demasiado antecipados, o seu diálogo é "demasiado escrito" para soar verdade (o facto de o filme seguir o essencial da estrutura, e muitas das réplicas, do livro de Cormac McCarthy não iliba o filme destes pecados).

c) o que nos leva ao terceiro filme: o requiem exausto de um xerife (Tommy Lee Jones, que, e concordando com David Thomson, andou uma dúzia de anos a meter dinheiro no banco mas acordou aos 60 para se tornar um dos grandes da sua geração), personagem de desvios infelizes e opções dúbias marcadas no rosto, um xerife que assiste, impotente, ao fim de uma época, a da cortesia, da argamassa familiar, da separação, mesmo que ténue, entre Bem e Mal e de uma compreensão ontológica do mundo. O problema é que a ontologia não é o forte dos Coen.
Quando chegam aos "big issues" (o sentido da vida, a inevitabilidade da morte, o casamento àspero entre acaso e Destino, minudências assim), os Coen fazem-no sempre através das pequenas coisas: o chapéu recorrente na floresta desencantada de "Miller's Crossing", os cigarros - e o belo fumo dos cigarros - em "The Man Who Wasn't There", os insectos na parede do mais obsessivo dos filmes obsessivos, "Barton Fink". Em "No Country for Old Men", entusiasmados pela caução infalível de McCarthy, os Coen seguem o percurso contrário, das grandes coisas (grandes temas, grande mensagem) para os pormenores, invertendo um "modus operandi" que lhes é infinatamente mais familiar, lançando-se pela primeira vez na prosa filosófica - enxuta, breve, muito texana, mas ainda assim prosa filosófica - sobre a América que se afunda, a herança macabra de um país construído - como lembrava Norman Mailer - pelo sangue e pela força das armas, a presumível vanguarda de uma civilização que chega a um beco sem saída (tanto quanto é possível encontrar, plagiando Margarida Rebelo Pinto, um beco sem saída no meio do deserto).

É essa deliberada gravidade ontológica e filosófica que trai o filme, como se as conclusões que as imagens, e as acções desesperadas (no caso de Josh Brolin), desencantadas (no caso de TommyLee Jones) ou terrivelmente niilistas (no caso de Bardem) que as personagens levam a cabo não fossem suficientes, por si, para fazer passar a mensagem: este país - e este mundo - não é para velhos.

A maioria dos críticos norte-americanos, sedenta de auto-estima artística, considerou "No Country for Old Men" um regresso ao grande cinema dos EUA dos anos 70. É um exemplo típico de "wishful thinking". Aconselha-se o visionamento urgente de "The Gambler", de Karel Reisz - Reisz era um estrangeiro que captou a "gravitas" yankee como ninguém.
Pois é: o primeiro filme dentro de "No Country for Old Men" é uma obra-prima. Os outros dois não.

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Somos todos muita pirosos...

Somos todos muita pirosos. Na verdade, qual de nós não ouviu e decorou e acompanhou e cantou e trauteou esta música, que agora nos faz corar?



Proponho, portanto, que, a não ser que o Pedro Norton se declare amante incondicional da Tonicha, o Manuel Fonseca do Duo Ouro Negro, a Sofia Rocha da Cândida Branca Flor e a Sofia Galvão do Trio Odemira, partilhemos este prémio entre nós todos e acabemos rapidamente com isto. Quem sabe onde nos poderá levar?

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domingo, 13 de julho de 2008

Quem pede meças a quem???

Não quero esmagar-vos...




mas, depois disto, reconheçam que a parada subiu muito!



Post Scriptum (1) - Ao tempo, o meu sonho era ter um 'poster' do David Cassidy, igualzinho ao que havia no quarto das minhas primas... Nunca tive.

Post Scriptum (2) - À conta disso, ainda hoje não resisto às 'reprises' da RTP Memória.

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O Rei da Piroseira: Preciosidades

Reajo ao desafio do Pedro e cheira-me que ele vai ter de lutar um bocadinho para conquistar o título (ainda que o “L’oiseau et l’ enfant” dele me tenha rasado os olhos de lágrimas).
Eu alinho. Espero que os outros bloggers não nos deixem ficar mal. Regras: vale tudo desde que se apresente um post (comentários não chegam, ok Sofia?) incluindo pelo menos um vídeo. Júri: será que o Gonçalo, que desistiu à primeira, aceita? Para já, e no “diferendo Pedro / Sofia”, mostrou irrepreensível bom gosto.
Eu, piroso, passo a confessar-me. Escolhi 4 canções.

Esta foi a minha primeira españolita, rubia por supuesto:


Marisol, corre, corre, caballito

Reparem agora no prodigioso vento que levanta as saias das meninas do coro


Françoise Hardy, Tous les garçons et les filles

Acreditem ou não, havia uma Aline, de olhos cinzentos azulados. Linda e ligeiramente míope, em Luanda.

Christophe, Aline

A minha aprendizagem yé-yé do sim e do não...

Michel Polnareff, La Poupée

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O Rei da Piroseira

A Sofia Rocha achou que podia pedir-me meças em piroseira. Está a brincar com o fogo. Fui ao baú das minhas recordações da TV e tirei de lá estas pérolas que são bem a prova viva que a minha adolescência foi um monumento à piroseira:


Gente do Amanhã...


Pequenos Vagabundos...



Espaço 1999 (os pijamas, senhores, reparem naqueles pijamas!)...



E se ainda não se sentir absolutamente derrotada, digo-lhe ainda que em 1977 no Liceu Francês aprendi de cor a letra deste magnífico «L'oiseau et l'enfant» com que, nesse ano, Marie Myriam ganhou o festival Eurovisão da Canção.


Fica aqui um desafio aos restantes bloggers: quem ousa desafiar-me em piroseira? O título está a concurso.

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sábado, 12 de julho de 2008

Blood, Sweat and Tears

Ouçam a música e não vejam, mas não vejam mesmo, o vídeo. A canção é so, so very happy. Do melhor que o chamado jazz-rock deu. Se houve, na pop, uma variante jazz-rock, os Blood Sweat and Tears foram o epítome do género. Dão 5 a 0 aos Chicago.
Era o que eu pensava quando era um miúdo no Liceu Nacional Salvador Corrêa de Sá e Benevides. Tal como era um fã obsessivo e intratável dos Alfa-Romeo contra os BMW.

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Piroso eu?



Piroso o Otis? Pirosos, verdadeira e deliciosamente pirosos eram os Chicago. Uma «festa de dança», uma pequena engraçada (aí 14 ou 15 anitos) e um «slow» (por oposição a um «shake») dos Chicago eram ingredientes suficientes para me deixar apaixonado durante um verão inteiro. Piroso eu?

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Se te apetecer dançar

Dançava-se assim, com Otis Redding, quando eu tinha 15 anos. Primeiro, só nos sábados à noite. As sextas foram uma imensa conquista. Dançávamos muito mais lentamente do que a virtude autorizava. Se ainda te apetecer dançar:





ps - Pode ser que, aos mais críticos, Mr. Otis pareça liricamente decadente e piroso. Mas é deliciosa e civilizadamente piroso. Aos que hoje fazem fine bouche, prometo, amanhã, compensá-los com Franka Zappa.

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sexta-feira, 11 de julho de 2008

Do outro lado do espelho


Há alguns dias, ao lembrar a sua passagem pelo governo e a experiência aí vivida, Luís Campos e Cunha resumia: é como a Alice no País das Maravilhas - quando passa o espelho, a realidade altera-se! (vd. Jornal de Negócios, 4 de Julho de 2008, Weekend, pág. X).
Nem de propósito, o debate do Estado da Nação veio a ocorrer no dia seguinte à divulgação dos novos dados do Eurostat (ver aqui).
E o Primeiro-Ministro lá esteve, igual a ele próprio, do outro lado do espelho. Visivelmente contente consigo e com a obra, fez uns truques.

No fundo, Sócrates transformou a desgraça em trunfo e, sem muito mais elaboração, viu na alta dos preços do petróleo uma oportunidade imperdível para um inesperado aumento de receitas. Depois, distribuiu ‘benesses’ e ainda anunciou um saldo positivo. Simples, quase mágico e de efeito garantido.
É claro que, com este tipo de iniciativas, Sócrates revela bem o que pensa da política, do exercício do poder e, acima de tudo, a conta em que tem os Portugueses. Mas, em abono da verdade, diga-se que sempre terá a seu favor o ar do tempo. Temos andado assim, sem mais exigência, sem mais ambição.

Sucede que, do alto do seu (apesar de tudo) indisfarçável nervosismo, Sócrates ignorou o lado de cá do espelho. O lado da vida real, do dia-a-dia das pessoas concretas, das suas dificuldades e das suas inquietações.
Ora, nesse plano mais prosaico e baço, bem longe da mitomania do Primeiro-Ministro, os Portugueses viram-se confrontados com a dureza dos números. Perceberam que, numa Europa que resiste e cresce, Portugal perde mais e mais terreno. Quer se considere a zona Euro, quer a Europa dos 27, Portugal mostra-se incapaz de acompanhar o desempenho das economias da generalidade dos Estados-membros e, sobretudo, incapaz de qualquer emulação com países como a Eslovénia, a Eslováquia, a Polónia ou a República Checa, para só referir os mais óbvios.

Num contexto de crise global, e sem encontrar aí as desculpas de Sócrates, a UE aguentou e o seu PIB cresceu 0,7% no primeiro trimestre de 2008. Por comparação com o primeiro trimestre de 2007, tal significa um aumento de 2,1% na zona Euro e de 2,3% na Europa a 27.
Apesar da retracção dos mercados financeiros, da subida dos preços do petróleo e dos produtos alimentares, a Eslovénia cresceu 2,2%, a Eslováquia 2,1% e Malta 1,7%. Face à adversidade, o PIB alemão – note-se bem – cresceu 1,5%. Enquanto isso, só quatro Estados-membros revelaram um crescimento negativo: Estónia, Dinamarca, Irlanda e Portugal.
A imprensa internacional deu nota do facto. Os jornais europeus divulgaram os números e identificaram ganhadores e perdedores. Portugal à beira da recessão titularam… Mas, por cá, o Primeiro-Ministro, alheio a tudo, preferiu discorrer sobre as maravilhas do seu país virtual.

O mesmo Primeiro-Ministro que ganhou eleições prometendo atingir um nível de crescimento do PIB susceptível de assegurar a convergência… O mesmo Primeiro-Ministro que ganhou eleições prometendo desenvolver um plano plurianual de redução da despesa corrente em percentagem do PIB capaz de constituir a base de um contrato a celebrar com os diversos serviços da Administração Pública...
Três anos depois, não convergiu e não fez (nem, evidentemente, contratualizou) qualquer plano plurianual de redução de despesa. Antes foi para o Parlamento, anunciar o bodo permitido pelo encaixe das receitas adicionais geradas pela escalada do preço do petróleo.
Na verdade, tudo é diferente do outro lado do espelho.

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quinta-feira, 10 de julho de 2008

E o título, Martim?

A pergunta parece de brincadeira, mas é séria: se uma ideia derrapa, se uma política falha, se um Governo se angana e, por tudo isso, o país não avança, quantas novas oportunidades devem ser ainda dadas antes de se declarar a falência - ou, no mínimo, antes de se desistir de tentar e procurar novos sistemas? A resposta simples parece ser: existem as oportunidades que forem necessárias. Nunca se desiste de tentar. Muito bem: imagine-se agora esta pergunta aplicada às pessoas, uma a uma. Quantas oportunidades se lhes devem dar? Quantas vezes deve a sociedade (através do Governo) ser fraterna e tentar resgatar todos aqueles que repetidademente desperdiçam as oportunidades que lhes são dadas? Um Liberal responderia: algumas oportunidades devem ser dadas, mas tem de existir um limite que gere o incentivo certo. Pois bem, e se isso fosse verdade para um país?.

Se tudo isto fosse verdade para um país, quem pensa a política deveria perder tempo a discutir esta abordagem filosófica. E investindo nesse assunto, teria de reconhecer que quando uma sociedade se empenha em redistribuir recursos aos mais fracos, espera deles pelo menos o esforço e o engenho de os saber aproveitar. Mas Rawls explicou bem: as lotarias genética e social são implacáveis. E é essa complacência que nos justifica novas ajudas: quem desperdiça um subsídio, um passe social barato, um apoio, recebe novo incentivo, nova oportunidade. O Governo criou mesmo um programa a que chamou: Novas Oportunidades. Mas ninguém discute quantas. Discutindo, o problema deveria ser este: se uma vítima da lotaria genética e social de Rawls falhar uma oportunidade aos 15 anos, deve renovar-se aos 19 e, falhando novamente, insistir aos 22 e, correndo mal, repetir aos 27 para, perdendo-se essa derradeira oportuniadade, permitir ainda novo empurrão aos 32 e, porque não, um outro aos 36, seguindo de um penúltimo aos 40 e, claro, um final próximo dos 45 ou 50anos? Deve ou não deve? Porque se a opinião for deve, então os Governos merecem iguais direitos - quando falham, são-lhe renovadas as oportunidades. Mas isso não sucede. Isto é, aquilo que aceitamos para cada um não alargamos àqueles a quem entregámos a tutela do poder comum. Dito de outra forma: penalizamos o Governo por tentar e falhar, mas aceitamos que dê aqueles que, tentando, falham.
Pode dizer-se: mas os liberais, justamente, à esquerda e à direita, consideram que essas oportunidades têm limites. O esforço individual deve ser exigido aos que beneficiam da redistribuição. Pergunta: se Rawls estiver certo, será mesmo de limitar o número de oportunidades que se dão aos mais fracos? Não existirá uma obrigação moral de insistir, ainda que os que se ajudam despercicem tudo em bebedeiras, por exemplo? A resposta, de novom, parece simples: assim dito, sim, devem ter novas oportunidades, desde que se apertem os critérios e as malhas de exigência.
Se a resposta for esta - e não estou a sublinhar que seja - como se deveria aplicar esse pressuposto ao país, aos governos? As oportunidades devem-lhes ser dadas, para mandatos maiores onde o erro é visto como ferramenta de crescimento? Ou quando um Governo falha mais vale retirar-lhe o poder e passá-lo a outro, dizendo-lhe que o mesmo lhe sucederá se falhar alguma medida? A pergunta merece resposta?
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IV. “Carpe diem” e power point

Mas qual a relação entre o diapositivo e o “carpe diem”?

Em suma, a de que as coisas não estão no seu sítio. O orador devia ser a fonte da “auctoritas”. Mas não é. Sabe que a fonte da sua autoridade está fora dele. No boneco. As coisas não estão no seu sítio. Rouba ao boneco a autoridade que sabe não ter ou que pelo menos não tem a certeza de ter. ao remeter para o boneco manifesta a sua impotência para ser o único centro de atenção. Para ele a citação não é raiz, mas galho onde se pendura. Sobretudo, a palavra vale pouco, numa substituída pela acção, noutra pelo boneco.

É significativo que a nossa época tenha travestido desta forma Horácio. Que o use e o distorça de um só golpe. Não era aristocrata, mas era autor aristocrático. Não é este o lugar para o demonstrar: todos os elementos que se consideram elementos de modernidade têm origem aristocrática (o pindárico “torna-te o que és”, a suposta libertação sexual, a libertação das mulheres, o relativismo à Calícles, a obsessão com a natureza). É no entanto significativo que seja um seguidor de Píndaro, que como este lembrava que não era escultor e que portanto era artista da palavra, da palavra que voa e não fica presa à terra, que seja o escolhido pela nossa época.

No reino da incerteza só pode imperar o salteador bem sucedido. O que vai buscar ao pomar alheio frutos que não cultivou e de que sabe ser não legítimo fruidor. Neste reino da angústia em que a excitação é aflita e o prazer fugaz é importante perceber qual é o pano de fundo que une sem o saber o cultor do “carpe diem” e o utente do diapositivo pedagógico de muleta. Do mesmo Horácio : “odi profanum uolgus” (ode III, 1 – odeio a multidão dos profanos). É do ódio que nasce esta incerteza, esta angústia. E a plena noção, salvo quando o ódio seja (raramente) fundado, de que se não é legítimo. Um mundo de bastardos, como era de esperar.

Alexandre Brandão da Veiga

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O tema é controverso mas o debate pode ser civilizado. Este livro prova-o.




Declaração de interesses: espero que me perdoem o facto do editor ser, igualmente, o meu editor.

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Da Visão: Sinais




Na mesma semana, três casos. Comecemos pela «bola». Depois da triste figura que fizeram na UEFA, há semanas, por entre contradições e desmentidos, os senhores do futebol português continuam empenhados em mostrar ao Mundo que o país desportivo é uma espécie de Zimbabwe dos relvados. Para nossa colectiva vergonha, a Europa do futebol assiste, atónita, a um espectáculo degradante de insultos, acusações, decisões contraditórias e trapalhadas jurídicas que são, afinal de contas, um fidelíssimo retrato do profundo e venerando respeito com que os donos da bola nacionais encaram a «rule of law».
Dirão todavia os mais cândidos que o mundo da justiça desportiva não é o da justiça em geral. Será? Poucos antes desta noite das facas longas na FPF, tinha-se confirmado aquilo que todos esperavam. O celebérrimo «caso Maddie» teria como mais do que provável destino o seu arquivamento. Para trás fica uma longa lista de acusações levianas, de suspeições gravíssimas, de fugas de informação, de declarações contraditórias, de demissões. Tudo sob os holofotes impiedosos de uma imprensa nacional e internacional, muitas vezes irresponsável, que dificilmente terá deixado uma imagem muito abonatória do país e do seu sistema de justiça. E a saga promete continuar.
Para acabar a semana da justiça em beleza, José Luís Judas voltou às páginas dos jornais. O ex-autarca foi acusado, depois de deixar a presidência da Câmara Municipal de Cascais de vários crimes: abuso de poder de titular de cargo político, violação das normas de execução orçamental, burla qualificada, participação económica em negócio, prevaricação. Tenho uma opinião muito clara sobre o seu mandato à frente da Câmara. Não posso obviamente ter nenhuma sobre estes processos em concreto. Mas a acreditar na imprensa do fim-de-semana, fiquei a saber que vão ter o destino habitual nestas coisas: a prescrição está aí a um passo. E esse é seguramente o único desfecho que temos toda a legitimidade para considerar inaceitável.
A sucessão destes eventos convida a comentários irresponsáveis e justicialistas. Gostava de não enveredar por aí. Mas é igualmente insensato não dar a estes sinais a importância que eles merecem. Independentemente da razão que possa assistir a cada um dos protagonistas destes casos em concreto, a verdade é que cada um destes episódios contribui para minar um pouco mais a confiança que os portugueses têm no funcionamento da justiça. Cada um deles reforça a ideia de que vivemos num ambiente de «dois pesos e duas medidas». Num ambiente com regras viciadas. Num ambiente em que «o crime compensa». Este caldo é perigoso. Até porque não é possível deixar de acreditar na justiça e continuar a acreditar por muito mais tempo na Democracia.

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