domingo, 13 de julho de 2008

O Rei da Piroseira: Preciosidades

Reajo ao desafio do Pedro e cheira-me que ele vai ter de lutar um bocadinho para conquistar o título (ainda que o “L’oiseau et l’ enfant” dele me tenha rasado os olhos de lágrimas).
Eu alinho. Espero que os outros bloggers não nos deixem ficar mal. Regras: vale tudo desde que se apresente um post (comentários não chegam, ok Sofia?) incluindo pelo menos um vídeo. Júri: será que o Gonçalo, que desistiu à primeira, aceita? Para já, e no “diferendo Pedro / Sofia”, mostrou irrepreensível bom gosto.
Eu, piroso, passo a confessar-me. Escolhi 4 canções.

Esta foi a minha primeira españolita, rubia por supuesto:


Marisol, corre, corre, caballito

Reparem agora no prodigioso vento que levanta as saias das meninas do coro


Françoise Hardy, Tous les garçons et les filles

Acreditem ou não, havia uma Aline, de olhos cinzentos azulados. Linda e ligeiramente míope, em Luanda.

Christophe, Aline

A minha aprendizagem yé-yé do sim e do não...

Michel Polnareff, La Poupée

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O Rei da Piroseira

A Sofia Rocha achou que podia pedir-me meças em piroseira. Está a brincar com o fogo. Fui ao baú das minhas recordações da TV e tirei de lá estas pérolas que são bem a prova viva que a minha adolescência foi um monumento à piroseira:


Gente do Amanhã...


Pequenos Vagabundos...



Espaço 1999 (os pijamas, senhores, reparem naqueles pijamas!)...



E se ainda não se sentir absolutamente derrotada, digo-lhe ainda que em 1977 no Liceu Francês aprendi de cor a letra deste magnífico «L'oiseau et l'enfant» com que, nesse ano, Marie Myriam ganhou o festival Eurovisão da Canção.


Fica aqui um desafio aos restantes bloggers: quem ousa desafiar-me em piroseira? O título está a concurso.

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sábado, 12 de julho de 2008

Blood, Sweat and Tears

Ouçam a música e não vejam, mas não vejam mesmo, o vídeo. A canção é so, so very happy. Do melhor que o chamado jazz-rock deu. Se houve, na pop, uma variante jazz-rock, os Blood Sweat and Tears foram o epítome do género. Dão 5 a 0 aos Chicago.
Era o que eu pensava quando era um miúdo no Liceu Nacional Salvador Corrêa de Sá e Benevides. Tal como era um fã obsessivo e intratável dos Alfa-Romeo contra os BMW.

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Piroso eu?



Piroso o Otis? Pirosos, verdadeira e deliciosamente pirosos eram os Chicago. Uma «festa de dança», uma pequena engraçada (aí 14 ou 15 anitos) e um «slow» (por oposição a um «shake») dos Chicago eram ingredientes suficientes para me deixar apaixonado durante um verão inteiro. Piroso eu?

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Se te apetecer dançar

Dançava-se assim, com Otis Redding, quando eu tinha 15 anos. Primeiro, só nos sábados à noite. As sextas foram uma imensa conquista. Dançávamos muito mais lentamente do que a virtude autorizava. Se ainda te apetecer dançar:





ps - Pode ser que, aos mais críticos, Mr. Otis pareça liricamente decadente e piroso. Mas é deliciosa e civilizadamente piroso. Aos que hoje fazem fine bouche, prometo, amanhã, compensá-los com Franka Zappa.

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sexta-feira, 11 de julho de 2008

Do outro lado do espelho


Há alguns dias, ao lembrar a sua passagem pelo governo e a experiência aí vivida, Luís Campos e Cunha resumia: é como a Alice no País das Maravilhas - quando passa o espelho, a realidade altera-se! (vd. Jornal de Negócios, 4 de Julho de 2008, Weekend, pág. X).
Nem de propósito, o debate do Estado da Nação veio a ocorrer no dia seguinte à divulgação dos novos dados do Eurostat (ver aqui).
E o Primeiro-Ministro lá esteve, igual a ele próprio, do outro lado do espelho. Visivelmente contente consigo e com a obra, fez uns truques.

No fundo, Sócrates transformou a desgraça em trunfo e, sem muito mais elaboração, viu na alta dos preços do petróleo uma oportunidade imperdível para um inesperado aumento de receitas. Depois, distribuiu ‘benesses’ e ainda anunciou um saldo positivo. Simples, quase mágico e de efeito garantido.
É claro que, com este tipo de iniciativas, Sócrates revela bem o que pensa da política, do exercício do poder e, acima de tudo, a conta em que tem os Portugueses. Mas, em abono da verdade, diga-se que sempre terá a seu favor o ar do tempo. Temos andado assim, sem mais exigência, sem mais ambição.

Sucede que, do alto do seu (apesar de tudo) indisfarçável nervosismo, Sócrates ignorou o lado de cá do espelho. O lado da vida real, do dia-a-dia das pessoas concretas, das suas dificuldades e das suas inquietações.
Ora, nesse plano mais prosaico e baço, bem longe da mitomania do Primeiro-Ministro, os Portugueses viram-se confrontados com a dureza dos números. Perceberam que, numa Europa que resiste e cresce, Portugal perde mais e mais terreno. Quer se considere a zona Euro, quer a Europa dos 27, Portugal mostra-se incapaz de acompanhar o desempenho das economias da generalidade dos Estados-membros e, sobretudo, incapaz de qualquer emulação com países como a Eslovénia, a Eslováquia, a Polónia ou a República Checa, para só referir os mais óbvios.

Num contexto de crise global, e sem encontrar aí as desculpas de Sócrates, a UE aguentou e o seu PIB cresceu 0,7% no primeiro trimestre de 2008. Por comparação com o primeiro trimestre de 2007, tal significa um aumento de 2,1% na zona Euro e de 2,3% na Europa a 27.
Apesar da retracção dos mercados financeiros, da subida dos preços do petróleo e dos produtos alimentares, a Eslovénia cresceu 2,2%, a Eslováquia 2,1% e Malta 1,7%. Face à adversidade, o PIB alemão – note-se bem – cresceu 1,5%. Enquanto isso, só quatro Estados-membros revelaram um crescimento negativo: Estónia, Dinamarca, Irlanda e Portugal.
A imprensa internacional deu nota do facto. Os jornais europeus divulgaram os números e identificaram ganhadores e perdedores. Portugal à beira da recessão titularam… Mas, por cá, o Primeiro-Ministro, alheio a tudo, preferiu discorrer sobre as maravilhas do seu país virtual.

O mesmo Primeiro-Ministro que ganhou eleições prometendo atingir um nível de crescimento do PIB susceptível de assegurar a convergência… O mesmo Primeiro-Ministro que ganhou eleições prometendo desenvolver um plano plurianual de redução da despesa corrente em percentagem do PIB capaz de constituir a base de um contrato a celebrar com os diversos serviços da Administração Pública...
Três anos depois, não convergiu e não fez (nem, evidentemente, contratualizou) qualquer plano plurianual de redução de despesa. Antes foi para o Parlamento, anunciar o bodo permitido pelo encaixe das receitas adicionais geradas pela escalada do preço do petróleo.
Na verdade, tudo é diferente do outro lado do espelho.

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quinta-feira, 10 de julho de 2008

E o título, Martim?

A pergunta parece de brincadeira, mas é séria: se uma ideia derrapa, se uma política falha, se um Governo se angana e, por tudo isso, o país não avança, quantas novas oportunidades devem ser ainda dadas antes de se declarar a falência - ou, no mínimo, antes de se desistir de tentar e procurar novos sistemas? A resposta simples parece ser: existem as oportunidades que forem necessárias. Nunca se desiste de tentar. Muito bem: imagine-se agora esta pergunta aplicada às pessoas, uma a uma. Quantas oportunidades se lhes devem dar? Quantas vezes deve a sociedade (através do Governo) ser fraterna e tentar resgatar todos aqueles que repetidademente desperdiçam as oportunidades que lhes são dadas? Um Liberal responderia: algumas oportunidades devem ser dadas, mas tem de existir um limite que gere o incentivo certo. Pois bem, e se isso fosse verdade para um país?.

Se tudo isto fosse verdade para um país, quem pensa a política deveria perder tempo a discutir esta abordagem filosófica. E investindo nesse assunto, teria de reconhecer que quando uma sociedade se empenha em redistribuir recursos aos mais fracos, espera deles pelo menos o esforço e o engenho de os saber aproveitar. Mas Rawls explicou bem: as lotarias genética e social são implacáveis. E é essa complacência que nos justifica novas ajudas: quem desperdiça um subsídio, um passe social barato, um apoio, recebe novo incentivo, nova oportunidade. O Governo criou mesmo um programa a que chamou: Novas Oportunidades. Mas ninguém discute quantas. Discutindo, o problema deveria ser este: se uma vítima da lotaria genética e social de Rawls falhar uma oportunidade aos 15 anos, deve renovar-se aos 19 e, falhando novamente, insistir aos 22 e, correndo mal, repetir aos 27 para, perdendo-se essa derradeira oportuniadade, permitir ainda novo empurrão aos 32 e, porque não, um outro aos 36, seguindo de um penúltimo aos 40 e, claro, um final próximo dos 45 ou 50anos? Deve ou não deve? Porque se a opinião for deve, então os Governos merecem iguais direitos - quando falham, são-lhe renovadas as oportunidades. Mas isso não sucede. Isto é, aquilo que aceitamos para cada um não alargamos àqueles a quem entregámos a tutela do poder comum. Dito de outra forma: penalizamos o Governo por tentar e falhar, mas aceitamos que dê aqueles que, tentando, falham.
Pode dizer-se: mas os liberais, justamente, à esquerda e à direita, consideram que essas oportunidades têm limites. O esforço individual deve ser exigido aos que beneficiam da redistribuição. Pergunta: se Rawls estiver certo, será mesmo de limitar o número de oportunidades que se dão aos mais fracos? Não existirá uma obrigação moral de insistir, ainda que os que se ajudam despercicem tudo em bebedeiras, por exemplo? A resposta, de novom, parece simples: assim dito, sim, devem ter novas oportunidades, desde que se apertem os critérios e as malhas de exigência.
Se a resposta for esta - e não estou a sublinhar que seja - como se deveria aplicar esse pressuposto ao país, aos governos? As oportunidades devem-lhes ser dadas, para mandatos maiores onde o erro é visto como ferramenta de crescimento? Ou quando um Governo falha mais vale retirar-lhe o poder e passá-lo a outro, dizendo-lhe que o mesmo lhe sucederá se falhar alguma medida? A pergunta merece resposta?
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IV. “Carpe diem” e power point

Mas qual a relação entre o diapositivo e o “carpe diem”?

Em suma, a de que as coisas não estão no seu sítio. O orador devia ser a fonte da “auctoritas”. Mas não é. Sabe que a fonte da sua autoridade está fora dele. No boneco. As coisas não estão no seu sítio. Rouba ao boneco a autoridade que sabe não ter ou que pelo menos não tem a certeza de ter. ao remeter para o boneco manifesta a sua impotência para ser o único centro de atenção. Para ele a citação não é raiz, mas galho onde se pendura. Sobretudo, a palavra vale pouco, numa substituída pela acção, noutra pelo boneco.

É significativo que a nossa época tenha travestido desta forma Horácio. Que o use e o distorça de um só golpe. Não era aristocrata, mas era autor aristocrático. Não é este o lugar para o demonstrar: todos os elementos que se consideram elementos de modernidade têm origem aristocrática (o pindárico “torna-te o que és”, a suposta libertação sexual, a libertação das mulheres, o relativismo à Calícles, a obsessão com a natureza). É no entanto significativo que seja um seguidor de Píndaro, que como este lembrava que não era escultor e que portanto era artista da palavra, da palavra que voa e não fica presa à terra, que seja o escolhido pela nossa época.

No reino da incerteza só pode imperar o salteador bem sucedido. O que vai buscar ao pomar alheio frutos que não cultivou e de que sabe ser não legítimo fruidor. Neste reino da angústia em que a excitação é aflita e o prazer fugaz é importante perceber qual é o pano de fundo que une sem o saber o cultor do “carpe diem” e o utente do diapositivo pedagógico de muleta. Do mesmo Horácio : “odi profanum uolgus” (ode III, 1 – odeio a multidão dos profanos). É do ódio que nasce esta incerteza, esta angústia. E a plena noção, salvo quando o ódio seja (raramente) fundado, de que se não é legítimo. Um mundo de bastardos, como era de esperar.

Alexandre Brandão da Veiga

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A ler




O tema é controverso mas o debate pode ser civilizado. Este livro prova-o.




Declaração de interesses: espero que me perdoem o facto do editor ser, igualmente, o meu editor.

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Da Visão: Sinais




Na mesma semana, três casos. Comecemos pela «bola». Depois da triste figura que fizeram na UEFA, há semanas, por entre contradições e desmentidos, os senhores do futebol português continuam empenhados em mostrar ao Mundo que o país desportivo é uma espécie de Zimbabwe dos relvados. Para nossa colectiva vergonha, a Europa do futebol assiste, atónita, a um espectáculo degradante de insultos, acusações, decisões contraditórias e trapalhadas jurídicas que são, afinal de contas, um fidelíssimo retrato do profundo e venerando respeito com que os donos da bola nacionais encaram a «rule of law».
Dirão todavia os mais cândidos que o mundo da justiça desportiva não é o da justiça em geral. Será? Poucos antes desta noite das facas longas na FPF, tinha-se confirmado aquilo que todos esperavam. O celebérrimo «caso Maddie» teria como mais do que provável destino o seu arquivamento. Para trás fica uma longa lista de acusações levianas, de suspeições gravíssimas, de fugas de informação, de declarações contraditórias, de demissões. Tudo sob os holofotes impiedosos de uma imprensa nacional e internacional, muitas vezes irresponsável, que dificilmente terá deixado uma imagem muito abonatória do país e do seu sistema de justiça. E a saga promete continuar.
Para acabar a semana da justiça em beleza, José Luís Judas voltou às páginas dos jornais. O ex-autarca foi acusado, depois de deixar a presidência da Câmara Municipal de Cascais de vários crimes: abuso de poder de titular de cargo político, violação das normas de execução orçamental, burla qualificada, participação económica em negócio, prevaricação. Tenho uma opinião muito clara sobre o seu mandato à frente da Câmara. Não posso obviamente ter nenhuma sobre estes processos em concreto. Mas a acreditar na imprensa do fim-de-semana, fiquei a saber que vão ter o destino habitual nestas coisas: a prescrição está aí a um passo. E esse é seguramente o único desfecho que temos toda a legitimidade para considerar inaceitável.
A sucessão destes eventos convida a comentários irresponsáveis e justicialistas. Gostava de não enveredar por aí. Mas é igualmente insensato não dar a estes sinais a importância que eles merecem. Independentemente da razão que possa assistir a cada um dos protagonistas destes casos em concreto, a verdade é que cada um destes episódios contribui para minar um pouco mais a confiança que os portugueses têm no funcionamento da justiça. Cada um deles reforça a ideia de que vivemos num ambiente de «dois pesos e duas medidas». Num ambiente com regras viciadas. Num ambiente em que «o crime compensa». Este caldo é perigoso. Até porque não é possível deixar de acreditar na justiça e continuar a acreditar por muito mais tempo na Democracia.

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quarta-feira, 9 de julho de 2008

Museu Fundação Oriente

Esta semana, a “Time Magazine” fala de Portugal. E fala bem. Na pg. 60, com o título “Sails and Acquisitions”, a “Time” anuncia que o “legado artístico da presença marítima de Portugal na Ásia encontrou finalmente uma casa de acolhimento permanente”. Referem-se, é claro, ao Museu Fundação Oriente.
A “Time”, para além de atribuir a Portugal o papel de país globalizador avant la lettre, resultante da descoberta por Bartolomeu Dias e Vasco da Gama da rota atlântica das especiarias, valoriza o espólio do novo museu e anuncia como trunfo extraordinário a propriedade da colecção Kwok On. Para a “Time”, esta é, entre todas as colecções de máscaras teatrais asiáticas, o mais valioso dos tesouros. Se forem ao museu, verão que às máscaras se juntam trajes, instrumentos musicais, acessórios, teatros de sombras e de marionetas
O artigo, que é simples, directo e bem informado, fez-me reviver a sensação de ter passado num exame com distinção. Já não estava nada habituado a que alguém falasse bem de nós.
O Museu do Oriente está de parabéns.

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Velhos são os trapos II



Ao contrário do JP Guimarães, nunca joguei râguebi em novo nem tenciono começar a fazê-lo agora que vou para velho. De resto até hoje ainda ninguém conseguiu convencer-me que o desporto não faz um mal danado à saúde. Mas as nossas divergências acabam aqui. É certo que não vou ao ponto de dizer, como dizia outro amigo, que só leio livros com mais de cinquenta anos. Mas ouso, na linha da defesa que o JP fez das virtudes da «sagesse», fazer duas sugestões para um fim-de-semana mais geriátrico: na Sexta vão até à Cinemateca «ouvir» «O vento» do eterno Sjostrom. No Sábado dêem um salto ao Optimus Alive para «ver» o intemporal Neil Young.
Vão à confiança. Sempre quero ver se alguém tem coragem para dizer que este país não é para velhos!

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III. “Carpe diem” e power point

Quais são os elementos deste pensamento de Horácio?

Em primeiro lugar, o nosso uso do tempo não é garantido. Mas mais que isso; não é legítimo. É pomar que se nos apresenta e de que podemos roubar os frutos, mas não é propriedade nossa nem nosso usufruto sequer. Nem somos locatários do século. Apenas seus salteadores.

Em segundo lugar, somos impotentes. Contamos com a incerta generosidade de um deus ignorado para que as coisas voltem ao seu sítio. Curiosa ideia. A nossa época, a mesma que propala o “carpe diem”, diz que não há sítio certo para as coisas. Mas Horácio, o criador da expressão, sabia bem mais que o homem da rua actual. Se se deve “carpere diem” é porque se sabe que as coisas não estão no seu sítio. Ou seja, existe um sítio devido para as coisas, e a sua ordem natural está abalada. Não é a falta de referências que impera, mas a quebra de ligação com essas referências. O ser humano deixa de ser passageiro para ser náufrago sem bússola. Não é por isso que não existe Norte. Apenas perdemos o sentido de orientação. Não estamos mais sábios por termos descoberto que não haveria ponto de referência. Estamos mais pobres porque o ignoramos.

Em terceiro lugar, toda a nossa apropriação é ilegítima. Gozamos os frutos do tempo como o salteador goza do fruto do seu saque. À noite, longe da vida aberta. A fruição passa sempre às escondidas, é rápida e aflita. O mundo transforma-se em sala de urgências. Apenas há tempo para salvar o doente, não para cuidar dele. O nosso objectivo deixa a ser a qualidade de vida, mas apenas o assustado aproveitamento de uma ocasião.

Em quarto lugar, temos de usar violência, temos de roubar, para fruir. É o mesmo Horácio que em várias odes conta como se salvou de uma potencial morte pela queda de uma árvore numa sua propriedade, que lhe havia sido oferecida por Mecenas. A árvore que cai é como o símbolo da guilhotina, ou a tesoura das Parcas que nos corta o fio da vida. Mas esse fio deixou de ser condutor. Não que ele não exista. Estamos apenas perdidos perante ele. Por isso o cultor do “carpe diem” vive no meio da violência e usa da violência.

Em quinto lugar, tudo é incerteza (“fortasse”, talvez). É evidente. A incerteza foi inventada para ser um estado temporário. Quando o ser humano inventou o “talvez” pensou aplicá-lo à hesitação, não à caça. O talvez é uma pausa, uma preparação que um momento a que se deve seguir uma impulsão. O caçador põe-se de cócoras antes de agir. Tem uma finalidade, essa pausa. Mas quando deixa de ter finalidade, e deixa de ser uma pausa, para ser o fundamento, o ponto estático da vida humana, o cultor do “carpe diem” mostra qual a sua posição: vive de cócoras.

Em sexto lugar, as coisas não estão no seu sítio. O mundo não está instalado. Já não é cada coisa que perdeu o Norte. Ou melhor, em relação à qual perdemos o Norte. É o próprio mundo que se mostra como inacabado, hostil. Visão realista, dirão uns. O problema é que esta postura nada tem de realista. O ser humano, que tem um ciclo de vida certo, no meio de tanto incerto episódio, esquece o ciclo, esquece o certo, e julga-se instalado numa barraca. O mundo passa a ser um imenso acampamento militar do qual se tem de sair quando a oportunidade surge. Não é peregrino, nem sequer fugitivo, porque não tem para onde fugir, por a morte não ser forçosamente descanso.

E em sétimo lugar: temos de nos calar. Falamos demais. Ou melhor o discurso, a palavra, a comunicação são vãos no essencial. Suprema ironia num artista da palavra como Horácio. Mas triste realismo da nossa época. O inepto da palavra apropria-se do espaço público. Impede os outros de articular e afirma que a articulação não é possível. Não gosta de comparações, porque todas elas o desfavoreceriam. E quer o silêncio igualmente por outra razão que não pode confessar, porque para ele o mais fundo da vida é sempre inconfessável. Tanta ânsia mostra apenas uma imensa nostalgia da estabilidade. O cultor do “carpe diem” é alguém que aspira a ser conservador e não o consegue. Proclamar o seu fim seria pôr a nu o ridículo dos seus meios.

É evidente que podemos fazer mil interpretações sobre até que ponto as guerras civis constantes da República Romana lhe influenciaram o pensamento. Mas por mais que isso possa eventualmente explicar (sempre parcialmente) o pensamento de Horácio, não explica por que razão a nossa época dá tanto assento à sua frase do “carpe diem”. Se o divulga, se o usa, se carece desta exortação é porque tem o mesmo tipo de pensamento triste, sem ter a mesma capacidade de enunciação. Até para definir um modo de ver precisou de roubar a autor antigo a expressão da sua angústia.

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When things get tough... chamem um Professor Doutor

Parece de propósito. Eu a discutir com o Alexandre e a Sofia (aqui) a importância que o nosso país atribui aos académicos e a tendência para recorrer à sua "autoridade" para evitar decisões difíceis e a notícia do dia confirma isto mesmo (a ver aqui). Em Portugal não se confia nas soluções institucionais, na autonomia privada ou no Estado. Confia-se num Professor Doutor! É a única forma de readquirir credibilidade.
Disclaimer: eu sou Professor Doutor (logo, não se atrevam a criticar o que eu digo…) e não nos culpem a nós pela importância que nos dão. Já agora: aproveito para desejar boa sorte ao Professor Freitas do Amaral e ao Dr. Pedro Machete. Vão precisar dela….

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Masoquismo



Como se pode depreender do video acima hoje acordei levemente masoquista.

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terça-feira, 8 de julho de 2008

II. “Carpe diem” e power point

Vejamos agora o “carpe diem”. A expressão é de Horácio numa sua Ode.

Horácio é dos artistas mais consumados que a História já viu. Estranho destino a de um imenso artista, cheio de ideias artísticas e tão vazio de quaisquer outras. É dos raros casos que conheço em que a ideia em si mesma é banal e apenas a forma artística que assume lhe confere força. Nesse sentido legitimou uma tendência latina do artista pouco enriquecedor no campo das ideias. Tem a vantagem no entanto sob tantos outros de ter sido genial. Efectivamente genial.

A ideia por detrás do “carpe diem” cruza-se entre a mais elaborada filosofia (em versão vulgata, mais uma vez) da impermanência da vida, e a verificação trivial de todo o ser humano que foi colocado no mundo e que o seu poder de decisão em relação ao tempo tem fortes limites. Em si não seria grave. Mas é o próprio Horácio, pouco filosófico, mas nada idiota, que tem consciência do fundo deste “carpe diem”.

A exortação é convite ao roubo, à apropriação, mesmo que indevida. Apanha nas ruas os pedaços que o dia te dá, este dia. Não o segundo, que se evapora, não a semana, que é longo demais. O dia, que os romanos contam desde o cair da noite, é um convite em si mesmo ao nocturno. Cada noite que começa percebe que é mais um dia que surge para capturares. Para a caça e a pesca.

Nunca vi referido algo que para mim sempre foi evidente. A inconsistência lógica desta exortação. Em si mesma é um plano para o futuro, quando o que afirma é a recusa de quaisquer planos para o futuro.

O “carpe diem” aparece na Ode I, 11, 7-8:
dum loquimur, fugerit inuida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.
(enquanto falamos eis que o tempo cioso fugiu: colhe o dia, sem te fiar em nada no dia seguinte).

Horácio conhecia a sua métrica e a semântica do latim muito melhor que nós. Não é por acaso que escolhe o verbo “carpo, is, ere, carpsi, arptum”: colher ,arrancar, separar, roer, pastar, pôr-se a caminho. É um tema que tem lados positivos, como se vê em “karpos” em grego – fruto. Mas o fruto, quando nos lembramos da sua história, é sempre algo que traz um percurso de violência. É o que é arrancado à árvore. Horácio poderia ter escolhido outro verbo. As suas capacidades métricas em nada o impediram. Se escolheu o verbo “carpo” não o fez por acaso. Salientou que a acção de colher o tempo não é a da simples recolecção, mas a de um arrancar violento.

O pensamento de Horácio não é meramente episódico. Descobre-se melhor comparando com a epode XIII. Nos seus versos 3-4:
“rapiamus, amici,
Occasionem de die”

(aproveitemos amigos a ocasião deste dia)
E na mesma epode nos seus versos 7-9:
“cetera mitte loqui: deus haec fortasse benigna
reducet in sedem uice”

(quanto ao resto, abstenhamo-nos de falar. Talvez um deus, por um generoso retorno das coisas, colocá-las-á no seu sítio.)

Mais uma vez Horácio não escolhe por acaso as palavras. “rapio, is, ere, rapui, raptum”: arrebatar, levar com violência o ímpeto, arrastar, puxar, levar alguém ao suplício, à morte, tomar, roubar, pilhar, saquear, apressar, aproveitar. Escolhe um verbo violento. O tempo não nos é dado. Apenas nos aparece por vezes à disposição. A ocasião é o que cai. O que nos cai em cima ou ao lado. É coisa cuja origem desconhecemos e de que apenas padecemos o destino.

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Velhos são os trapos




















Há duas semanas atrás estive a jogar rugby com veteranos de toda a Europa num evento denominado EGORF – European Golden Oldies Rugby Festival.

É um festival e não um torneio, com jogos bem disputados mas sem que haja um vencedor final. Tem lugar de dois em dois anos num país diferente. Este ano foi em Portugal – mais concretamente na Madeira – numa excelente organização dos veteranos do Porto Old Greens (a quem presto homenagem na fotografia acima).

Reúne gente que não quer pendurar as botas e que acredita no poder redentor do jogo e da amizade. Aliás, a ênfase está, como se pode ler no respectivo site, em “Fun, Friendship, Fraternity and Family”.

Os veteranos são ex jogadores com mais de 35 anos que jogam em dois níveis: competitivo (em principio, até aos 50 anos) e “fun” (com a maioria dos jogadores acima dos 50).

Nesta modalidade (fun) - e devido à idade mais avançada - alguns dos jogadores ostentam orgulhosamente calções encarnados indicando que não podem (nem querem!) ser placados enquanto outros, ainda mais “experientes”, vestem galhardamente calções amarelos (golden, para ser exacto) não podendo, praticamente, ser importunados pelos jogadores adversários.
E ainda bem. Homens com mais de 70 anos corriam - e divertiam-se! - e mostravam como a idade não é (ou não tem que ser) um obstáculo.
Vem isto (também) a propósito de uma notícia de imprensa deste fim-de-semana intitulada “Os Novos Velhos” fazendo, em particular, referência a Luís Aragonês, o treinador espanhol campeão da Europa.

E em boa hora. Numa altura em que tanto se parece subestimar a experiência dos (mais) velhos e a importância que esta tem, estes exemplos (como o de Aragonês) nunca são de mais.
Recordo (numa adaptação livre) um provérbio (julgo que) árabe que recomenda a quem precisar de conselhos que escolha a experiência sobre a escolaridade.

Numa altura em que a esperança de vida não pára de aumentar este é, sem dúvida, um tema para pensar.


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A infra-estrutura decisiva para Portugal...

... Está em debate hoje no CCB. A questão já não é saber se faz ou não sentido investir em redes de nova geração. A questão é saber quando e como. Portugal em fibra óptica, casa a casa: eis (um)a infra-estrutura decisiva para Portugal.

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segunda-feira, 7 de julho de 2008

Os académicos ao (no) poder?

No Financial Times de hoje Wolfgang Münchau atribui parte da responsabilidade pela actual crise económica à excessiva importância dos professores de Economia na formulação das políticas económicas… Citando Bhagwatti, recorda uma frase de Kenneth Galbraith a propósito de Milton Friedman: "o azar do Milton foi terem experimentado as suas políticas". A tese de Münchau é que quando os académicos se tornam políticos ou policymakers eles correm um duplo risco na sua reputação quando se enganam, tornando-se muito mais difícil que mudem de opinião e corrijam o rumo.
Isto recordou-me uma conversa recente com um político a propósito da relação entre políticos e académicos. Ele dizia-me que nunca tinha obtido nenhuma ideia útil vinda de um académico. Eu respondi-lhe que frequentemente os políticos não pretendem ouvir novas ideias mas sim que lhes reforcem as suas. Se os políticos se queixam da falta de utilidade dos académicos, acusados de ignorar a realidade política, os académicos queixam-se da falta de coragem dos políticos para implementar as suas boas ideias. Isto acontece mesmo quando o académico se torna político e vice-versa…
Este cepticismo mútuo é, em boa medida, saudável. Os discursos da política e da ciência não devem confundir-se, até para evitar os riscos de que fala Münchau. Se, como dizia um poeta francês, não se devem dar fósforos aos intelectuais para brincar, os académicos também não devem aceitar instrumentalizar a ciência à política. No entanto, é, igualmente, importante que isto não se transforme num diálogo de surdos. Só será um diálogo útil se cada um compreender o contexto em que o outro opera e o valor acrescentado que lhe pode trazer. Os políticos não devem esperar realismo mas originalidade dos académicos. Se querem ideias novas têm de estar disponíveis a pensar para lá do status quo. É aos políticos que compete converter as boas ideias dos académicos em propostas políticas realistas. Os académicos não devem presumir que sabem mais que os políticos e que os podem instrumentalizar às suas ideias. Sobretudo, não devem esquecer que a legitimidade política pertence aos políticos. A este respeito, não deixo de notar que em Portugal parece existir uma tradição de excessiva autoridade do discurso académico sobre outros discursos sociais, incluindo a política. Um dia voltarei a escrever sobre isto..

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Bem prega frei Louçã...


O doutor Francisco Louçã realizou este fim de semana mais uma acção de campanha integrada na estratégia publicitária do seu Partido, desta vez subordinada ao tema: «Esquerda e Cultura – o futuro já não é o que era». Aí, falando sobre a grave crise que atravessamos, que considerou ser o fruto de uma política quase exclusivamente entregue aos interesses dos grandes patrões, criticou duramente as remunerações auferidas pelos administradores de várias empresas (BCP, TAP, Águas de Portugal...), cuja ganância se constitui como a causa profunda da crise em que nos encontramos: «Esta ganância – diz Louçã – tem sido uma forma de governar o país e quando ouço o Compromisso Portugal defender que haja mais desemprego, mais austeridade, mais crise, percebemos bem que há dois pesos e duas medidas e isso é profundamente contrário à responsabilidade democrática em Portugal.»
Ora, também eu defendo, como julgo que quase todos, a igualdade de oportunidades e, nesse sentido, uma desejável e progressiva aproximação (familiar, económica, social e política) entre ricos e pobres. Mais do que isso, choca-me a pobreza, que, sob todas as suas formas, deve ser social e politicamente combatida. Nesse sentido, não posso deixar de concordar com o Bloco de Esquerda na afirmação de que a crescente disparidade de condições e de remunerações laborais entre pessoas de uma mesma empresa, de uma mesma cidade, de um mesmo país, de um mesmo continente e de um mesmo mundo, é um sinal claro de uma situação de injustiça que é preciso combater.
Discordamos, no entanto, na maneira de enfrentar estes problemas, sendo disso que, de algum modo, aqui quero falar, ainda que sob a proposta – que se vai tornando urgente – de instauração de um processo geral de desilusão relativamente ao Bloco de Esquerda. E aviso desde já que essa desilusão tem ser dupla, nomeadamente quanto à pretensa ingenuidade irreverente do discurso e quanto à também pretensa inofensibilidade dos propósitos.
Quero com isto dizer, em primeiro lugar, que não nos devemos iludir com a pretensa falta de lógica no discurso do doutor Louçã, porque o discurso do Bloco de Esquerda, formalmente criado nos tempos da ovelha negra do PSR, não pretende ser coerente, mas divertido – lógica segundo a qual, aliás, tem crescido entre a juventude com uma eficácia assinalável. Isto implica, em segundo lugar, que não nos devemos iludir com a suposta cientificidade subjacente a esse mesmo discurso, porque, na verdade, o que se esconde sob esse discurso aparentemente adolescente e divertido é um projecto profundamente moralista e/ou religioso, relativamente ao qual faremos bem em estar atentos.
É o que podemos ver a partir do exemplo acima citado. Em primeiro lugar, porque o discurso não é lógico. Com efeito, não faz sentido dizer que os patrões são os causadores desta crise na qual estão de algum modo interessados em prejuízo dos trabalhadores, porque, havendo certamente quem lucre com a crise, é óbvio que a maioria dos patrões não a quer e é prejudicada por ela. Do mesmo modo, não é lógico identificar patrões e administradores – pois que obviamente não são a mesma coisa –, nem opor administradores e trabalhadores – como se os primeiros não trabalhassem –, nem dar exemplos que confundem empresas públicas e empresas privadas – como se tivessem naturezas semelhantes –, etc. Tudo isto, porém, é divertidamente comunicado, sem nunca demorar nos argumentos e por meio de uma sucessão de imagens que, sendo conhecidas de todos (Compromisso Portugal, BCP, TAP, etc.), permitem acompanhar despreocupadamente o discurso, à maneira de quem folheia uma revista.
Perguntar-me-ão, então, como pode conciliar-se esta superficialidade do discurso com o seu carácter pretensamente científico? Pois o facto é que pode, justamente porque ele é pretensamente científico. As soluções apresentadas pelo Bloco de Esquerda, na verdade, não convencem pela sua solidez científica, mas pela graça do slogan que as faz permanecer no ouvido. A pretensão da cientificidade do discurso, bem ao contrário, advém do reconhecimento geral dos seus líderes como homens e mulheres de ciência (é espantoso, aliás, sobretudo se a comparamos com a dos líderes dos restantes Partidos políticos, a informação difundida em torno do percurso científico e académico dos líderes do Bloco de Esquerda). A sua ciência, no entanto, é marcadamente positivista, isto é, absolutamente materialista, pelo que invariavelmente surge - mais ou menos claramente - com um pendor moralista e religioso. Assim se percebe que a explicação dada pelo Bloco de Esquerda para a actual crise seja a maldade dos patrões, particularmente assumida sob a forma da ganância, pecado mortal que só pode ser erradicado do coração do nosso povo por inspiração da acção irrepreensivelmente santa do seu líder, tanto temporal quanto espiritual, Francisco Louçã. É caso para dizer: «Valha-nos Deus!».

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