As melhores cenas de sexo dos últimos anos não são proeza fácil.
É frequente os realizadores de cinema hesitarem no relatório das suas qualidades quando chega à figuração do sexo. Quase todos apontam dificuldades, fáceis de entender: o intimismo cutâneo do sexo é difícil de simular e reproduzir (e não estamos a discutir as complexidades do orgasmo feminino), e poucos foram os cineastas a consegui-lo. Claro que há os mestres do coito elíptico - perdoem-me a crueza -, como Hitchcock (as "pernas de frango" de "A Casa Encantada", o jantar interrompido na varanda de Copacabana em "Difamação", o fogo de artifício e as rolhas de champanhe a saltar em "Ladrão de Casaca"), Lubitsch (portas que se fecham, janelas que se abrem), Wilder (basta ver "Kiss Me Stupid"), Kazan ( a sexualidade tão precoce como fúnebre de "Esplendor na Relva"). Mas sexo à séria, crú ou incandescente, em cena, "in camera", acção e sensação, há poucos que o façam bem (como na vida, desculpem nova rudeza).
Ang Lee é um desses casos singulares. Em "Lust, Caution", há dias lançado no mercado de aluguer DVD (fugiu-me da rede quando estreou), Lee trata o sexo como muito do sexo é: de uma urgência visceral, combativo, negociado, carregado de subtextos, à beira da violência, uma infinita viagem à psique do parceiro (a) - ou (a) adversário (a) de circunstância.
Ao reproduzir visualmente o sexo num erotismo que quase clama pela pornografia (a contínua insinuação da genitália, a proximidade do suor, o tom urgente, à beira da morte - que finalmente chegará ), Lee aproxima-se da violência ética de "O Império dos Sentidos" de Oshima, da notável (e célebre) intimidade da sequência entre Donald Shuterland e Julie Christie no "Aquele Inverno em Veneza" de Nicolas Roeg - Donald, amante de Christie à época, insinuou que o sexo aconteceu mesmo na rodagem -, do verismo dos amantes de "Red Road" de Andrea Arnold, do destempero desesperado, eficazmente "sleazy", de Tilda Swinton e Ewan McGregor em "Young Adam" de David McKenzie.
O sexo, trave mestra do cinema do auto-exilado Ang Lee (exílio geográfico, cultural, sentimental), é a forma que um dos mais interessantes realizadores contemporâneos encontrou para reproduzir a sua preocupação de sempre: o sentimento de não pertencer.
Todos os filmes de Lee falam da procura de uma família que vai escapando, de um lugar de integração que foge, e do pressentimento físico e psicológico de que a vida nos vai afastando dessa plenitude que só a integração e a pertença poderiam trazer.
A integração e a pertença é o que procuram - quase sempre sem sucesso - o casal homossexual de "O Banquete de Casamento", os cowboys gay de "Brokeback Mountain", os miúdos imersos na disfuncionalidade dos pais no fabuloso "A Tempestade de Gelo", o anti-super-herói de "Hulk", (a mais adulta das fitas do género, se bem que pintada em grossos traços psicanalíticos), a renegada Zhang Ziyi de "O Tigre e o Dragão".
Em "Lust, Caution", rapidamente despachado pela crítica em virtude de uma putativa fixação no academismo (pretensamente salva pelas explosões de sinceridade erótica...) é um cuidadoso e belo capítulo no ideário Ang Lee: Wong Chia Chi (Wei Tang, uma estrepitosa descoberta) é uma jovem orfã que procura o seu lugar numa sociedade em desintegração, a China de Shanghai e Hong-Kong durante a ocupação japonesa da 2ª Grande Guerra. Seduzida a integrar a resistência, a tarefa que lhe dão - mas que ela, em grande medida, encontra para si própria - é montar a cilada a um chefe policial do regime colaboracionista, Mr Yee (interpretado pelo sempre excelente Tony Leung). Por breves momentos, o jovem e idealista grupo de estudantes onde Wong Chia Chi se integra revela-se a família que nunca teve - infantil, ríspida, doce, egoísta, como todas as famílias. Mas o enraizamento é efémero, e a conquista da identidade irá revelar-se cada vez mais complexa, já que ela terá de se tornar amante do homem que deseja destruir - ou desejará?
Esta permanente contradição - e o jogo da pertença que essa contradição implica - não é mais do que uma nova súmula do trabalho de Ang Lee, agora acrescido de uma pulsão física inesperada, agressiva, ardente. O melhor sexo em cinema dos últimos anos.
E para vocês, onde está o melhor sexo no cinema? E na pintura? E na literatura?
Não me ocorre melhor pensamento estival.