segunda-feira, 7 de julho de 2008

I. “Carpe diem” e power point

É uma mesma época que cultiva o “powerpoint” e proclama, em versão vulgata de filme americano, o “carpe diem”. Duas realidades simultâneas podem não ter uma causa comum, mas têm sempre forçosamente um fundo comum. É esse que eu gostaria de fazer compreender.

O “slide”, o meio audiovisual, pode ser muito útil numa exposição. Dar História de Arte sem imagens poderá ser algo complicado. Em certas circunstâncias a apresentação de esquemas é igualmente importante. Mas uma moda pedagógica que tem múltipla origem e antiguidade levou a sobrevalorizar o boneco como forma pedagógica.

Hoje em dia vemos com frequência apresentações em “powerpoint” em que o orador nada diz, não nos dá nem mais uma ideia, que não esteja contida no diapositivo. A coisa torna-se duplamente enfadonha. Já sabemos a informação em imagem, sem ênfase, sem contacto humano, e eis senão quando nos aparece o contacto humano, geralmente monocórdico, a dar a informação que já tínhamos absorvido.

No limite, o diapositivo é uma muleta. Em vez de ser um auxílio, é o apoio fundamental. O orador não confia em si como fonte de autoridade, mas está no fundo a dizer-nos que o que afirma é credível porque o boneco já o disse antes dele. O orador deixa de incarnar o discurso. Avisa que o discurso está fora dele e por isso mesmo – por vezes, mesmo só por causa disso mesmo – é credível. O boneco falou por ele. Quanto à autoridade, abdicando dela ou temendo não a ter, diz que o desenho e a bolinha estão lá para mostrar a consistência do que diz.

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É destes "role models" que eu gosto




A Critical Software celebrou dez anos. Lembro-me como se fosse hoje do final da Escola de Verão de Empreendedores, organizada no âmbito da Academia dos Empreendedores que lancei, na ANJE, nos tempos de Fernandes Thomaz. João Carreira apresentou aí o plano de negócios da empresa que iria criar, com os seus colegas Gonçalo Quadros e Diamantino Costa. Focada no desenvolvimento de software para sistemas críticos, um dos seus primeiros clientes foi a NASA. “Coimbra, a última descoberta da NASA” foi o tema da capa da revista “Ideias & Negócios” desse mês.
Há empresas que mudam uma cidade, resgatando-as de declínios anunciados. Tal como Michaell Dell (Austin), Bill Gates e Jeff Bezos (Seattle), o trio de fundadores da Critical foi decisivo no renascimento de Coimbra.
Dez anos atrás, Coimbra era uma cidade triste e parada no tempo. Rodeada de empresas a fechar, virada para as glórias do passado - “Coimbra Cidade Monumental”, anunciava (e bem) a placa na auto-estrada. Nos últimos anos, deu um salto de gigante. A Critical inspirou outros, os seus fundadores tornaram-se “role models” para muitos recém licenciados da Universidade de Coimbra. Nascem novas empresas como a Bluepharma, a ISA, a Crioestaminal e muitas outras.
O número de incubadas no Instituto Pedro Nunes, liderado por um empreendedora notável (Teresa Mendes), disparou. Um Presidente da Câmara (Carlos Encarnação), que investe em patentes. Um Reitor (Seabra Santos), com visão, corajoso e pragmático, que soube apostar numa equipa jovem e aguerrida. Um Pró-Reitor, Fernando Guerra, com rasgo, energia e capacidade empreendedora únicas, apostado no fomento do empreendedorismo e na criação de redes internacionais. Um centro de transferencia de tecnologia exemplar (liderado por Jorge Figueira). (Há três semanas, promoveram ambos o Medtech Forum, que levou a Coimbra 150 líderes europeuas na área da investigação, investidores e peritos do sector da Saúde e Tecnologias Médicas).
Um cientista empreendedor (Carlos Faro), que, com rasgo e determinação, se alia a um autarca visionário (Jorge Catarino, Cantanhede e seu sucessor, João Moura) para criar o primeiro parque de biotecnologia, Biocant.
Um capitalista de risco (Roberto Branco, Bioventures e Beta Capital) sem medo de apostar em “start ups”, onde acrescenta muito valor para além do capital. Um lider associativo visionário (Almeida Henriques) que, a partir do Conselho Empresarial do Centro (CEC), lança pontes, mobiliza vontades (o “Pacto para a Nova Centralidade”) e cria um capital social raro, muito raro, em Portugal. Um empreendedor académico (Borges Gouveia) que, a partir da Agência de Inovação e da Universidade de Aveiro, reforçou a componente inovação do “Pacto para a nova Centralidade”. (O Pacto – ver doc aqui - assenta em ideias simples e mobilizadoras: Reforçar a capacidade de inovação das empresas. Fomentar uma ligação dinâmica entre o sistema cientifico e tecnológico e as empresas. Criar condições para o desenvolvimento e crescimento das microempresas. Apoiar ao empreendedorismo centrado numa lógica de rede. Explorar formas alternativas de financiamento, como factor diferenciador. Aproveitamento dos recursos naturais, ambientais e energéticos. Tornar a região mais atractiva ao investimento directo internacional.)


A revolução silenciosa que se vive no Centro significa que nada é impossivel quando um punhado de mulheres e homens ambiciosos e sérios conjugam vontades.
Desde há três anos, a pedido da Câmara, a Brisa mudou a placa da A1. Coimbra passou a ser, “Coimbra, Cidade do Cidade do Conhecimento”. Coimbra não é Cambridge, mas está a mudar – e essa mudança é já visível.


Estes exemplos não são casos isolados. Por esse País fora, há mais Portugal empreendedor do que parece. Cavaco Silva não se têm casado de dizer (e reiterou neste fim-de-semana): Portugal precisa de apostar em empresas capazes de exportar bens transaccionáveis. Essa é a única resposta possivel à globalização: mudar de modelo, ou seja: mais inovação nas empresas e mais empresas a inovar. Empresas cuja vantagem comparativa não vem das relações com Estado, mas dos seus produtos e serviços, capazes de vencer no mercado mundial. Só assim se exporta mais e com mais valor. Só assim de cria emprego qualificado e se atrai talento.

Parabéns, Gonçalo Quadros, Diamantino Costa e João Carreira (hoje a viver em New Jersey, na liderança da Critical Links, um spin-off da Critica Software).

O mais bonito destes dez anos é constatar que os fundadores da Critical cresceram, mas não mudaram no que é essencial. Não se deixaram deslumbrar, não tornaram novos ricos, continuam a ser quem eram: gente séria e trabalhadora, apaixonada pelo que faz, sempre com sede de aprender e de empreender. É destes "role models" que eu gosto.

(A bonita foto em cima, do grupo fundador, cedida pelo João Carreira (sentado), faz lembrar a imagem lendária de Bill Gates e Paul Allen com o grupo fundador da Microsoft, em 1975...)

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Sexo mandarim e cantonês (uma iniciação)

As melhores cenas de sexo dos últimos anos não são proeza fácil.
É frequente os realizadores de cinema hesitarem no relatório das suas qualidades quando chega à figuração do sexo. Quase todos apontam dificuldades, fáceis de entender: o intimismo cutâneo do sexo é difícil de simular e reproduzir (e não estamos a discutir as complexidades do orgasmo feminino), e poucos foram os cineastas a consegui-lo. Claro que há os mestres do coito elíptico - perdoem-me a crueza -, como Hitchcock (as "pernas de frango" de "A Casa Encantada", o jantar interrompido na varanda de Copacabana em "Difamação", o fogo de artifício e as rolhas de champanhe a saltar em "Ladrão de Casaca"), Lubitsch (portas que se fecham, janelas que se abrem), Wilder (basta ver "Kiss Me Stupid"), Kazan ( a sexualidade tão precoce como fúnebre de "Esplendor na Relva"). Mas sexo à séria, crú ou incandescente, em cena, "in camera", acção e sensação, há poucos que o façam bem (como na vida, desculpem nova rudeza).

Ang Lee é um desses casos singulares. Em "Lust, Caution", há dias lançado no mercado de aluguer DVD (fugiu-me da rede quando estreou), Lee trata o sexo como muito do sexo é: de uma urgência visceral, combativo, negociado, carregado de subtextos, à beira da violência, uma infinita viagem à psique do parceiro (a) - ou (a) adversário (a) de circunstância.
Ao reproduzir visualmente o sexo num erotismo que quase clama pela pornografia (a contínua insinuação da genitália, a proximidade do suor, o tom urgente, à beira da morte - que finalmente chegará ), Lee aproxima-se da violência ética de "O Império dos Sentidos" de Oshima, da notável (e célebre) intimidade da sequência entre Donald Shuterland e Julie Christie no "Aquele Inverno em Veneza" de Nicolas Roeg - Donald, amante de Christie à época, insinuou que o sexo aconteceu mesmo na rodagem -, do verismo dos amantes de "Red Road" de Andrea Arnold, do destempero desesperado, eficazmente "sleazy", de Tilda Swinton e Ewan McGregor em "Young Adam" de David McKenzie.
O sexo, trave mestra do cinema do auto-exilado Ang Lee (exílio geográfico, cultural, sentimental), é a forma que um dos mais interessantes realizadores contemporâneos encontrou para reproduzir a sua preocupação de sempre: o sentimento de não pertencer.
Todos os filmes de Lee falam da procura de uma família que vai escapando, de um lugar de integração que foge, e do pressentimento físico e psicológico de que a vida nos vai afastando dessa plenitude que só a integração e a pertença poderiam trazer.
A integração e a pertença é o que procuram - quase sempre sem sucesso - o casal homossexual de "O Banquete de Casamento", os cowboys gay de "Brokeback Mountain", os miúdos imersos na disfuncionalidade dos pais no fabuloso "A Tempestade de Gelo", o anti-super-herói de "Hulk", (a mais adulta das fitas do género, se bem que pintada em grossos traços psicanalíticos), a renegada Zhang Ziyi de "O Tigre e o Dragão".
Em "Lust, Caution", rapidamente despachado pela crítica em virtude de uma putativa fixação no academismo (pretensamente salva pelas explosões de sinceridade erótica...) é um cuidadoso e belo capítulo no ideário Ang Lee: Wong Chia Chi (Wei Tang, uma estrepitosa descoberta) é uma jovem orfã que procura o seu lugar numa sociedade em desintegração, a China de Shanghai e Hong-Kong durante a ocupação japonesa da 2ª Grande Guerra. Seduzida a integrar a resistência, a tarefa que lhe dão - mas que ela, em grande medida, encontra para si própria - é montar a cilada a um chefe policial do regime colaboracionista, Mr Yee (interpretado pelo sempre excelente Tony Leung). Por breves momentos, o jovem e idealista grupo de estudantes onde Wong Chia Chi se integra revela-se a família que nunca teve - infantil, ríspida, doce, egoísta, como todas as famílias. Mas o enraizamento é efémero, e a conquista da identidade irá revelar-se cada vez mais complexa, já que ela terá de se tornar amante do homem que deseja destruir - ou desejará?
Esta permanente contradição - e o jogo da pertença que essa contradição implica - não é mais do que uma nova súmula do trabalho de Ang Lee, agora acrescido de uma pulsão física inesperada, agressiva, ardente. O melhor sexo em cinema dos últimos anos.
E para vocês, onde está o melhor sexo no cinema? E na pintura? E na literatura?
Não me ocorre melhor pensamento estival.

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domingo, 6 de julho de 2008

A eternidade

Coucher de soleil sur la mer, Fernand Puigaudeau
Elle est retrouvée.
Quoi ? - L'Éternité.
C'est la mer allée
Avec le soleil.
Estes versos pertencem a um poema, L'eternité, de Jean-Arthur Rimbaud. Escreveu-o em Maio de 1872. Dois anos depois, retocou-o, escrevendo mêlée onde antes dissera allée.
Diminuirá a transcendência que exalam se soubermos que a razão prosaica que os inspirou foi a paixão de Rimbaud por Verlaine, a quem queria convencer a sair de casa, deixando a jovem mulher, para vir viver com ele? Um mês depois Verlaine deixou Mathilde. Mêlée onde antes estava allée.

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Vamos à estreia?




A história de Metropolis de Fritz Lang dava, ela própria, um filme. Rodado entre 1925 e 1926, com os seus milhares de figurantes tratados como escravos (alguém chegou a dizer que o desemprego que então minava a Alemanha «era uma bênção» para Lang), com actores dirigidos como «marionetas», com proezas técnicas nunca tentadas e sobretudo com os seus cenários grandiosos, Metropolis é um hino à desmesura, ao excesso, à megalomania. Mas se a rodagem se fez de desastres e peripécias, a pós-produção foi uma saga de cortes e recortes que desaguaram na mítica versão que em 1927, em Berlim, estreou sob a forma de um «sonoro» fracasso que quase levou a poderosa UFA à falência. E sublinho mítica, não porque estreou, mas porque desapareceu sem deixar rasto durante mais de 80 anos. Que foram os anos necessários para que uma cópia preciosa do original de 27, levada para a Argentina em 28, fosse encontrada nos poeirentos arquivos do Museu de Cinema Pablo Ducrós Hicken, de Buenos Aires.

Trocando as voltas ao tempo, Metropolis vai voltar a estrear. Com 25 preciosos e perdidos minutos que o Mundo não voltou a ver desde aquela longínqua noite de Berlim. Vamos à estreia?

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Gracias al Ejército mio...

"Gracias al Ejército mío, de mi patria Colombia, gracias por la impecable operación, la operación fue perfecta".
Esta é, sobretudo vinda de quem vem, a frase chave de Ingrid após o resgate. Respondo, por valer mesmo muito a pena, ao post da Inês que elegia “A Dios primero...” como chapéu teológico desta libertação.
Deus, a quem não me atrevo a culpar do rapto, e que na sua imóvel omnipotência ignora a selva colombiana, foi, é e será sempre uma excelsa figura de retórica da humanidade perdida que somos. Deixemos aos humanos o negócio dos humanos e reservemos a Deus o papel de dramatis persona que lhe advém de ser a magnífica criação dos nossos melhores poetas, dos nossos mais bizarros pensadores, dos nossos momentos de mais pungente sofrimento ou de mais destemperada alegria.



La impecable operación, la operación perfecta.

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sábado, 5 de julho de 2008

Mundo de Aventuras

A Agência Portuguesa de Revistas foi, para uma série de gerações, o equivalente à Biblioteca Nacional. Tenho até a impressão de que deveria ser um “case study”. Pela diversidade de oferta, pela definição correcta de público-alvo, pela “cross-promotion” que soube inventar.
Já vos falei das “Mãos de Fada”. Reparem agora na “tag line” que o dream team da APR inseriu nessa celestial revista feminina:
Para V. Exª Mãos de Fada. Para seus filhos O Mundo de Aventuras, a melhor revista para crianças”.
O “Mundo de Aventuras”, que conheci já em edição de tamanho mais reduzido (redução que ditou o seu sucesso, e prova acabada de que o tamanho conta), em 4 páginas litografadas a uma cor, oferecia aventuras de Rip Kirby, Brick Bradford, Cisco Kid, Flash Gordon, Dick Tracy,Sargento Preston, Tarzan ou Davy Crockett. Ainda há exemplares à venda, aqui.



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Mãos de fada

A Agência Portuguesa de Revistas publicava, naqueles tempos, esta revista, "As Mãos de Fada". Fosse crochet ou ponto cruz, as mãos eram assim qualificadas por serem orientadas, e cito, "por um forte querer activo que se dirige o mais possível para o bom e o belo".

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«A Dios primero»

«A Dios primero», disse Ingrid Betancourt, em acção de Graças, quando pisou o chão da liberdade.
Mais do que o encontro com os filhos ou o sorriso aberto; mais do que a coesão do grupo resgatado ou as palavras de convite à regeneração dos homens das FARC; mais ainda do que a beleza de uma cara gasta pela selva e não pela amargura da prisão; mais do que tudo comoveram-me as palavras de Betancourt - a Dios, primero - quando quis agradecer aos que procuraram salvá-la.
Lembrei-me de um artigo escrito no Expresso por António Pinto Leite, em Maio de 1982, quando João Paulo II veio pela primeira vez a Portugal e rezou uma missa aos jovens no Parque Eduardo VII. As imagens de cor e de entusiasmo daquele mar de gente nova impressionaram Pinto Leite que lamentava não conseguir sentir, nessa altura, a mesma intensidade na Fé.
São minhas as suas palavras. Mas como preferia que fossem as de Betancourt.

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sexta-feira, 4 de julho de 2008

É crime

O direito penal ocupa-se dos crimes.
E o que são crimes? A disciplina de direito penal, que dura um ano inteiro, ensina-nos que é uma ACÇÃO - dois meses para ver mesmo o que é uma acção por oposição a uma omissão,por ex, estando nisto até ao Natal...
TÍPICA, ou seja, que essa acção esteja previamente à prática da acção prevista como tal - que é uma das maiores garantias do cidadão num estado de direito democrático - mais dois meses,lá para os lados do Carnaval.
ILÍCITA,i.é, que não existam causas que excluam a ilicitude, isto já por volta da Páscoa.
Finalmente, que seja CULPOSA, saber se, apesar de tudo, a pessoa é culpada ou se existem causas que excluam a culpa, isto quando a cidade já se preparava para a queima das fitas.
Hoje vi o noticiário da TVI, vi a pivot, antes de fazer a pergunta disparar pronta, com um ar entendido: " - Estive a ler o código penal antes, e tal tal...". Ela leu o código.

É crime. Há uma acção, eu estava sentada em frente ao televisor com um comando na mão; é típica, porque é o final da semana e eu estou cansada; é ilicíta porque deixei de fazer outras coisas mais importantes; e culpada sou eu que fiquei a ver este espectáculo degradante.

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Gastar melhor

As surpresas que se encontram sobre o presente, mesmo em deambulações históricas: o mote do nosso Tribunal de Contas é "ajudar o Estado e a sociedade a gastar melhor". Há candidatos para mudar o "melhor" para "menos e melhor"?

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quinta-feira, 3 de julho de 2008

Ingrid está livre

A operação do exército colombiano que libertou Ingrid Betancourt e outros 14 reféns parece ter sido escrita por um prodigioso argumentista. A operação, relatada aqui e aqui, foi um exercício de imaginação e de astúcia. Os militares infiltraram as hostes terroristas da FARC e iludiram-nas, levando-as a entregar os reféns a um grupo de nove comandos especiais – transportados num helicóptero branco e vestindo t-shirts com a efígie do Che – que os terroristas acreditaram ser seus companheiros de armas.
Sem um tiro, quando o helicóptero se elevou no céu, os reféns estavam livres. E os 9 militares ainda conseguiram aprisionar o chefe do grupo.
Mais do que uma derrota militar, a poética desta acção passa também pela forma como a imagem das FARC sai vexada: o charme, a inteligência, a elegância, o ardil brilhante pertencem por inteiro ao exército, o grande herói deste filme. Aos revolucionários das FARC cabe agora o papel de vilões impotentes, ridículos e escarnecidos. É um pequeno pormenor, mas sabe quase tão bem como a genuína alegria do reencontro de Ingrid com a liberdade.


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Identidades Emprestadas


Um colega meu dinamarquês contou-me ontem como o seu filho de dez anos chorou durante uma hora depois da derrota de Portugal com a Alemanha. Teve de o consolar e explicar-lhe que no futebol nem sempre ganha o melhor… Não foi totalmente eficaz pois a criança chorou de novo durante a noite. Domingo passado, no entanto, voltou a ser feliz pois a "sua" Espanha ganhou. Depois da saída de palco de Portugal procurou outra identidade e desta vez foi recompensado.

Reconheço que também eu fui à procura de outras identidades: primeiro foi a Turquia e depois a Espanha (nada de especial contra a Alemanha, apenas gosto de futebol…). Mas o que é interessante nisto tudo é a preferência que temos em assistir a um jogo como adeptos e não como meros espectadores. Confesso que é raro o jogo em que não sinta necessidade de tomar partido por uma das equipas. Posso começar neutral mas passado pouco tempo já sou mais um adepto. E como o meu clube (o Sporting) me dá poucas oportunidades de ganhar cada vez mais vou ter de ser adepto "por interposta pessoa" (frequentemente, dependendo de onde jogam os ex-ídolos do meu clube: no fundo, o Manchester United é a filial do Sporting para as competições europeias…).

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quarta-feira, 2 de julho de 2008

O meu menino é de oiro...


Seja pela recente nomeação de dois dos nossos bloggers para importantes cargos do PSD, seja para não fazer concorrência desleal ao Manuel S. Fonseca, seja por qualquer outra razão que eu desconheça, o facto é que ninguém até agora aqui quis comentar o lançamento da biografia de José Sócrates, que há dias apareceu sob o espantoso título: Sócrates: o menino de ouro do PS. Pois bem, faço-o eu.
Para começar, julgo que pouco importa, de um ponto de vista político, a presença de Dias Loureiro no lançamento deste livro, da qual tanto se tem querido falar, na tentativa de sugerir um eventual bloco central de interesses. A presença de Dias Loureiro, porém, só pode explicar-se a um nível pessoal e a ideia de um bloco central que unisse o PS de Sócrates e o PSD de Ferreira Leite não passa de desinformação. E essa é uma conclusão a que se pode chegar a partir da questão da oportunidade do lançamento deste livro: Creio, com efeito, que a eleição de Manuela Ferreira Leite como presidente do principal partido da oposição obrigou a uma redefinição da estratégia eleitoral do PS, a qual passa, agora, em primeiro lugar, por uma viragem à esquerda e, em segundo lugar, por uma pessoalização da campanha, da qual o lançamento deste livro é justamente o primeiro momento.
Na verdade, perante a insuficiência, primeiro, e a incerteza, depois, de que se revestiu, nos últimos tempos, a liderança e o futuro do PSD, a estratégia do PS manteve-se também incerta, indecisa entre a esquerda e a direita. Eleita Ferreira Leite, porém, imediatamente começou Sócrates a falar para a esquerda, tecendo dentro do PS duras críticas ao PCP e ao Bloco de Esquerda. E isto porque percebeu que, com Ferreira Leite à frente do PSD, ele já não pode, como até há pouco tempo podia, namorar o eleitorado ao centro, agora mais inclinado para o PSD. Virou, por isso, à esquerda, e a todo o vapor, pois que é aí que está agora toda a sua esperança. E é nessa altura, justamente, que sai este livro, cujo principal significado, portanto, é o do início da campanha eleitoral por parte do PS, para a qual Sócrates tem já uma estratégia muito claramente definida.
Sobre essa estratégia, aliás, muito nos diz também já este livro, nomeadamente que a campanha do PS não irá mostrar ao País a obra feita pelo seu Governo, indo-se antes centrar na figura do seu Secretário-Geral. Até porque a única coisa palpável que o Governo tem para mostrar ao País é a redução dos números do deficit serviçalmente exibidos a Bruxelas, o que, por um lado, não anima os portugueses face à crise e, por outro, não é mais do que a continuação da tão propalada política de rigor e de contenção que, no entanto, foi iniciada pela então ministra das finanças Manuela Ferreira Leite.
Sócrates, deste modo, que desde o início do seu mandato ferreamente tentou não cometer os erros do seu antecessor – não comentando ou pouco falando sobre os casos políticos e pessoais (e foram muitos) que surgiram durante o seu Governo –, agora, encurralado por Ferreira Leite, vê-se obrigado a pessoalizar a sua campanha, ainda que, sempre focado no exemplo de Santana Lopes, evite o mote do menino guerreiro e nos proponha uma canção de embalar:

«O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino
Não façam caso
Que é pequenino
Não façam caso
Que é pequenino…»

A ver vamos, porém, quem ganha. Uma coisa, para já, é certa: as tarefas dos dois líderes estão clara e opostamente definidas: José Sócrates tem que entorpecer o PS e adormecer o País; Manuela Ferreira Leite tem que entusiamar o PSD e acordar Portugal.

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As Chaves de São Bento



A quem serão entregues as chaves da Casa Branca no dia 20 de Janeiro de 2009? E as de São Bento, daqui a um ano e meio?

“The Keys to the White House” são um sistema de previsão histórico criadao pelo Prof. Allan J. Lichtman, que olha retrospectivamente para o voto popular de cada eleição americana desde 1960. Partem do pressuposto que o resultado da eleição presidencial resulta sobretudo da performance do partido incumbente. Segundo Lichtman, “politics as usual by the challenging candidate will have no impact on results”.

Em The Keys to the White House (2005) Lichtman explica a génese das Chaves: “ I first developed the Keys system in 1981, in collaboration with Vladimir Keilis-Borok, a world renowned authority on the mathematics of prediction models. The system shows that it is possible to predict well in advance the outcomes of presidential elections from indicators that primarily track the performance and strength of the party holding the White House. Through the application of pattern recognition methodology to data for American presidential elections from 1860 (the first election with a four-year record of competition between Republicans and Democrats) we developed 13 diagnostic questions that are stated as propositions that favor reelection of the incumbent party.”

Se quiser saber quem, no próximo dia 20 de Janeiro, vai tomar posse como 44º Presidente dos EUA, só tem de encontrar “The 13 Keys To The White House”

As Chaves são afirmações que favorecem a reeleição do partido que ocupa a Casa Branca. Assim, se cinco ou menos destas afirmações em baixo forem falsas, o Partido Republicano (John McCain) vai ganhar. Se seis ou mais forem falsas, o candidato democrata Barack Obama será o próximo Presidente.



Aqui estão as “chaves” para a Casa Branca. Leia e faça as contas.

KEY 1 (Party Mandate): After the midterm elections, the incumbent party holds more seats in the U.S. House of Representatives than it did after the previous midterm elections.
KEY 2 (Contest): There is no serious contest for the incumbent-party nomination.
KEY 3 (Incumbency): The incumbent-party candidate is the sitting president.
KEY 4 (Third party): There is no significant third-party or independent campaign.
KEY 5 (Short-term economy): The economy is not in recession during the election campaign.
KEY 6 (Long-term economy): Real per-capita economic growth during the term equals or exceeds mean growth during the previous two terms.
KEY 7 (Policy change): The incumbent administration effects major changes in national policy.
KEY 8 (Social unrest): There is no sustained social unrest during the term.
KEY 9 (Scandal): The incumbent administration is untainted by major scandal.
KEY 10 (Foreign/military failure): The incumbent administration suffers no major failure in foreign or military affairs.
KEY 11 (Foreign/military success): The incumbent administration achieves a major success in foreign or military affairs.
KEY 12 (Incumbent charisma): The incumbent-party candidate is charismatic or a national hero.
KEY 13 (Challenger charisma): The challenging-party candidate is not charismatic or a national hero.
Luchtman refere oito respostas negativas, pelo que esta previsão aponta para a vitória do candidato democrata.

Agora que "já sabe" quem vai ganhar o lugar mais poderoso do mundo, a questão que se coloca é: que lições podemos tirar para outros Países? Responde Allan J. Lichtman “Although the Keys cannot be mechanically applied to other political systems, the big lessons of the Keys have worldwide implications: that leaders who gain power in democratic societies, should focus on governance, not politics. As democracy inevitably spreads across the globe, world leaders should take heed that those who serve their people well will likely succeed politically in free and fair elections. Those who fail the people will likely fail at the polls as well”

Em suma: a qualidade do governo incumbente (e a percepção sobre a mesma) é a grande Chave. Tudo o resto (“politics”, campanhas, etc), são detalhes importantes se o resultado das “chaves” não for inequívo. Já se intuia, agora parece haver certeza científica - pelo menos nos EUA. Resta-nos esperar que o Pedro Magalhães (que analisa no seu excelente blogue este e outros métodos de previsão) adapte estas chaves para Portugal. Ao rigor das sondagens da Católica, somar-se-ia a análise matemática da reconhecida e provervial sabedoria dos portugueses, expressa nas urnas, desde 1976.

José Socrates ou Manuela Ferreira Leite: quem vai deter as chaves de São Bento daqui a um ano e meio?

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A menina dança?

A menina dança?
Cyd Charisse dançou sempre e sempre que podia dançava. Dançou com maçãs e dançou com laranjas, que é como quem diz, com Gene Kelly e Fred Astaire. Dançou com eles nalguns filmes de porcelana que Hollywood fez em dias de inspiração e glória: Singin’ in the Rain, Bandwagon, Brigadoon, Silk Sotckings. Astaire e Kelly, os seus pares, tão bons os dois, tão geniais e incomparáveis, disse ela.
O marido, o segundo – durante 60 anos marido, até que a morte os separou – é que os dintinguia bem: se ela trazia nódoas negras nas pernas, era com o atlético Kelly que tinha dançado; se a pele vinha macia como meias de seda, o par tinha sido Astaire, o nefelibata. Pernas, pernas. Não as de Kelly ou Astaire: as de Cyd! Altas, longas, compridas. À chuva ou com bom tempo.

Cyd Charisse morreu há duas semanas. Levaram-na. A Senhora de Branco, a Ceifeira, quem seja. Os extra-terrestres, quem sabe. Foi a inescapável coda de um amabilíssimo pas de deux. Teve, antes, tantos adagios, tantas variações. Mas desiludam-se se esperam de mim um epitáfio, tardio ainda por cima. Gosto dela, gosto das pernas (já disse e volto a dizer), gosto da elegância com que quase não se move, saia branca plissada, a atrair Astaire para a escuridão do parque. E mais não digo, nem danço.

Se alguma coisa quero celebrar é um género, o musical, os filmes musicais. Tenho uma teoria. A única que tenho. Escassa, mas sincera. Os filmes musicais que Hollywood fez no século XX, na feroz década de 40, na inocente candura dos anos 50, deviam ser enviados para o Espaço. Em todos os formatos existentes e mesmo naqueles que ainda estão para ser inventados. Talvez alguma civilização superior, e superiormente extra-terrestre, os encontrasse e, vendo-os, olhasse para a humanidade que somos com a atómica partícula de misericórdia e simpatia que nos redimisse e nos aquecesse o coração.

Nada se compara à galanteria dos musicais de Hollywood. Até o mais desatento dos aliens se comoveria com o romance e a sedução destes filmes em que homens cantam e mulheres dançam. Ou vice-versa.

Assim esse humilde alien os visse e, dissesse-lhe a palavra prazer alguma coisa, descobriria que, quando cantamos, quando dançamos, somos gentis, amáveis, escapistas, optimistas e infinitamente generosos. Em que galáxia andará, hoje, esse “happy-self” com que Hollywood povoou um dia as nossas noites na esperança de que fossem melhores os nossos dias?


Escrito para o Pnet Homem. Fica também aqui

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terça-feira, 1 de julho de 2008

Brincadeirinha

1- Ontem num jornal desportivo. Qualquer coisa como: O Benfica, qualquer coisa, para CORPORIZAR, qualquer coisa, para implementar, qualquer coisa. Duas páginas à frente, as medidas de Miccoli: 1,68m para 66 kg. Está corporizado.

2 - O Ministro da Administração Interna mostrou-se veemente, que íam efectuar diligências, que íam tomar medidas, que íam fazer investigações, que íam colocar os meios necessários, que a autoridade íria agir. Fiquei satisfeita por saber que há disso tudo em Portugal.

3 - Pergunta para passar a Teoria Geral do Direito Civil "- Diga lá quais as diferenças entre nulidade e anulabilidade?" " - São quatro, Senhor Professor: A nulidade não produz efeitos jurídicos, pode ser arguida a todo o tempo, por qualquer interessado e é de conhecimento oficioso." "- Exemplos...", " - Agora não, Senhor Professor, que a anulabilidade é capaz de se ofender..."

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Os arquitectos de Portugal


A história não é minha. É contada no livro "Portugal Genial" de Carlos Coelho. Fica a história, que não sei se é verdadeira, nem interessa, e o tributo, que faço meu. Aos arquitectos de Portugal.


" Entre os mais geniais monumentos góticos da Europa destaca-se o nosso Mosteiro da Batalha. Quem conduziu tão arrojada obra foi Afonso Domingues. Conta-se que cegou no decorrer dos trabalhos, sendo então substituído pelo estrangeiro arq.º Houget.

Incapaz de compreender o nosso mestre e sem o consultar, Houget decidiu alterar a abóbada da Sala do Capítulo, pois afirmava a sua inexequibilidade. Pela sua mão a abóbada foi duas vezes erguida e por duas vezes caíu.

Confrontado com a cegueira técnica de um e a cegueira física de outro, D. João I voltou a optar pelo nosso mestre, restituindo-lhe o comando da obra no projecto original. A nova abóboda foi, finalmente, construída e o mestre Afonso Domingues fez questão de testar o risco do seu trabalho com a sua própria vida.

Para assistir a tamanha proeza veio El-Rei D. João I e para retirar as estacas foram designados prisioneiros castelhanos.

No fecho da abóbada permaneceu sentado, durante três dias, um dos nossos maiores mestre da Arquitectura de todos os tempos e daí saíu exausto, moribundo e afirmando, cego de convicção, " não caíu...não cairá!..."

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Confissões de um inculto

Alguém me ensinou, ou aprendi sozinho, a tentar apenas ser bom naquilo que faço, não tentar naquilo que não faço e admirar quem é bom nas coisas que faz. Serve isto para dizer que estou um pouco desorientado com as interessantes movimentações que este blog tem tido. Ele está seguramente mais culto do que há uns tempos, e isso não é preciso mostrar de tão evidente que é. Mais culto e mais interessante.

Fiquei uns tempos sem escrever, pois isto tem de ser alimentado com parcimónia por cada um de nós, uma regra que todos seguimos, pelos vistos, e agora apetecia-me contribuir com algo que encaixasse nessa nova onda e, em vez de me sair algo, só me apetece admirar os posts dos outros, isto é, admirar as coisas que são feitas por quem é bom no que faz. É a verdade, a pura das verdades, e isso para mim não é problema, antes pelo contrário.

Escrever sobre economia é uma das actividades menos cultas que há, por definição, pois trata-se da ciência do venal (a não ser que se seja demagogicamente interessante). O mais culto que consigo ser é quando escrevo sobre história e aí tenho traído este blog e se calhar ainda o vou trair mais se conseguir contribuir com umas achas mais aqui, acrescentado algo sobre esta ideia da história virtual, que pode levar a dizerem-se coisas interessantes mas também alguns disparates.

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Crónica de Beirute


“I love my country. I love to be back”, exclamava, radiante, uma libanesa de cinquenta e muitos anos, quanto o avião da Midle East Airlines aterrava em Beirute, na terça-feira à noite. Há doze milhões de libaneses na Diáspora e muitos regressam em massa pelo Verão e Natal. Os quatro milhões de habitantes deste pequeno e fascinante País são provavelmente o povo mais reseliente do mundo. “Resilience and progress” era aliás o tema da conferência onde fui orador. Com o Verão e expectativa de estabilidade, a Cidade está mais bonita. As lojas do centro reabriaram, com o levantamento das barracas do Hezbollah erigidas em Dezembro de 2006 em torno do Grand Serail, o palácio do governo. A crise então iniciada teve o seu climax no dia 17 de Maio último, com Beirute a acordar para o pesadelo de uma nova guerra civil. Há um mês, fechados no Sheraton de Doha, a convite do Emir do Qatar, os líderes dos partidos libaneses chegaram a um acordo, pondo fim a um impasse que durava há um ano e meio. No minuto seguinte à desmobilização da “cidade das tendas do Hezbollah, os comerciantes reabriram as lojas do centro. Com a reabertura do Parlamento e a eleição do novo Presidente da República, o Libano passou a ter uma aparência de estabilidade. A negociação das pastas no novo governo é complexa e o ambiente político é já de algum nervosismo. “Despite Doha, Lebanon’s politicians are back to their wicked ways”, escrevia sexta feira em editorial o influente Daily Star

Engarrafamentos à noite, na rua, em plano bairro cristão de Ashrafieh, tão bem fotografado pela Monocole. Criada pelo canadiano Tyler Brûlé (fundador da Wallpaper) a Monocole é provavelmente a mais interessante revista do mundo, e acaba de eleger Beirute como uma das “winning losers cities of the world”, juntamente com Genova, Buenos Aires, Istambul e Phnom Penh


“Há muito tempo que não via tanta vida, não é Sr Vasconcelos?”, dizia-me, com um sorriso, um dos empregados do Phoenicia, quando lhe pedi para trocar de quarto, incomodado pelo música dos casamentos (até Setembro, será um non-stop de casamentos, de tarde à noite!). Que contraste com os dias difíceis da crise de meados de Maio. O lendário Phoenicia fica de fronte para a baía, ao lado do Hotel San George, onde o ex-Primeiro-Ministro Harriri foi assassinado, num acontecimento marcante para a história recente do País do Cedro (na minha primeira visita, em Março de 2007, era ainda visível a enorme cratera, hoje substituída por um monumento). No dia 17 de Maio, toda esta zona estava controlada pelo Hezbollah.

Nessa data, o número de hóspedes diminuíu para 60. Foram todos concentrados na parte de cima do hotel e viveram-se dias difíceis. Um colega meu, Suíço, teve de ser evacuado de madrugada, e fez de carro, por entre vários "check points", a estrada de Damasco – por sinal lindissima – para daí voar para o Dubai.

“The West and the rest”

O ocidente desconhece o mundo árabe, a e a nossa percepção é muitas vezes feita de imagens e preconceitos. O Libano é provavelmente a melhor porta de entrada, a melhor hermenêutica desse mundo. Na era “Al Jaezzira”, é mais fácil perceber e entender esse mundo. Mas é preciso ir lá, não como turista, para ver, cheirar, sentir, compreender.



Os mercados têm destas coisas: na Virgin Megastore de Beirute encontram-se mais filmes e filmes mais interessantes que na Virgin Megastore de Picadilly. Lá havia “Caramel” e “Peresopolis”. Andava há muito há procura do lindíssimo Caramel, espicaçado pela crónica do Manuel Fonseca aqui no Geração de 60. E em Londres, prefiro o teatro ao cinema, pelo que não cheguei a ver o “Peresopolis”, o filme de animação vencedor de Cannes 2007, a autobiografia de Marjane Satrapi's, uma viagem à história do Irão, desde a revolução iraniada aos tempos actuais. Pois encontrei ambos na Virgin da Praça dos Mártires, ao uns metros da imponente Mesquita Mohammad al Amine.

Se ainda não estão, estes titulos vão estar rapidamente disponíveis por cá. Mas o que provavelmente não vão estar são outros filmes “locais” e documentários (“current affairs”) sobre o mundo árabe, que enchem prateleiras infindáveis naquela megastore. É o caso dos DVDs como “Arabs and Terrorism” ou “The War of Labanon”, um DVD que envolveu dois anos de fimagens com todos os intervenientes nos conflitos libaneses. Feitos, o primeiro, de forma voluntarista (“laptop diplomacy”) , o segundo, com os meios e o profissionalismo típicos da Al Jazeera. Ou ainda obras cinematográficas como “Divine Intervention”, de Ellia Suleiman, melhor filme estrangeiro de Cannes 2002 e “Bosta” (autocarro, em árabe), o grande êxito popular de Philippe Aractingi



A nossa televisão passa uma versão demasiado simples de um mundo complexo. “West” versus “the rest”, como diz Robert Fisk, esse repórter “bigger than life”, baseado em Beirute, correspondente do Independent no Médio Oriente e autor dos mais completos livros sobre a história contemporânea desta região. Para quem quiser começar recomendo “a biblia”, “The Great War of Civilization” que começa com as peripécias deliciossas da primeira entrevista feita a Bin Laden, nas montanhas afgãs, era este ainda um “Mujahadim” (“lutador pela liberdade”) .

Seria excelente se as TV’s portuguesas passassem este tipo de produções. Em matéria de conteúdos internacionais, temos o “60 minutos” e pouco mais. É certo que exibem óptimos documentários (“a excelência do jornalismo”, proclama Mário Crespo), mas convenhamos que é um versão limitada do mundo.

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