sexta-feira, 4 de julho de 2008

Gastar melhor

As surpresas que se encontram sobre o presente, mesmo em deambulações históricas: o mote do nosso Tribunal de Contas é "ajudar o Estado e a sociedade a gastar melhor". Há candidatos para mudar o "melhor" para "menos e melhor"?

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quinta-feira, 3 de julho de 2008

Ingrid está livre

A operação do exército colombiano que libertou Ingrid Betancourt e outros 14 reféns parece ter sido escrita por um prodigioso argumentista. A operação, relatada aqui e aqui, foi um exercício de imaginação e de astúcia. Os militares infiltraram as hostes terroristas da FARC e iludiram-nas, levando-as a entregar os reféns a um grupo de nove comandos especiais – transportados num helicóptero branco e vestindo t-shirts com a efígie do Che – que os terroristas acreditaram ser seus companheiros de armas.
Sem um tiro, quando o helicóptero se elevou no céu, os reféns estavam livres. E os 9 militares ainda conseguiram aprisionar o chefe do grupo.
Mais do que uma derrota militar, a poética desta acção passa também pela forma como a imagem das FARC sai vexada: o charme, a inteligência, a elegância, o ardil brilhante pertencem por inteiro ao exército, o grande herói deste filme. Aos revolucionários das FARC cabe agora o papel de vilões impotentes, ridículos e escarnecidos. É um pequeno pormenor, mas sabe quase tão bem como a genuína alegria do reencontro de Ingrid com a liberdade.


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Identidades Emprestadas


Um colega meu dinamarquês contou-me ontem como o seu filho de dez anos chorou durante uma hora depois da derrota de Portugal com a Alemanha. Teve de o consolar e explicar-lhe que no futebol nem sempre ganha o melhor… Não foi totalmente eficaz pois a criança chorou de novo durante a noite. Domingo passado, no entanto, voltou a ser feliz pois a "sua" Espanha ganhou. Depois da saída de palco de Portugal procurou outra identidade e desta vez foi recompensado.

Reconheço que também eu fui à procura de outras identidades: primeiro foi a Turquia e depois a Espanha (nada de especial contra a Alemanha, apenas gosto de futebol…). Mas o que é interessante nisto tudo é a preferência que temos em assistir a um jogo como adeptos e não como meros espectadores. Confesso que é raro o jogo em que não sinta necessidade de tomar partido por uma das equipas. Posso começar neutral mas passado pouco tempo já sou mais um adepto. E como o meu clube (o Sporting) me dá poucas oportunidades de ganhar cada vez mais vou ter de ser adepto "por interposta pessoa" (frequentemente, dependendo de onde jogam os ex-ídolos do meu clube: no fundo, o Manchester United é a filial do Sporting para as competições europeias…).

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quarta-feira, 2 de julho de 2008

O meu menino é de oiro...


Seja pela recente nomeação de dois dos nossos bloggers para importantes cargos do PSD, seja para não fazer concorrência desleal ao Manuel S. Fonseca, seja por qualquer outra razão que eu desconheça, o facto é que ninguém até agora aqui quis comentar o lançamento da biografia de José Sócrates, que há dias apareceu sob o espantoso título: Sócrates: o menino de ouro do PS. Pois bem, faço-o eu.
Para começar, julgo que pouco importa, de um ponto de vista político, a presença de Dias Loureiro no lançamento deste livro, da qual tanto se tem querido falar, na tentativa de sugerir um eventual bloco central de interesses. A presença de Dias Loureiro, porém, só pode explicar-se a um nível pessoal e a ideia de um bloco central que unisse o PS de Sócrates e o PSD de Ferreira Leite não passa de desinformação. E essa é uma conclusão a que se pode chegar a partir da questão da oportunidade do lançamento deste livro: Creio, com efeito, que a eleição de Manuela Ferreira Leite como presidente do principal partido da oposição obrigou a uma redefinição da estratégia eleitoral do PS, a qual passa, agora, em primeiro lugar, por uma viragem à esquerda e, em segundo lugar, por uma pessoalização da campanha, da qual o lançamento deste livro é justamente o primeiro momento.
Na verdade, perante a insuficiência, primeiro, e a incerteza, depois, de que se revestiu, nos últimos tempos, a liderança e o futuro do PSD, a estratégia do PS manteve-se também incerta, indecisa entre a esquerda e a direita. Eleita Ferreira Leite, porém, imediatamente começou Sócrates a falar para a esquerda, tecendo dentro do PS duras críticas ao PCP e ao Bloco de Esquerda. E isto porque percebeu que, com Ferreira Leite à frente do PSD, ele já não pode, como até há pouco tempo podia, namorar o eleitorado ao centro, agora mais inclinado para o PSD. Virou, por isso, à esquerda, e a todo o vapor, pois que é aí que está agora toda a sua esperança. E é nessa altura, justamente, que sai este livro, cujo principal significado, portanto, é o do início da campanha eleitoral por parte do PS, para a qual Sócrates tem já uma estratégia muito claramente definida.
Sobre essa estratégia, aliás, muito nos diz também já este livro, nomeadamente que a campanha do PS não irá mostrar ao País a obra feita pelo seu Governo, indo-se antes centrar na figura do seu Secretário-Geral. Até porque a única coisa palpável que o Governo tem para mostrar ao País é a redução dos números do deficit serviçalmente exibidos a Bruxelas, o que, por um lado, não anima os portugueses face à crise e, por outro, não é mais do que a continuação da tão propalada política de rigor e de contenção que, no entanto, foi iniciada pela então ministra das finanças Manuela Ferreira Leite.
Sócrates, deste modo, que desde o início do seu mandato ferreamente tentou não cometer os erros do seu antecessor – não comentando ou pouco falando sobre os casos políticos e pessoais (e foram muitos) que surgiram durante o seu Governo –, agora, encurralado por Ferreira Leite, vê-se obrigado a pessoalizar a sua campanha, ainda que, sempre focado no exemplo de Santana Lopes, evite o mote do menino guerreiro e nos proponha uma canção de embalar:

«O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino
Não façam caso
Que é pequenino
Não façam caso
Que é pequenino…»

A ver vamos, porém, quem ganha. Uma coisa, para já, é certa: as tarefas dos dois líderes estão clara e opostamente definidas: José Sócrates tem que entorpecer o PS e adormecer o País; Manuela Ferreira Leite tem que entusiamar o PSD e acordar Portugal.

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As Chaves de São Bento



A quem serão entregues as chaves da Casa Branca no dia 20 de Janeiro de 2009? E as de São Bento, daqui a um ano e meio?

“The Keys to the White House” são um sistema de previsão histórico criadao pelo Prof. Allan J. Lichtman, que olha retrospectivamente para o voto popular de cada eleição americana desde 1960. Partem do pressuposto que o resultado da eleição presidencial resulta sobretudo da performance do partido incumbente. Segundo Lichtman, “politics as usual by the challenging candidate will have no impact on results”.

Em The Keys to the White House (2005) Lichtman explica a génese das Chaves: “ I first developed the Keys system in 1981, in collaboration with Vladimir Keilis-Borok, a world renowned authority on the mathematics of prediction models. The system shows that it is possible to predict well in advance the outcomes of presidential elections from indicators that primarily track the performance and strength of the party holding the White House. Through the application of pattern recognition methodology to data for American presidential elections from 1860 (the first election with a four-year record of competition between Republicans and Democrats) we developed 13 diagnostic questions that are stated as propositions that favor reelection of the incumbent party.”

Se quiser saber quem, no próximo dia 20 de Janeiro, vai tomar posse como 44º Presidente dos EUA, só tem de encontrar “The 13 Keys To The White House”

As Chaves são afirmações que favorecem a reeleição do partido que ocupa a Casa Branca. Assim, se cinco ou menos destas afirmações em baixo forem falsas, o Partido Republicano (John McCain) vai ganhar. Se seis ou mais forem falsas, o candidato democrata Barack Obama será o próximo Presidente.



Aqui estão as “chaves” para a Casa Branca. Leia e faça as contas.

KEY 1 (Party Mandate): After the midterm elections, the incumbent party holds more seats in the U.S. House of Representatives than it did after the previous midterm elections.
KEY 2 (Contest): There is no serious contest for the incumbent-party nomination.
KEY 3 (Incumbency): The incumbent-party candidate is the sitting president.
KEY 4 (Third party): There is no significant third-party or independent campaign.
KEY 5 (Short-term economy): The economy is not in recession during the election campaign.
KEY 6 (Long-term economy): Real per-capita economic growth during the term equals or exceeds mean growth during the previous two terms.
KEY 7 (Policy change): The incumbent administration effects major changes in national policy.
KEY 8 (Social unrest): There is no sustained social unrest during the term.
KEY 9 (Scandal): The incumbent administration is untainted by major scandal.
KEY 10 (Foreign/military failure): The incumbent administration suffers no major failure in foreign or military affairs.
KEY 11 (Foreign/military success): The incumbent administration achieves a major success in foreign or military affairs.
KEY 12 (Incumbent charisma): The incumbent-party candidate is charismatic or a national hero.
KEY 13 (Challenger charisma): The challenging-party candidate is not charismatic or a national hero.
Luchtman refere oito respostas negativas, pelo que esta previsão aponta para a vitória do candidato democrata.

Agora que "já sabe" quem vai ganhar o lugar mais poderoso do mundo, a questão que se coloca é: que lições podemos tirar para outros Países? Responde Allan J. Lichtman “Although the Keys cannot be mechanically applied to other political systems, the big lessons of the Keys have worldwide implications: that leaders who gain power in democratic societies, should focus on governance, not politics. As democracy inevitably spreads across the globe, world leaders should take heed that those who serve their people well will likely succeed politically in free and fair elections. Those who fail the people will likely fail at the polls as well”

Em suma: a qualidade do governo incumbente (e a percepção sobre a mesma) é a grande Chave. Tudo o resto (“politics”, campanhas, etc), são detalhes importantes se o resultado das “chaves” não for inequívo. Já se intuia, agora parece haver certeza científica - pelo menos nos EUA. Resta-nos esperar que o Pedro Magalhães (que analisa no seu excelente blogue este e outros métodos de previsão) adapte estas chaves para Portugal. Ao rigor das sondagens da Católica, somar-se-ia a análise matemática da reconhecida e provervial sabedoria dos portugueses, expressa nas urnas, desde 1976.

José Socrates ou Manuela Ferreira Leite: quem vai deter as chaves de São Bento daqui a um ano e meio?

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A menina dança?

A menina dança?
Cyd Charisse dançou sempre e sempre que podia dançava. Dançou com maçãs e dançou com laranjas, que é como quem diz, com Gene Kelly e Fred Astaire. Dançou com eles nalguns filmes de porcelana que Hollywood fez em dias de inspiração e glória: Singin’ in the Rain, Bandwagon, Brigadoon, Silk Sotckings. Astaire e Kelly, os seus pares, tão bons os dois, tão geniais e incomparáveis, disse ela.
O marido, o segundo – durante 60 anos marido, até que a morte os separou – é que os dintinguia bem: se ela trazia nódoas negras nas pernas, era com o atlético Kelly que tinha dançado; se a pele vinha macia como meias de seda, o par tinha sido Astaire, o nefelibata. Pernas, pernas. Não as de Kelly ou Astaire: as de Cyd! Altas, longas, compridas. À chuva ou com bom tempo.

Cyd Charisse morreu há duas semanas. Levaram-na. A Senhora de Branco, a Ceifeira, quem seja. Os extra-terrestres, quem sabe. Foi a inescapável coda de um amabilíssimo pas de deux. Teve, antes, tantos adagios, tantas variações. Mas desiludam-se se esperam de mim um epitáfio, tardio ainda por cima. Gosto dela, gosto das pernas (já disse e volto a dizer), gosto da elegância com que quase não se move, saia branca plissada, a atrair Astaire para a escuridão do parque. E mais não digo, nem danço.

Se alguma coisa quero celebrar é um género, o musical, os filmes musicais. Tenho uma teoria. A única que tenho. Escassa, mas sincera. Os filmes musicais que Hollywood fez no século XX, na feroz década de 40, na inocente candura dos anos 50, deviam ser enviados para o Espaço. Em todos os formatos existentes e mesmo naqueles que ainda estão para ser inventados. Talvez alguma civilização superior, e superiormente extra-terrestre, os encontrasse e, vendo-os, olhasse para a humanidade que somos com a atómica partícula de misericórdia e simpatia que nos redimisse e nos aquecesse o coração.

Nada se compara à galanteria dos musicais de Hollywood. Até o mais desatento dos aliens se comoveria com o romance e a sedução destes filmes em que homens cantam e mulheres dançam. Ou vice-versa.

Assim esse humilde alien os visse e, dissesse-lhe a palavra prazer alguma coisa, descobriria que, quando cantamos, quando dançamos, somos gentis, amáveis, escapistas, optimistas e infinitamente generosos. Em que galáxia andará, hoje, esse “happy-self” com que Hollywood povoou um dia as nossas noites na esperança de que fossem melhores os nossos dias?


Escrito para o Pnet Homem. Fica também aqui

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terça-feira, 1 de julho de 2008

Brincadeirinha

1- Ontem num jornal desportivo. Qualquer coisa como: O Benfica, qualquer coisa, para CORPORIZAR, qualquer coisa, para implementar, qualquer coisa. Duas páginas à frente, as medidas de Miccoli: 1,68m para 66 kg. Está corporizado.

2 - O Ministro da Administração Interna mostrou-se veemente, que íam efectuar diligências, que íam tomar medidas, que íam fazer investigações, que íam colocar os meios necessários, que a autoridade íria agir. Fiquei satisfeita por saber que há disso tudo em Portugal.

3 - Pergunta para passar a Teoria Geral do Direito Civil "- Diga lá quais as diferenças entre nulidade e anulabilidade?" " - São quatro, Senhor Professor: A nulidade não produz efeitos jurídicos, pode ser arguida a todo o tempo, por qualquer interessado e é de conhecimento oficioso." "- Exemplos...", " - Agora não, Senhor Professor, que a anulabilidade é capaz de se ofender..."

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Os arquitectos de Portugal


A história não é minha. É contada no livro "Portugal Genial" de Carlos Coelho. Fica a história, que não sei se é verdadeira, nem interessa, e o tributo, que faço meu. Aos arquitectos de Portugal.


" Entre os mais geniais monumentos góticos da Europa destaca-se o nosso Mosteiro da Batalha. Quem conduziu tão arrojada obra foi Afonso Domingues. Conta-se que cegou no decorrer dos trabalhos, sendo então substituído pelo estrangeiro arq.º Houget.

Incapaz de compreender o nosso mestre e sem o consultar, Houget decidiu alterar a abóbada da Sala do Capítulo, pois afirmava a sua inexequibilidade. Pela sua mão a abóbada foi duas vezes erguida e por duas vezes caíu.

Confrontado com a cegueira técnica de um e a cegueira física de outro, D. João I voltou a optar pelo nosso mestre, restituindo-lhe o comando da obra no projecto original. A nova abóboda foi, finalmente, construída e o mestre Afonso Domingues fez questão de testar o risco do seu trabalho com a sua própria vida.

Para assistir a tamanha proeza veio El-Rei D. João I e para retirar as estacas foram designados prisioneiros castelhanos.

No fecho da abóbada permaneceu sentado, durante três dias, um dos nossos maiores mestre da Arquitectura de todos os tempos e daí saíu exausto, moribundo e afirmando, cego de convicção, " não caíu...não cairá!..."

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Confissões de um inculto

Alguém me ensinou, ou aprendi sozinho, a tentar apenas ser bom naquilo que faço, não tentar naquilo que não faço e admirar quem é bom nas coisas que faz. Serve isto para dizer que estou um pouco desorientado com as interessantes movimentações que este blog tem tido. Ele está seguramente mais culto do que há uns tempos, e isso não é preciso mostrar de tão evidente que é. Mais culto e mais interessante.

Fiquei uns tempos sem escrever, pois isto tem de ser alimentado com parcimónia por cada um de nós, uma regra que todos seguimos, pelos vistos, e agora apetecia-me contribuir com algo que encaixasse nessa nova onda e, em vez de me sair algo, só me apetece admirar os posts dos outros, isto é, admirar as coisas que são feitas por quem é bom no que faz. É a verdade, a pura das verdades, e isso para mim não é problema, antes pelo contrário.

Escrever sobre economia é uma das actividades menos cultas que há, por definição, pois trata-se da ciência do venal (a não ser que se seja demagogicamente interessante). O mais culto que consigo ser é quando escrevo sobre história e aí tenho traído este blog e se calhar ainda o vou trair mais se conseguir contribuir com umas achas mais aqui, acrescentado algo sobre esta ideia da história virtual, que pode levar a dizerem-se coisas interessantes mas também alguns disparates.

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Crónica de Beirute


“I love my country. I love to be back”, exclamava, radiante, uma libanesa de cinquenta e muitos anos, quanto o avião da Midle East Airlines aterrava em Beirute, na terça-feira à noite. Há doze milhões de libaneses na Diáspora e muitos regressam em massa pelo Verão e Natal. Os quatro milhões de habitantes deste pequeno e fascinante País são provavelmente o povo mais reseliente do mundo. “Resilience and progress” era aliás o tema da conferência onde fui orador. Com o Verão e expectativa de estabilidade, a Cidade está mais bonita. As lojas do centro reabriaram, com o levantamento das barracas do Hezbollah erigidas em Dezembro de 2006 em torno do Grand Serail, o palácio do governo. A crise então iniciada teve o seu climax no dia 17 de Maio último, com Beirute a acordar para o pesadelo de uma nova guerra civil. Há um mês, fechados no Sheraton de Doha, a convite do Emir do Qatar, os líderes dos partidos libaneses chegaram a um acordo, pondo fim a um impasse que durava há um ano e meio. No minuto seguinte à desmobilização da “cidade das tendas do Hezbollah, os comerciantes reabriram as lojas do centro. Com a reabertura do Parlamento e a eleição do novo Presidente da República, o Libano passou a ter uma aparência de estabilidade. A negociação das pastas no novo governo é complexa e o ambiente político é já de algum nervosismo. “Despite Doha, Lebanon’s politicians are back to their wicked ways”, escrevia sexta feira em editorial o influente Daily Star

Engarrafamentos à noite, na rua, em plano bairro cristão de Ashrafieh, tão bem fotografado pela Monocole. Criada pelo canadiano Tyler Brûlé (fundador da Wallpaper) a Monocole é provavelmente a mais interessante revista do mundo, e acaba de eleger Beirute como uma das “winning losers cities of the world”, juntamente com Genova, Buenos Aires, Istambul e Phnom Penh


“Há muito tempo que não via tanta vida, não é Sr Vasconcelos?”, dizia-me, com um sorriso, um dos empregados do Phoenicia, quando lhe pedi para trocar de quarto, incomodado pelo música dos casamentos (até Setembro, será um non-stop de casamentos, de tarde à noite!). Que contraste com os dias difíceis da crise de meados de Maio. O lendário Phoenicia fica de fronte para a baía, ao lado do Hotel San George, onde o ex-Primeiro-Ministro Harriri foi assassinado, num acontecimento marcante para a história recente do País do Cedro (na minha primeira visita, em Março de 2007, era ainda visível a enorme cratera, hoje substituída por um monumento). No dia 17 de Maio, toda esta zona estava controlada pelo Hezbollah.

Nessa data, o número de hóspedes diminuíu para 60. Foram todos concentrados na parte de cima do hotel e viveram-se dias difíceis. Um colega meu, Suíço, teve de ser evacuado de madrugada, e fez de carro, por entre vários "check points", a estrada de Damasco – por sinal lindissima – para daí voar para o Dubai.

“The West and the rest”

O ocidente desconhece o mundo árabe, a e a nossa percepção é muitas vezes feita de imagens e preconceitos. O Libano é provavelmente a melhor porta de entrada, a melhor hermenêutica desse mundo. Na era “Al Jaezzira”, é mais fácil perceber e entender esse mundo. Mas é preciso ir lá, não como turista, para ver, cheirar, sentir, compreender.



Os mercados têm destas coisas: na Virgin Megastore de Beirute encontram-se mais filmes e filmes mais interessantes que na Virgin Megastore de Picadilly. Lá havia “Caramel” e “Peresopolis”. Andava há muito há procura do lindíssimo Caramel, espicaçado pela crónica do Manuel Fonseca aqui no Geração de 60. E em Londres, prefiro o teatro ao cinema, pelo que não cheguei a ver o “Peresopolis”, o filme de animação vencedor de Cannes 2007, a autobiografia de Marjane Satrapi's, uma viagem à história do Irão, desde a revolução iraniada aos tempos actuais. Pois encontrei ambos na Virgin da Praça dos Mártires, ao uns metros da imponente Mesquita Mohammad al Amine.

Se ainda não estão, estes titulos vão estar rapidamente disponíveis por cá. Mas o que provavelmente não vão estar são outros filmes “locais” e documentários (“current affairs”) sobre o mundo árabe, que enchem prateleiras infindáveis naquela megastore. É o caso dos DVDs como “Arabs and Terrorism” ou “The War of Labanon”, um DVD que envolveu dois anos de fimagens com todos os intervenientes nos conflitos libaneses. Feitos, o primeiro, de forma voluntarista (“laptop diplomacy”) , o segundo, com os meios e o profissionalismo típicos da Al Jazeera. Ou ainda obras cinematográficas como “Divine Intervention”, de Ellia Suleiman, melhor filme estrangeiro de Cannes 2002 e “Bosta” (autocarro, em árabe), o grande êxito popular de Philippe Aractingi



A nossa televisão passa uma versão demasiado simples de um mundo complexo. “West” versus “the rest”, como diz Robert Fisk, esse repórter “bigger than life”, baseado em Beirute, correspondente do Independent no Médio Oriente e autor dos mais completos livros sobre a história contemporânea desta região. Para quem quiser começar recomendo “a biblia”, “The Great War of Civilization” que começa com as peripécias deliciossas da primeira entrevista feita a Bin Laden, nas montanhas afgãs, era este ainda um “Mujahadim” (“lutador pela liberdade”) .

Seria excelente se as TV’s portuguesas passassem este tipo de produções. Em matéria de conteúdos internacionais, temos o “60 minutos” e pouco mais. É certo que exibem óptimos documentários (“a excelência do jornalismo”, proclama Mário Crespo), mas convenhamos que é um versão limitada do mundo.

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segunda-feira, 30 de junho de 2008

Burocracia mórbida



Uma amiga precisou de pedir uma certidão de óbito de um irmão para poder fazer uma escritura. A coisa atrasou-se mais do que o previsto e quando finalmente lhe marcaram a dita escritura o notário informou-a que teria de voltar a pedir a certidão de óbito porque ... tinha sido ultrapassado o prazo de validade de seis meses.
Quem é que disse que vivemos num Estado Laico? A burocracia caseira já deu existência legal à ressurreição.

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Agora “odeio” eu (um bocadinho atrasado)





Disse alguém um dia que podemos deixar voar os pássaros do ódio sobre a nossa cabeça mas que não os devemos deixar fazer ninhos.

Concordo.

Ainda assim, e tardiamente face ao timing da “discussão” aqui na Geração de 60, junto uma singela lista de pequenos “ódios” de estimação.

São apenas 4 para não me alongar. Duas pessoas e dois fenómenos. Vamos a eles.

Começo pela literatura: o Saramago.

O Pedro Norton tem apenas uma embirração pelo homem. Eu não tenho qualquer embirração; pura e simplesmente não gosto.

Não gosto do que representou no passado, não gosto de quem ele gosta, não gosto do que diz e muito menos da forma como fala e escreve sobre Portugal e os portugueses. Plagiando o mesmo Norton trocava de bom grado este Nobel pelas cinzas do Jacques Brel.

Quanto ao resto, pena é que o país do Torga, do Virgílio ou da Sophia tenha um Nobel como este.

E da literatura prá bola: o Figo.

Apesar de Sportinguista ferrenho prefiro mil vezes o Rui Costa. Todo o profissionalismo do Figue (como lhe chamava um ex presidente), inteligência nos negócios e causas humanitárias não me fazem esquecer que não voltou a Portugal e ao Sporting para acabar a carreira. Terá grandes qualidades que dele podem fazer um óptimo amigo ou uma excelente companhia mas, como adepto, nada disso me importa. A verdade é que preferiu as liras e as luzes da ribalta ao clube que o viu nascer.

Espero não o ver um dia com a bandeira do Sporting junto ao coração – aplaudido - e a concorrer à presidência do clube. Seria uma triste sina.

Quanto ao resto, e como o próprio saberá, nunca foi nenhum Zidane.

E da bola prá moda: os chinelos (ou havaianas).

Primeiro ponto: os chinelos são coisa de senhora ou de criança.
Segundo ponto: senhora que usa chinelos arranja os pés.
Terceiro ponto: as havaianas são para levar para a praia (não para o shopping, para o cinema ou para os restaurantes).
Quarto ponto: a massificação dos chinelos representa a “brasileirização” do nosso país – o maior flagelo da era moderna de que será expoente máximo o malfadado acordo ortográfico.

Quanto ao resto, convém não esquecer que o país irmão é a Espanha com quem crescemos na mesma casa (a nossa península). O Brasil será, nesta analogia familiar, o país filho: um filho maior, mais rico, mais tudo, mas um filho ainda assim (e onde é que já se viu um pai ter de acordar com um filho sobre a forma como se fala?).

E da moda prós fenómenos sociais: a neve.

De entre um determinado tipo de fenómenos sociais onde todos “temos que ir” (o Rock in Rio é outro) – e de onde, por isso mesmo, se deve fugir a sete pés - tenho um particular horror pela neve.

“Este ano ainda não fui”, dizem em tom de sofrimento (uma espécie de cold turkey social) pessoas que há tempos atrás nunca tinham sequer subido a serra da Estrela. Não têm a noção de que não há “penado” nem óculos espelhados, nem bronzeado de última hora que lhes tire o ar desadequado que não podem deixar de ter a mais de mil metros de altitude. Quem, no registo inverso, não reparou ainda, por exemplo, nos cidadãos dos povos da Europa central e de leste que pululam as nossas praias? O tom da pele, a forma como chapinham à beira mar, as “sungas” - não encaixam… não há nada fazer.

Quanto ao resto, e para além do clube dos fumadores passivos (anunciado há meses atrás), declaro desde já ir constituir, também, o clube dos portugueses que nunca foram à neve (seremos poucos mas bons).

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domingo, 29 de junho de 2008

Francisco Suárez e a democracia directa...


Já há algum tempo que ando para aqui transcrever um pequeno texto do De legibus ac Deo legislatore de Francisco Suárez (Coimbra, 1612), com o qual possa, por um lado, solidarizar-me com a guerra do Pedro Norton contra o mito das democracias directas (como pode ver-se, por exemplo, aqui e aqui) e, por outro, lembrar que a construção das modernas democracias, melhor e antes do que em França, em Inglaterra ou na América, começou aqui, na nossa Península Ibérica.
No livro terceiro deste seu tratado, depois de ter estabelecido que a democracia é o único regime que se dá por direito natural (ainda que melhor e mais claramente o faça, um ano depois, na sua Defensio fidei catholicae adversus anglicanae sectae errores..., nomeadamente no livro III, cap. 1 e 2), diz Suárez:
«Deve entender-se, portanto, que, de acordo com a natureza das coisas, os homens, individualmente considerados, têm parcialmente, por assim dizer, a faculdade de constituir ou estabelecer uma comunidade perfeita (isto é, política); mas do próprio facto de a constituirem resulta em toda ela este poder (trata-se aqui do poder político, segundo o qual alguns homens têm autoridade sobre outros homens). No entanto, o direito natural não obriga nem a que o poder se exerça imediatamente pela totalidade dessa mesma comunidade, nem a que permaneça sempre nela (considerada deste modo, isto é, na sua totalidade). Por esta razão, porque do ponto de vista moral seria muitíssimo difícil exercê-lo desta maneira - com efeito, dar-se-ia uma confusão e morosidade infinitas se as leis se estabelecessem por meio do sufrágio de todos -, este poder é imediatamente determinado pelos homens nalgum dos preditos modos de governo (trata-se dos modos clássicos de governo estabelecidos desde Platão e Aristóteles: monarquia, aristocracia, democracia e decorrentes formas mistas), já que não podem imaginar-se quaisquer outros, como facilmente poderá ver quem o considerar.» (De legibus ac Deo legislatore, livro III, cap. 4, número 1)

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sábado, 28 de junho de 2008

Onde está a nossa manhã de quatro patas?


Passei esta semana alguns dias de férias – sem rede, nem computador, mas com saudades iguais às da Sofia Rocha. Um dia, a caminho da praia, como que acordando da meditação em que se embrenhara ao percorrer a longa ponte de madeira que nos levava até à praia, uma das minhas filhas, que tem 6 anos, perguntou-me:
– Pai: como é que nos mexemos?
Espantado, sob um sol escaldante e debaixo de uns quantos sacos, tentava ensaiar o princípio de uma resposta, quando ela me explicou a sua pergunta:
– Como é que as nossas pernas se mexem e andam? E os braços e a cabeça?
Definitivamente: não estava à espera. Comecei a pensar como responder-lhe. Lembrei-me que Descartes tinha dito umas coisas sobre o assunto. Mas nenhuma resposta me parecia capaz de satisfazer a sua pergunta. Seja: distinguir a alma e o corpo pareceu-me uma boa maneira para começar. Fiz-lhe uma ou duas perguntas que a pudessem levar a dar-se conta desse ânimo primordial que nos atravessa o corpo. Respondeu-me qualquer coisa também sem importância e continuou a andar e a pensar.
Chegados à praia perguntou-me:
– Ó pai, mas porque é que nós existimos? Porque é que há vida?
Enfiei os dois pés na areia e comecei a calcular a melhor forma de adequar as minhas fracas respostas à sua inteligência de criança. Rindo, repetiu:
– Sim, pai, porque é que há vida?
E saiu a correr com os outros em direcção ao mar, no qual, feliz, já se aventura sem braçadeiras.
Lembrei-me então da grega esfinge, que, em Tebas, à entrada da cidade, colocava aos homens o seu terrível enigma: «o que é o homem?» E de como o monstro com cabeça de mulher e corpo de leão alado matava os homens, quando não lhe respondiam, e se matava, quando o faziam. Percebi, uma vez mais, que o destino do homem é viver caminhando entre a identidade e a diferença, entre a pergunta e a resposta, sem nunca ter – como mais tarde nos foi dito – onde reclinar a cabeça.
O difícil, porém, está em abraçar este destino com o encanto próprio das crianças: fazer como Penélope, que tecia o mundo de dia para o desfazer de noite, mas fazê-lo como uma criança, que depois de questionar, espantada, o seu misterioso estar no mundo, logo se entrega, rindo, ao alegre desafio das ondas.

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Escutar às portas

Às vezes temos tanta pena que certas conversas não sejam nossas. Como esta entre a Madalena Lello e o João Luis Ferreira, que escutei de ouvido encostado à porta.
Como não me atrevo a entrar nos grandes temas, vou parasitar vergonhosamente dois “sub-plots” referidos pelo João Luís.
Diz o João que “As obras incompreendidas hoje, serão descobertas amanhã”. Com boa vontade, João, talvez aconteça num ou dois casos. Temo que, maioritariamente, as obras incompreendidas hoje continuem a ser incompreendidas amanhã. Milhares, mesmo milhões de obras, incompreendidas hoje, serão irremediavelmente esquecidas amanhã e ainda mais depois de amanhã. Por mais eufórico que tente ser, acabo sempre submerso por este cepticismo cartesiano.
O JLF também afirma que “A seu modo, a fotografia reflecte uma interpretação da realidade”, só que eu ainda não me consegui libertar da ideia de autonomia da “obra artística”. Como é que eu vejo a fotografia, o cinema, a literatura? Sempre como alguma coisa que se acrescenta à realidade.
Os livros, os edifícios, as fotografias, os filmes, não interpretam, somam-se: onde havia um, passa a a haver dois. Uma fotografia (como a de Volkmar Wentzel, acima, roubada aos "Sais") do Parque Eduardo VII não altera a radical solidão, ou a preciosa funcionalidade do Parque. Feita a fotografia, o Parque continua remetido à sua irredutível opacidade, tal como a fotografia se passa a oferecer, sedutora, como uma realidade que dispensa, ingrata, o Parque original.

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A cidade ideal, o arquitecto, a fotografia e o peão

Madalena,

Decidi trazer para a G60 o nosso diálogo no saisdeprata-e-pixels. Post com post se paga!

A sua posição é a de ver a realidade através da fotografia e, por isso, o olho atrás da lente descodifica uma paixão do real retirado do seu movimento, fazendo do momento algo que permanece como substituição do real. Essa permanência que a fotografia é não é bem uma oposição ao tempo mas uma espécie de “instante” subtraído, algo retirado do movimento, um momento quase sem duração, mas que, enquanto registo, dá à posteridade uma imagem que se aproxima de alguma coisa que, alguma coisa, terá sido. O viajante, aquele que passa, vai registando na sua memória uma sinestesia que agrega num mesmo, num todo, imagens, sons, cheiros e toques (o vento, por exemplo) que na fotografia se procuram invocar apenas através da imagem. A própria sensação da tridimensionalidade do espaço se perde no registo fotográfico. Quantas vezes tiramos fotografias imbuídos de uma sensação que na realidade não se traduz depois na imagem conseguida. Mas esta sensação de ficar aquém do que se pretendeu realizar só a sente, ou só dela realmente se apercebe quem ensaiou esse risco da representação e vê a distância entre o que imaginou e o resultado. A arte, porém, está nos resultados e não na inépcia.

Da arte o que fica, então, independentemente dos desejos dos autores, é uma nova realidade, qual seja essa, que aos olhos e à crítica dos espectadores, se mostra sem aquilo que podia ter sido mas apenas com aquilo que é. Só que essa nova realidade, essa segunda natureza que aí está, adquire uma vida própria, induz novos caminhos que o próprio autor não pôde supor, mas que uma intuição e uma crença o levaram a insistir e a fazer. É disso que o mundo está feito, das tentativas do homem em criar e controlar uma realidade que o excede incessantemente e de que ele é um veículo às vezes consciente, outras vezes imprevisto, mas sempre comprometido. Para a história fica quase sempre aquilo que se diz daquilo que se fez. O poder discursivo nas obras é feito através daqueles que as explicitam quer as compreendam quer não as compreendam. As obras incompreendidas hoje, serão descobertas amanhã. Mas isso aos autores não deve, nem pode, interessar muito. O discurso à volta das obras é sempre o discurso de um ponto de vista, e todos os discursos sobre o que se apresenta têm uma legitimidade embora não coincidam com o ponto de vista de Sirius, aquele ponto de vista que por ser tão distante se tornasse num observador desinteressado, uma espécie de semi-deus cujo comprometimento com o mundo fosse quase nulo. Observador comprometido, o crítico, é como o fotografo, traduz em novos moldes a realidade que se lhe apresenta. E traduzindo-a, também a recria. Hegel afirmava que uma tradução era sempre melhor que um original, porque na tradução estava também o pensamento do tradutor. Mas para aceitar isto é preciso aceitar que o pensamento é movente e não um sistema fechado e estático de que cada um julga possuir uma parte singular e pessoal.

A seu modo a fotografia reflecte uma interpretação da realidade. A partir do modo próprio de registar uma encenação — espontânea ou fabricada — gera uma visão da realidade que não se deve pretender uma cópia porque o simples registo exige uma intencionalidade que a retira da pretensão inócua de ser apenas o que a própria realidade é. A fotografia é, por isso, tão subjectiva na realidade que cria, como a mente de um caminhante que passa pelo mundo ou pelo caos, registando na sua memória pontos de vista e outras sensações que lhe permitem reconstituir uma realidade que, uma vez ausente (depois de passar) é uma realidade imaginada. Apesar do aspecto físico ou mecânico do acto fotográfico, a realidade expressa ou traduzida ou recriada é sempre uma realidade imaginada.

O movimento do caminhante, do passageiro, do transeunte, é isso mesmo, movimento. E move-se entre espaços organizados ou caóticos, naturais ou artificiais, fáceis ou difíceis. Por definição, abusiva certamente, mas permitam-me o abuso, o mundo é a casa. E como o mundo é a organização sobre o caos, a casa opõe-se ao caos. A casa não é só o abrigo. Estar em casa pode ser estar numa cidade, pode ser estar num país, numa cultura, numa civilização, ou apenas num jardim (que saudades!). O espaço organizado é organizado em função de finalidades que realizem esta sensação de estar em casa, isto é, de estar num lugar onde há uma identidade entre o eu e o que está à minha volta. O mundo é um espelho do homem, é feito à sua imagem e semelhança e, por isso, quando o homem procura o que mais lhe convém procura o que é ideal para si. O que é ideal para si é alguma coisa que não estando imediatamente realizada transmite a sensação (pode ser uma imagem como diz a Madalena) ou a ideia dessa presença ideal. Não há fórmulas para criar a Beleza. Há dados objectivos como a importância da arquitectura durar e resistir (firmitas) e atingir alguma utilidade pela adequação às suas finalidades funcionais (utilitas), mas a Beleza (venustas) essa depende da inspiração e do talento que não nos é possível prever ou receitar. Ora, as duas primeiras categorias dependem do estudo, da inteligência e da dedicação, é como quem aprende a tocar um instrumento musical. Se depois com esses conhecimentos é possível compor uma melodia isso já não depende do esforço e da vontade. Depende talvez daquele excesso que referimos atrás como sendo o que trespassa a nossa capacidade de controlar a realidade e a povoa de novas e imprevisíveis direcções.

Ao contrário do fotógrafo, o arquitecto, não pode arquitectar a fotografia. O campo de actuação do arquitecto, se bem que resulte também, no seu processo de concepção, de uma linha crítica, não parte de uma representação do real, ou seja, não é uma tradução do real, mas parte de uma representação do ideal e, por isso, como dizia Óscar Wilde (Intentions) a Arquitectura, como a Música, são as únicas artes verdadeiramente abstractas. Ora, a abstracção é não só feita de formas que não se traduzem em evidências naturais mas na invisível constituição de tudo o que tem um organon. A abstracção é o que se extrai do concreto não sendo nenhum dos concretos lhes subjaz como sistema de relações matriciais. A esse sistema de relações se chama, na sua materialização gráfica e volumétrica, desenho. O desenho que se esconde é o sistema de relações que identificou as figuras e os corpos que pela sua notabilidade e correlatividade com os números abriram as portas do mundo inteligível, do mundo das harmonias que criaram a arquitectura e a música, mas que também se esconde na métrica da poesia, no equilíbrio da escultura ou na tensão da pintura. Enquanto arte a arquitectura não tem um mundo para traduzir tem um ideal para representar. Esse ideal não se realiza em formas orgânicas naturais mas sim em formas inteligíveis compostas de modo a realizar um equilíbrio e a exprimir relações entre si proporcionais. A ideia de proporção é talvez aquela que anda mais arredia do desenho contemporâneo, e a sua secundarização é o sinal que denuncia os propósitos exclusivamente funcionais e utilitários que muitos não gostamos de ver na arquitectura por serem um sinal da sua degradação. A ausência de proporção na composição torna o “objecto” arquitectónico indeterminado e essa indeterminação não é inteligível. A inteligibilidade está na proporção. O que não tem proporção não é pensável. Na música isso é ainda mais evidente, porque pela audição somos menos traídos do que pelas imagens.

A régua e o esquadro, se servem para organizar as figuras e os volumes de que os edifícios são compostos, não são como a câmara fotográfica uma máquina. Não limitam as possibilidades e opções, enquanto instrumentos, do desenho. Também já vimos que se a régua e o esquadro fossem limitadores do desenho dos edifícios ou do desenho das cidades seria porque aos arquitectos preocuparia não a representação do ideal, mas fazer vingar alguma tese que coisificasse o homem nalgum ismo que não resiste à passagem de dois lustres. Vimos, também, que a arquitectura é estática e não dinâmica, sofre mudanças com a luz, mas permanece imóvel por mais que os arquitectos tentem exprima-la como movimento. Vimos ainda que a arquitectura e o urbanismo são a casa do homem e o seu espelho pelo que não é lícito partir o espelho ou fazê-lo espelhar apenas um aspecto do que o homem é porque ele nunca é só um aspecto. Daí que a arquitectura espelhe uma totalidade e que cada um ao passar por ela possa reter isto ou aquilo sem nunca fazer dela isto ou aquilo. E, ao arquitecto, chamado a responder perante a cidade e perante a história, a sua resposta deverá ser o mais possível despojada de uma tendência crítica do real , o qual está presente nos problemas que lhe são postos pelo lugar, pela localização, pelo programa, pela construção, pela economia ou pela legislação e encontrar a proporção, o equilíbrio e a coerência que a vocação, a intuição e a razão de uma visão do ideal lhe permitir conceber. À arquitectura não podem ser exigidas as mesmas categorias da fotografia. A arquitectura e o urbanismo são presenças totais como ideia e como experiência. Noutras artes e na fotografia não predomina o estar mas um ponto de vista. Não pode o arquitecto, embora isso até seja, ingenuamente, o seu discurso actual, fazer a arquitectura a partir de uma ideia de promenade. A promenade é a liberdade de cada um de olhar o mundo e interpretar os seus caminhos a partir das suas experiências físicas e psicológicas. O arquitecto, quer queira quer não queira procede como um visionário que faz o mundo dos humanos e lhes constrói a base das suas memórias. Se não gostamos do mundo que criámos é outro problema e tem outras razões que não o da essência da arquitectura. O que não se pode pretender é que o arquitecto colija as infindáveis perspectivas pessoais para responder a todas elas e assim obter o que seria um consenso. Não se pode esperar isso da arquitectura. Sobretudo não esperemos que a arquitectura não seja um espelho do que é o mundo, um espelho dos homens. O que a faz uma arte tão inquietante é ser reflexo e materialização do somos e os nossos enganos e ilusões ficarem tão evidentemente expressos.

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Dois mundos














Suprema ironia: hoje, a CGTP organizou uma manifestação contra a política laboral do governo. Foi no Largo Camões, em Lisboa. A dois passos, no Palácio de Santa Catarina, filmavam-se cenas da "Vida Privada de Salazar".
Nem o cinéfilo Salazar deu pelos manifestantes, nem os manifestantes por Salazar. Mesmo que sejam paralelos "amigos do povo", há mundos que nunca se encontram.

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Praia sem areia


Praia sem areia. Chegar, pousar, esticar na espreguiçadeira, ir tomar banho de mar, água a 24.º, enxugar, ir almoçar na esplanada, ler, ler, ler. Olhar o Reid´s em frente, um dos hotéis mais bonitos do mundo. Penha de França Mar, a cinco minutos a pé do Funchal. E uma felicidade imensa de Abril a Outubro. Deve ser do calor, porque há dias que não consigo pensar noutra coisa.

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quinta-feira, 26 de junho de 2008

Se Me Olvidó Que Te Olvidé

É quase meia-noite e imagino que a velha e grande Rússia esteja a enforcar mágoas num lençol de vodka. Sugiro-lhes, aos súbditos de Putin e Abramovic, esta cansada ode ao esquecimento. Um bolero apócrifo com matizes de flamenco. Ou não fossemos, logo hoje, só hoje, todos espanhóis



Bebo Valdez e Diego Cigala, Se Me Olvidó Que Me Olvidé

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Da Visão: Mitos Democráticos

1 – Não vou perder tempo a tentar perceber o que é que os irlandeses «realmente» queriam dizer com o seu «não» ao tratado de Lisboa. Até prova em contrário, «não» quer dizer «não», ponto final parágrafo.
Dito isto, vale a pena fazer uma reflexão sobre o caminho que trouxe a Europa até este beco sem saída. Tenho para mim muito claro que um dos grandes mitos das nossas sociedades democráticas modernas é a ideia de que «mais democracia» e sobretudo «democracia mais directa» são sinónimos de «melhor democracia». Triste mito. Santa ignorância. Não é por acaso que os «founding fathers» americanos (que, goste-se ou não, são os pais fundadores de todas as modernas democracias liberais) rejeitaram explicitamente esta interpretação populista do ideal democrático. Muito melhor do que a maioria dos líderes europeus de hoje, sabiam – para citar uma expressão feliz de Bruce Ackerman e James Fishkin – que os referendos são um «método indigno para uma democracia moderna». Muito melhor do que os modernos arautos do «directismo» de pacotilha, sabiam entender a importância de casar o valor da igualdade política (em que se baseia a democracia) com as virtudes da reflexão, da ponderação, da deliberação, da negociação e da construção de consensos (em que se baseiam os regimes representativos) sem as quais não haverá nunca, como é penosamente óbvio, processo de construção europeia que resista.
Acontece que o «directismo» é um mito conveniente, alimentado pelo discurso politicamente correcto em voga e sobretudo pela tibieza de muitos dos nossos eleitos que, tendo toda a legitimidade democrática para decidir, se demitem de fazê-lo, e se escondem por detrás da farsa e da miragem referendárias. Acontece que é preciso coragem política para assumir que nas democracias representativas modernas o povo escolhe quem deve decidir e não tem necessariamente de participar no «problem solving» concreto. E como coragem política não é propriamente uma característica definidora da maioria dos líderes europeus de hoje, o mais provável é que os vejamos entretidos por mais uns tempos a tentar interpretar o que, «no fundo no fundo», queriam os irlandeses realmente dizer. E como ninguém se vai entender sobre o assunto, o mais certo é voltarem a perguntar-lhes até os pobres coitados acertarem na resposta conveniente.
2 – Outro mito tão persistente quanto pernicioso dos nossos tempos é a ideia que a democracia está suficientemente consolidada nos países ocidentais para que exista um real perigo do seu retrocesso. Em Portugal este mito é sofisticado com a ideia conveniente de que «a Europa não permitiria que o país regressasse aos tempos da outra senhora». Ora não há nada mais perigoso para a Democracia do que a ideia de que não é preciso zelar por ela todos os dias. E se é verdade que é difícil imaginar na Europa do século XXI, uma intentona militar liderada por um general de óculos escuros e bigode farfalhudo, já não será tão descabido discorrer sobre os perigos que o populismo e os excessos de «directismo» democrático podem representar para os regimes demo-liberais modernos. Não havia para aí um filósofo velhinho que falava da sucessão cíclica das formas de governo?

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