Gastar melhor
As surpresas que se encontram sobre o presente, mesmo em deambulações históricas: o mote do nosso Tribunal de Contas é "ajudar o Estado e a sociedade a gastar melhor". Há candidatos para mudar o "melhor" para "menos e melhor"?
As surpresas que se encontram sobre o presente, mesmo em deambulações históricas: o mote do nosso Tribunal de Contas é "ajudar o Estado e a sociedade a gastar melhor". Há candidatos para mudar o "melhor" para "menos e melhor"?
A operação do exército colombiano que libertou Ingrid Betancourt e outros 14 reféns parece ter sido escrita por um prodigioso argumentista. A operação, relatada aqui e aqui, foi um exercício de imaginação e de astúcia. Os militares infiltraram as hostes terroristas da FARC e iludiram-nas, levando-as a entregar os reféns a um grupo de nove comandos especiais – transportados num helicóptero branco e vestindo t-shirts com a efígie do Che – que os terroristas acreditaram ser seus companheiros de armas.

Seja pela recente nomeação de dois dos nossos bloggers para importantes cargos do PSD, seja para não fazer concorrência desleal ao Manuel S. Fonseca, seja por qualquer outra razão que eu desconheça, o facto é que ninguém até agora aqui quis comentar o lançamento da biografia de José Sócrates, que há dias apareceu sob o espantoso título: Sócrates: o menino de ouro do PS. Pois bem, faço-o eu.
Para começar, julgo que pouco importa, de um ponto de vista político, a presença de Dias Loureiro no lançamento deste livro, da qual tanto se tem querido falar, na tentativa de sugerir um eventual bloco central de interesses. A presença de Dias Loureiro, porém, só pode explicar-se a um nível pessoal e a ideia de um bloco central que unisse o PS de Sócrates e o PSD de Ferreira Leite não passa de desinformação. E essa é uma conclusão a que se pode chegar a partir da questão da oportunidade do lançamento deste livro: Creio, com efeito, que a eleição de Manuela Ferreira Leite como presidente do principal partido da oposição obrigou a uma redefinição da estratégia eleitoral do PS, a qual passa, agora, em primeiro lugar, por uma viragem à esquerda e, em segundo lugar, por uma pessoalização da campanha, da qual o lançamento deste livro é justamente o primeiro momento.
Na verdade, perante a insuficiência, primeiro, e a incerteza, depois, de que se revestiu, nos últimos tempos, a liderança e o futuro do PSD, a estratégia do PS manteve-se também incerta, indecisa entre a esquerda e a direita. Eleita Ferreira Leite, porém, imediatamente começou Sócrates a falar para a esquerda, tecendo dentro do PS duras críticas ao PCP e ao Bloco de Esquerda. E isto porque percebeu que, com Ferreira Leite à frente do PSD, ele já não pode, como até há pouco tempo podia, namorar o eleitorado ao centro, agora mais inclinado para o PSD. Virou, por isso, à esquerda, e a todo o vapor, pois que é aí que está agora toda a sua esperança. E é nessa altura, justamente, que sai este livro, cujo principal significado, portanto, é o do início da campanha eleitoral por parte do PS, para a qual Sócrates tem já uma estratégia muito claramente definida.
Sobre essa estratégia, aliás, muito nos diz também já este livro, nomeadamente que a campanha do PS não irá mostrar ao País a obra feita pelo seu Governo, indo-se antes centrar na figura do seu Secretário-Geral. Até porque a única coisa palpável que o Governo tem para mostrar ao País é a redução dos números do deficit serviçalmente exibidos a Bruxelas, o que, por um lado, não anima os portugueses face à crise e, por outro, não é mais do que a continuação da tão propalada política de rigor e de contenção que, no entanto, foi iniciada pela então ministra das finanças Manuela Ferreira Leite.
Sócrates, deste modo, que desde o início do seu mandato ferreamente tentou não cometer os erros do seu antecessor – não comentando ou pouco falando sobre os casos políticos e pessoais (e foram muitos) que surgiram durante o seu Governo –, agora, encurralado por Ferreira Leite, vê-se obrigado a pessoalizar a sua campanha, ainda que, sempre focado no exemplo de Santana Lopes, evite o mote do menino guerreiro e nos proponha uma canção de embalar:
«O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino
Não façam caso
Que é pequenino
Não façam caso
Que é pequenino…»
A ver vamos, porém, quem ganha. Uma coisa, para já, é certa: as tarefas dos dois líderes estão clara e opostamente definidas: José Sócrates tem que entorpecer o PS e adormecer o País; Manuela Ferreira Leite tem que entusiamar o PSD e acordar Portugal.

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Uma amiga precisou de pedir uma certidão de óbito de um irmão para poder fazer uma escritura. A coisa atrasou-se mais do que o previsto e quando finalmente lhe marcaram a dita escritura o notário informou-a que teria de voltar a pedir a certidão de óbito porque ... tinha sido ultrapassado o prazo de validade de seis meses.
Quem é que disse que vivemos num Estado Laico? A burocracia caseira já deu existência legal à ressurreição.
Disse alguém um dia que podemos deixar voar os pássaros do ódio sobre a nossa cabeça mas que não os devemos deixar fazer ninhos.
Concordo.
Ainda assim, e tardiamente face ao timing da “discussão” aqui na Geração de 60, junto uma singela lista de pequenos “ódios” de estimação.
São apenas 4 para não me alongar. Duas pessoas e dois fenómenos. Vamos a eles.
Começo pela literatura: o Saramago.
O Pedro Norton tem apenas uma embirração pelo homem. Eu não tenho qualquer embirração; pura e simplesmente não gosto.
Não gosto do que representou no passado, não gosto de quem ele gosta, não gosto do que diz e muito menos da forma como fala e escreve sobre Portugal e os portugueses. Plagiando o mesmo Norton trocava de bom grado este Nobel pelas cinzas do Jacques Brel.
Quanto ao resto, pena é que o país do Torga, do Virgílio ou da Sophia tenha um Nobel como este.
E da literatura prá bola: o Figo.
Apesar de Sportinguista ferrenho prefiro mil vezes o Rui Costa. Todo o profissionalismo do Figue (como lhe chamava um ex presidente), inteligência nos negócios e causas humanitárias não me fazem esquecer que não voltou a Portugal e ao Sporting para acabar a carreira. Terá grandes qualidades que dele podem fazer um óptimo amigo ou uma excelente companhia mas, como adepto, nada disso me importa. A verdade é que preferiu as liras e as luzes da ribalta ao clube que o viu nascer.
Espero não o ver um dia com a bandeira do Sporting junto ao coração – aplaudido - e a concorrer à presidência do clube. Seria uma triste sina.
Quanto ao resto, e como o próprio saberá, nunca foi nenhum Zidane.
E da bola prá moda: os chinelos (ou havaianas).
Primeiro ponto: os chinelos são coisa de senhora ou de criança.
Segundo ponto: senhora que usa chinelos arranja os pés.
Terceiro ponto: as havaianas são para levar para a praia (não para o shopping, para o cinema ou para os restaurantes).
Quarto ponto: a massificação dos chinelos representa a “brasileirização” do nosso país – o maior flagelo da era moderna de que será expoente máximo o malfadado acordo ortográfico.
Quanto ao resto, convém não esquecer que o país irmão é a Espanha com quem crescemos na mesma casa (a nossa península). O Brasil será, nesta analogia familiar, o país filho: um filho maior, mais rico, mais tudo, mas um filho ainda assim (e onde é que já se viu um pai ter de acordar com um filho sobre a forma como se fala?).
E da moda prós fenómenos sociais: a neve.
De entre um determinado tipo de fenómenos sociais onde todos “temos que ir” (o Rock in Rio é outro) – e de onde, por isso mesmo, se deve fugir a sete pés - tenho um particular horror pela neve.
“Este ano ainda não fui”, dizem em tom de sofrimento (uma espécie de cold turkey social) pessoas que há tempos atrás nunca tinham sequer subido a serra da Estrela. Não têm a noção de que não há “penado” nem óculos espelhados, nem bronzeado de última hora que lhes tire o ar desadequado que não podem deixar de ter a mais de mil metros de altitude. Quem, no registo inverso, não reparou ainda, por exemplo, nos cidadãos dos povos da Europa central e de leste que pululam as nossas praias? O tom da pele, a forma como chapinham à beira mar, as “sungas” - não encaixam… não há nada fazer.
Quanto ao resto, e para além do clube dos fumadores passivos (anunciado há meses atrás), declaro desde já ir constituir, também, o clube dos portugueses que nunca foram à neve (seremos poucos mas bons).

Já há algum tempo que ando para aqui transcrever um pequeno texto do De legibus ac Deo legislatore de Francisco Suárez (Coimbra, 1612), com o qual possa, por um lado, solidarizar-me com a guerra do Pedro Norton contra o mito das democracias directas (como pode ver-se, por exemplo, aqui e aqui) e, por outro, lembrar que a construção das modernas democracias, melhor e antes do que em França, em Inglaterra ou na América, começou aqui, na nossa Península Ibérica.
No livro terceiro deste seu tratado, depois de ter estabelecido que a democracia é o único regime que se dá por direito natural (ainda que melhor e mais claramente o faça, um ano depois, na sua Defensio fidei catholicae adversus anglicanae sectae errores..., nomeadamente no livro III, cap. 1 e 2), diz Suárez:
«Deve entender-se, portanto, que, de acordo com a natureza das coisas, os homens, individualmente considerados, têm parcialmente, por assim dizer, a faculdade de constituir ou estabelecer uma comunidade perfeita (isto é, política); mas do próprio facto de a constituirem resulta em toda ela este poder (trata-se aqui do poder político, segundo o qual alguns homens têm autoridade sobre outros homens). No entanto, o direito natural não obriga nem a que o poder se exerça imediatamente pela totalidade dessa mesma comunidade, nem a que permaneça sempre nela (considerada deste modo, isto é, na sua totalidade). Por esta razão, porque do ponto de vista moral seria muitíssimo difícil exercê-lo desta maneira - com efeito, dar-se-ia uma confusão e morosidade infinitas se as leis se estabelecessem por meio do sufrágio de todos -, este poder é imediatamente determinado pelos homens nalgum dos preditos modos de governo (trata-se dos modos clássicos de governo estabelecidos desde Platão e Aristóteles: monarquia, aristocracia, democracia e decorrentes formas mistas), já que não podem imaginar-se quaisquer outros, como facilmente poderá ver quem o considerar.» (De legibus ac Deo legislatore, livro III, cap. 4, número 1)

Passei esta semana alguns dias de férias – sem rede, nem computador, mas com saudades iguais às da Sofia Rocha. Um dia, a caminho da praia, como que acordando da meditação em que se embrenhara ao percorrer a longa ponte de madeira que nos levava até à praia, uma das minhas filhas, que tem 6 anos, perguntou-me:
– Pai: como é que nos mexemos?
Espantado, sob um sol escaldante e debaixo de uns quantos sacos, tentava ensaiar o princípio de uma resposta, quando ela me explicou a sua pergunta:
– Como é que as nossas pernas se mexem e andam? E os braços e a cabeça?
Definitivamente: não estava à espera. Comecei a pensar como responder-lhe. Lembrei-me que Descartes tinha dito umas coisas sobre o assunto. Mas nenhuma resposta me parecia capaz de satisfazer a sua pergunta. Seja: distinguir a alma e o corpo pareceu-me uma boa maneira para começar. Fiz-lhe uma ou duas perguntas que a pudessem levar a dar-se conta desse ânimo primordial que nos atravessa o corpo. Respondeu-me qualquer coisa também sem importância e continuou a andar e a pensar.
Chegados à praia perguntou-me:
– Ó pai, mas porque é que nós existimos? Porque é que há vida?
Enfiei os dois pés na areia e comecei a calcular a melhor forma de adequar as minhas fracas respostas à sua inteligência de criança. Rindo, repetiu:
– Sim, pai, porque é que há vida?
E saiu a correr com os outros em direcção ao mar, no qual, feliz, já se aventura sem braçadeiras.
Lembrei-me então da grega esfinge, que, em Tebas, à entrada da cidade, colocava aos homens o seu terrível enigma: «o que é o homem?» E de como o monstro com cabeça de mulher e corpo de leão alado matava os homens, quando não lhe respondiam, e se matava, quando o faziam. Percebi, uma vez mais, que o destino do homem é viver caminhando entre a identidade e a diferença, entre a pergunta e a resposta, sem nunca ter – como mais tarde nos foi dito – onde reclinar a cabeça.
O difícil, porém, está em abraçar este destino com o encanto próprio das crianças: fazer como Penélope, que tecia o mundo de dia para o desfazer de noite, mas fazê-lo como uma criança, que depois de questionar, espantada, o seu misterioso estar no mundo, logo se entrega, rindo, ao alegre desafio das ondas.
Às vezes temos tanta pena que certas conversas não sejam nossas. Como esta entre a Madalena Lello e o João Luis Ferreira, que escutei de ouvido encostado à porta.
1 – Não vou perder tempo a tentar perceber o que é que os irlandeses «realmente» queriam dizer com o seu «não» ao tratado de Lisboa. Até prova em contrário, «não» quer dizer «não», ponto final parágrafo.
Dito isto, vale a pena fazer uma reflexão sobre o caminho que trouxe a Europa até este beco sem saída. Tenho para mim muito claro que um dos grandes mitos das nossas sociedades democráticas modernas é a ideia de que «mais democracia» e sobretudo «democracia mais directa» são sinónimos de «melhor democracia». Triste mito. Santa ignorância. Não é por acaso que os «founding fathers» americanos (que, goste-se ou não, são os pais fundadores de todas as modernas democracias liberais) rejeitaram explicitamente esta interpretação populista do ideal democrático. Muito melhor do que a maioria dos líderes europeus de hoje, sabiam – para citar uma expressão feliz de Bruce Ackerman e James Fishkin – que os referendos são um «método indigno para uma democracia moderna». Muito melhor do que os modernos arautos do «directismo» de pacotilha, sabiam entender a importância de casar o valor da igualdade política (em que se baseia a democracia) com as virtudes da reflexão, da ponderação, da deliberação, da negociação e da construção de consensos (em que se baseiam os regimes representativos) sem as quais não haverá nunca, como é penosamente óbvio, processo de construção europeia que resista.
Acontece que o «directismo» é um mito conveniente, alimentado pelo discurso politicamente correcto em voga e sobretudo pela tibieza de muitos dos nossos eleitos que, tendo toda a legitimidade democrática para decidir, se demitem de fazê-lo, e se escondem por detrás da farsa e da miragem referendárias. Acontece que é preciso coragem política para assumir que nas democracias representativas modernas o povo escolhe quem deve decidir e não tem necessariamente de participar no «problem solving» concreto. E como coragem política não é propriamente uma característica definidora da maioria dos líderes europeus de hoje, o mais provável é que os vejamos entretidos por mais uns tempos a tentar interpretar o que, «no fundo no fundo», queriam os irlandeses realmente dizer. E como ninguém se vai entender sobre o assunto, o mais certo é voltarem a perguntar-lhes até os pobres coitados acertarem na resposta conveniente.
2 – Outro mito tão persistente quanto pernicioso dos nossos tempos é a ideia que a democracia está suficientemente consolidada nos países ocidentais para que exista um real perigo do seu retrocesso. Em Portugal este mito é sofisticado com a ideia conveniente de que «a Europa não permitiria que o país regressasse aos tempos da outra senhora». Ora não há nada mais perigoso para a Democracia do que a ideia de que não é preciso zelar por ela todos os dias. E se é verdade que é difícil imaginar na Europa do século XXI, uma intentona militar liderada por um general de óculos escuros e bigode farfalhudo, já não será tão descabido discorrer sobre os perigos que o populismo e os excessos de «directismo» democrático podem representar para os regimes demo-liberais modernos. Não havia para aí um filósofo velhinho que falava da sucessão cíclica das formas de governo?