segunda-feira, 30 de junho de 2008

Burocracia mórbida



Uma amiga precisou de pedir uma certidão de óbito de um irmão para poder fazer uma escritura. A coisa atrasou-se mais do que o previsto e quando finalmente lhe marcaram a dita escritura o notário informou-a que teria de voltar a pedir a certidão de óbito porque ... tinha sido ultrapassado o prazo de validade de seis meses.
Quem é que disse que vivemos num Estado Laico? A burocracia caseira já deu existência legal à ressurreição.

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Agora “odeio” eu (um bocadinho atrasado)





Disse alguém um dia que podemos deixar voar os pássaros do ódio sobre a nossa cabeça mas que não os devemos deixar fazer ninhos.

Concordo.

Ainda assim, e tardiamente face ao timing da “discussão” aqui na Geração de 60, junto uma singela lista de pequenos “ódios” de estimação.

São apenas 4 para não me alongar. Duas pessoas e dois fenómenos. Vamos a eles.

Começo pela literatura: o Saramago.

O Pedro Norton tem apenas uma embirração pelo homem. Eu não tenho qualquer embirração; pura e simplesmente não gosto.

Não gosto do que representou no passado, não gosto de quem ele gosta, não gosto do que diz e muito menos da forma como fala e escreve sobre Portugal e os portugueses. Plagiando o mesmo Norton trocava de bom grado este Nobel pelas cinzas do Jacques Brel.

Quanto ao resto, pena é que o país do Torga, do Virgílio ou da Sophia tenha um Nobel como este.

E da literatura prá bola: o Figo.

Apesar de Sportinguista ferrenho prefiro mil vezes o Rui Costa. Todo o profissionalismo do Figue (como lhe chamava um ex presidente), inteligência nos negócios e causas humanitárias não me fazem esquecer que não voltou a Portugal e ao Sporting para acabar a carreira. Terá grandes qualidades que dele podem fazer um óptimo amigo ou uma excelente companhia mas, como adepto, nada disso me importa. A verdade é que preferiu as liras e as luzes da ribalta ao clube que o viu nascer.

Espero não o ver um dia com a bandeira do Sporting junto ao coração – aplaudido - e a concorrer à presidência do clube. Seria uma triste sina.

Quanto ao resto, e como o próprio saberá, nunca foi nenhum Zidane.

E da bola prá moda: os chinelos (ou havaianas).

Primeiro ponto: os chinelos são coisa de senhora ou de criança.
Segundo ponto: senhora que usa chinelos arranja os pés.
Terceiro ponto: as havaianas são para levar para a praia (não para o shopping, para o cinema ou para os restaurantes).
Quarto ponto: a massificação dos chinelos representa a “brasileirização” do nosso país – o maior flagelo da era moderna de que será expoente máximo o malfadado acordo ortográfico.

Quanto ao resto, convém não esquecer que o país irmão é a Espanha com quem crescemos na mesma casa (a nossa península). O Brasil será, nesta analogia familiar, o país filho: um filho maior, mais rico, mais tudo, mas um filho ainda assim (e onde é que já se viu um pai ter de acordar com um filho sobre a forma como se fala?).

E da moda prós fenómenos sociais: a neve.

De entre um determinado tipo de fenómenos sociais onde todos “temos que ir” (o Rock in Rio é outro) – e de onde, por isso mesmo, se deve fugir a sete pés - tenho um particular horror pela neve.

“Este ano ainda não fui”, dizem em tom de sofrimento (uma espécie de cold turkey social) pessoas que há tempos atrás nunca tinham sequer subido a serra da Estrela. Não têm a noção de que não há “penado” nem óculos espelhados, nem bronzeado de última hora que lhes tire o ar desadequado que não podem deixar de ter a mais de mil metros de altitude. Quem, no registo inverso, não reparou ainda, por exemplo, nos cidadãos dos povos da Europa central e de leste que pululam as nossas praias? O tom da pele, a forma como chapinham à beira mar, as “sungas” - não encaixam… não há nada fazer.

Quanto ao resto, e para além do clube dos fumadores passivos (anunciado há meses atrás), declaro desde já ir constituir, também, o clube dos portugueses que nunca foram à neve (seremos poucos mas bons).

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domingo, 29 de junho de 2008

Francisco Suárez e a democracia directa...


Já há algum tempo que ando para aqui transcrever um pequeno texto do De legibus ac Deo legislatore de Francisco Suárez (Coimbra, 1612), com o qual possa, por um lado, solidarizar-me com a guerra do Pedro Norton contra o mito das democracias directas (como pode ver-se, por exemplo, aqui e aqui) e, por outro, lembrar que a construção das modernas democracias, melhor e antes do que em França, em Inglaterra ou na América, começou aqui, na nossa Península Ibérica.
No livro terceiro deste seu tratado, depois de ter estabelecido que a democracia é o único regime que se dá por direito natural (ainda que melhor e mais claramente o faça, um ano depois, na sua Defensio fidei catholicae adversus anglicanae sectae errores..., nomeadamente no livro III, cap. 1 e 2), diz Suárez:
«Deve entender-se, portanto, que, de acordo com a natureza das coisas, os homens, individualmente considerados, têm parcialmente, por assim dizer, a faculdade de constituir ou estabelecer uma comunidade perfeita (isto é, política); mas do próprio facto de a constituirem resulta em toda ela este poder (trata-se aqui do poder político, segundo o qual alguns homens têm autoridade sobre outros homens). No entanto, o direito natural não obriga nem a que o poder se exerça imediatamente pela totalidade dessa mesma comunidade, nem a que permaneça sempre nela (considerada deste modo, isto é, na sua totalidade). Por esta razão, porque do ponto de vista moral seria muitíssimo difícil exercê-lo desta maneira - com efeito, dar-se-ia uma confusão e morosidade infinitas se as leis se estabelecessem por meio do sufrágio de todos -, este poder é imediatamente determinado pelos homens nalgum dos preditos modos de governo (trata-se dos modos clássicos de governo estabelecidos desde Platão e Aristóteles: monarquia, aristocracia, democracia e decorrentes formas mistas), já que não podem imaginar-se quaisquer outros, como facilmente poderá ver quem o considerar.» (De legibus ac Deo legislatore, livro III, cap. 4, número 1)

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sábado, 28 de junho de 2008

Onde está a nossa manhã de quatro patas?


Passei esta semana alguns dias de férias – sem rede, nem computador, mas com saudades iguais às da Sofia Rocha. Um dia, a caminho da praia, como que acordando da meditação em que se embrenhara ao percorrer a longa ponte de madeira que nos levava até à praia, uma das minhas filhas, que tem 6 anos, perguntou-me:
– Pai: como é que nos mexemos?
Espantado, sob um sol escaldante e debaixo de uns quantos sacos, tentava ensaiar o princípio de uma resposta, quando ela me explicou a sua pergunta:
– Como é que as nossas pernas se mexem e andam? E os braços e a cabeça?
Definitivamente: não estava à espera. Comecei a pensar como responder-lhe. Lembrei-me que Descartes tinha dito umas coisas sobre o assunto. Mas nenhuma resposta me parecia capaz de satisfazer a sua pergunta. Seja: distinguir a alma e o corpo pareceu-me uma boa maneira para começar. Fiz-lhe uma ou duas perguntas que a pudessem levar a dar-se conta desse ânimo primordial que nos atravessa o corpo. Respondeu-me qualquer coisa também sem importância e continuou a andar e a pensar.
Chegados à praia perguntou-me:
– Ó pai, mas porque é que nós existimos? Porque é que há vida?
Enfiei os dois pés na areia e comecei a calcular a melhor forma de adequar as minhas fracas respostas à sua inteligência de criança. Rindo, repetiu:
– Sim, pai, porque é que há vida?
E saiu a correr com os outros em direcção ao mar, no qual, feliz, já se aventura sem braçadeiras.
Lembrei-me então da grega esfinge, que, em Tebas, à entrada da cidade, colocava aos homens o seu terrível enigma: «o que é o homem?» E de como o monstro com cabeça de mulher e corpo de leão alado matava os homens, quando não lhe respondiam, e se matava, quando o faziam. Percebi, uma vez mais, que o destino do homem é viver caminhando entre a identidade e a diferença, entre a pergunta e a resposta, sem nunca ter – como mais tarde nos foi dito – onde reclinar a cabeça.
O difícil, porém, está em abraçar este destino com o encanto próprio das crianças: fazer como Penélope, que tecia o mundo de dia para o desfazer de noite, mas fazê-lo como uma criança, que depois de questionar, espantada, o seu misterioso estar no mundo, logo se entrega, rindo, ao alegre desafio das ondas.

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Escutar às portas

Às vezes temos tanta pena que certas conversas não sejam nossas. Como esta entre a Madalena Lello e o João Luis Ferreira, que escutei de ouvido encostado à porta.
Como não me atrevo a entrar nos grandes temas, vou parasitar vergonhosamente dois “sub-plots” referidos pelo João Luís.
Diz o João que “As obras incompreendidas hoje, serão descobertas amanhã”. Com boa vontade, João, talvez aconteça num ou dois casos. Temo que, maioritariamente, as obras incompreendidas hoje continuem a ser incompreendidas amanhã. Milhares, mesmo milhões de obras, incompreendidas hoje, serão irremediavelmente esquecidas amanhã e ainda mais depois de amanhã. Por mais eufórico que tente ser, acabo sempre submerso por este cepticismo cartesiano.
O JLF também afirma que “A seu modo, a fotografia reflecte uma interpretação da realidade”, só que eu ainda não me consegui libertar da ideia de autonomia da “obra artística”. Como é que eu vejo a fotografia, o cinema, a literatura? Sempre como alguma coisa que se acrescenta à realidade.
Os livros, os edifícios, as fotografias, os filmes, não interpretam, somam-se: onde havia um, passa a a haver dois. Uma fotografia (como a de Volkmar Wentzel, acima, roubada aos "Sais") do Parque Eduardo VII não altera a radical solidão, ou a preciosa funcionalidade do Parque. Feita a fotografia, o Parque continua remetido à sua irredutível opacidade, tal como a fotografia se passa a oferecer, sedutora, como uma realidade que dispensa, ingrata, o Parque original.

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A cidade ideal, o arquitecto, a fotografia e o peão

Madalena,

Decidi trazer para a G60 o nosso diálogo no saisdeprata-e-pixels. Post com post se paga!

A sua posição é a de ver a realidade através da fotografia e, por isso, o olho atrás da lente descodifica uma paixão do real retirado do seu movimento, fazendo do momento algo que permanece como substituição do real. Essa permanência que a fotografia é não é bem uma oposição ao tempo mas uma espécie de “instante” subtraído, algo retirado do movimento, um momento quase sem duração, mas que, enquanto registo, dá à posteridade uma imagem que se aproxima de alguma coisa que, alguma coisa, terá sido. O viajante, aquele que passa, vai registando na sua memória uma sinestesia que agrega num mesmo, num todo, imagens, sons, cheiros e toques (o vento, por exemplo) que na fotografia se procuram invocar apenas através da imagem. A própria sensação da tridimensionalidade do espaço se perde no registo fotográfico. Quantas vezes tiramos fotografias imbuídos de uma sensação que na realidade não se traduz depois na imagem conseguida. Mas esta sensação de ficar aquém do que se pretendeu realizar só a sente, ou só dela realmente se apercebe quem ensaiou esse risco da representação e vê a distância entre o que imaginou e o resultado. A arte, porém, está nos resultados e não na inépcia.

Da arte o que fica, então, independentemente dos desejos dos autores, é uma nova realidade, qual seja essa, que aos olhos e à crítica dos espectadores, se mostra sem aquilo que podia ter sido mas apenas com aquilo que é. Só que essa nova realidade, essa segunda natureza que aí está, adquire uma vida própria, induz novos caminhos que o próprio autor não pôde supor, mas que uma intuição e uma crença o levaram a insistir e a fazer. É disso que o mundo está feito, das tentativas do homem em criar e controlar uma realidade que o excede incessantemente e de que ele é um veículo às vezes consciente, outras vezes imprevisto, mas sempre comprometido. Para a história fica quase sempre aquilo que se diz daquilo que se fez. O poder discursivo nas obras é feito através daqueles que as explicitam quer as compreendam quer não as compreendam. As obras incompreendidas hoje, serão descobertas amanhã. Mas isso aos autores não deve, nem pode, interessar muito. O discurso à volta das obras é sempre o discurso de um ponto de vista, e todos os discursos sobre o que se apresenta têm uma legitimidade embora não coincidam com o ponto de vista de Sirius, aquele ponto de vista que por ser tão distante se tornasse num observador desinteressado, uma espécie de semi-deus cujo comprometimento com o mundo fosse quase nulo. Observador comprometido, o crítico, é como o fotografo, traduz em novos moldes a realidade que se lhe apresenta. E traduzindo-a, também a recria. Hegel afirmava que uma tradução era sempre melhor que um original, porque na tradução estava também o pensamento do tradutor. Mas para aceitar isto é preciso aceitar que o pensamento é movente e não um sistema fechado e estático de que cada um julga possuir uma parte singular e pessoal.

A seu modo a fotografia reflecte uma interpretação da realidade. A partir do modo próprio de registar uma encenação — espontânea ou fabricada — gera uma visão da realidade que não se deve pretender uma cópia porque o simples registo exige uma intencionalidade que a retira da pretensão inócua de ser apenas o que a própria realidade é. A fotografia é, por isso, tão subjectiva na realidade que cria, como a mente de um caminhante que passa pelo mundo ou pelo caos, registando na sua memória pontos de vista e outras sensações que lhe permitem reconstituir uma realidade que, uma vez ausente (depois de passar) é uma realidade imaginada. Apesar do aspecto físico ou mecânico do acto fotográfico, a realidade expressa ou traduzida ou recriada é sempre uma realidade imaginada.

O movimento do caminhante, do passageiro, do transeunte, é isso mesmo, movimento. E move-se entre espaços organizados ou caóticos, naturais ou artificiais, fáceis ou difíceis. Por definição, abusiva certamente, mas permitam-me o abuso, o mundo é a casa. E como o mundo é a organização sobre o caos, a casa opõe-se ao caos. A casa não é só o abrigo. Estar em casa pode ser estar numa cidade, pode ser estar num país, numa cultura, numa civilização, ou apenas num jardim (que saudades!). O espaço organizado é organizado em função de finalidades que realizem esta sensação de estar em casa, isto é, de estar num lugar onde há uma identidade entre o eu e o que está à minha volta. O mundo é um espelho do homem, é feito à sua imagem e semelhança e, por isso, quando o homem procura o que mais lhe convém procura o que é ideal para si. O que é ideal para si é alguma coisa que não estando imediatamente realizada transmite a sensação (pode ser uma imagem como diz a Madalena) ou a ideia dessa presença ideal. Não há fórmulas para criar a Beleza. Há dados objectivos como a importância da arquitectura durar e resistir (firmitas) e atingir alguma utilidade pela adequação às suas finalidades funcionais (utilitas), mas a Beleza (venustas) essa depende da inspiração e do talento que não nos é possível prever ou receitar. Ora, as duas primeiras categorias dependem do estudo, da inteligência e da dedicação, é como quem aprende a tocar um instrumento musical. Se depois com esses conhecimentos é possível compor uma melodia isso já não depende do esforço e da vontade. Depende talvez daquele excesso que referimos atrás como sendo o que trespassa a nossa capacidade de controlar a realidade e a povoa de novas e imprevisíveis direcções.

Ao contrário do fotógrafo, o arquitecto, não pode arquitectar a fotografia. O campo de actuação do arquitecto, se bem que resulte também, no seu processo de concepção, de uma linha crítica, não parte de uma representação do real, ou seja, não é uma tradução do real, mas parte de uma representação do ideal e, por isso, como dizia Óscar Wilde (Intentions) a Arquitectura, como a Música, são as únicas artes verdadeiramente abstractas. Ora, a abstracção é não só feita de formas que não se traduzem em evidências naturais mas na invisível constituição de tudo o que tem um organon. A abstracção é o que se extrai do concreto não sendo nenhum dos concretos lhes subjaz como sistema de relações matriciais. A esse sistema de relações se chama, na sua materialização gráfica e volumétrica, desenho. O desenho que se esconde é o sistema de relações que identificou as figuras e os corpos que pela sua notabilidade e correlatividade com os números abriram as portas do mundo inteligível, do mundo das harmonias que criaram a arquitectura e a música, mas que também se esconde na métrica da poesia, no equilíbrio da escultura ou na tensão da pintura. Enquanto arte a arquitectura não tem um mundo para traduzir tem um ideal para representar. Esse ideal não se realiza em formas orgânicas naturais mas sim em formas inteligíveis compostas de modo a realizar um equilíbrio e a exprimir relações entre si proporcionais. A ideia de proporção é talvez aquela que anda mais arredia do desenho contemporâneo, e a sua secundarização é o sinal que denuncia os propósitos exclusivamente funcionais e utilitários que muitos não gostamos de ver na arquitectura por serem um sinal da sua degradação. A ausência de proporção na composição torna o “objecto” arquitectónico indeterminado e essa indeterminação não é inteligível. A inteligibilidade está na proporção. O que não tem proporção não é pensável. Na música isso é ainda mais evidente, porque pela audição somos menos traídos do que pelas imagens.

A régua e o esquadro, se servem para organizar as figuras e os volumes de que os edifícios são compostos, não são como a câmara fotográfica uma máquina. Não limitam as possibilidades e opções, enquanto instrumentos, do desenho. Também já vimos que se a régua e o esquadro fossem limitadores do desenho dos edifícios ou do desenho das cidades seria porque aos arquitectos preocuparia não a representação do ideal, mas fazer vingar alguma tese que coisificasse o homem nalgum ismo que não resiste à passagem de dois lustres. Vimos, também, que a arquitectura é estática e não dinâmica, sofre mudanças com a luz, mas permanece imóvel por mais que os arquitectos tentem exprima-la como movimento. Vimos ainda que a arquitectura e o urbanismo são a casa do homem e o seu espelho pelo que não é lícito partir o espelho ou fazê-lo espelhar apenas um aspecto do que o homem é porque ele nunca é só um aspecto. Daí que a arquitectura espelhe uma totalidade e que cada um ao passar por ela possa reter isto ou aquilo sem nunca fazer dela isto ou aquilo. E, ao arquitecto, chamado a responder perante a cidade e perante a história, a sua resposta deverá ser o mais possível despojada de uma tendência crítica do real , o qual está presente nos problemas que lhe são postos pelo lugar, pela localização, pelo programa, pela construção, pela economia ou pela legislação e encontrar a proporção, o equilíbrio e a coerência que a vocação, a intuição e a razão de uma visão do ideal lhe permitir conceber. À arquitectura não podem ser exigidas as mesmas categorias da fotografia. A arquitectura e o urbanismo são presenças totais como ideia e como experiência. Noutras artes e na fotografia não predomina o estar mas um ponto de vista. Não pode o arquitecto, embora isso até seja, ingenuamente, o seu discurso actual, fazer a arquitectura a partir de uma ideia de promenade. A promenade é a liberdade de cada um de olhar o mundo e interpretar os seus caminhos a partir das suas experiências físicas e psicológicas. O arquitecto, quer queira quer não queira procede como um visionário que faz o mundo dos humanos e lhes constrói a base das suas memórias. Se não gostamos do mundo que criámos é outro problema e tem outras razões que não o da essência da arquitectura. O que não se pode pretender é que o arquitecto colija as infindáveis perspectivas pessoais para responder a todas elas e assim obter o que seria um consenso. Não se pode esperar isso da arquitectura. Sobretudo não esperemos que a arquitectura não seja um espelho do que é o mundo, um espelho dos homens. O que a faz uma arte tão inquietante é ser reflexo e materialização do somos e os nossos enganos e ilusões ficarem tão evidentemente expressos.

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Dois mundos














Suprema ironia: hoje, a CGTP organizou uma manifestação contra a política laboral do governo. Foi no Largo Camões, em Lisboa. A dois passos, no Palácio de Santa Catarina, filmavam-se cenas da "Vida Privada de Salazar".
Nem o cinéfilo Salazar deu pelos manifestantes, nem os manifestantes por Salazar. Mesmo que sejam paralelos "amigos do povo", há mundos que nunca se encontram.

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Praia sem areia


Praia sem areia. Chegar, pousar, esticar na espreguiçadeira, ir tomar banho de mar, água a 24.º, enxugar, ir almoçar na esplanada, ler, ler, ler. Olhar o Reid´s em frente, um dos hotéis mais bonitos do mundo. Penha de França Mar, a cinco minutos a pé do Funchal. E uma felicidade imensa de Abril a Outubro. Deve ser do calor, porque há dias que não consigo pensar noutra coisa.

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quinta-feira, 26 de junho de 2008

Se Me Olvidó Que Te Olvidé

É quase meia-noite e imagino que a velha e grande Rússia esteja a enforcar mágoas num lençol de vodka. Sugiro-lhes, aos súbditos de Putin e Abramovic, esta cansada ode ao esquecimento. Um bolero apócrifo com matizes de flamenco. Ou não fossemos, logo hoje, só hoje, todos espanhóis



Bebo Valdez e Diego Cigala, Se Me Olvidó Que Me Olvidé

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Da Visão: Mitos Democráticos

1 – Não vou perder tempo a tentar perceber o que é que os irlandeses «realmente» queriam dizer com o seu «não» ao tratado de Lisboa. Até prova em contrário, «não» quer dizer «não», ponto final parágrafo.
Dito isto, vale a pena fazer uma reflexão sobre o caminho que trouxe a Europa até este beco sem saída. Tenho para mim muito claro que um dos grandes mitos das nossas sociedades democráticas modernas é a ideia de que «mais democracia» e sobretudo «democracia mais directa» são sinónimos de «melhor democracia». Triste mito. Santa ignorância. Não é por acaso que os «founding fathers» americanos (que, goste-se ou não, são os pais fundadores de todas as modernas democracias liberais) rejeitaram explicitamente esta interpretação populista do ideal democrático. Muito melhor do que a maioria dos líderes europeus de hoje, sabiam – para citar uma expressão feliz de Bruce Ackerman e James Fishkin – que os referendos são um «método indigno para uma democracia moderna». Muito melhor do que os modernos arautos do «directismo» de pacotilha, sabiam entender a importância de casar o valor da igualdade política (em que se baseia a democracia) com as virtudes da reflexão, da ponderação, da deliberação, da negociação e da construção de consensos (em que se baseiam os regimes representativos) sem as quais não haverá nunca, como é penosamente óbvio, processo de construção europeia que resista.
Acontece que o «directismo» é um mito conveniente, alimentado pelo discurso politicamente correcto em voga e sobretudo pela tibieza de muitos dos nossos eleitos que, tendo toda a legitimidade democrática para decidir, se demitem de fazê-lo, e se escondem por detrás da farsa e da miragem referendárias. Acontece que é preciso coragem política para assumir que nas democracias representativas modernas o povo escolhe quem deve decidir e não tem necessariamente de participar no «problem solving» concreto. E como coragem política não é propriamente uma característica definidora da maioria dos líderes europeus de hoje, o mais provável é que os vejamos entretidos por mais uns tempos a tentar interpretar o que, «no fundo no fundo», queriam os irlandeses realmente dizer. E como ninguém se vai entender sobre o assunto, o mais certo é voltarem a perguntar-lhes até os pobres coitados acertarem na resposta conveniente.
2 – Outro mito tão persistente quanto pernicioso dos nossos tempos é a ideia que a democracia está suficientemente consolidada nos países ocidentais para que exista um real perigo do seu retrocesso. Em Portugal este mito é sofisticado com a ideia conveniente de que «a Europa não permitiria que o país regressasse aos tempos da outra senhora». Ora não há nada mais perigoso para a Democracia do que a ideia de que não é preciso zelar por ela todos os dias. E se é verdade que é difícil imaginar na Europa do século XXI, uma intentona militar liderada por um general de óculos escuros e bigode farfalhudo, já não será tão descabido discorrer sobre os perigos que o populismo e os excessos de «directismo» democrático podem representar para os regimes demo-liberais modernos. Não havia para aí um filósofo velhinho que falava da sucessão cíclica das formas de governo?

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quarta-feira, 25 de junho de 2008

Brincadeirinha ( Parte II)

"Crise não passou pelo Estoril Sol Residence (...) A maioria dos compradores são portugueses e o restante estrangeiros ou " portugueses a morar lá fora" (...)" - In Público 25-6.

É o metro quadrado mais caro do país.
Dando de barato que o Cristiano Ronaldo lá tenha comprado apartamento, mais o José Mourinho, pergunto: será que o Dr.Vale e Azevedo, lá de Londres, já terá dado a sua ordem de compra?

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O Sonho e o Tempo

Goya, Las Viejas - uma interpretação do tempo?
Talvez a vida não seja mais do que sonho, talvez a nossa pequena vida esteja cercada, apenas e só, por um redondo sono.
Prefiro pensar que, mais do que a matéria com que se constroem os sonhos, é o tempo a substância de que todos somos feitos. Um tempo irreversível e inexorável.
Podemos sonhar, pode o sono obscuro invadir-nos, o que não podemos é negar o tempo. Negá-lo é negarmo-nos.
Por vezes é lícito trocar Shakespeare por Borges.

We are such stuff
As dreams are made on; and our little life
Is rounded with a sleep.
Shakespeare, The Tempest

El tiempo es la sustancia de que estoy hecho.
El tiempo es un río que me arrebata, pero yo soy el río;
es un tigre que me destroza, pero yo soy el tigre,
es un fuego que me consume, pero yo soy el fuego
Borges, Otras Inquisiciones

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Brincadeirinha ( como se diz do outro lado do Atlântico)

"(...) Acresce que em termos de concorrência este Governo acumula mais cadastro do que currículo." - In Público de 25-6.

ERRO, MENTIRA, BRINCADEIRINHA. A Concorrência tinha muito currículo. O Prof. Abel Mateus tinha muito currículo. O que o Prof. Abel Mateus não tinha era de dizer no Verão de 2006 em entrevista a um semanário que o que se estava a passar era muito grave. I. é, que a Autoridade da Concorrência fazia o seu trabalho e depois todas as empresas em Portugal recorriam de todas as decisões da Autoridade para o Tribunal de Comércio de Lisboa, onde ficavam, SUSPENSAS, durante vários anos ( todas as decisões da AdC são recorríveis com efeitos suspensivos). Como vivemos num país livre e democrático, a crítica foi devidamente encaixada, ninguém ripostou nos jornais, pensei eu. Em 2008, O Prof. Abel Mateus não foi reconduzido no cargo. Primeiro pensei "brincadeirinha", mas depois pensei melhor. Afinal de contas, quem o nomeia tem direito de mudar de opinião justamente porque vivemos num país livre e democrático não é assim?

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Tributo aos leitores de jornais

Henri Cartier-Bresson, Livorno, 1933

A minha leitura dos jornais passa obrigatoriamente pelas «cartas dos leitores». Gosto do vislumbre de esperança permitido pela certeza de que, do lado de cá, a ler o que eu leio, está gente atenta, gente válida, gente crítica.
Vem isto a propósito de uma «carta ao Director», hoje divulgada no Público, que muito me impressionou.
Trata-se de um testemunho sentido e profundo, bem pensado e bem escrito, que tem por título “A apologia do desmérito”. Assina Francisco Queirós, aluno da Escola Secundária Garcia de Orta (Porto).
Eu não fiquei indiferente e julgo que ninguém poderá ficar. Por isso, e sem mais comentários, transcrevo na íntegra.

A apologia do desmérito
Dissera a Sociedade Portuguesa de Matemática, a propósito do exame nacional do ensino básico, que o facilitismo é desmotivador. Achei o juízo mais uma ideia vaga no longo e eterno debate sobre as questões ligadas ao ensino e à educação que atravessa a sociedade.
Compreendi, porém, a essência da afirmação ao realizar o exame nacional de Matemática A (12.º ano). Uma desilusão. Um tempo desproporcionado para a extensão da prova, perguntas que não iam além do linear… Trigonometria? Nem vê-la!
Um ano inteiro de estudo regular e empenhado, duas semanas de intensa preparação, a vontade de ver o mérito objectiva e rigorosamente reconhecido a nível nacional. Tudo decepcionado por um exame que ilustra a filosofia por que enveredou o sistema de educação. O facilitismo. A cultura da mediocridade. A ávida apologia do sucesso estatístico (obviamente ludibriado).
Haverá beneficiários contemplados nesta cultura? Pois com certeza! O esforço nulo, a preparação ligeira e o alheamento geral não impedem resultados lisonjeiros. Pretensamente lisonjeiros, diga-se com destemor.
Ver no mesmo patamar uma incrível concentração de alunos com diferentes graus de conhecimentos, de dedicação e de esforço pode ser politicamente correcto – numa linha de pensamento que veja, desta forma lamentável, a educação como a promoção da integração social. Pode inclusive ser democrático – num sentido impróprio da palavra democracia. É, contudo, decepcionantemente desmotivador.
É triste terminar a disciplina de Matemática A e concluir que nenhuma função relaciona mérito e bons resultados.

(vd. Público, 25 de Junho de 2008, p. 40)

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terça-feira, 24 de junho de 2008

Como vêem os chineses o referendo irlandês?

Não vejo com alegria o resultado do referendo irlandês. Vejo-o com realismo. Todos se penduram sobre o seu resultado, mas a dinâmica dos votos hoje em dia é tão múltipla que cabe num mesmo resultado toda a premissa e a sua contrária. Da extrema-direita à extrema-esquerda, dos europeístas aos anti-europeístas, dos preocupados com o curto ao longo prazo, errados ou não, muitos apoiam a negativa que aflige (e alegra) a Europa.

Seja. As causas são múltiplas e não as vou analisar aqui. A classe política diz muitas vezes que é preciso aproximar a Europa dos europeus, que é preciso explicar, no que têm alguma razão, mas esquecem que é do excesso de proximidade das classes políticas que nasce muito do desprezo da população por ela. “Eles são como a gente” dizia o povo no Norte de Portugal. O problema, diz-se, muitas vezes tem a ver com questões meramente nacionais. Mas esta perspectiva esquece que por isso mesmo o problema é europeu. É europeu nos seus resultados, sem dúvida. Mas é europeu igualmente na sua tessitura. Mostra um problema geral nas democracias europeias, mostra alguma falta de maturidade da populações europeias para perceberem que o mundo mudou efectivamente, e que o tempo urge. Que as novas e antigas potências agradecem quando a Europa pára, embora nas novas os sentimentos sejam mais variados. A Índia, o Brasil e sobretudo a Rússia sabem que têm interesse numa Europa forte.

O que interessa agora é tentar perceber como nos vêem os chineses.

A opinião de chineses vale o que vale, mas seja como for é uma opinião. Que vêem eles? A sua perspectiva é a da construção de poder. A liberalização de mercado é vista, de uma forma próxima dos alemães do II Reich, como um instrumento de poder. Não têm os nossos pruridos de base cristã em relação ao poder.

Que é a democracia para eles depois deste resultado irlandês? Num mundo em que as oportunidades chinesas crescem, não querem perder tempo. Para eles por isso mesmo este resultado tem um significado: a democracia é uma perda de tempo. Os europeus são em suma desprezíveis porque são incapazes de criar formas de poder consistentes.

Não interessa se têm razão ou não. Apenas tento ver as coisas com olhos de chinês. Mas para quem dá alguma importância a ser respeitado substantivamente pelo mundo, temos de perceber que o que se passou na Irlanda, inteligente ou não da parte dos irlandeses, é visto pelo óculo chinês como um episódio que mostra que os europeus são ridículos. Não são as liberdades que os comovem, e muito menos a democracia. Percebem que este sistema é pouco útil para a criação de poder e só por isso já o acham tonto.

A vida é assim. A crítica da rua acredita no fruto e nos resultados, muito mais que nas raízes, que não vê. O chinês é povo de visão sempre algo menos elaborada que a nossa. Olha para o europeu e pensa: Tontinho, não sabendo reconstruir o seu poder, não o merece.

Esperemos então a teia chinesa, que Napoleão e o nosso Eça já tinham previsto. Só não fica nela quem criar tenaz que lhe saiba opor. Temos direito de escolher favas no menu. Agora é altura de as comer.








Alexandre Brandão da Veiga

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segunda-feira, 23 de junho de 2008

As Medalhas de Madre Teresa

O actor Martin Sheen (Apocalypse Now) é tão fervoroso católico como fervoroso anti-Bush. Durante a Guerra do Golfo, veio com a família e um amigo, a Roma, falar com a Madre Teresa. Pediu-lhe para convencer o Papa a levar o assunto a um tribunal internacional que ordenasse aos beligerantes que parassem a guerra. A irmã perguntou-lhe com candura: “E eles obedecem?”
Recebido o recado, a pequenina Teresa abençoou a mulher e os quatro filhos de Sheen e deu-lhes medalhas de santos. Martin Sheen lembrou-se então de que o seu velho amigo Marlon Brando vivia, na altura, um momento angustiante. E pediu a Madre Teresa que lhe desse mais uma medalha para esse amigo que era um actor famoso. “Quem é”, perguntou ela, curiosa. “Marlon Brando”, disse ele. “Ah. Nunca ouvi falar.”
Sheen regressou e, quando deu a medalhinha a Brando, contou-lhe a história. Diz Sheen: “Confesso que Marlon ficou lavado em lágrimas. It meant so much to him.

A história, contada por Sheen, está aqui na “Intelligent Life”, Spring 2008.

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Votos Apartidários II

Como estou em período sabático de leitura de jornais, de televisões e de blogs - a desculpa é o Euro 2008 e agora torço pela Rússia - fiquei totalmente surpreendido quando o nosso amigo e co-blogger MM me deu a informação de que a Sofia é Vice-Presidente do PSD. Aliás, fiquei foi agradavelmente surpreendido. Parabéns Sofia e bom trabalho. Também estou a ficar apartidário, como o MSF, mas sei que há algo nestas andanças que não podemos dispensar: uma oposição forte e inteligente e quanto a isso espero o melhor deste novo PSD (embora as declarações sobre o investimento público da nova Presidente mostem que ela ainda não está a ver bem a coisa... Mas verá um dia, verá um dia...).

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domingo, 22 de junho de 2008

Votos Apartidários

O editorial do “Geração de 60” propõe, à maneira de Stuart Mill, um “marketplace of ideas” cuja construção é “um direito, mas sobretudo uma responsabilidade de cada um de nós – que não pode ser inteiramente delegada em partidos, nem em corporações, nem no chamado sistema mediático”.
Está implícito - fica rotundamente claro – que esse “fórum de ideias” não pode ser construído contra as corporações, o sistema mediático e, muito menos, contra os partidos.
A Sofia Galvão e o Paulo Rangel estão agora, mais visivelmente, um passo à frente do editorial do “Geração de 60”. Não professo em nenhum partido e às vezes finjo que sou apolítico, o que não me impede de fazer votos de que o compromisso dos dois ajude a dar resposta a estes versos de Thomas Hardy:

“When shall the softer, saner politics,
Whereof we dream, have play in each proud land?”

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Clarabela: uma carta de amor

Minha querida:

Confundir o teu nome é trocar o dia pela noite, sonhos por pesadelos, sorrisos por lágrimas, laços por espinhos, pele por granito, poemas por gritos, rosas por heras, pradarias de relva apetitosa pelo alcatrão das ruas. Não há no teu rosto uma marca de tristeza, desconsolo, ressentimento, só um bovino encanto de vida.

Preso nos olhos do amor que te escapa, das lembranças das nuvens leves, das cores suaves na infância que é só tua, nas tardes encostadas ao parapeito da janela, dos banhos com aroma a gargalhadas futuras, das saias rodadas, da alfazema nas gavetas altas, dos terraços perdidos no último arranha-céu da inocência, tu és o meu primeiro e último amor.
A infâmia e a vergonha são hoje maiores: a Anabela é o espinho, a corda no pescoço, o suspiro antes do longo vale dos monstros sempre acordados. Não pisei devagar, e pisei nos teus sonhos. Emigro o rosto para a mais distante das terras, fecho a casa, prego todas as portadas, deito fogo à madeira que nos agarrava à Terra, sinto a chama quente nas costas que vergo para nunca mais erguer, só na cegueira.
Perdi-te, perdi-me, perdi o mundo. Não há mais nada, só relógios quebrados, jornais rasgados, pássaros mudos, e o silêncio.
Onde está o teu riso? Em que armário, em que prateleira, em que biblioteca de amores perdidos?
O fim é claro, Clarabela. Não se muda o que não se pode trocar. É como trocar de alma, mesmo cansada, e essa não é minha.
É tua.

PS: A minha mulher, fiel confidente da pobre esquecida, não fala comigo desde o dia aziago. Como encarar cada novo sol? E quem olho quando olho agora para o espelho?
Só uma perguntinha: em que terra nasceu o mais lusitano dos compinchas de Tintin, Oliveira da Figueira?

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O Medo

Já ouvi muitas explicações para a derrota portuguesa com a Alemanha (pouca concentração, pouco empenho, pouca preparação, árbitro, os acasos do futebol). Todas têm um pouco verdade. No futebol, o resultado é sempre fruto da conjugação de diferentes variáveis. No entanto, a razão principal para a derrota portuguesa foi o medo de errar. Durante os dias que antecederam o jogo a ênfase da análise esteve sempre no risco de errar e nas fragilidades da nossa equipa. Os jogadores portugueses sentiram isto e estavam tão preocupados com o erro que demoravam mais tempo a pensar o jogo e a reagir às acções do mesmo. Nos primeiros 25 minutos foi óbvio que Portugal estava sobretudo preocupado com o jogo da Alemanha e com os riscos que corriam. Nos lances de bola parada os jogadores pareciam ter mais receio do risco da acção e do erro do que concentração nos automatismos da acção defensiva. Nos remates, quase todos fora do alvo desta vez, era óbvio a preocupação dos jogadores em mão desperdiçar a oportunidade. O receio de errar levou os jogadores a perder a naturalidade do gesto. O medo faz-nos perder segundos e sentir mais frágeis. Acaba com a naturalidade da acção. No futebol isso determina que se chegue sempre mais tarde e se execute pior. No futebol o pensamento tem de ser espontâneo e não pode ser pensado. O gesto executa-se, não se pensa. Ou, talvez melhor, o pensamento nunca pode estar subordinado ao medo e à dúvida que ele instala.
Esta equipa foi assim o reflexo actual de Portugal. Um país com medo. Medo do risco, medo de errar, medo da mudança. Medo de nós próprios.

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