quarta-feira, 18 de junho de 2008

Hate is Good

Em resposta ao Manuel Fonseca (a quem sindicalmente lembro que estou em frente ao computador com um olho inflamado depois de oito horas engalfinhado no ecrã de uma empresa que tanto faz reluzir o nosso peito), aqui vão os meus seis ódios de estimação - acabei de os seleccionar entre os cerca de setecentos que guardo num livro negro atado ao interior de uma réplica da Iron Maiden em aço inox. Então:

- Odeio pessoas sem preconceitos. A ausência de preconceitos é um certeiro indicador de assomos perfeccionistas mais ou menos dissimulados que danificaram seriamente o Homem e a civilização (Oriente e Ocidente, Antiguidade e mundo contemporâneo por igual). Os preconceitos, desde que revestidos de um sentido básico de compaixão, dois dedos de auto-ironia e uma consciência plena de que a estupidez pode temporariamente atacar os mais inspirados, são a marca de água do nosso sincretismo, da nossa incompletude. Da nossa vontade de mudar.

- Odeio pessoas que falam de tudo - mas mesmo TUDO - com uma natural e indisputável autoridade, como se da vida (e da leitura de blogues, jornais ou, simplesmente, do seu infalível improviso) retirassem perpétuos ensinamentos que a consciência divina obriga a que sejam reproduzidos ao mundo com urgência sonora. Desconfiem sempre dos que sabem um pouco de tudo, e que tudo sabem sobre o pouco cujos limites fingem desconhecer: andam por aí, e alguns são adulados no oráculo popular e na mesa de canasta mais perto de si.

- odeio o F.C. Porto (os ódios futebolísticos, juntamente com a adrenalina, o medo e o sexo, são as manifestações mais saudáveis do Australopitecus que há dentro de nós). A arrogância portista - não confundir com o pelonaventismo portuense, ao qual me orgulho pertencer -, a ilusão da infabilidade, o patético discurso regionalista de PC e os mais cilíndricos dirigentes (Adelino Caldeira, et pour cause) a Oeste de Palermo são razões mais do que convincentes para este ódio, do qual aspiro a fazer doutrina.

- Odeio o Rato Mickey (mas acho piada à Anabela, a namorada do Pateta), o discurso semiótico sobre momentos e objectos que devem ser apreciados com o coração, concertos em estádios, talheres que caem ao chão e são candidamente repostos pelos empregados, mulheres giras que acham que são incrivelmente bonitas, desportos radicais (com a excepção do zapping e dos matraquilhos), malta que usa a inteligência na lapela para que todos sejam obrigados a apreciá-la, a falta de cortesia e civilidade, os inimigos da misoginia (atacam-me depois), os supremos artistas que não sabem escrever uma linha, enquadrar um plano ou compôr uma nota, a falta de honestidade, sempre e para sempre (esta é de candidata a miss Venezuela, mas é mesmo assim), o hedonismo sem conclusões e a lógica sem prazeres, os que não aferem da vida qualquer tipo de dimensão espiritual, os oponentes da pornografia (essa espécie de Cartilha Maternal para maiores e vacinados), os adversários da beleza cósmica da meritocracia, pimentos, cebola, tortillas, carapaus de escabeche, gelados light, charutos, arroz de grelos, sumo de tomate, pessoas que falam alto ao telemóvel no cinema, na praia e nas salas de espera dos consultórios, o ritmo implacável da maledicência e, acima de tudo, mesmo acima de tudo, esta sentença: "não vais conseguir fazer isso".

Afinal foram mais de seis. (Ainda tenho umas centenas para a troca).

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Are We Trying to Avoid the Pots and Pans?

Of course we all have a million and one things to do-why not make cooking “one” of the million?

I was a complete disaster in the kitchen. It wasn’t exactly the “porn movie or low budget film” one sometimes makes before hitting the big time-but if there was a camera following me around back then, even the lens would have to be cleaned from time to time with all that food flying ! The mountain of items to be washed that built up in the sink during the “construction” was never a pretty sight either- it would make any home owner want to hit you over the head (usually with the cast iron frying pan being first choice). Keep it as simple and easy as possible-organized and clean as you go along.

For all of you who feel there is no hope in the kitchen-there is!
Shopping for dinner at times should be more than an “already roasted chicken accompanied with all day- sitting around limp salad”.
Chances are, if you are good at preparing a special dish (the one when everyone says, “he makes the best…”) then chances are you are already ½ way there.
You can easily take these skills to the next level. Add a little of this and add a little of that to some of your favorite and easy “dummy proof recipes”!
Stop thinking what doesn’t go well together. Take a chance with food the way you take a chance with what you choose to wear for the day. No one is perfect, we all have worn clothing at one time and later discovered it was not the greatest combination. In the end we got through the day, so don’t worry; most creations with food also make it through the digestive system.

If you are concerned with spoiling the dish, try a small portion of what you are thinking to prepare-feed it to your dog and see what the reaction is-excluding those poor big guys stuck outside protecting properties-I sure remember what dad used to feed ours. All kidding aside, concentrate on the ingredients you like most, substitute them with the recipes you are most familiar with and you have yourself another “he makes the best…” to add to your list.
A portion of you might be thinking, “yhea right, all of this coming from some one who does this for a living”. I raise you that phrase, my cards read-omelet with left over codfish, spinach, onions and tomato. How about another round, a simple roast of your favorite beef covered with pureed coriander and roasted red pepper (roast peppers, remove skin/seeds, and puree in a blender with some coriander). One of my favorites, soy milk/milk shake with fresh strawberry, banana, ice cubes, honey and top it with your favorite granola cereal (this would definitely be more enjoyable by simply serving it in a short glass-spoon and straw required).

I can sum all of this with a simple breakdown of a recipe- without all the “in between common sense stuff” usually responsible for us “making a wrong turn” during the preparation.
If you take a moment to look, as one would a painting to discover it’s simple beauty-you might discover the simple beauty in cooking …it doesn’t always need to involve “contact with cast iron”.

1-Slice 2 onions and sauté with olive oil till extra soft.
2-Add some left over meat/or fish; cut tomato, black olives, capers/season with salt pepper
3-Add your favorite short pasta, season with salt-pepper, chopped parsley and toss (piri piri optional).


Chef Guerrieri

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De orelhas bem a arder


foto gentilmente roubada a WEHAVEKAOSINTHEGARDEN

A não perder no Público de hoje: «As premências de uma antigamente Ministra». Por João Bénard da Costa.

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Jornalismo de referência

Grande manchete a do DN de hoje. Não há nada como um jornal de referência para nos ajudar a organizar a realidade complexa em que vivemos e para nos ajudar a prioritizar os grandes males do Mundo. A energia cara que se lixe. A crise dos alimentos que se dane.

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III. Noctes Atticae, Aulo-Gélio, Vol I (livros I-IV), Les Belles Lettres, Paris, 2002

Aceitemo-lo. Uma mistela. Mas quando vemos uma revista actualmente o que vemos? Sob por vezes uma epígrafe enganadoramente unificadora igualmente uma mistela. A revista promete ser de assuntos económicos e aparece o horóscopo, de questões femininas (?), tem artigos sobre política internacional.

Admitamo-lo. Mas é bem mais divertido que a maioria dos jornais. Não tanto pela patine, cujo sabor não pode ser negado, mas mais pela erudição e pelo ridículo a que esta se expõe. Ao mesmo tempo, conclusões que não são destituídas de sentido, e preocupações científicas que não são tontas. Literatura, retórica, linguística, História, Direito, geologia, física, filosofia… Tudo se encontra misturado na obra deste simpático autor.

Sem dúvida. As “grandes” personagens citadas do mundo intelectual, os que mais o marcaram, parecem-nos bem pequenos. Mas o que vemos hoje em dia nos jornais senão na sua imensa maioria medíocres sem futuro, ou na melhor das hipóteses meros competentes? Que filósofos estão hoje vivos com maior estatura que Taurus?

E sobretudo… Sobretudo a arte do epigrama, esse monumento à capacidade de síntese no qual os romanos eram mestres e que mostra a sua imensa inteligência, ao contrário do dito popular. Uma pessoa, uma situação é descrita numa curta frase. A incapacidade de pensar o além (tão típica da nossa época) é ao menos compensada pela capacidade de o comunicar como no epigrama de Pacúvio. Poucas frases me parecem mais fúnebres, poucas mostram tal capacidade de comunicar aos vivos que o julgam ser eternamente que existe um imenso magnete que os vais chamar também, sem o mau gosto da maldição ou da exortação, apenas um lembrete, uma coisa quase irrelevante. Ou o epigrama de Favorino, que mostra a deliciosa arte do desprezo clássico de que somos herdeiros tão imerecedores.

Que fique de lição para quem deseja renome, quando não acredita na imortalidade. A sua luz não irá além das áticas noites.

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terça-feira, 17 de junho de 2008

Do que eu odeio...

Said, La Haine


Juro-vos que detesto odiar. Mas – forçada a olhar-me – percebo que, não obstante…

Odeio a cobardia e a dissimulação.
Odeio a virtude arrogante e prosélita.
Odeio a boçalidade.
Odeio o pretensiosismo dos cabotinos e dos exibicionistas.
Odeio o desamor e a secura.
Odeio a pequenez de invejosos e mesquinhos.

A amoralidade? Essa, temo-a…
E a estupidez? Antes de tudo, ofende-me!

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La Haine. Resposta a MSF

Manuel, vamos então aos meus «ódios» de estimação:
1 - As multidões. Quaisquer multidões que não sejam a enorme família benfiquista reunida no doce recato da Luz.
2 - A areia da praia. Não tenciono morrer sem que alguém tenha inventado uma praia alcatifada ou forrada a linóleo. E deserta, claro.
3 - As pipocas. Sobretudo as pipocas no cinema.
4 - O José Saramago. Está bem, concedo. Falar em «ódio» é talvez forte demais. Fico-me por uma valente implicação.
5 - O Sporting. Aqui sim. Ódio verdadeiro e primordial. Puro. Profundo. Granítico. Inabalável.

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II. Noctes Atticae, Aulo-Gélio, Vol I (livros I-IV), Les Belles Lettres, Paris, 2002

Que nos diz este primeiro volume da edição das Belles Lettres?

O passeio turístico é imenso. Desde as teorias estóicas sobre o bom, o mau e o indiferente (I.II.8 ss.), a casos jurídicos (I.III). A ideia de ponderação de bens, velha como o mundo (I.III.21), os limites das relações humanas (“é preciso ajudar os amigos mas sem ofender os deuses”) (I.III.20), os usos de “debet” e “habet” (I.IV.6), o excesso de toilettes dos rectores Demóstenes e Hortênsio (I.V). “Um censor não deve falar como um rector” (I.VI.4). As palavras de Metellus: “os deuses imortais devem recompensar a virtude, não fornecê-la” (I.VI.7), a origem da palavra “futurum” (I.VI.6), Plauto é referido como o escritor mais refinado da língua latina (I.VII.17), o uso da palavra “mille” (I.XV.6), a aspiração do “h” (II.III), a dialéctica entre acusador e acusado, que antecipa a dialéctica entre o senhor e o escravo de Hegel (II.IV.6), a explicação do nome de constelações (II.XXI), do nome dos ventos (II.XXII), das cores (II.XXVI), a causa dos tremores de terra (II.XXVIII), os modos de separação dos dias (III. II), a elasticidade da palmeira (III. VI), o poder do número 7 (III.X), a ideia de Homero de que o universo está envelhecendo (III.X, 11), de onde se vê até que ponto a Incarnação é vista como um rejuvenescimento do Universo, as mortes provocadas pela felicidade (III.XV), o significado de “affectus” (III.XVI.19), sobre os senadores “pedari”, ou seja, aqueles que apenas usam os pés para se levantar e votar (III.XVIII), antigos exemplos de defesa do consumidor e necessidade e informação sobre o produto na venda de escravos (IV.II), “hostia” como vítima (IV.VI), “religens” por oposição a “negligens” (IV.IX.1), a tão propalada proibição das favas por Pitágoras (IV.XI), “Statius” como nome de escravo (IV.XX).

A análise das figuras geométricas que Gélio mostra entre os gregos salienta que ao falarem de altura e não de profundidade, escreviam as figuras na areia ou paralelas ao solo (I.XX.3).

O filósofo Favorinus é referido (v.g. I.X). Bem como ao longo de toda a obra o “grande” filósofo Taurus (v.g. II.II). O “grande” jurista Antistius Labeon (I.XII) a propósito do problema das Vestais, Ateius Capito (I.XII), o problema jurídico do mandato segundo o interesse ou segundo as instruções (I.XIII).

Aulo-Gélio parece que ditava o seu livro, mais que o escrevia (I.XXIII.2). A boca é mais nobre que a mão. Parecia ser da Gália, talvez Cisalpina (II.XXII).


Retenho algumas belas frases:
a) De Catão: “Frusto (…) panis conduci potest, uel taceat uel uti loquatur” (I.XV.10). “Por um pedaço de pão se pode comprar o seu silêncio ou o seu discurso”.
b) De Epicármio: “incapaz de falar, não se soube calar”. (I.XV.16).
c) Um epigrama de Pacuuius na sua tumba: “mesmo apressado, jovem, pede-te esta pedra que a olhes e leias a inscrição que nela está: aqui jazem os ossos do poeta Marcus Pacuuius. Adeus, queria apenas informar-te disso” (I.XXIV.4).
d) De Fauorinus (IV.I.4) “ensinaste-nos abundantemente muita coisa que ignorávamos e que não pedíamos para conhecer”.

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A propósito do referendo

Como imaginam eu não posso comentar o referendo irlândes e as suas consequências mas, na sequência do artigo da Inês, faço copy/paste de um artigo que acaba de me ser enviado por um colega norte-americano (e grande constitucionalista) e que me parece conter uma ideia extremamente provocadora a este respeito...

A better way with referendums
By Bruce Ackerman and James Fishkin
The Irish No provides Europe with an opportunity to rethink its approach to referendums. Ever since Napoleon initiated the modern practice two centuries ago, referendums have been one-shot affairs – the people going to the polls to say Yes or No without taking preliminary steps to deliberate together on the choices facing the nation.
This populist method is unworthy of a modern democracy. If an issue is important enough to warrant decision by the people as a whole, it is important enough to require a more deliberate approach to decision-making. If the Irish return to the polls next year to rethink their vote, they should be encouraged to engage in a more deliberative exercise. Two weeks before the next referendum, Ireland should hold a special national day of deliberation at which ordinary citizens discuss the key issues at community centres throughout the country.
Suppose, for example, that deliberation day begins with a familiar sort of televised debate between the leading spokesman for the Yes and No sides. After the television show, local citizens take charge as they engage in the main issues in small discussion groups of 15 and larger plenary assemblies. The small groups begin where the televised debate leaves off. Each group spends an hour defining questions that the national spokesmen left unanswered. Everybody then proceeds to a plenary assembly to hear their questions answered by local representatives of the Yes and No sides.
After lunch, participants repeat the morning procedure. By the end of the day, they will have moved far beyond the top-down television debate of the morning. Through a deliberative process of question-and-answer, they will achieve a bottom-up understanding of the issue confronting the nation. Discussions begun on deliberation day will continue during the run-up to referendum day, drawing those who did not attend into the escalating national dialogue.
Our proposal is based on more than 30 social science experiments we have conducted throughout the world. They involve “deliberative polling”, a new form of public consultation. We invite a scientific random sample of citizens to spend a weekend deliberating on big issues of public policy. Participants greatly increase their understanding of the issues and often change their minds on the best course of action. Swings of 10 percentage points or more are very common. No less important, people leave with a more confident sense of their ability as citizens to contribute constructively to political life.
Perhaps the deliberative poll conducted in Australia is most suggestive, because it was held in conjunction with a constitutional referendum on whether the country should become a republic. A random sample of 347 Australians assembled in Canberra, where they heard leaders of the Yes and No sides respond to repeated rounds of questions that had been worked out in small group discussions.
As the participants became more informed, they increasingly favoured an indirect model for selecting a president – the same option favoured by a majority of the constitutional convention that had initiated the referendum. In contrast, our separate survey of the mass public revealed that the rest of the country gained much less information from the referendum campaign than our deliberators gained from the experiment.
Although the informed voters in our microcosm moved to a strong yes, the mass of poorly informed voters moved to a no. If the mass of Australians had had a chance to engage in something like a deliberative poll through deliberation day, the result of the referendum might well have been different.
Deliberative polls conducted in Britain also suggest that collective deliberation generates important changes. A 1994 poll on Europe led to a marked shift from the group’s initial intuitive reactions. Those believing Britain was ”a lot better off in the EU than out of it” went from a minority (45 per cent) to a majority (60 per cent). Opposition to the single currency also abated. Participants throughout the world have demonstrated a similar sophistication. In countries ranging from Bulgaria to the US, the data systematically establish that deliberation makes a difference. About two-thirds of the attitudes measured in these experiments change significantly after participants think and talk about the issues. Moreover, the process is very democratic. Voters from all classes learn and change their opinions – not just the more educated.
A national day of deliberation would require a lot of careful preparation. Citizens must obtain reservations at local centres; centres must be prepared for use; centre supervisors must be recruited from school staff and volunteer organisations; and so forth. But all this is perfectly doable, as we have established in our intensive study of the bureaucratic mechanics.
All in all, deliberation day would be a big undertaking – but so is the idea of popular sovereignty. The European project is seen as elite-driven, and to that extent, undemocratic. But traditional referendums offer only a crude populist response to the democracy deficit. Deliberation day offers a third way – allowing ordinary citizens to take charge in a fashion that is worthy of genuine respect.
Bruce Ackerman and James S. Fishkin, professors at Yale and Stanford respectively, are the authors of Deliberation Day (Yale University Press).

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Foi Deus que deu esta voz aos irlandeses

O voto dos irlandeses - o único possível na União - representa o «grito de cidadania» de todos os europeus que não puderam pronunciar-se sobre o Tratado de Lisboa. Nele confiámos a insatisfação pela representação não democrática da prática europeia do último meio século. E a ele devemos - depois da Dinamarca, da Holanda e da França, em fases anteriores - a nesga de democracia, leia-se de soberania popular, que sobra a quem sustenta os colarinhos de Bruxelas.
Agora que releio o parágrafo anterior vejo que Louçã ou de Sousa não diriam melhor. Sobretudo na expressão «grito de cidadania». Deveria horrorizar-me com esta tentação de os deskar semanalmente. Mas a verdade aproxima-nos perante a produção, cada vez mais fictícia, da construção política europeia (não extinsível à construção económica, social, cultural/académica).
Vejo uma espécie de revanche irresistível na cabine de voto de um pastor de Galway ecoar no íntimo de um mineiro de Cracóvia ou num velho encostado a um muro de Portalegre. Ou em mim. Ou na consciência perdida de José Manuel Durão Barroso ou de José Sócrates tão amigos de votações, como tementes, «according to the results to come».
O desafio - assim lhe chamou o Primeiro-Ministro irlandês - não se coloca agora a Dublin. Foi lançado pelos desafiadores do seu País à Europa que deve unir-se hoje contra a tentativa de diminuição do voto irlandês, sob pena de fragilizar, ainda mais, a referida construção politica.
O pior é que não acredito na edificação democrática da União Europeia. Esta foi inciada pelo sonho de dois ou três e combinada por outros poucos em seis países. Foi desenvolvida com os pés da economia tendo como cantil democrático para tão longa jornada um Parlamento distante, inoperante, irrelevante.
Assim avançou e cresceu a Aliança. Mas tarde piou a democracia na Europa e, o que é pior, a União «perdeu» terreno cada vez que desceu à consulta popular. A utopia da Comunidade Europeia não sobrevive à utopia da democracia.
Sugiro a bissectriz: o voto nacional sobre o essencial antes de qualquer acordo europeu assinado como pompa e arrogância sob uma tenda como a que vedou o horizonte aos Jerónimos no passado Tratado de Lisboa.

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Como proteger os filhos dos seus pais?

Parece que a CONFAP, confederação das associações de pais, veio hoje, mais uma vez, insurgir-se contra a avaliação por exames. Supostamente os exames são injustos, pois testam, num par de horas ou minutos, o conhecimento (não) adquirido ao longo de anos. Trata-se de um argumento simplista e redutor. A avaliação por exame tem, como outras, o seu lugar e permite apreciar capacidades e "competências" (para usar o jargão das "ciências" da educação) que outras formas de avaliação decididamente não permitem. Claro, a avaliação por exame, quando estes são bem elaborados e bem corrigidos, é selectiva e imparcial. Obriga a um enorme esforço e a uma aquisição de hábitos de trabalho e de planeamento. Faculta naturalmente um instrumento de aferição comparativa dos conhecimentos. Apesar de imperfeita, só através dela se pode restaurar um mínimo de dignidade no sistema de ensino português. Não sei o que buscam os pais: se preparar os filhos para um vida boa, se dar no imediato uma boa vida aos filhos. É triste verificar que os representantes dos pais são hoje indefectíveis aliados do facilitismo. São os seus filhos que vão pagar a factura.

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segunda-feira, 16 de junho de 2008

Seis grandes ódios (Caro Manuel, o ódio nunca é pequeno!)

Odeio:
- O ódio e não conseguir resistir a ele…
- A espera.
- Nós e eles.
- Argumentos de autoridade (sua ou por referência a autoridade alheia: "como diz o Professor tal…") ou retirar das paixões autoridade (os que transformam os seus ideais em razões para impor as suas ideias aos outros).
- Levar-se demasiado a sério (que muitos confundem com ser sério).
- Políticos que detestam a política.
E mesmo não gostando do ódio se pensasse mais um pouco mais ódios teria...

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Os ódios e as paixões em resposta ao Manuel


Não odeio ser excluída. Antes, isso me obriga a dizer que existo. Por isso Manuel, aqui ficam a minha lista de ódios mas também a de paixões.
Não gosto só de gritar, gosto também de sussurar...

Ódios -
1. Odeio os que insistem em declar-se sistematicamente honestos
2. A mentira
3. A mediocridade
4. O meio termo
5. A perfeição sem pecado
6. Apertos de mão moles

Paixões -
1. Ser excluída, pois isso confere-me alguma "exclusividade"
2. Ser incongruente como convém a todas as mulheres perfeitas
3. Pessoas que riem com intensidade
4. Pessoas que me olham nos olhos quando me falam e/ou me ouvem
5. Pelo Oceano Índico
6. Pelos meus filhos

Estas duas listas dizem evidentemente respeito apenas ao que é partilhável!...

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I. Noctes Atticae, Aulo-Gélio, Vol I (livros I-IV), Les Belles Lettres, Paris, 2002

Aulo-Gélio pertence à categoria dos autores que tiveram sorte muito errática. Quase desconhecido em certos momentos da História, redescoberto e adorado noutros, repensado e relativamente desprezado em grande parte deles.

Para muitos tornou-se uma das fontes do anedotário e da erudição do séc. II d.C., para outros é apenas anedótico e fantasista. Nem sempre a justiça se encontra no meio termo, porque muitas vezes é em toda a parte que se encontra.

O grande paradoxo da coisa é que Aulo Gélio é hoje em dia francamente desprezado exactamente porque é dos primeiros jornalistas de qualidade da História. A sua obra pode ser vista pelos olhos contemporâneos como uma espécie de revista, em acréscimo revista de elevadíssima qualidade. O jornalista que se esquece não fazer obra perene deveria ler Aulo Gélio e verá que, caso seja o melhor e mais culto do seu tempo, aí tem o seu paradigma máximo. Não irá além disso. E suscitará a mesma diversidade de reacções, sendo excluído de constante e perene admiração. É bom ensinamento de lucidez, mais que de humildade. Diz também algo de uma literatura, cujo padrão hoje impera, baseada no paradigma jornalístico. Essa ainda menos será lembrada.

Pode-se perguntar em relação a esta obra o que tem a ver com o espaço público, pergunta que surgirá a propósito de muitas obras que irei referir e em relação às quais me escusarei de fazer tal demonstração. É simples: descreve-nos uma paisagem mental muito próxima da nossa e formou paisagens mentais que ainda hoje nos marcam.

O título gera efeitos paradoxais. Lembro-me, quando aprendia latim, de que as referências a esta obra nos remetiam para um ambiente difuso de pré-romantismo do fim do século XVIII, em que o refinamento e a contenção não impediam uma sensibilidade à flor da pele, delicada, como a princesa da ervilha debaixo do colchão. Sob este efeito de uma sensibilidade algo cómoda, de uma riqueza grande, mas não dissipada, de prazeres simples e requintados, parecia desenvolver-se o livro. As citações estudadas eram algo uma desilusão neste aspecto, mas o título tem tal força que esta imagem não me abandonou. Até ter lido o dito livro.

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domingo, 15 de junho de 2008

Seis Pequenos Ódios

A Dobra do Grito, um estimável blog de pintura, desafiou-me a fazer o elenco dos meus 6 ódios favoritos. Os pequeninos ódios.
Faço-o com a condição de que a Sofia Galvão, a Inês Dentinho, o Pedro Norton, a Sofia Rocha, o João Luís Ferreira, aceitem o desafio de publicarem os deles. (E porquê só eles? O desafio é para toda a Geração de 60!!!)
Ódio é, talvez, um termo excessivo, mas é verdade que detesto:

1. que digam “eles”. Na política, nas empresas, no quotidiano, quando alguém diz “eles”, cheira-me a fraqueza e a irracional auto-exclusão desculpabilizante;
2. que alguém se arrogue o “amor do cinema” ou o “amor da literatura” ou o “amor da pintura” para garantir uma qualquer forma de autoridade ao que tem a dizer sobre um filme, um livro, seja o que for;
3. o discurso anti-religioso apocalíptico. Sendo eu ateu (ou serei só agnóstico?), entendo como menoridade intelectual a incompreensão dos valores éticos e estéticos que estão associados às representações religiosas;
4. o puritanismo incapaz de se divertir, um bocadinho que seja, com o sexo, com os pecadilhos (e vá lá, de vez em quando, um pecadão) que com ele – o precioso sexo – fazem procissão;
5. a seriedade nata. Sabem como é, aquela que recusa o humor. Gente de fronte alçada que, para ser solene, tem de apresentar-se sempre com ar de dia de Finados;
6. a insensibilidade social. Aflige-me que, por superficialidade, pura tolice ou por cadavérico enquistamento, alguém perca o mais decente dos sentimentos, o da compaixão pelos seres humanos que caprichosamente a vida maltratou.
E detesto descobrir que, por mais implacável lucidez de que me reclame, não posso afinal dizer que “desta água nunca bebi ou beberei”. Fico aqui quietinho, contando que sejam mais magnânimos e misericordiosos do que eu..

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Clint Eastwood vs Spike Lee



Que televisão ou jornal portugueses se permitiriam estes "candid comments"?

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sábado, 14 de junho de 2008

Um homem de letras

Nenhum dos livros de Gore Vidal é um livro da minha vida, mas a crítica e os media americanos consideram-no o epítome do “homem de letras”. Vidal nunca escondeu a sua militância política. Hoje é um dos mais activos críticos do belicismo de Bush.

Ao El Mundo, em entrevista que pode ler aqui, foi contundente:

Temos um Governo fascista que controla a seu bel prazer a Imprensa. Os republicanos montaram um “impeachment” a Clinton porque alguém lhe fez uma mamada e, agora, não há credibilidade para avançar com um “impeachment” a Bush por violar sistematicamente a Constituição americana... Vivemos num país que dá medo. Deixámos para trás a república e renunciámos à Magna Carta. Vai-nos levar 100 anos a reparar todo este mal.

Os sublinhados são espanhóis, mas as declarações não parecem saídas da tradição democrática americana. Em vez dum discurso de racionalidade e argumentação filosófica e política, Gore Vidal opta por instaurar um relato apocalíptico.
Terá razão ou procura visibilidade? Não consigo decidir, mas tenho a certeza de que, enquanto continuar a procurar emoções na escrita, não trocarei um romance de Saul Bellow, Philip Roth ou Cormack McCarthy por um romance de Vidal. A escolha não é política, é puramente literária.

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Realidade virtual


No dia em que confessou ter tido na aprovação do Tratado de Lisboa o ponto mais alto da sua carreira e em que viu o NÃO irlandês como uma derrota pessoal,

o Primeiro-Ministro de Portugal resolveu olhar para o seu país...

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Agora amanhem-se



A minha antipatia por referendos e por todas as outras formas de democracia directa é profunda, não é conjuntural e não é de hoje. Mas não vos maço mais com argumentos teóricos. A minha humilde contribuição para esse debate está feita aqui. Hoje só me apetece ficar por um muito mais prosaico «agora amanhem-se».

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MFL

A crónica de Manuela Ferreira Leite, de ontem no Expresso, começava assim: " A questão social(...)".
Ao arrepio de qualquer consultadoria ou marketing: A QUESTÃO SOCIAL.

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