sábado, 14 de junho de 2008

Mais perfil

Sei bem que devemos enfrentar as coisas de frente,


mas por vezes não é mau tentarmos de perfil.

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Tão devagar, tão slow

Oh, meu Deus, que eu já não me lembrava.
Ardia, ardias.
Tão devagar. Tão slow.
Eram - serão sempre - os Steppenwolf. Tinham o som único, ácido, de "The Pusher "ou "Born To Be Wild". Mas podiam ser estranhamente líricos como é aqui o caso. John Kay, de vez em quando, chegava-se à boca da noite e cantava assim.


Corrina, Corrina,
Gal, where you been so long?
Corrina, Corrina,
Gal, where you been so long?
I been worr'in' 'bout you, baby,
Baby, please come home.

I got a bird that whistles,
I got a bird that sings.
I got a bird that whistles,
I got a bird that sings.
But I ain' a-got Corrina,
Life don't mean a thing.
Corrina, Corrina,
Gal, you're on my mind.
Corrina, Corrina,
Gal, you're on my mind.
I'm a-thinkin' 'bout you, baby,
I just can't keep from crying.

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sexta-feira, 13 de junho de 2008

Sua Excelência, o Poder

Vi há alguns meses um debate televisivo na Sic Notícias entre Maria de Belém e Paula Teixeira Pinto sobre o exercício do poder.

Dizia Maria de Belém que os ministros vivem isolados em torres de marfim, torres habitadas por múltiplos assessores, que "filtram" a realidade, que a mistificam. O conselho que deixava é que os titulares desses cargos se libertassem o mais possível desses assessores e preferissem o contacto com a realidade ela própria e com aqueles que ousam discordar e que oferecem outras razões ou visões.

Nesse dia lembrei-me de Voltaire, ou de como o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente.

Releio agora José Cardoso Pires, em seco e bom português: " Que quem muito se olha cega e quem muito se ouve perde a voz." (in Dinossauro Excelentíssimo)

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O Primeiro Dia

Mesmo em tradução canhestra, e sobretudo se lhe associarmos a pele macia de Lauren Bacall


perpassa uma gloriosa nostalgia neste “The First Day” de Christina G. Rossetti!


O PRIMEIRO DIA

Quem me dera lembrar o primeiro dia,
A primeira hora, o primeiro instante em que me viste;
Se era brilhante ou velada a estação,
Inverno ou Verão tão pouco sei dizer.
Tão anódino caíu no esquecimento,
Tão cega estava para ver ou adivinhar,
Tão ausente para sentir desabrochar a flor
Que ainda não voltou a florir em Maio.
Se ao menos pudesse recordar! Esse
Dia entre os dias! Deixo-o ir e voltar
Tão sem rasto como neve derretida.
Parecia nada valer e vale tanto!
Se ao menos pudesse recordar o toque,
Primeiro toque da mão na mão! – Se então eu soubesse!

Christina G. Rossetti, The First Day

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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Obama, "Lost" e uma certa selecção de futebol

O mundo parece estar a ruir, é verdade. Em Portugal, há coisas demasiado chocantes a acontecer - a morte do camionista que tentava impedir a quebra do piquete - e o ambiente é sombrio. Talvez o mundo virtual seja isso mesmo, virtual: não vale a pena combater a realidade com estados de espírito que se evaporam entre as teclas do computador.
E no entanto: escrever sobre o que nos traz alegria e nos ilumina brevemente o quotidiano pode tornar-se tanto uma forma de reciclagem interior como de manifestação exterior de confiança noutros mundos, mais justos e harmoniosos. O que têm, então, em comum Obama, "Lost" e a selecção nacional?

Todos nos transportam para um futuro mais optimista. Obama é o mais contagiante político - e o mais brilhante orador - da política norte-americana desde JFK (bastava ouvir o discurso de confirmação definitiva como candidato democrata à Casa Branca - a CNN, que se inclina mais para Rodham Clinton do que para o senador do Illinois, falava de... Lincoln no final da sessão). Não há apenas palavras belas e magníficos aforismos na oratória de Obama. Há uma medida muito exacta de esperança - mais precisamente, o infinito - e há ideias (que se esperam agora devidamente minuciosas) sobre o sistema de saúde, a reestruturação da economia, o conflito no Iraque, o futuro do Médio Oriente e o equilíbrio social interno. "I sing the body electric", e brilha.
"Lost", a série de televisão da ilha-enigma (da qual devoro, ilha e enigma, a terceira temporada em DVD à velocidade com que Sawyer manda um piropo), é um exemplo contemporâneo da diluição das fronteiras entre o Bem e o Mal, que o proselitismo europeu nos meteu na cabeça e a Reforma não resolveu. Em "Lost", TODAS as personagens são hidras de egoísmo, raiva, despeito, ódio e contínuas hesitações de compaixão. Ao mesmo tempo, todas elas são inapelavelmente humanas, frágeis como flores de estufa em plena tempestade tropical, à procura de um sentido que, finalmente, só surge em breves manifestações de amor (seja ele fraternal, filial ou de um romantismo selvagem). Nesse processo de compreensão da natureza
da espécie, "Lost" ajuda-nos - como a melhor ficção do universo televisivo pós-moderno - a afastar preconceitos e a reconstruir as nossas formas de avaliação da diferença, de todas as diferenças, uma das chaves para construirmos um futuro melhor.
Por fim, a besta negra de muitos intelectuais portugueses, o futebol (volta Pacheco Pereira, estás perdoado). Uma das pátrias emocionais de Borges, Camilo José Cela ou Carlos Drummond de Andrade é uma das últimas manifestações razoavelmente benignas de patriotismo, e se não combate os problemas do quotidiano (o futebol é um ansiolítico, não é um anti-depressivo), ajuda a amenizar os seus efeitos. Já todos sabemos que um poema de e.e. cummings pode fazer o mesmo. Mas que verso é que me põe aos saltos em cima do sofá como se tivesse cinco anos?
Apreciem - e sorriam - enquanto dura.

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Hoje não estou para graças

Richard Salcido, Misery Loves Company
As notícias são más. A tensão social sobe mais depressa do que o mercúrio nos termómetros. Este é um Portugal de uma tristeza sem remissão.

Pode ser que seja um pessoalíssimo estado de alma - logo eu que me tenho na conta de um optimista à beira da irresponsabilidade - mas comecei a sentir nestes dois últimos anos uma total incapacidade para olhar com bonomia e sentido de humor para este clinamen de sordidez e depressão. Os sinais de pobreza à volta, os sinais de desesperança nas pessoas que caminham para o emprego ou que caminham sem sentido por falta dele, o discurso áspero de quem tem pequenos negócios, cafés, livrarias, quiosques ou táxis, não enganam. Dead end!

E, por favor, não nos atiremos ao José Sócrates. E não nos atiremos ao peso do Estado. Não chega e não explica quase nada. Precisamos de diagnósticos mais corajosos, como precisamos de propostas bem mais efectivas.

Haverá ainda algum ideal por que valha a pena lutar? Há alguma beleza no horizonte para que valha a pena levantar os olhos do chão? Há alguma discussão sobre modelos económicos que não se esgote no mais fácil e oligárquico dos lucros? Há alguma réstia de justiça que possa consolar os vencidos do sistema?
Começou por ser um comentário a este post da Sofia Rocha. Acabou aqui

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A história de Léah

São 28 páginas. Nelas se escreve e descreve uma das mais calorosas histórias de amor que li, já lá vão quase mil anos. História de um lirismo sensível e “coagulado”, como diz o autor desse conto, um hoje quase ignorado escritor para quem tenha menos de 45 anos, de sua graça José Rodrigues Miguéis, clandestino na Europa, exilado na América,onde foi companheiro de Jorge de Sena, e onde acabou por morrer, bem longe da ditosa pátria tão desamada.
A história passa-se em Bruxelas, quando a Europa era um desunido e inconciliável puzzle de nações. Local da acção: uma pensão sórdida, de camas desfeitas, mau aquecimento, exíguos lavatórios e águas por despejar.
O narrador – quem será? o próprio Miguéis? um humilde e angustiado beirão? um destes tipos viris cuja masculinidade sucumbe ao primeiro sinal de candura feminina? – o narrador, dizia eu, essa voz tão pessoal mas de olhar distraído, é surpreendido (num desconsolo que hesitava entre as três e as quatro da tarde) por um rosto luminoso, boca carnuda e, sobretudo, por um corpo redondo a que a frescura da juventude conferia uma disponibilidade amável e desassombrada, inocentemente ignorando a previsível ameaça da erosão do tempo.
Na vida deste luso sem qualidades, Léah, a criada da pensão, falando o “francês aveludado de Pas de Calais”, é uma explosão que se “abre e rescende como uma flor”, como é (na minha mal informada opinião) a primeira afirmação na literatura portuguesa de uma sexualidade sem culpa, sendo seguramente a primeira celebração de uma “carne comunicativa, terna e compassiva”.
O narrador e Léah amam-se, a partir daí, todas ou quase todas as noites, ou mesmo às quatro da tarde – cabeça de quem reclinada sobre o regaço de quem? boca sincera e solícita dela a apaziguar a lusitana exasperação dele! – até lhes acontecer, magro e funesto, o primeiro beijo triste e amargo.
Quem, como na canção patética de William Blake, terá, primeiro, acolhido no acendrado colo o imundo verme do egoísmo e do medo?
Peço-vos que leiam. “Léah” é um conto de 28 páginas. Escrito num português simples e cristalino. Está nas Obras Completas de José Rodrigues Miguéis, da Editorial Estampa. A 6ª edição, a que conservei, é de 1981.
E, sempre que queriam, apareçam por aqui às 3ªs. É o meu dia de fazer companhia a mais 6 ilustres cavalheiros.

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terça-feira, 10 de junho de 2008

Portugal



Hoje, dia de Portugal.


Cresci em Peniche. Vivi, por razões profissionais, os últimos dois anos em Torres Novas. Pelo meio, já vivi em Lisboa, Porto e Funchal.



Hoje fomos visitar um familiar às Caldas da Raínha. Como sempre fazemos, passeámos pela Rua das Montras, passámos pela Praça da fruta e acabámos no jardim, naquele do lago, das termas e do pintor.


Junto do café onde dezenas de famílias liam o jornal na esplanada, onde passeavam as suas crianças à solta, andando de bicicleta ou correndo atrás dos pombos, vemos rebentar uma rixa violenta de toxidependentes, até que um, o mais exaltado e poderoso, à vista de toda a gente apavorada, saca de uma aparatosa navalha, perseguindo os restantes.



Hoje, dia de Portugal.


No regresso, a notícia de um morto ao pé de casa, nos confrontos que paralisam o país.


Não é um problema de segurança. Ou não é na essência. E quem o afirmar ou o usar em termos políticos, é demagógico e populista. É um problema de desenvolvimento e do desenvolvimento que não existe em Portugal.



As cidades de trinta mil habitantes não têm indústria, nem comércio, nem serviços, nem recursos humanos qualificados, nem investigação, nem desenvolvimento, nem emprego, nem vida cultural, nem universidades. São por isso as mais vulneráveis e as primeiras vítimas portanto.



Hoje, dia de Portugal.



Enquanto não se apostar definitivamente no desenvolvimento regional e na qualificação profissional dos seus habitantes, vamos continuar a assistir ao êxodo para os grandes dormitórios à volta de Lisboa, Grande Lisboa que segundo relatório da ONU, terá em 2015, 45% da população nacional.


Que Portugal é este hoje?





















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Um golo português

São 39 os jogadores que neste Europeu representam países em que não nasceram. Em vários desses casos a imigração deu-se com o futebol e há muita gente, incluindo, em Portugal que contesta a identidade destas selecções. Nada mais errado. Não só este é um fenómeno natural como promove, no geral, uma identidade mais saudável. Depois de marcar o seu golo Pepe afirmou que sempre tinha querido representar Portugal e que esta era apenas mais uma forma de agradecer a forma como tinha sido recebido pelos portugueses. Haverá identidade mais genuína e saudável que aquela que é desejada? É estranho para mim que algumas pessoas não coloquem em causa a identidade portuguesa de jogadores provenientes de países que colonizávamos (vejam a selecção de 66) mas questionem a identidade dos que livremente se sentem portugueses. Por mim, prefiro viver com quem quer viver comigo e não com quem a isso está obrigado A verdadeira e saudável identidade não existe no sangue nem se adquire onde se nasce: constrói-se, em relação com os outros através da adesão a uma comunidade. É uma identidade que não nos é dada nem oferecida mas que conquistamos. Só essa identidade é crítica e reflexiva e, como tal, positiva. Uma identidade que se abre e se define pela inclusividade e não pela exclusividade. Com os novos portugueses sem dúvida que mudará também a nossa identidade mas uma identidade estática não é factor de coesão mas sim uma prisão. Resistir a esta forma de identidade aberta é igualmente ignorar o futuro. Para sobreviver a Europa, e Portugal em particular, necessitarão no futuro de milhões de imigrantes: eu prefiro que eles venham a ser portugueses. O que importa apenas é garantir que a sua identidade seja voluntária e genuína. Quem tem dúvidas disso depois de ver Pepe correr e sorrir daquela forma? Obrigado Pepe por quereres ser português.

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segunda-feira, 9 de junho de 2008

Em defesa dos cabeças no ar...


Duas palavras em torno de mais esta pequena provocação do Manuel S. Fonseca, que neste seu post diz que os filósofos são, por definição, desajeitados, isto é, não são bem ao jeito deste mundo. Porque, se a verdade é que ele tem razão, a coisa tem, no entanto, que ser explicada.
A história desta ideia, tão antiga como a própria filosofia, é-nos contada por Platão, no seu diálogo Teeteto, a partir do episódio em que Tales de Mileto – normalmente considerado o primeiro filósofo –, andando a olhar para o céu, observando os astros, não viu onde punha os pés, caindo a um poço, logo provocando o riso de uma jovem e bonita (Diógenes dirá, mais tarde, que era uma velha) criada trácia. Este riso – conclui Platão – aplica-se a todos os que se dedicam à filosofia, pois que têm o corpo, apenas, na cidade, enquanto o seu espírito viaja até às profundezas das coisas.
Ora, se este riso espontâneo conhece bem a inutilidade imediata da tarefa do filósofo, que, caminhando por este mundo com os olhos postos no outro, não faz mais do que causar o riso ou a raiva dos outros homens (do que a vida – e a morte – de Sócrates em Atenas são o exemplo por excelência), o facto é que a vida presa à superfície do mundo das coisas (é o que significa a personagem da criada trácia) não tem sentido em si mesma, pelo que, perante o pressentimento da morte dado na natural corrupção dos corpos (o facto da jovem criada se ter tornado velha nas Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres de Diógenes Laércio é um pormenor delicioso), acontece também espontaneamente aos homens voltarem-se para os filósofos (aqui entendidos como sábios, ou homens das coisas do espírito), para que os guiem.
A tentação científica moderna de tudo constituir em problema que se possa resolver, porém, procurou elidir esta natural tensão do caminhar do ser humano (durante toda a Idade Média expressa na relação entre os poderes temporal e espiritual), fazendo com que, hoje, já não aconteça que Tales caia no poço e a criada se ria. Mas este nosso mundo, triste e uniforme, faria bem em lembrar a proposta de Platão, que, na República, desde a sua primeira página, propõe uma constante subida e descida (anábasis e katábasis) entre a sensibilidade e a inteligibilidade das coisas e das ideias, bem no meio do livro expressa pela alegoria da caverna, poço de onde Sócrates parte e ao qual regressa, correndo o risco de que se riam dele, ou de que o matem: porque, cá em baixo, precisamos de alguém que nos ajude e nos eleve; porque, também lá em cima, não podemos viver sozinhos!

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domingo, 8 de junho de 2008

Estou farta!


A resignação é um dos nossos males. Dos mais ancestrais, dos mais endémicos. Ciente disso, faço a minha revolução cultural. E insurjo-me. Com todas as forças, gritando alto. Já não aguento mais!

Estou farta – fartíssima – de ser chateada por uns meninos ou umas meninas que me querem impingir tudo e mais alguma coisa, sem eu pedir, sem eu querer comprar, sem eu saber quem são, de onde vêm e quem os manda. Não quero aturar mais esta gente!

Ligam sempre de números não identificados, para casa ou para o telemóvel, às horas mais inconvenientes, tratam-me por “sra. Sofia” (e não se riam, queridos amigos de Geração, porque já os oiço “sr. Alexandre”, “sr. Gonçalo”, “sra. Helena”, “sra. Inez”, “sr. João Luís”…), chamam-se, invariavelmente, Bruno, Nelson, Soraia ou Elisabete, e logo atacam, sem cerimónias, a vender MEO’s, Barclays Cards, ZON BOXes, ou o raio que os parta! Vendem a eito, sem saberem se somos clientes ou não, desdobrando a banha da cobra aprendida em módulos de formação intensiva que não devem ter ultrapassado as duas horas e meia. Pior, incapazes de sofisticação que vá para além do barro à parede, ligam-nos na semana seguinte a termos recusado a extraordinária promoção que, sem pudor, reiteram…

A mim, enervam-me, maçam-me, irritam-me. E isso é mal bastante. Mas, a outros, mais crédulos, mais vulneráveis, mais disponíveis para os ouvir, podem fazer danos bem maiores. Trata-se de gente treinada para vender areia no deserto e, nesse sentido, implacável. Começam de mansinho e, num ápice, já empenharam o interlocutor por umas vidas. Vendem ligações à internet a velhinhos que nunca viram um computador, vendem crédito fácil a quem enredam num engodo mal explicado, vendem pacotes de tudo e mais alguma coisa a quem não precisa de metade da parafrenália.

Ora, fica dito que acho gravíssimo. Pelo assédio, pela manipulação, pelo abuso. Mas, juro-vos, não ficarei por aqui.

Parece que temos um Secretário de Estado da Defesa do Consumidor. Mais rigorosamente, Secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor. Pois, vou escrever-lhe.

Primeiro, pedindo-lhe um esclarecimento: procurei e não encontrei, pelo que quero saber se há uma lista de números de telefone não integráveis em campanhas de 'telemarketing'. Depois, e em função da resposta, dir-lhe-ei mais.

Se o senhor secretário de estado me fizer saber que existe uma listinha, farei duas coisas. Desde logo, e sem demoras, tratarei de acrescentar os meus números à dita listinha. Mas, a seguir, lembrarei que, embora o meu problema se resolva assim, talvez a solução não assegure protecção suficiente aos velhinhos ludibriados com a cantiga dos 'bytes' e das bandas largas... E, nessa medida, sugerirei algo mais ou, em rigor, algo melhor. Efectivamente, melhor seria que existisse uma lista daqueles que consentem ser integrados em campanhas de 'telemarketing' e, no reverso, que se presumisse o não consentimento de todos os demais.

Mas se o senhor secretário de estado me vier confessar que não existe qualquer listinha e que, portanto, estamos mesmo todos à mercê das brigadas de Nelsons e Soraias que nos entram casa ou telemóvel adentro, passarei à fase reivindicativa. Nessa altura, pedirei ao Governo que legisle, com carácter de urgência, no sentido de garantir, aos cidadãos que não querem ser incomodados com estas técnicas agressivas e modernas de vender-o-máximo-que-puder-ao-maior-número-de-incautos-que-encontrar, o direito ao sossego e, mais importante, à auto-determinação. Pedirei, pois, uma solução assente no princípio de que o contacto em campanhas de 'telemarketing' deve depender de consentimento, prévio e expresso, do destinatário. Mais, instarei a que tal não venha a consubstanciar uma iniciativa piedosa ou para fazer de conta: é preciso que haja consequências em caso de incumprimento. Isto é, eu devo poder responsabilizar alguém se, depois de ser claro que não quero ser alvo das ditas campanhas, vier a ser incomodada a pretexto de mais um crédito, ou mais um pacote de chamadas…

Numa sociedade livre, capaz de respeitar a liberdade dos seus cidadãos, eu compro o que quiser, se quiser, quando quiser, como quiser. Não o que me impingem, quando me impingem e como me impingem. E essa pequena diferença faz toda a diferença.

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Is the “New” in New York Taking Over ?

My passport was stamped and the guard said, “Welcome home”!
Sometime during our childhood it was written in stone I would be
the man standing to her left, witnessing the most memorable day of her life. A well thought out guest list, a fantastic DJ and lots of family who flew in from Ireland, it was sure to be a perfect NY wedding!
After a few days of non-stop all around fun and laughs while celebrating with Diana and Osman-it was time for them to row along the canals of Venice while I caught up with some old friends and visited some familiar locations…or…“the once familiar”.

Was it easier to get around? Was it easier to get a table? Was it easier to get a cab?
For as long as I can remember, there is always an annoying person/s blocking the side walks
whenever you are running late, it has always been difficult to get a table unless it was during weekends
like Memorial Day and taxi’s, nothing has changed. It’s always been difficult to get a cab during off duty periods, when it rains or when it comes down to the corner to corner “wave battle” with a fellow NYorker.

Traveling to far places, not knowing the language, where to eat and finding it difficult to get around reminds us of what it feels like to be a minority. In the end though, being stimulated by the “very first time seeing something” compensates for the occasional “never ending expensive taxi ride” we some times have to deal with getting there!
On the other hand, when we travel to familiar places over the years, strolling through some of our favorite neighborhoods on a bright Sunday afternoon can also feel like “I’ve just been robbed”- not from a nutty cab driver - but of some memorable moments!

The cost of living has become even more difficult, long term leases are coming to an end and some small businesses have become so small they simply go poof!
I would turn a corner and another of my favorite “spots” has a
hand written sign on the window saying, “thank you for all the years of continuous visits, we are going to miss you”. It’s a sure reminder of reality!
Mentally, I’m not sure what makes the finish line first-the fact I will never be able
to sit at my favorite table or the thought of “what’s going to close next”? The sad part, both have an unhappy ending.
The flip side; as many closing- the double are opening.
Change can be good some times, but it’s always a bummer when we can’t get “grandmas cooking” any more.

Chef Guerrieri

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Vida e Morte

'The Shadow of Death' por William Holman Hunt

De Sócrates a Nietzsche, a existência humana andou balizada por dois extremos estáticos e inflexíveis, a VIDA e a MORTE.
O século XX mudou tudo. Mudou a nossa relação com o sofrimento e com o nosso corpo, as relações com os nossos órgãos e a medicina, as relações entre as ciências e a ética. Hoje, a existência, mais ou menos humana, decorre entre dois extremos elásticos e manejáveis, o ABORTO e a EUTANÁSIA.
Os filósofos, por definição desajeitados, foram saindo da sala.

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sábado, 7 de junho de 2008

A Aventura

Há por aí, nos “blogs”, alguém que se lembre de quem era Antonioni? Os frequentadores da Cinemateca – contam-se, é claro, pelos dedos de duas mãos – lembram-se de certeza. E, com sorte, lembram-se também os que, inspirados pelo pelo eterno feminino, ainda guardam, e sempre vão guardar, naqueles olhos que a terra há-de comer, a silhueta da mais sofisticada e nórdica das italianas, Monica Vitti.
Michelangelo Antonioni e Monica Vitti encontraram-se pela primeira vez num filme perturbante, austero e escasso que deu pelo nome de “L’Avventura”. Preto e branco, franciscanamente financiado, quanto mais não fosse porque o realizador se limitava a dizer aos produtores que era a história de uma rapariga que desaparecia numa ilha desabitada e que nunca mais ninguém encontrava.
A mais bela história da rodagem, onde não é descabido aludir, para estar de acordo com o espírito de Antonioni, ao Mito, ao Mistério e ao Eterno, aconteceu em Lisca Bianca – a tal ilha deserta – quando, no horizonte, a alguns quilómetros, surgiu uma tromba marinha, uma espécie de gigantesco cone invertido. Lá vinha ele, ameaçador, em direcção a Lisca Bianca. O cineasta decidiu incorporar a “aparição” no filme e estava disposto a tudo (danassem-se céus e infernos) para ter a imagem mais próxima que pudesse.
Mas a bela Vitti de olhos azuis, quando a população local que trabalhava na equipa lhe disse que se a tromba ali chegasse os poderia arrastar a todos, entrou em pânico. “E che si fa?” perguntou. Um dos homens, Bartolo, tinha dons e sabia la parola, uma reza ritual que poderia atalhar a tromba marinha. Vitti implorou-lhe que usasse os seus dons. E conta a esplendorosa e tremente Monica Vitti: “Ele olhou-me, seriíssimo, depois, levantou a perna esquerda e cruzou-a com a direita, fez o sinal da cruz, murmurou a fórmula e, acreditem ou não, a tromba desapareceu. Michelangelo, que era céptico quanto aos poderes de Bartolo, começou a atirar-se a ele, a insultá-lo e a ameaçá-lo de despedimento”.
Serve o vídeo abaixo para que recordem a "incomunicável" beleza desse filme que foi o primeiro da famosa "trilogia da doença dos sentimentos" - "L'Avventura, La Notte, L'Eclisse - que Antonioni assinou.

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quinta-feira, 5 de junho de 2008

Te Voglio Tanto Bene


Num Verão, numas férias de Verão, fui todas as noites ouvir esta canção a uma esplanada sobre a baía de Sorrento. Ando à procura de uma interpretação feminina tão íntima como a que julgo, então, ter ouvido à esbelta amadora de Sorrento. Encontrei esta, cantada por Lucio Dalla, seu autor e canónico intérprete, aqui acompanhado por mais três italianos autênticos. Cantam “Caruso” com o à vontade e o amor de quem se bate com gli spaghetti aglio e olio. Ou de como uma das mais belas canções de amor pode ser um descontraído momento de comunhão e identidade. Te voglio tanto, ma tanto tanto bene.

Se ficaram com vontade de experimentar "Caruso" noutros registos, podem sempre ir à procura de Pavarotti, ou tentar esta versão da Lara Fabian, mais show bizz, requebros excessivos, mas ainda assim com le lucci in mezzo al mare.

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A náusea



Eu até gosto de futebol. Sim, do jogo, daquela coisa que se joga com uma bola, duas balizas, e são onze de cada lado. E de golos de cabeça. E como bom filho da Geração de 60, tenho um autógrafo do Eusébio, que ainda vi jogar. Confesso: o meu sangue é vermelho.

Mas há cerca de um mês que se vive uma histeria colectiva em Portugal que pouco tem a ver com o jogo. Comecei a perceber que algo de estranho se passava quando o país parou às 20h e a grande notícia de abertura dos telejornais era que “Scolari não convocou Maniche nem Caneira”.

A partir daí o país entrou em delírio paranóide. A Selecção, pois então! Há dez dias, contra o que costuma acontecer, consegui ver os telejornais: 2 faziam directos de Viseu, acompanhado a Selecção; outro transmitia uma reportagem de Neuchâtel, onde a Selecção iria estagiar, entrevistando “populares”. Meia hora de telejornais nisto. Entretanto, literalmente como notas de rodapé, coisas menores como a Birmânia, a China, o Darfur, o Obama. Notícias mesmo só a alta do petróleo – mais uma vez tratada por meio de entrevistas de populares indignados na estação de serviço. Ah! E parece que is haver eleições no maior partido da Oposição. Insignificâncias.

A partir daí tem sido o crescendo da fase maníaca – são os jogadores e o Scolari que vêm, em outdoors, jornais e anúncios da TV, enfileirar boçalidades para vender seguros, electrodomésticos, computadores, cervejas, telemóveis ou assegurar a um país cuja agricultura está decadente no meio de uma crise alimentar que produzir vinho é que é bom.

O Homer Simpson, num episódio em que uma estrela de rock se insurgia contra o aquecimento global teve uma tirada genial, cuja ironia infelizmente se perdeu em muita gente: “Rock stars! Is there anything they don’t know?" Todos sabemos que cantar, como dar pontapés numa bola, transforma instantaneamente os ídolos da multidão em especialistas em tudo: das finanças à informática, da climatologia à agricultura. Para quê perder tempo a estudar os problemas? Basta-nos a palavra dos homens que sabem marcar golos!

É a rádio que nos bombardeia com publicidade aos gritos irritantes e permanentes de “GOOOOOOOOOOOLO!”, “Portugal! Portugal! Portugal!”; as bandeirinhas de Portugal (chinesas!, que até as bandeiras nacionais importamos) e cachecóis recomeçam a aparecer nas janelas e nos carros. A fase maníaca desta bipolaridade que faz esquecer por breves instantes, como o álcool numa noite de euforia, a depressão da crise, a seriedade dos problemas e a gravidade das soluções. E leva pessoas adultas fingir, e talvez algumas acreditar, que fazem algo de significativo por andar com uma bandeirinha no carro e a cara pintada em dia de jogo. Que isso é gostar do País.

Mas é tudo postiço nesta bipolaridade. A ressaca há-de vir. E quem se fica a rir, enquanto não entramos na fase depressiva, é mais uma vez o poder que manda: durante (parece que) mais um mês o "Povo" vai andar distraído, talvez com pouco panes mas certamente muito circensis. E depois vai tudo a banhos. Não podia ser melhor. A quem é que apetece discutir o Código do Trabalho, a crise alimentar e energética ou as eleições americanas quando o Ronaldo marcar golos e despir, para gáudio do público feminino (e não só) a camisola, dando origem a dias de comentários?

Por mim acho francamente que me vou enfiar no cinema quando Portugal jogar. Não está lá ninguém, não vou ouvir vizinhos aos urros nem carros a apitar e tem ar condicionado. Eu, que até gosto do jogo, estou nauseado de tudo isto.


Não há pachorra.

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quarta-feira, 4 de junho de 2008

Guerra & Paz: leia

Será que Sarkozy e Blair foram apanhados a fumar?
Não confirmo, nem desminto! Sei apenas que desta vez é mesmo promoção descarada. Mas não resisto (e porque é que havia de resistir?) a anunciar-vos estas três novidades da Guerra e Paz Editores.
Começo por um livro que ainda está na tipografia e só chegará às livrarias daqui a um mês. A capa é uma delícia e a vocação a um tempo terapêutica e provocatória é irresistível. “Ler Este Livro Não Mata” e “Como Começar a Fumar” são dois dos lemas deste precioso achado (e eu nem fumo). Como se dizia no velho “Johnny Guitar", do Nick Ray, e perdoem-me se torço um bocadinho a frase: “That’s all a man needs, this book and a cup of coffee”. Voltarei à carga quando sair "O Prazer de Fumar Cigarros".
Igualmente provocatório e iconoclasta, aqui têm o testemunho do presidente francês, Nicholas Sarkozy. Se querem de facto saber o que Sarkozy pensa sobre temas tão diversos como o desemprego, os Estados Unidos, a educação, Israel, a imigração ou a pobreza em África, - e o que ele pensa é ousado, optimista e radical – leiam este livro (a partir de 25 de Junho) e entrem no século XXI.
Um ano depois de Blair abandonar o poder, Bernardo Pires de Lima, especialista nas áreas da segurança europeia e relações transatlânticas, e colunista da revista Atlântico, publica um balanço dos 10 anos de política externa do governo que Tony Blair dirigiu. E vão já preparando a vossa agenda. O livro terá lançamento no dia 27 de Junho, na livraria Byblos. Dizem-me que o João Pereira Coutinho e o Rui Ramos lá estarão. Ah, o prefácio é de José Lamego.
Não gastem o dinheiro todo na Feira – que ainda por cima, e como diz o Pedro Lains, é pindérica. Vêm aí livros com charme e com fumo. Lembrem-se: não há fumo, sem fogo.

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Almedina Excelentíssima

Conheci a livraria Almedina em 1990 quando fui para Coimbra estudar. Estava perto do arco, que de resto, lhe deu o nome. Descíamos da faculdade pelo quebra-costas até ao dito arco já quase na Rua Ferreira Borges, com o nome dos livros escritos num pedaço de papel. A livraria era, em rigor, um depósito de livros, tinha um balcão de madeira tosco, atrás do qual evoluía o Sr. Figueira. O Sr. Figueira tratava-nos com o absoluto desdém que os estudantes mereciam. Era grande, escuro e de sobrolho franzido. Não destoava muito dos merceeiros que aviavam os fregueses - era assim que dizia o meu avô. Os livros eram encomendados e numa segunda ou terceira visita comprados.
Nos anos seguintes vi abrir livrarias almedina, verdadeiras livrarias, espaços pensados para juristas, estudantes, leigos, com mesas e cafetaria e espaços para conferências. Lembro-me sobretudo de ter ficado muito feliz quando abriu a livraria do Funchal, arrepiando distâncias e poupando-me a mala nas deslocações ao continente.
Na semana passada entrei na livraria do Saldanha e apesar de ter visto as novidades jurídicas, optei por virar à direita para ver os livros livros. Porque queria ler o Lavagante de Cardoso Pires, trouxe também o Dinossauro Excelentíssimo e ainda um da Agustina sobre Camilo. Pagava três, trazia quatro livros, parecia-me um excelente negócio.
Atrás do balcão, alto, estilizado, preto, militavam umas raparigas com o toque distintivo do Bloco de Esquerda, que é assim um ar um pouchinho de transgressão e modernidade citadina caseira, que se percebe pelo corte revolucionário da franja, bem como pela assumpção do uso de óculos, e ainda pela rejeição total do uso do dourado na indumentária.
Pergunto, porque é que este livro da Agustina é de uma editora diferente dos outros todos que tenho em casa? O olhar parado, martelado o computador, a resposta seca, é o que temos. Parecia que eu lhes estava a falar chinês, a pedir a Quinta Essência, da mesma autora.
Sorri e tive muitas saudades do Sr. Figueira que do alto da sua sabedoria me teria dito, com mau modo, que o livro era assim por isto e por aquilo, etc. e tal, deixando no ar uma certa reprovação por tanta ignorância.
À noite ri-me com verdadeiro gosto quando reli o Dinossauro Excelentíssimo e a descrição da cidade dos doutores -e a cujos candidatos se lhes rapava o cabelo.
Voltarei à livraria. Prometo não mais fazer perguntas. A franja não corto. Quanto aos dourados ainda se vai ver.

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Livros e poder

Ontem lá fui à Feira do Livro. A prova de que é preciso mudar de local são os novos pavilhões da LEYA, que são tão maus como os outros. Mas percebe-se porque é que foram feitos. É que cada uma das barracas antigas precisa de dois funcionários (sim, calha bem aqui essa tão nossa designação). Os novos pavilhões servem para poupar pessoal. Alguém os pode recriminar por isso? Este é um caso em que o desenvolvimento institucional (o da APEL) está aquém do desenvolvimento do mercado. Acordem senhores, sobretudo os da Câmara. Quanto ao desenvolvimento do mercado, prestemos atenção às novas livrarias Trama e Pó dos Livros, onde todos temos de ir comprar meia dúzia de livros.

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segunda-feira, 2 de junho de 2008

Le sac de Rome, 1527, André Chastel, Gallimard, 1984



“O dia que mudou o mundo”. Frase que cai bem como rótulo jornalístico. Mas convenhamos: se o rótulo jornalístico for critério de vida esta escora-se no escândalo, na síntese apressada, no slogan. O que tem limitação de espaço para a expressão pode ser útil como aviso. Mas não é nos sinais de trânsito que procuro o estalão da existência.

Diz-se tal coisa do assalto às Torres Gémeas em Nova Iorque, quando a queda do Muro de Berlim é incomparavelmente mais significativo. Cinquenta anos de risco de destruição do mundo em guerra nuclear foram simbolizados por essa queda. A divisão artificial do único continente que é também uma cultura, tendo conseguido o que séculos de dificuldades de comunicação nunca conseguiram. As Torres Gémeas são mais uma consequência que uma causa. A consequência de uma ilusão infantil, a de que o capitalismo tinha vencido e não se fala mais nisso. E menos um símbolo que uma notícia.

É evidente que o mundo não muda num só dia. Mas é igualmente evidente que há símbolos que têm mais impacto que outros. Nem que seja na perspectiva da História das representações, da mentalidade, há efectivamente dias que mudam o mundo. Quando Roma cai em 476, quando Constantinopla cai em 1453 quando Dimitri Donskoi vence os turcófonos da Ásia Central, Bouvines, a decapitação do rei Carlos na Inglaterra do séc. XVII, a do rei francês no século XVIII... a lista pode ser muito estendida.

É importante não cairmos em dois extremos. Nem o de idolatrar a importância desses eventos, nem de lha negar.

1527 faz parte desse eventos. Roma é tomada de assalto. Por protestantes e católicos. Soldados alemães do exército de um imperador católico (Carlos V), chefiados por capitães católicos e protestantes, assaltam Roma e saqueiam-na. Traço importante a reter: na Europa dita das guerras de religião, católicos e protestantes estão unidos politicamente contra Roma. O império germânico, católico e protestante, não se dissolveu de vez. E desde sempre católicos e protestantes foram aliados.

Mas mais importante que isso, o saque de Roma leva a uma mudança de estado de espírito, a criação de novos estilos, a revoluções das formas de expressão que são profundas e significativas. A queda das Torres Gémeas não anunciou novos movimentos literários nem artísticos. Apenas a novas ênfases jornalísticas. Não há Ticianos a celebrarem-na. Não há poetas do Siglo de Oro a cantarem-na. Nem pensadores da estrutura de um Melanchton (protestante) ou Erasmo (católico) para lamentarem as destruição do seu património. Não há, como no saque de Roma, alguns dos mesmos soldados que o efectivaram a penitenciarem-se em massa por o terem feito.

Roma tem um peso como símbolo que nenhuma torre isolada ou geminada consegue ter. Ou então, salvo se a hipótese for comutativa, à genialidade de uma época contrapõe-se a mediocridade de outra.

“O dia que mudou o mundo”, dizem das Torres Gémeas de Nova Iorque. Lembro-me sempre da frase de Talleyrand: tudo o que é exagerado é insignificante. Esperemos nós que não seja só o que a época diz que o seja, e não que o seja a época. Embora tenha algumas dúvidas que uma e outra coisa se possam diferenciar.


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Alexandre Brandão da Veiga


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