A náusea
Eu até gosto de futebol. Sim, do jogo, daquela coisa que se joga com uma bola, duas balizas, e são onze de cada lado. E de golos de cabeça. E como bom filho da Geração de 60, tenho um autógrafo do Eusébio, que ainda vi jogar. Confesso: o meu sangue é vermelho.
Mas há cerca de um mês que se vive uma histeria colectiva em Portugal que pouco tem a ver com o jogo. Comecei a perceber que algo de estranho se passava quando o país parou às 20h e a grande notícia de abertura dos telejornais era que “Scolari não convocou Maniche nem Caneira”.
A partir daí o país entrou em delírio paranóide. A Selecção, pois então! Há dez dias, contra o que costuma acontecer, consegui ver os telejornais: 2 faziam directos de Viseu, acompanhado a Selecção; outro transmitia uma reportagem de Neuchâtel, onde a Selecção iria estagiar, entrevistando “populares”. Meia hora de telejornais nisto. Entretanto, literalmente como notas de rodapé, coisas menores como a Birmânia, a China, o Darfur, o Obama. Notícias mesmo só a alta do petróleo – mais uma vez tratada por meio de entrevistas de populares indignados na estação de serviço. Ah! E parece que is haver eleições no maior partido da Oposição. Insignificâncias.
A partir daí tem sido o crescendo da fase maníaca – são os jogadores e o Scolari que vêm, em outdoors, jornais e anúncios da TV, enfileirar boçalidades para vender seguros, electrodomésticos, computadores, cervejas, telemóveis ou assegurar a um país cuja agricultura está decadente no meio de uma crise alimentar que produzir vinho é que é bom.
O Homer Simpson, num episódio em que uma estrela de rock se insurgia contra o aquecimento global teve uma tirada genial, cuja ironia infelizmente se perdeu em muita gente: “Rock stars! Is there anything they don’t know?" Todos sabemos que cantar, como dar pontapés numa bola, transforma instantaneamente os ídolos da multidão em especialistas em tudo: das finanças à informática, da climatologia à agricultura. Para quê perder tempo a estudar os problemas? Basta-nos a palavra dos homens que sabem marcar golos!
É a rádio que nos bombardeia com publicidade aos gritos irritantes e permanentes de “GOOOOOOOOOOOLO!”, “Portugal! Portugal! Portugal!”; as bandeirinhas de Portugal (chinesas!, que até as bandeiras nacionais importamos) e cachecóis recomeçam a aparecer nas janelas e nos carros. A fase maníaca desta bipolaridade que faz esquecer por breves instantes, como o álcool numa noite de euforia, a depressão da crise, a seriedade dos problemas e a gravidade das soluções. E leva pessoas adultas fingir, e talvez algumas acreditar, que fazem algo de significativo por andar com uma bandeirinha no carro e a cara pintada em dia de jogo. Que isso é gostar do País.
Mas é tudo postiço nesta bipolaridade. A ressaca há-de vir. E quem se fica a rir, enquanto não entramos na fase depressiva, é mais uma vez o poder que manda: durante (parece que) mais um mês o "Povo" vai andar distraído, talvez com pouco panes mas certamente muito circensis. E depois vai tudo a banhos. Não podia ser melhor. A quem é que apetece discutir o Código do Trabalho, a crise alimentar e energética ou as eleições americanas quando o Ronaldo marcar golos e despir, para gáudio do público feminino (e não só) a camisola, dando origem a dias de comentários?
Por mim acho francamente que me vou enfiar no cinema quando Portugal jogar. Não está lá ninguém, não vou ouvir vizinhos aos urros nem carros a apitar e tem ar condicionado. Eu, que até gosto do jogo, estou nauseado de tudo isto.
Não há pachorra.






Não sei se a Natureza também tem direito a assunções ideológicas ou não, mas a verdade é que este casal – ambos filhos de mães inglesas brancas que casaram com pais negros – teve gémeas, uma de cada cor. Presumo que o pessoal skin não aprecie por aí além tanta ironia genética.





