sábado, 31 de maio de 2008

Maio 68 (2)

O programa que arrastou os milhares de estudantes em França e alastrou a outras democracias estabilizadas, de forma mais episódica é certo, como a dos Estados Unidos ou a de Inglaterra, é um programa que não tem a sua origem propriamente no Maio de 68 que foi o amplificador do que vinha longamente a ser preparado pelo pós-guerra, pelo crescimento económico, pelo bem-estar, pela liberdade de deslocação, pelo excesso de confiança do homem na sua autonomia e pela falta de uma referência de combate, de um medo, de um inimigo.

Foi o confronto de um mundo cheio de princípios e cuidados (o dos pais) traumatizados pela experiência da Grande Guerra e um mundo que na abundância não tinha a noção de limites e, por isso, recusava a ordem, os espartilhos, a orientação, a carreira pré-definida, a moral institucional. Foi no fundo a percepção de que as coisas podiam não ser assim, que se podia viver da vontade sem pauta nem regra, como seres apenas naturais e sem hierarquias. O que o crescimento económico e uma certa noção Paz e de abundância trouxe às novas gerações foi a recusa da ideia de que o mundo não está de uma vez por todas feito. Ele tem de ser construído sempre de novo. E que fazer o mundo exige sacrifícios, regras, disciplina, esperança, inteligência, respeito ao próximo, coragem e humildade.
De certa forma, os jovens induziram, então, que podiam viver para a arte, para o prazer, para o consumo como se este fosse um direito inerente ao ser humano, para um egoísmo ainda que sistemática e estrategicamente escondido num certo comunitarismo ou gregarismo.
Não é próprio da experiência juvenil a noção das consequências do que tomam como verdades absolutas. O interesse do jovem só se realiza na urgência e na pressa do seu desejo. A juventude tem mais pressa que a velhice. Por isso, também, é mais conclusiva, mais assertiva, mais exigente e mais maniqueísta. A disponibilidade para abraçar causas, para abandonar o status quo, para radicalizar posições, é directamente proporcional à sua disponibilidade física (excesso de energia), ao seu despojamento (poucos bens materiais), à sua curiosidade experimental (têm fome de conhecer) e ao seu desejo (a busca do prazer). Por isso, os partidos se dirigem aos jovens desde cedo, a sua boa vontade e a sua credulidade são facilmente manipuláveis.
Economicamente mais consumidor do que produtor o jovem tem acesso ao que ainda não produziu e esse acesso indu-lo no erro de que não precisa de produzir para consumir, em rigor pode até supor que não precisa de consumir. Mas tal posição, quando tomada, sabe ser ilusória porque, no limite, a necessidade de consumir será satisfeita por quem tem a responsabilidade que o jovem recusa. A estrutura que o jovem põe em causa é a mesma que o salva dos excessos dos seus ímpetos.
O que ficou do Maio de 68 foi uma licença institucionalizada de contestação como um direito dirigido a qualquer estrutura de poder existente. Mas essa licença de contestação ficou, em muitos casos, como uma manifestação de uma vontade ou da aderência a uma manifestação de grupo sem uma verdadeira leitura filosófico-política. O espírito sindical disseminou-se pelas corporações laborais, pelas minorias, pelos partidos políticos, pelos grupos religiosos, e por toda e qualquer causa que qualquer um tenha abraçado. O registo é o do nós aqui estamos e queremos dizer que temos direitos e vão ter que nos ouvir, vão ter que alterar as vossas vidas porque nós nos estamos a manifestar e cortamos as ruas. Não importa que tenham eco na sociedade, não importa que tenham legitimidade para o fazer, nem sequer importa que as suas manifestações façam sentido. Defendem os seus interesses mesmo contra os interesses da sociedade. E este espírito de revolução permanente até acabou por se institucionalizar em festas, paradas, descidas da avenida ou outras formas sem que haja uma autêntica espontaneidade. Tudo é organizado e combinado com a Polícia, o Governo Civil e com as televisões. E no seu modo de organizar estas manifestações utilizam os mesmos instrumentos de indução e pressão da opinião que qualquer produto utiliza no seu marketing. São uns a querer educar os outros dizendo que querem sensibilizar e alertar, que querem fundar uma nova consciência. E sabem que a televisão, que actua pela sua natureza de forma subliminar pelo poder implícito da imagem (senão para que serviam os anúncios), lá estará pelo dever de informar, a cumprir o seu papel e a realizar os objectivos dos grupos de activistas.
O poder da rua foi a grande conquista do Maio de 68. Mas em 40 anos o poder da rua também se institucionalizou e hoje, que mais do que então se justificava a saída para a rua espontaneamente, está tudo organizado, devidamente enquadrado e toda a contestação é pouco mais do que bifanas e couratos. Um convívio inócuo que não belisca o Poder.

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Maio 68 (1)

Para ser sincero o Maio de 68 não está no meu imaginário. Tinha 5 anos e ouvia a música dos anos 60 nas festas dos mais velhos: Beatles, Neil Young, Rolling Stones, Melanie, Cat Stevens. Pressentia a clivagem das gerações mas a política ainda não existia para mim.
O Maio de 68 também não terá sido perceptível em toda a sua extensão nesses tempos em que ocorreu. Os idealistas de então não tinham ainda completado o ciclo que viria a revelar as suas plenas intenções e os seu plenos interesses. Ser de esquerda, mesmo com reservas aos regimes comunistas plenamente implantados na altura, era ser marxista, leninista, maoista, trotskista, etc... O que verdadeiramente importava naquela sinestesia ambiental não era tanto a experiência desses ismos mas a teoria que lhes estava na raiz. A realidade teórica poderia, então, ainda, superar o falhanço evidente.

A via da legitimação dessas ficções era de algum modo a destruição pela força da vontade popular das estruturas organizadas do poder, um poder sempre negativo que o anarquismo conveniente à data estava disposto, mesmo sem modelo organizacional e por isso mesmo, deitar por terra. À distância há quem diga que naqueles dias, semanas de Maio e dos meses seguintes, pelo menos até às eleições, se viveu numa autêntica sociedade sem classes em que todos, sem hierarquia, faziam um pouco de tudo e comungavam as alegrias e o pão sem o vil metal de permeio. Todos? Não todos os que participavam e queriam provar que era possível. Pelo menos até se fartarem. Mais tarde, feito o balanço, não terá sido bem assim, e os que pilotavam a refrega, sempre com estatuto especial, acabaram engagés nas estruturas de poder que não se abalaram. A caravana passa..., em terra de cegos..., muito sabem os provérbios...
Dois grupos teriam interesse directo nas lutas: os estudantes e os operários. Os estudantes, burgueses, filhos de uma classe média em ascendência em tempos de abundância, vislumbravam uma saída para uma sociedade em que não queriam participar, diga-se, produzir. Por outro lado, os operários, sentindo uma oportunidade para reivindicar direitos, cavalgaram a onda com um capital moral que os estudantes não tinham no plano político-laboral: eles, os estudantes, iriam ser doutores e engenheiros, teriam as suas carreiras mais tarde ou mais cedo garantidas e eles, os operários, teriam de continuar a reivindicar os seus direitos e os seus benefícios numa luta contra o patronato, contra o Estado e contra uma sociedade que os fazia viver do seu trabalho (proletários). Ou seja, a luta dos estudantes poderia ser uma festa temporária e sem consequências, a luta dos operários (proletários, porque vivem apenas do seu trabalho) teriam de manter, permanentemente, a luta.
Também os partidos e os grupos de esquerda politicamente organizados tentaram tirar partido, senão mesmo instigar e promover, o clima de desordem pública e de fervor revolucionário, para, aproveitando as simpatias ideológicas, irem ajudando a ampliar a onda de revolta, municiá-la de instrumentos de acção que dominavam, e poder vir a controlá-la segundo os seus interesses. Essencialmente, tratava-se de lançar as grandes questões da esquerda na discussão como forma de pressão na opinião pública, tratava-se de conduzir o condicionamento mental de toda uma geração de estudantes e com eles de jovens, e de instruir e ampliar no mundo operário o princípio reivindicativo e de subversão do poder e da ordem num anarquismo perpétuo e sempre possível se o princípio da desconfiança ficasse bem enraizado. No fundo interessava que o ideário da esquerda se tornasse transversal à esquerda e à direita, ou à esquerda e na organização tradicional da sociedade, ainda que as “políticas” continuassem as mesmas, mais liberais, porque apesar de tudo é necessário criar riqueza antes de pretender nacionalizá-la e começar a distribui-la sem mérito nem justiça.
Ao fim de algumas semanas tudo se esvaiu. Ch. de Gaulle venceu retumbantemente as eleições que a democracia popular não queria realizar e aquele mito que o povo estava com os revolucionários desfez-se. A revolução enrolou as suas bandeiras e foi para casa. Afinal tinha sido uma festa, talvez até, para muitos um sonho, mas que acabou quando desceram à realidade, regressaram às aulas, finalizaram os seus cursos, integraram-se no mundo laboral, e muitos dos seus líderes radicais, integraram-se nas estruturas políticas, governamentais e públicas onde continuaram as suas actividades políticas bem menos exaltados. Com o tempo percebeu-se que, no fundo eram burgueses que queriam apenas realizar o ideal de todas as burguesias: ter uma vidinha organizada e, de preferência, com sucesso, viver de amizades e de grupos que lhes dêem uma identidade, e poderem alardear uma superioridade moral pelos cargos que ocupam nas Empresas, no Estado, em Institutos, nos Media e em Partidos, ou se não for o caso, alardearem a superioridade moral (e estética) de terem lá estado, de terem conhecido os que triunfaram, de terem tido o seu momento de participação na história e poderem contá-lo na primeira pessoa aos netos.
Os operários, mais realistas, acataram a ordem e mantiveram com os seus aliados de sempre, as lutas que as esquerdas radicais e as esquerdas moderadas quando na oposição, sempre mantêm, para justificação da sua existência, sejam os partidos sejam os sindicatos. Participaram, desconfiados, da festa, não sei se lhes aproveitou alguma coisa objectivamente.
E o mundo? O que ficou desse Maio? Se a alteração da ordem económica não era no fundo uma possibilidade realista, que outra ordem veio a alterar-se no rescaldo do Maio de 68?

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Manuela ganhou

Manuela ganhou. É, no PSD, a vitória da sensatez e do pragmatismo. Saúdo os meus co-bloggers que, ao contrário de mim, não desesperam e acreditam que o país tem soluções que não passem por abdicarmos da soberania a favor de Espanha ou, firmemente convencidos de que não há pecado abaixo do Equador, entretermo-nos com dinâmicos e ambiciosos negócios em Angola. Seja como for, e sem desfazer, expliquem-me lá, por cortesia, para que tortuososos abismos e sacrificados esforços é que a inabalável e vetusta Manuela nos vai agora convidar? E que caminhos serão esses que não tenham já sido o nosso ditoso fado, de Guterres a Sócrates, passando por Durão e Santana? Valha-nos o facto de Manuela ter tido um lustro sabático (nas ilhas do Pacífico?) e nunca ter sido decisora nessas trágicas e obscuras governações.

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O caso do vidro que veio enganado...

Há mais ou menos quinze dias assaltaram-me o carro. Partiram o vidro, mexeram nas minhas coisas, roubaram um GPS e, na pressa causada pelo troar do alarme, levaram metade de um rádio, que sinceramente espero que funcione melhor do que a metade com que eu inutilmente fiquei.
Enfim, já muitos passámos por isso. Uma chatice: telefonar ao ACP para guardar o carro durante a noite; fazer queixa à PSP porque sem isso não podemos accionar o seguro do carro; fazer uma peritagem num local indicado pela seguradora; dirigirmo-nos a uma garagem onde, primeiro, nos façam um orçamento e, depois, nos arranjem o carro… e tudo isto, claro está, no meio dos normais afazeres do dia a dia.
Já quase tudo passado, faltava-me apenas substituir o vidro do carro, o qual foi encomendado há já mais de uma semana (tenho andado com um plástico colado à porta do carro, que simpaticamente puseram na oficina, o que me obriga a estacionar, à noite, em cima dos passeios, quase encostado às paredes das casas). Telefonaram-me finalmente com a boa notícia de que o vidro já cá estava e ontem, sexta-feira, lá deixei o carro logo de manhã na oficina para o poder ir buscar, já pronto, à hora de almoço.
A meio da manhã, no entanto, recebi uma mensagem no meu telemóvel que textualmente dizia: «Bom dia fala da ....... venho por este meio informa-lo que o vidro pra a sua viatura não veio correcto, sendo assim fico aguardar um contanto. Obrigado». Fiquei a saber, portanto, para além das evidentes qualidades ortográficas de alguém daquela oficina, que o vidro tinha vindo enganado.
Chegado à oficina à hora do almoço, como combinado, informei amavelmente que os vidros não se enganam, pedindo que me explicassem o que é que se tinha passado. O meu objectivo não era retórico, mas, em vista de uma óbvia dificuldade, descobrir um responsável para, a partir daí, poder resolver o problema. Mas, manifestamente, eu não estava a perceber, porque várias vezes me explicaram que o vidro tinha mesmo vindo enganado.
Já no fim da conversa, consegui a custo arrancar o nome de um longínquo Sr. José Ângelo, que, ao que parece, tinha trocado os vidros, sendo que estava no Porto e era da concessionária, factos que, a mim nada adiantando, cumpriam, no entanto, a função de manter a responsabilidade distante e alheia.
Daqui para a frente o diálogo tornou-se impossível, porque à pergunta: «Então quando é que o vidro cá vai estar?», imediatamente se seguia: «O mais depressa possível». Claro que eu então perguntava: «Mas concretamente quando é que isso vai ser?», ao que amavelmente respondiam: «Ai isso não lhe posso dizer». E quando eu indagava: «Porquê?», as respostas variavam entre: «Depende do Sr. José Ângelo», «depende da concessionária», ou «depende do Sr. José Ângelo, que é da concessionária».
Vim-me embora – à espera de uma nova chamada, que não sei quando vai ser. Mas, entre o vidro e o Sr. José Ângelo, dei por mim uma vez mais a pensar que é este, talvez, o principal problema do nosso povo: a inexistência de um verdadeiro sujeito, criador, activo e responsável. Porque quando alguma coisa acontece no nosso país, em todos os seus diferentes e variados níveis, sempre aparece alguém que, com simpatia e boa vontade, nos explica que a responsabilidade é distante e é alheia.
Ora, nunca é demais lembrar a história de Adão e Eva, que, depois de desobedecerem a Deus, não quiseram reconhecer, perante Ele, a sua responsabilidade: Adão apontou para Eva e Eva para a serpente, a qual não apontou para ninguém, pois como se sabe, não tem dedos. Pelo castigo, porém, Deus não queria fazer-lhes mal, mas repô-los no bem (castigare, em latim, vem de castus + agere, que literalmente significa agir castamente). Para isso eles tinham que assumir a responsabilidade do que tinham feito. Não o fazendo, foram expulsos do paraíso, para que o fizessem, aí começando a história da salvação. E é essa a lição que queria deixar para Portugal: sem reconhecermos as nossas falhas não assumiremos quem somos e continuaremos perdidos, sozinhos e com medo, longe de nós e de Deus. No instante da escolha, pode parecer mais fácil, como bem sabem as crianças, mas a longo prazo não é, como julgo que sabemos todos nós.

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Da Visão: Desigualdade

Em teoria, e como muito melhor do que eu algum dia saberia fazê-lo, o demonstraram brilhantes pensadores liberais como Friedrich Hayek ou Robert Nozick, a desigualdade na repartição de rendimentos não é necessariamente um indicador de injustiça social. Por uma razão que, de resto, é fácil de compreender. Num mundo ideal, com regras genéricas e iguais para todos, mas sobretudo com oportunidades rigorosamente idênticas para cada cidadão, a simples diversidade original dos membros da sociedade resultaria necessariamente num padrão de distribuição desigual. Que em teoria, repito, poderia precisamente espelhar a diferença de mérito e de trabalho entre cada cidadão ao longo de uma vida. Aliás, o que numa sociedade assim idealizada resultaria numa verdadeira injustiça seria a tentativa de imposição de um padrão comum de riqueza. Em face de cidadãos diferentes, o Estado teria forçosamente de violar o princípio da igualdade perante a lei e tratar cada cidadão de maneira diferente para garantir uma distribuição igualitária do rendimento.
Mas chega de teoria. A verdade é que o mundo está longe de ser a sociedade idealizada assim descrita. E Portugal, em particular, está muito longe de ser um país caracterizado pela igualdade de oportunidades com que sonharam Hayek e Nozick. Razão pela qual o recente «Relatório Sobre a Situação Social na EU» que classifica Portugal como o país da União com maior desigualdade na repartição de rendimentos deve ser encarado com profunda preocupação. Estamos muito longe, de facto, de ser o paraíso da igualdade de oportunidades. Desde logo porque temos um sistema de justiça totalmente disfuncional que na prática premeia a violação das regras mais diversas e põe, nos mais diferentes domínios, os cidadãos prevaricadores em posição de vantagem em relação aos cidadãos cumpridores. Porque temos uma asfixiante burocracia estatal que abre avenidas de oportunidade a uma economia paralela onde não triunfam os mais capazes e os mais trabalhadores mas os menos comprometidos com o insustentável peso das «tralhas morais». Porque temos um sistema de educação pretensamente igualitário mas que, por ser tão ineficiente e irresponsável, cava um fosso de perspectivas entre os que têm meios para recorrer a sistemas privados e os que se vêem entregues ao mirabolante ensino público (perpetuando assim as desigualdades de oportunidades que o tal sistema igualitário visaria atenuar). Porque temos uma máquina fiscal que continua sobretudo a penalizar os pequenos contribuintes menos sofisticados. Porque temos uma lei do trabalho que não cria qualquer distinção entre os que trabalham e os que vegetam. E porque, por mais incrível que isso pareça, continuamos a ser um país com uma rigidez social própria dos tempos da outra senhora.

Se regresso aos clássicos do liberalismo, se cito Hayek e Nozick, não é portanto para fazer uma apologia irresponsável da desigualdade profundamente iníqua que existe no nosso país. É para sublinhar que essa iniquidade tem mais a ver com uma escandalosa inexistência de oportunidades equitativamente repartidas do que com um padrão de distribuição de riqueza concreto. Em tempos de crise e de desbragado populismo nunca é demais lembrar isto.

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sexta-feira, 30 de maio de 2008

A Preto e Branco

Elas são mesmo irmãs. Mais ainda: elas são gémeas. As duas de olhos azuis, uma de gentil pele leitosa, a outra com bela tez achocolatada.


Não sei se a Natureza também tem direito a assunções ideológicas ou não, mas a verdade é que este casal – ambos filhos de mães inglesas brancas que casaram com pais negros – teve gémeas, uma de cada cor. Presumo que o pessoal skin não aprecie por aí além tanta ironia genética.

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Sobre o PSD, para memória futura (III)

Amanhã haverá eleições. Depois de uma campanha centrada na discussão das pessoas. Ainda e sempre, quase só das pessoas.

As tentativas de ideologização das várias candidaturas (social-democracia versus liberalismo versus populismo) serviram uma pura lógica de confronto e, nesse sentido, acabaram por simplificar a própria expressão das diferenças. Para dentro, talvez chegue. Para fora, parece-me claramente insuficiente.

No fundo, sabe-se muito pouco acerca do que poderá vir a ser o dia seguinte. E, por isso, a escolha do melhor candidato não será condição bastante.

Infelizmente, a equação eleitoral foi pensada para funcionar pela negativa: cada candidato empenhou-se mais em afirmar o que jamais seria susceptível de realização pelos demais concorrentes do que em assumir o seu próprio compromisso de acção, como futuro – ou futura – líder. Por isso, custe ou não aceitá-lo, o voto em Manuela Ferreira Leite terá o objectivo primordial de não permitir a eleição de Pedro Santana Lopes ou Pedro Passos Coelho. Como o voto em Pedro Santana Lopes visará, antes de mais, não eleger Manuela Ferreira Leite ou Pedro Passos Coelho. Assim como o voto em Pedro Passos Coelho quererá, sobretudo, assegurar a não eleição de Manuela Ferreira Leite ou de Pedro Santana Lopes. Fruto do estado a que chegaram as coisas partidárias, é este o ‘pathos’ da escolha social-democrata.

Por mim, já o assumi, votarei em Manuela Ferreira Leite. Porque, por razões várias que nem sequer têm a ver com a pessoa de nenhum dos outros candidatos (embora resultem de uma convicção reflectida acerca do que os condiciona, fragiliza ou determina), sei o que não quero para o PSD. Mas reconheço que é pouco. E tenho pena desse pouco.

Gostaria de ter sentido mais densidade no debate político. Mais convicção política. Mais lastro político. Gostaria de ter visto afirmados princípios, valores e modelos políticos. Gostaria de ter sido confrontada com um programa. Um programa claro, consistente, pensado.

Como, aliás, gostaria de ter tido uma luz, um sinal, sobre a futura equipa. Em política, as pessoas não são tudo. Mas é facto que, também em política, as pessoas são decisivas. A diferença possível passa, inelutavelmente, por elas. Mas, sobre isso, não sabemos nada. A partir das muitas caras que surgem – ou ressurgem –, sobra a dúvida essencial: quais ficarão?

Seja como for, e apesar da centralidade das muitas incertezas que permanecem, em causa estará sempre – amanhã – a plausibilidade de um novo PSD. Na sua prática interna, em que tudo ou quase tudo requer reciclagem urgente. No seu compromisso com o País, em que tudo ou quase tudo exige uma mudança radical.

O que importa é, afinal, a possibilidade de refundar a esperança. E isso vai depender do dia seguinte. O PSD só poderá propor um caminho de futuro se conseguir: (i.) pensar politicamente o País; (ii.) arejar as ideias, a 'praxis' e os protagonistas que são a manifestação visível do 'status quo' partidário; (iii.) abrir-se à verdade da vida das pessoas concretas, das suas dificuldades e dos seus sonhos.

No início desta campanha, escrevi (ver aqui): «Portugal tem, hoje, um problema de liberdade. Como tem um problema com a qualidade da sua democracia. (…) Mais, Portugal tem um problema de governabilidade. Como tem na política a dificuldade maior da sua economia».

A urgência é, pois, política. A partir de domingo, veremos se o PSD quer – e sabe – voltar à política.

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quinta-feira, 29 de maio de 2008

Lágrimas Negras

Tenho imenso medo de que não gostem desta canção. Há quase 5 anos que é uma das minhas favoritas. Faz-me pensar, sofrer e amar. Chama-se “Lágrimas Negras” e escreveu-a o "criador de boleros" Miguel Matamoros. Interpretam-na o lendário pianista cubano Bebo Valdés e o cantor de flamenco Diego El Cigala.



Agora que já ouviram, posso só dizer mais uma coisa? Além de Bebo e Cigala, merecem ovação, o Paquito D’Rivera no sax alto, o Javier Colina no contrabaixo e o Piraña “en el cajón”.
E posso ainda contar-vos um segredo? Há uma interpretação da Sarita Montiel. É realmente outra coisa. Uma diferente, violentamente diferente, Weltanschauung. Mas ao ver o videoclip descobri que a ouvi num filme qualquer, no cinema da 7ª Esquadra, em Luanda, do balcão dos chefes e sub-chefes da polícia local. Reavivou-se uma ferida antiga – uma ferida feliz, não se iludam. De repente, do escuro alçapão da minha infância (mentira, mas está bem assim) sai-me a visão dos dentes brancos de Sarita, os lábios cor de rosa, a língua enrolada a desdobrar-se com vida própria para dizer “tu me has echado en el abandono”, os longos brincos faíscantes a anunciar os ombros nús. Língua e ombros que foram o berço inocente de um erotismo de pacotilha que adoro.
Vá lá, vou ser sério, aqui vai a letra:

Aunque tú me has echado en el abandono / aunque ya has muerto todas mis ilusiones, / en vez de maldecirte con justo encono / en mis sueños te colmo / en mis sueños te colmo /de bendiciones.

Sufro la inmensa pena de tu extravío / siento el dolor profundo de tu partida / y lloro sin que tú sepas que el llanto mío / tiene lágrimas negras / tiene lágrimas negras /como mi vida.

Viendo el Guadalquivir / Las gitanas lavan /Los ninõs en la orilla /Viendo los barcos pasar / Agua del limonero / Agua del limonero / Si te acaricio la cara / Tienes que darme un beso

En el Guadalquivir / Mi gitana lavaba / Pañuelo de blanco y oro / Que yo te daba, que yo te daba

Tu me quieres dejar, / Yo no quiero sufrir, / Contigo me voy, gitana / Aunque me cueste morir
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Chamem a Autoridade!

Ando seriamente preocupada com o meu estado mental. Há cerca de quinze dias vi no Parlamento o nosso Primeiro-Ministro de forma decidida a avisar a nação de que ía chamar a Autoridade da Concorrência para estudar a questão dos combustíveis.
Fiquei muito preocupada.
Ora, eu enquanto jurista de um departamento jurídico de uma SGPS, que por mero acaso detém uma empresa do ramo dos combustíveis, ía jurar, que há um ano atrás a empresa já tinha sido instada pela mesma Autoridade da Concorrência a fazer largas explanações sobre o tema, quem fornece o quê a quem, em que termos, a que preços, quem compra, quem distribui, etc. e tal.
Como nada disto parece ter-se passado, se eu ando a ver coisas, e parece que ainda estou a ver o texto e os power points, é com certeza porque a minha condição mental se deteriorou e não dei conta.

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Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo


Amor que acaba, nunca foi amor. Amor que é amor é eterno e não faz batota. Reciclo um post com mais de um ano, mas é mesmo assim que as coisas devem ser: amor que é amor nunca acaba.

Quem cantou a ideia de “amor único” foi Nelson Rodrigues, cronista brasileiro que, em “A Cabra Vadia” ou “O Óbvio Ululante”, escreveu com ortográfico desacordo um português querubínico. A Nelson sempre o atormentava a mesma nostalgia, a nostalgia do amor único e eterno. O amor do menino pela menina da porta ao lado, que começa aos 12 anos e dura a vida toda, o amor dos amantes que se matam, consolados pela vertigem duma paixão que os dispensa, sem cerimónias, de prestar contas ao mundo ou aos homens, a Deus ou ao Diabo, ao Céu ou ao Inferno.

Mas dito isto, pergunto: será que estamos preparados para os extremos inclementes de tanta paixão? Ou será que o amor eterno, o amor único, é apenas literatura?

E se a paixão for vil ou mentirosa, ou luminosa e efémera como um relâmpago, é menos paixão? Deixem-me dar exemplos. Literatura por literatura, basta-me como exemplo a volúpia dos encontros proibidos de alguns escritores. Anaïs Nin e Henry Miller tiveram o mais vicioso dos romances, ali mesmo, nas barbas do marido de Anaïs, sem que jamais ele suspeitasse. Era menos amor o amor deles por causa da mansa e traída fidelidade desse homem para cujos trémulos braços, no fim, a escritora voltou, acusando Miller de reduzir as mulheres à contingência biológica de “um buraco”?

Foi menos amor o desesperado e maldito “affair” em que F. Scott Fitzgerald, esquecendo a sua deprimida Zelda, se entregou a Dorothy Parker, ainda que, nessas brevíssimas e ternas noites, a Dorothy apenas a inspirasse uma profunda compaixão?

O amor que acaba não era amor, quis ensinar-nos Nelson Rodrigues. Mas também foi ele que disse “não se poder amar e ser feliz ao mesmo tempo”. Nelson, Nelson, com um veneno nos matas, com outro veneno nos curas.

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quarta-feira, 28 de maio de 2008

Simplesemente grotesco




No recente terramoto de Sichuan terão perdido a vida mais de 65.000 pessoas. De entre estes, estima-se que cerca de 10.000 fossem crianças. Razão pela qual a comissão de planeamento provincial daquela região resolveu autorizar as famílias que tenham perdido filhos a «conceber» um segundo (abrindo assim uma excepção à regra geral de «uma família, um filho»).
Não tenho sequer comentários para este horror «burocrático». É o planeamento socialista levado a um absurdo que ofende. É simplesmente grotesco.

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terça-feira, 27 de maio de 2008

Céu ou Inferno?

As relações entre o sagrado e o profano já não são o que eram. E o mundo também já não é o que era, novidade que repetimos, despreocupados, ano a ano, século a século.

Mas há talvez, entre os insanos e mais recentes indícios, razões para crer que o mundo mudou mesmo. Dou um exemplo: há poucas semanas, Chávez, el presidente, e Naomi, the model, fizeram a Imprensa suspender a respiração. Anunciaram à humanidade incrédula uma insuspeita e improvável afinidade electiva. Naomi, que há 40 anos, seria o mais imprestável modelo de alienação marcusiana, veio proclamar a sua admiração por Chávez, um símbolo da revolução (linha mariachi). O símbolo gostou e retribuiu com requintes bolívarianos. Perante o espectáculo, e se não se importam, tenho até saudades do marxismo messiânico do Che ou mesmo do jovem Fidel.
Pouco importa: com ou sem Chávez, com ou sem Naomi, mudou a natureza do trabalho, mudou até a natureza do mercado, mudou a natureza do conhecimento.

Esperamos, esperávamos que houvesse coisas que nunca mudassem. A Penthouse, por exemplo. Durante décadas a revista americana ofereceu ao público masculino um entretenimento que, até pela abertura a que a modesta Playboy não se atrevia, diríamos estar já no domínio da pornografia soft, ainda que socialmente aceitável.

Era o que era: um valor seguro. Mas a Penthouse decidiu passar do gozo terrestre ao gozo celestial. Uma mudança que vai mergulhar alguma viril humanidade na dúvida e no desespero. Respondendo à concorrência da pornografia gratuita da internet, os gestores da Penthouse descobriram e juntaram a religião ao conjunto das suas revistas e sítios soft-porn. A Penthouse e a Big Church, o novo website já em português, integram o mesmo portal. Nunca o sagrado e o profano tinham alcançado tão íntima fusão. O céu e o inferno, o deboche e a santidade, o porno e o pio estão irmanados.

O promotor desta revolução – prova última da mudança do mundo – é o gestor Marc Bell, o novo guru de um grupo que foi criado para ser uma referência de honesta devassidão, passe o triste oxímoro. Com Bell no comando, e com os negócios em crise, a Penthouse aderiu a uma nova teologia: "Bringing people together in love and faith." Ao lado do velho emblema, surgem agora os sítios de encontro de parceiros para cristãos. Com resultados: “As minhas orações para encontrar um homem respeitável, foram escutadas. Obrigado BigChurch.com”, disse à Newsweek uma das veneráveis utilizadoras.

O acréscimo da religião e doutros sítios de “interesse social”, diversifica e expande o negócio da Penthouse até agora tão obscuramente focado. A crise será luminosamente vencida.

O mundo mudou. Mas confesso alguma cristã nostalgia dos bons tempos em que Sade ou Bataille eram os nossos campeões da mística associação entre o erotismo e o mal.


Com a devida vénia ao Pnet Homem, onde, com "love and faith", me aturam às 3ªs.

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segunda-feira, 26 de maio de 2008

O zero de Gwalior



Ao contrário de outros membros do blogue, (ainda) não fui à Índia. Mas quando for, gostava de não perder Gwalior - por uma questão de zeros.

Gwalior é uma cidade antiga encravada no norte do estado do Madhya Pradesh, quase no ponto de confluência de três estados: o Rajastão, Uttar Pradesh e o Madhya Pradesh, um pouco a sul de Agra (famosa pelo Taj Mahal). Parece não ser muito conhecida fora da Índia. E no entanto é em Gwalior que se encontra uma peça científica de interesse extraordinário. Não num museu, não em representações, mas exposta ao ar livre: o primeiro zero (ou melhor, "0") de que há registo na história de humanidade.

A cidade de Gwalior tem um centro histórico antigo, rodeado por uma fortaleza medieval (do século XV). A fortaleza rodeia um templo muito mais antigo dedicado a Vishnu, chamado Templo de Chatur-bhuja ("do deus dos quatro braços", como ele está representado).

O que vou relatar foi aparentemente conhecido apenas aquando da tomada de Gwalior pelos britânicos, em meados do século XIX. Na câmara do lado direito da estátua de Vishnu está uma placa com a dedicação do templo, datada do ano de 876, que reproduzo parcialmente acima. Começa: "Om. Adoração a Vishnu! No ano de 933, no segundo dia da metade brilhante do mês de Magda (...) a cidade ofereceu ao templo (...) um terreno de 270 hastas de comprimento e 187 hastas de largura (...)"

Eu não sei quanto quanto media uma hasta, nem sei ler hindu do ano 876. Mas ao olhar para a fotografia da placa em questão, tive um calafrio. Olhem bem para a 2ª linha. Esse pedaço está recortado do lado direito a vermelho. O que é que lá está escrito, com caracteres reconhecíveis do século XXI?

"270"!

Esta é uma peça de arqueologia científica extraordinária. É o primeiro registo conhecido do "zero" enquanto algarismo de numeração posicional. E é extraordinário como quer a notação aritmética quer os próprios símbolos para os algarismos (há mais números na placa) são praticamente idênticos aos que usamos hoje, de tal forma que olhando para a placa se conseguem reconhecer... os algarismos.

A história do zero é frequentemente mal entendida por quem fala sobre ela: é um mito urbano dizer que foram os árabes ou indianos a "inventar" o zero. Não usar um símbolo para zero, como os romanos faziam, não significa que desconhecessem o conceito (pelo contrário: é impossível realizar os complexos cálculos astronómicos necessários para construir um calendário sem conhecer o zero!). Eles não usavam, no entanto, numeração posicional, e portanto não utilizavam um símbolo para o zero.

Pelos poucos registos que existem, a numeração posicional terá sido inventada pelos babilónios, utilizada pelos astrónomos da Alexandria grega e transportada para a Índia. Nos séculos que passaram transformou-se de tecnologia ao alcance de uma elite superiormente instruída em ferramenta disseminada pelo povo, juntamente com a base decimal (provavelmente porque, com dez dedos, o ser humano tem mais facilidade em contar em base dez - se tivéssemos doze dedos provavelmente utilizaríamos base 12).

E, pelos vistos, em 876 tudo isto já estava tão disseminado na Índia profunda como a escrita. É assim que aparece o zero de Gwailior. Quem soubesse ler também já sabia ler números em notação decimal. O zero já é uma descoberta democratizada.

Mais ou menos na altura do zero de Gwailior, os árabes dão-se conta da revolução tecnológica que é a numeração decimal e adoptam-na. Na Europa, este processo demorará séculos; ainda hoje lhe chamamos "numeração árabe" porque foram os árabes que a introduziram ("algarismo" é uma corruptela do nome do matemático árabe Al-Khwarizmi, um dos responsáveis por este processo).

Mas não foram eles que a criaram. É arrepiante olhar para a placa de Gwalior e reconhecer os números tal como os escrevemos.

Até o zero.



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domingo, 25 de maio de 2008

Chamem a Autoridade

O caso é sério. É de certeza merecedor de investigação. Haverá concerteza um problema de concorrência. Ou de falta dela. Posso assegurar que, no mínimo, existe concorrência desleal. Refiro-me obviamente ao facto de o Benfica ter a partir de hoje o Quique Flores e o Rui Costa e nós termos o Paulo Bento e o outro moço. Sei do que falo, chamem a Autoridade!

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Chamem a Autoridade

Era para se chamar assim o post de hoje. Escrever uma coisa séria sobre a Autoridade da Concorrência. Aconteceu, como já me aconteceu antes, que o Manuel Fonseca, com a crónica de Cans, me levou a escrever uma coisa inteiramente diferente.
Ele há o campo, e ele há o campo. Há o campo hardcore e o campo softcore.
Quem não conhece bem o país, fala amiúde sobre a beleza da vida do campo. Fala sobre o silêncio, as cigarras à noite, se for no Alentejo, e muitas vezes, havendo idílio e fundos, até compra um monte, para reconstruír, com aquecimento e piscina. Esta versão softcore do campo leva a que se seja profundamente contra a destruição destes cenários idílicos, contra qualquer modificação, alteração e desenvolvimento destas aldeias portuguesas de presépio.
Depois, claro, há o campo hardcore, aquele sobre o qual já escreveram Soeiro Pereira Gomes, Saramago, José Luís Peixoto. É miserável, é atrasado, é pobre, esventrado, varado pela distância, habitado por gente que fala quase sempre com sotaques cerrados, que quando aparecem na televisão, nos apetece gritar:"- Ponham legendas! ". Das encostas cerradas na Madeira, a Trás-os montes, vemos o fumo a saír das suas casas de pedra mal-amanhadas, com as velhas de preto, curvadas até ao inverosímel.
Os conhecedores do campo softcore, ignoram a vida brutal das pessoas destes sítios, e por isso se interessam tão pouco pelo desenvolvimento do país, ou achando que é melhor que fiquem assim, até para turista ver.
Eu tive a sorte do campo fácil, porque se via o mar da minha casa, de que distava apenas 4 kilómetros. Mas era campo. É verdade que por isso me emancipei, que me viciei nas coisas citadinas, que passo a vida a dizer mal do desconforto do campo. Mas também é verdade que, embora vá o caminho inteiro a resmungar, quando chego sorrio, pensando na sortuda que fui e que sou. Saber de onde vêm as pevides e os tremoços, saber como se faz um chouriço, saber se vai chover ou fazer sol, jogar ás escondidas numa rua inteira, e galgar o mundo sentada numa bicicleta.
Olhar à minha volta, ver aquela gente, atrasada por vezes, a minha gente, ainda que por vezes eu não gostasse que fosse, que sabe que a fruta se começa a descascar pela parte que está tocada ou podre, e pensar, este povo merecia melhor sorte.
É assim ou não é Manuel?

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Sem poetas nem ideais

A nostalgia do passado e a melancolia são sentimentos do Homem de todas as gerações. Sentimos hoje em dia, alguns, senão muitos, que esses sentimentos correspondem a uma mudança de paradigmas na condução do mundo, como se o Progresso inevitável nos levasse sem remédio, nem apelo, para o que não queremos, mas que mesmo assim nos arrasta numa onda avassaladora que o nosso imaginário saudoso não tem força suficiente para travar ou inverter.

No século XX houve uma, para nós, evidente mudança de paradigmas. Um deles é o que corresponde à mudança da noção de tempo. Não que essa mudança tivesse sido inventada no século XX pois, a filosofia moderna já a tinha gizado em Descartes e confirmado com Kant, mas porque o pensamento filosófico “constrói” realidades muito antes dos homens as “viverem”. Não obstante, pelo menos, o romantismo alemão coetâneo cantara logo a sensação de perda de uma vida idílica de harmonia entre o homem e a natureza, em que a natureza era um espelho de uma alma cuja Pátria não estava neste mundo.
Se percorrermos a história da Poesia, encontraremos em diferentes formas este canto e este louvor da união esponsal entre Homem e Natureza nas Cantigas de Amigo ou, muito antes, nas Geórgicas de Virgílio. A própria cultura megalítica, origem da arquitectura, isola no meio da paisagem o lugar de uma manifestação metafísica ao construir templos para uma morada da alma imortal. Como se essa morada fosse uma porta para outro mundo e não alguma coisa que pertencesse a este mundo.
O sentimento romântico de uma Pátria espiritual, uma Ilha dos Amores, ou um Paraíso Perdido, é comum em diferentes expressões e com diferentes oportunidades a toda a Poesia e a toda a Arte.
Teixeira de Pascoais definiu em “Verbo Escuro” o Poeta com aquele que sobe aos píncaros da vida e depois volta cá abaixo para contar aos outros homens aquilo que viu. O Homem constrói através do sentimento saudoso portas para uma outra realidade, um outro mundo por que anseia e que persegue. Entretanto, esta sensação de distância, reforçada por um espírito do tempo que a nega e impossibilita esse desejo de regresso ao Paraíso e cimenta um afastamento inexorável”adoece” a alma dos homens conscientes de que a efemeridade do que vivem se desfaz, se desconstrói e se desertifica sem esperança.
Filho das promessas da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, o Homem do século XX pôs muito alta a fasquia da sua autonomia em relação ao mundo espiritual , ao mundo das ideias enquanto perscrutação do mundo ideal, e, com isso, construiu um desistente realismo sociológico em que , na impossibilidade de travar a onde que o arrasta e inunda, melhor fora organizar-se dentro dessa vertigem e afundar-se no seu realismo desesperado.

Cabe esta reflexão na sugestão balizada pelos posts recentes da Madalena Lello aqui e do Manuel S. Fonseca aqui e no reconhecimento de que vivemos um tempo em que se fala de ideias sem ideal, em que se confundem ideias com acções e programas políticos. É que nessa confusão que não tem qualquer valor lógico-filosófico, se reflectem o tempo do vazio que vivemos inundados pelo “tsunami” da ignorância, da indolência e da apatia. Os políticos que dizem ter uma ideia de qualquer coisa são a expressão acabada dessa ignorância, dessa indolência e dessa apatia, porque ao dizê-lo sabemos logo que têm ideias sem ideal, ou seja, não tem nem podem ter qualquer ideia, porque não abrem qualquer porta para uma outra realidade que nos libertasse do fatalismo e pessimismo do mundo sem ideal.
Ao tempo cujo ideal, ainda que distante, ou por isso mesmo, era um motor da imaginação e da renovação do mundo, sucedeu um tempo em que o ideal foi substituído pelo realismo sociológico. Esse realismo sociológico de fácil apreensão, ou seja, acessível a qualquer homem sem imaginação nem inteligência, naturalmente tem grande difusão pelas suas potencialidades demagógicas. No mesmo passo que semeia a pobreza, vende o igualitarismo que destrói a diferença que sustenta o mundo, a avareza que destrói o amor ao próximo e a inveja que destrói nos outros o Outro. Mas, acima de tudo, o que destrói é o mundo das ideias deduzidas de um Ideal de que cada um, à sua maneira é um intérprete pelo contributo da sua imaginação e inteligência. Planificado, o mundo, deixará de ter Poetas que subam aos píncaros da vida e depois voltem cá abaixo contar aos outros homens aquilo que viram.
O sofrimento consciente ou não do homem actual, filho da modernidade, não é o mesmo do Homem romântico do enlace com a natureza divinizada, nem do Homem saudoso do Paraíso perdido. É o Homem a quem é cortada essa ligação pela destruição do valor da imaginação e da inteligência na relação com o ideal e que assim fica reduzido ao imanentismo da sociologia, ao falso realismo da sociologia, ao pessimismo.

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sábado, 24 de maio de 2008

Jan Fabre no Museu do Louvre em Paris


Absolutamente a não perder!
Desconcertante para quem se inquieta com a vida. Uma mistura perfeita entre as obras e o olhar dos séculos passados com uma visão inquietante sobre o milagre da vida e das suas desordens. A reter, a instalação sobre as insónias. Pernas , braços e demais membros cobertos por olhos de vidro bem abertos para o terror de uma noite em branco e tudo o que se pensa e vê nessas horas infidáveis.Vale a pena não deixar passar...

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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Festival de Cinema de Cans

Posso dar-vos um bom exemplo de iniciativa (privada?), com sentido (de humor!)? Simples: o Festival de Cinema de Cans. Por estranho que pareça, grafei correctamente o nome. Não se dobra o n e dispensa-se a segunda vogal: Cans não é Cannes. Estamos na Galiza, bem longe da Côte d’Azur.
É uma aldeia de 300 habitantes. Este ano realiza-se ali, pela 5ª vez, um festival que concorre no tempo e ganha em originalidade ao Festival de Cannes, em França. Exibindo só curtas-metragens, o Festival de Cans é a epítome do “agroglamour”. (Não se poupem: fixem-me este conceito).

Entre sacos de batatas e espigas de milho, com aquele aroma que enerva citadinos e tranquiliza pituitárias mais telúricas, o Festival de Cans, que está agora mesmo a decorrer, junta aos 300 indígenas recenseados mais de 4 mil peregrinos que sabem ao que vêm. Vêm assistir às projecções dos filmes que se fazem em 10 salas bizarras: tres alpendres, dúas adegas, dous baixos, unha vella casa abandonada, unha antiga lareira e un galpón, como se vangloria o site do Festival.

Em vez das limusinas que se esfalfam entre os grandes hotéis da Côte d’Azur, em Cans o transporte de sala em sala faz-se em atrelados puxados por tractores.

Encostada a Porriño, a 15 minutos de Vigo e uma hora de Santiago, Cans é, durante três dias, uma fantasia que nenhum surrealista teria sido capaz de inventar. É o género de coisa que deprimiria Freud e que não faria Marx sentir-se nada bem.

Para mim foi até hoje um segredo que só mesmo a cumplicidade do mais galego dos portugueses me faria descobrir. Para o ano, fico à espera do convite.
Ver para crer? Então vejam:

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quinta-feira, 22 de maio de 2008

A Primeira Vez


A PRIMEIRA VEZ
que eu vi mesmo o mar foi já no meio do Oceano Atlântico. Em Lisboa, Cais da Rocha, tínhamos entrado no Vera Cruz; descemos logo ao camarote e quando voltámos a subir – no dia seguinte? – cercava-nos um vasto tapete ondulado, de um azul inútil e livre. Flutuávamos num lençol oscilante: Houdini tinha escondido a terra.

A PRIMEIRA VEZ
que tive um medo inexplicável, nu e solitário, foi quando, sendo menor mas emancipado, um agente da DGS, em Luanda, me fez a entrevista prévia para ter o passaporte que ia abrir-me as fronteiras de alguns países europeus. Eu achava que ele detectaria, irremediavelmente, as obscuras e obscenas motivações que me dilaceravam, a saber: descobrir a liberdade de Paris e nunca mais cá pôr os pés ou, moreno e baixinho, converter-me no objecto sexual das louras de Estocolmo. Objectivos, confesso, falhados sem glória.

A PRIMEIRA VEZ
que senti a ontológica e perturbadora diferença da sexualidade feminina foi quando a minha mão pousou sobre a coxa de uma inocente Pandora (chamemos-lhe assim). Eu ainda longe da “idade de homem”; ela, “mais velha”, de shorts, num país tropical. O gesto foi cândido, mas o calor da lábil curva inflamou, de forma tão inesperada como agradável, o meu ego. Já não me lembro se trazia blusa ou de que cor, resta-me o ardor, o mesmo doce ardor, na palma da mão.

Escrever, meus caros bloggers da Geração de 60, é uma actividade tauromáquica e íntima. Quem é que entra a seguir na arena?

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O Mia Patria, sì bella e perduta

É tão ingénua a ideia de um pensamento que voa com asas douradas! E quem me dera dizer, em tom terno e fadista, "o mia Patria, sì bella e perduta!"



Este é o famoso coro "Va Pensiero sull` Ali Dorate" da ópera "Nabucco", de Giuseppe Verdi. Metropolitan Opera House, com direcção de James Levine, 2001.
Aqui vão as palavras para que cante a plenos pulmões:

Va', pensiero, sull'ali dorate.
Va', ti posa sui clivi, sui coll,
ove olezzano tepide e molli
l'aure dolci del suolo natal!
Del Giordano le rive saluta,
di Sionne le torri atterrate.
O mia Patria, sì bella e perduta!
O membranza sì cara e fatal!
Arpa d'or dei fatidici vati,
perché muta dal salice pendi?
Le memorie del petto riaccendi,
ci favella del tempo che fu!
O simile di Solima ai fati,
traggi un suono di crudo lamento;
o t'ispiri il Signore un concento
che ne infonda al patire virtù
che ne infonda al patire virtù
al patire virtù!

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