terça-feira, 13 de maio de 2008

Betinhos, suecos e o IDT

Reparei algures na imprensa que o IDT publicou um glossário, no qual procura decifrar o significado de epítetos vários, entre os quais o de "betinho". E que o fez, a julgar pela descrição da imprensa, abstraindo da carga valorativa negativa que implica a assimilição da expressão "betinho" a uma conduta livre de drogas. Não faço ideia de qual é o alto desígnio do glossário. Mas uma coisa faz-se cada dia mais clara: a actual direcção do IDT pode ter boas intenções, mas não tem bom senso. E continua a apresentar para a política de combate à toxicodependência, uma linha única, deveras transigente e contemporizadora. Não valeria a pena olhar para os sucessos da política sueca de combate à droga?

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segunda-feira, 12 de maio de 2008

Fiel depositária

Na minha vida já fui depositária, fiel, de muitas coisas: de livros, imagens, coisas. Por inerência de funções, também já me calhou em sorte ser depositária do fiel amigo. Bacalhau. Muito bacalhau. Estávamos em Dezembro de 2006, mês crucial para a distribuição alimentar. Mês em que, atrás da compra do bacalhau, os portugueses fazem as compras todas nos super, nos hiper. Se quisermos o bacalhau é por isso uma espécie de âncora.
Era o final de um dia de trabalho quando chega uma brigada da ASAE, vinham de Lisboa. Duas inspectoras. O produto que iria fornecer centenas de lojas foi apreendido. Em sequência procuraram por mim para que o Auto fosse lavrado. Sentadas as três no meu gabinete: a mais nova começando, tal e tal, Lei tal. Alto, digo eu essa é a lei de 1984 referente aos crimes económicos. Estamos a ser acusados de um crime? Que sim senhor. Qual crime? Económico. Discussão jurídica com um senão, só eu era jurista. Então pergunto eu, face à previsão legal onde estava o crime. A Inspectora mais antiga apercebendo-se do logro calada. A discussão no auge, a Inspectora mais nova em papos de aranha confessa: eu de leis não percebo nada. Só que tivemos uma reunião em Lisboa e ficou decidido que era assim. Quer dizer, digo eu, sem ninguém ter visto o bacalhau, ficou decidido que seríamos acusados de um crime. Pois era.
Em vésperas de Natal fiquei fiel depositária de uma quantidade absurda de bacalhau. O auto de notícia seguiu para o Ministério Público da comarca. Estas acções foram amplamente noticiadas pelos orgãos de comunicação social. Pudera, bacalhau em vésperas de Natal!
Confesso que na altura fiquei atónita, mas depois de ter lido o Expresso, percebi que afinal tudo isto terá sido só um lapso, lá devem ter recebido aquele documento de trabalho, por lapso, e resolveram começar logo a trabalhar!
Quanto ao fiel amigo, entendeu o Ministério Público arquivar o processo por não verificar qualquer prática indiciadora de crime, desapreender o bacalhau e destituír-me da condição de fiel depositária.
Fiquei um bocadinho triste porque, como se tinham passado alguns meses, já me tinha começado a habituar à ideia.

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domingo, 11 de maio de 2008

"Mi hija merecía morir por enamorarse"

O fanatismo das religiões...(sem mais!)



ELPAÍS.com - Madrid - 11/05/2008
Un hombre iraquí justifica el asesinato de su hija por mantener una relación en Basora con un soldado británico. -Los agentes que lo detuvieron lo liberaron a las dos horas.
Abdel-Qader Ali sólo se arrepiente de una cosa: no haber matado a su hija el mismo día en que nació. "Si hubiera sabido en lo que iba a convertirse, la hubiera asesinado en el mismo instante que su madre dio a luz", explica el padre sin ningún atisbo de arrepentimiento a The Observer. El delito de su hija no tenía perdón: se había enamorado de un soldado británico en Basora.
Hace dos semanas, el diario publicó el asesinato por honor de la estudiante de 17 años Rand Abdel-Qader. Su padre, un empleado del Gobierno de 46 años, fue detenido pero la policía lo liberó a las dos horas. "Son hombres y saben lo que es el honor", asegura Ali, que relata cómo los agentes le dieron la enhorabuena por lo que había hecho.
Rand, estudiante de inglés en la Universidad de Basora, conoció a Paul, un soldado británico de 22 años, cuando ella ayudaba como voluntaria a las familias desplazadas y él distribuía agua entre los afectados. Según su amiga Zeinab, el romance, que duró cuatro semanas, no pasó de las conversaciones. "Rand murió virgen", asegura la joven.
El 16 de marzo, Ali supo que su hija había sido vista en público con el militar, "el enemigo, el invasor, el cristiano". Había deshonrado a su familia. A pesar de los intentos desesperados de la madre de Rand por impedir que Ali matase a su hija, éste la ahogó, con la ayuda de sus dos hijos, aplastando el cuello de la joven con el pie. Fue enterrada sin ninguna ceremonia.

Mejor sin hija

"La muerte era lo que se merecía. Tengo el apoyo de todos mis amigos que son padres como yo y saben que lo que hizo era inaceptable para cualquier musulmán", declaró Ali a The Observer.
"Ahora no tengo ninguna hija y prefiero decir que nunca la tuve", continúa el padre, para quien "las mujeres musulmanas no son como las occidentales, que pueden dormir con cualquier hombre que quieran y quedarse embarazadas sin casarse".
Un oficial de Basora ha denunciado que un político local ha dado dinero a Abdel-Qader para que se marche unos días a Jordania hasta que la historia sea olvidado, la práctica usual en los más de 30 asesinatos por honor registrados desde enero.

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Requiem pelo Maestro

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A insonsa Therese, a imortal Elise

Ludwig adorava Therese. Mas nunca ninguém tinha ensinado Thesese a amar. Em lá menor, Ludwig cantou Therese como ninguém a poderia cantar. Com péssima caligrafia, mas inspirada mão direita e arpejos da esquerda, Ludwig escreveu “Für Therese”, para com ela casar. Mas Therese, com o amor de quem não sabia amar, a Ludwig disse não, para dizer sim a von Drosdick, que era barão. Justiça poética: a caligrafia de Ludwig, de fazer dó, mal lida e em sustenido, fez da real e insonsa Therese, a imortal Elise que agora, como Ludwig, gostaríamos de eternamente amar:



Für Elise”, é um magistral solo de piano de Beethoven. Começa com uma irreprimível alegria (“joy”, em inglês, diz melhor o que o alemão tinha na sua surda cabeça), passa por uma atormentada dúvida e termina no mais certo e esgazeado sofrimento. Por tudo isto, que acontece em 3 minutos e 37 segundos, vale a pena amarmos, sem distinção, o obstinado Ludwig, a prosaica Therese e a etérea Elise.

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sábado, 10 de maio de 2008

Pentimento: "Blade Runner: Final Cut"

A forma como "Blade Runner" (um filme marcante para duas gerações de espectadores e com aspectos visionários na sua concepção e concretização) continua a irritar a maioria da "crítica" portuguesa é quase divertida, se não revelasse um leito perfumado - odor a enxofre - de preconceitos. A irritação vem de um ponto muito simples, tão recorrente que se tornou uma banalidade: a maneira como este filme (e parte da obra de realizadores como Spielberg, Michael Mann, Alfonso Cuarón ou Mamoru Oshii) consegue atingir o âmago dos sentidos e das preocupações de uma faixa do "grande público" (uma expressão, de resto, inventada pela "crítica" com sorridente acrimónia). "Blade Runner" foi um gesto de inspiração vanguardista, um salto conceptual mas - imperdoável pecado! - surgiu pela mão de um realizador decorativo, iniciado nas contas da publicidade arrivista, reclinado no seio do "mainstream" industrial - pronto, é mesmo para arder na fogueira...

É um ressentimento que, de resto, não se esforçam demasiado por esconder: como é que uma fita vazia, sem profundidade epistemológica, sem a ruptura do olhar, sem a pulsão dos corpos cibernéticos, sem alcance metafísico para além da competência estéril da direcção artística, etc e tal, consegue atingir tantos espectadores, aumentando as suas margens de culto a cada ano que passa? Mais uma vez, simples: é a banalidade do filme que o torna "popular" (upps! a heresia...).

A generalidade da crítica de cinema portuguesa (ao contrário da inglesa, espanhola e, cada vez mais, francesa) não conseguiu resistir nos últimos anos à fácil tentação de substituir um lugar-comum (grosso modo, "o que é comercial é bom") por outro exactamente igual (grosso modo, "o que é popular é mau") no pólo oposto. Ou seja: a incessante busca do que se revela singular, daquilo que impõe novas interrogações éticas e estéticas, do que é - à falta de melhor síntese - "arte", tornou-se um comportamento obsessivo-compulsivo, e um horizonte de olhar tão limitado como o que baliza a crítica institucionalizada, de ligação directa à engrenagem promocional das "indústrias do cinema".
São visões - e quadros de pensamento - igualmente estreitos, mas aquela que se coloca como oráculo do futuro, defendendo profeticamente a superioridade ética de certos olhares, tem contra si um défice de compreensão - diria mesmo compaixão - pelos materiais específicos do cinema: emoção, encantamento e - a mais terrível das transgressões - uma certa ideia de felicidade.

Voltando a "Blade Runner": a visão de Ridley Scott baseia-se - como sempre, em todas as artes - no trabalho de outros, esses sim já com direito de acesso ao círculo de iluminados. Gente como Moebius, Syd Mead, Enki Bilal, Christin, Philip K. Dick, William S. Burroughs. O problema é que Scott fez um filme de "estética" - ignorando o desenrascanço transgressor de "Alphaville" de Godard", o rigor libertário do - de resto, magnífico - "La Jetée" de Chris Marker, a ontologia cósmica do "2001" de Kubrick. "Blade Runner", dizem eles, é a folclórica porta de entrada do cinema comercial às preocupações de finais do século XX, uma porta que está ao dispor de todos e permite o acesso de qualquer um à discussão de coisas com peso insustentável como "O que é ser humano?" ou "Se não chegamos a Deus, porque não transformarmo-nos Nele?". E transformar o cinema num cartão de livre-acesso à "gravidade do mundo" é, evidentemente, um gesto que não se perdoa. E que deve ser castigado.

PS: a forma como Kathleen Gomes, no "Público" da última sexta-feira, diviniza o alcance "global" das ideias e do cinema de Pedro Costa revela, na minha opinião, um duplo - e duplamente paradoxal - erro de julgamento: torna um bocadinho provinciano o relato de uma efectiva "penetração internacional" (embora sempre, à excepção das belas proezas conquistadas através dps futuros DVD da Criterion e pela mostra na Tate Modern, em círculo muito restrito); e transforma, pela ânsia da mensagem que atravessa todo o texto, Pedro Costa naquilo que ele - parece - mais abominar: uma pequena estrela pop.

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O guardador de sonhos.



Malograda a fuga para a frente que foi o regresso de Camacho, Luís Filipe Vieira não perdeu tempo enquanto não lançou o mítico Rui Costa como uma oportuna cortina de fumo para tapar o total desnorte em que se encontra o futebol do Benfica. Mas ciente que dimensão da tragédia é bíblica, logo se entreteve a acenar com a ideia de um fundo de 60 milhões para construir mais um «dream team». Só que a massa tende a não aparecer e é preciso manter a malta entretida até ao próximo plebiscito. Vieira regressa ao baú das memórias felizes da nação benfiquista e desenterra desta vez o «special one» Eriksson.
Que mais glórias benfiquistas se prestarão ao ingrato papel de escudos humanos de um homem que tinha obrigação de perceber que o seu tempo acabou? Já faltou mais para que alguém se lembre de contratar o espírito do Bella Gutman.

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sexta-feira, 9 de maio de 2008

O outro sistema

Num dia em que se vai seguramente voltar a discutir "o sistema" e para alimentar a paixão do Manuel S. Fonseca por Shostakovich não resisti a apresentar o outro sistema:
Há mais de 30 anos que na Venezuela um economista ("o Dr. Abreu") criou o sistema: um regime de ocupação de tempos livres de jovens desfavorecidos com base na música que ocupa milhares de jovens e alimenta 200 orquestras (várias profissionais). Tem resistido a todos os governos e sobressaltos políticos venezuelanos. A jóia da coroa é a Orquestra Juvenil Simon Bolívar actualmente dirigida por Gustavo Dudamel, de 27 anos e ele próprio um produto do "sistema". Dudamel é o actual menino prodígio da música clássica (maestro convidado dos Berliner, NYSO, La Scala etc.). Para quem quiser ouvir até onde chega este sistema e como foi capaz de produzir uma orquestra e um jovem maestro de grande grande nível aconselho a mais recente gravação com a Deutsche Gramophon da 5ª de Mahler (que, merecidamente, lhes valeu um prémio)

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Pangea Day


Pangea Day comemora-se no dia 10 de Maio por todo o mundo.

Chardin, Levy ou McLuhan escreveram-nos aquilo que hoje consubstancia esta iniciativa.
Um evento possível num ciberespaço, o instrumento da inteligência colectiva aonde, “abolidos” o espaço e o tempo, o mundo se transformou o numa “aldeia global”.

Não sei se tudo serão rosas nestes conceitos globais mas seguramente são realidades que por serem incontornáveis devem ser motivo de reflexão para que no futuro tenhamos consciência dos caminhos que queremos seguir!
Vale a pena visitar em www.pangeaday.org

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A Segunda Valsa

Das virtudes de Stanley Kubrick a menor não terá sido a sua capacidade de escolher temas musicais que desencadeavam uma turbulência emocional incontrolável. Kubrick tinha um "ouvido quente". Ora ouçam:


Shostakovich pode agradecer a Kubrick ter-nos criado a obrigação de passarmos a ouvir com "Eyes Wide Shut" esta "Segunda Valsa" (que é o 7º andamento da Suite for Variety Stage Orchestra). Mesmo sem Cruise e sem a tão bela Kidman, a plenitude triunfante destes violinos é inexplicavelmente exaltante e libertadora. Paradoxo: esta suite de 8 movimentos foi composta na Rússia soviética, ou de como um violino apaixonado nos pode desembaraçar amorosamente da teia das tiranias.

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quinta-feira, 8 de maio de 2008

Pentimento: "Ventos de Guerra"

Há malucos para tudo. Eu, quando estou de férias, gosto de ver séries de tv longuíssimas, uma versão pobre e tardia do interesse ancestral dos adolescentes pelas múltiplas cores das coisas, quando liam enormes romances de aventuras sobre o mundo trágico e picaresco que talvez existisse para além da janela do seu quarto. Há quem se dedique à caça, à culinária ou ao wind-surf. Prefiro a terrível dúvida de escolher a melhor posição no sofá, e a luta titânica com o comando universal - é como viajar sem sair do sítio, a preguiça encartada que Asimov e Philip K. Dick (este sempre com consequência alucinogénicas) anteciparam. Na penúltima vez foi o esplendorosamente medíocre "Ventos de Guerra".

É uma "mini-série" de 14 horas (estes americanos são loucos) que devia ser exibida a todos os aspirantes a produtores de televisão: anos antes da sofisticação de canais pagos por cabo como a Showtime ou a HBO, a estação de sinal aberto e cobertura nacional ABC co-produziu com a Paramount um mamute de 80 milhões de dólares, com 1785 cenas e 267 décors exteriores, rodado em 6 países e 2 continentes, uma saga familiar que cruza o empenho e sofrimento privados com o gigantesco quadro público da 2ª Grande Guerra, na glória analógica que precedeu "A Lista de Schindler", "O Resgate do Soldado Ryan" ou "Irmãos de Armas". Apesar das personagens de papel maché (o autor e argumentista, Herman Wouk, revela-se especialmente incapaz de dar uma para a caixa com as personagens femininas), de sequências de acção mais longas do que o Nilo e de sub-plots enfiados a martelo pneumático, há um encanto pré-digital, uma bravura na direcção artística, um rigor no retrato de um mundo em vias de extinção que é, por vezes irresistível. As audiências, aquando da emissão em 1983, foram colossais, e cinco anos depois surgiu a sequela ("Ventos de Guerra" cobre "apenas" o período entre o início das hostilidades em 1939 e o ataque japonês a Pearl Harbor), mais 14 horas de ficção, "War and Remembrance" , que levou meia década a produzir - tem 358 papéis dialogados... -, retratando o período de 1942 à libertação em 45 (a conta ficou-se agora pelos 110 milhões de dólares).
Seguindo o percurso privado e bélico do comandante de mar-e-guerra Victor "Pug" Henry - interpretado com a costumeira expressividade esfíngica por um Robert Mitchum - esta segunda série concentra-se na guerra na Europa e, sobretudo, na odisseia da nora de Henry - interpretada com a costumeira sensualidade de boudoir por Jane Seymour - que, ao longo de um total de 28 horas de série, decide pelo menos 14 vezes ficar no Velho Continente depois de saber que o seu destino pode ser um campo de concentração nazi.
Nesta deliciosa forma de masoquismo, o tempo passa devagar para o espectador, e os esforços de encenação das grandes batalhas, com recurso a mais figurantes do que um Benfica-Sporting dos anos 70 e a efeitos ópticos de primeira grandeza, são quase entusiasmantes.
Mas o melhor momento dos 1693 minutos de história - é outro passatempo deste que vos escreve, acumular números inúteis - é quando a amante de "Pug" Henry (uma relação sentimental que demora uns três anos a concretizar-se, mantendo o registo hipnótico do conjunto), interpretada pela falsamente púdica e crocante Victoria Tennant, umas cinco décadas mais nova do que o geriátrico Mitchum, se reúne com este na antecâmara da frente russa, em luta contra o avanço nazi rumo a Leninegrado. Os soldados soviéticos estão exaustos, o ânimo não é o melhor e, de repente, a realização sempre funcional esquece-se das audiências e avança, numa íntima elegância, pelo armazém onde os militares repousam e capta Victoria (nome apropriado) a cantar, na sua própria voz, frágil, sob a muda atenção de todos, um tema querido da época, antes de regressar a tempestade, o célebre "The White Cliffs of Dover", de Burton/Kent:

"There' ll be bluebirds over/
the white cliffs of Dover/
tomorrow just you wait and see

There'll be love and laughter/
and peace ever after/
tomorrow when the world is free


É só um minuto, mas vale uma série inteira.

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Estatistas

O Dr. Miguel Júdice escreveu no Público de 2 de Maio, um artigo relativo aos candidatos doPSD de hoje, por comparação aos protagonistas de há 25 anos, tendo nesse momento endossado o voto a Pedro Passos Coelho.
Definiu, comparou, e no que agora me interessa, disse de Cavaco Silva e Ferreira Leite que eram ambos "estatistas", porque ambos teriam trabalhado a vida inteira no Estado.
Quanto a esta última consideração e sobre o tom depreciativo da mesma, sobre pessoas que só trabalharam para o Estado, algumas questões me assaltam:
a) Considerando estas pessoas em particular, e o seu currículo pessoal, académico, político, porque nenhuma empresa as quis?
b) Afinal de contas, se querem os Jorge Coelho e Armando Vara deste mundo, porque é que não hão-de querer Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite?
c) Será que as empresas andam a perder o tino comercial?
d) Será que as empresas até os convidaram e as pessoas em causa declinaram os convites?
e) E se declinaram os convites porque terá sido?
f) Será que os dois ainda não repararam que as empresas pagam muito melhor do que o Estado?
g) Será que anda toda a gente distraída?

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De casa de seus pais desapareceu...

Indivíduo do sexo masculino, simpático, instável, mas não perigoso – repito: não perigoso –, desapareceu de casa de seus pais, há mais de três anos, ao que parece ajudado por um amigo, de nome Sampaio, que mais tarde se lhe terá ido juntar, em parte incerta. Tem problemas de coluna e de memória. A quem o tiver visto (ver filme abaixo) pede-se que contacte a família, que ainda hoje, no seu antigo quarto, guarda, com saudade, os cadernos escolares com os inacabados trabalhos de casa.

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quarta-feira, 7 de maio de 2008

Realpolitik & Serviço Público

A posição desconfortável do BES e última notícia no site da RTP sobre Bob Geldof e Angola.

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II. O relógio suíço

Comecemos por uma lista de matemáticos suíços: Jacob (II) Bernoulli, Jacob Bernoulli, Johann (II) Bernoulli, Johann (III) Bernoulli, Johann Bernoulli, Nicolaus (I) Bernoulli, Nicolaus (II) Bernoulli, Armand Borel e Euler. E mesmo entre os menos grandes: Amsler, Argand, Balmer, Burgi, Cajori, Cramer, de Rham, Eckmann, Fueter, Fuss, Geiser, Guldin, Hermann, Lhuilier, Plancherel, Schlafli, Rahn, Steiner, Sturm, Suter, Wolf

Na linguística deu um nome central como Ferdinand de Saussure. Na psicologia deu dois dos maiores psicólogos do século XX, formando duas escolas de espírito e riqueza completamente opostos Carl Gustav Jung (http://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Gustav_Jung) e Piaget (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Piaget). Além de psicólogos trata-se de dois homens que pensaram profundamente as próprias raízes e fronteiras do conhecimento científico.

Na literatura e pensamento deu Jean-Jacques Rousseau, Jacob Burckhardt, Hermann Hesse, mas colheu igualmente a obra de grande pedagogos como Pfeffel (http://www.pohlw.de/literatur/sadl/aufklaer/pfeffel.htm) e viu nascer Pestalozzi, outro grande pedagogo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Johann_Heinrich_Pestalozzi). Na música deu Arthur Honegger. Na pintura o movimento Dada, Paul Klee, Alberto Giacometti.

Eis a lista de prémios Nobel imputados à Suíça, valendo isto o que valha e sendo certo que é o país no mundo com mais prémios Nobel per capita:

Werner Arber, Physiology or Medicine, 1978
Felix Bloch, Physics, 1952
Daniel Bovet*, Physiology or Medicine, 1957
Élie Ducommun (for the International Office for Peace), Peace, 1902
Henry Dunant, Peace, 1901
Albert Einstein, Germany, Physics, 1921
Richard Ernst, Chemistry, 1991
Edmond H. Fischer, China, Physiology or Medicine, 1992
Charles Albert Gobat (for the International Office for Peace), Peace, 1902
Charles Edouard Guillaume, Physics, 1920
Walter Rudolf Hess, Physiology or Medicine, 1949
Herman Hesse, Germany, Literature, 1946
Paul Karrer, Chemistry, 1937
Theodor Kocher, Physiology or Medicine, 1909
Georges J.F. Kohler, Germany, Physiology or Medicine, 1984
Karl Alexander Müller, Physics, 1987
Paul H. Müller, Physiology or Medicine, 1948
Vladimir Prelog, Bosnia and Herzogovina, Chemistry, 1975
Tadeus Reichstein, Physiology or Medicine, 1950
Heinrich Rohrer, Physics, 1986
Leopold Ruzicka, Chemistry, 1939
Carl Spitteler, Literature, 1919
Alfred Werner, Chemistry, 1913
Rolf M. Zinkernagel, Physiology or Medicine, 1996
Kurt Wüthrich, Chemistry, 2002

Quem vier de um país que possa apresentar uma plêiade equivalente ou mesmo superior que esteja à vontade para criticar a Suíça. Mas um pais que esteve sempre no centro da cultura europeia e participando activamente no que de mais avançado e profundo ela fez apenas me pode merecer o respeito.


Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 6 de maio de 2008

Maio de 68 Explicado a Sarkozy

André Glucksman viveu perigosamente o Maio de 68. Nas últimas eleições apoiou Nicholas Sarkozy. Num dos comícios, Sarkozy atirou-se à herança de Maio com fúria predadora. Glucksman estava com o filho, Raphael, que viu, de repente, desfazer-se o pedestal de 68 em que colocara o pai. E como quem não se sente não é filho de boa gente, Raphael interpelou a diatribe de Sarkozy. Este livro – sim, da Guerra e Paz, editora com que mantenho afrontoso concubinato – é o resultado do diálogo vivíssimo de um filho ofendido e de um pai distendido. Para educação e ilustração dos infantes sarkozyanos. Vão ler, não vão?

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Fui infiel


A Cantora, Kandinsky

É verdade. Esta “noiva” levou-me a outro altar. Confesso: sou volúvel (que é o que se diz da planta que, em hélice, se enrola nas curvas de um suporte) e estou aqui. A convite d’ A Dobra do Grito, um blog de pintura que vale bem a visita.

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O último a sair que feche a porta...


Tenho para mim a ideia, que reconheço ser de direita, que as mais altas figuras do Estado deveriam ser assim como as bíblicas luminárias, as quais, criadas por Deus ao quarto dia, haveriam de iluminar todas as coisas que depois delas viessem a ser. É por isso que me entristeço cada vez que os nossos mais altos representantes se mostram aquém das nossas mais naturais expectativas, como mais uma vez aconteceu no caso do senhor ministro da administração interna, dr. Rui Pereira, e das suas declarações sobre os dois episódios recentemente verificados em duas esquadras da polícia.
O primeiro, há pouco mais de uma semana, quando, num domingo, as instalações da Polícia de Segurança Pública de Moscavide foram invadidas por um grupo de indivíduos que, no seu interior, agrediram um jovem que ali se dirigira justamente para deles apresentar queixa, facto que só pôde acontecer porque, estando ali um único agente da polícia de serviço, o mesmo foi obviamente incapaz de fazer frente à situação.
Instado pelos jornalistas, o senhor ministro disse então o óbvio, isto é, que as esquadras, em termos simbólicos e efectivos, devem ser locais onde impere a segurança, pelo que a presença de um só agente da polícia no seu interior é uma situação que, embora muitas vezes se verifique, é absolutamente inaceitável. Até aqui tudo bem.
Logo a seguir, porém, dise também o impensável, nomeadamente que a solução para este problema - conforme, aliás, conversa entretanto tida com o senhor director nacional da PSP -, não passa pela contratação de mais agentes, mas pela reorganização das escalas de serviço, as quais têm de ser repensadas de maneira a que casos como este não se repitam. Com os actuais efectivos – garantiu o dr. Rui Pereira –, desde que devidamente reorganizados, é possível deixar de haver apenas um polícia ao serviço numa esquadra.
Ficámos a saber, assim, que a insegurança nas nossas cidades, nas quais nem numa esquadra estamos a salvo, não se deve à falta de recursos materiais ou humanos, mas à deficiente organização das escalas de serviço. Aquele pobre homem, portanto, não foi espancado, há oito dias, no interior de uma esquadra, por um bando de delinquentes, porque haja, entre nós, falta de polícias. Não. Temos polícias suficientes. Estão é mal distribuídos. Temos bons polícias. Estão é mal coordenados.
Ora, quem é que deve zelar pela boa distribuição e pela melhor coordenação dos agentes da polícia? O senhor ministro e senhor director nacional da PSP. Foi, por isso, muito bom que tudo isto tivesse acontecido, porque, agora, estando ambos conscientes dos deveres que correspondem às suas funções, as coisas vão garantidamente mudar. Porquê? Porque sim. Porque o senhor ministro disse-o e a comunicação social escreveu-o. E isso basta, até porque o problema, como todos nós sabemos, não é falta de agentes, mas de coordenação, como reconheceram os respectivos coordenadores, que antes não coordenavam, mas agora vão – obviamente – coordenar...
Este problema estava, portanto, resolvido, quando se deu o tal segundo episódio, o qual, de algum modo, está ainda relacionado com o primeiro. O facto é o seguinte: a esquadra da PSP do Rossio não tem porta, a qual ali inexiste – pasme-se – há mais de três anos.
O Comando Metropolitano de Lisboa veio imediatamente dizer que há muito que está ao corrente do problema, o qual, no entanto, desvaloriza, já que tal situação em nada influencia o trabalho dos agentes (o plural era optimista) numa esquadra que está aberta 24 horas por dia. Fontes policiais – que preferiram permanecer anónimas – disseram mesmo que o Comando está a pensar retirar também as janelas, o que não só tornará a esquadra mais fresquinha durante o Verão, como permitirá a qualquer desgraçado que ali se dirija a um domingo, fugir por uma janela sempre que vir a entrar pela porta aqueles de quem veio fazer queixa.
Já o dr. Rui Pereira, a luminária de que ao princípio vos falei, disse, com maior prudência, que o caso está a ser analisado e que uma solução será encontrada. Eu repito: Que o caso está ser analisado e que uma solução será encontrada! Ou seja, o senhor ministro, no que certamente será coadjuvado pelas mais altas instâncias da Polícia de Segurança Pública, está pessoalmente a tratar do caso da porta da esquadra do Rossio para o qual, aliás, espera vir a encontrar uma solução. Quem sabe não haja falta de portas na polícia e o problema passe pela sua melhor distribuição?
Numa semana em que soubemos também que o edifício de um tribunal com apenas 17 anos está a ruir por ter sido construido sobre um terreno pantanoso e que um outro tribunal funciona num edifício onde não há sala de espera (as pessoas fazem fila nas escadas do prédio), onde não há casas de banho (quem estiver muito aflito tem que ir até ao "café") e onde não há elevador (o qual se encontra a servir de sala do arquivo), é caso para perguntar se ainda vale a pena lutarmos por Portugal...!? E digo-vos, desanimado, que talvez já não haja outro remédio que não seja continuarmos, lentamente, a ir embora... e o último a sair que feche a porta - se ainda houver, claro.

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Domingo é que é!






Como todos os portugueses que gostam de futebol, no domingo vou estar pregada à televisão. Vou ver ver jogos a sério, num campeonato a sério, onde o título se joga no último jogo. Abençoados! Basicamente seis portugueses envolvidos, que é mais do que o Nacional se pode gabar!

Estou dividida: o Man U, apesar de ter o meu respeito pela diatribes do Ronaldo e aquele ar de professor sábio do Queiroz, tem alguma embirrância minha por ser o Benfica lá do sítio, é muito grande e popular.

O Chelsea, por ser um clube mais de bairro fino, mais piquenino, lembra-me sempre o meu Sporting e por isso facilita-me a escolha. E porque acho que o Chelsea não vai ganhar, sempre é mais fácil: estou bem adaptada a ser segundo, e assim me me livro de grandes comoções.

Os jogos devem acabar lá para as 16.45. Antes das 17.00 teremos os vencedores da liga inglesa. E é neste momento que começa para mim a grande competição.

É que é noite de globos de ouro, onde estão nomeados o Cristiano Ronaldo e José Mourinho!

Aposto em como nenhum dos dois confirmou a presença. Será que o Cristiano vem, será que dá tempo, traz um ou dois brincos, traz namorada, e se perder vem na mesma e põe cara de amuado? Será que o Mourinho farto dos portugueses vai, ou manda emissário, como de costume? Vamos todos sofrer por saber qual dos dois se digna a aparecer: se o vencido ou o vencedor.
A essa hora marcada saberemos então quem é verdadeiramente o herói nacional!

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segunda-feira, 5 de maio de 2008

I. O relógio suíço

É conhecida a frase de Orson Wells que n’”O Terceiro Homem” diz que a democracia nunca produziu o génio. Para isso basta ver o que produziu a Suíça: o relógio de cuco. Que uma personagem de filme o tenha dito é uma questão. Que o lugar comum tenha feito sucesso, mesmo entre os que não conhecem nem a sua fonte nem a sua formação, é facto significativo. É curioso como uma época que se diz democrática como esta está plenamente disposta a desprezar um país exactamente porque é longamente democrático.

É evidente que a democracia tem uma relação turbulenta com o génio e só quando incluiu elementos autocráticos e monárquicos no seu seio (como de formas diversas a Inglaterra e a França conseguiram fazer) os preservam. Essa é uma outra questão que exige tratamento separado.

Mas que se associe mediocridade, democracia e Suíça, já se está a dar passos longos demais. A Suíça começa por ser uma oligarquia de fronteiras variáveis, nuns sítios de pendor teocrático (como Genebra), noutros plutocrático (como Basileia e Zurique), noutras mais democrático ou ainda com restos aristocráticos.

Mas sobretudo não se pode dizer que a Suíça seja um país de medíocre cultura. Acho relativamente irónico que sejam pessoas pouco cultas as mais apressadas em desprezar povos europeus e a afirmar a menoridade da cultura destes. A maledicência não sustentada é sempre reflexiva e bate por ricochete no seu autor.

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