terça-feira, 6 de maio de 2008

O último a sair que feche a porta...


Tenho para mim a ideia, que reconheço ser de direita, que as mais altas figuras do Estado deveriam ser assim como as bíblicas luminárias, as quais, criadas por Deus ao quarto dia, haveriam de iluminar todas as coisas que depois delas viessem a ser. É por isso que me entristeço cada vez que os nossos mais altos representantes se mostram aquém das nossas mais naturais expectativas, como mais uma vez aconteceu no caso do senhor ministro da administração interna, dr. Rui Pereira, e das suas declarações sobre os dois episódios recentemente verificados em duas esquadras da polícia.
O primeiro, há pouco mais de uma semana, quando, num domingo, as instalações da Polícia de Segurança Pública de Moscavide foram invadidas por um grupo de indivíduos que, no seu interior, agrediram um jovem que ali se dirigira justamente para deles apresentar queixa, facto que só pôde acontecer porque, estando ali um único agente da polícia de serviço, o mesmo foi obviamente incapaz de fazer frente à situação.
Instado pelos jornalistas, o senhor ministro disse então o óbvio, isto é, que as esquadras, em termos simbólicos e efectivos, devem ser locais onde impere a segurança, pelo que a presença de um só agente da polícia no seu interior é uma situação que, embora muitas vezes se verifique, é absolutamente inaceitável. Até aqui tudo bem.
Logo a seguir, porém, dise também o impensável, nomeadamente que a solução para este problema - conforme, aliás, conversa entretanto tida com o senhor director nacional da PSP -, não passa pela contratação de mais agentes, mas pela reorganização das escalas de serviço, as quais têm de ser repensadas de maneira a que casos como este não se repitam. Com os actuais efectivos – garantiu o dr. Rui Pereira –, desde que devidamente reorganizados, é possível deixar de haver apenas um polícia ao serviço numa esquadra.
Ficámos a saber, assim, que a insegurança nas nossas cidades, nas quais nem numa esquadra estamos a salvo, não se deve à falta de recursos materiais ou humanos, mas à deficiente organização das escalas de serviço. Aquele pobre homem, portanto, não foi espancado, há oito dias, no interior de uma esquadra, por um bando de delinquentes, porque haja, entre nós, falta de polícias. Não. Temos polícias suficientes. Estão é mal distribuídos. Temos bons polícias. Estão é mal coordenados.
Ora, quem é que deve zelar pela boa distribuição e pela melhor coordenação dos agentes da polícia? O senhor ministro e senhor director nacional da PSP. Foi, por isso, muito bom que tudo isto tivesse acontecido, porque, agora, estando ambos conscientes dos deveres que correspondem às suas funções, as coisas vão garantidamente mudar. Porquê? Porque sim. Porque o senhor ministro disse-o e a comunicação social escreveu-o. E isso basta, até porque o problema, como todos nós sabemos, não é falta de agentes, mas de coordenação, como reconheceram os respectivos coordenadores, que antes não coordenavam, mas agora vão – obviamente – coordenar...
Este problema estava, portanto, resolvido, quando se deu o tal segundo episódio, o qual, de algum modo, está ainda relacionado com o primeiro. O facto é o seguinte: a esquadra da PSP do Rossio não tem porta, a qual ali inexiste – pasme-se – há mais de três anos.
O Comando Metropolitano de Lisboa veio imediatamente dizer que há muito que está ao corrente do problema, o qual, no entanto, desvaloriza, já que tal situação em nada influencia o trabalho dos agentes (o plural era optimista) numa esquadra que está aberta 24 horas por dia. Fontes policiais – que preferiram permanecer anónimas – disseram mesmo que o Comando está a pensar retirar também as janelas, o que não só tornará a esquadra mais fresquinha durante o Verão, como permitirá a qualquer desgraçado que ali se dirija a um domingo, fugir por uma janela sempre que vir a entrar pela porta aqueles de quem veio fazer queixa.
Já o dr. Rui Pereira, a luminária de que ao princípio vos falei, disse, com maior prudência, que o caso está a ser analisado e que uma solução será encontrada. Eu repito: Que o caso está ser analisado e que uma solução será encontrada! Ou seja, o senhor ministro, no que certamente será coadjuvado pelas mais altas instâncias da Polícia de Segurança Pública, está pessoalmente a tratar do caso da porta da esquadra do Rossio para o qual, aliás, espera vir a encontrar uma solução. Quem sabe não haja falta de portas na polícia e o problema passe pela sua melhor distribuição?
Numa semana em que soubemos também que o edifício de um tribunal com apenas 17 anos está a ruir por ter sido construido sobre um terreno pantanoso e que um outro tribunal funciona num edifício onde não há sala de espera (as pessoas fazem fila nas escadas do prédio), onde não há casas de banho (quem estiver muito aflito tem que ir até ao "café") e onde não há elevador (o qual se encontra a servir de sala do arquivo), é caso para perguntar se ainda vale a pena lutarmos por Portugal...!? E digo-vos, desanimado, que talvez já não haja outro remédio que não seja continuarmos, lentamente, a ir embora... e o último a sair que feche a porta - se ainda houver, claro.

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Domingo é que é!






Como todos os portugueses que gostam de futebol, no domingo vou estar pregada à televisão. Vou ver ver jogos a sério, num campeonato a sério, onde o título se joga no último jogo. Abençoados! Basicamente seis portugueses envolvidos, que é mais do que o Nacional se pode gabar!

Estou dividida: o Man U, apesar de ter o meu respeito pela diatribes do Ronaldo e aquele ar de professor sábio do Queiroz, tem alguma embirrância minha por ser o Benfica lá do sítio, é muito grande e popular.

O Chelsea, por ser um clube mais de bairro fino, mais piquenino, lembra-me sempre o meu Sporting e por isso facilita-me a escolha. E porque acho que o Chelsea não vai ganhar, sempre é mais fácil: estou bem adaptada a ser segundo, e assim me me livro de grandes comoções.

Os jogos devem acabar lá para as 16.45. Antes das 17.00 teremos os vencedores da liga inglesa. E é neste momento que começa para mim a grande competição.

É que é noite de globos de ouro, onde estão nomeados o Cristiano Ronaldo e José Mourinho!

Aposto em como nenhum dos dois confirmou a presença. Será que o Cristiano vem, será que dá tempo, traz um ou dois brincos, traz namorada, e se perder vem na mesma e põe cara de amuado? Será que o Mourinho farto dos portugueses vai, ou manda emissário, como de costume? Vamos todos sofrer por saber qual dos dois se digna a aparecer: se o vencido ou o vencedor.
A essa hora marcada saberemos então quem é verdadeiramente o herói nacional!

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segunda-feira, 5 de maio de 2008

I. O relógio suíço

É conhecida a frase de Orson Wells que n’”O Terceiro Homem” diz que a democracia nunca produziu o génio. Para isso basta ver o que produziu a Suíça: o relógio de cuco. Que uma personagem de filme o tenha dito é uma questão. Que o lugar comum tenha feito sucesso, mesmo entre os que não conhecem nem a sua fonte nem a sua formação, é facto significativo. É curioso como uma época que se diz democrática como esta está plenamente disposta a desprezar um país exactamente porque é longamente democrático.

É evidente que a democracia tem uma relação turbulenta com o génio e só quando incluiu elementos autocráticos e monárquicos no seu seio (como de formas diversas a Inglaterra e a França conseguiram fazer) os preservam. Essa é uma outra questão que exige tratamento separado.

Mas que se associe mediocridade, democracia e Suíça, já se está a dar passos longos demais. A Suíça começa por ser uma oligarquia de fronteiras variáveis, nuns sítios de pendor teocrático (como Genebra), noutros plutocrático (como Basileia e Zurique), noutras mais democrático ou ainda com restos aristocráticos.

Mas sobretudo não se pode dizer que a Suíça seja um país de medíocre cultura. Acho relativamente irónico que sejam pessoas pouco cultas as mais apressadas em desprezar povos europeus e a afirmar a menoridade da cultura destes. A maledicência não sustentada é sempre reflexiva e bate por ricochete no seu autor.

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domingo, 4 de maio de 2008

O laço titilante de Egon Schiele

O titilante laço vermelho que força os quatro buracos da capa e contracapa é de bom augúrio. Falo-vos de um pequeno álbum de 16,5 por 22 cm, cartonado e com selo da Prestel Verlag. O livrinho faz parte da série “Erotische Skizzen”. Dos três que sei existirem, só tenho o de Egon Schiele, mas hei-de descobrir os que foram dedicados aos “esboços eróticos” de Picasso e Rembrandt.
Abre-se este “Erotische Skizzen Egon Schiele” e o sexo surge nu, exposto e vermelho. Uma nudez que impele e repele. Percebe-se que estes corpos, a roçar o grotesco, tenham provocado alguns amargos de boca aos austríacos do começo do século XX. Schiele era o protegido de Klimt – herdou-lhe a amante de 17 anos – e pintou numa claustrofóbica Viena a que Freud já começar a levantar a tampa. Casou, pintou a mulher como tinha pintado a amante e antes pintara as adolescentes que levaram os juízes a acusá-lo de sedução e abuso. Absolvido pelos tribunais, a Europa das artes sentenciou-o à genialidade de que esta erótica, agora divulgada em livro, é prova cabal.


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Direita e esquerda – ensaio de reabilitação (II)


Na fronteira entre «direita» e «esquerda», há dois termos que fazem charneira. Dois termos que não são exclusivo de um ou outro lado da dicotomia, mas cujo peso relativo varia, inconfundivelmente, marcando uma diferença identitária. Penso, sem hesitação, na liberdade e na igualdade.

Não é raro ver-se a ideia de igualdade – como ideal supremo de uma comunidade organizada, justa e feliz – associada ao ideal da liberdade, também considerado fim colectivo último.

No entanto, o aprofundamento da reflexão enfrenta, aqui, questões nucleares. Que liberdade? De querer?, de agir? Para todos?, mesmo todos? Que igualdade?, entre quem?, com que sentido? Só a resposta a estas interrogações essenciais permite perceber que há situações de efectiva (e natural) complementaridade de valores na idealização da boa sociedade, outras em que há uma franca incompatibilidade e outras ainda em que é possível (e recomendável) fundar o equilíbrio em princípios de concordância prática.

Ninguém desconhece que, muitas vezes, o sistema social promove a igualdade, formal e material, à custa do valor da liberdade. Como também ninguém ignora que a exaltação das liberdades, designadamente da liberdade económica, tende a desinteressar-se das desigualdades que a exacerbação da liberdade necessariamente induz.

No confronto entre os dois valores – liberdade e igualdade –, a vertigem igualitária poderia impor a obrigatoriedade do ensino público, a generalização do ensino de um ofício a par do estudo intelectual, a uniformização do vestuário. Problema, aliás, complexo, já que a restrição da liberdade de escolha também nunca é neutra – com efeito, a liberdade de escolha na esfera privada é intrinsecamente desigual, já que a liberdade privada dos ricos é imensamente mais ampla do que a dos pobres.

Neste contexto axiologicamente difícil, a doutrina liberal preconiza uma forma de igualitarismo mínimo, segundo a qual todas as pessoas têm direito a igual liberdade, salvo excepções que têm de ser justificadas, o que implica que cada um limite a sua liberdade para a tornar compatível com a liberdade de todos os outros.

É claro que a doutrina liberal não resolve, no plano da acção política, os problemas colocados pelo postulado da liberdade igual. Afirma-o em abstracto, mas o que existe são liberdades concretas. E sustentar que se usufrui, em abstracto, de todas as liberdades individuais que os outros têm é bem diferente de dizer que se usufrui de cada liberdade de uma forma igual a todos os outros. Ora, a doutrina liberal afirma a primeira, como princípio, mas a prática liberal não pode garantir a segunda, a não ser intervindo com medidas igualitárias limitativas, o que significa pôr em crise o princípio geral.

Nesta reflexão, importa ainda sublinhar um outro aspecto decisivo. É que os conceitos de liberdade e igualdade não são simétricos. A liberdade é um atributo da pessoa, na sua qualidade de indivíduo. A igualdade exprime – e, portanto, exige – uma relação entre dois ou mais seres. A frase de Orwell jamais teria resultado se reportada à liberdade: que todos são livres, mas uns são mais livres que outros, é uma evidência. É na igualdade que a frase, sendo contraditória, ganha sentido. A liberdade é um bem individual, a igualdade é um bem social.

Daí que a igualdade na liberdade não exclua a aspiração por outras formas de igualdade, como a igualdade de oportunidades ou, mais radicalmente, a igualdade de rendimentos. Mas tal aspiração revela, tipicamente, algum grau de conflito com o próprio ponto de partida: a igualdade na liberdade.

Ora, na minha opinião, é sobretudo o posicionamento relativamente à ideia de igualdade que sustenta a distinção entre «direita» e «esquerda». Como é esse posicionamento, aliás, que explica uma imensa diversidade nos modos de formular e entender a própria ideia de liberdade.

Continuarei com este mote...

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Piedade





As mães são redentoras.

Praticam muitas vezes a redenção à mesa.


Deve ser por isso que gosto muito da cena de Goodfellas em que depois da chacina, o sítio para onde confluem os meliantes é justamente para casa da mãe do mais selvagem e lá chegados se sentam à mesa. É em busca do perdão que vão.






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Vargas Llosa e Los cuadenos de don Rigoberto



Quando o conheci comecei por tentar ler “tudo” o que tinha escrito. Descobri o Palomino Molero, diverti-me com o Pantaleão e as Visitadoras, fascinei-me com a Guerra do Fim do Mundo, segui as histórias dentro da história da Tia Júlia e o Escrevedor (com atenção e muito riso) e ouvi falar o Falador.

Depois, vá-se lá saber porquê, fui-me esquecendo do Vargas Llosa. Não li, por exemplo, a Festa do Chibo (que o meu Pai tanto me recomendou) o que foi (e continua a ser) um erro crasso.

Há dias atrás, (também) para treinar o meu espanhol, comprei a versão original de Los cuadernos de don Rigoberto. Lembrei-me, na altura, de um Reader’s Guide to Conteporary Authors, da Penguin, em que estes cuadernos aparecem numa categoria de Smart and Sexy (ao lado do fabuloso Portnoy’s Complaint de Philip Roth). E com toda a razão.

O gozo não está apenas na história em si, nem nas personagens que nela habitam, mas no que vou lendo (e relendo) a cada página que passa.

Alguns exemplos:

Debaixo do extraordinário titulo La rebelión de los Clítoris e sobre (algum) feminismo:

“Entiendo, señora, que la variante feminista que usted representa há declarado la guerra de los sexos y que la filosofia de su movimiento se sustenta en la convicción de que el clítoris es moral, física, cultural y eroticamente superior al pene, y, los ovários, de más noble idiosincrasia que los testículos”.

Sobre o desporto e o prazer:

“Antes, debo decirle que los únicos deportes a los que exonero la picota son los de mesa (excluído el ping pong) e la cama (incluída, por supuesto, la masturbación)”.

Sobre o associativismo largo espectro (e na mesma lógica de um dos irmãos Marx – Groucho? - que dizia nunca querer fazer parte de um clube que o quisesse aceitar):

“Tranquilízate: no pertenezco ni perteneceré a ninguno de esos clubs o asociaciones ni a nada que pudiera parecérseles (los Boy Scouts, los ex-alumnos Jesuítas, la masoneria, el Opus De, etcétera.). Mi hostilidade al género asociativo es tan radical que hasta he desistido de ser miembro del Touring Automóvil Club, y no se diga de esos llamados clubs sociales que miden la categoria étnica y el património económico de los limeños. Desde mis años ya lejanos en la Acción Católica y a causa de ella – pues fue ésa la ilusión de toda utopia social y me catapulto a la defensa del hedonismo y el individuo -, he contraído una repugnância moral, psicológica e ideológica, contra toda forma de servindumbre gregária, al punto que – no es broma – incluso la cola del cine me hace sentirme atropellado y disminuido de mi libertad, retrocedido a la condición de hombre-masa”.

E sobre o mesmo tema (numa obrigatória Carta al Rotario):

“Un rebaño, como se sabe, está compuesto de gente despalabrada y esfinter más o menos débil. Es un hecho comprobado, además, que, en tiempos de confusión, el rebaño prefiere la servindumbre al desorden. De ahi que quienes actuam como cabras no tengan líderes sino cabrones”.

Poder-se-á não concordar com tudo mas que tem (muita) graça, tem. Pelo menos para mim (e as boas notícias são que ainda vou a meio).

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Pequenos nadas em dia de quase tudo

Bah, ce sont des petits riens, mais c'est presque tout.

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Comércio tradicional



A sinopse é preguiçosamente copiada daqui.
Mas neste caso a recomendação é que vale. Sexta dia 9 às 19h00, na Cinemateca. Dificilmente haverá melhor forma de acabar a semana.


"Um dos filmes mais amados de Ernst Lubitsch, embora bastante diferente das suas obras-primas dos anos 30, em que a elegância igualava o cinismo e que só têm dois temas: o sexo e o dinheiro. Por comparação, THE SHOP AROUND THE CORNER, adaptado de uma peça húngara, é quase sentimental, com a história de dois modestos colegas de trabalho que se vêem todos os dias na loja, sem suspeitarem que trocam um com o outro uma correspondência amorosa. Mas também neste registo a mise-en-scène de Lubitsch é um prodígio de perfeição."

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sábado, 3 de maio de 2008

Fazer amor com sotaque

Para evitar represálias aviso já que estou a citar João Pereira Coutinho:


"Vou gozar", "estou-me a vir": fazer amor em português (do Brasil) ou em português (de Portugal) não é apenas uma questão de sotaque, mas de imaginário, temperamento, tradição.

A crónica donde surripiei o excerto ainda não está aqui, mas já está abreviadamente aqui. Leiam o que encontrarem e esperem firmes a "integral". Satisfação garantida.

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De Angola, com amor

Desculpem, mas vou dar-vos uma boa razão para saírem agora mesmo do "Geração de 60": ninguém contaria melhor esta história do que o Francisco José Viegas. Mutatis mutandis aconteceu há bocadinho a mesma coisa nas Antas, não é Francisco?

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É bom

Mensagem singela em tempos de globalização: o que é NACIONAL é bom.

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CML+APEL+UE=CAOS

Se os livros se comessem, há muito que a Feira do Livro de Lisboa tinha fechado. Infelizmente não se comem e por isso não há nenhum ditador como a ASAE que ponha ordem naquilo.

Com um sector livreiro em franco desenvolvimento há já alguns anos, a feira do livro não mexe nada, continuando num sítio absurdo, em condições indescritíveis, à chuva, ao Sol, a subir a descer. Metade ou mais do que lá está são depósitos velhos de editoras caducas. O contacto com os autores é feito em cadeiras e mesas de plástico, desconfortável e absurdo.

Por trás da feira estão duas das piores instituições do país: uma, gigantesca e irrecuperável, a CML; e outra, pequena e atrasada, uma espécie de grémio de outros tempos, agindo como um monopólio, a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros. Pelo meio, apareceu outra associação, a União de Editores, que francamente não sei avaliar mas que parece querer mudar algo.

Claro que a Câmara, dominada por conluios absurdos entre partidos, que torna tudo inoperante na área da cultura, não se conseguiu impor. – Então vamos dar a “nossa” feira aos capitalistas da Leya (sócios importantes da UE que queriam uns pavilhões maiorzitos)? Não pode ser, os livros são cultura, não comércio, etc. etc. Aqui fica um argumento em favor da mudança para a esquerda que está por trás desta inactividade institucional: o povo merece mais.

Tirem por favor a gestão da feira das mãos da Câmara e entreguem-na à FIL, à Parque Expo, ao que quiserem. Acabem com o auto proclamado monopólio da APEL e abram concursos para a organização anual do “certame”.

PS: tinha acabado de escrever isto, ia pô-lo no blog, quando vi esta coisa espantosa no post do PN.

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O paraíso

Afinal o paraíso sempre existe. E para alcançá-lo basta aprender a ler em holandês.





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sexta-feira, 2 de maio de 2008

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Direita e esquerda – ensaio de reabilitação (I)


A dicotomia direita-esquerda é tema obrigatório para aqueles que reflectem sobre a política e o seu sentido.
Dois séculos depois da assimilação dos conceitos – nos tempos em que o conflito opunha Gironda e Montanha, e já depois de, na Inglaterra do século XVII, os levellers e, mais radicalmente, os diggers terem assumido as razões da alternativa –, a questão passa por saber se esta distinção terá, hoje, ainda algum papel a cumprir... Quer no plano da acção política e dos princípios que a determinam. Quer num registo teórico e conceptual, enquanto contributo para a construção de quadros de entendimento do fenómeno político.

A verdade é que, ninguém o ignora, há muito que inúmeras vozes reclamam a superação dessa diversidade inicial. De critério constitutivo do discurso político e do antagonismo proposto, os conceitos de direita e esquerda teriam passado a puro refugo ideológico.
Pensar em direita e esquerda é, para alguns, pensar num binómio com muito passado, mas pouco futuro.

Não obstante, desafiando esse pretenso determinismo histórico, a antítese sobrevive. Teimosamente. Em cada nova eleição, algures num qualquer canto do mundo, se emerge uma bandeira, um discurso, uma causa que se proclama de esquerda, é inevitável que, logo, e em resposta, surja uma outra bandeira, um outro discurso, uma outra causa a reclamar-se de direita.

Aliás, a incontornável circunstância de, mesmo depois da queda do muro, do fim da União Soviética, da completa dissolução do Bloco de Leste, a díade continuar no centro do debate político (BOBBIO) revela que o seu alcance vai muito para além da oposição entre capitalismo e comunismo (GAUCHET). Nos debates públicos sobre política, como também sobre economia ou questões sociais, as palavras «direita» e «esquerda» emergem sempre com um intuito de clarificação de pertenças e, portanto, de premissas.

E o facto é que, qualquer de nós, perante um protagonista político, um programa político ou um qualquer desígnio político, logo se questiona se será de «direita» ou de «esquerda»... Essa continua, portanto, a ser a nossa mais imediata referência. Mas sê-lo-á por razões meramente histórico-culturais? Será que, conceptualmente, a distinção cristalizou e, assim, perdeu virtualidades cognitivas e discursivas? Será que a dicotomia direita-esquerda perdeu alcance?

Por mim, estou com aqueles que vêem na «direita» e na «esquerda» categorias universais da política (GAUCHET). Categorias vivas e perenes. Operativas e plenas de sentido.

Mais, estou com aqueles que vêem a opção entre «direita» e «esquerda» como expressão necessária – e urgente – da recusa do populismo que ameaça a política dos nossos dias (RUI RAMOS).

Pour cause, será esse o mote dos meus próximos 'posts'.

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Churchill e a GNR

Com incontrolável optimismo a Guerra e Paz Editores (confesso a minha umbilical ligação), acreditando que o livro é uma tecnologia de comunicação perene, acaba de publicar estas duas obras de méritos tão indiscutíveis que já alguém viu críticos, desesperados, a arrancarem cabelos das suas carecas. Os Meus Primeiros Anos, de Winston Churchill foi considerado um dos livros mais influentes do século XX (e eu acho que pode iluminar o XXI). É uma autobiografia que abarca a vida do autor até ao seu casamento, em 1908.

Para Além Do Portão - A Gnr E O Carmo Na Revolução De Abril, de Nuno Andrade, é uma obra de investigação. O autor, oficial da GNR, revela o que se passou, de facto, entre os militares no Quartel do Carmo. Um contributo relevante para o estudo da nossa história recente.

Não comprem, não, e depois queixem-se de que não há sociedade civil que se veja.

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Aliança Santana-Zapatero

Vi com tanta simpatia como razoável cepticismo a entrevista de Santana Lopes a Judite de Sousa, na RTP1.

Tirando uma piedosa declaração de intenções sobre os fins últimos do exercício do poder político – a de proporcionar a maior felicidade possível nesta vida (e não, como sublinhou o entrevistado, em hipotéticas vidas futuras) aos cidadãos que lhe estão subordinados – o anúncio de ideias políticas e de propostas de acção governativa foi impenitente e notoriamente submerso pela contabilidade das espingardas no interior do aparelho partidário.

À falta de recursos próprios, Santana acabou por brandir como estandarte uma recente medida do Governo socialista espanhol que facilita às famílias a amplificação gratuita do prazo das hipotecas, reduzindo assim o respectivo custo mensal.

Esta sim, é uma surpresa colossal: a aliança Santana-Zapatero é uma cálida e efusiva promessa eleitoral.

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O PSD está cheio de arrependimentos e de ocasiões perdidas…




Tenho seguido com atenção o que aqui se tem escrito sobre o estado actual do PSD.
Confesso que tenho sido tentada por vezes a fazer apenas comentários aos qualificadíssimos posts que têm sido publicados mas, no momento de começar a escrever, fico vazia de palavras e acabo sempre por me render ao “deixar para amanhã”.
Reflectindo sobre esta minha incapacidade, percebi que ela se prendia por uma enorme desilusão. Passam os anos e o PSD continuar a girar no carrossel aonde os cavalos ainda são Pedro Santana Lopes, que por sinal já devia ter sido abolido do espaço público há muito tempo, Alberto João Jardim que continua a fazer rir os portugueses só porque as suas vidas são totalmente insípidas e, a própria Manuela Ferreira Leite que, como já aqui foi dito, não deixando de ser um personagem com toda a credibilidade etc etc etc não deixa de ser apenas o peso do passado, o testemunho de que o PSD (como o país, aliás) não tem capacidade de se regenerar.
O PSD está cheio de arrependimentos e de ocasiões perdidas, de confirmações e reafirmações.
A sensação que dá é que neste partido nada se afirma e tudo se vai perdendo. Não há paixão nem convicção.
Já ía sendo tempo de termos uma qualquer notícia que nos surpreendesse…

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Rei no Reino


"Amigo Bernardo, dos desertos do Roncão d'el-Rei, na mais bela poética noite de luar que ver
se possa, descreve este teu amigo. Nada pode haver de mais belo, os roxinóis cantam à desgarrada, o ar rescende dos milhares de loendros que cobrem as encostas alcantiladas do Guadiana. (...) como não estar melancólico se acabamos de fazer dezasseis léguas a cavalo em oito horas e não descansámos e não dormimos a noite passada se não uma misera hora e vemos apenas diante de nós uma velhas esteiras, as nossas mantas, e os aparelhos dos nossos cavalos como travesseiros, para passarmos umas noites" , carta do Rei D.Carlos ao Conde de Arnoso escrita a 10km de Reguengos de Monsaraz.

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