domingo, 13 de abril de 2008

Política: cresçam e apareçam!


Este nosso mundo tem coisas horríveis. Ou, melhor, coisas que eu acho horríveis. Mas, se calhar, o problema é meu. Estarei irremediavelmente incapaz de me rever em certas manifestações do espírito do tempo.

Vem isto a propósito de bebés. Ou, mais exactamente, dos bebés convertidos em recurso de campanhas políticas.
Ao contrário do que adivinhariam os génios publicitários, não me enterneço... Nada! As criancinhas a balbuciar «Obama», a comer a papa por debaixo de ‘slogans’ ou levantadas em braços no meio de comícios de Clinton são imagens que, muito antes de qualquer ternura, me suscitam a mais viva náusea.

A política exige consciência. Conhecimento das discussões, vontade das opções. Ou seja, precisamente, o que as crianças não têm, nem devem ter.

Nas democracias, as crianças devem ser crianças. Crescer em liberdade. À medida do que a idade permita, aprender a vivenciar a política, sem condicionamentos: ouvindo, comparando, questionando, amadurecendo a percepção das escolhas e da responsabilidade (individual e colectiva) que lhes subjaz.
Utilizar crianças para a promoção de qualquer ideia política consubstancia uma despudorada manipulação. Própria dos estados totalitários, mas absolutamente intolerável em regimes democráticos.

Crianças de devoção bem ensaiada a Staline, Hitler, Mao ou Fidel são registos tristes na memória de todos nós. E assim devem ficar. Sem réplicas ‘soft’ em contextos ditos liberais.

Eu, que comi as primeiras papas no tempo da antiga senhora, sinto arrepios só de pensar que poderia ter ficado para a posteridade, de babette sujo e colher em riste, a pronunciar hesitantemente «Thomaz», «Thomaz»
Por maioria de razão, 40 anos depois, conquistada a liberdade, espero que não importemos (acriticamente) mais esta lamentável moda. Defendamos os nossos bebés! Deixêmo-los crescer em sossego. Longe, o mais longe possível da política.

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sábado, 12 de abril de 2008

Frémito Divino

Sally Gall
Os americanos (sempre os americanos) criaram um laser cuja luz é capaz de brilhar mais do que a superfície do Sol. É só uma pequena fracção de segundo, mas no instante em que se acende (explode?) a intensidade dessa luz supera tudo o que já conhecemos no cosmos.
É uma notícia infame. De repente, esse instante luminoso e incandescente apaga metáforas milenares de poetas líricos e poetas épicos. E já estou – sempre estive – disposto a dar de barato as metáforas neo-realistas.
O laser, o “Texas Petawatt”, consegue, pelo labor prosaico dos cientistas da Universidade do Austin, ultrapassar as explosões de raios gamas que ocorrem no mais recôndito e íntimo ventre das galáxias. Temo que, a partir de agora, já ninguém se incomode com o comportamento das margaridas.
Foi, confesso, a minha primeira impressão. Ferida e reaccionária. Mas, pensando melhor, com esta luz infinitamente brilhante nasce um outro romanesco e outra poética: nas mãos destes cientistas, nas mesas dos laboratórios de Austin, há agora estrelas, galáxias, um Sol potente e dócil, mais supernovas. Perpassa pela Universidade do Texas um frémito divino. Atrás de um castelo de nuvens, Deus rói-se de ciúmes.

Loretta Lux

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quinta-feira, 10 de abril de 2008

Ela vai levantar-se, nua

Étreinte, Pablo Picasso
Esta aguarela de Pablo Picasso andava meio perdida em escusos quartos londrinos. Reencontrada há pouco, foi ontem leiloada e arrematada por 101 mil euros.
Intitulada “Étreinte”, a pintura figura e celebra a entrega de dois amantes, o próprio pintor e Louise Lenoir, a quem Picasso chamava Odette. Foram amantes nos primeiros anos do século XX, período de que data a aguarela. Diz-se que terá sido a sua primeira amante francesa e que, nesse tempo, o pintor andava ainda à procura de “um estilo”.
Olha-se para este abraço e percebe-se nele uma beleza serena, sem ameaça. Uma noite enorme e dois seres que não se incomodam com o que os espera, lá longe. Daqui a pouco ela vai levantar-se, nua, cabelos desalinhados a cair pelos ombros, e ele há-de ficar a olhar desinteressado para a frágil beleza dela, um miraculoso cigarro a rolar-lhe nos dedos.

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0% de prémios na administração pública

O Correio da Manhã de ontem, dia 9 de Abril de 2008, na página 22, apresenta um pequeno artigo com o título «Autarquias sem prémios», onde pode ler-se:

«(...) A lei do Orçamento do Estado para 2008 estabelece, no artigo 119º, que os serviços públicos devem salvaguardar recursos financeiros destinados ao pagamento de prémios de desempenho a cinco por cento dos trabalhadores e a cinco por cento dos dirigentes de nível intermédio. Como a atribuição de prémios de desempenho está também prevista na nova lei dos vínculos, carreiras e remunerações da Administração Pública, a ANMP [ – Associação Nacional dos Municípios Portugueses – ] reuniu ontem para analisar se as autarquias também têm de pagar prémios de desempenho. E a conclusão foi categórica: “Nós não temos dúvidas que a legislação (lei 12-A) se aplica a nós.” O problema é que, com a generalidade das autarquias fortemente endividadas, “os orçamentos das câmaras não permitem o pagamento dos prémios de desempenho”, diz Fernando Ruas. E avança com uma explicação: “O Governo contou com isso no Orçamento de Estado, a nós não nos disse nada e nós não temos dinheiro.” (...) Para o presidente da ANMP, “não pode ser atribuida qualquer responsabilidade às autarquias por esta situação. (...) Quanto muito, as autarquias poderão preparar-se para o próximo ano.”»

Talvez o melhor fosse deixar tudo isto assim, sem comentários. Mas não consigo. Arrisco, por isso, um único. É que, se há coisa que este caso exemplifica é a total falta de autonomia existente no nosso Estado, levada (obviamente por via do interesse continuado dos partidos políticos em que assim seja) ao extremo da confusão. Reparemos bem: O Governo legisla sobre uma matéria que também implica as autarquias. As autarquias, porém, desconhecem-no, pelo que, apesar do Governo ter considerado o disposto na lei ao elaborar o Orçamento do Estado, o mesmo não se passou com as autarquias. Deste modo, as autarquias dizem que não podem cumprir o disposto na lei e inscrito no Orçamento do Estado, relativamente ao que, aliás, dizem não ser responsáveis. As autarquias tentarão, contudo, à laia de gesto de boa vontade, fazê-lo no ano que vem, independentemente do que para esse ano o Governo disponha na lei.
A coisa, já de si absurda, aparecerá em toda a sua magnitude se traduzirmos “Governo” por “Estado” e “autarquias” também por “Estado”, o que, para lá do exercício de retórica, a bem dizer, é verdade. Vejamos, então, como fica: «O Estado legisla sobre uma matéria que também implica o Estado. O Estado, porém, desconhece-o, pelo que, apesar do Estado ter considerado o disposto na lei ao elaborar o Orçamento do Estado, o mesmo não se passou com o Estado. Deste modo, o Estado diz que não pode cumprir o disposto na lei e inscrito no Orçamento do Estado, relativamente ao que, aliás, diz não ser responsável. O Estado tentará, contudo, à laia de gesto de boa vontade, fazê-lo no ano que vem, independentemente do que para esse ano o Estado disponha na lei.
Ora, não será já tempo dos sucessivos governos deixarem de nos iludir com falsas e falsamente apregoadas reformas da administração pública e de, ao invés, criarem condições para que a administração pública, lenta e gradualmente, se construa a si mesma, de forma autónoma e em relação com os cidadãos? Premeiem-se e punam-se então as pessoas e os organismos que o merecerem, de acordo com o serviço por eles objectivamente prestado aos cidadãos... Ou será que ainda há quem julgue sustentável, neste depauperado e desesperado Portugal, manter a administração pública fechada sobre si mesma para, deste modo, servir os pontuais e particulares interesses dos partidos políticos?

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quarta-feira, 9 de abril de 2008

Assim mesmo

É um blogue sobre a língua portuguesa. Contém um conjunto de utilíssimas ligações, do Ciberdúvidas a um amplo leque de dicionários que cobrem o português, castelhano, catalão, francês e italiano

Está atento, explica-nos a correcta utilização do hífen (da fava-de-santo-inâcio à lesma-de-conchinha), aumenta-nos o léxico (o que são animais filopátricos?), corrige-nos a ortografia e lança-nos em decifráveis aventuras semânticas. A ler já e consultar com regularidade, para não fazer erros. Assim mesmo.

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terça-feira, 8 de abril de 2008

II. Pierre DEGHAYE, De Paracelse à Thomas Mann : les avatars de l'hermétisme allemand, Paris, Dervy, " Bibliothèque de l'hermétisme ", 2000.

O lugar comum mais primitivo diz que o hermetismo é o inverso do espírito científico. Para quem tem a imagem do cientista burguês de meados do século XIX, de fraque e cinzenta figura, poderá ser verdade. Mas a ciência é bem mais vasta que isso. O hermetismo influenciou Newton mas também Leibniz, a química em formação, as ciências naturais. Em meados do século XIX era pecado para muitos cientistas falar em energia (conceito hermético, se o há) até que Mach e mais tarde Einstein lhe dão um papel central na ciência. Atracção universal é conceito hermético por excelência, e foi sobre ele que Newton estabeleceu a sua doutrina, até ao ponto de Leibniz criticar a ideia de acção à distância (neste sentido o alemão Leibniz está mais próximo do empirismo que o inglês Newton, ironia se a há). A iatroquímica, a cura “farmacêutica” que nós praticamos em massa hoje em dia, é criação hermética, em que não foi figura menor Paracelso.

Um lugar comum mais sofisticado é o de se considerar que a França e a Inglaterra se livraram do hermetismo, ao contrário da Alemanha. Novo erro. Os neoplatonismos de Oxford, os neopaganismos, as religiões telúricas, o Wicca mostram o peso destes movimentos nas ilhas britânicas, mais até que no continente, sobretudo no que respeita às elites sociais. A Inglaterra está bem longe de ser o país do empirismo que gosta de mostrar aos outros e a si mesma. Em França, para já não falar da actual Madame Soleil, passa por Mesmer, Cagliostro, Kardec entre muitos outros. Mas também Pierre Curie, grande antecipador do conceito de simetria na física, mais que o anedótico marido de Marie.

A verdade é que a Alemanha, até por não se ter sentido no dever de ser farol do mundo tão precocemente quanto a França e a Inglaterra, teve a vantagem de incorporar o hermetismo da sua cultura oficial. Na literatura, mas também na filosofia, igualmente na ciência manteve um papel visível e institucional para o hermetismo. Na mística Rússia Scriabin está na margem. Na cultura alemã, Goethe da planta primordial e das afinidades electivas, Gauss do magnetismo, Jung, Thomas Mann, Murnau, mas também Heisenberg estão no centro.

Façamos então a pergunta que é de esperar. Porque razão estudar o hermetismo hoje em dia? Para compreender a cultura da nossa época e nomeadamente a ciência, sem dúvida. Para compreendermos a psicologia do homem contemporâneo, de certeza. Mas, não menos importante, para percebermos que muito do que se faz e diz no espaço público mais não é que uma repetição vulgata de uma forma de pensar que teve e tem as suas glórias, mas que em mãos erradas se reduz ao cartomante de feira.



Alexandre Brandão da Veiga


http://www.geocities.co.jp/Technopolis/9866/shinkan11.html
http://www.libra.titech.ac.jp/kagakushi2/welcome.html
http://www.alapage.com/-/Fiche/Livres/2844540228/?id=276991175514615&donnee_appel=GOOGL&sv=X_L
http://www.joachimschummer.net/papers/2006_MadScientist_Ambix.pdf

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O desacerto político e o acordo ortográfico

No dia 4 de Junho de 1991, na Assembleia da República Portuguesa, foi aprovada, para ratificação, a resolução 26/91 – Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, cujo grande objectivo é o estabelecimento uniforme das normas relativas à grafia das palavras da língua portuguesa em todos os países que oficialmente se expressem na nossa língua, de tal modo que assim se garanta a «unidade essencial da língua portuguesa» e o «seu prestígio internacional».
Vejamos, antes de mais, um pouco da sua história. A Nota explicativa do Acordo (anexo II da referida resolução), começa por explicar que «a existência de duas ortografias oficiais da língua portuguesa, a lusitana e a brasileira, tem sido considerada como largamente prejudicial para a unidade intercontinental do português e para o seu prestígio no Mundo», situação que remonta – sempre de acordo com a referida Nota – a 1911, ano em que foi adoptada a primeira grande reforma ortográfica em Portugal, a qual não foi, porém, extensiva ao Brasil.
Em 1931, por isso, por iniciativa da Academia Brasileira de Letras e com o acordo da Academia das Ciências de Lisboa, foi aprovado o primeiro acordo ortográfico entre Portugal e o Brasil, o qual, no entanto, não produziu os efeitos desejados, o mesmo tendo acontecido, aliás, com a Convenção Ortográfica de 1943 e com a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945.
Em 1971, no Brasil, e em 1973, em Portugal, foram então promulgadas leis que, reduzindo substancialmente as divergências ortográficas entre os dois países, não resolveram as divergências sérias que continuaram a existir entre os dois sistemas ortográficos.
Foi nesse sentido que, em 1975, a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras elaboraram um novo projecto de Acordo, o qual, contudo, sobretudo por causa da situação política que então se vivia em Portugal, não veio a ser oficialmente aprovado.
Já em 1986, na presença dos novos novos países africanos lusófonos nascidos no processo da descolonização portuguesa, voltou a propor-se um Acordo, o qual, em vista de uma reacção fortemente adversa que pareceu gerar-se na opinião pública portuguesa, também não chegou a ser aprovado.
Convencidas que os Acordos de 1945 e de 1986 tinham falhado pela tentativa de imposição de uma unificação ortográfica absoluta, as duas Academias elaboraram então um novo texto, no qual deram uma maior relevância à pronúncia de cada uma das comunidades de expressão portuguesa, critério que balizou a nova proposta de unificação do sistema ortográfico da língua portuguesa.
Foi este Acordo, aprovado em 1990 pela Academia de Ciências de Lisboa, pela Academia Brasileira de Letras e pelas delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe (e, além disso, também aceite pela delegação da Galiza), que foi aprovado, como já se disse, em Junho de 1991, pela Assembleia da República Portuguesa.
O artigo 3º do Acordo, porém, estipulava que o mesmo entraria «em vigor em 1 de Janeiro de 1994, após depositados os instrumentos de ratificação de todos os Estados junto do Governo da República Portuguesa.» Ora, tal nunca aconteceu, tendo o Acordo sido apenas ratificado por Portugal, pelo Brasil e por Cabo Verde.
Foi então assinado, em 1998, em Cabo Verde, um Protocolo Modificativo do Acordo, através do qual se retirava a data da sua entrada em vigor, embora mantendo a exigência da sua ratificação por parte de todos os signatários do texto de 1990, o que, mais uma vez, não aconteceu.
Aprovou-se, por isso, em 2004, em São Tomé e Príncipe, um segundo Protocolo Modificativo, o qual, incluindo Timor-Leste entre os países signatários, estabelecia que bastava, para a entrada em vigor do Acordo, que o mesmo fosse ratificado por três membros da Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP).
O Acordo foi então ratificado pelo Brasil, por Cabo Verde e por São Tomé e Príncipe, o que, à partida, era o bastante para que entrasse em vigor. Tal, porém – e apesar dos protestos de várias entidades e personalidades dos países ratificantes –, não aconteceu ainda, sobretudo por se ter considerado que Portugal deveria ser incluido na ratificação formal do Acordo e dos seus Protocolos. Foi nesse sentido que o Acordo Ortográfico foi recentemente aprovado pelo Governo português, esperando-se agora a sua ratificação por parte da Assembleia e do Presidente da República.

Posto todo este percurso, julgo, por um lado, que não colhem as duas principais críticas que têm sido feitas ao presente Acordo – uma “científica” e a outra “processual” –, e, por outro, que está ainda por fazer a principal crítica que este Acordo e toda a sua história suscitam: uma avaliação política profunda sobre Portugal.

1. Contra o argumento “científico”, que tem pretendido que o Acordo corrompe e desvirtua a língua portuguesa naquilo que lhe é essencial, é bom lembrar, em primeiro lugar, que o mesmo Acordo tem sido proposto e defendido, desde o princípio – e já lá vão quase 80 anos –, pela Academia de Ciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras, que seguramente mais e melhor do que a maioria zelam pela defesa e pela conservação da nossa língua.
O medo gerado na opinião pública, nesse sentido, não se compreende, até porque a simples leitura do texto mostra que, «em relação às alterações de conteúdo, elas afectam sobretudo o caso das consoantes mudas ou não articuladas, o sistema de acentuação gráfica, especialmente das esdrúxulas, e a hifenação», o que, de facto, não implica mudanças substantivas na língua de Camões.
Não é verdade, como muitas vezes se tem dito, que, relativamente ao desaparecimento das consoantes mudas nas palavras, passaremos, em Portugal, a escrever “pato” em vez de “pacto”, ou “fato” em vez de “facto”. Ao contrário, as consoantes mudas só desaparecem, num determinado país, quando não sejam pronunciadas na língua desse país, pelo que, em Portugal, “facto” continuará a escrever-se “facto”, justamente na medida em que se pronuncia “facto”, enquanto no Brasil se escreverá “fato”, que é como por lá se diz (isto só é válido, porém, para as chamadas pronúncias cultas, pelo que não é porque alguém pronuncia “iágua” que passaremos a escrevê-la assim).
As outras principais alterações são, no que diz respeito ao português do Brasil, a eliminação do trema (escreveremos “aguentar” e “arguido” em vez de “agüentar” e “argüido”) e da acentuação do ditongo “ei” nas palavras graves (escreveremos “ideia” e “assembleia” em vez de “idéia” e “assembléia”); e, em todos os países que falam português, a simplificação e a redução do emprego do hífen e a eliminação da acentuação do ditongo “oi” em palavras graves ou paroxítonas (escreveremos “boia” e “heroico” em vez de “bóia” e “heróico”). Sobre tudo isto vide: http://orto.no.sapo.pt/index.htm.

2. A outra crítica que mais vezes tem sido feita, tanto do lado português quanto do brasileiro, prende-se com a questão “processual”, segundo a qual se questiona a necessidade – e até a legitimidade – do Estado legislar sobre a língua, ao que normalmente se contrapõe o exemplo inglês, considerado como mais democrático, onde, apesar das diferentes ortografias utilizadas em Inglaterra e nos Estados Unidos, não se impõe nenhum conjunto uniformizado de regras de bem escrever.
A isto se contrapõe, também habitualmente, que, em França, é à Academia Francesa que cumpre zelar pelo francês, pelo que, o nosso caso, num meio termo entre os exemplos de França e de Inglaterra, revelaria até um equilíbrio muito saudável entre as propostas científicas apresentadas pelas Academias e o sentir do povo democraticamente representado.
Tal questão, porém, por mais interessante que possa ser, ou tornar-se, é hoje, por força das circunstâcias, irrelevante, já que – analogamente, aliás, ao que se passou no caso do segundo referendo sobre o aborto –, tendo a questão ortográfica sido anteriormente objecto de legislação própria, a sua solução terá agora forçosamente que passar pelo crivo da lei.

3. A crítica que deve fazer-se, portanto, é política e é dirigida a Portugal: é política porquanto a língua portuguesa é o maior recurso que temos, o qual deve, como tal, necessariamente informar qualquer estratégia de afirmação de nós mesmos no mundo (económica, social, política e cultural); e é dirigida a Portugal porque a incapacidade de estabelecer um acordo ortográfico se deve sobretudo ao nosso país, e por um período de já quase um século, o que revela que este desacerto político e esta inexistência de uma estratégia estão para além dos partidos e até dos regimes políticos, sendo um problema verdadeiramente nacional.
É lamentável, de facto, que num prazo de um século não tenhamos sido capazes de propor-nos uma estratégia ancorada na nossa história e na nossa língua, a qual fosse capaz de dar sentido a este, ou outro, acordo ortográfico. Porque o acordo ortográfico me parece bom na vigência de um país. E é isso que nos falta: a vigência de um país, já que, do ponto de vista ortográfico, há muito que o acordo está pronto.
Será que, depois de vermos toda a longa história deste “desacordo ortográfico”, não se nos torna mais evidente a recusa da ONU em assumir o português como sua língua oficial? Será que o Instituto Camões, ou outro qualquer, não deveria fundar escolas portuguesas em todo o mundo povoado pelos nossos emigrantes, nas quais se ensinasse e divulgasse a língua e a cultura portuguesas e cujo acesso fosse gratuito às comunidades portuguesas? Será que as Universidades e a Fundação para a Ciência e Tecnologia, ou outra qualquer, não deveriam assegurar as edições e as traduções de referência para todo o mundo português? Será que os nossos editores não deveriam reinventar-se, entusiasmados perante o óbvio alargamento do seu mercado, ao invés de chorarem por nele irem entrar os editores brasileiros? Será que os nossos professores não deveriam estar dispostos a aprender e a ensinar o português de todo o lado e em todo o lado? Será que há alguma ingratidão em Saramago, quando, depois de ganhar o prémio Nobel da literatura, escrevendo em português, prefere viver em Espanha? Será que ainda queremos Portugal?

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segunda-feira, 7 de abril de 2008

Porque Lula errou na política social


Fernando Henrique Cardoso criou um programa de apoio à pobreza brasileira. Era um sistema muito inovador, baseado nas ideias de distribuição de rendimento de acordo com as necessidades. Uma espécie de rendimento social de inserção, mas que funcionava como um cartão multibanco onde, todos os meses, era carregada a soma que cabia a cada brasileiro pobre. Esse cartão tinha um nome: CARTÃO DO CIDADÃO. E esse cartão era multibanco mesmo – cada um podia levantar nos terminais a sua quantia, ou pagar directamente nos terminais das lojas. Critério do gasto? Não existia – e Fernando Henrique foi muito criticado por permitir, por exemplo, que todo esse dinheiro pudesse ser gasto em álcool, por exemplo.
Quando chegou o novo presidente Lula, prometendo focar esforços no combate à fome, o esquema mudou. Manteve-se o cartão, mas o nome não – agora chamava-se Cartão Fome Zero. Assim mesmo: fome zero. E existiam mais variantes: o dinheiro não podia ser levantado de uma caixa automática – ele só valia numa rede de lojas acreditadas que foi criada para este novo efeito. E mesmo nessas lojas o dinheiro do cartão não valia para tudo: bolachas de chocolate, por exemplo, não eram permitidas. O pensamento de Lula era claro – ele queria matar a fome dos brasileiros, não enchê-los de luxos como chocolate. Repare-se nos problemas.
Se é verdade que Fernando Henrique não protegeu os mais fracos (filhos de alcoólicos corriam riscos sérios de morrer na mesma à fome), deu um novo nome aos pobres brasileiros – cidadãos.
Lula, por seu lado, protegeu os mais fracos: mesmo um bêbado acabaria a usar o cartão para comprar comida autorizada, e por isso os menores ou idosos sem autonomia estavam protegidos. Mas aqueles pobres que o cartão de Fernando Henrique classificava de cidadãos, agora eram nomeados como gente com fome: esfomeados. Imagina-se o estigma social que isto lançou sobre as mesmas famílias – e até sobre todos esses menores que Lula imaginava proteger de pais irresponsáveis (eles agora crescem como meninos como fome, não como cidadãos.
Este é o drama da política social: quanto mais ideológica se torna, mais se perde em aplicações práticas que se verificam (depois) frágeis como copos de cristal.
Ninguém pode acusar Lula de não pensar nos pobres, ou Fernando Henrique de não procurar soluções – mas este texto permite acusá-los de não terem procurado a convergência de que se falava no primeiro ‘post’ (que bom esquerda e direita serem parecidas). Não são preocupações de eleitoralismo – são necessidades de eficácia. Porque a política social só funciona quando retira os pobres da pobreza – até lá é conversa de café..

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I. Pierre DEGHAYE, De Paracelse à Thomas Mann : les avatars de l'hermétisme allemand, Paris, Dervy, " Bibliothèque de l'hermétisme ", 2000.



Havia um tempo em que as pessoas eram muito pouco esclarecidas e supersticiosas, mas eis que surgiu a ciência e ficou tudo iluminado. Ficamos todos satisfeitos, a realidade é extremamente simples.

Mas não é.

Assim como hoje em dia os hermetismos parasitam a ciência, tentando sugar do seu prestígio e credibilidade, nem que seja institucional, secularmente foi ao hermetismo também que a ciência foi buscar muitas das suas preocupações, temas, conceitos, metodologias.

O que seja o hermetismo permite muitas definições. Literalmente é o que está encerrado, escondido. O que tem de se desvelar. Nesse sentido é o contrário de aletheia, em grego “verdade” ou “desvelamento”. O hermetismo vive deste movimento de tirar o véu – para os iniciados – e recolocá-lo – para os ignaros.

Miticamente as suas origens encontram-se no Egipto, mas podem-se encontrar exemplos em todo o espaço indo-europeu. Da Pérsia, aos celtas com o saber druídico, aos mistérios helénicos.

Irreleva para estes efeitos. O que interessa é saber que configuração teve na Europa cristã. O hermetismo foi sempre o refúgio para a teorização do corpo, da matéria. Numa sociedade em que pouco espaço sobrava para a sua teorização (não para sua expressão cultural como a poesia e as artes plásticas mostram) o hermetismo foi sempre o refúgio para o pensamento do corporal. Entenda-se, não para o corporal, mas para o pensamento do corporal. É um espírito que se agita, não um corpo, quando se fala de hermetismo.

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Por Favor Nãos Lhes Dêem Maioria Absoluta





Já estou arrependido.

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“ Spooning Spaghetti ”

Are we more Italian if we use a spoon to roll pasta?
Are all Italians born “with a silver spoon in their left hand?”
It’s always nice to have a spoon handy… Or is it?

If you find yourself doing things to impress the “mamma mia mother in-law” at the table, using a spoon to roll your spaghetti can some times work against you when in the company of “true Italian blood”.

A lot of Italians grow up learning how to roll pasta using the support of a spoon. A day wouldn’t go by without that golden crusty Italian bread dad would always place on the kitchen table. Before dinner, he would break the tips on both ends about 4 fingers deep; remove the mule from the center, leaving a crusted hollow bread cone.
This became our “eatable spoon” for practicing how to roll. It wasn’t difficult once we got the hang of it-pick up a couple strings of pasta, place the fork inside the bread cone and start rolling-messy of course-but fun.
Talk about saving the best for last. It was a must to finish the meal in order to savor that tomato sauce soaked bread cone at
the end …yumm!
Without knowing it-this technique would teach two “important musts” if we were going to master the pasta rolling in order to hand it down to the next generation.
The first- getting just the right amount of spaghetti on the fork. If the pasta would over flow the bread cone/spoon-it would over flow the mouth…put it back in the dish and start all over again. The second was balance. Using the cone/spoon would help with balancing the fork while the actual rolling was going on.

Should you attack your meal directly from the bowl, push the pasta to one side allowing a little free space for rolling. Be sure to weave 3-4 strands on the fork and move it toward the “plate work area”. Begin rolling with an occasional soft pull in an upward motion to help separate the strands- and you will never have to worry about lifting 90% of the pasta in one forkful.
Whether you choose the bread cone, spoon or workspace on your dish, what really scores the points-and keeps mamma from rolling her eyes in pops direction-depends on the amount of pasta that remains around the fork. Never go beyond a mouthful-who needs to hear "mamma mia" when we could have "now thats Italian" !


Chef Guerrieri

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sábado, 5 de abril de 2008

Delírio ou pesadelo?

A ideia situa-se algures entre o delírio e o pesadelo. É um site francês e não, não foi criado pela Carla Bruni.
Quem é que, uma vez pelo menos, não desatou já aos gritos “Não contes, não contes”, quando alguém acabadinho de sair de uma ante-estreia nos descreve tudo o que se passou e se prepara para contar o fim do filme? É esse o guilty pleasure deste site: muito simplesmente contar o fim dos filmes. Si vous avez raté les dernières 5 minutes, já sabem, aqui podem desesperar ou deliciar-se.

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sexta-feira, 4 de abril de 2008

It's only rock'n roll




Primeiro a confissão de uma pequena heresia. Scorsese nunca me encheu as medidas. Explico melhor: Scorsese nunca me encheu as medidas como realizador de ficção. Taxi Driver, Raging Bull, Departed, bem sei, bem sei. Mas estas coisas não se discutem.
Dito isto, confesso que tenho um fraquinho pelo Scorsese documentarista e divulgador do cinema. O seu Last Waltz é de antologia (vi-o uma única vez há muitos anos num ciclo da Gulbenkian) e os seus tributos ao cinema americano e italiano são absolutamente imperdíveis (e estão disponíveis na FNAC).
Esta semana estreou em Londres o seu último documentário: Shine a Light. O tema, «ça va de soi», são os eternos, os míticos, «les» Rolling Stones (como são apresentados no extraordinário Love you Live). Ainda não vi mas declaro já que vou gostar. Juntar Scorsese (versão documentarista) e os Stones é para mim garantia que baste.

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quinta-feira, 3 de abril de 2008

Lopo de Bragança, 1921-2008

Comecei a contar o tempo, cheguei a 25 anos. Conheci-o talvez em 1983, o último verdadeiro aristocrata. Impecável atrás da sua boquilha e do seu sorriso afável. Parco de comentários acompanhava todas as conversas com inteligência e saber, que guardava para si. Poesia, sabia-a de cor e não aceitava dizê-la se pudesse enganar-se. Como no piano não aceitava uma inépcia ou uma alteração. Esteve perto de muitos, dos maiores, conheceu Backhaus e numa noite memorável, em privado, tocou com Rostropovitch, que uns anos mais tarde, num camarim do Coliseu, lhe abriu os braços abrindo alas e lhe gritou: “Lupo my pianist!”
Orlando Vitorino dedicou-lhe — “Tongatabú” — uma peça sobre o amor entre o homem e a mulher. Esteve sempre presente entre os da filosofia portuguesa.
Não perdia Paris no princípio de Junho, nem o Baleal em Agosto, nem as missas vespertinas no Corpo Santo, nem uma representação fosse qual fosse da Casa da Boneca de Ibsen. A vida aflorando os rituais, sempre feitos de uma invocação da felicidade que se encontra na repetição do que se espera, do que sempre se pode revelar de novo. Não falava de si. Sondava o mistério da arte que se percebe e não se explica, porque há nela sempre mais qualquer coisa que nos há-de escapar. Não o voltaremos a ouvir dizer:

Instante de jasmim
Conceito breve
Não pé
Mentira sois

... mas não sinto que o tenhamos perdido.

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Notas soltas sobre o relatório da ERC

Feito a partir de uma queixa que, em Junho de 2006, o Grupo Parlamentar do PSD fez contra a RTP, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social publicou há dias um relatório no qual faz a avaliação do pluralismo político-partidário no serviço público de televisão, entre Setembro e Dezembro de 2007, o qual poderá, tanto integral quanto resumidamente, ver-se aqui.
O esforço da ERC merece ser felicitado, não só por ser a primeira vez que, entre nós, a presença política e partidária nos operadores de televisão é avaliada com «parâmetros claros, participados e sindicáveis», mas, sobretudo, por essa avaliação se inscrever num projecto mais vasto que a pretende objectiva e continuada. Ficamos, por isso, na expectativa de conhecer o relatório prometido para o final deste mês de Abril, no qual se dará conta da presença político-partidária em todos os operadores televisivos – públicos e privados – sob jurisdição da ERC, durante o ano de 2007. Permitam-me, entretanto, algumas notas sobre este primeiro relatório.

0. Antes disso, porém, uma ressalva. É que sendo os valores de referência utilizados para aferir o equilíbrio das presenças partidárias nos programas televisivos estabelecidos a partir da representatividade parlamentar dos partidos políticos (o que já de si deveria poder ser equilibrado com a análise subjectiva da actividade efectiva desses partidos nos períodos em causa), esses valores deveriam ser os da percentagem dos votos alcançados nas eleições, e não os do número dos deputados, já que não vejo qualquer razão para que o método de Hondt, criado para favorecer a estabilidade governativa, sirva também para determinar a importância quantitativa das presenças das forças políticas nos órgãos de comunicação social, antes pelo contrário. Mas adiante. Vamos às notas.

1. A primeira nota é que, contrariamente ao que tem sido dito na imprensa, sobretudo por Luís Filipe Menezes, o PSD talvez não tenha razão. De facto, se é verdade que o próprio relatório afirma uma «sub-representação sistemática do PSD em todos os blocos informativos analisados» (excepção feita ao Governo Regional da Madeira + PSD Madeira na RTP Madeira, coisa que o relatório, nas suas conclusões, se esqueceu de referir), este não é um dado absoluto.
Com efeito, se excluirmos os números relativos à RTP Açores e à RTP Madeira, francamente mais desequilibrados – mas também menos representativos –, a percentagem da presença do Governo + PS nos blocos informativos anda à volta dos 55%, enquanto que a da oposição anda, obviamente, pelos 45%, o que, sendo o valor de referência 50%, não é em si mesmo revelador de um grande nem preocupante desequilíbrio.
O PSD, além disso, é o único partido em que as aparições televisivas sobre discussões e/ou acontecimentos internos (circa 25%) ultrapassam as que são relativas à análise e à crítica da acção governativa (circa 19%).
Deste modo, talvez que a sub-representação sistemática do PSD nos blocos informativos não se deva, pelo menos inteiramente, a manobras maquiavélicas do governo, como pretende Luís Filipe Menezes, mas também – e sobretudo – à incapacidade efectiva do PSD fazer oposição ao governo, deixando esse espaço para os restantes partidos. É uma hipótese que, a meu ver, talvez valha a pena considerar.

2. Isto, no entanto, é o que tem resumido as discussões em torno do dito relatório, no qual se encontram, porém, questões bem mais interessantes, de algumas das quais sumariamente aqui dou conta. Uma é a excessiva politização da realidade a que todos estamos sistematicamente sujeitos. De facto, se somarmos às peças televisivas cujos intervenientes são, directa ou indirectamente, representantes do governo e de instituições político-partidárias (circa 20%), as aparições do Presidente da República (circa 10%), e as aparições de movimentos cívicos e de sindicatos em interacção com o governo (circa 11%), temos um total aproximado de 41% de peças dedicadas a assuntos exclusivamente políticos. Se a isto somarmos ainda a política europeia e mundial, poderemos imaginar, na ausência de dados objectivos sobre este último ponto, que os factos políticos cobrem mais de 60% da nossa realidade informativa, o que me parece manifestamente excessivo, sobretudo quando comparado com a opinião generalizada sobre a qualidade moral e profissional da classe política.

3. Este facto, por outro lado, é tanto mais significativo quanto essa informação política é maioritarissimamente proveniente da sociedade política estritamente considerada (isto é, do governo e dos partidos políticos e de instituições a eles directamente ligadas), apenas em pequeníssima escala provindo de movimentos actuantes no âmbito da sociedade civil (com efeito, se retirarmos desta equação os sindicatos – que em Portugal, como se sabe, estão em larga medida dependentes dos partidos políticos e das suas agendas –, temos que apenas 5% do total das aparições televisivas são provenientes de movimentos cívicos).

4. A questão que me parece central, porém – a qual, em conjunto com as anteriores, é até alarmante –, é a da confusão existente entre os partidos políticos e o governo. De facto, dos cerca de 55% do total das aparições televisivas que cabem ao Governo + PS, 49% são do Governo e apenas 6% são do PS, razão pela qual o relatório fala num «apagamento do PS, enquanto partido autónomo do governo, nas peças da RTP1, RTP2 e RTPN.»
Ora, este facto, que não é certamente exclusivo do PS, mas comum a todos os partidos que hoje chegam a formar governo, é revelador da quase absoluta instrumentalização a que estão hoje sujeitos os nossos partidos, o que, por outro lado, se constitui como a causa principal da profunda instrumentalização a que tem vindo a ser submetida a nossa administração pública, o que, em conjunto com a excessiva extensão da política a toda a realidade e com a quase inexistência de uma verdadeira sociedade civil, de que atrás falámos, explicam bem o queria dizer António Guterres quando se referiu a Portugal como sendo um pântano.

5. A última nota vai para o Bloco de Esquerda. É que, no que diz respeito à análise da «valência/tom» com que são referidos o governo e os partidos políticos nos blocos operativos da televisão pública, «o BE – como diz o relatório – é o único partido com representação parlamentar que não possui presenças com valência/tom negativo» (as quais, nos restantes partidos, andam entre os 10% e os 20%). O que em rigor também já ia sendo tempo de investigar-se.

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quarta-feira, 2 de abril de 2008

Um país às esquerdas

Esta semana o “Economist” refere-se a um estudo em que se conclui que nos EUA, nos últimos 35 anos, há uma forte ligação entre ser-se de direita e ser-se feliz. O estudo parece ter todos os predicados, com análise de efeitos de causalidade, correlação espúria, utilizando variáveis de controlo e outras coisas raras. Pelo menos é isso que diz ou parece dizer a noticia. Os “conservative” vão mais à igreja, estão mais casados e têm visões mais positivas do mundo e isso torna-os mais felizes. Os “liberal” são uns pessimistas, com visões negativas do mundo e menos ligados à vida social. O estudo não me é muito favorável, pois se fosse americano dos EUA seria classificado como “liberal” (até por razões ligadas à economia pois os “conservative” são proteccionistas). Mas isso não interessa aqui, até porque sou muito optimista. Mas quando vemos o espírito negativo de muitas análises sobre Portugal, apetece concluir por extrapolação que este é um país às esquerdas. E isso ainda tem uma ulterior base de suporte. É que os pessimistas têm muitas vezes sugestões de cura, as quais implicam a maior parte das vezes, implicita ou explicitamente, a intervenção de algum agente externo, o que revela uma falta de crença na força dos indivíduos em escolher o que é melhor para eles.

PS: este post foi escrito antes de ler o do M A Figueiredo. Se calhar estão relacionados.

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terça-feira, 1 de abril de 2008

Revolução Social

A TESE, uma ONG liderada pelo João Meneses, quer surpreender-nos com o primeiro Congresso de Inovação Social organizado em Portugal. Vai conseguir, e somando o entusiasmo com que se espera esta data à feliz coincidência do blogue fazer anos, fale-se um pouco de relevância social. Melhor dito: de política social. Não para festejar o congresso ou celebrar o aniversário, mas para discutir o conceito. Por uma razão relevante neste espaço: a política social divide quase sempre esquerda e direita. Em seis ideias chave, tento resumir o assunto... e responder aos comentários ao meu último post (apesar de fora de tempo, confesso que bem tentei responder logo na altura, mas a informática menteve-me longe do diálogo todo este tempo)...

Primeiro: políticas sociais são ferramentas que procuram gerar respostas eficazes a necessidades concretas de pessoas ou grupos de pessoas. Ou seja, essas políticas são tanto mais eficazes quanto mais capacidade revelarem para produzir alterações sociais que resolvam essas necessidades.
Segundo: A grande revolução social que se seguiu à II grande Guerra não se explica apenas pela ideias iluminadas de alguns ideólogos da esquerda. Resume-se à constatação real de que, com os recursos acumulados à época, era tecnicamente possível declarar que nenhuma pessoa do mundo teria de viver pobre. E essa constatação não deu apenas gás à dinâmica social dos anos 60. Ela elevou a esquerda ao estatuto de doutrina visionária. Nesse mesmo momento, recorde-se, a direita insistia em modelos assistencialistas focados na suavização da pobreza que, é fácil ver hoje, pouco valiam ao lado de uma doutrina que prometia alterar o estado de coisas. Que oferecia a revolução e a mobilidade social através de ferramentas empenhadas em redistribuir essa tal riqueza que, bem dividida, era suficiente para que ninguém fosse pobre.
Terceiro: Os excessos dessas boas intenções não se fizeram esperar, e surgiram logo ali homens capazes de contestar essas ferramentas bondosas com o argumento de que elas privavam de liberdade um grande número de pessoas. Esse facto estava, igualmente, à vista de todos. E aqui surge o argumento: nesse exacto instante em que, por exemplo, Hayek e William Wilson se degladiavam ideologicamente, a política social ficou cunhada de património da esquerda. Na verdade, de um mau património em que esquerda teimosamente insistia contra uma mais natural defesa da liberdade individual e do mérito de cada um.
Quarto: Sucede que essa teimosia da esquerda - somada a esse ângulo muito reduzido da argumentação da direita - não resolviam o essencial. Muita gente em todo o lado e a cada momento precisava - e precisa ainda - de gatilhos que as empurrem para fora das situações frágeis em que se encontram. Isto é, nem a esquerda de Rawls nem a direita de Berlin resolveram o problema essencial - como retirar pessoas da pobreza sem travar liberdades individuais. Ou seja, que novas ferramentas seriam essas que, simultaneamente, geravam mudanças sociais forte e duradouras sem impedir a liberdade de ninguém? A resposta não demorou: a fusão das ideologias. Não é sacrilégio: foi assim mesmo que aconteceu, e disso falava eu no tal post "Que bom esquerda e direita serem parecidas".
Quinto: Na verdade, não se verificou nenhuma fusão real. O que aconteceu foi que surgiram alguns raciocínios menos preocupados com as fronteiras (até aí tradicionais) entre esquerda e direita e mais concentrados em produzir políticas sociais que produzissem de facto essas mudanças. E muitas delas não eram de esquerda nem de direita - eram apenas eficazes. E isso não significava, como se escreveu em alguns dos comentários a esse meu post, que estivessem a submeter-se a qualquer cálculo eleitoralista. Elas estavam apenas em busca de soluções capazes de produzir mudanças sociais, viessem elas da esquerda ou da direita. E é aqui que entra o NEXTREV, o Congresso da inovação social.
Sexto e último: O Congresso não é de esquerda nem de direita - ele responde a um apelo mais amplo que tem sido liderado por um britânico com nome de rock star: Geoff Mulgan, que preside a uma instituição também com nome de festival: Young Foundation. Mas a música de Mulgan é forte: ele foi conselheiro político de Tony Blair em Downing Street, como antes tinha sido consultor em inovação social do então membro do parlamento Gordon Brown. Ele foi próximo de um génio da teoria social (Julian le Grand) que nunca quis saber se as suas ideias sociais eram de esquerda ou de direita - preocupou-se apenas em produzir ferramentas que funcionassem. Que retirassem os pobres da pobreza, os iletrados do analfabetismo, as crianças da violência, os doentes da morte. O desafio que este congresso nos lança é esse: usar a inovação para descobrir as novas ferramentas sociais que funcionam. E por isso é bom quando direita e esquerda se aproximam - sem isso, nunca se falaria de inovação social. Ainda estaríamos a aqui a discutir um congresso que falaria em direitos universais de uma qualquer constituição..

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Moisés ouvia vozes

Escrever crónicas hoje é fácil. Nem é preciso inspiração. Basta ler os jornais. Eis o que li: um investigador israelista afirmou que a revelação divina dos «Dez Mandamentos», no Monte Sinai, foi o insólito resultado de Moisés ter, na altura, consumido alucinogéneos. Deus não foi tido nem achado ou, para dizer as coisas de maneira que até a moça do telemóvel no mais famoso vídeo do mês passado entenda, Moisés estava com uma pedra de todo o tamanho. Não admira que ouvisse vozes, não admira que tivesse visões.
O «estudo» (que os rabis se apressaram a designar com nomes, passe a ironia, pouco católicos) publicou-se na revista «Time and Mind». O autor, Benny Shanon, recusa, liminar, ter-se tratado de um acontecimento cósmico e sobrenatural, sustentando que Moisés, assim como o povo eleito que o seguia, usava psicotrópicos com adicta regularidade.
Shanon, que asseguro com total confiança não ter a mínima ligação ao Hamas (nem parentesco com Bin Laden), investigou, declarando que o povo errante de Israel estava sob o efeito de estupefacientes. E foi nesse lindo estado que Moisés subiu aos picos do Monte Sinai.
Perguntam-me: então, a voz que ribombava como um trovão, a sarça ardente, a montanha fumegante? A resposta é simples: a culpa é da «peganum harmala», essa flor branca de cinco pétalas pontiagudas, cujas sementes Moisés deve ter mascado (?) antes de rebentar em soluços e visões. (Não se masca, bebe-se como um chá, mas já lá vamos).
A teoria de Shanon, especialista de psicologia cognitiva, é tudo menos inócua. Não parece ilícito concluirmos que a ética da civilização em que bebemos o leite materno – do «não matarás» ao «não furtarás», do «honrarás pai e mãe» ao «não desejarás a mulher do próximo» – se funda em Dez Mandamentos que mais não são, afinal, do que versículos de um profeta que estava, ao redigi-los, no mesmíssimo estupor de Allen Ginsberg quando desembestou a escrever o interminável «Uivo». Com a ressalva, valha-nos Deus, de que Moisés escrevia bem melhor.
Seja como for, vamos admitir (nem que seja por guloso exercício intelectual) que Moisés tivesse tomado ainda mais uma chávena (a forma canónica de consumo) da «peganum harmala». Mais uma chávena e, se calhar, avaliaríamos o mundo com a moral de um Jack, o Estripador. Mais uma chávena e hoje veríamos com outros olhos as «off-shores», o «Apito Dourado» e, em particular, a reluzente mulher do próximo.
Ah, já vemos? Pois sim, mas escusávamos de ter a carrada de complexos de culpa que nos aflige ou de suportar os tormentosos custos de tanta pensão de alimentos.
Em despudorada fase de divulgação do PnetHomem - um portal de homens que todas as mulheres deveriam ler - aqui fica (pedindo desculpa à "gerência" da Geração e prometendo que é a última vez) a ´minha crónica das terças.

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O prazer da leitura

Olhem só para o entusiasmo com que este miúdo lê a recolha do primeiro ano de "posts" do "Geração de 60".

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366 dias


Parabéns a todos!

Fartámo-nos de escrever, discutimos, desafiámo-nos, discordámos, divertimo-nos, atrevêmo-nos, concordámos, surpreendêmo-nos, divergimos, respeitámo-nos, motivámo-nos...

No essencial, como combinado, debatemos. Tentativamente. Ideias, argumentos, valores, princípios, visões. Promovendo sempre uma atitude aberta, diversa, plural.

No fundo, hoje como há um ano, assumimos este Geração de 60 como «contribuição egoísta para a defesa da nossa própria liberdade».

Só desejo que assim continuemos. Todos diferentes, todos diferentes.

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