Espanto. Espanto, antes de mais, por tão súbito e alargado consenso sobre a Universidade em particular e o Ensino em geral, uma das mais caras e fundas paixões do pobre ex-Primeiro Ministro de Portugal, de sua graça, António Guterres, quando nem o próprio, não menos perdidamente apaixonado pelos consensos, fossem eles quais fossem, vez alguma alcançar logrou. Consenso tão súbito, tão vasto, tão alargado, não deixa mesmo de ser comovente. Sobretudo quando estamos em Portugal, ou seja, aquela nação, como hoje é mister sempre lembrar antiquíssimo dito, que «não se governa nem deixa governar». Posto quanto exarado fica nos anteriores textos do Paulo Rangel e do Miguel Poiares Maduro, uma certeza parece emergir também súbita mas inexirável, tudo quanto respeita à Universidade e ao problema do desemprego, é afinal, de fácil resolução. Afinal, há Luz.
Lida Abdul, «What We Saw Upon Awekening», 2006
Vale a pena atender a alguns dos argumentos belissimamente expostos.
Que nos diz de essencial Paulo Rangel? De há muito preocupado com o tópico «levantado» pelo Miguel Poiares Maduro e Rui Tavares, ou seja da relação entre a Universidade e um consequente emprego, diz-nos Paulo Rangel: «No limite - e sem que, por um minuto, eu o advogue -, Portugal poderia fazer um outsourcing do seu ensino universitário, pagando-o a sistemas estrangeiros. A massa humana de pessoas que abandonam o sistema de ensino, que completam o ensino básico, que atingem o secundário ou que entram no universitário e não dispõem de qualquer know-how é deveras assustadora».
Paulo Rangel não advoga o «outsourcing», mas não o chocando tal desiderato não se vislumbra exactamente quanto lhe impede tal advocacia: Razões de ordem financeira? Razões de ordem «operacional», como agora se diz? Não, não se percebe, tanto mais quanto, ao escrever textualmente, «a massa humana» - sugestiva e bela expressão - «de pessoas que abandonam o sistema de ensino, que completam o ensino básico, que atingem o secundário ou que entram no universitário e não dispõem de qualquer know-how é deveras assustadora», tudo ordena, afinal, ao muito anglo-saxónico e pragmático «know-how».
Quanto à verídica finalidade da Educação, ao quanto mais importa, nem uma palavra.
Que nos diz de essencial o Miguel Poiares Maduro?
Que concorda com o tal Rui Tavares, cronista do Público, com quem Paulo Rangel em pleno acordo se encontra também. É simpático mas não nos diz muito.
Que distintas são as dinâmicas do mercado e da Universidade, recordando-nos um «post», por si publicado, alertando já «para o excesso de ênfase que é colocado na instrumentalização dos cursos universitários às necessidades imediatas do mercado». Se Miguel Poiares Maduro assim o afirma, não temos senão de aceitar que assim seja mas, se assim é, o erro é evidente e grosseiro, tão evidente e grosseiro quanto nem os famigerados planos Quinquenais da extinta U.R.S.S. em tal incorriam. Todavia, a dúvida afigura-se-nos pertinente: tudo se resume, afinal, a uma questão de distintas dinâmicas e errado ou necessidade de mais complexo planeamento?
Miguel Poiares Maduro dirá de sua justiça. Entretanto, porém, mais tem a acrescentar, afirmando também a existência de «problemas sérios no funcionamento do nosso mercado de emprego». O que sendo inegável nos coloca já em distinto plano de discussão, não sendo, no fundo, uma questão de «mercado de emprego» mas a existência de um verdadeiro mercado, sem mais.
Todavia, quanto ao mais, quanto ao quanto mais importa, quanto à finalidade da Educação, à finalidade da Universidade, nem uma palavra.
Serão as questões de emprego tudo quanto importa, que mais importa?
Bom, e tudo isto a propósito de quê? A propósito de uma crónica no Público de um tal Rui Tavares, que não houvéramos lido mas, perante tão alta e vasta exaltação, não deixámos de, atentamente, ir ler. E que afirma diz de essencial Rui Tavares em tão extraordinária crónica?... Que o problema do desemprego se deve ao mercado...
De peito aberto, aqui expomos toda a nossa vasta ignorância e incompreensão de tão preclara tese mas, na nossa muito humilde ingenuidade, sempre interrogamos: como de outro modo poderia ser?... Não garantido o Estado emprego a todos – a todos os licenciados, entenda-se -, obrigado estaria o «mercado» a fazê-lo, sem mais, apenas porque licenciados pelo Estado para empregados serem, se encontrarem os ditos?...
Não vislumbramos o alcance da tese – com pesar o confessamos.
Ah!, sim, Rui Tavares acrescenta mais, acrescenta igualmente que um dos nossos grandes males, como portugueses, é não possuirmos «head hunters» à altura dos americanos, de largos horizontes e superior entendimento da vida...
Será mesmo para levar a sério?...
Entretanto, três outros comentários respeitantes ao texto do Miguel Poiares Maduro, um da Sofia Galvão, outro do Pedro Norton e um outro ainda do Gonçalo Pistacchini Moita, nos suscitam também adicionais chamadas de atenção.
No caso do comentário da Sofia Galvão, como sempre, particularmente pertinente e arguto, afigura-se apenas pecar por parecer não atender em toda a sua extensão, ao facto dessa mesma atitude do tal «jovem» de 30 anos entender ser-lhe devido, por definição, um emprego para vida, à altura dos seus muito elevados pergaminhos, surgir pela mesma subtil instigação pragmático-socialista que deforma a actual Universidade e subjaz tanto na crónica de Rui Tavares quanto nos subsequentes textos aqui comentados.
No caso do comentário do Pedro Norton, embora seja hoje muito politicamente correcto apelar e exaltar uma «cultura de meritocracia», para além de profundamente anti-portuguesa, já Hayek a denunciava, com horror e profundo sentido crítico», n’«Os Fundamentos da Liberdade». Onde o socialismo falha, sempre se apela, em vão, mas não sem graves consequências, à «meritocracia» como grande e universal panaceia. É preciso atenção.
Finalmente, no caso do Gonçalo Pistacchine Moita, importa lembrar o seguinte: Saber é sempre saber da verdade; a verdade é una e individida; a Universidade nasce como a busca do saber Universal, como o que tende para o uno, o uno que há em todo o saber, como saber da verdade, una e individida.
Ou seja, em resumo e conclusão, talvez por aqui iniciando, mais clara Luz, em verdade, possível seja alcançar.