domingo, 23 de março de 2008

Um mundo em vias de (des)concentração psíquica e religiosa ?




Segundo uma notícia hoje publicada no El Pais online, Madgi Allam jornalista subdirector de Il Corriere Della Sera converteu-se ontem ao catolicismo numa cerimónia celebrada pelo Papa.
Trago esta notícia aqui pois ainda me estranha que hoje, os povos se continuem a dividir pelas crenças. Magdi Allam, pela inerência das suas funções, é supostamente um indivíduo com informação suficiente para que as suas decisões sejam tomadas em liberdade.
Num mundo em que sob a influência combinada da imiscibilidade essencial das consciências e o mecanismo natural de qualquer unificação, num mundo em vias de concentração psíquica, é estranho que continuem a existir credos que separem os homens e determinem as guerras.
Após séculos de história e de lutas apaixonadas, nem a ciência nem a fé conseguiram apoucar-se uma à outra. Pelo contrário, tem-se tornado claro que não se podem desenvolver uma sem a outra, pela simples razão de que uma mesma vida as anima a ambas. Talvez por isso as crenças subsistam. Talvez por isso o ouro, o petróleo, os diamantes ludibriem as sociedades.
Talvez por isso ainda seja um acto de vontade pertencer a esta ou aquela religião.

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Permanecei no Meu amor (Jo 15, 9)


É Páscoa. E os jornais assinalam o êxodo de milhares de portugueses, em busca de férias, para as Caraíbas e o Brasil.

Longe do ritmo do Tríduo e de quaisquer tradições rituais, partem uns e ficam outros. Cá ou lá, alheios à celebração do sentido de Deus presente, estranhos ao mistério da cruz e da Páscoa.
Vivemos num mundo e num tempo de auto-suficiência. Para um número crescente de homens e mulheres, Deus não é um problema – isto é, a ideia de Deus não se coloca como problema. A natureza e o significado da questão religiosa não interpelam a maior parte. O apelo da transcendência e a experiência do sagrado vão estiolando. Paralelamente, e não por acaso, toda a indagação metafísica perde terreno.
Olhando em volta, no meio do frenesim, falha o pensamento. E, sobretudo, o pensamento que se pensa. Poucos se questionam, poucos se perturbam, poucos se detêm. Com maior ou menor consciência, quase todos evitam as perguntas definitivas. Tipicamente, o homem e a mulher de hoje preferem não se confrontar (e não se atrapalhar) com as dúvidas radicais da existência.
Pragmatismo? Prudente intuição de contingência? Não sei. Mas o certo é que, como diz Scruton, «o ser racional vive numa condição de solidão metafísica» (Guia de filosofia para pessoas inteligentes, Guerra e Paz, 2007, p.107).

Ora, tal tem inevitáveis custos. Um dos mais graves, e aquele que aqui importa, é um custo de implicação. Ou seja, a refutação da nossa historicidade cristã como resultado da própria recusa daquele questionamento essencial.

A esse propósito, Benedetto Croce foi lapidar: «não podemos não nos dizer cristãos». Mas, justamente, só seremos capazes de tal postulado se nos colocarmos perante a nossa própria condição existencial – porque esta, necessariamente histórica e concreta, remete-nos para a tradição aberta pelo anúncio de Cristo. Isto é, para nos dizermos cristãos, temos que nos saber cristãos e, para tanto, mais até do que pensar, temos que nos pensar.

São Paulo disse um dia aos Coríntios: «se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé» (1 Cor, 15, 13-14). Na Páscoa, celebra-se a felicidade desta fé. O sentido do cristianismo como mensagem de salvação e de mistério. O sentido do cristianismo como exaltação da esperança. Felizes pois os que acreditam, felizes os que confiam.

Mas aos outros, aos que não acreditam, nesta como em todas as Páscoas, só mesmo a fé deveria ser-lhes estranha. Fruto da história e da cultura, crentes e não crentes reconhecem que a «única possibilidade de sobrevivência humana está depositada no preceito cristão da caridade» (Gianni Vatimo, “A era da interpretação”, in O futuro da religião, Angelus Novus 2006, p. 68).
Uma caridade que irmana. Uma caridade paciente, benigna, justa e verdadeira, que «tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta» (S.Paulo, 1 Cor, 13, 7).

Em dia de Páscoa, celebra-se o testemunho de Jesus Cristo e a decisiva passagem a que Deus convida todos os corações. A partir da Páscoa, cumpre-se a proposta de salvação que converte o amor em chamamento prático.
Todos são convocados, crentes e não crentes. Mas, mesmo com fé, não basta a confiança. No meio do bulício, é preciso querer ter disponibilidade. É preciso querer recusar o vazio e o seu absurdo. É preciso querer apostar numa redenção existencial, fundada na caritas como princípio vital de acção. No fundo, ainda que se possa querer sem crer, o crer é sempre um querer crer.

Boa Páscoa! Aos que crêem e aos que querem...

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A Filosofia e o Homem de Sempre

É porque ninguém tem a posse da verdade una e indivisa que a filosofia é a mais importante e decisiva disciplina dirigida ao saber. Fosse o mundo redutível ao imanentismo da mecânica e não haveria um segredo por decifrar, nem uma vida por aprofundar, nem uma verdade por revelar.

É porque o saber universal é uma finalidade perseguida individualmente que cada homem não pode receber de empréstimo, mas pela sua própria experiência, que a filosofia é decisiva como garantia da liberdade dos indivíduos.
É porque as certezas das ciências se vão sucedendo entre glória, insucesso e revisões, que a filosofia é um fio condutor indispensável que une épocas e lugares em vez de os “musealizar” e compartimentar. É a razão porque o “Discurso do Método” foi e é mais importante que os tratados científicos de que foi o prefácio.
A interrogação fundamental do homem não se reduz à excitação que move os universitários, sempre ofegantes no cimo dos seus castelos de cartas, convencidos de que têm a última palavra sobre um qualquer último assunto.
É por isso que todo o ensino que pretenda formar homens livres tem de ter, no cume da sua escalada, uma interrogação filosófica da qual depende toda a construção de um sistema. Só a filosofia garante que o saber não se separa da realidade e da experiência humana nem pretende deixar de interrogar-se sobre a sua natureza. Não há saber que não se deduza do pensamento do princípio de que, como teoria, depende.
Étienne Gilson(1884-1978) no seu “L’être e l’essence” (1948) expõe como diferentes filósofos, tomando o Ser pela Verdade, separaram a realidade que atribuíram ao Ser da procura da Verdade que nunca se reduz nem pode conter naquilo que o Ser é.

Em Portugal, em 1912, num livro que serviu de exame de admissão para assistente da cadeira de filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, Leonardo Coimbra, então com 27 anos, escreveu o “Criacionismo”, obra em que analisou os principais, e na altura actuais, sistemas filosóficos e onde chamou a atenção para um grave vício do pensamento: o cousismo. Este vício consiste na transformação do que é movente, o pensamento, numa “coisa”, estática, que por muito bem construída que seja está sempre separada do pensamento que cria a realidade e que, reflexivamente, a pensa. Entre os livros de Gilson e Leonardo devem haver 50 anos de diferença.
Leonardo Coimbra (1883-1936) é autor de uma vasta obra filosófica e, como Heidegger com Holderlin, foi um filósofo com uma alma poética irmã, Teixeira de Pascoaes a quem escreveu em 1922 um extraordinário prefácio à 2.ª edição de “Regresso ao Paraíso”. As suas obras completas foram editadas pela Lello & Irmãos e os Dispersos pela Verbo. Destacam-se entre os principais títulos, além de “O Criacionismo - Esboço dum, sistema filosófico”, “A Morte”(1913), “Pensamento Criacionista”(1915), “A Alegria, a Dor e a Graça”(1916), “A Luta pela Imortalidade”(1918), “A Filosofia de Henri Bergson”(1932) e “A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre”(1935).

[NOTA: Delfim Santos, que foi discípulo de Leonardo na Universidade de Letras do Porto, descobriu um dia nos arquivos da Faculdade de Letras de Lisboa, onde nunca conseguiu ter a cátedra de filosofia (apenas a de pedagogia) não obstante os doutoramentos com que internacionalmente foi reconhecido, todas as cópias que Leonardo tinha entregue para serem examinadas, por abrir. Foi escolhido o outro candidato.]

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sábado, 22 de março de 2008

Liberdade de Ensino

Os insucessos das reformas educativas já deviam ter demonstrado à saciedade que o que importa nas reformas não é a revisão da organização administrativa, mas a definição dos objectivos e finalidades da educação.
Defendi em dois posts anteriores que a finalidade da educação é a formação de homens livres. Por isso, ela deveria estar a salvo de todas as formas de instrumentalização a que tem estado sujeita. Como princípio a seguir, o que mais importa, é estabelecer o primado da liberdade de ensinar sobre a liberdade de aprender. Prevalecendo a liberdade de aprender tal conduz, porque tal implica, a uma inversão dos objectivos da educação

Ou seja, ao sobrepor o direito a aprender ao de ensinar cai-se na subjugação do direito de ensinar ao direito de aprender. Há o risco de se solicitar um direito que não pode devidamente ser satisfeito por não haver ninguém que ensine.
A vontade dos Estados em impor uma educação obriga a um ensino a qualquer preço, mesmo que o preço seja não haver nada nem ninguém capaz para ensinar. Assim, os programas tornam-se descrições ou doutrinas mortas, impositivas, que os alunos decoram e repetem para atingir os objectivos estatísticos que permitem à propaganda dos Estados alardearem resultados de sucesso escolar e de sucesso dos seus modelos educativos.
Fazendo com que prevaleça a liberdade de ensinar, o Estado, perderia o domínio da educação, o controle dos programas e a condução das mentalidades que legitimam irracionalmente o seu falso sucesso.
O ensino deverá o que os educadores fizerem dele e, naturalmente, encaminhar-se-á não só para o que está vivo, como fará da filosofia da história uma continuidade com a actualidade.
Esta mudança de centro de gravidade estruturante do ensino, levará a que os professores conduzam com uma responsabilidade efectiva a formação das novas gerações. As ideologias de Estado, serão substituídas pelo saber dos professores, sujeitos assim, a uma avaliação contínua, cujo reconhecimento ou rejeição será garantida pelos pais e pelos alunos no momento de livremente optarem por esta ou por aquela escola, liceu ou universidade.

A relação entre o mercado e o desemprego é um falso problema. O que o desemprego espelha são anos sucessivos de desresponsabilização em que os alunos foram viciados com o actual sistema de ensino. Avaliados em “matérias” áridas, em programas sem objectividade intelectual, como cobaias para o sucesso de sucessivas estatísticas de sucessivos governos incompetentes e mesmo perversos, os formandos são ensinados a fazerem do pouco que aprendem um instrumento para a sua chantagem social. Instruídos em vitimização e em exigência de direitos que ninguém lhes pode garantir, cumprem os objectivos cegos de um sistema cego que não os educa e que os afasta de toda e qualquer forma de educação. Quer dizer, afasta-os da finalidade da educação que é a procura do saber da verdade como acto de libertação da condição de ignorância, que a todos os homens aprisiona, mas de que todos têm de partir para a formação da sua consciência individual.

A situação do homem no mundo não muda com o tempo, nem com o espaço. Sempre houve, e há, o que se interpreta como evoluções — normalmente relativas às condições de vida —, mas a natureza existencial do homem não se altera. Há sempre uma condição a partir da qual se pensa a liberdade, a justiça e a verdade. O processo dessa consciência não faz com que a verdade una e indivisa seja possuída por algum homem. A verdade não é opinião. Foi nessa distinção que consistiu a criação da filosofia como órgão da liberdade. Pensar filosoficamente foi o que abriu ao homem a possibilidade de se conhecer a si mesmo e assim inaugurar um caminho de libertação da escravidão em que, sem liberdade, sem noção da liberdade, de nada se podia ou era sequer para se libertar. O modo individual como o pensamento se pensa, não o torna refém de quem o pensa. Pensar tendo como finalidade a verdade una e indivisa é um acto do ponto de vista existencial de máxima humildade e não de arrogância. Pensar é sempre pensar a verdade e pensar a verdade é aproximar cada um do saber de si próprio como meio para o saber universal. Conheço-me na medida em que em mim conheço o universal que há em mim.

Por tudo isto, quando se afirma que a finalidade da edução é formar homens livres, se está a afirmar que sem o saber de si próprio o homem é pouco mais do que um escravo que não pode conduzir os seus destinos por não poder responder por eles, isto, por não poder ser responsável. A responsabilidade é a consequência da autoridade. A autoridade é dada pelo pensamento livre. Um sistema de educação que não tenha o seu princípio na autoridade, no sentido de ser autor do que pensa e, por isso, ter a liberdade de ensinar o que sabe, está condenado a escravizar aqueles que deveria ajudar a libertar.

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sexta-feira, 21 de março de 2008

Demasiadas palavras

O Expresso traz hoje um artigo interessante sobre a "diarreia" e "verborreia" legislativas. Legisla-se demais e com demasiadas palavras em Portugal. O problema tem, no entanto, tanto de cultura legislativa como de cultura jurídica. Por outras palavras, este problema tem provavelmente mais a ver com a nossa cultura jurídica do que com a nossa cultura política. A nossa cultura jurídica é profundamente formalista e isso leva a que qualquer problema jurídico seja sempre atribuído ao legislador e não ao intérprete. Quando existe um problema na adaptação da norma ao seu contexto social e económico isso nunca é concebido como um problema de interpretação mas sim como uma lacuna do legislador. Este procura antecipar-se e legislar todos os detalhes o que, frequentemente, apenas reforça a incerteza e o formalismo (veja-se a discussão sobre a aplicação da lei do tabaco aos casinos e como a questão foi concebida como um problema do legislador que não tinha previsto todas as situações possíveis…). É na cultura de interpretação das normas (descontextualizada e sem atender à finalidade das mesmas) que reside uma parte da explicação para essa "diarreia" e "verborreia" legislativas. Quando uma norma é vista apenas como o somatório das suas palavras é natural que sejam necessárias muitas palavras…

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Bowling Alone



O grau zero a que o Pedro faz referência recordou-me um livro cuja leitura penso ser cada vez mais importante: Bowling Alone de Robert Putman. Putman procura demonstrar (através do exemplo americano) que as sociedades actuais têm vindo a perder o seu capital social (as redes sociais informais ligadas à escola, à família, ao bairro etc.). Putman argumenta que este capital social é fundamental não apenas para o bom funcionamento de uma democracia mas, igualmente, para a provisão de certos bens públicos (há correlações muito interessantes entre a existência desse capital social e a criminalidade, o desemprego, a saúde etc.). O próprio Putman reconhece que muitas das estruturas sociais que permitiam a criação desse capital (a presença da mãe em casa por exemplo) não são, hoje, sustentáveis (e, mesmo, aceitáveis). No entanto, isto coloca o grande desafio de como "reconstituir" esse capital social. Acho que o grau zero a que chegámos é também produto e exemplo da redução deste capital social.

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quinta-feira, 20 de março de 2008

O Elogio da Preguiça em Duas Canções

Lazy Bones, Cathy Spence
Antigamente o homem era um homem. Hoje, não lhe dão sossego. O homem ideal é, agora, uma figura desaustinada, gesticulante, dinâmica, competitiva e (temo que ao dizê-lo arranque aplausos) proactiva. Um homem, isto? Já com pouco fígado e pior coração, o homem moderno não tem espaço anatómico para a preguiça, como se preguiça fosse palavrão ou vil pecado mortal.

Vim do lado de lá do equador, duma indolência que era a única resposta racional à canicular inclemência dos trópicos. À imagem e semelhança da sinuosa boa constrictor, jiboiar era o que pobres e ricos faziam depois de um repasto digno, fosse um delicado cozido à portuguesa, fosse o meu muzungué de musseque.

Aqui, na Europa, entre o ginásio e o “empowerment”, só a velocidade é afrodísiaca. Mas cansa. Cheio de vontade de parar, procurei uma bandeira que conferisse caução estética à volúpia dumas tardes sabáticas. E foi nesse interim que me lembrei de Vinicius.

Há uma canção que sempre elejo como a mais preguiçosa do hemisfério sul. Vinicius, Toquinho e Marília, em “Uma Tarde em Itapuã”, cantam a nobreza duma vadiagem que não tem tamanho. A cada verso, a cada nota, perpassa uma brisa epicurista, temperada por generosos goles de cachaça de rolha. Entre amor e mar, coqueirais e braços morenos, desenha-se o sereno espaço em que um homem deveria, sem pressa, ser homem.

Pensava eu... Até ouvir esse acumen da inacção que se chama “Avarandado”. A letra (curta) é do ocioso Caetano. Mas quem lhe deu sentido foi o zombie João Gilberto. Enquanto na canção de Vinicius havia orquestra, percussão e violinos, João canta arrastado, com voz agónica, sustentado só no pré-coma do seu violão. É uma canção de palmas enluaradas e moças recostadas. Tudo está tão quieto, parado, cada palmeira na estrada, que a gente tem medo de se mexer. Experimentem cantar: até o sol se deita.

Sejam homens e deixem-se ir por esse lânguido caminho de moleza e preguiça que vai dar no mar. Começa ali o avarandado do amanhecer.
Crónica roubada aqui, com ligeiras alterações só para camuflar.

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O grau zero

A avaliar pelo que se vê aqui, acho que não vale a pena continuar a discutir o que se discute aqui.

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Foge cão, que te fazem barão...

Este post começou por ser um comentário ao post do Pedro Norton – Da Visão: os barões atrapalhados –, que acabou por crescer e tornar-se autónomo.
Gosto sempre de ler o que diz o Pedro, sobretudo pela clareza com que expõe as suas posições, como mais uma vez é o caso. Quero, no entanto, discordar num ponto, que me parece essencial: é que não julgo que a guerra no PSD seja entre bases e barões, nem que, consequentemente, a solução esteja em Belém e em Cavaco Silva.
Explico: a guerra será sempre entre barões e barões, os quais valem justamente em função das bases que são capazes de motivar. O problema, hoje, excessivamente visível no PSD, mas, em rigor, patente em quase todos os Partidos, é a ausência de uma relação verdadeira entre os líderes e as “suas” bases.
Sempre que a relação entre os lideres e os liderados se torna num mero jogo de interesses, no qual uns manipulam os outros, em vez da salutar divergência interna (que muitos hipocritamente saúdam, sabendo que é outra coisa), temos a instauração de guerras cujos fins são alheios à própria natureza do Partido.
Na verdade, porém, os destinos de ambos - líderes e liderados, barões e bases - estão ligados: a ascenção e a queda de uns é a ascenção e a queda dos outros, muito para além da mera luta dos seus interesses particulares.
Sempre que os barões deixem de explicar-se às bases – informando-as, motivando-as, convencendo-as... – e sempre que as bases deixem de participar nas lideranças – perguntando, contestando, sugerindo... –, veremos inevitavelmente instalar-se um poder que tudo reduzirá a um mero jogo de interesses, que com o passar do tempo se tornará cada vez mais mesquinho. É certamente aí que estamos.
A solução, porém, não está em Cavaco Silva, que enquanto Presidente da República deverá ser obviamente alheio a essa luta prtidária, e enquanto líder social-democrata não creio que tenha feito – nem que venha a fazer – o que justamente é preciso fazer: abrir o Partido para fora.
A solução, com efeito, está na capacidade dos líderes se relacionarem verdadeiramente com as bases, motivando-as para participarem em tarefas transparentemente inscritas em projectos e claramente compreendidas em ideias. Para isso, porém, os líderes têm que ter projectos e ideias (não confundir com aparições nos telejornais) e as bases têm que ter autonomia (não confundir com uma mera capacidade de voto).
É claro que isto implica uma abertura dos Partidos para fora – coisa que os actuais barões e as suas bases não querem nem deixam que aconteça, em nome da defesa dos seus pequenos poderes. Mas a vida tem surpresas, como julgo que descobrirá quem seguir este caminho.

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Da Visão: Os barões atrapalhados

Parece que as «elites» do PSD andam muito preocupadas com a deriva populista em curso no «seu» PSD. E têm boas razões para isso. O que está em causa é, de facto, uma tentativa desabrida de lhes «roubar» um partido que julgam ser seu por direito ou por disposição testamentária de Sá Carneiro. Ou, dito de outra forma, o que está em causa é uma estratégia para perpetuar, com o apoio das bases e graças a meia dúzia de truques grosseiros de secretaria, a liderança de Luís Filipe Menezes. Que de resto nem se preocupa em esconder ao que vem e iniciou, esta semana, a refundação simbólica do partido para grande escândalo de militantes que, ainda há pouco tempo, se entretinham a virar do avesso as «setinhas» do PSD.
Dito isto, é preciso dizer duas coisas. A primeira é que as «elites» que agora estrebucham são precisamente as grandes responsáveis pelo estado a que chegou o PSD. Quando, no Verão passado, o Dr. Marques Mendes iniciou a sua suicidária fuga para a frente, todas estas cabeças pensantes concluíram, em uníssono, que o seu momento ainda não tinha chegado. Estávamos praticamente a meio da legislatura, o Eng.º Sócrates ainda gozava da fama de supremo reformista e tudo o que estes putativos salvadores do PSD desejavam era que o Dr. Mendes aceitasse continuar a imolar-se, em lume brando, até que as circunstâncias aconselhassem a que algum deles saísse, triunfalmente, da confortável toca onde tinha procurado abrigo durante a invernia socialista. O Dr. Menezes, já se vê, trocou-lhes as voltas e ganhou um partido que estava obviamente «maduro» para lhe cair no colo. Os barões, ainda incapazes de entender como é que o céu lhes caiu tão brutalmente na cabeça, queixam-se agora do desbragado populismo do autarca de Gaia. Talvez um dia percebam que só podem legitimamente queixar-se do seu próprio tacticismo incorrigível.
A segunda coisa que interessa entender é que, com ou sem Menezes, o partido dificilmente voltará a ser controlado pelas «elites». Explico porquê: contrariamente às guerras do passado, a actual contenda no PSD não é uma disputa entre líderes desavindos. É uma verdadeira «luta de classes». Entre os auto-proclamados herdeiros do «verdadeiro» PSD (popular, é certo, mas prudentemente dirigido por elites) e as «bases» do partido que vêm em Menezes o instrumento da sua própria emancipação e afirmação política. Ora, à medida que se acentua esta clivagem classista entre «bases» e «barões», só um homem parece poder arbitrar esta guerra: Cavaco Silva. Porque é Presidente, porque soube colocar-se prudentemente acima da contenda, mas sobretudo porque, não fazendo parte das elites tradicionais do partido, é hoje o exemplo maior de uma liderança eficaz do partido e a grande referência de um PSD com efectiva vocação de poder. É portanto o único com legitimidade histórica e «inter-classista» para «impor» uma liderança saída dos círculos mais «elitistas» do PSD. E se não puder «nomear» directamente o próximo líder do partido tem, no mínimo, o poder de «vetar» qualquer candidato.
Para o bem e para o mal, o poder no PSD já não regressa, por culpa própria, aos barões do partido. E mora cada vez mais em Belém.

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Espanto, Comoção, Luz

Espanto. Espanto, antes de mais, por tão súbito e alargado consenso sobre a Universidade em particular e o Ensino em geral, uma das mais caras e fundas paixões do pobre ex-Primeiro Ministro de Portugal, de sua graça, António Guterres, quando nem o próprio, não menos perdidamente apaixonado pelos consensos, fossem eles quais fossem, vez alguma alcançar logrou. Consenso tão súbito, tão vasto, tão alargado, não deixa mesmo de ser comovente. Sobretudo quando estamos em Portugal, ou seja, aquela nação, como hoje é mister sempre lembrar antiquíssimo dito, que «não se governa nem deixa governar». Posto quanto exarado fica nos anteriores textos do Paulo Rangel e do Miguel Poiares Maduro, uma certeza parece emergir também súbita mas inexirável, tudo quanto respeita à Universidade e ao problema do desemprego, é afinal, de fácil resolução. Afinal, há Luz.

Lida Abdul, «What We Saw Upon Awekening», 2006



Vale a pena atender a alguns dos argumentos belissimamente expostos.

Que nos diz de essencial Paulo Rangel? De há muito preocupado com o tópico «levantado» pelo Miguel Poiares Maduro e Rui Tavares, ou seja da relação entre a Universidade e um consequente emprego, diz-nos Paulo Rangel: «No limite - e sem que, por um minuto, eu o advogue -, Portugal poderia fazer um outsourcing do seu ensino universitário, pagando-o a sistemas estrangeiros. A massa humana de pessoas que abandonam o sistema de ensino, que completam o ensino básico, que atingem o secundário ou que entram no universitário e não dispõem de qualquer know-how é deveras assustadora».

Paulo Rangel não advoga o «outsourcing», mas não o chocando tal desiderato não se vislumbra exactamente quanto lhe impede tal advocacia: Razões de ordem financeira? Razões de ordem «operacional», como agora se diz? Não, não se percebe, tanto mais quanto, ao escrever textualmente, «a massa humana» - sugestiva e bela expressão - «de pessoas que abandonam o sistema de ensino, que completam o ensino básico, que atingem o secundário ou que entram no universitário e não dispõem de qualquer know-how é deveras assustadora», tudo ordena, afinal, ao muito anglo-saxónico e pragmático «know-how».

Quanto à verídica finalidade da Educação, ao quanto mais importa, nem uma palavra.

Que nos diz de essencial o Miguel Poiares Maduro?

Que concorda com o tal Rui Tavares, cronista do Público, com quem Paulo Rangel em pleno acordo se encontra também. É simpático mas não nos diz muito.

Que distintas são as dinâmicas do mercado e da Universidade, recordando-nos um «post», por si publicado, alertando já «para o excesso de ênfase que é colocado na instrumentalização dos cursos universitários às necessidades imediatas do mercado». Se Miguel Poiares Maduro assim o afirma, não temos senão de aceitar que assim seja mas, se assim é, o erro é evidente e grosseiro, tão evidente e grosseiro quanto nem os famigerados planos Quinquenais da extinta U.R.S.S. em tal incorriam. Todavia, a dúvida afigura-se-nos pertinente: tudo se resume, afinal, a uma questão de distintas dinâmicas e errado ou necessidade de mais complexo planeamento?

Miguel Poiares Maduro dirá de sua justiça. Entretanto, porém, mais tem a acrescentar, afirmando também a existência de «problemas sérios no funcionamento do nosso mercado de emprego». O que sendo inegável nos coloca já em distinto plano de discussão, não sendo, no fundo, uma questão de «mercado de emprego» mas a existência de um verdadeiro mercado, sem mais.

Todavia, quanto ao mais, quanto ao quanto mais importa, quanto à finalidade da Educação, à finalidade da Universidade, nem uma palavra.

Serão as questões de emprego tudo quanto importa, que mais importa?

Bom, e tudo isto a propósito de quê? A propósito de uma crónica no Público de um tal Rui Tavares, que não houvéramos lido mas, perante tão alta e vasta exaltação, não deixámos de, atentamente, ir ler. E que afirma diz de essencial Rui Tavares em tão extraordinária crónica?... Que o problema do desemprego se deve ao mercado...

De peito aberto, aqui expomos toda a nossa vasta ignorância e incompreensão de tão preclara tese mas, na nossa muito humilde ingenuidade, sempre interrogamos: como de outro modo poderia ser?... Não garantido o Estado emprego a todos – a todos os licenciados, entenda-se -, obrigado estaria o «mercado» a fazê-lo, sem mais, apenas porque licenciados pelo Estado para empregados serem, se encontrarem os ditos?...

Não vislumbramos o alcance da tese – com pesar o confessamos.

Ah!, sim, Rui Tavares acrescenta mais, acrescenta igualmente que um dos nossos grandes males, como portugueses, é não possuirmos «head hunters» à altura dos americanos, de largos horizontes e superior entendimento da vida...

Será mesmo para levar a sério?...

Entretanto, três outros comentários respeitantes ao texto do Miguel Poiares Maduro, um da Sofia Galvão, outro do Pedro Norton e um outro ainda do Gonçalo Pistacchini Moita, nos suscitam também adicionais chamadas de atenção.

No caso do comentário da Sofia Galvão, como sempre, particularmente pertinente e arguto, afigura-se apenas pecar por parecer não atender em toda a sua extensão, ao facto dessa mesma atitude do tal «jovem» de 30 anos entender ser-lhe devido, por definição, um emprego para vida, à altura dos seus muito elevados pergaminhos, surgir pela mesma subtil instigação pragmático-socialista que deforma a actual Universidade e subjaz tanto na crónica de Rui Tavares quanto nos subsequentes textos aqui comentados.

No caso do comentário do Pedro Norton, embora seja hoje muito politicamente correcto apelar e exaltar uma «cultura de meritocracia», para além de profundamente anti-portuguesa, já Hayek a denunciava, com horror e profundo sentido crítico», n’«Os Fundamentos da Liberdade». Onde o socialismo falha, sempre se apela, em vão, mas não sem graves consequências, à «meritocracia» como grande e universal panaceia. É preciso atenção.

Finalmente, no caso do Gonçalo Pistacchine Moita, importa lembrar o seguinte: Saber é sempre saber da verdade; a verdade é una e individida; a Universidade nasce como a busca do saber Universal, como o que tende para o uno, o uno que há em todo o saber, como saber da verdade, una e individida.

Ou seja, em resumo e conclusão, talvez por aqui iniciando, mais clara Luz, em verdade, possível seja alcançar.

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quarta-feira, 19 de março de 2008

As Mil e Uma Noites

Scheherazade, Edouard Richter
A vida não tem a mínima graça. Não me venham cantar a virtude da verdade; não me façam hinos à prosaica realidade. A vida, a prosaica realidade, está todos os dias nos jornais e faz primeiras páginas infames. Torce-se o jornal e escorre sangue.
Quem paga bem é a ficção; só a mentira tem imaginação para proclamar o sublime. Viajei por montes e planícies, fui aos bares mais escusos das mais escuras noites, e nada, nem um cavaleiro andante. Don Quixote e Sancho Pança sim, proclamam incansáveis, nas intermináveis páginas de um livro, em múltiplas e intraduzíveis línguas, a superioridade de um idealismo que resiste ao rídiculo.
Os verdadeiros heróis são de papel. Ninguém, nenhuma polícia, nem mesmo o cortejo de um milhão de detectives de carne e osso, se aproximará, debilmente que seja, da rigorosa capacidade dedutiva do britânico Sherlock Holmes ou de Hercule Poirot, de imprestável nacionalidade belga.
Dizem-me que há seres dúplices, manéis de dia, marias à noite, mas na vida topam-se à légua. Só uma imaginação poética e em transe mediúnico teria criado o corpo desdobrável e prodigioso que é, ao mesmo tempo, Dr. Jekyl e Mr. Hyde. Querem provas: leiam o livro, vejam os filmes.
E digo-vos: mesmo nos momentos mais trágicos, quando só a sobrevivência conta, a honesta e nostálgica ficção canta mais alto. Durante a II Grande Guerra, de um lado e do outro da trincheira, a mesma fabulosa mulher, Lili Marleen, assombrava os corações dos soldados alemães e dos soldados aliados. Era só um nome, duas palavras a fechar uma estrofe. Nunca ninguém a viu, essa rapariga debaixo de um desmaiado candeeiro, mas todos, durante aquela guerra, a cantaram e perdidamente a amaram.
Não há um recanto da nossa vida, em que a ficção não se intrometa e, despudorada, triunfe. O enigmático Édipo, mete-se entre o filho que somos e os pais que temos. Lolita, a decotada ninfa, atormenta-nos a maturidade. Othello vem todas as noites instilar um obtuso ciúme na almofada em que afundamos as nossas insónias.
Donde vem este exército de fantasmas, esta legião de incorpóreas aventuras? Às vezes acredito que cada um de nós é como um rei de mil e uma noites a quem, de madrugada em madrugada, uma Scheherazade surpreende com lendas e histórias, com poemas e canções. Com tão boa ficção, que préstimo pode ter a vida?
Crónica de empréstimo, toda copiada daqui.

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O lado lunar e o ensino médio...

De há muito que me interessa especialmente este tópico levantado pelo Miguel Maduro e pelo Rui Tavares. E ponho-me inequivocamente ao lado dos que pensam que a universidade não existe para serviço imediato do mercado. Subscrevo a ideia do Miguel de que as universidades têm a sua quota-parte - e bem grande - de responsabilidade. O mercado é dinâmico, a nossa universidade não.
Mas creio que há também uma forte componente de responsabilidade dos próprios licenciados. Também eles alimentam tenazmente à ideia de que a formação universitária é uma formação profissional ou, pelo menos, um "visto consular" para a vida profissional. Desejam ardentemente que o estudo de quatro ou de três anos lhes garanta um emprego vitalício. E refutam pusilanimemente fazer seja o que for que não se relacione com o seu quadro de estudos. Ou seja, há também responsabilidade individual. E há, evidentemente, uma mentalidade colectiva que a forma e a sustenta.
Tudo isto se me afigura pacífico.
Mas creio que o nosso problema da equação "ensino-mercado" é outro e está no lado lunar. A endémica falta de ensino profissional e de ensino técnico, agora iludida por uma miríade de novas oportunidades, é a maior e mais forte causa do nosso atraso. O problema português não é a universidade. No limite - e sem que, por um minuto, eu o advogue -, Portugal poderia fazer um outsourcing do seu ensino universitário, pagando-o a sistemas estrangeiros. A massa humana de pessoas que abandonam o sistema de ensino, que completam o ensino básico, que atingem o secundário ou que entram no universitário e não dispõem de qualquer know-how é deveras assustadora. Um exército de gente sem qualquer preparação ou qualificação. O que impede a formação de uma classe média do conhecimento, a propósito da qual polemizei já com o Rui Tavares. O mercado exige do Estado, das escolas e das empresas instrumentos de ensino profissional ou técnico. Este, por maioria de razão, em contínuo processo de aggiornamento.
A questão não está apenas na falta de sindicatos de desempregados. Está também na falta de alguém que fale em nome do ensino médio. Como ele não existe, não há ninguém que o defenda ou possa defender.

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Inveja

Desta vez não resisto mesmo a uma pequena "dentada" no mundo político… Regressei a Portugal esta semana e fiquei a saber que, em duas reportagens na SIC, o Primeiro-Ministro e o líder da oposição tinham informado o país dos seus principais defeitos. No caso do primeiro, trata-se de ser teimoso quando tem razão. No caso do segundo, é o facto de ser muito sensível às críticas injustas. Confesso que a emoção mais forte que estes defeitos me suscitaram foi a inveja. Na verdade, com defeitos destes quem é que precisa de virtudes?

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De quem é a culpa?

O Rui Tavares defende hoje no Público que o desemprego entre os licenciados é mais culpa do mercado do que das universidades. De acordo com a sua tese não é a Universidade que prepara gente que o mercado não quer mas o mercado que não aproveita essa gente! A justificação para este aparente paradoxo encontra-a Rui Tavares num artigo da Chronicle of Higher Education onde um "caçador de cabeças explicava em como não lhe interessava saber se a pessoa que procurava vinha de Gestão, Filosofia ou Física, mas antes saber se ela tinha adquirido as capacidades de raciocínio, disciplina mental, criatividade ou autonomia pretendidas". Pode então deduzir-se, de acordo com Rui Tavares, que a falta de emprego dos licenciados não deve ser atribuída ao curso específico em que se licenciaram (e às sua maiores ou menores saídas profissionais) mas aos maus critérios de selecção do nosso mercado. Curiosamente, não discordo da tese fundamental do Rui Tavares mas apenas da conclusão que dela retira. Talvez alguns se recordem que há algum tempo escrevi um post em que alertava precisamente para o excesso de ênfase que é colocado na instrumentalização dos cursos universitários às necessidades imediatas do mercado. O mercado muda demasiado depressa para que as universidades consigam produzir licenciados que correspondam às suas necessidades profissionais imediatas. O que as universidades têm de formar para o mercado (e é isso que está subjacente à afirmação do "caçador de cabeças") são licenciados capazes de se adaptar às constantes mudanças profissionais exigidas pelo mercado actual e susceptíveis de corresponder às suas crescentes exigências de criatividade, autonomia e responsabilidade. O erro de Rui Tavares está em presumir que é esse tipo de licenciado que as nossas universidades estão a formar. Na verdade o nosso modelo de ensino e organização universitária é concebido, ao contrário do que muitas vezes se diz, à luz do paradoxo "profissionalizante" e "curricular". Isto é assim por duas razões fundamentais. Por um lado, muitos cursos foram criados e concebidos precisamente para corresponder ao paradigma de formar pessoas para as necessidades profissionais actuais do mercado (o que acontece é que o mercado mudou e os cursos não). Por outro lado, a ênfase na estrutura curricular "totalitária", o modelo magistral de ensino e, no geral, o atraso pedagógico e metodológico que domina a maior parte das nossas licenciaturas (e que promove um modelo de licenciado oposto aquele que tanto eu como o Rui Tavares defendemos) é mais um produto das estruturas de poder existentes nas nossas universidades.
Dito isto, não nego que também existem problemas sérios no funcionamento do nosso mercado de emprego. Frequentemente as empresas não seleccionam os melhores e isso é possível porque o nosso mercado sofre, regularmente, de um problema semelhante ao do nosso sistema público: falta de meritocracia (que no mercado é assegurada por uma genuína concorrência o que, por sua vez, necessita de mecanismos de regulação e supervisão adequados e de um sistema de justiça e de um sistema fiscal que funcionem, de forma a prevenir distorções de concorrência). É por isso que também não se pode confundir a existência de um sector privado com a existência de um mercado….

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terça-feira, 18 de março de 2008

Dia Azur

Entre os dias de um meeting internacional de imobiliário e uma vaga num avião para regressar, abriu-se-me a oportunidade de um dia praticamente livre. Deixamos o Palais des Féstivals na Croisette por volta do meio-dia e meia e de olhos postos nas placas indicativas das direcções, acelerámos num Fiat sem GPS até St. Tropez.

O micro clima da Côte d’Azur é uma ilha solarenga e acolhedora rodeada de chuva, vento e temperaturas baixas. Há lugares sempre cruzados de mito na sua realidade. A beleza da paisagem na aproximação a St. Tropez a partir de Cannes sugeriu-nos uma paragem em Grimaud onde em sexta-feira de Quaresma uma salada serviu de almoço e de descanso numa esplanada exposta a sul. Passeio entre as ruas empedradas de Grimaud, visita às ruínas do castelo medieval no cimo do monte, algumas reflexões sobre a arquitectura do lugar: a sensação de estar num Paraíso. A sensação de estar num mundo eterno, que nunca mudará porque nunca precisará de mudar. A quietude que tranquiliza, que nos devolve a nós próprio, que, por isso, trás paz. Pergunto-me se seria da escala humana, se seria da noção de proximidade, ou se seria o conforto do corpo e do olhar em relação ao que toca e ao que vê? Seja o que for, há uma beleza indizível nos lugares que parecem terem sempre sido como são e que se presume nunca deixarão de ser o que são. Quando, por algum mistério, que não podemos compreender, reconstruímos na Terra uma imagem do Paraíso, uma paz segura, forte e duradoura se revela dentro de nós e então dizemos para nós próprios: “Et in Arcadia Ego”.
Descemos para St. Tropez, deixámos o carro logo à entrada no parque do porto e perdemo-nos pelas ruas deitando o olho ao comércio local entre as grandes marcas e os souvenirs de pechisbeque. Seguimos depois para a zona da praia e, junto ao Mediterrâneo, prolongámos o movimento do corpo até ao cemitério, pousado na meia encosta debruçada sobre o mar do meio. O imobilismo e o silêncio do cemitério, encarando o imobilismo e o silêncio do mar fechado, do mar da civilização! Não era a morte que por ali pairava, por entre as cabeceiras de pedra dos túmulos as quais, como ameias de um castelo, se sucediam coroando as vistas a estes dois viajantes acidentais.
Viajantes acidentais, eu e um velho amigo, cruzámo-nos, naquele princípio de tarde em St. Tropez, em frente ao Mare Nostrum com as memórias de centenas de vidas que terão, se Deus já lhes tiver dado essa glória, conhecido o Paraíso de que eu tinha acabado de ter apenas um vislumbre lá no alto de Grimaud entre as ruas empedradas e as trepadeiras que cobriam as fachadas das casas. Cruzámo-nos com os seus sorrisos estampados nos seus rostos, em fotografias que, os que os perderam, vão renovando com carinho e ternura e assim, também, de algum modo, imortalizando. É a eterna luta pela imortalidade, é a memória a vencer, o esquecimento, o sono e a morte.
Lemos palavras ridículas, as próprias fotografias, algumas, são ridículas, para nós que vimos de longe no tempo e no espaço e estamos longe daquela intimidade amorosa em que as palavras mais ternas e saudosas têm assento. Porém, parando e pensando, começamos as ver nisso uma intensidade amorosa difícil de recusar. Aqueles sorrisos parados, imóveis, retirados ao fluir da existência (a fotografia é sempre um sinal de morte) falam-nos, talvez, de uma interrupção, como se, noutro lugar, um dia os pudéssemos reencontrar devolvidos ao seu movimento. Terão sido bons, terão sido maus, perante a morte não há discursos morais. Cada homem é no mundo, e já fora dele, uma criação irrepetível, uma poderosa afirmação sem contrário, uma presença que transcende todo o discurso moral sobre a pessoa o qual não é mais do que o produto do medo e da perturbação que a presença do desconhecido em nós provoca, Como o riso é o medo da morte.
Gostei de passear entre os mortos. Senti-os, inesperadamente vivos, ali no cemitério de St. Tropez. Vidas colhidas em plena entrega e cheias de audácia, vidas absurdamente interrompidas por um acidente inexplicável, uma criança de nove anos — Dai-lhe Senhor o eterno descanso nos esplendores da luz perpétua. O que vale a vidinha, ali onde só importa o triunfo sobre a morte? Deram-lhes o mar para olhar, e a nós que ali passamos de modo imprevisto, um pedaço de tarde inesperado e improvável, que nos confortou a alma entre ameias de pedra feitas com as cabeceiras dos túmulos.
Regressámos em silêncio à vila, ouvindo o pio de um mocho que não descortinámos. Vimos o sol descer e alongar as sombras dos edifícios sobre as praças e sobre os outros edifícios. Vimos pequenos grupos a conversar. Tudo esteve calmo e tranquilo naquela tarde de sexta-feira de Quaresma sob o céu infinito em frente ao mar da Cote d’Azur.

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Quid est veritas?

Neste estranho mundo em que vivemos poderá parecer estranho que aqui vos venha falar da Páscoa. Mas é mesmo da Páscoa que venho falar, a partir da excessiva riqueza das leituras do Domingo de ramos, este ano recontado pelo evangelho de São Mateus.
Tudo se passa em torno da relação que Jesus nos exorta a estabelecer entre os dois reinos em que naturalmente existimos: o dos homens e o de Deus. A questão, porém, não está em escolher entre a soberania de um ou de outro – pois que ambos são bons –, mas em saber vivê-los de uma forma ordenada. Melhor: em saber ordená-los para a verdadeira vida.
É interessante notar, nesse sentido, como Mateus nos conta a história da prisão de Jesus. Tudo começa com a pergunta que Judas faz aos sumos sacerdotes: «Quanto me dareis se eu vo-lo entregar?» A resposta é conhecida: Trinta moedas de prata! Consumada a traição, os sumos sacerdotes – representantes do poder espiritual – entregam Jesus a Pilatos – representante do poder temporal –, o qual, apesar de o saber inocente, não vê nele nada a ganhar, pelo que prudentemente o entrega à morte.
No dia seguinte, já morto Jesus, tendo-se reunido os sumos sacerdotes com Pilatos, «disseram-lhe: “Senhor, lembrámo-nos de que aquele impostor disse, ainda em vida: ´Três dias depois hei-de ressuscitar.´ Por isso, ordena que o sepulcro seja guardado até ao terceiro dia, não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ´Ressuscitou dos mortos.´ Pois seria a última impostura pior do que a primeira.” Pilatos respondeu-lhes: “Tendes guardas. Ide e guardai-o como entenderdes.” E eles foram pôr o sepulcro em segurança, selando a pedra e confiando-o à vigilância dos guardas.»
O sentido, portanto, é claro: sempre que, tal como Adão, decidimos desobedecer a Deus, erigindo a nossa vontade em absoluto e sujeitando tudo ao nosso próprio interesse, pervertemos a ordem natural das coisas, transformando-nos em meros guardiões da mentira e da morte.
Imediatamente contraposto a este exemplo de Judas, porém, aparece o de Jesus, que, a igual pergunta, no deserto (onde o diabo, mostrando-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, tudo lhe prometeu se ele o adorasse), respondeu: «Vai-te Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás.» O reino de Deus, porém, é tão frágil como um grão de mostarda, o qual, para dar frutos, tem que morrer. Mas crescendo «cria grandes grandes ramos, de tal maneira que as aves do céu se podem aninhar sob a sua sombra.»
Jesus, portanto, é aquele homem que, como qualquer um de nós, sofrendo perante a mentira e a morte, reza, pedindo a Deus: «Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice.» Mas imediatamente acrescenta: «Não seja, porém, como eu quero, mas como Tu queres.» E prescindindo de todas as espadas deste mundo, submete-se à vontade de seu Pai, tornando próximo o reino de Deus pela livre entrega de si mesmo à morte para salvação de todos os homens, assim se revelando o guardião da verdade e da vida.
Estes dois exemplos são extremos. No entanto, poucas vezes, nas nossas vidas, os acontecimentos têm esta clareza de vida e de morte. Ao contrário: o mal aparece sempre como um bem e o bem surge frequentemente como um mal. A escolha, porém, tem que ser feita, já que, ultimamente, somos mortais. Aqui, portanto, somos colocados perante a radicalidade de uma escolha que envolve toda a nossa vida – a que foi, a que é e a que há-de ser!
A Páscoa, assim, é um convite para uma liberdade maior, que Jesus transporta do âmbito comunitário, ou familiar (como aparece no livro do Êxodo), para o coração de todos e de cada um dos homens. A questão, no fundo, é esta: que liberdade queremos nós? A liberdade do reino dos homens ou a liberdade do reino de Deus? E a verdade é que tantas vezes, à pergunta de Pilatos – «Qual destes homens quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?» – respondemos como a multidão em fúria: «Barrabás! Barrabás!»
«Qual de nós te trairá, Senhor?» – perguntavam, perplexos, a Jesus os seus discípulos. «O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará» – respondeu-lhes Jesus. Todos nós, na verdade, somos traidores, porquanto, tal como Judas, e embora sempre agindo por bem, na intimidade do nosso coração tantas vezes pomos a nós mesmos à frente de Deus e dos outros.
Ora, a escolha da primazia do reino dos homens traz consigo o problema que Pilatos, aceitando libertar Barrabás, imediatamente se põe: «Que hei de fazer, então, de Jesus Cristo?» E a solução é apenas uma: matá-lo! Assim absolutamente entregue ao reino dos homens, porém, ninguém mais é merecedor de confiança. Por isso, perante a multidão desordenada, há que lavar as mãos, «dizendo: “Estou inocente deste sangue. Isso é convosco.”»
Assim, se tantas vezes o que parece mais fácil é perguntar, como Pilatos: afinal, «o que é a verdade?», o facto é que deste modo transformamos a vida num inferno. Com esta pergunta, de facto, transformo a mim mesmo em absoluto e a tudo o resto em relativo: nada mais há para esperar; ninguém mais para confiar: a minha liberdade será então proporcional à escravidão dos outros e eu serei somente o guardião da mentira e da morte.
Mas eis que a Páscoa aí está para nos lembrar: que liberdade queremos nós? É uma pergunta para todos os dias.

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«Geração de 60» - soma e segue...


O «Geração de 60» vai bem e recomenda-se. A partir de hoje, passamos a contar com o contributo do João Vieira Pereira, a quem damos as boas vindas!
Esperamos que o João se sinta em casa. Isto é, esperamos que escreva muito e que, escrevendo sempre, engrene neste espírito de diálogo livre e diverso que nos aproxima.
Por outras palavras, e no essencial, que ninguém se permita insinuar que ele é menino da geração de 70...

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Greenspan II

Greenspan disse nos últimos dias que esta seria a pior crise financeira internacional desde o fim da segunda Guerra Mundial. O que não disse é que ele pode eventualmente vir a ser considerado um dos responsáveis por isso. Esta conclusão era o corolário do longo post que há dias escrevi sobre o legado do antigo governador do Fed. Peço desculpa por voltar a esta vaca fria, mas tinha que guardar isto em algum lado e este parece um bom sítio.

Aquilo que de mais importante se pode dizer relativamente à acção de Greenspan é que ele contribuiu de uma forma decisiva para aumentar o grau de flexibilidade da politica económica e monetária norte-americana e, por essa via, aumentar o grau de flexibilidade dos mercados financeiros e da economia em geral. Por exemplo, ao tornar a politica monetária menos sensível ao andamento de determinados indicadores macroeconómicos, Greesnpan deu uma maior discricionariedade às intervenções do banco central, dando por isso mais espaço para que os mercados se ajustassem a alterações nas condições de oferta e de procura.

Ora, a contrapartida de uma economia mais flexível é que, sendo as condições favoráveis, ela cresce mais depressa. Todavia, em condições desfavoráveis, ela pode também reagir negativamente de uma forma mais acentuada.

Isto pode ser dito ainda de outra forma: a grande flexibilidade dos mercados financeiros imposta por Greenspan – e aceite pelo povo – permitiu um grande crescimento do crédito à actividade económica e ao investimento, a qual chegou às classes de menores rendimentos. Esse segmento de mercado necessitava de uma maior vigilância por parte das autoridades financeiras, a qual não foi feita porque o Fed não estava atento aos sinais de cautela do costume. Isso acabou mal, como se viu, e acabou por afectar o resto da economia norte-americana, começando pelos bancos, depois a bolsa e agora os restantes mercados. “No problem”, terá pensado Greenspan, “quando for preciso injectamos dinheiro e os mercados reequilibram”. Só que o efeito parece ter ficado fora de controle.

A projecção externa da crise norte-americana decorre simplesmente do peso que ela tem na economia mundial.

Punha-se a questão de saber porque é que a Europa fugia destas soluções de maior flexibilidade. Uma das razões faz seguramente jus ao facto de ser um velho continente, com populações mais estáveis socialmente, mais velhas e mais avessas ao risco.

Grau de certeza sobre o que ficou dito: 83%.

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Gostos fatiados - segunda fatia

Gosto de magnólias, gosto das magnólias que habitam - e, cada vez mais, habitam - o Porto.
Gosto em especial da flor que vai da cor de vinho ao lilás, passando pelo rosa fúxia, pelo roxo, pelo rosé.
São pétalas que, na cor e na carne, ano atrás de ano, anunciam a quaresma e prenunciam a paixão.
Gosto de magnólias. E acima de todas, pondo de lado as brancas, da magnólia gigante mas invulgarmente esguia, que, agora podada e de há muito cercada pela sombra, começa a despontar na casa da minha infância.

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