quarta-feira, 29 de agosto de 2007

II. Heidegger. Platon: Le Sophiste. Paris, Gallimard, 2001

Vejamos apenas alguns pontos curiosos da obra.

O grande problema do “logos” é o da verborreia (p.33), a capacidade que tem a palavra se de tornar falsa, encobridora da verdade. A letra mata o espírito vivifica, diria São Paulo. Que a palavra possa ser falsa, que o “logos” possa encobrir, é verdade que poucos enfrentam com coragem. A nossa época em que a palavra se multiplica, e tudo invade devia-nos levar a pensar duas vezes antes de falar... ou escrever.

A tese de Antístenes de que só é verdadeiro o tautológico, o A é A, mostra uma tentação de todas as culturas para o monolitismo. É o pensamento islâmico do Deus sem associados. Expressão simples, aparentemente sem risco de incoerência, mas falhando no teste da realidade e no teste da própria consistência do discurso. A palavra não é apenas susceptível de falsidade. Ela é mais do que é singelamente.

Um dos lugares comuns possíveis é o de se dizer que a lógica grega é de procura do Ser, a cristã é a de revelação. Na relação entre o ser e a verdade a postura grega seria activa, a cristã passiva. Visão algo simplista da coisa. Porque mesmo para um grego, sem a corroboração do ser, que se abre e em dádiva se permite desvelar, não seria possível o acesso à verdade. Fora a verdade absolutamente opaca nunca seria possível aceder a ela. Inversamente, do lado cristão, o acesso à verdade implica esforço vivencial, não basta a revelação. Ou seja, destrinçar uma e outra cultura por este critério é tonto e superficial. Em ambas existem ambos os movimentos. Tanto numa como noutra a relação entre ser a verdade implica um movimento de ambos que se dirigem um ao outro. O mesmo fenómeno, afinal: o encontro.

Curiosa igualmente a observação de Heidegger, a insistente referência, ao facto de o ser para os gregos ser presença, “parousia”. O mesmo critério para a eucaristia, com o dogma da transubstanciação, da presença real. A plenitude do ser como plenitude de presença (264, 318, 372 ss., 376, 436 ss., 439, 443, 457, "entelecheia" como presença 490, 520), tema eminentemente católico.

Outros pontos de confluência entre o pensamento grego e o cristianismo saltam a cada momento, mesmo que isto não agrade provavelmente a Heidegger (ou melhor ao seu discurso expresso). A bipartição dos "nous" em Aristóteles como o mais concreto e o mais geral é um elemento católico de Heidegger (157). A ideia de felicidade em Aristóteles como pura contemplação, como desvelamento pleno da presença, ideia bastamente cristã (165). A ligação entre teologia e ontologia, herança grega e não só cristã (212). O diálogo, o ser, e o problema das trindades (421, 463) helenismo e cristianismo aptos a lidar com os mesmos problemas discursivamente. A dialéctica como "colocação em evidência das possibilidades, para o ente, de entrar conjuntamente em presença, na medida em que venha ao encontro do logos" (500) poderia ser definição da eucaristia como preparação da transubstanciação. A questão antropológica é a ontologia e vice-versa (545): Bento XVI não diria outra coisa. Negação, conceito cristão se o há, como fundação do mal, no caso a ilusão, do sofista (208), ou em Hegel como mera transição (529). A teoria dos ícones (e o problema da iconoclastia) antecipa a fenomenologia (378).

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Salazar

Não sou, confesso, um fã de Jaime Nogueira Pinto. Não me revejo na sua visão do Mundo, muito menos nas suas opções políticas. Dito isto, é justo que se diga que este seu «Salazar - O outro retrato» é um livro notável a vários títulos. Desde logo porque Nogueira Pinto consegue fazer, em pouco mais de 200 páginas, uma síntese cultivada e inteligente do pensamento político de Salazar e um retrato razoavelmente desapaixonado da sua personalidade. Depois porque a análise que faz de dois dos períodos mais cruciais da vida diplomática e política do Estado Novo, a Guerra Civil de Espanha e a 2ª Grande Guerra, é particularmente bem conseguida. Finalmente porque a obra constitui o primeiro grande retrato de Salazar feito de forma desassombrada e razoavelmente distanciada por uma personalidade de direita no pós 25 de Abril. E é nesse sentido um contributo inestimável para a história recente de Portugal.
Só é pena que Nogueira Pinto dispense uma análise do papel de Salazar nas políticas mais repressivas do regime. Sem a qual, convenhamos, também não é possível entender e conhecer o Estado Novo.

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terça-feira, 28 de agosto de 2007

Os radares

Os portugueses, já se sabe, não têm um grande sentido comunitário. Basta olhar para os jardins, paredes e espaços públicos um pouco por todo o país. Basta analisar o número, a representatividade e a vitalidade das associações cívicas, dos «think tanks», dos movimentos de cidadãos que, de resto, praticamente não existem. Culturalmente estamos nos antípodas da tradição anglo-saxónica que Toqueville tão bem descreveu. Verdade?
Nem sempre. Aparentemente há portugueses que resistem. Que, parafraseando Manuel Alegre, não se deixam calar. Que se indignam, se organizam e protestam. Só é pena que este tipo de movimentos nasçam pelas razões erradas. Ou não encontrará esta gente nada melhor para se indignar do que uns radares que tentam controlar o trânsito num país com taxas de mortalidade rodoviárias terceiro-mundistas? Será esta uma causa pela qual vale verdadeiramente a pena lutar?
Estranha concepção de cidadania esta.

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I. Heidegger. Platon: Le Sophiste. Paris, Gallimard, 2001

É certo. Para o homem público o aoristo é um problema dermatológico. E não lhe passa pela cabeça que um espírito rude seja uma categoria gramatical. Ouvindo a expressão apenas sorri, pensando que finalmente foi consagrada sob forma livresca a sua história familiar.

Não estou preocupado aqui em desenvolver as implicações filosóficas desta obra de Heidegger. Mas apenas e mais uma vez a falar da Europa. É muito fácil ao analfabeto proferir inanidades sobre o que é a Europa. O meu papel tem sido o da demonstração de uma tese muito simples. Por forma a que fique claro que a imensa maioria das pessoas que dissertam sobre a Europa apenas proferem flatus uocis.

É evidentemente impossível percorrer todas as fontes europeias. Não é um trabalho de uma vida, mas de muitas. Mas tentando analisar todas as dimensões da cultura europeia mostrar que o espaço público é apenas percorrido de inépcias.

Heidegger é por isso aqui apenas mais um exemplo. Mas que ao menos quem fala da Europa saiba os dar. E não ficar pela mera leitura de tratados ou documentos burocráticos. Esses mesmos que se dizem abertos e nada mais sabem fazer senão mostrar o que são: mangas-de-alpaca, pequenos funcionários de alma, por mais pomposos que sejam os seus títulos.

Este livro de Heidegger é francamente divertido. Não me vou dedicar a fazer análises do que tem de relevante sob o ponto de vista filosófico, apenas saliento até que ponto mostra a ingratidão típica de muitos filósofos em relação aos filólogos. E no entanto, percebe-se que a maioria dos trabalhos de base em que assenta o rigor da análise de Heidegger seria impossível sem o trabalho filológico. A sua irritação em relação a Jaeger é nesse aspecto sintomática (Heidegger critica Jaeger, mas afinal reconhece um jovem Aristóteles (p. 456)).

Livro sintomático num outro plano. Duas das obras mais interessantes da filosofia do século XX, esta e a “Ideia de Princípio em Leibniz” de Ortega e y Gassett, fazem um percurso algo estranho. Para chegar a um filósofo (Platão no primeiro caso, Leibniz no segundo), começam por Aristóteles. No caso de Ortega, acaba por nem se quer falar em Leibniz. Aristóteles é revisitado de forma tão intensa que nem ficou tempo para falar de Leibniz. Os arautos do fim de Aristóteles no século XX devem pensar duas vezes antes de dizer tais inconsequências. É inevitável, não se pode passar sem Aristóteles. Por mais burguês que ele cheire, mais escolar (em que sentido?), por mais cinzento de tão científico, ou desprezível de tão pouco científico que o queiram fazer, a sua presença é imensa e inevitável.

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domingo, 26 de agosto de 2007

Eduardo Prado Coelho

Há pouco mais de um ano, na editora “Guerra e Paz”, depois de ter conseguido que Agustina, num livro intitulado “Fama e Segredo na História de Portugal”, escrevesse 12 histórias sumarentas, de Viriato a Salazar, desafiei Eduardo Prado Coelho para fazer um livro de risco sobre um conjunto de objectos e conceitos que definem o que é, irrefutavelmente, ser português. Desse convite resultou “Nacional e Transmissível”, o último livro que publicou em vida. Do bacalhau ao pastel de nata, do mar do Guincho à saudade, do fado aos diminutivos, Prado Coelho inventariou, e as palavras são dele, “um certo número de tópicos que correspondem a realidades específicas daquilo que se designa como ‘ser português’”.
Prezo muito o livro de Agustina e prezo muito o livro do Eduardo. Mas se com Agustina era já o terceiro livro e a empatia era um dado adquirido, com Eduardo Prado Coelho era a primeira vez, sendo claro que conhecendo-nos há muito, e sem prejuízo de uma cordialidade distante, não era liquido que as nossas tão distintas idiossincrasias resistissem à experiência. Resistiram. Melhor, a forma tão pessoal como o Eduardo “atacou” os diferentes tópicos do livro desarmou-me . Tinha-lhe pedido um “livro de ideias” e ele presenteou-me com uma obra muitas vezes íntima e confessional. Mas há mais e eu, tenham ou não paciência para ler, vou contar-vos.
O Eduardo era vizinho da Guerra e Paz. Ali ao lado moram ou escrevem Lobo Antunes, o Rui Zink, tal como desenha o Vilhena. Todos a resistir no degradado Conde Redondo. De repente, ele, o Eduardo, e a Maria Manuel passaram a ser visitas regulares da editora. Vinham ao cafezinho que temos para todas as visitas e aos pastéis de Belém que íamos comprar a correr só para eles. E discutiam o lay-out do livro com o Luis Miguel Castro – definitivamente o meu “gráfico” preferido – dando-lhe quase sempre o imprimatur de que o Luís precisava.
A mim, o Eduardo deu-me ainda mais. Deu-me uma lição de tolerância, e de paz consigo mesmo, que me fica como referência. Completamente consciente da doença que o consumia, delirante e lucidamente optimista na impossível batalha que travava, o Eduardo atirou-se para o lançamento do livro no “Lux” – escolha dele, claro, incapaz que era de resistir a cumplicidades antigas – e aceitou fazer um périplo de entrevistas que, entre Imprensa, Rádio e Televisão, o deve ter obrigado, em duas semanas, a correr o mesmo que Carlos Lopes correu em toda a sua carreira. Isto sem contar com a viagem, com outro três autores da Guerra e Paz, para uma simpática sessão na livraria da Coimbra Editores.
Mas mais do que esses sinais exteriores, Eduardo Prado Coelho mostrou-me, nessa altura, o que já no livro me surpreendera. Mostrou-me os sinais interiores de uma riqueza (de uma sapiência) a que, se calhar, só se chega depois de um duro e longo aprendizado. Com ele, de quem dizem nunca ter fugido a uma boa polémica, as conversas fluíam agora no sentido de uma harmonia que não deixava de temperar com uma ironia que juntava mais do que dividia. Muito, muito mais do que o confronto, com o Eduardo Prado Coelho, de quem eu tinha lido o “Reino Flutuante” quando ainda era pouco mais do que um fedelho e de quem vim por acidente, a ser o último editor, reaprendi as regras da convivialidade, do sossego na relação entre seres humanos honestos e decentes, do direito a estarmos de bem com o nosso passado, seja qual for o seu cortejo de amores, de erros e omissões, de virtudes, de fracassos ou de êxitos.
Tratávamo-nos por você. A ele, por vezes, fugia-lhe a boca para o tu, a que a minha reserva beirã nunca se autorizou. Atrevo-me hoje: “Eduardo, espero que te tenham recebido bem. E já sabes, menos do que um café e um pastel de nata, é mandá-los bugiar. Para isso tens a Guerra e Paz, tão feliz para te acolher como Mrs. Muir ao seu fantasma”.



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sábado, 25 de agosto de 2007

Para nos continuarmos a entender...

"Se há algo que permite dizer que os homens são feitos para se entenderem não é o saber que trocam nas salas dos colóquios universitários, nem a racionalidade com que argumentam e provam as diversas configurações da verdade. Se há algo que permite dizer que os homens são feitos para se entenderem, é a morte. Sobre a morte não há muito que pensar (recomendava Spinoza). Mas é a partir da morte que tudo se pensa: as flores e as gárgulas, deus e os búzios da praia, o mar e os estalidos nocturnos das madeiras…"
Eduardo Prado Coelho

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O icebergue

E de repente uma verdadeira legião de virgens ofendidas pôs-se a vociferar, indignada, com o caso do alegado financiamento ilegal da Somague ao PSD. Como se o caso fosse único ou surpreendente. Como se o financiamento em causa, pelos seus contornos e dimensão, não fosse simplesmente patético quando devidamente contextualizado. Como se não fosse um exemplo entre muitíssimos que todos sabem existir. Como se estas virgens púdicas tivessem acordado agora para essa realidade sinistra que há muitos anos mina a qualidade da democracia portuguesa que é o financiamento ilegal dos partidos políticos. Como se não soubessem que não há grande obra do Estado, concurso público, ou licença atribuída que não sirva para aliviar o deficit crónico dos partidos. De todos os partidos. Como se não soubessem que esta sórdida teia de interesses é a «mãe de todas as corrupções». Como se não soubessem que é com esta prática que se compram silêncios e se vai criando uma cultura de corrupção que vai alastrando a todo o país.
Tenham dó. Se não querem atacar o problema, pelo menos poupem-nos a estas reacções de indignação hipócrita e patética.

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sexta-feira, 24 de agosto de 2007

V. La Proporción Áurea, La Historia de Phi, El Número más Sorprendente del Mundo; Mario Livio, ARIEL, 2006

O tema não se pode esgotar e em última linha talvez seja assim porque a matemática lida com os limites poéticos do ser humano. Descoberta e invenção são em última análise problemas poéticos e a sua destrinça gera iguais problemas na arte e na matemática. A cultura em que vivemos, desgraçadamente fragmentada, deixa muitos campos por estudar. Todo um campo que está por estudar, o do estilo na matemática, porque os matemáticos em geral ignoram retórica. Hamilton, o romântico, não escreve da mesma maneira que Laplace, o clássico (Félix Klein foi dos poucos que começou a abordar esta questão). Mas igualmente os das profundas estruturas matemáticas da poesia, que têm sido deixadas nas mãos de fraudes pseudo-estruturalistas (a velha inépcia de Júlia Kristeva, teórica não incompetente, mas que afirmou que a poesia tem mais que a potência do contínuo, tem a potência de 2, ou que coisa quisesse ela dizer…).

No que me respeita não posso deixar de elogiar este livro. Mostra um profundo bom senso, uma prudência, que só fica bem a quem tem formação matemática. A matemática também cultiva o bom senso, como a boa poesia, ao contrário do que se afirma. Os limites do livro ficam-se nos limites do autor. Se correctamente desconfia da aplicabilidade da constante Phi a certas obras poéticas que apressadamente foram qualificadas como seu desenvolvimento, mostra desconhecer o processo da criação artística. Muitas vezes o motivo é tão importante quanto a estrutura. Mesmo que a última não se construa com base na constante Phi, não deixa de nos fazer pensar até que ponto este não entrou no motivo.

Essa outra discussão. Mas já é muito saudável que quem sabe do que fala nos explique de forma simples do que sabe.

http://www.rodalia.com/libroforo_comentarios.asp?LibroID=58
http://www.casadellibro.com/fichas/fichabiblio/0,1094,2900001115456,00.html?codigo=2900001115456&titulo=LA+PROPORCION+AUREA%3A+LA+HISTORIA+DE+PHI%2C+EL+NUMERO+MAS+ENIGMATICO+DEL+MUNDO
http://goldennumber.net/
http://www.mcs.surrey.ac.uk/Personal/R.Knott/Fibonacci/phi.html
http://www.mcs.surrey.ac.uk/Personal/R.Knott/Fibonacci/
http://mathworld.wolfram.com/GoldenRatio.html
http://www.championtrees.org/yarrow/phi/phi1.htm

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quinta-feira, 23 de agosto de 2007

IV. La Proporción Áurea, La Historia de Phi, El Número más Sorprendente del Mundo; Mario Livio, ARIEL, 2006

O autor mostra-se muito prudente ao deitar fora todo este tipo de demagogias. Nem tenta encontrar fora do mundo grego ou europeu grandes avanços sobre o número Phi, nem se mostra crédulo perante as três mil teorias que sobre ele se quiseram construir.

O número Phi é uma das mais fascinantes constantes da matemática. Um pouco menos conhecido que e ou pi é no entanto igualmente misterioso, pela variedade de ligações que permite estabelecer. Proporção criada pelos gregos, é a razão que existe num segmento de recta, dividido em duas partes (desiguais), entre a parte maior e a menor, que tem de ser igual à que existe entre a totalidade do segmento de recta e a parte maior. Irreleva agora a configuração matemática da coisa, e a habilidade geométrica e algébrica que resolveu este tipo de problema. O mais espantoso é que esta constante Phi se encontra na construção de pentágonos, de estrelas de cinco pontas (as da bandeira europeia e prevalecentes em todo o espaço indo-europeu, curiosamente).

Como é típico da História da matemática nunca se pode definir a fronteira entre a invenção e a descoberta. Em última análise a destrinça torna-se sempre artificiosa. Porque esta constante se encontra tanto em formas naturais, como acaba por aparecer relacionada com os números de Fibonacci. Não é dos menores mistérios da matemática o desta capacidade de relacionar realidades que parecem estar muito distantes, seja realidades e problemas matemáticos entre si, seja estruturas matemáticas e a realidade.

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O deserto dos tártaros






Cheguei a Dino Buzzati através da meritória «Ficções» de Luísa Costa Gomes. O conto, magistral, que primeiro prendeu a minha atenção dá pelo nome de «Sete Andares» e narra a vida de um homem que entra numa clínica para um tratamento menor e que vai sendo transferido, aparentemente por razões kafkianamente burocráticas, de andar em andar até chegar ao piso onde se encontram os doentes terminais sem que nada nunca lhe seja dito acerca do seu real estado de saúde. Ataquei de seguida «Os sete mensageiros» o volume de contos em que originalmente fora publicado «Sete Andares» e confirmei a minha opinião. Este Verão dediquei-me ao «Deserto dos Tártaros», obra maior deste jornalista/escritor conotado com o realismo mágico e o existencialismo.


Drogo é um jovem oficial colocado na remota e semi-abandonada fortaleza Bastiani onde tudo gira em torno de uma mais do que anunciada invasão de tártaros que é a própria razão de ser do aquartelamento e a única esperança de glória para os seus soldados e oficiais desterrados para um inóspito fim do mundo. «O deserto dos tártaros» é a angustiante história dessa espera interminável por uma invasão que, obviamente nunca virá. É o retrato sufocante de uma vida gasta em vão, de um desfiar sem sentido de dias, meses e anos. Uma parábola sobre o significado da esperança e o sentido da vida.

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quarta-feira, 22 de agosto de 2007

III. La Proporción Áurea, La Historia de Phi, El Número más Sorprendente del Mundo; Mario Livio, ARIEL, 2006

Se bem me lembro, Eco, no Pêndulo de Foucault, lembra que os fascinados com as estruturas matemáticas fantasiosas que encontram nas pirâmides apenas escondem o que de mais importante existe. A existência destas estruturas matemáticas. Mais importante que isso, o facto de haver uma correspondência entre o espírito e o corpo que a matemática consegue muitas vezes traduzir.

Que realidades externas possam ser objecto de equilíbrios internos, e possam por eles ser traduzidos, até certo ponto não me espanta. Teríamos ser incapazes de sobrevivência se tal não acontecesse. Se a inadequação do nosso espírito ao mundo fosse tal que nenhuma acção fosse possível. Mas que exista uma tal consonância, por mais imperfeita que seja a sua formulação, entre o mundo interior e o exterior, que a matemática traduz como poucas expressões humanas (a poesia, a música, por vezes conseguem-no), é realidade que sempre me há-de espantar.

As hipóteses de solução são muitas. E uma não menos relevante será a de se admitir que no limite esta divisão entre espírito e matéria é assimptoticamente falaciosa, que no limite do psíquico e do físico encontramos o que Jung chamou de Psicoide, mas que de muitas formas diversas se encontra enunciado seja pelo dogma de Presença Real, seja pelo pela ideia do Uno.

É terreno perigoso, porque quem labora directamente nele sem sentido de prudência perde de uma mesma assentada o sentido religioso e a prudência, que são duas faces da mesma moeda.

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terça-feira, 21 de agosto de 2007

II. La Proporción Áurea, La Historia de Phi, El Número más Sorprendente del Mundo; Mario Livio, ARIEL, 2006

As pessoas tendem a confundir várias realidades diversas. Uma coisa é a estrutura matemática das realidades, outra ainda é a sua apercepção prática. Mas, mais importante e a anos-luz de quaisquer duas, é a sua compreensão matemática enquanto tal.
Não há matemática sem algoritmo consistente, ou sem demonstração. A última é criação grega e só grega. O primeiro foi o resultado de uma sedimentação que só se encontra desenvolvida desde a Idade Moderna na Europa. Fora da Europa encontramos sofisticação. Os árabes, os chineses e os persas nomeadamente. Encontramos vislumbres de génio entre os chineses, os Maias, os babilónios. Génio consistente apenas encontro de formas diversas entre dois primos: os indianos e os europeus.

Que o Nautilus tenha uma estrutura que reproduza a proporção dourada, só me pode provocar espanto. Mas não é o Nautilus que me espanta, mas espanta-ME QUE o Nautilus a tenha. O “me” é um dativo de interesse, o “que” uma conjunção integrativa. O Nautilus é quem é. Que eu tenha um óptimo sistema imunológico não faz de mim um grande imunologista. A estrutura rica das realidades, nomeadamente matemática, faz-me admirar a estrutura, não o objecto que é por ela constituída. A amiba nunca fez obra de ciência.

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segunda-feira, 20 de agosto de 2007

The Isle of Innisfree

"Is that real? She couldn't be."

"A fine, soft day in the spring it was when the train pulled into Castletown -- three hours late, as usual -- and himself got off."
Terra e tempo de visões. Nem o milho era transgénico, nem o pano da vergonha cobria o rosto de quem fazia aquilo em que acreditava.
Como diria um dos homens de Innisfree: "He'll regret it 'til his dying day, if ever he lives that long."


"When I drink whiskey, I drink whiskey, and when I drink water, I drink water"

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Meridiano de Sangue


Continuo a minha peregrinação por Cormac McCarthy. «Meridiano de Sangue» é a história negra da expansão americana para Oeste, narrada através da deambulações de um grupo de caçadores de escalpes pela fronteira entre o México e os EUA . É, como seria de esperar, um romance de uma invulgar crueza. «Encontraram os batedores desaparecidos pendurados de cabeça para baixo dos ramos de uma árvore de paloverde enegrecida pelo fogo. Tinham os tendões dos calcanhares trespassados por espigões aguçados de madeira verde e pendiam, lívidos e nus, acima das cinzas frias das brasas onde tinham assado em fogo lento até às cabeças ficarem carbonizadas e os cérebros borbulharem dentro do crânio e o vapor lhes sair pelas narinas a sibilar. Viam-se-lhes as línguas puxadas para fora da boca e presas com paus afiados que as atravessavam de lado a lado e tinham as orelhas cortadas e os torsos rasgados com lascas de sílex até as entranhas lhes penderem sobre o peito
Mas este Meridiano é também um tributo à grandeza desolada do Oeste Selvagem que, dir-se-ia, exerce sobre McCarthy o mesmo fascínio que um dia levou John Ford a fazer dela um personagem omnipresente da sua obra. «Desceram destas paragens por um fundo desfiladeiro,a trotar ruidosamente sobre os pedregulhos, cruzando hiatos de sombra fresca e azul. Na areia seca do leito do arroio havia velhos ossos e cacos de louça pintada e gravados nas rochas por cima deles pictogramas de cavalos e pumas e tartarugas e cavaleiros espanhóis de morrião e broquel, desdenhosos da rocha e do silêncio e do próprio tempo. Alojados em rachas e fissuras, cem pés mais acima, viam-se emaranhados de palha e pedaços de madeira trazidos pela água que em tempos chegara até ali e os cavaleiros ouviam o múrmurio do trovão na lonjura insondável e vigiavam a estreita língua de céu lá no alto em busca de quaisquer sombras prenunciadoras de chuva, calcorreando o espaço entre os flancos apertados da ravina, e as rochas secas e alvas do leito morto do rio eram curvas e macias como ovos misteriosos».
E como se não bastasse, este romance de 85, consegue ainda ser um livro de uma espantosa sensibilidade que, na aridez violenta daquelas paragens, vai despontando de forma quase paradoxal, ora nas deliciosas prelecções nocturnas do Juiz Holden, ora na imensa fragilidade do herói sem nome em cujo rosto de menino «se pode ler o destino do homem».
Decididamente este McCarthy é um caso sério.

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Liberdade geneticamente modificada

Por razões que não vêm ao caso, passei os últimos dias em casa, mais disponível para a televisão. Desde o primeiro minuto que fiquei estupefacto com a vandalização do campo de milho transgénico em Silves. E mais estupefacto ainda com a complacência dos media e, em particular, das televisões. E com a passividade das autoridades e do Governo em particular.
Tive agora oportunidade de visitar, com efeitos retroactivos, o Abrupto e o Bloguítica. Trabalho notável de cidadania que, por estes dias, ali se fez. De resto, como tem sido timbre de ambos, de há muito a esta parte.
Não restam dúvidas de que a blogosfera é hoje um dos suportes da cidadania e da democracia.

A propósito, a luta contra os transgénicos é legítima e a discussão em torno deles é salutar. Mas a invasão da propriedade privada e a destruição de bens alheios não são formas de exercício admissível da liberdade de expressão e da liberdade de manifestação. A mistura da "cara tapada" com a oportuníssima ocorrência de filmagens in loco e com a presença tímida da GNR é que já parecem uma estranha coincidência. Quem avisou os media? Quem chamou a GNR e quando? Que coragem é esta de defender princípios nobres de cara escondida? Quem é que modifica geneticamente a liberdade e nos pretende vendê-la como se fosse "pura" e "lisa"?

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I. La Proporción Áurea, La Historia de Phi, El Número más Sorprendente del Mundo; Mario Livio, ARIEL, 2006


A criança de três anos diz “dois”. Os pais entusiasmados chamam toda a vizinhança, e telefonam à família. A criança é um génio, está demonstrado. De uma só assentada a criança mostra conhecer cálculo infinitesimal, números imaginários, fórmulas de Euler, trigonometria. Com efeito, quem não sabe que o que a criança fez foi integrar a função seno de acordo com a complexa fórmula supra.

Pois é. Mas qualquer aluno com um mês de análise sabe que a formula é de uma constrangedora banalidade sob a sua aparência pomposa. Talvez os mecanismos cerebrais da criança tenham alguma ligação com esta fórmula, quem sabe? Mas de uma coisa podemos ter a certeza. Para dizer “dois” a criança não usou conscientemente nenhum destes instrumentos.

Os historiadores da ciência, e os antropólogos caíram muitas vezes nesta fraude, exactamente no mesmo plano que os especialistas em piramidologia (?), seja ela baseada nas pirâmides de Gizeh, seja nas da América pré-colombiana.

Os exemplos são muitos e a este entusiasmo não escaparam nem mesmo historiadores sérios da ciência. Descobriram (!) que os chineses, ou os bororós, ou quem seja, tinham descoberto há muitos séculos as coisas mais extraordinárias. A Bíblia diz que numa torre cilíndrica o perímetro da base era de 30 côvados e o diâmetro de 10? Logo, os hebreus tinham descoberto o número pi. Etc, etc.

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Salvos pelo FED e pelo BCE?

Os problemas dos mercados bolsistas que estamos a atravessar são demasiadamente complicados para breves palavras. Mas algumas conclusões interessantes se podem já retirar. A mais importante é inegavelmente que as lições da crise de 1929 estão a ser seguidas. O que os dois principais bancos centrais do mundo ocidental – o FED e o BCE – estão a fazer decorre directa e explicitamente dessas lições.

Em 1929, a então recém criada Reserva Federal norte-americana nada fez para ajudar os mercados bolsistas, vítimas de pânico generalizado. Isso agravou a crise financeira, que rapidamente contagiou a economia e, em particular, o emprego. O FED não tinha os meios de que dispõe hoje, mas também seguia uma filosofia diferente, de não intervenção. Isso já não é assim, uma vez que se sabe que às vezes é preciso intervir. Foi por isso que a Reserva Federal injectou milhares de milhões de dólares nos mercados financeiros e, esta manhã, baixou as taxas de juro de referência.

O Banco Central Europeu não ficou atrás. Aliás, o consenso sobre o tipo de orientações a tomar é de tal forma generalizado entre os economistas que este tipo de intervenções nasce espontaneamente dos dois lados do Atlântico. E porventura até no resto do Mundo. A independência do BCE, frente aos governos nacionais ou a Bruxelas, deu nestes últimos dias frutos e dos importantes. É por estes actos que o BCE ganha adeptos junto das opiniões públicas e dos eleitorados, que têm um número cada vez maior de pessoas mais interessadas na estabilidade dos mercados financeiros do que em intervenções neo-keynesianas nas economias. Sarkozy perdeu alguns pontos na sua batalha contra a enorme independência do BCE.

Mas ainda nem tudo está resolvido e há mais para além do que se tem passado ultimamente.

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domingo, 19 de agosto de 2007

Marshalltown, Iowa


Foi concebida, nasceu e casou em Marshalltown, Iowa.

Hoje por hoje, o meu Urgeist. Bonjour tristesse!

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Desabafos de Verão (I)


Começo as minhas férias. Finalmente. Com elas, vem o tempo para desabafos que a pressa dos dias cheios vinha adiando. Quase calando, afinal.

O primeiro chama-se Pontal. Ou, mais exactamente, o horror sentido perante as imagens da mais triste e pindérica decadência a que chegou a política de hoje. Mesmo para quem não se reveja especialmente no registo comicieiro – e confesso que estou entre esses -, o Pontal tem o peso simbólico de ter sido palco de expressivas demonstrações de militância, marcando sucessivas 'rentrées' políticas de um PSD forte e ganhador. Um PSD com inequívoca ambição de poder e obra.
Hoje, o regresso ao Pontal é patético. Feito à medida de pequenos e circunstanciais afrontamentos intestinos, serviu apenas para evidenciar a dura verdade de um partido sem nível, sem soluções e sem horizontes. Do anfitrião-entertainer, aos discursos e às provocações entre candidatos, ficou a certeza de um partido incapaz de olhar o país, de pensar o país, de falar para o país.

Para mim, que creio convictamente que ao PSD caberá (como coube sempre) um papel decisivo na democracia portuguesa e que dele se esperaria hoje a capacidade de refundar o projecto político do centro-direita – inovando no pensamento e no discurso, modernizando nos métodos e refrescando nos protagonismos -, o estado das coisas é dramático. E o Pontal, esse, é mesmo de cortar o coração.


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terça-feira, 14 de agosto de 2007

II. San Benedetto e l'Italia del suo tempo, Luigi Salvatorelli, Editori Laterza, Roma 2007

A questão é a de saber que sementes ele deixou, que deixam marca nos séculos, e ainda hoje nos marcam.

Pensemos numa instituição que assumiu a função de museu, universidade, hospital, centro de investigação, zona de experimentação económica. Centro de excelência de gestão, ponto de difusão de cultura, mecenas das artes, letras e investigação científica, zona de segurança física das pessoas, asilo, planeador e executor de grandes obras... O elenco não tem fim. Qual instituição hoje em dia se pode arrogar de ter esta multiplicidade de funções? Pode-se dizer que na altura mais ninguém o fazia. Ideia falsa, mas aceitemo-la para efeito de argumentação. Mas que alguém o tenha feito, e não tenha deixado despida a sociedade de possibilidades de actuação é facto mais que meritório. E poucas organizações se podem gabar de o ter feito com tanta eficiência e eficácia. Na nossa época nenhuma instituição se pode gabar de tanta multiplicidade de facetas e muito menos de tal grau de sucesso, salvo muita injecção tecnológica que dá aparência de maior virtude. As empresas bem podem tentar motivar os seus trabalhadores, mas não oferecem, pelo menos directamente, um projecto de eternidade.

Em segundo lugar reafirma um dado que é uma constante europeia, a da natureza limitada do poder. A começar pelo seu. O poder limitado do abade (125), tradição romana e cristã, é plenamente assumido na sua regra.

Em terceiro lugar cria uma forma de vida regrada, regrada igualmente pelo tempo. A palavra horário é-nos bastante conhecida e em todo o mundo esta é, para o bem e para o mal, herança beneditina. A racionalização da vida, seja a do militar, seja a do trabalhador, é obtida por via beneditina muitos séculos antes de os Estados ou as empresas se lembrarem de tal coisa.

Em quarto lugar fê-lo através de um “individualismo social” (p-.127). O monge faz parte de uma sociedade mas é para a sua salvação pessoal que lá se encontra. Esta é um marca da Europa. Sociedades civilizadas que esmagam o indivíduo, a História conhece-as muitas. Sociedades que o deixam à solta, indiferentes ao seu semelhante, também disso temos bastos exemplos. Mas este equilíbrio entre a integração social e a finalidade individual é marca que atravessa a cultura europeia até aos nossos dias.

Em quinto lugar instituiu a prudência como ideal religioso. Percebendo que os extremos são apenas um solução fácil – e perigosa quanto aplicada ao comum dos homens – e que este extremo rapidamente faz passar da disposição debochada à ascética, instituiu um sistema de equilíbrio, em que cada qual dá o que pode sob o ponto de vista religioso, desde que certos mínimos sejam cumpridos. É evidente que a prudência (a sophrosinè grega, para simplificar) tem um papel religioso bem mais antigo. Mas conseguir instilá-lo num corpo colectivo não é tarefa simples. Foi acusado de juridismo. Mas basta estudar a sua regra para perceber que tem pouco de jurídico. É antes do mais um guião de prudência, de assentimento equilibrado.

Em sexto lugar restringiu a violência. Numa época que se revelou particularmente violenta e em que o império “romano” (bizantino) fez talvez mais estragos que os bárbaros, conseguiu formar um corpo social em que a violência não era fundante do colectivo. Um dos elementos essenciais do espírito do homem dito moderno, o do corpo tutelado, protegido contra a violência, é em grande parte instituição sua.


Em síntese, mostrou o que só os grandes organizadores da humanidade têm: um profundo conhecimento da natureza humana." A voler fare gli uomini troppo buoni, non si rischi di farli divenire troppo malvagi: che mai: una fabbrica forzata di santi può trasformarsi facilmente in un covo di demoni" (p. 119). Um bom exemplo para as utopias comunista, multicultural, capitalista e outras tantas que pululam na nossa época bastamente analfabeta. Por isso e pode dizer com justiça que inventou uma nova forma de vida (p-.131). Quantos podem dizer o mesmo? E nessa forma de vida fomo-nos habituando a ver as marcas do que começámos a chamar de Europa.


http://www.lastampa.it/speciali/salvatorelli/index.html
http://www.liberonweb.com/asp/libro.asp?ISBN=8842080594
http://usato.unilibro.it/site/result_scrittori.asp?scrittore=Salvatorelli+Luigi&idaff=0
http://medioevo.leonardo.it/blog/studi_e_ricerche/san_benedetto_e_litalia_del_suo_tempo.html
http://www.unilibro.com/find_buy/result_scrittori.asp?scrittore=Salvatorelli+Luigi&idaff=unilibroES
http://www.liberalsocialisti.org/articol.php?id_articol=147







Alexandre Brandão da Veiga

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