quinta-feira, 19 de julho de 2007

II. Chamfort, Maximes et pensées : Caractères et anecdotes, Gallimard, Paris, 1982

As luzes têm muitos lados negros. É nelas que encontramos a origem das teorias racistas, a teorização racional do esclavagismo, em nome do utilitarismo e em desprezo da noção (cristã) de pessoa. É nelas que encontramos a profunda honestidade de Kant, mas que o transformou num pau seco sem vida. É nelas em que encontramos um sentido de maledicência delicioso, que se volta a encontrar em Wilde e na Belle Epoque mas que geralmente é sinal antecipador de guerra e profundo conflito.

É aliás de desconfiar sempre que encontramos um sentido de humor corrosivo e sofisticado. A guerra está sempre próxima dessas épocas. Denuncia uma falta de vontade de viver e uma vergonha perante as verdades da vida que faz irromper todas as formas de violência. É sempre sintoma de puritanismo. De violência, portanto.

Chamfort faz parte de um dos lados mais negros do iluminismo. O humor transforma-se em amargura, o delicioso chiste tem sabor a azedo. É um autor que se lê com imenso agrado, porque é sem dúvida dotado de grande sofisticação, mas com tão grande compaixão, porque perdeu a esperança de qualquer sentido. Como Don Juan permanece na sua teimosia. Instalou-se nela. E o que aparece como sentido de revolta externamente, mais não é que um profundo horror a sair de uma rotina, um conformismo. A ópera de Mozart sobre o Don Giovanni é apenas mais uma lúcida visão do que é este respeito da rotina embrulhado numa capa de espírito de aventura e revolta, orgulho e teimosia. Um homem rígido que não se quer deixar moldar pela vida. O mito do adolescente eterno, em suma.

Chamfort não é filósofo. Nem sequer grande pensador. Mas um grande repórter da vida da sua época e dos sentimentos da sua época. Lê-lo é entrar nos salões setecentistas, ver a preparação da tormenta revolucionária, como a procura desesperada da novidade e do efeito, seja no dito, seja no acto, se pode transformar numa espiral de permanente insatisfação. Mais que as suas palavras, é pedagógico o seu testemunho. O que nos ensina não é tanto o que ele diz, mas o facto de ele ter existido. De tanto procurar o riso é corroído pela amargura.

Por isso quando encontramos pessoas que se pretendem cínicas, “realistas” (seja o que isso signifique), pragmáticas, conhecedoras da podridão humana, ser-nos-ia útil retomar Chamfort e ver que por detrás disso está apenas uma alma perdida à procura de colo. E uma triste solução de vida.


Alexandre Brandão da Veiga


http://www.priceminister.com/offer/buy/243945/Chamfort-Maximes-Et-Pensees-Caracteres-Et-Anecdotes-Livre.html
http://fr.wikiquote.org/wiki/S%C3%A9bastien-Roch_Nicolas_de_Chamfort
http://www.alapage.com/-/Fiche/Livres/2070373568/?donnee_appel=GOOGL
http://www.citationspolitiques.com/auteur.php3?id_auteur=71
http://www.kirjasto.sci.fi/chamfort.htm
http://www.psychanalyse-paris.com/Des-femmes-de-l-amour-du-mariage.html
http://www.aufildemeslectures.net/?P=c&au=397

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quarta-feira, 18 de julho de 2007

I. Chamfort, Maximes et pensées : Caractères et anecdotes, Gallimard, Paris, 1982

« On souhaite la paresse d'un méchant et le silence d'un sot. »
« Dans les grandes choses, les hommes se montrent comme il leur convient de se montrer ; dans les petites, ils se montrent comme ils sont. »
« L'importance sans mérite obtient des égards sans estime. »
« Je ne conçois pas de sagesse sans défiance. L'Écriture a dit que le commencement de la sagesse était la crainte de Dieu ; moi, je crois que c'est la crainte des hommes. »
« Il est plus facile de légaliser certaines choses que de les légitimer. »


O que aprendem as crianças? Que havia uma época em que quase tudo era negro e eis senão quando vieram as Luzes e ficou tudo iluminado. Ficaríamos quase satisfeitos com isso, não fora o homem público ainda ter esta ideia falsa e simplista a vaguear-lhe pelo encéfalo.

O problema é que a vida é bem mais complexa. O dito iluminismo tem muitos matizes. Entre a graça e a infantilidade de Voltaire, a solenidade e a profundidade humana de Diderot, a ingenuidade e a inteligência de d’Alambert, o sentido religioso e profundo de Kant ou a séria ligeireza de Mme de Genlis existem abismos de diferenças culturais, de personalidades, de estilo que não se deixam de reflectir no seu pensamento. Em certo sentido Maistre é tão filho das Luzes quanto Voltaire. Mas a corrosão de De Maistre, o grande reaccionário, é bem mais “moderna”, a tal ponto que é o mestre de Baudelaire e Nietzsche, coisa de que Voltaire não se pode arrogar.


E tudo nesta vida tem um lado sombrio. As Luzes não são excepção a isso. O espírito crítico pode tornar-se num instinto, num tique, numa obrigação, numa compulsão. Perde assim toda a sua racionalidade. A Festa da Razão durante a Revolução Francesa foi apenas mais um dos exemplos de como quem tem a palavra razão na boca muitas vezes é apenas lá que a tem.

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segunda-feira, 16 de julho de 2007

Saramago e a Ibéria


Da entrevista de Saramago ao "DN" há um ponto fulcral a reter, o de que, e cito “Não vale a pena armar-me em profeta, mas acho que acabaremos por integrar-nos”, sendo essa integração a de Portugal na grande Espanha.
Todos sabemos, e nem sequer vale uma pontinha de ironia, que Saramago é mau pagador de profecias e promessas. Se ele tivesse que avalizar todas as decepções que já deve pelos proféticos e prometidos amanhãs que cantam, não haveria euromilhões que lhe valesse!
Portugal não será uma província de Espanha, o que não quer dizer que a Ibéria seja uma utopia a descartar. Proponho uma variação menos deprimida e menos fatalista. E se, em vez da hegemonia e centralização políticas feita a partir de Madrid, a Ibéria fosse a federação de um conjunto de efectivas independências, replicando à dimensão da Península o modelo europeu?
Hoje por hoje, com a Europa e com a globalização, o nacionalismo não vale um pataco furado. Só que isso é tão válido para o nacionalismo português como para o nacionalismo espanhol. E se o investimento espanhol entrou tão suave e pacificamente em Portugal, sem precisar de pôr em causa a língua, a cultura e o sentimento de nacionalidade, não será que a lição a retirar é a de que essa é a melhor forma de expansão, fintando os anticorpos nacionalistas, sem a obrigação de grandes custos com os mecanismos coercivos que o domínio político de um território “com idiossincrasia” necessariamente implicam? Se, exemplificada por Portugal, essa é a solução, porque razão a Espanha, amenizadas algumas cicatrizes, não há de aplicar a outras regiões da Ibéria a mesma receita?! Antes de mais à dialogante Catalunha que, se alguma coisa quer ser, e ao contrário do que diz Saramago, é ser politicamente, e face à Espanha, a independência que agora só Portugal pode ostentar.
A Ibéria das autonomias já existe. Anexar Portugal a esse modelo talvez acrescente pouco à dinâmica da Península. Mas alterar o quadro das autonomias, criando uma Ibéria de nacionalidades, potenciaria as trocas culturais e económicas gerando cosmopolitismo e modernidade em vez de centralismo e ressentimento. Com uma vantagem para nós: termos contribuído com o modelo político, já que no modelo económico, da Catalunha a Castilla La Mancha, ou até à Galiza, só temos que mandá-los entrar e fazer a devida e canónica vénia.

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O que é um estúpido?

Muito haveria a dizer a propósito. Mas achei curioso ver nas “Etimologias” de Isidoro de Sevilha (X, 247, para aos mais curiosos) que estúpido é o que se espanta frequentemente. Ora, dizia o bom do Aristóteles, o espanto é o começo da filosofia.

Quem tem razão? Ambos. O estúpido espanta-se muito, com tudo e sem critério. Como em algumas doenças neurológicas segue ao tremor o estupor. Exactamente: palavra com a mesma origem. O tremendum passa a ser mera privação: afasia, apatia, abulia, os “a” privativos que houver em elenco.

O estúpido espanta-se com todas as culturas, com a riqueza de tudo, com a inteligência de todos e mesmo com a estupidez de todos. O estúpido tende a ser igualitário. Exactamente porque superou a capacidade de diferenciação. De tanto tremer de admiração com tudo e sobretudo com nada, não distinguindo o valor do desvalor, o estúpido “sta fermo”. Quando age é perigoso, e parado encontra o seu escopo.

O estúpido é em suma o exagero da vida. A sua solidez ou a sua flexibilidade andam desencontradas. Tem uma e outra nos sítios errados, no momento errado. Não erra. É um erro. Que ao estúpido seja dado direito de palavra é uma generosidade da nossa civilização. Mas que se perceba que a prenda não é conquista. E desta ele só conhece a forma da rapina.

O estúpido está exactamente no começo da filosofia e fica-se por aí. Deixado no porto das ideias grita aos barcos que passam que estes se afastam da verdade. Ou que não há verdade. Não é sedentário, mas estacionário. Que se viaje, é para ele crime de abandono. Faz por isso da feira portuária exemplo máximo da diversidade. Quer outro mundo, porque este não o dotou. Tudo para ele pode ser Europa porque para ele a ideia de limite é apenas prisão. Limitado a gozar o pôr-do-sol sempre do mesmo ponto de vista esquece-se de que há quem veja mais longe. E perceba por isso que o limite conduz, e sem ele não há viagem. Mas dessa ele nada sabe.





Alexandre Brandão da Veiga

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Fishing for compliments

O bom senso aconselha a que não se façam prognósticos antes do jogo. Na semana passada, na Visão, infringi as regras e arrisquei uns «palpites». Agora são as regras da modéstia que me aconselham a não voltar ao assunto. Mas a verdade é que, se não for eu, ninguém terá a caridade de lembrar a humanidade que este obscuro cronista acertou em toda a linha. Aqui fica a prova:

«A dois dias das eleições intercalares, a única coisa que parece certa é que «depois de Lisboa nada ficará na mesma». Desde logo nada ficará na mesma no governo do país. A menos que António Costa arranque uma maioria confortável de última hora, as eleições autárquicas na capital marcarão oficialmente o início da campanha para as legislativas de 2009. Com mais de metade da legislatura cumprida, com um alastrar dos sinais de descontentamento popular (os apupos passaram a fazer parte do dia-a-dia do Primeiro-Ministro), com um cartão amarelo em Lisboa e com uma oposição em vias de reorganização, José Sócrates estará doravante mais fixado na gestão do calendário político do que entretido nas reformas corajosas de que o país precisaria. Portugal que se dane.
Depois, nada ficará como dantes no PSD. Marques Mendes bem pode fazer circular a ideia de que não convocará directas antecipadas no partido. Mas num momento em que a dúvida é apenas a da dimensão da catástrofe, ninguém pode acreditar que o ainda líder conseguirá passar entre os pingos da chuva (talvez Paula Teixeira da Cruz lhe pudesse ensinar qualquer coisa na matéria). Até porque é precisamente Marques Mendes o único que tem alguma coisa a ganhar com a antecipação do ciclo político no PSD. Não só porque Menezes não quererá ficar com o ónus de abrir as hostilidades mas sobretudo porque a anunciada «terceira via» (agora devidamente ungida por Manuel Ferreira Leite) não tem nada a ganhar com o desgaste inerente a uma oposição demasiado prolongada ao governo socialista. Apetece recorrer à célebre metáfora futebolística: Mendes está à beira do abismo e, não obstante as afirmações em sentido contrário, sabe que o melhor que tem a fazer é mesmo dar um passo em frente.
Já o CDS/PP terá a sua primeira prova de fogo depois do mais recente «putsch» de Paulo Portas. Pode ser que seja a última. Pode ser que os cidadãos de Lisboa (e os do país em geral) tenham definitivamente perdido a paciência para as constantes refundações ideológicas do CDS e para as dramáticas piruetas do seu líder que já jurou fidelidade a tudo e ao seu contrário. Pode bem ser que Telmo Correia arrecade um resultado humilhante e que Lisboa venha a ser o Waterloo que marca o fim dos «cem dias» de Portas. Seria, sem dúvida, um resultado higiénico para a democracia.
O BE, mau grado o estilo histriónico de Sá Fernandes, só dificilmente não descobrirá que atingiu o patamar máximo da sua evolução e da sua capacidade de influência. Podem enganar-se muitos durante pouco tempo, podem enganar-se poucos durante muito tempo, não se podem é enganar todos durante todo o tempo. O lobo com pele de cordeiro da política portuguesa tem o disfarce puído e já não consegue esconder as garras.
Finalmente, nada ficará como dantes no sistema político português. As intercalares de 2007 marcarão o início da hora dos independentes. Qualquer que seja o resultado da contenda privada entre Carmona e Negrão, é pouco provável que as candidaturas independentes não alcancem, no seu conjunto, um resultado expressivo e histórico (acima dos 20%). Qualquer dos candidatos tem o potencial agregador dos votos dos descontentes com o sistema. A retórica populista está lá, o estilo vitimizado ou «passionário» também e a política autárquica «bateu no fundo» com a crise de Lisboa. Não é preciso mais para que o país assista ao maior terramoto político desde o fenómeno PRD. Ficará doravante provado que é possível fazer política fora dos partidos. O momento tem tanto de promissor como de perigoso. Tudo dependerá dos intérpretes.»

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sábado, 14 de julho de 2007

O mais belo dos livros


52 crónicas, 50 filmes, um prefácio e um posfácio. É quanto basta para fazer «o mais belo dos livros». Cinema em letra impressa. Como só Bénard da Costa sabe projectar. Absolutamente imperdível.

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sexta-feira, 13 de julho de 2007

Teorias da conspiração?

A ideia de convidar o Dr. José Miguel Júdice para coordenar a zona ribeirinha de Lisboa é bizarra a vários títulos:
- Porque são conhecidos os interesses do advogado na hotelaria pelo que o convite soa a «raposa no galinheiro»
- Porque, ao contrário, não se lhe conhece um currículo de gestor
- Porque o advogado, ex-PSD, se converteu misteriosa e recentemente aos encantos de António Costa
- Porque o convite foi anunciado pelo convidado e não pelo convidante
- Porque o foi a meio da campanha para a CML
Pode ser que eu esteja acometido de uma febre esquerdista que me faz delirar com teorias da conspiração, mas que isto cheira mal, cheira...

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quinta-feira, 12 de julho de 2007

IV. O discurso de Ratisbona

É facto curioso que há quem invoque a Turquia é herdeira da cultura bizantina e por isso é um país europeu. Dupla confusão. Em primeiro lugar porque Bizâncio não é a Europa. Mas mais gritante neste caso concreto o facto de o turco se sentir ofendido por ser citada a cultura bizantina. Com efeito, esta foi durante os oito séculos de convívio com o Islão profundamente anti-muçulmana. E retiradas a alianças políticas e talvez em parte alguma genealogia das iconoclastias (questão muito discutida, entenda-se) poucas sociedades foram mais virulentamente anti-muçulmanas quanto Bizâncio. Os opositores ao discurso de Ratisbona são contra a herança bizantina e em geral ortodoxa, o que se vê pela sua russofobia endémica.

Esta dissecação da rã, os opositores do discurso de Bento XVI, permite-nos ver quais são as suas características morfológicas principais:
1) Ignora a cultura grega mas está disposto a odiá-la nos seus traços essenciais;
2) É opositora a Galileu, à livre expressão e ao livre ensino, que querer ver vergado por razões políticas;
3) Está contra a separação entre igreja e Estado, e bem pelo contrário quer a dominação desta pelo político deixando que o religioso domine o político no mundo islâmico;
4) Acha os muçulmanos um conjunto de exaltados;
5) É contra a cultura ortodoxa, seja ela bizantina ou eslava;
6) E em suma acha que só a ignorância funda a autoridade.

As conclusões parecem ser meramente lógicas. Mas para quem usa “meramente” junto com a “lógica” já diz muito sobre o estado da sua razão. Seja como for, basta ver que o comportamento da rã em questão é consistente com esta descrição. Observemo-la no dia a dia e veremos como o que digo é relevante.

Já a dissecámos e deixemo-la em paz por isso. Ela que vá para o pântano julgar-se alvo da cobiça de algum Zeus. Mas de Plateia falarei numa outra ocasião.






Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 11 de julho de 2007

O Público passa-se...

O Público, tal como os outros jornais de referência, é liderado e influenciado parcialmente por uma classe de jornalistas que entrou para os media depois de 1974, proveniente dos movimentos de extrema esquerda que, nessa altura, tomaram as redacções. Essas pessoas evoluíram. Tornaram-se moderadas à medida que amadureceram e foram assumindo chefias delegadas e já não arrematadas. Tudo a favor. Alguns destes jornalistas deixaram-se mesmo aburguesar sentindo as vantagens das coisas e do compromisso. Mas, como recuerdo da pureza original, mantiveram um reduto de revolta pronto a accionar vibrantemente cada vez que duas ou três matérias são questionadas. A liberdade de imprensa, quando condicionada por uma tutela, é uma delas. Tudo a favor, de novo. O problema é que o mesmo escrúpulo que os leva a reagir tão energicamente - e bem - quando há ataques à liberdade de imprensa - fazendo reviver os melhores anos de combate revolucionário - nem sempre é aplicado quando estão em causa outros atentados à independência do jornalismo. Isto é: ninguém de fora pode afectar a liberdade dos jornais mas estes, internamente, podem formatá-la por vezes sem a cumprirem. Aqui entra a guerra das virtudes: as comissões de regulação pensam que têm autoridade moral sobre o trabalho dos jornalistas porque «são independentes» dos interesses a que a escrita se refere; os jornais pensam que ninguém é mais independente do que eles e que qualquer juri representa o regresso da mordaça do fachismo. Ambos são falíveis, como todos nós. E ambos devem competir neste campeonato de imparcialidades. Todos temos a ganhar. Podemos talvez é dispensar o alarido e evitar nas primeiras páginas este corporativismo mental que parece usar o melhor espaço em proveito próprio.

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III. O discurso de Ratisbona

Continuemos.

Que argumentos invocaram? O de que o papa tem relevância política e que por isso deve conter o seu discurso.

Esta argumentação está exactamente no mesmo plano da que foi invocada em relação a Galileu. Assim como em relação a este uma escolástica tardia (saliento, tardia) invocou argumentos teológicos que nunca sequer foram unânimes na própria escolástica, da mesma maneira se disse que o papa tinha um programa anti-islâmico mais ou menos escondido. Mas o pano de fundo da oposição a Galileu, que de resto quase toda a sua vida foi apoiado pelo papa, era político. Não era altura, em plena Reforma protestante, para abalar a fachada (não os alicerces, entenda-se) de um determinado edifício secular. Da mesma maneira o que se objecta em relação ao papa não é intelectual nem espiritual como pano de fundo, mas político.

Ora a livre discussão intelectual deveria ser livre de considerações políticas. Os opositores do papa são os modernos inquisidores que pretendem levar até às aulas considerandos políticos. Descendentes plebeus de Metternich, dos opositores protestantes e católicos a Darwin, são reaccionários e detestam a livre discussão pela livre discussão. São no fundo opositores à liberdade de pensamento.

Se bem virmos, por outro lado, a argumentação dos opositores era a de que o discurso poderia exaltar os muçulmanos. Seja. Percebe-se a imagem que têm dos muçulmanos. Acham-nos um conjunto de exaltados.

São os mesmos que propalam a separação entre a igreja e o Estado. Os laicos, conceito cristão, se o há. No entanto, estão dispostos a intervir na vida da igreja por razões políticas. Ou seja, não são favoráveis a uma separação, mas a um domínio da religião e da discussão intelectual pela política.
E não apenas domínio, ou um domínio qualquer, há um programa bem mais concreto. Nunca mandaram calar o orador do Londonistão, e muito menos o grande Mufti turco. É a igreja católica que mandam calar. O programa é o de calar a igreja católica para deixar livre curso à espontaneidade islâmica. Ou seja, o seu programa é de submissão, de contenção de uma cultura em favor de outra.

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O que se passa com o Público?

Faço quase todos os dias um esforço por comprar o jornal. Muitas vezes só dá para uma leitura de 5 minutos e por isso dou por mim a pensar que é um desperdício de papel. Mas como acredito que a qualidade só será aumentada pelo mercado, isto é, com maiores vendas, lá faço o meu gesto diário de escuteiro. Acontece que às vezes não percebo o que vem lá escrito e as campanhas que lá se desenvolvem. Esta última, contra uma comissão de regulação, então, é para mim verdadeiramente enigmática. Confesso que também não tive paciência para a ler. Alguém ajuda a explicar o que se passa? Mesmo que a tal entidade esteja a funcionar muito mal - o que é quase certo, atendendo a que são jornalistas a controlar jornalistas - justifica-se esta campanha por um jornal que tem de ser de referência? Se querem aumentar o mercado e daí seguir para a almejada melhor qualidade, talvez seja de falarem com uma empresa de comunicação...

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terça-feira, 10 de julho de 2007

II. O discurso de Ratisbona

Vejamos agora o que disseram os seus detractores. Para isso temos de os dissecar como se fazia com as rãs em laboratório liceal.

A crítica foi teológica? Terá sido o papa acusado de helenomania ou de um marcionismo mitigado? Essa seria realmente uma crítica teológica impreparada, de mero principiante, perante a qual um grande teólogo como Ratzinger sorriria, já conhecendo bem as objecções possíveis e as respostas a elas. Mas seria ao menos uma crítica teológica.

Foi a crítica intelectual ao menos? De todo. Não se levantou ninguém a afirmar uma suposta contradição radical entre o “logos” grego e o cristianismo. Também isto faria sorrir um teólogo experimentado como Ratzinger, mas seria crítica intelectual ao menos.

A cultura grega concebeu o “logos” em tensão. Em termos simples, de um lado a filosofia do outro a retórica. Antagonismo longo, muitas vezes em luta, por vezes artificial. A luta entre “sofia” e “paideia” esqueceu muitas vezes que uma e outra se interligam, e seria tão tonto opor a poesia à linguística numa visão exclusiva como opor a filosofia à cultura. O no «princípio era o “logos”» joanino vai além desta oposição.

A filosofia grega por outro lado, e isto desde Platão, mas de forma mais clara desde Aristóteles, e sempre seguida até ao neoplatonismo, concebeu sempre a filosofia primeira como teológica e ontológica. O primeiro adjectivo é conhecido já de Platão e Aristóteles e não carecia de explanação. O segundo não foi usado por nenhum deles, mas ambos perceberam que teria de ser a sua grande preocupação. A filosofia primeira como teológica e ontológica não é uma criação daqueles adoráveis “medievais” que influenciados pelo cristianismo teriam visto limitado o seu horizonte. É uma marca grega da nossa cultura.

A crítica ao papa é feita contra uma reflexão sobre a cultura helénica por quem nunca se deparou com um aoristo ou com a declinação dos artigos. A destrinça filosófica entre o “on” e o “hen” nunca foi aprendida. Por quem ouviu pela primeira, ou, na melhor das hipóteses, pela segunda vez, o nome de Paleólogo. O espectáculo que dá é o de quem critica a equação de Dirac porque tem letras a mais. Em suma criticou-o quem não sabe do que fala.

Os que na Constituição europeia estavam perfeitamente confortáveis com a herança grega, mas recusavam liminarmente qualquer referência ao cristianismo não eram apenas opositores ao cristianismo. Eram opositores à factualidade porque o cristianismo é um facto histórico, e não Deus. Mas sendo os mesmos que criticaram o discurso de Ratisbona vê-se afinal que eram opositores ao fundo da cultura grega. Não se importavam com um folclore aprendido no ensino secundário (tudo é secundário neles, afinal) sobre discursos de Péricles e a democracia grega, que é apenas uma gota no oceano da cultura grega. Mas no fundo são opositores à herança grega profunda na cultura europeia.

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segunda-feira, 9 de julho de 2007

Rebelião na Igreja?

Amanhã - terça-feira,10 de Julho - será verdade, ou não, o que hoje se lê no Público: «Bispos muito zangados com Governo».
A Comissão Permanente da Conferência Episcopal, reunida em Fátima, fará sair uma nota sobre o sério descontentamento da Igreja com a equipe e o espírito José Sócrates em relação a diversas áreas como a acção social, as capelanias, a educação, a comunicação social ou a aplicação da nova Concordata. Sobre todas elas houve pedidos de audiência, sempre ignorados. Dois ou três telefonemas confirmam-me a gravidade da insatisfação da hierarquia da Igreja Católica mas temo que a manchete na primeira página: «Bispos reunem-se em Fátima para endurecer críticas ao Governo» possa infligir uma certa prudência nas palavras da nota de amanhã do núcleo duro do episcopado.
Parece-me evidente que os termos da notícia deste jornal prestigiado condicionam o desfecho da reunião dos prelados. A primeira preocupação dos bispos será agora a de dizer que não se reuniram para interpelar o Governo mas apenas porque estava previsto e como estava pensado. Para o demonstrar, a nota será rodeada de pontos inadiáveis e nem sempre coincidentes com os da notícia. Terá finalmente um tom mais evangélico do que reivindicativo que «desvirtua o verdadeiro» sentimento da Igreja em relação à actuação do Governo.
Em 37 anos de Democracia - alguns dedicados à escrita sobre religiões - não me lembro de ter lido nas páginas da imprensa de referência sobre um desencontro tão radical entre o que é de Deus e o que é de César. O cerco do Patriarcado no PREC, a nova Lei da Liberdade Religiosa com Vera Jardim, o 1º Referendo ao Aborto, com Guterres, ou a revisão da Concordata com Durão Barroso não transmitiram a definição do cisma que hoje se anuncia e amanhã será previsivelmente amenizado.
Nem a duríssima denúncia de D. Manuel Martins sobre a fome em Setúbal durante o Bloco Central (1983-85) se deteve sobre intenções menores do Governo mas antes no apelo esperançoso de medidas concretas sobre aquela realidade dramática (que aliás seria atendido por Mário Soares). Lembro ainda a solicitude com que Fernando Nogueira se reunia no Patriarcado com o Cardeal Ribeiro para programar a construção de novas igrejas que integrassem social e espiritualmente o êxodo rural nas periferias das áreas metropolitanas. Recordo o cuidado que o PS de Guterres aplicou na distribuição proporcional dos tempos de antena de informação religiosa na RTP 2. E não esqueço o esmero com que João Soares tratou a transladação do Papa João XXI de trás de uma porta em Palermo para um dos altares laterais dessa Catedral italiana (é claro que permitiria igualmente a construção dos dois maiores bairros de Lisboa - Alto do Lumiar e Expo - sem a área para o culto que o PDM obriga a par dos espaços escolar, verde, comercial e desportivo).
É claro que a jacobiníssima preocupação de eliminar o lugar dos prelados nas cerimónias protocolares ou de equiparar os bispos aos militantes da defesa dos animais terá chamado a atenção de quem, há séculos, colmata as enormes falhas do Estado na protecção de velhos, crianças, doentes, desvalidos, deficientes ou toxicodependentes com «zelo incansável e espírito fervoroso» segundo S.Paulo. O mesmo se diga da absoluta secundarização da educação religiosa nos curriculae e da constante supremacia do IPPAR e dos megafones turísticos sobre os edifícios com culto.
Ao longo das curtas décadas da Democracia, as situações de atenção e descontentamento entre o Poder Político e a hierarquia da Igreja Católica portuguesa multiplicaram-se de forma irregular mas equilibrada num País que se define (no senso) por ter 94% de católicos; com uma frequência dominical que varia entre os 48% em Braga e os 6% em Beja (inquérito da Igreja); que aprova o aborto, facilita o divórcio e, maioritariamente, requer os serviços da Igreja apenas em quatro «rituais»: o Baptismo, a 1ª Comunhão, o Casamento e o Enterro (estudos de Borges de Pinho).
Estou atenta e curiosa sobre a nota dos bispos de amanhã. Servirão os «servos dos servos» a prudência de sempre na relação com o Poder Político desdizendo as suas razões hoje visíveis no Público? Ou falarão claro para que todos se entendam?

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I. O discurso de Ratisbona


Pode parecer capricho meu mas penso que o ar fica mais cristalino quando assenta a poeira e que só se pode enunciar uma demonstração quando cessa a vozearia. Agora que a poeira assentou e o marchante se cansou de opinar já poderei dizer alguma coisa sobre o discurso de Ratisbona.

Que disse o papa? É temerário sintetizar o que já por si é uma síntese de uma vida de profundo estudo, mas eis que aqui arrisco. Afirmou basicamente que a ligação entre cristianismo e helenismo não era ocorrencial, não era um mero incidente histórico, um acaso sobrevindo em mero desvio. A tese é ousada e tem profundas implicações teológicas, históricas e filosóficas. A cultura onde se dá a Incarnação, o judaísmo, não é mero acaso, já se sabia, é doutrina ortodoxa expressa desde há mais de dezoito séculos contra o marcionismo, nomeadamente. A cultura onde ela se expressa, o grego, é dada como assente. Que tenha um significado teológico, essa já é outra questão.

A tese defendida pelo papa Bento XVI não tem apenas implicações em teologia fundamental. Tem igualmente implicações pastorais sérias. Quando o catolicismo se expande fortemente na Ásia e em África, zonas de aculturação europeia relativamente menor, o discurso de Ratisbona estabelece limites à aculturação. E esses limites são o do “logos” grego. Questão também antiga esta, que foi particularmente acesa durante a polémica seiscentista e setecentista do rito chinês jesuíta.

Nada do que foi dito nesse discurso está lá em vão. Trata-se de uma aula dada por um homem de cultura superior. Cada frase, por mais inocente que pareça, resulta da reflexão de uma vida, de estudo profundo, de dialéctica sólida.

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domingo, 8 de julho de 2007

Do Tamanho dos Peixes e das Lagoas

Quando o meu irmão João deixou os EUA, uma amiga americana, disse-me, com alguma perfídia: "preferiu ser um peixe grande numa lagoa pequena, a ser um peixe pequeno numa lagoa grande". Digo com maldade, porque é minha convicção profunda, que do ponto de vista profissional, (e ela sabia-o), seria sempre um peixe grande, admitindo, contudo, que o seu impacto na sociedade americana fosse menos notado. Este é o dilema de muitos de nós, "estrangeirados". A inteligência traz, consigo, uma obrigação ética. A questão é onde fazê-la florescer, criar, produzir, colhendo, em simultâneo, os benefícios materiais e de reconhecimento da sua utilidade e originalidade. "Fazes cá falta", diziam-me alguns dos meus amigos mais benévolos. No entanto, eu sabia que o terreno onde poderiam crescer, no seu máximo potencial, algumas das minhas qualidades, se as tivesse, não era em Portugal. Se a migalha da minha existência, poderia ter o impacto de um grão de areia no praia do mundo, era nos EUA.Permanece, contudo, em todos nós, a noção patriótica de estarmos ao serviço da Terra que guarda a nossa memória, sabendo, porém, que jogando no clube da vila, as nossas exibições ficarão aquém do que poderíamos obter se jogassemos nas grandes equipas. E porque não somos nós uma grande equipa? Sobretudo por factores psico-culturais. É certo que temos a presidência da União Europeia, mas não foi conquistada, é por rotatividade, "calhou-nos a nós", e tendo a "bola" na mão, a nossa grande inquietação é não fazer má figura, ficando secretamente aliviados quando a passarmos a outrem. E no entanto...no entanto, não tinha de ser assim. Voltar a Portugal é uma "lose-win situation", permanecer no estrangeiro é uma "win-lose situation". A forma que antevejo de ganhar pelos dois lados é acreditar que poderemos fomentar uma mudança cultural que vai para além da nossa "expertise" técnica, e que estimule os nossos filhos ao atrevimento da diferença, e que é deles o mundo, porque assim acreditamos.

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sexta-feira, 6 de julho de 2007

O gratuito

Um padre europeu, missionário na China, e nosso contemporâneo, explicou como era difícil transmitir aos chineses a ideia de gratuito. As palavras que o chinês tem para a coisa significam pechisbeque, de má qualidade, sem valor. Por isso explicar que o amor de Deus é gratuito se torna um quebra-cabeças na China. Embora isto não impeça que hoje em dia cresçam as conversões ao cristianismo na China.

Tem no entanto de se reconhecer que é embaraçoso dizer em chinês algo como “dom gratuito de Deus” para falar da experiência de Cristo quando isso tem a ressonância de “dom sem valor”, ou que o amor de Deus é gratuito, ou seja, pechisbeque.

Na cultura europeia as palavras associadas ao gratuito são no entanto cheias de conotações positivas. “Doros” e “karis” são dádivas oferecidas aos deuses, e dão palavras nobres como Teodoro e carisma. Nome de imperador e de qualidade positiva. Nas línguas latinas “datus”, “gratia” são palavras com ressonância religiosa e imperial. Adeodato é nome aristocrático (como Teodoro, o seu correlato grego), e a graça é prerrogativa imperial. A graça é o que está para além do Direito, um traço de privilégio divino do imperador. A graça é qualidade do elegante, do que tem beleza.

É evidente que nada existe sem o risco da ambiguidade. Timeo graecos dona ferentes. Os presentes podem ser envenenados. Gift em inglês é presente, mas veneno em alemão. Os nossos antepassados não eram ingénuos. Sabem que o que é dado gratuitamente nos pode suscitar cautela. Quando a esmola é grande o pobre desconfia. Mas como tudo o que é superior nos suscita reserva. Seja vindo dos deuses, seja dos imperadores. A dádiva gera sempre uma ligação e tem consequências. Essa ligação e essas consequências podem comprometer-nos.

Mas o que não deixa de ser verdade é que a dádiva gratuita tem estatuto de nobreza no espaço europeu que não se encontra no mesmo grau noutras culturas. Mesmo o zakat muçulmano tem origem notoriamente cristã, e nesse aspecto não foge à regra.

No mundo em que vivemos, o lugar comum é o de que as coisas todas se encontram comercializadas. Tudo pode ser objecto de comércio. A segunda é verdadeira talvez. Não a primeira. A Internet é bom exemplo disso. Nunca tanta informação foi distribuída de forma gratuita. Os donativos e o evergetismo seja com os tsunamis, seja com actividades sociais e religiosas, são parte substantiva da actividade social e económica dos nossos dias.

Esta necessidade do gratuito pode ser vista em muitas perspectivas. É evidente que muitas vezes tem motivações comerciais e económicas, outras políticas. Não sejamos ingénuos. Mas seria empobrecedor ver apenas essas motivações. Existe uma misteriosa necessidade no ser humano que é a de dar. Numa época que se vê como lúcida apenas quando encontra o motivo torpe, rasteiro, seja ele primevo ou económico, esta necessidade tem de ser reduzida ao instinto, à necessidade de poder, de negociação ou económica.

Uma sociedade talvez mais lúcida encontraria nesta necessidade algo do centro do ser humano. A atitude ética de uma classe inteira foi feita com base nesta força: a nobreza. Uma religião inteira tem aí o seu centro: o cristianismo. Parecem-me mais lúcidas que a visão mercantil. Porque só se vê a necessidade de descartar sistematicamente como ingénuo e secundário (contradição se a há) o que tem efectivo poder. O actual paradigma de lucidez é a do feirante e a do merceeiro. E quando vemos alguém apelar ao seu realismo temos sempre de nos precaver não vá o cheiro da chita ou da cebola invadir-nos.



Alexandre Brandão da Veiga

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quarta-feira, 4 de julho de 2007

Separar o trigo do joio

Não posso, como imaginam, deixar passar o post do Nuno Lobo Antunes sem resposta. Mas não se pense que estou em desacordo com o essencial do que diz. É inteiramente verdade que, regra geral, a qualidade do jornalismo que se pratica em Portugal é fraca. E é fraca por várias razões.
Desde logo porque na vertigem da criação de novos cursos para tudo e mais alguma coisa, algumas almas caridosas «inventaram» cursos de jornalismo e de comunicação social que na prática só tem servido para dispensar os jornalistas de frequentar licenciaturas «sérias». Tempos existiram em que os jornalistas estudavam história ou filosofia e em que aprendiam o essencial da técnica jornalística (porque é de uma simples técnica que se trata) com «as mãos na massa» e devidamente enquadrados por colegas mais velhos e experientes.
Depois porque é mais barato e mais fácil investir em «jornalismo light», em «features» superficiais sobre «famosos», em crimes ou em acidentes de viação (tudo matérias que se podem fazer com os tais jovens jornalistas analfabetos que saem da maioria dos cursos de comunicação social e que inundam muitas das publicações ditas de referência) do que em trabalhos profundos ou de investigação que exigem tempo, especializações e recursos de outro calibre. Já para não falar nos «fact checkers» que menciona o Pedro Lains ou na «Intelligence Unit» do «The Economist».
Finalmente porque vivemos num país pobre, pequeno, com níveis de literacia muito baixos e hábitos de leitura ridículos que é um convite permanente a todo o tipo de cedências e de abaixamento de padrões.
Dito isto, começo a divergir do Nuno Lobo Antunes quando afirma que não há jornais (ou, num sentido mais lato, projectos editoriais) de referência em Portugal. E sustento esta tese com algumas perguntas simples (que não podem deixar de ser lidas à luz da minha evidente parcialidade na matéria):
- Qual foi o mais influente jornal (não clandestino) verdadeiramente independente e crítico do regime publicado em Portugal antes do 25 de Abril?
- Qual foi o jornal a que melhor simbolizou a resistência contra a avassaladora maré comunista nos anos gloriosos do PREC?
- Qual foi o jornal mais crítico do governo Balsemão?
- Qual foi o jornal que, ao fim de trinta anos de liderança instalada, soube precisamente reconhecer que começava a trilhar caminhos incompatíveis com a sua matriz original de qualidade e seriedade jornalística e ousou fazer a maior transformação da sua história com todos os riscos inerentes a uma «revolução» deste tipo?
- Que grupo privado ousou estar na linha da frente da televisão privada em Portugal?
- E que canal «revolucionou» a forma de se fazer informação televisiva num Portugal resignado ao estilo estatizado e oficioso que então tinha a RTP?
- E quem ousou lançar-se na aventura de uma canal de informação 24/24 com investimentos avultados num momento em que nenhum grupo privado «arriscava» produzir em Portugal para um mercado de cabo ainda incipiente?
- Mais relevante ainda: quantos países existem no Mundo em que o jornal líder é um jornal de referência e o canal mais visto no cabo é um canal de informação?
Não há, em Portugal como no Mundo, jornais nem projectos sem imperfeições.Não há exemplos de jornalismo impoluto. Mas ignorar estes e outros factos, ignorar que existem também bons exemplos (que como é óbvio existem também fora do grupo onde trabalho), não é apenas fazer uma análise errada do panorama português. É contribuir para a mediocridade geral. Porque afinal de contas que incentivo pode existir para se fazer melhor se cada um de nós (e particularmente aqueles de nós com mais sentido crítico e logo com mais responsabilidade) nada fizer para, em consciência, separar o trigo do joio?

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III. Gli Indoeuropei e le Origini dell'Europa, Francisco Villar, Il Mulino, Bologna, 1997

É evidente que muitas das hipóteses de base nesta ciência são contestadas. Mas é tão vasta que o que se critica num campo pode não afectar tão directamente outro. As críticas às sínteses de Dumézil e do seu trifuncionalismo não impediram a fecundidade do método e de muitas das suas conclusões. Renfrew ou Gimbutas podem ser escorraçados à vontade. Mas se a indo-europeística é acusada pelas fragilidades das suas hipóteses consoante mais se recua no tempo, o mesmo pode ser dito da pré-história. Deitemos ao lixo todos os estudos pré-históricos se quisermos ser consequentes com estas premissas críticas. Menhires para a pedreira, as antas que vão para fazer ladrilhos.

O autor em causa tem o cuidado de não desenvolver a matéria cultural. Preocupa-se mais com a dimensão linguística, no que faz muito bem, porque é aqui onde faltava uma obra de síntese e porque não se mete em campo de infinita discussão. Fez livro útil e claro, mérito que não pode deixar de merecer elogio. Mas uma linguagem nunca é neutra sob o ponto de vista cultural. Tente o leitor expressar em Bantu a filosofia hegeliana ou traduzir para turco Dante. Verá como a mensagem fica distorcida.

O simples facto de nos quedarmos por uma linguagem nunca é um simples facto. Nunca é neutro. O mundo que se adivinha estar à volta dos nossos antepassados e o seu mundo interior faz-nos suspeitar do que ainda hoje em dia herdámos. E estou a subestimar a sua importância apenas por efeitos de prudência.

Seja como for, e bem longe de lutas políticas e públicas polémicas é bom encontrar campos em que o ser humano nos surpreende positivamente e onde por vezes se pode encontrar um raro produto: o génio.

Alexandre Brandão da Veiga

http://tecalibri.altervista.org/V/VILLAR-F_indoeuropei.htm
http://www.libreriauniversitaria.it/BIT/8815057080/
http://www.bol.it/libri/scheda/ea978881505708
http://dsfll.scu.uniroma1.it/dsfll/didattica/prog_0203/leoni.html
http://web.fu-berlin.de/indogermanistik/IISL.htm
http://bcs.fltr.ucl.ac.be/Ling1.html
http://www.infoplease.com/ce6/society/A0825147.html
http://pauillac.inria.fr/~huet/SKT/sanskrit.html
http://clasicas.usal.es/recursos/lengua.html#indo
http://www.degruyter.de/journals/igf/igf102.html
http://www.ccel.org/

http://cgi.stanford.edu/group/wais/cgi-bin/index.php?p=3558
http://somethinktochewon.blogspot.com/2005/11/origins-of-europeans.html
http://blogmarks.net/marks/tag/indo-europeans
http://dienekes.blogspot.com/2005/11/new-paper-on-indian-y-chromosome.html
http://pisa-papeis-blog.blogspot.com/search/label/Ilíada
http://gatesofvienna.blogspot.com/2006/07/men-of-north.html
http://cauldronborn.blogspot.com/
http://www.rzuser.uni-heidelberg.de/~x28/wwwety/idg.en.htm
http://paleoglot.blogspot.com/2007/05/kurgan-hypothesis-is-hypothetical.html
http://www.devasfolk.blogspot.com/
http://bantwal.blogspot.com/2007/06/harts-caste-system-iii.html
http://www.novumtestamentum.com/blog/category/classics/
http://indologica.blogg.de/eintrag.php?id=807
http://leclubjeanthiriart.blogspot.com/2007/05/le-monde-des-indo-europens-1.html
http://gallaecia411.blogspot.com/
http://mathieujanin.romandie.com/archives/337/199911
http://paroleatous.blog.lemonde.fr/2005/02/18/2005_02_europeplusnet_q/
http://www.centrostudilaruna.it/religiondeshommeslibres.html

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Controle de qualidade

Seguindo o post do Nuno Lobo Antunes sobre a qualidade do jornalismo em Portugal, deixem-me acrescentar umas linhas. Escrever é como andar a cavalo: só não se engana quem não o faz. E o engano tem, claro, de ser o dia-a-dia dos jornalistas. Muitos em Portugal são novos e inexperientes o que, sendo até bom, agrava o problema. Para se atingir uma maior qualidade é necessário que haja revisão dos textos, não só quanto à escrita mas também quanto ao conteúdo. É nisso que há muitas falhas nos jornais nacionais. Há um filme que mostra por dentro o funcionamento da New Yorker, onde há duas ou três pessoas que se dedicam exclusivamente à verificação dos factos mencionados nos artigos em preparação.

O problema do controle da qualidade nos jornais é mais vasto e estende-se aos artigos de opinião que muitas vezes também erram. Mas aí o problema é mais difícil de resolver.

Nas publicações universitárias, em Portugal, o problema também se põe. Os artigos e os livros têm de ser lidos por terceiros para detectar erros e omissões. Aqui tem havido algum progresso, embora o caminho seja ainda muito longo. Há autores mais recalcitrantes que tentam evitar a revisão dos textos, mas já são raros e nem sempre conseguem evitá-la. No meio universitário nacional, a necessidade da revisão dos textos já é geralmente reconhecida, embora à vezes não seja bem feita, talvez por falta de meios.

E na blogosofera? – Bem aqui é a selva.

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terça-feira, 3 de julho de 2007

II. Gli Indoeuropei e le Origini dell'Europa, Francisco Villar, Il Mulino, Bologna, 1997

A desconfiança em relação à indo-europeística tem algo a ver com a marca nazi e o abuso que dela se fez. Mas mais que isso tem a ver com a desconfiança em relação às grandes sínteses históricas. A postura do cidadão médio, em boa verdade é do doutorado que falo, é cada vez mais caseira. Como se encontram falhas nas grandes sínteses históricas, trata-se delas como se de nada valessem. Seria o mesmo que deitar fora a teoria da gravidade newtoneana porque se demonstrou (?) ser incorrecta.

Facto curioso, porque é precisamente no momento em que se nega a possibilidade de síntese histórica que mais se usa a História como argumento no espaço público. Ou pela via do lugar comum (as cruzadas, o colonialismo), ou pela via da negação (a Europa seria uma construção anti-histórica, etc.).

Sob o ponto de vista técnico o assustador é que parece que é muito difícil construir uma sintaxe indo-europeia. A fonética e a morfologia estão muito desenvolvidas, mas a sintaxe (nem falo da pragmática, que seria eventualmente impossível reconstruir, por falta de documentos directos) são assustadoramente ausentes. Assim seja. A verdade é que pertence a uma das raras imensas construções do espírito humano de que a humanidade inteira se pode orgulhar. Foi ela a lançar os métodos rigorosos do estudo comparativo das línguas. É graças a ela que as línguas orientais, ameríndias e africanas são estudadas com outro rigor.

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