domingo, 24 de junho de 2007

Consciência e biologia

Matisse: "A Queda de Ícaro"

Quando a “Geração de 60” ainda estava na clandestinidade, o Nuno Lobo Antunes, o Pedro Norton e eu, trocámos amenidades sobre o que chamámos a “máquina biológica” e o livre arbítrio. Os textos estão sepultados no arquivo de Abril, mas foram, a meu ver, de bom augúrio para o nosso blog.
Lembrei-me deles por causa deste breve excerto de uma crítica que Peter Hitchens, autor paleoconservador e de inquebrantável fé religiosa, dirigiu ao livro do irmão Christopher Hitchens, tão convicto ateísta como esquerdista. Cito:
“How can the idea of a conscience have any meaning in a world of random chance, where in the end we are all just collections of molecules swirling in a purposeless confusion?
If you are getting inner promptings, why should you pay any attention to them? It is as absurd as the idea of a compass with no magnetic North. You might as well take moral instruction from your bile duct.”
Podem ver tudo aqui, devendo eu avisar-vos que cheguei à história visitando Pedro Mexia com quem, em tempos, e sobre o cinema português, mantive polémica de cara fechada e feia, o que ainda hoje me obriga a lê-lo com atenção (de vez em quando, é claro, também não vale a pena exagerar).

A despropósito, mas que já que estou com a mão na blogosfera, façam uma visita às pré-publicações do Luis Carmelo. É a grande estreia da Guerra e Paz no Miniscente, com um belo livro, Do Fanatismo, de Eric Hoffer. Ah, e perdoem-me o conflito de interesses.

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A ETA

Com aquela metódica dúvida que me envenena, interrogava-me eu, em ameno comércio blogo-epistolar com o Miguel Poiares Maduro, sobre o potencial atractivo e sedutor de Portugal para a grande inteligência europeia e mundial. Felizmente os factos desmentem-me: a ETA, laboratório e "centre de recherche" de reconhecida expertise mundial, abandonou o Sul de França para fazer do sul de Portugal a sua base. Temos tudo a aprender e quase nada a perder. A mim, não me voltam a apanhar na Croisette.

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sábado, 23 de junho de 2007

Portugal — Global e Local

Há alguns anos, 1993, chegava a um pequeno hotel no Boulevard Hausman para me ir deitar. Pedi a chave do quarto e enquanto esperava junto ao balcão pelo elevador o porteiro (que era o dono do hotel e fazia o turno da noite de Sábado) ouviu-me falar português. Perguntou-me se era português, respondi afirmativamente. Disse ele: “Bem me parecia, é uma língua maravilhosa, ainda há dias fui ver o Vale Abraão do vosso Manoel de Oliveira. Vou ver sempre os filmes portugueses e gosto muito do Oliveira, e depois, a vossa língua...”

Numa outra ocasião, 2005, desloquei-me a Los Angeles para ir ao atelier de Frank Ghery e enquanto lá estive fui visitar o Walt Disney Concert Hall. Simpaticamente, um dos arquitectos que nos acompanhou naqueles dias, destacou um outro colega para nos guiar na visita ao edifício. O nosso guia era um arquitecto de origem chinesa que tinha estado ligado ao projecto de Ghery em Espanha nas vinhas de Riscal. Contou-me o arquitecto chinês de Los Angeles que uma vez, em Espanha, alguém lhe pediu para ligar a Álvaro Siza Vieira o que ele fez com alvoroço, e quando a voz do próprio Álvaro Siza lhe respondeu do outro lado, ele ficou mudo e balbuciante como se não acreditasse que estava a falar com o próprio, tal era a emoção.
Lembro-me do post do Paulo Pereira da Silva neste G60, sobre o chinês de Aukcland que se interrogava sobre o destino da Escola de Sagres e lembro-me de uma história de Agostinho da Silva contada na primeira pessoa a um grupo de quatro estudantes de arquitectura em me incluía, na sua casa no Abarracamento de Peniche, passava o ano de 1985: “Um dia cheguei a Nagasaki para visitar uns jesuítas e tendo chegado uma hora antes deambulei pela rua para fazer tempo. Havia naquela rua algo que me era familiar. Finalmente, quando chegou a hora do encontro dirigi-me à casa dos jesuítas e logo perguntei porque razão me era tão familiar aquela rua. Prontamente, o religioso me respondeu — É que esta é tipicamente uma rua direita conforme as ruas direitas de Portugal — e lembrou-lhe que Nagasaki tinha sido desenhada por portugueses.
O que há de comum nestas histórias não é talvez o que se possa encarar, actualmente, como estratégia de exportação de Portugal (passe a expressão), ou seja, como podemos nós ir e vencer no mercado global. Não se trata apenas de ir. Trata-se antes de ir levando o quê. É a construção dessa diferença que nos devia ocupar em vez de estarmos concentrados no benchmarking que nos faz ser iguais aos outros, iguais mas sempre um pouco atrasados. O benchmarking só tem interesse para podermos antecipar o passo dos outros não para tentarmos sermos recebidos como pares no seu clube. Temos bons e variados exemplos de liderança internacional de pessoas e de reconhecimento da qualidade portuguesa em diversas empresas. Normalmente, não são as que ficam à espera do Estado, são as que avançam com estratégia e visão contra ventos e marés.
O Portugal global tem de começar pela reinvenção do Portugal local e se for bom cá também será bom lá, porque a globalização não é só uma luta fora de portas, ela começa dentro de portas porque é aqui que os outros também se globalizam.
Quando dou por mim a pensar neste tema da globalização tendo a interrogar-me se devo pensar como a devemos fazer, ou se, tendo sido um povo de expansão global, devo pensar no que é que entretanto perdemos?

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Europa 2007

Junho de 2007 ficará na história por anunciar a nova Europa – que, aliás, só será completamente nova em 2017. Alta madrugada, quando tudo parecia perdido, Merkel propõe, Sarcozy faz o telefonema e Kacsinsky aceita finalmente.
Por terra, fica o sonho do grande Tratado Constitucional. Com esta reforma, teremos apenas mais um tratado. Amputado das suas ambições constitucionais: nem Carta dos Direitos Fundamentais, nem Ministro Europeu dos Negócios Estrangeiros (apenas um mais modesto Alto Representante da União Europeia para a Política Externa), nem bandeira, nem hino, nem divisa.
Em regra, valerá a dupla maioria qualificada, isto é, 55% dos Estados-membros representativos de 65% da população europeia. Reduto da unanimidade, apenas a política externa, a política fiscal ou a revisão dos tratados. Sinal da ruptura, também a morte anunciada das presidências rotativas, em benefício de um futuro Presidente, eleito para um mandato de dois anos e meio, renovável uma vez.
Tudo isto deverá ser concretizado a partir de 2009. Para tanto, sabe-se que será decisivo o contributo da presidência portuguesa.
Nessa perspectiva, que bom seria se à agenda das nossas questiúnculas paroquiais pudéssemos preferir a urgência de um debate sério sobre a Europa. Para discutir tudo, finalmente. O papel da Europa e o nosso papel na Europa. O sentido cultural e político desta união. O projecto de desenvolvimento que encerra para os povos europeus. O que exige aos Estados-membros e aos seus cidadãos.
Ou haverá melhor pretexto para, enfim, discutir o que somos e para onde vamos?

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sexta-feira, 22 de junho de 2007

Aubade

Egon Schiele

Philip Larkin foi um do maiores poetas do século XX. Virulento e amargo. Este poema, de uma alvorada sem glória, anuncia o beijo da morte, o mesmo beijo delicado da morte de que Philip Roth fez a matéria do seu “Todo-o-Mundo”. Para ouvir aqui, na voz de Tom Courtenay, e ler, em baixo, se depois ainda tiver voz.


Aubade
I work all day, and get half-drunk at night
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see what's really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.

The mind blanks at the glare.
Not in remorse--
The good not done, the love not given, time
Torn off unused -- nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says
No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear -- no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anaesthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,
A small unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we can't escape,
Yet can't accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.

Aubade
Trabalho o dia todo, fico meio-bêbado à noite.
Acordado às quatro da manhã, contemplo a silenciosa escuridão.
Logo mais a luz virá bordejar as margens das cortinas.
Entretanto vejo o que sempre lá esteve:
A incansável morte, um dia inteiro mais perto agora,
Tornando impossível pensar noutra coisa a não ser
Como, e onde, e quando eu próprio morrerei.
Árida interrogação: e todavia o terror
De morrer, e de estar morto,
Cintila como agulha que desperta e horroriza.

Clarão que esvazia o espírito. Não pelo remorso
- O bem por fazer, o amor que não demos, o tempo
Desperdiçado - nem pelo desânimo de uma só
Vida levar tanto tempo a percorrer
Nunca se libertando, talvez, do seu errado começo;
Total e eterno vazio,
Essa certa extinção para que nos dirigimos
E em que estaremos perdidos, sempre. Não para estar aqui,
Nem em lado nenhum,
Muito em breve: nada mais terrível, nada mais verdadeiro.

Esta é uma maneira especial de ter medo.
Nenhum truque a apaga. A religião tentou-o,
Vasto brocado musical roído pela traça
Criado para fingir que nunca morremos,
Equívoco material que diz Nenhum ser racional
Receará o que nunca vai sentir, sem ver
Que é isso o que faz medo – não ver, não ouvir
Não tocar, ou saborear ou cheirar, nada para pensar,
Nada para amar ou nos ligarmos,
Anestésico de que ninguém regressa.

Fica só na finíssima margem da visão,
Pequena mancha desfocada, um frio persistente
Que trava cada impulso convidando à indecisão.
Muitas coisas podem nunca acontecer: esta acontecerá,
E a sua compreensão irrompe
Como um vulcão de medo quando nos apanha
Sem companhia ou bebida. A coragem não serve:
É apenas para não assustar os outros. Ser valente
Não deixa ninguém fora da sepultura.
Uivos de sofrimento ou sereno confronto não mudam a morte.

Lentamente a luz aumenta e o quarto ganha forma.
Entra-nos pelos olhos, simples como um armário, o que sabemos,
O que sempre soubemos, que nunca escaparemos,
Ainda que não o aceitemos. A esse encontro, não faltaremos.
Entretanto os telefones encolhem-se, prestes a tocar
Em escritórios fechados, e um mundo insensível
Intrincado e efémero começa a despertar.
O céu está branco sujo, sem sol.
O trabalho tem de ser feito.
Os carteiros como os médicos vão de casa em casa.

Aubade, 29 November 1977, in Times Literary Supplement, 23 December 1977 (Collected Poems, p.208/209)

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What a difference a date makes...

A França mudou de sistema político. Tendo inspirado, em parte, o nosso sistema semi-presidencialista, acaba de se "tornar" um sistema presidencialista. Para tal não foi preciso uma importante revisão da Constituição ou alterar os poderes do presidente ou do parlamento… Bastou mudar umas datas! Fez-se coincidir a duração do mandato presidencial com o mandato parlamentar e realizar as eleições parlamentares poucas semanas depois das eleições presidenciais. Esta coincidência fez das eleições parlamentares uma mera ratificação da eleição presidencial, assegurando ao Presidente uma verdadeira liderança política e uma correspondente maioria parlamentar. Aqui está um bom ensinamento para aqueles que insistem em avaliar e estudar normas e Constituições com base no texto. Tão importante como o texto é o contexto!

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Uma espécie de divergência

Mais um comentário upgraded na minha "novela" com o Manuel Fonseca. Não sei se estaremos assim tanto nos antípodas mas acho que temos uma divergência séria que penso reside no seguinte: para o Manuel Fonseca Portugal já tem uma pluralidade de agentes capazes de produzir para o mundo global e o que falta é dar-lhes mercado; para mim esse mercado não será conquistado enquanto não abrirmos e alargamos o nosso "mercado" desses agentes.

Começa por ser uma questão de escala: penso que a Espanha tem o (relativo) sucesso que refere devido à sua escala (própria e em termos relativos no mercado de língua espanhola); em português esse papel é do Brasil e a nossa única forma de o combater é trazer a "dimensão ou escala" brasileira para cá (mas não só esta). Mesmo a Espanha tem uma política de abertura muito maior que Portugal: basta ver a origem de alguns dos filmes que estavam nos Goya este ano e o co-financiamento pelo Estado Espanhol de produções "não espanholas" (ou, pelo menos, com realizadores não espanhóis). O Manuel conhece isto seguramente melhor que eu mas imagine-se o que aconteceria em Portugal se o ICAM financia-se um filme de "origem" predominantemente brasileira… Eu estou a dar o exemplo do Brasil porque tem uma relação mais óbvia com um possível nosso mercado mais imediato mas, na verdade, entendo que esta nossa abertura deveria ser bem mais ampla. No fundo, o que eu acho é que não nos basta a nossa massa crítica residente para pretendermos ter acesso a um mercado global ou pelo menos regional. Neste aspecto é semelhante ao que se passa nas universidades. Na nossa universidade começa-se a falar agora de internacionalização mas, na realidade, do que se fala é de conseguir que os nossos professores sejam mais conhecidos lá fora e de trazer alunos estrangeiros para cá. Só que isso nunca será possível sem as nossas universidades serem também mais internacionais "por dentro", trazendo mais massa crítica para cá: a verdadeira forma de internacionalização passa por atrair para as nossas universidades os melhores professores e investigadores estrangeiros (foi o que os americanos compreenderam). Mas em Portugal as nossas elites têm uma enorme resistência a este tipo de concorrência externa aos seus postos de trabalho. É com alguma ironia que eu vejo colegas meus das universidades que fazem discursos sobre a xenofobia contra os imigrantes oporem-se frontalmente à contratação de professores estrangeiros. O que é mais extraordinário é que acho que eles não têm consciência desta contradição e são genuínos e honestos nas posições que tomam. Se os imigrantes vêm ocupar os postos de trabalho mais baixos e alguém se opõe, estamos no domínio da xenofobia. Se a concorrência é ao nível das elites universitárias já se trata de proteger a nossa capacidade científica… Assim como na cultura se trata de proteger a nossa identidade cultural ou na economia os nossos centros de decisão…Para que fique claro, não estou a acusar o Manuel de partilhar destas posições ou (mesmo que as partilhe) de qualquer tipo de hipocrisia. Digo isto para salientar como, para mim, conquistar o mercado que o Manuel pretende garantir aos nossos produtos culturais passa por aumentar a nossa "escala" cultural e para isso há que abrir, em primeiro lugar, o mercado das nossas elites culturais. Não podemos ser cosmopolitas só de exportação .

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Uma Espécie de Comentário

red cloud, frank strazzulla

O comentário do Miguel transformou-se em post. Eu assumo que o meu post é mesmo um comentário. Quase que estamos de acordo, quase que estamos nos antípodas. Estamos de acordo na livre circulação dos bens culturais e estamos de acordo com a necessidade das indústrias culturais portuguesas projectarem como seu “mercado interno” um território maior do que o do jardim à beira mar plantado. A grande Ibéria, dizia eu. O mundo, desejamos todos.
Daqui em diante estamos nos antípodas. O Miguel propõe uma teoria em abstracto, como se fossemos avançar a partir de uma folha em branco. Eu parto do reconhecimento de uma pluralidade de agentes (editores, produtores de filmes, produtores audiovisuais e televisões) que têm práticas e desenvolveram interesses. Agentes que nalguns casos já fizeram percursos de internacionalização, que tiveram mesmo tentativas (frustradas ou não) de globalização. Referindo-se à experiência luxemburguesa o Miguel propõe que “Portugal deva pensar seriamente numa decisão estratégica desse tipo”. Mas que Portugal é esse? O Estado? É que os agentes já reconheceram, em geral, essa estratégia. Para lhe dar um exemplo: alguns dos filmes luxemburgueses de que fala são portugueses, o que significa que os produtores portugueses souberam explorar as oportunidades de financiamento que o Luxemburgo ofereceu. Só que a “globalização” do financiamento desses filmes não teve a correspondente e desejada “globalização” de consumo (nem os espectadores luxemburgueses se renderam) e a quota de filmes portugueses vista por portugueses não passa em média dos 1,5% ao ano, enquanto a do cinema espanhol em Espanha é de 15%.
E não pense sequer que não se mandaram vir os brasileiros para se fazerem novelas. A NBP produz novelas, tendo integrado alguns bons profissionais brasileiros. De forma sustentada conquistou o mercado português, mas a exibição dessas novelas no Brasil (ou a sua penetração nos mercado mundiais) é, digamos, residual.
Dito isto, volto a chover no molhado. Há dias aconteceu, em Madrid, o II Encontro de Cinema Luso-Espanhol. Na dimensão, na metodologia, nos objectivos e nos resultados, as instituições, os produtores e as televisões espanhóis constituiram-se aos olhos de quem quis ver como referência, por um lado, e parceiros naturais, por outro. É essa a minha modest proposal.

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quinta-feira, 21 de junho de 2007

Um comentário transformado em post...

A ideia era escrever um pequeno comentário ao post anterior do Manuel S. Fonseca mas acabou por ficar tão longo que não me resta alternativa que o colocar como post. Desculpem.Estou de acordo com o Manuel relativamente à prioridade que deve ser a produção cultural. Mais difícil é saber como aumentar a "produção" e competitividade da indústria cultural em Portugal. Talvez o país em que me encontro neste momento seja um bom exemplo.

O milagre económico moderno do Luxemburgo assentou nos serviços financeiros mas este modelo está, devido a várias circunstâncias, posto em causa. Que têm feito os luxemburgueses? Investir nas actividades culturais. Pretendem tornar-se um dos pólos culturais desta parte da Europa (com a vantagem adicional de que a qualidade de vida associada à vida cultural constitui uma vantagem competitiva na atracção de outras empresas). Investiram num sala de concertos fabulosa, um museu de arte contemporânea e são… um dos maiores produtores de cinema da Europa (através de um regime fiscal e regulador favorável a este tipo de actividades). Talvez Portugal deva pensar seriamente numa decisão estratégica desse tipo. É que o sector cultural é um dos mais viáveis no quadro da globalização. É o tipo de "industria" do futuro (pouco sujeita à competitividade internacional de baixos custos típica dos antigos sectores produtivos). Devíamos criar um quadro global (na regulação, no sistema fiscal, na educação) propício ao desenvolvimento da cultura em Portugal como sector económico prioritário. O importante é não ter de novo uma visão proteccionista e provinciana do que isto significa. Não se trata de apoiar e proteger os produtores portugueses de cultura… Para sermos competitivos e termos dimensão temos de atrair saber e massa crítica cultural de todos os lados. Se os trouxermos, pouco a pouco vamos fazer crescer a nossa própria massa critica.
Um exemplo com base no post do Manuel: a melhor forma de virmos a ter os brasileiros a ver telenovelas portuguesas é atraindo os produtores, autores e actores brasileiros para Portugal. Para fazer, por ex., de Portugal um centro de produção de cinema e televisão para os países de língua portuguesa temos que atrair a melhor massa crítica desses países. Os nosso próprios agentes culturais também iriam beneficiar dessa massa crítica: pouco a pouco cada vez mais portugueses participariam nesses projectos e o contacto com essa massa crítica e a maior escala dos projectos iria seguramente melhorar a qualidade dos nossos próprios projectos culturais. É um pouco como com a nossa selecção de futebol que tem melhorado significativamente com a crescente internacionalização dos nossos jogadores…Não sei se no contexto da globalização o nosso mercado será a península ibérica, a língua portuguesa ou bem mais amplo até. Suponho que dependerá do tipo de produto cultural (é o que demonstra o exemplo fornecido pelo Pedro Lains no que concerne a questão linguística e o cinema que é, no entanto, mais relativa do que ele refere, uma vez que uma grande parte dos filmes americanos são exportados com dobragem para a língua local). O que penso é que é fundamental acabar com a oposição economia vs cultura e assumir que a cultura poder ser um dos nossos principais sectores económicos. E que, se fizermos isso, não podemos repetir o erro dos outros sectores: pensar que nos desenvolvemos fechados em nós mesmos e assentes num modelo proteccionista. Temos é de descobrir como atrair o capital cultural de muitos lados para Portugal (e por capital cultural entendo, neste caso, o capital financeiro que investe em actividades culturais mas também a massa crítica que suporta e faz viver a industria cultural).

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Circular sim! E produzir?

Em “Ainda a Globalização e a Cultura” o Miguel Poiares Maduro parte do meu post para uma incursão em que defende a livre circulação dos bens culturais, perguntando-nos, e cito, se “haverá uma grande diferença, em termos de diversidade cultural, se a grande maioria dos portugueses em vez de verem todos telenovelas passarem a ver séries americanas?”. Partilho praticamente todos os considerandos e conclusões dele, só que o meu post tinha uma natureza bem diferente. O meu problema já não é a circulação, cuja liberdade (e decorrentes vantagens) dou como adquirida; o meu problema é a produção. O que eu quero é que no Brasil a grande maioria dos brasileiros possa ver telenovelas portuguesas e que nos Estados Unidos da América, a grande maioria dos americanos possa ver filmes portugueses. E quem diz telenovelas e filmes, diz livros ou música.
E é sobre a dinâmica que é necessária aos empreendedores portugueses que me interrogo. Temos que pensar, também nessas áreas, um “mercado interno” que vá para além das nossas fronteiras. Mas até onde é que podemos chegar? A minha modesta e primeira ambição é imaginar um “mercado interno” do tamanho da Península Ibérica, fazendo desta “jangada” a rampa de lançamento para voos mais altos. Ainda vamos a tempo? E a será que a competição global admite o faseamento que proponho?

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E a diversidade vale sempre a pena?

No essencial estou absolutamente de acordo com a reflexão do Miguel P. Maduro. Mas vou mais longe: será a preservação da diversidade cultural sempre um «bem» em si mesma? Dou dois exemplos ligados à língua portuguesa que, do meu ponto de vista, sustentam a tese contrária:
1 - Será que, do ponto de vista dos timorenses, a preservação da língua portuguesa como marca de identidade e diferença traz mais benefícios do que traria uma mais profunda integração (também através da língua) no bloco económico de que, para o bem e para o mal, Timor faz parte?.
2 - Será que os portugueses devem lutar por preservar os particularismos do português falado em Portugal ou devem avançar decidida e regularmente para acordos ortográficos com o Brasil que podem ser a única forma de, a prazo, tornarem a nossa língua minimamente relevante no contexto mundial?
Suspeito que as respostas a estas perguntas não sejam do mais politicamente correcto que se pode imaginar. Mas mais estúpido do que uma resposta errada é uma pergunta que não chega a ser feita.

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BRASIL vs VENEZUELA – QUE ESTRANHOS SINAIS?!

Sabemos da ciclicidade com que a América Latina nos reserva alterações políticas e as consequências que tem vindo a provocar. Passa-se de um extremo ao outro com enorme facilidade e essa situação tem sido disruptiva no processo de democratização e desenvolvimento daquela região, com avanços e recuos, privatizações e nacionalizações separadas por uma ou duas décadas, insegurança, movimentos revolucionários, incapacidade de estabilizar os Países em ciclos virtuosos que atraiam investimento de qualidade e impulsionem os Países para a criação de condições de aumento da qualidade de vida, do aparecimento duma classe média com mais poder de compra e o desaparecimento da pobreza.

Forte contributo em sentido contrário tem sido, isso sim, dado pelo Brasil, País com quem mantemos uma relação fraterna e que nos tem surpreendido ao longo dos últimos quinze anos pela estabilidade das suas lideranças, pela alternância democrática tão bem representada pela inesperada actuação de Lula da Silva já no segundo mandato e após um excelente trabalho de Fernando Henrique Cardoso, pela dinâmica de crescimento da sua economia, das exportações do País, da redução do desemprego, do défice e da inflação e consequentemente da provável passagem a “rating Investimento” com o interesse que suscitará aos investidores internacionais.

No extremo oposto a Venezuela, com um líder populista e demagogo que curiosamente consegue ainda convencer um eleitorado distraído e pouco evoluído, com teorias de conspiração contra os Americanos, nacionalizando os principais sectores de actividade do País, remetendo-o definitivamente ao ostracismo em plena globalização, com consequências que se farão sentir durante muitos e bons anos pela desconfiança que tem gerado em todos os agentes económicos potencialmente criadores de riqueza.

Em pleno século XXI, com a transparência informativa em vigor, a Internet, a TV e os jornais, só se pode compreender a arrogante e inaceitável atitude de Hugo Chavez de fechar televisões à luz de critérios de desrespeito pela liberdade e direitos humanos, coisa de que julga aliás ser o paladino defensor.
E mais estranho ainda o silêncio ensurdecedor da famosa “esquerda democrática” que aparece sempre para criticar os EUA à primeira oportunidade, mesmo sabendo da importância que estes tem tido na resolução de gravíssimas crises mundiais (cometendo erros também), mas incapazes de reconhecer em Países como a Venezuela a inexistência do valor que mais defendem, a liberdade, tornando-se cúmplices de regimes que, esses sim, põem definitivamente em causa a segurança e a qualidade de vida das populações, sem que estas muitas vezes se apercebam atempadamente.

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Ainda a globalização e cultura

O post do Manuel S. Fonseca suscita-me o regresso a uma velha questão deste mundo novo. Será que essas especificidades culturais exigem uma excepção cultural (para proteger as "diferentes" culturas)? Ou será que, pelo contrário, essas especificidades constituem em si mesmas barreiras "naturais" à globalização e, nesse caso, a "excepção cultural" não apenas é menos necessária mas pode bem ser um instrumento de transformação dessas barreiras naturais em isolamento cultural e proteccionismo económico? No fundo há uma enorme tensão (não fácil de resolver) neste debate: sendo necessário garantir a diversidade cultural é paradoxal pretender fazê-lo reforçando o proteccionismo cultural. A diversidade verdadeira é intersubjectiva. Não se assegura um verdadeiro pluralismo de identidades (culturais ou de outro tipo) através de uma mera salvaguarda de diferentes identidades "estáticas" e "insuladas" (que não comunicam entre si). Nem penso que seja esse o tipo de cultura que nos interessa.

O medo que existe é que a comunicação entre culturas trazida pela globalização se traduza no domínio por uma delas de todas as outras. Isto não é, no entanto, uma consequência necessária da globalização. Por um lado, a globalização pode simplesmente traduzir-se num redesenhar das fronteiras da diversidade cultural (já não definidas por língua ou Estado mas sim por outras formas de identidade). Por outro lado, temos de ser criativos na criação de mecanismos que garantam essa diversidade sem a confundir com uma mera salvaguarda de identidades pré-existentes. Neste contexto, não podemos ignorar duas realidades que me parecem óbvias. A primeira é que a cultura de massas tem sempre tendência a ser homogénea, o que muda é a escala (haverá uma grande diferença, em termos de diversidade cultural, se a grande maioria dos portugueses em vez de verem todos telenovelas passarem a ver séries americanas?). A segunda é que na cultura das elites a globalização tem trazido mais e não menos diversidade. Garanto-vos que tenho hoje muito mais acesso a filmes de origens bem diversas do que antes: seja nas salas de cinema "especializadas" (que se multiplicam), no que é escrito sobre eles ou ainda, de forma mais simples, na possibilidade de os comprar em dvd na net.

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quarta-feira, 20 de junho de 2007

O corpo que se desfaz, a morte que nos invade


A velhice não é uma batalha, é um massacre” diz Philip Roth a quem o queira ouvir. Para o provar escreveu um romance devastador e belíssimo: “Todo-o-Mundo”, publicado agora pela D. Quixote. É uma leitura obrigatória e exaltante (ou lancinante?) para quem tenha alguma vez experimentado na carne porque é que dói tanto dizer adeus. Melhor do que eu falam do romance aqui e, sobretudo, aqui. “Why Does it Hurt So Bad to Say Goodbye”, pintada por Collen Ross, é paradoxalmente uma imagem certa para o livro de velhice e morte que Roth escreveu.

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Bastava-nos a Península

Permitam-me uma pequena variação sobre o texto “Da Inovação e Empreendedorismo”, onde Diogo Vaz Guedes afirma que o desafio da globalização impõe aos empreendedores portugueses a obrigação de considerarem a Europa como seu “mercado interno”. Ou é essa a dinâmica ou estamos condenados. Como estou de acordo, tento traduzir a premissa para sectores que me interessam: o livro, o cinema e o audiovisual. São sectores em que, afinal, o instrumento da língua introduz um inescapável particularismo, contrariando a universal língua franca das commodities e das utilities. E dou comigo a pensar que, naqueles sectores, mal grado a diferença linguística, se conseguirmos, pela conjugação da proximidade cultural e sociológica, pensar a Península Ibérica como o nosso “mercado interno” estaremos já a dar o passo que, por enquanto, não é maior do que a perna.
Mas será que a globalização, até por definição lógica, rejeita faseamentos e excepções, mesmo que sejam os das indústrias culturais?

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EUREKA!

Talvez por ser Pediatra, tenho alguma dificuldade em me considerar pessoa "crescida", (na verdade a caminho da geração dos 60), isso dá-me alguma liberdade de pensamento, e permite-me fazer uma descoberta por ano. Aqui vão, cronológicamente, as minhas descobertas anuais:
2004: A história do Super-Homem está mal contada. Quem é que tendo nascido noutro planeta, e caído do Céu na Terra, não se teria de pronto, (para usar a pitoresca expressão de um amigo), "pirado aos uivos"!
2005: As mulheres são melhores que os homens. Para demonstrar esta evidência, teria de encontrar dois seres que fossem exclusivamente filhos de uma mulher e de um homem. Ser exclusivamente filho de uma mulher: Jesus Cristo. Exclusivamente filho de um homem. Pinóquio!
2006: Decifrei o mistério do sorriso da Gioconda,(gosto menos de "Mona Lisa"), porque me lembra um merceeiro do meu bairro, conhecido pelo "careca". Leonardo inspirou-se nos...golfinhos! já repararam naquele sorriso cretino, sem expressão, que os mamíferos travestis ("que queridos"), todos têm?
2007: Existe uma explosão de autistas. Na verdade de 1:4000, as estatísticas mais recentes apontam para 1:150. Andam à procura de toxinas no ambiente para explicar este aumento. Como a Judiciária, procuram a pista errada. A verdade é que os autistas têm vantagens reprodutivas! numa sociedade cada vez mais computorizada, o idiota solitário, sem qualquer "skill" social, é o empregado ideal, o mais bem remunerado, o com maior probabilidade de reconhecer o vírus informático, escrever tabelas no "excell", resolver o "crash" do computador, em suma, de ser o macho dominante, e, como dizia Kissinger, "o Poderrrrrr é o maiorr afrrrrrodisiac"!

Nuno Lobo Antunes

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DA INOVAÇÃO E EMPREENDEDORISMO

A globalização veio introduzir novos factores de pressão nos países mais desenvolvidos pelo efeito da necessidade de aumento de competitividade nos seus meios de produção e bem assim pelo constante “benchmark” internacional e transparência dos mercados mundiais.

Veio também, por outro lado, abrir as portas para que novos países em vias de desenvolvimento que cumprem as regras do comércio internacional e dos direitos humanos possam ter oportunidade de participar mais activamente neste movimento do comércio e investimento global que se reflectirá no médio e longo prazo no modelo de desenvolvimento económico dos vários países, na respectiva atractividade, no seu crescimento, na sua capacidade de atrair investimento, de criar emprego sustentável, enfim, de estabelecer uma influência duradoura no modelo económico e social de todo o mundo.

Para países como Portugal, inseridos numa Europa a 27 que representa um bloco económico mundial com uma população próxima de 500 milhões e um mercado único profundamente dinâmico e em recuperação, o desafio da globalização precisa de ser rapidamente entendido, interiorizado e as empresas necessitam adaptar a sua actuação compreendendo que o seu mercado interno é o Europeu, os seus parceiros “nacionais” são os europeus e a amplitude de escolha de parceiros internacionais aumenta consideravelmente.

Ou seja, teremos que compreender que as comodities e utilities tendem a concentrar-se no espaço Europeu, o que se reflecte de forma particularmente incisiva em países pequenos como Portugal, dando lugar a uma nova cultura de empreendedorismo e inovação que passará a ser o “coração” do dinamismo da nossa economia.

E de nada adianta a velha máxima dos sectores mais maduros não terem futuro, como temos vindo a dizê-lo com frequência em relação ao têxtil e calçado, pois tal como em muitos outros sectores, exemplos de sucesso como a Aerosoles ou a Salsa vêm negar a condenação precoce dos mesmos e pelo contrário vêm demonstrar que o arrojo empresarial, a internacionalização e uma política bem sucedida de marca são elementos de valor acrescentado inabalável no sucesso dos empresários da nova geração.

A proximidade às Universidades com uma adequada política de Investigação e Desenvolvimento em sectores com uma componente de engenharia ou gestão mais qualificada (YDreams, Chipidea ou Biotecnol, para dar apenas alguns exemplos) são igualmente prova de que Portugal encontrou uma via de desenvolvimento, inovadora e de primeira linha mundial que tenderá a replicar-se em áreas como a energia renovável com prováveis reflexos nas novas oportunidades do sector agrícola, ou até mesmo no Turismo onde ainda temos um longo caminho a percorrer.

Portugal está a mudar a sua mentalidade retrógrada compreendendo que o discurso do proteccionismo promove mediocridade e que não cria valor acrescentado sustentável no médio e longo prazo e que em contrapartida as práticas de inovação, risco, empreendedorismo e internacionalização suscitam a criação de empresas jovens e dinâmicas, adaptadas ao impulso de uma economia global.

Sejamos capazes de resolver o nosso problema de escolaridade e educação e provavelmente poderemos almejar um lugar de destaque na cena internacional.

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terça-feira, 19 de junho de 2007

Ainda o suicídio

Decididamente ando numa fase mórbida. Depois do Dr. Morte apetece-me hoje voltar ao tema do suicídio. Não tanto para continuar a teorizar sobre o assunto mas para falar de um dos «suicídios» mais bonitos da história do cinema. Refiro-me à resignação seráfica com que Stefan Brand, aliás Louis Jourdan, avança para um encontro mais do que anunciado com a morte na magnífica sequência final do «Letter from an unknown woman» de Max Ophüls. Não existirão, repito, muitos momentos na história do cinema em que a aceitação pacificada da morte tenha uma expressão mais natural e mais cristalina. Até porque esta morte em Ophüls tem mais de reencontro do que de morte. Ou não fosse ela a única forma possível de reescrever um amor equívoco e sobretudo uma vida que, no curto espaço de uma carta de uma desconhecida, se viu cruelmente despida de qualquer sentido.
Mas não me adianto mais. Se há filmes que não podem ser contados, este é seguramente um deles. Deixo-vos, como Stefan Brand acabaria por deixar Lisa Berndle, na noite de todas as ilusões…

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domingo, 17 de junho de 2007

V. L’innocente. Visconti

Quem é o inocente? A primeira resposta é de que se trata da sétima personagem: da criança que vai morrer. É da matança dos inocentes que se trata. Mas em boa verdade o primeiro e único inocente é Tullio, o marido, o filho, o amante manipulador. Ele viu-se sempre como inocente, destituído de um pecado original de que não quer participar e por isso recusa a existência. Assim fazendo, recusa a existência de todos os que o rodeiam. São apenas peças para o seu projecto de fruição e curiosidade. Nada mais. Ele vê-se como inocente, como o único inocente nessa história. Desfiando o rosário das suas teorias para justificar o que no fundo é a sua falta de presença no mundo. Tullio é um exemplar, mais um, dos múltiplos povos, pessoas e grupos que vivem propalando a sua inocência perante o mundo, espécie sempre perigosa para os outros.

No fundo, o final é feliz, porque consequente. Tullio acaba por se suicidar porque percebe que a inocência não é nada. Sendo a sua vida nada, essa é a única consequência lógica a retirar. Tullio suicida-se por coerência, e só não pode ser aplaudido por isso porque deixou um rasto de destruição à sua volta. Digo que é feliz, mas não sou justo. A cena mais triste é a final, em que a condessa Raffo desaparece na paisagem. Imagem sublime da mais absoluta perda de esperança, imensa tristeza a de ver alguém que mais que outro qualquer gostaria de a ter. O maior suicídio, este injusto, é o da condessa Raffo. Essa nem teve a possibilidade de pôr termo à vida. Apenas a deixou diluir-se no anonimato, num jardim de uma beleza imponente, plácida e tenebrosa. Aqui se mostra que Seurat está bem além de Munch, e que o expressionismo é apenas brincadeira de crianças ao pé da placidez enganadora do puntilhismo. O que se passa nesse jardim está bem além do desespero. É beleza pura. Apenas.

Visconti é frequentemente acusado de estetismo. Se estetismo é fazer coisas belas, bem vindo seja ele. Entre o grosseiro e o belo a minha escolha foi sempre evidente. É muito fácil fazer grosserias, a beleza poucos a podem criar. Mas o que se opõe ao estético não é a verdade. Apenas o desnudamento. E o desnudamento público foge geralmente à verdade. Conduz à pose. Nada mais.

Cada vez que queremos beber de uma verdade gritante não é aos gritos que a percebemos. Gritando apenas a afastamos ou apenas ouvimos o nosso eco. O velamento permanente que existe no filme (até nisso a época foi bem escolhida, em que as mulheres usavam véus faciais) é sinal de uma suspeita, de um indício, o que é em geral o que conseguimos apanhar de mais próximo da verdade. Não se chamara de “O Inocente”, o filme deveria chamar-se “O Véu”. Mas isso seria revelar demasiado a verdade. O Inocente mostra até que ponto é sob o discurso da mentira gritante que a verdade mais simples se descobre. Mesmo que para isso tenha de estar velada.

http://www.imdb.com/title/tt0074686/
http://www.luchinovisconti.net/visconti_al/illusioni_innocente.htm
http://home.att.net/~digitalworldtrade/web/visconti.html
http://www.arqnet.pt/portal/biografias/visconti.html
http://www.europaeuropa.pl/po/fiszka.php?id=1089


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sábado, 16 de junho de 2007

IV. L’innocente. Visconti

O curioso é que o facto significativo se encontra na morte da criança em plena noite de Natal. Não é por acaso. É bem pelo contrário a chave de todo o filme. Todo o filme é uma anti-Natividade.

Tullio é um São José que se fez Herodes. Giuliana a sua mulher, a que teve como obra de redenção a poesia e o mero sentimento, tendo-se reduzido na sua vida a este projecto por ter previamente aceitado as regras estéreis do marido, as da tirânica “abertura” da relação. O seu destino não acaba na dádiva de si, mas no mero ódio. A mãe é uma Sant’Ana que não percebe o sentido do sacrifício que acaba de viver, duplamente irónico, porque não é seu neto quem morre, e porque não serviu de nada tal nascimento. O irmão é Pilatos, que lava as suas mãos dos problemas. Sabe que algures há uma indignidade, mas prefere não agir. E a condessa Raffo é a Maria Madalena e mulher pecadora, mas no fundo a única que ama a dignidade profundamente. Na cena final é ela quem aparece. Fundindo-se com a paisagem, em suma, com a natureza. Porquê? Porque numa história sem esperança apenas o apagamento na paisagem constitui final possível.

Tullio é loquaz até ao enfado. Fala para não ter de comunicar. E fala. Não em situação, mas sempre em nome de uma teoria. Sempre que está com as três mulheres da sua vida ou desfia projectos que sabe não ir realizar (ir a Paris com a amante, ir viver numa villa com a mulher próximo da sua mãe) ou então: enuncia teorias. Tullio usa as teorias, ou melhor a sua teoria, confrangedoramente banal, para não ter de comunicar, mas sobretudo para não ter de estar presente, de enfrentar a sua situação como vivente no momento em que vive.

E qual é a teoria de Tullio? A mais fácil de todas: o primado do prazer, da curiosidade, da carnalidade. Do presente sensível. Estranho que a observação não tenha sido feita, mas todos os materialismos da carnalidade são sempre soluções fáceis. Isto porque a base de locução não é comensurável com o seu objecto. O espírito afirma que a matéria, apenas ela, existe. O objecto não pode por isso sindicar a teoria. Ficciona-se que a carne o espírito se opõem, e vive-se no desejo que nunca se encontrem. Esta teorização da carnalidade como fundante do mundo é assim sempre uma forma de superstição, de segregação e de demissão da sindicância.

Feita de mitos mal estruturados, de vazios mal explicados, gera apenas um fruto consequente: o homem loquaz. Ao ponto de ser incapaz de ter sexo com uma mulher sem a inundar de teorias. Ou seja, de mais um véu que se lança à realidade, esperando que ela desapareça.

No fundo, Tullio apenas vive esperando que tudo desapareça. A existência do mundo é para ele mera teimosia, e teimosia vertida contra ele. O mundo torna-se conspiração. Onde não se participa apenas se acredita haver urdimento.

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