sexta-feira, 22 de junho de 2007

Uma espécie de divergência

Mais um comentário upgraded na minha "novela" com o Manuel Fonseca. Não sei se estaremos assim tanto nos antípodas mas acho que temos uma divergência séria que penso reside no seguinte: para o Manuel Fonseca Portugal já tem uma pluralidade de agentes capazes de produzir para o mundo global e o que falta é dar-lhes mercado; para mim esse mercado não será conquistado enquanto não abrirmos e alargamos o nosso "mercado" desses agentes.

Começa por ser uma questão de escala: penso que a Espanha tem o (relativo) sucesso que refere devido à sua escala (própria e em termos relativos no mercado de língua espanhola); em português esse papel é do Brasil e a nossa única forma de o combater é trazer a "dimensão ou escala" brasileira para cá (mas não só esta). Mesmo a Espanha tem uma política de abertura muito maior que Portugal: basta ver a origem de alguns dos filmes que estavam nos Goya este ano e o co-financiamento pelo Estado Espanhol de produções "não espanholas" (ou, pelo menos, com realizadores não espanhóis). O Manuel conhece isto seguramente melhor que eu mas imagine-se o que aconteceria em Portugal se o ICAM financia-se um filme de "origem" predominantemente brasileira… Eu estou a dar o exemplo do Brasil porque tem uma relação mais óbvia com um possível nosso mercado mais imediato mas, na verdade, entendo que esta nossa abertura deveria ser bem mais ampla. No fundo, o que eu acho é que não nos basta a nossa massa crítica residente para pretendermos ter acesso a um mercado global ou pelo menos regional. Neste aspecto é semelhante ao que se passa nas universidades. Na nossa universidade começa-se a falar agora de internacionalização mas, na realidade, do que se fala é de conseguir que os nossos professores sejam mais conhecidos lá fora e de trazer alunos estrangeiros para cá. Só que isso nunca será possível sem as nossas universidades serem também mais internacionais "por dentro", trazendo mais massa crítica para cá: a verdadeira forma de internacionalização passa por atrair para as nossas universidades os melhores professores e investigadores estrangeiros (foi o que os americanos compreenderam). Mas em Portugal as nossas elites têm uma enorme resistência a este tipo de concorrência externa aos seus postos de trabalho. É com alguma ironia que eu vejo colegas meus das universidades que fazem discursos sobre a xenofobia contra os imigrantes oporem-se frontalmente à contratação de professores estrangeiros. O que é mais extraordinário é que acho que eles não têm consciência desta contradição e são genuínos e honestos nas posições que tomam. Se os imigrantes vêm ocupar os postos de trabalho mais baixos e alguém se opõe, estamos no domínio da xenofobia. Se a concorrência é ao nível das elites universitárias já se trata de proteger a nossa capacidade científica… Assim como na cultura se trata de proteger a nossa identidade cultural ou na economia os nossos centros de decisão…Para que fique claro, não estou a acusar o Manuel de partilhar destas posições ou (mesmo que as partilhe) de qualquer tipo de hipocrisia. Digo isto para salientar como, para mim, conquistar o mercado que o Manuel pretende garantir aos nossos produtos culturais passa por aumentar a nossa "escala" cultural e para isso há que abrir, em primeiro lugar, o mercado das nossas elites culturais. Não podemos ser cosmopolitas só de exportação .

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Uma Espécie de Comentário

red cloud, frank strazzulla

O comentário do Miguel transformou-se em post. Eu assumo que o meu post é mesmo um comentário. Quase que estamos de acordo, quase que estamos nos antípodas. Estamos de acordo na livre circulação dos bens culturais e estamos de acordo com a necessidade das indústrias culturais portuguesas projectarem como seu “mercado interno” um território maior do que o do jardim à beira mar plantado. A grande Ibéria, dizia eu. O mundo, desejamos todos.
Daqui em diante estamos nos antípodas. O Miguel propõe uma teoria em abstracto, como se fossemos avançar a partir de uma folha em branco. Eu parto do reconhecimento de uma pluralidade de agentes (editores, produtores de filmes, produtores audiovisuais e televisões) que têm práticas e desenvolveram interesses. Agentes que nalguns casos já fizeram percursos de internacionalização, que tiveram mesmo tentativas (frustradas ou não) de globalização. Referindo-se à experiência luxemburguesa o Miguel propõe que “Portugal deva pensar seriamente numa decisão estratégica desse tipo”. Mas que Portugal é esse? O Estado? É que os agentes já reconheceram, em geral, essa estratégia. Para lhe dar um exemplo: alguns dos filmes luxemburgueses de que fala são portugueses, o que significa que os produtores portugueses souberam explorar as oportunidades de financiamento que o Luxemburgo ofereceu. Só que a “globalização” do financiamento desses filmes não teve a correspondente e desejada “globalização” de consumo (nem os espectadores luxemburgueses se renderam) e a quota de filmes portugueses vista por portugueses não passa em média dos 1,5% ao ano, enquanto a do cinema espanhol em Espanha é de 15%.
E não pense sequer que não se mandaram vir os brasileiros para se fazerem novelas. A NBP produz novelas, tendo integrado alguns bons profissionais brasileiros. De forma sustentada conquistou o mercado português, mas a exibição dessas novelas no Brasil (ou a sua penetração nos mercado mundiais) é, digamos, residual.
Dito isto, volto a chover no molhado. Há dias aconteceu, em Madrid, o II Encontro de Cinema Luso-Espanhol. Na dimensão, na metodologia, nos objectivos e nos resultados, as instituições, os produtores e as televisões espanhóis constituiram-se aos olhos de quem quis ver como referência, por um lado, e parceiros naturais, por outro. É essa a minha modest proposal.

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quinta-feira, 21 de junho de 2007

Um comentário transformado em post...

A ideia era escrever um pequeno comentário ao post anterior do Manuel S. Fonseca mas acabou por ficar tão longo que não me resta alternativa que o colocar como post. Desculpem.Estou de acordo com o Manuel relativamente à prioridade que deve ser a produção cultural. Mais difícil é saber como aumentar a "produção" e competitividade da indústria cultural em Portugal. Talvez o país em que me encontro neste momento seja um bom exemplo.

O milagre económico moderno do Luxemburgo assentou nos serviços financeiros mas este modelo está, devido a várias circunstâncias, posto em causa. Que têm feito os luxemburgueses? Investir nas actividades culturais. Pretendem tornar-se um dos pólos culturais desta parte da Europa (com a vantagem adicional de que a qualidade de vida associada à vida cultural constitui uma vantagem competitiva na atracção de outras empresas). Investiram num sala de concertos fabulosa, um museu de arte contemporânea e são… um dos maiores produtores de cinema da Europa (através de um regime fiscal e regulador favorável a este tipo de actividades). Talvez Portugal deva pensar seriamente numa decisão estratégica desse tipo. É que o sector cultural é um dos mais viáveis no quadro da globalização. É o tipo de "industria" do futuro (pouco sujeita à competitividade internacional de baixos custos típica dos antigos sectores produtivos). Devíamos criar um quadro global (na regulação, no sistema fiscal, na educação) propício ao desenvolvimento da cultura em Portugal como sector económico prioritário. O importante é não ter de novo uma visão proteccionista e provinciana do que isto significa. Não se trata de apoiar e proteger os produtores portugueses de cultura… Para sermos competitivos e termos dimensão temos de atrair saber e massa crítica cultural de todos os lados. Se os trouxermos, pouco a pouco vamos fazer crescer a nossa própria massa critica.
Um exemplo com base no post do Manuel: a melhor forma de virmos a ter os brasileiros a ver telenovelas portuguesas é atraindo os produtores, autores e actores brasileiros para Portugal. Para fazer, por ex., de Portugal um centro de produção de cinema e televisão para os países de língua portuguesa temos que atrair a melhor massa crítica desses países. Os nosso próprios agentes culturais também iriam beneficiar dessa massa crítica: pouco a pouco cada vez mais portugueses participariam nesses projectos e o contacto com essa massa crítica e a maior escala dos projectos iria seguramente melhorar a qualidade dos nossos próprios projectos culturais. É um pouco como com a nossa selecção de futebol que tem melhorado significativamente com a crescente internacionalização dos nossos jogadores…Não sei se no contexto da globalização o nosso mercado será a península ibérica, a língua portuguesa ou bem mais amplo até. Suponho que dependerá do tipo de produto cultural (é o que demonstra o exemplo fornecido pelo Pedro Lains no que concerne a questão linguística e o cinema que é, no entanto, mais relativa do que ele refere, uma vez que uma grande parte dos filmes americanos são exportados com dobragem para a língua local). O que penso é que é fundamental acabar com a oposição economia vs cultura e assumir que a cultura poder ser um dos nossos principais sectores económicos. E que, se fizermos isso, não podemos repetir o erro dos outros sectores: pensar que nos desenvolvemos fechados em nós mesmos e assentes num modelo proteccionista. Temos é de descobrir como atrair o capital cultural de muitos lados para Portugal (e por capital cultural entendo, neste caso, o capital financeiro que investe em actividades culturais mas também a massa crítica que suporta e faz viver a industria cultural).

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Circular sim! E produzir?

Em “Ainda a Globalização e a Cultura” o Miguel Poiares Maduro parte do meu post para uma incursão em que defende a livre circulação dos bens culturais, perguntando-nos, e cito, se “haverá uma grande diferença, em termos de diversidade cultural, se a grande maioria dos portugueses em vez de verem todos telenovelas passarem a ver séries americanas?”. Partilho praticamente todos os considerandos e conclusões dele, só que o meu post tinha uma natureza bem diferente. O meu problema já não é a circulação, cuja liberdade (e decorrentes vantagens) dou como adquirida; o meu problema é a produção. O que eu quero é que no Brasil a grande maioria dos brasileiros possa ver telenovelas portuguesas e que nos Estados Unidos da América, a grande maioria dos americanos possa ver filmes portugueses. E quem diz telenovelas e filmes, diz livros ou música.
E é sobre a dinâmica que é necessária aos empreendedores portugueses que me interrogo. Temos que pensar, também nessas áreas, um “mercado interno” que vá para além das nossas fronteiras. Mas até onde é que podemos chegar? A minha modesta e primeira ambição é imaginar um “mercado interno” do tamanho da Península Ibérica, fazendo desta “jangada” a rampa de lançamento para voos mais altos. Ainda vamos a tempo? E a será que a competição global admite o faseamento que proponho?

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E a diversidade vale sempre a pena?

No essencial estou absolutamente de acordo com a reflexão do Miguel P. Maduro. Mas vou mais longe: será a preservação da diversidade cultural sempre um «bem» em si mesma? Dou dois exemplos ligados à língua portuguesa que, do meu ponto de vista, sustentam a tese contrária:
1 - Será que, do ponto de vista dos timorenses, a preservação da língua portuguesa como marca de identidade e diferença traz mais benefícios do que traria uma mais profunda integração (também através da língua) no bloco económico de que, para o bem e para o mal, Timor faz parte?.
2 - Será que os portugueses devem lutar por preservar os particularismos do português falado em Portugal ou devem avançar decidida e regularmente para acordos ortográficos com o Brasil que podem ser a única forma de, a prazo, tornarem a nossa língua minimamente relevante no contexto mundial?
Suspeito que as respostas a estas perguntas não sejam do mais politicamente correcto que se pode imaginar. Mas mais estúpido do que uma resposta errada é uma pergunta que não chega a ser feita.

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BRASIL vs VENEZUELA – QUE ESTRANHOS SINAIS?!

Sabemos da ciclicidade com que a América Latina nos reserva alterações políticas e as consequências que tem vindo a provocar. Passa-se de um extremo ao outro com enorme facilidade e essa situação tem sido disruptiva no processo de democratização e desenvolvimento daquela região, com avanços e recuos, privatizações e nacionalizações separadas por uma ou duas décadas, insegurança, movimentos revolucionários, incapacidade de estabilizar os Países em ciclos virtuosos que atraiam investimento de qualidade e impulsionem os Países para a criação de condições de aumento da qualidade de vida, do aparecimento duma classe média com mais poder de compra e o desaparecimento da pobreza.

Forte contributo em sentido contrário tem sido, isso sim, dado pelo Brasil, País com quem mantemos uma relação fraterna e que nos tem surpreendido ao longo dos últimos quinze anos pela estabilidade das suas lideranças, pela alternância democrática tão bem representada pela inesperada actuação de Lula da Silva já no segundo mandato e após um excelente trabalho de Fernando Henrique Cardoso, pela dinâmica de crescimento da sua economia, das exportações do País, da redução do desemprego, do défice e da inflação e consequentemente da provável passagem a “rating Investimento” com o interesse que suscitará aos investidores internacionais.

No extremo oposto a Venezuela, com um líder populista e demagogo que curiosamente consegue ainda convencer um eleitorado distraído e pouco evoluído, com teorias de conspiração contra os Americanos, nacionalizando os principais sectores de actividade do País, remetendo-o definitivamente ao ostracismo em plena globalização, com consequências que se farão sentir durante muitos e bons anos pela desconfiança que tem gerado em todos os agentes económicos potencialmente criadores de riqueza.

Em pleno século XXI, com a transparência informativa em vigor, a Internet, a TV e os jornais, só se pode compreender a arrogante e inaceitável atitude de Hugo Chavez de fechar televisões à luz de critérios de desrespeito pela liberdade e direitos humanos, coisa de que julga aliás ser o paladino defensor.
E mais estranho ainda o silêncio ensurdecedor da famosa “esquerda democrática” que aparece sempre para criticar os EUA à primeira oportunidade, mesmo sabendo da importância que estes tem tido na resolução de gravíssimas crises mundiais (cometendo erros também), mas incapazes de reconhecer em Países como a Venezuela a inexistência do valor que mais defendem, a liberdade, tornando-se cúmplices de regimes que, esses sim, põem definitivamente em causa a segurança e a qualidade de vida das populações, sem que estas muitas vezes se apercebam atempadamente.

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Ainda a globalização e cultura

O post do Manuel S. Fonseca suscita-me o regresso a uma velha questão deste mundo novo. Será que essas especificidades culturais exigem uma excepção cultural (para proteger as "diferentes" culturas)? Ou será que, pelo contrário, essas especificidades constituem em si mesmas barreiras "naturais" à globalização e, nesse caso, a "excepção cultural" não apenas é menos necessária mas pode bem ser um instrumento de transformação dessas barreiras naturais em isolamento cultural e proteccionismo económico? No fundo há uma enorme tensão (não fácil de resolver) neste debate: sendo necessário garantir a diversidade cultural é paradoxal pretender fazê-lo reforçando o proteccionismo cultural. A diversidade verdadeira é intersubjectiva. Não se assegura um verdadeiro pluralismo de identidades (culturais ou de outro tipo) através de uma mera salvaguarda de diferentes identidades "estáticas" e "insuladas" (que não comunicam entre si). Nem penso que seja esse o tipo de cultura que nos interessa.

O medo que existe é que a comunicação entre culturas trazida pela globalização se traduza no domínio por uma delas de todas as outras. Isto não é, no entanto, uma consequência necessária da globalização. Por um lado, a globalização pode simplesmente traduzir-se num redesenhar das fronteiras da diversidade cultural (já não definidas por língua ou Estado mas sim por outras formas de identidade). Por outro lado, temos de ser criativos na criação de mecanismos que garantam essa diversidade sem a confundir com uma mera salvaguarda de identidades pré-existentes. Neste contexto, não podemos ignorar duas realidades que me parecem óbvias. A primeira é que a cultura de massas tem sempre tendência a ser homogénea, o que muda é a escala (haverá uma grande diferença, em termos de diversidade cultural, se a grande maioria dos portugueses em vez de verem todos telenovelas passarem a ver séries americanas?). A segunda é que na cultura das elites a globalização tem trazido mais e não menos diversidade. Garanto-vos que tenho hoje muito mais acesso a filmes de origens bem diversas do que antes: seja nas salas de cinema "especializadas" (que se multiplicam), no que é escrito sobre eles ou ainda, de forma mais simples, na possibilidade de os comprar em dvd na net.

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quarta-feira, 20 de junho de 2007

O corpo que se desfaz, a morte que nos invade


A velhice não é uma batalha, é um massacre” diz Philip Roth a quem o queira ouvir. Para o provar escreveu um romance devastador e belíssimo: “Todo-o-Mundo”, publicado agora pela D. Quixote. É uma leitura obrigatória e exaltante (ou lancinante?) para quem tenha alguma vez experimentado na carne porque é que dói tanto dizer adeus. Melhor do que eu falam do romance aqui e, sobretudo, aqui. “Why Does it Hurt So Bad to Say Goodbye”, pintada por Collen Ross, é paradoxalmente uma imagem certa para o livro de velhice e morte que Roth escreveu.

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Bastava-nos a Península

Permitam-me uma pequena variação sobre o texto “Da Inovação e Empreendedorismo”, onde Diogo Vaz Guedes afirma que o desafio da globalização impõe aos empreendedores portugueses a obrigação de considerarem a Europa como seu “mercado interno”. Ou é essa a dinâmica ou estamos condenados. Como estou de acordo, tento traduzir a premissa para sectores que me interessam: o livro, o cinema e o audiovisual. São sectores em que, afinal, o instrumento da língua introduz um inescapável particularismo, contrariando a universal língua franca das commodities e das utilities. E dou comigo a pensar que, naqueles sectores, mal grado a diferença linguística, se conseguirmos, pela conjugação da proximidade cultural e sociológica, pensar a Península Ibérica como o nosso “mercado interno” estaremos já a dar o passo que, por enquanto, não é maior do que a perna.
Mas será que a globalização, até por definição lógica, rejeita faseamentos e excepções, mesmo que sejam os das indústrias culturais?

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EUREKA!

Talvez por ser Pediatra, tenho alguma dificuldade em me considerar pessoa "crescida", (na verdade a caminho da geração dos 60), isso dá-me alguma liberdade de pensamento, e permite-me fazer uma descoberta por ano. Aqui vão, cronológicamente, as minhas descobertas anuais:
2004: A história do Super-Homem está mal contada. Quem é que tendo nascido noutro planeta, e caído do Céu na Terra, não se teria de pronto, (para usar a pitoresca expressão de um amigo), "pirado aos uivos"!
2005: As mulheres são melhores que os homens. Para demonstrar esta evidência, teria de encontrar dois seres que fossem exclusivamente filhos de uma mulher e de um homem. Ser exclusivamente filho de uma mulher: Jesus Cristo. Exclusivamente filho de um homem. Pinóquio!
2006: Decifrei o mistério do sorriso da Gioconda,(gosto menos de "Mona Lisa"), porque me lembra um merceeiro do meu bairro, conhecido pelo "careca". Leonardo inspirou-se nos...golfinhos! já repararam naquele sorriso cretino, sem expressão, que os mamíferos travestis ("que queridos"), todos têm?
2007: Existe uma explosão de autistas. Na verdade de 1:4000, as estatísticas mais recentes apontam para 1:150. Andam à procura de toxinas no ambiente para explicar este aumento. Como a Judiciária, procuram a pista errada. A verdade é que os autistas têm vantagens reprodutivas! numa sociedade cada vez mais computorizada, o idiota solitário, sem qualquer "skill" social, é o empregado ideal, o mais bem remunerado, o com maior probabilidade de reconhecer o vírus informático, escrever tabelas no "excell", resolver o "crash" do computador, em suma, de ser o macho dominante, e, como dizia Kissinger, "o Poderrrrrr é o maiorr afrrrrrodisiac"!

Nuno Lobo Antunes

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DA INOVAÇÃO E EMPREENDEDORISMO

A globalização veio introduzir novos factores de pressão nos países mais desenvolvidos pelo efeito da necessidade de aumento de competitividade nos seus meios de produção e bem assim pelo constante “benchmark” internacional e transparência dos mercados mundiais.

Veio também, por outro lado, abrir as portas para que novos países em vias de desenvolvimento que cumprem as regras do comércio internacional e dos direitos humanos possam ter oportunidade de participar mais activamente neste movimento do comércio e investimento global que se reflectirá no médio e longo prazo no modelo de desenvolvimento económico dos vários países, na respectiva atractividade, no seu crescimento, na sua capacidade de atrair investimento, de criar emprego sustentável, enfim, de estabelecer uma influência duradoura no modelo económico e social de todo o mundo.

Para países como Portugal, inseridos numa Europa a 27 que representa um bloco económico mundial com uma população próxima de 500 milhões e um mercado único profundamente dinâmico e em recuperação, o desafio da globalização precisa de ser rapidamente entendido, interiorizado e as empresas necessitam adaptar a sua actuação compreendendo que o seu mercado interno é o Europeu, os seus parceiros “nacionais” são os europeus e a amplitude de escolha de parceiros internacionais aumenta consideravelmente.

Ou seja, teremos que compreender que as comodities e utilities tendem a concentrar-se no espaço Europeu, o que se reflecte de forma particularmente incisiva em países pequenos como Portugal, dando lugar a uma nova cultura de empreendedorismo e inovação que passará a ser o “coração” do dinamismo da nossa economia.

E de nada adianta a velha máxima dos sectores mais maduros não terem futuro, como temos vindo a dizê-lo com frequência em relação ao têxtil e calçado, pois tal como em muitos outros sectores, exemplos de sucesso como a Aerosoles ou a Salsa vêm negar a condenação precoce dos mesmos e pelo contrário vêm demonstrar que o arrojo empresarial, a internacionalização e uma política bem sucedida de marca são elementos de valor acrescentado inabalável no sucesso dos empresários da nova geração.

A proximidade às Universidades com uma adequada política de Investigação e Desenvolvimento em sectores com uma componente de engenharia ou gestão mais qualificada (YDreams, Chipidea ou Biotecnol, para dar apenas alguns exemplos) são igualmente prova de que Portugal encontrou uma via de desenvolvimento, inovadora e de primeira linha mundial que tenderá a replicar-se em áreas como a energia renovável com prováveis reflexos nas novas oportunidades do sector agrícola, ou até mesmo no Turismo onde ainda temos um longo caminho a percorrer.

Portugal está a mudar a sua mentalidade retrógrada compreendendo que o discurso do proteccionismo promove mediocridade e que não cria valor acrescentado sustentável no médio e longo prazo e que em contrapartida as práticas de inovação, risco, empreendedorismo e internacionalização suscitam a criação de empresas jovens e dinâmicas, adaptadas ao impulso de uma economia global.

Sejamos capazes de resolver o nosso problema de escolaridade e educação e provavelmente poderemos almejar um lugar de destaque na cena internacional.

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terça-feira, 19 de junho de 2007

Ainda o suicídio

Decididamente ando numa fase mórbida. Depois do Dr. Morte apetece-me hoje voltar ao tema do suicídio. Não tanto para continuar a teorizar sobre o assunto mas para falar de um dos «suicídios» mais bonitos da história do cinema. Refiro-me à resignação seráfica com que Stefan Brand, aliás Louis Jourdan, avança para um encontro mais do que anunciado com a morte na magnífica sequência final do «Letter from an unknown woman» de Max Ophüls. Não existirão, repito, muitos momentos na história do cinema em que a aceitação pacificada da morte tenha uma expressão mais natural e mais cristalina. Até porque esta morte em Ophüls tem mais de reencontro do que de morte. Ou não fosse ela a única forma possível de reescrever um amor equívoco e sobretudo uma vida que, no curto espaço de uma carta de uma desconhecida, se viu cruelmente despida de qualquer sentido.
Mas não me adianto mais. Se há filmes que não podem ser contados, este é seguramente um deles. Deixo-vos, como Stefan Brand acabaria por deixar Lisa Berndle, na noite de todas as ilusões…

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domingo, 17 de junho de 2007

V. L’innocente. Visconti

Quem é o inocente? A primeira resposta é de que se trata da sétima personagem: da criança que vai morrer. É da matança dos inocentes que se trata. Mas em boa verdade o primeiro e único inocente é Tullio, o marido, o filho, o amante manipulador. Ele viu-se sempre como inocente, destituído de um pecado original de que não quer participar e por isso recusa a existência. Assim fazendo, recusa a existência de todos os que o rodeiam. São apenas peças para o seu projecto de fruição e curiosidade. Nada mais. Ele vê-se como inocente, como o único inocente nessa história. Desfiando o rosário das suas teorias para justificar o que no fundo é a sua falta de presença no mundo. Tullio é um exemplar, mais um, dos múltiplos povos, pessoas e grupos que vivem propalando a sua inocência perante o mundo, espécie sempre perigosa para os outros.

No fundo, o final é feliz, porque consequente. Tullio acaba por se suicidar porque percebe que a inocência não é nada. Sendo a sua vida nada, essa é a única consequência lógica a retirar. Tullio suicida-se por coerência, e só não pode ser aplaudido por isso porque deixou um rasto de destruição à sua volta. Digo que é feliz, mas não sou justo. A cena mais triste é a final, em que a condessa Raffo desaparece na paisagem. Imagem sublime da mais absoluta perda de esperança, imensa tristeza a de ver alguém que mais que outro qualquer gostaria de a ter. O maior suicídio, este injusto, é o da condessa Raffo. Essa nem teve a possibilidade de pôr termo à vida. Apenas a deixou diluir-se no anonimato, num jardim de uma beleza imponente, plácida e tenebrosa. Aqui se mostra que Seurat está bem além de Munch, e que o expressionismo é apenas brincadeira de crianças ao pé da placidez enganadora do puntilhismo. O que se passa nesse jardim está bem além do desespero. É beleza pura. Apenas.

Visconti é frequentemente acusado de estetismo. Se estetismo é fazer coisas belas, bem vindo seja ele. Entre o grosseiro e o belo a minha escolha foi sempre evidente. É muito fácil fazer grosserias, a beleza poucos a podem criar. Mas o que se opõe ao estético não é a verdade. Apenas o desnudamento. E o desnudamento público foge geralmente à verdade. Conduz à pose. Nada mais.

Cada vez que queremos beber de uma verdade gritante não é aos gritos que a percebemos. Gritando apenas a afastamos ou apenas ouvimos o nosso eco. O velamento permanente que existe no filme (até nisso a época foi bem escolhida, em que as mulheres usavam véus faciais) é sinal de uma suspeita, de um indício, o que é em geral o que conseguimos apanhar de mais próximo da verdade. Não se chamara de “O Inocente”, o filme deveria chamar-se “O Véu”. Mas isso seria revelar demasiado a verdade. O Inocente mostra até que ponto é sob o discurso da mentira gritante que a verdade mais simples se descobre. Mesmo que para isso tenha de estar velada.

http://www.imdb.com/title/tt0074686/
http://www.luchinovisconti.net/visconti_al/illusioni_innocente.htm
http://home.att.net/~digitalworldtrade/web/visconti.html
http://www.arqnet.pt/portal/biografias/visconti.html
http://www.europaeuropa.pl/po/fiszka.php?id=1089


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sábado, 16 de junho de 2007

IV. L’innocente. Visconti

O curioso é que o facto significativo se encontra na morte da criança em plena noite de Natal. Não é por acaso. É bem pelo contrário a chave de todo o filme. Todo o filme é uma anti-Natividade.

Tullio é um São José que se fez Herodes. Giuliana a sua mulher, a que teve como obra de redenção a poesia e o mero sentimento, tendo-se reduzido na sua vida a este projecto por ter previamente aceitado as regras estéreis do marido, as da tirânica “abertura” da relação. O seu destino não acaba na dádiva de si, mas no mero ódio. A mãe é uma Sant’Ana que não percebe o sentido do sacrifício que acaba de viver, duplamente irónico, porque não é seu neto quem morre, e porque não serviu de nada tal nascimento. O irmão é Pilatos, que lava as suas mãos dos problemas. Sabe que algures há uma indignidade, mas prefere não agir. E a condessa Raffo é a Maria Madalena e mulher pecadora, mas no fundo a única que ama a dignidade profundamente. Na cena final é ela quem aparece. Fundindo-se com a paisagem, em suma, com a natureza. Porquê? Porque numa história sem esperança apenas o apagamento na paisagem constitui final possível.

Tullio é loquaz até ao enfado. Fala para não ter de comunicar. E fala. Não em situação, mas sempre em nome de uma teoria. Sempre que está com as três mulheres da sua vida ou desfia projectos que sabe não ir realizar (ir a Paris com a amante, ir viver numa villa com a mulher próximo da sua mãe) ou então: enuncia teorias. Tullio usa as teorias, ou melhor a sua teoria, confrangedoramente banal, para não ter de comunicar, mas sobretudo para não ter de estar presente, de enfrentar a sua situação como vivente no momento em que vive.

E qual é a teoria de Tullio? A mais fácil de todas: o primado do prazer, da curiosidade, da carnalidade. Do presente sensível. Estranho que a observação não tenha sido feita, mas todos os materialismos da carnalidade são sempre soluções fáceis. Isto porque a base de locução não é comensurável com o seu objecto. O espírito afirma que a matéria, apenas ela, existe. O objecto não pode por isso sindicar a teoria. Ficciona-se que a carne o espírito se opõem, e vive-se no desejo que nunca se encontrem. Esta teorização da carnalidade como fundante do mundo é assim sempre uma forma de superstição, de segregação e de demissão da sindicância.

Feita de mitos mal estruturados, de vazios mal explicados, gera apenas um fruto consequente: o homem loquaz. Ao ponto de ser incapaz de ter sexo com uma mulher sem a inundar de teorias. Ou seja, de mais um véu que se lança à realidade, esperando que ela desapareça.

No fundo, Tullio apenas vive esperando que tudo desapareça. A existência do mundo é para ele mera teimosia, e teimosia vertida contra ele. O mundo torna-se conspiração. Onde não se participa apenas se acredita haver urdimento.

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Liberalismo e Arquitectura (3)

Entregues a uma dimensão em que o fio que une os interesses individuais e os interesses comuns parece reduzir-se ao mínimo, perdido um ideal comum para os povos, perdida a posição individual num contexto convivencial, os indivíduos escondem-se na expressão de uma vontade própria, a expressão da sua interioridade, que não pretendem discutir nem têm condições de comunicar.

Os arquitectos, espelhos do seu tempo, parecem hoje distantes do concreto existencial em que a vida das comunidades, das cidades ou dos povos se desenvolve. Filhos do internacionalismo estilístico e de uma tecnologia sem fronteiras, actuam sem referência ao que, antes, era fonte e expressão de harmonia. Actuam, sobretudo, em nome de si próprios. É certo, que são sedutores e surpreendentes, pelo menos num primeiro olhar, mas sente-se que cada vez mais produzem todo um tipo de bizarrias que, verdadeiramente, só interessam a si próprios (e, talvez a presidentes de câmaras ou de repúblicas), as quais acabam por ser anuladas, no palco que são as cidades, por outras bizarrias equivalentes. Mas entre bizarrias e voluntarismo, vai-se destruindo e matando o espaço público como espaço de expressão não da personalidade de um arquitecto mas da singularidade de uma comunidade, de um povo ou de uma história, de uma cultura ou de uma civilização.
Percebe-se muito bem, que tanto o direito como a arquitectura lidam com este difícil mas indispensável equilíbrio entre a necessidade de interpretar o que é comum e deixar a liberdade de actuar no que não ponha em causa o compromisso que está na origem da vida em comunidade e que é a garantia da sua perduração. O que é errado é chamar liberalismo a todo o tipo de bagunça que a falta de lei e da sua aplicação vai semeando nas sociedades contemporâneas. O liberalismo não é apenas uma corrente económica, é o sistema da liberdade económica e política (e, por isso, do direito), é a aceitação de que os melhores resultados saem da possibilidade de cada homem agir segundo as suas potencialidades, interesses e talentos, sem que haja qualquer forma de o limitar nesse movimento em nome de proselitismos ou verdades efémeras. Pressupõe que essa acção, simultaneamente, reconheça os interesses e as expectativas do outro: o saber do direito e o saber da arquitectura formaram-se nesse reconhecimento.
Pode o mundo, não perceber os limites e o interesse deste compromisso, mas confundir o livre-arbítrio infinito e a liberdade é um erro que a humanidade já devia ter superado. Porém, perante o cenário em que a arquitectura se exerce como prática dos arquitectos, há dificuldades metodológicas que se lhes apresentam diariamente. O entendimento vulgar de que a arquitectura exige espectacularidade, leva a que aquela ideia de continuidade que sempre existiu nas cidades se perca e todos os edifícios requeiram excepcionalidade, visibilidade e diferenciação. Os arquitectos que se distinguem no panorama internacional são estrelas que pairam acima dos comuns mortais e que lhes impõem obras bizarras que o gosto frágil vai aceitando, incorporando e, por fim, exigindo. Vemos aqui e ali resistências, outras práticas, mas sentimos que a pressão do exemplo do star system (e do circo mediático que o valida) a educar as novas gerações que um dia pensarão a arquitectura como uma arte plástica ou uma arte de espectáculo, vai dissolvendo a substância disciplinar da arquitectura. Veremos, ou antes, já vamos vendo, as cidades a indiferenciarem-se porque ninguém as pensa como o lugar onde o homem encontra a proporção da relação da sua subjectividade com o que universalmente faz dos homens seres afins. Parecendo favorecer o individualismo está a matá-lo. Como vai matando as cidades e a Liberdade.

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Liberalismo e Arquitectura (2)

Ao longo da história e da existência dos homens em comunidades, sempre houve um permanente compromisso e um permanente conflito que pelo direito e pela arquitectura se procuraram equilibrar. O direito e a arquitectura, como disciplinas que formam os parâmetros da existência comum dos homens, e que existem pela sua determinação e implantação no real quotidiano, geram uma constante e sempre presente expectativa de acção dentro dos limites ou compromissos entre todos e, neste sentido, esse real permite, aspira e constrói um ideal. A expectativas de cada um não se reduzem, assim, dentro do referido compromisso, a uma expressão da vontade individual, seja por juízos não consagrados nos princípios do direito, seja por obras que não interpretem os pressupostos da vida comunitária e de que todos têm uma expectativa individual. O direito exige do juízo e da sentença, que se reporta aos princípios da lei vigorante e à sua interpretação; a arquitectura, desenha-se e constrói-se entre o conteúdo simbólico que é próprio a cada espaço público ou privado e a criação artística que ao arquitecto cabe na interpretação do arquétipo e à sua recriação em novas formas.

Tradicionalmente, a arquitectura sempre fez corresponder as suas formas aos símbolos que em cada época representavam a verdade assumida (compromisso ou sagrado) pelas comunidades e, constituiu-se, por isso, como uma forma de saber com a sua gramática, a sua retórica e o seu modo próprio de problematizar, interrogar e defender as suas razões. Mesmo na modernidade, na modernidade filha da filosofia moderna e do cientismo que lhe é intrínseco, a arquitectura deduziu ou traduziu as formas políticas que no direito ganharam foros de cidadania. Porém, se nas formas tradicionais a arquitectura (incluo sempre o urbanismo na disciplina da arquitectura) assumia toda uma simbólica e um mester, é verdade também que, nas sequelas da modernidade, essa simbólica e esse mester deixou de ser exigido na sua prática quotidiana. Hoje em dia vive-se, como dissemos no início, num tempo em que parecem estar exauridas todas as formas de saber simbólico que outrora, e não assim tão longe, davam uma base comum, comunitariamente aceite por quem fazia arquitectura, e por quem dela apenas usufruía. Mas acontece, conforme a nossa tese, que a arquitectura é o espelho da nossa forma de estar e de pensar e, por isso, a crítica que fazemos ao nosso tempo é em grande parte a crítica que fazemos à imagem das nossas cidades, vilas, aldeias e metrópoles. E essa crítica se tem expressão numa forma de individualismo sem regra que isolou os homens em si mesmos numa espécie de egoísmo sem saída, não se resume a isso, porque o individualismo é a base do reconhecimento do outro, o seu princípio. O que se perdeu foi o que chamámos assumpção de uma verdade, transcendente aos indivíduos, e que os unia ou, melhor dizendo, que exprimia e identificava as suas afinidades. O erro moderno de identificar o princípio da individuação com a descoberta da interioridade, substituiu a descoberta da subjectividade que, essa sim, estabelece a diferença dos indivíduos em relação ao que lhes é afim, chamemos-lhe Uno. O reflexo disso nas aldeias, nas vilas e nas cidades é a imagem de uma procura individual de se representar a si mesmo em vez de representar o Uno de que cada um pode e tem uma perspectiva própria, diferente e singular.
Para aqui chegarmos não foi a arquitectura que percorreu sozinha este percurso. As relações humanas alteraram-se muito. Mas, sobretudo, o que mudou foi o paradigma ou os princípios em que o compromisso entre os homens em comunidade tinham assumido entre si, expressa ou tacitamente.

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Liberalismo e Arquitectura (1)

A primeira assumpção que fazemos é a de que vivemos num tempo em que abundam os diagnósticos mas escasseiam as respostas. Há, no domínio da opinião, a convicção, senão mesmo o consenso, que, de algum modo, tudo já foi experimentado e tudo já mostrou as suas fragilidades e os seus evidentes insucessos. Politicamente, a prova da desistência é a redução da percepção da vida política à perspectiva quase exclusiva da vida económica, como se a realidade económica se sobrepusesse a todas as outras formas da existência em que o ser humano e as comunidades humanas vivem e se manifestam: o conforto e a riqueza como finalidades da existência, garantia da realização pessoal e da autonomia individual.

Há, entre outras, uma razão para isso: as relações humanas têm na vida económica o ponto de contacto mínimo necessário para a organização da subsistência, primeiro, do bem estar, depois, e da satisfação lúdica, por fim. Podemos nada ter em comum com os outros, podemos até rejeitá-los, mas sempre temos de minimamente contactá-los para trocar bens e serviços de que temos necessidade e que, no nosso isolamento, não conseguimos produzir.
Temos, pois, de reconhecer, que pelo menos num nível mínimo somos seres de comunidade e de relação. E se assim é, há um plano ou grau da nossa vida em que partilhamos interesses comuns e que desejamos seja, no nosso interesse, um espaço em que a liberdade individual não seja posta em causa. Este espaço é o espaço público. O espaço público é um lugar de encontro e de convívio a que, individualmente, cada um acede por iniciativa própria, na procura de um complemento de si, naquilo em que não se realiza isoladamente, e no qual aceita, não só a liberdade de iniciativa dos outros, como, também, tem a expectativa de ser aceite pelos outros. A qualidade desse espaço público é o reflexo do que as iniciativas individuais, no seu movimento, dão e recebem na construção de uma liberdade partilhada que é, ao mesmo tempo, a garantia da liberdade individual. A redução à economia é, apenas, a redução ao grau mais baixo ou elementar das relações humanas. A história do amor mostra-nos que não é só a economia que orienta as nossas vidas.
A construção do espaço público comum tem duas formas institucionais de se fazer representar: o direito e a arquitectura. O direito, cuja finalidade está na ideia da Justiça, como disciplina que organiza e hierarquiza os interesses individuais em ordem ao interesse comum e a arquitectura, cuja finalidade está na ideia de Paraíso, como disciplina que organiza e hierarquiza os lugares, como palcos, onde os indivíduos permanecem e partilham as suas vidas. O direito e a arquitectura são sempre o espelho de uma comunidade e dos seus valores, dos seus interesses individuais e da sua ideia de partilha, comunhão e de verdade. Tudo o resto pode intervir no tempo da existência sem influir no espaço da existência, ou pode influir no espaço da existência de modo fortuito e episódico sem que transcenda o tempo da sua apresentação. Tudo o resto pode, até, marcar o tempo e constituir uma memória, pode vir a influenciar o direito e a arquitectura, mas o direito e a arquitectura não têm, pela sua natureza, outra forma de concretização que não seja a determinação efectiva das relações entre os homens e a sua hierarquia e a organização do espaço como um palco onde se concretizam essas relações. Um poema, um quadro, uma peça, um filme, podem estar fora do seu tempo (antes ou depois), podem ficar guardados numa cave ou num baú, mas as leis e os seus princípios, as praças, as ruas, as casas e os monumentos estão sempre presentes no mesmo espaço, um espaço concreto e determinado.
As comunidades, os países, os estados, as nações e as pátrias são um reflexo do seu direito e da sua arquitectura enquanto expressão da sua ideia de espaço público e de espaço privado, ou seja, da sua ideia de liberdade.

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sexta-feira, 15 de junho de 2007

III. L’innocente. Visconti

A primeira grande separação faz surgir dois trios de personagens.

De um lado, os ligados à fonte da vida. O poeta, que tem fim trágico porque apenas existe pela poesia. É literalmente uma figura poética. A mãe de Tullio, trágico destino precisamente por saber amar (a criança que acabou de nascer). Giuliana, a mulher, porque a única forma de encontrar o amor foi ilícita (para ela esta expressão tem significado) e acabou no ódio.

De outro lado, os desligados da fonte da vida, em suma, sem esperança. A amante, a condessa Raffo, lúcida, bem sabendo que tem imensos trunfos na vida, mas sem esperança em amor redentor. O irmão, Federico, que sem esperança se dedica à distracção. Divertir para ele tem o verdadeiro sentido da palavra, desviar do caminho, no caso, o caminho da sua vida. Tanto a amante como o irmão partilham algo em comum: sabem que estão sem esperança e sabem que a vida lhes é incompleta. Tullio, o terceiro elemento deste trio, o mais patético, e por isso o menos trágico de todos. O que fez da ausência de esperança uma filosofia de vida. Que determinou que a vida nada mais era que isso: fruir, ter curiosidade e depois fenecer. Nada mais.

As duas personagens mais comoventes acabam por ser a mãe e a amante. A mãe por ser pessoa de profundas convicções não as impondo a ninguém, sofrendo das imposições ideológicas do seu filho, que fez do vazio existencial, do ateísmo militante, a sua fé e a sua cruzada. A amante Raffo, porque na sua lucidez é a que mais tem noção do sentido trágico da situação.

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quinta-feira, 14 de junho de 2007

II. L’innocente. Visconti

Sendo seis as personagens relevantes (veremos uma sétima), é preciso mostrar as regras do jogo. O marido estabeleceu uma relação “aberta” com a mulher, abertura de que ele é o único autor e fruidor, embora por princípio não se oponha a que a mulher frua. Por princípio obviamente. Mas a sua abertura é apenas uma forma cómoda de exprimir o seu vazio, como veremos. A sua paixão erótica tem-na com a amante.

O problema é que a mulher se apaixona pelo poeta, que encontra em casa do cunhado. Recolhe-se em casa da sogra ao que o marido se vem juntar a ela. Situação clássica: quando começa a sentir que começa a perder a mulher já esta lhe inspira instintos eróticos.

Tarde demais: ela está realmente apaixonada pelo poeta, e está grávida dele. O poeta morre e a criança nasce. Para grande alegria da avó. Aliás, a única alegre com o facto, e por ironia a que não tem nenhum laço de sangue com a criança (embora não o saiba). Na noite de Natal o marido mata o bastardo e a história quase acaba aqui, sendo a cena final um mero epílogo, um comentário – fundamental, não obstante.

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quarta-feira, 13 de junho de 2007

I. L’innocente. Visconti

Nos anos de 1970 era de bom-tom fazer análises sociológicas. Ou então psicanalíticas. Ou então estruturalistas. Em geral feitas com base em alguns lugares comuns, mais raramente com instrumentos de análise efectivamente consistentes. Num caso ou noutros, é evidente que nenhum método de leitura pode ser deitado fora sem mais. Todos nós sabemos que existem vários níveis de leitura, o que quase nem vale a pena repetir de tão banal que é.

É certo. Mas a verdade é que nem todos os níveis de leitura têm a mesma riqueza, nem sequer a mesma pertinência. Nos anos 70 em que se vivia ainda do mito da universalidade dos valores europeus, e da sua invencibilidade, até o facto de estes serem martirizados e relativizados mostrava no fundo que estes eram vistos como invencíveis e conquistadores. Que modelos se guerreavam pelo domínio do mundo? Dois modelos europeus: o capitalista e o comunista. Brincar com os valores europeus era apenas uma forma divertida e afinal sem consequências que fruir de um luxo instalado por gerações anteriores.

A estrutura da narração é relativamente simples de descrever. Vive de seis personagem. Um marido (Tullio Hermil), a mulher (Giuliana Hermil) a amante do marido (a condessa Teresa Raffo), a mãe de Tullio, o irmão do marido (Federico Hermil) e um poeta idealista, de uma classe social inferior. (Filippo d'Arborio).

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