terça-feira, 29 de maio de 2007

III. A herança de Blair

Diz-se igualmente que teve um grande projecto para a Europa. É verdade que aproximou os europeus continentais à Grã-Bretanha, mas não conseguiu o inverso, como dizia o outro. Resta saber que europeus se referem aqui. Quando o Reino Unido assume a presidência europeia qual é o grande projecto britânico para a Europa? A ajuda a África. Convenhamos. Que despautério. O grande projecto para a Europa, numa presidência de um grande país é...a África? Em estratégia militar isto tem um nome: diversão. Incapaz de fazer algo pela crise europeia, sem ideias, e em boa verdade sem vontade nem capacidade, distrai o povo com ossos de benquerença.

Diz-se igualmente que conseguiu o alargamento europeu. Convenhamos. Já estava na agenda europeia e para ele em nada contribui em especial. Bem pelo contrário, teve de se deparar com as consequências negativas que o “cheque britânico” tem para os novos países aderentes. Existe uma confusão entre o atlantismo (conjuntural, melhor veremos isso noutra altura) dos países do Centro europeu e a anglofilia. Um e outra têm ciclos bem diversos. Quem quis ter uma preponderância na Europa mas não está disposto a pagar os custos (por razões internas, é certo), perdeu a face perante esses países que tiveram de ir buscar à ajuda Suíça a compensação que a Inglaterra não lhes deu. São países de longa memória e sabem com quem (não) podem contar.

Diz-se que serviu de ponte entre os Estados Unidos e a Europa. A época foi má para fazer essa apreciação, porque nunca a fractura foi tão grande desde os anos de 1950 em que os americanos se opunham à política colonial europeia e boa parte da Europa estava influenciada pelo socialismo, seja ele de origem marxista, fabianista ou social-cristã. É certo que a época não ajudou. Mas quais foram os projectos concretos na Europa que Blair lançou? Quais os projectos de cooperação concreta que tenha ele lançado por sua iniciativa? Os projectos de cooperação existentes (nomeadamente do a fusão nuclear) não foram de sua ideia nem neles foi particularmente relevante. Mais neste campo se vê a vitória do mediático, do vazio, sobre a substância.

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segunda-feira, 28 de maio de 2007

II. A herança de Blair

Interessa-me agora a herança política de Blair. Uma política deixa marca sobretudo por ser de um político, não de um gestor de economia. Que se meça o sucesso de um político começando pelo seu êxito económico diz muito sobre o que se espera do político. Que seja uma espécie de caixeiro-viajante. Não consta que César fosse um perito em finanças, nem o mesmo é central ao analisar Walpole ou Catarina II. O que se diz dele? O que se diz de Blair?

Que mudou a esquerda europeia, para começar. Vejamos. Não mudou a esquerda nos países nórdicos e na Holanda, que sempre se caracterizaram pelo pragmatismo. As soluções de adaptação à globalização que estes países adoptaram foram endógenas, baseadas numa maior flexibilidade mas igualmente em diversos mecanismos de segurança e reciclagem dos factores de produção, incluindo e sobretudo o trabalho. Não mudou a esquerda da Europa central. Com efeito, o pragmatismo dos neocomunistas da Europa central, bem como o dos socialistas destes países, é igualmente endógeno. É explicável por décadas de saturação ideológica, associadas à vontade de mudança e ao oportunismo político.

Terá mudado a esquerda alemã? Realmente é verdade que Schroeder se impressionou muito com Blair. Mas nunca houve no pós-guerra um chanceler tão incompetente quanto Schroeder. Conseguiu o que mais nenhum outro fez neste período. Ter um balanço económico desastroso e um balanço estratégico negativo. Tendo-se de início aproximado de Blair acabou por ser levado por forças geoestratégicas mais firmes a virar-se para a França e para Rússia. Tarde demais, fazendo a Europa perder tempo. Teve a arte de errar no que errou mas errar igualmente na forma como acertou. Errou ao apoiar a adesão turca agastando internamente o próprio SPD e a sua ala feminina sobretudo, mas igualmente as suas bases, errou ao atrasar a construção da Europa, errou ao apoiar a Rússia, não por a ter apoiado, mas por ter maculado qualquer apoio à Rússia pela forma como o fez.

Blair não mudou a esquerda francesa igualmente.

Então que esquerda europeia mudou Blair? A latina. Tão simplesmente a latina. Mas isto porque os países latinos (Portugal, Espanha e Itália) vivem um período, uma moda de atracção anglófila. A prosperidade espanhola foi preparada por um socialista que nada deveu a Blair (Gonzalez) e seguida por um conservador que nada aprendeu com ele (Aznar). E na Itália nada ensinou a Berlusconi quanto a liberalismo, e Prodi sempre foi um pragmático, um tecnocrata (pouco mais é aliás).

Mudou, não a esquerda europeia, nem sequer a latina nas suas políticas, porque essa mudança veio de factores endógenos ou da pressão mundial e europeia, mas apenas os afectos e o discurso da esquerda latina. Porque Blair é o político dos afectos e do discurso. Pouco mais.

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Citando Ernst Junger a proposito do tempo dos mediocres

«Neste espectáculo, o que irrita é a combinação de níveis tão medíocres com um poder funcional monstruoso. São estes os homens diante dos quais tremem milhões, de cujas decisões dependem milhões de seres. E, no entanto, temos de admitir que o espírito do tempo os seleccionou com um dedo infalível, se o quisermos considerar, sob uma das suas facetas possíveis, a saber, a de um poderoso empreiteiro da demolição. Todas estas expropriações, desvalorizações, sincronizações, liquidações, racionalizações, socializações, electrificações, reordenamentos, parcelamentos e pulverizações não pressupõem nem formação, nem carácter, pois uma e outro prejudicam o automatismo. Por conseguinte, quando na paisagem industrial o poder é oferecido em hasta pública, cobre os lanços aquele em que a insignificância é valorizada graças a uma vontade vigorosa.» Ernst Junger, O Passo da Floresta, 1951 (Ed. Cotovia)

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domingo, 27 de maio de 2007

Pasmos

A mediocridade não recomenda a citação. Gosto do critério. É claro, directo, justo, linear. Mais do que isso, é um critério rico em derivações. Porque a mediocridade não recomenda a detenção, a reflexão ou, sequer, a atenção. Dada a finitude do tempo disponível, o melhor é mesmo concentrarmo-nos no que vale a pena, no que acrescenta, no que ensina e faz pensar.
Mas, confesso, a assunção do princípio surge a propósito da inevitabilidade de o pôr em crise. Não de modo inconsciente – e muito menos gratuito –, mas por razões de concordância prática, estando em causa Boaventura Sousa Santos e o absoluto pasmo que justifica. Aliás, sempre surpreendente na capacidade de se ultrapassar – mesmo quando já não se imagina a possibilidade de ir mais longe, eis que se transcende ainda e sempre.
Para que se entenda, aludo ao artigo que o dito assinou na VISÃO da passada 5.ª feira, dia 24 de Maio de 2007. Artigo cuja leitura não posso aconselhar senão em benefício do pleno entendimento da minha estupefacção.
O título prometia: socialismo do séc.XXI. Mas não se suspeitaria quanto…
Em suma, ficámos a saber que devemos o desígnio a Hugo Chávez. Nas palavras do próprio BSS, desmentindo o fim da história, proclamado pelo pensamento político conservador (sic.), «(…) em 2005, o Presidente da Venezuela colocou na agenda política o objectivo de construir ‘o socialismo do século XXI». A esperança está, pois, em Chávez!!! Com ele – e, também, com Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador) (sic.) –, o socialismo refunda-se para não repetir erros do passado e abre-se a um «debate profundo» capaz de tornar «credível a vontade de evitá-los» (sic.).
Vaticinando, BSS assume que, em vez de um socialismo, teremos «socialismos do séc.XXI». E remata, eloquente: «terão em comum reconhecerem-se na definição de socialismo como democracia sem fim» (sic.)!
Com toda a franqueza, se não lesse não acreditava. E pasmo! Pasmo absolutamente. Pasmo irreprimivelmente. Porque o texto não é apenas o habitual chorrilho de chavões caro a esta esquerda popular. Se fosse, seria mais um – entediante e anacrónico como todos, mas honesto na sua falta de perspectiva.
Porém, o elogio de Hugo Chávez, incensado como arauto do novo socialismo, traduz o reconhecimento do substracto basista, demagógico, autoritário e populista da esquerda doutrinada por BSS. Espantosamente, revelando a medida da sua esquizofrenia – e é melhor pôr as coisas em termos patológicos, porque a hipótese da mera distracção remeteria para a desonestidade pura –, ainda fala em democracia (felizmente, esclarecendo que é uma democracia sem fim, o que sossega, tratando-se de alguém que manifestamente não lhe conhece os princípios ou os meios…)!
É, aliás, curioso – ou talvez não – que BSS se tenha lembrado de produzir tal prosa na exacta semana em que a Venezuela e o Mundo – maxime a Europa, através do Parlamento Europeu – se insurgiram contra o encerramento da Rádio Caracas TV, estação privada de grande audiência que emitia há 53 anos, mas que agora terá sido considerada inconveniente pelo poder.
Afinal, o anúncio do novo socialismo e dos seus émulos não se compadece com minudências. E o que são as liberdades, os direitos fundamentais, o pluralismo, o desenvolvimento económico e a paz social comparados com a construção da democracia popular de BSS?!
Felizmente, o novo socialismo e a democracia sem fim não são ideias que me exaltem. Mas, apesar disso, espero que a esquerda do século XXI possa ter, entre nós, vozes mais sérias e consequentes.
Nesse sentido, desejo ardentemente que Miguel Portas, Luís Nazaré ou Joana Amaral Dias, por exemplo, tenham lido BSS. Porque, no mínimo, terão ficado tão horrorizados como eu.

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sexta-feira, 25 de maio de 2007

I. A herança de Blair

Tenho sempre feito uma regra de não citar nomes de medíocres. Blair não o é totalmente. Mas está longe de ser um grande homem da política. Sobretudo um homem que fique para a História.
É sempre temerário afirmar algo sobre o juízo futuro da História. A História é um tribunal colectivo, aberto permanentemente e com muitos juízes incompetentes, alguns corruptos e a maioria esquecida, para nossa sorte. De entre os seus juízes probos, felizmente restam-nos bastantes.

Por isso tudo o que disser terá ser entendido com alguma cautela.

Afastarei por isso dois aspectos da sua política, geralmente os mais citados: do lado positivo, o sucesso económico, do lado negativo, a guerra do Golfo. Negativo e positivo nada têm de valorações minhas mas apenas é recolha de lugares comuns apanhados na comunicação social.

Porque afasto o sucesso económico? Porque o mero sucesso económico nunca guarda lugar na História. A ser assim Churchill seria um dos mais medíocres governantes ingleses e Eubulo seria mais lembrado que Péricles. Ou Leptis Magna seria mais lembrada que Carlos Magno. Nem interessa analisar aqui se a riqueza inglesa é sustentável, se haveria outra opção melhor, nem os efeitos sociais das suas políticas. Nem sequer se efectivamente a educação e a saúde se encontram no estado maravilhoso que Blair anunciou. Ainda menos vou referir a situação das infra-estruturas públicas em Inglaterra, em clara decadência e atraso em relação aos outros países europeus mais desenvolvidos.

Não vou igualmente referir o Iraque. Embora tenha sido contra a guerra do Iraque, não por ser pedinte da paz, mas por razões geoestratégicas e políticas europeias, sou o primeiro a perceber que Blair a tenha apoiado. Estando a Grã-Bretanha a perder lugar estratégico em relação aos Estados Unidos com o fim da guerra-fria, perante a Europa Central, a Ásia Central, incluindo a Turquia, a Índia e a China, Blair, na perspectiva e com as premissas geoestratégicas de que parte, tinha toda a razão em apoiar os Estados Unidos. O último reduto do valor britânico diferenciado para os EUA é a reliablity, a lealdade decenal (não secular, entenda-se) da Grã-Bretanha.

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terça-feira, 22 de maio de 2007

O DIREITO À INDIGNAÇÃO

Já não me lembro como é que a coisa surgiu. Foi talvez no primeiro ano do primeiro governo de Cavaco que uma esquerda filha de boas famílias, angustiada com o facto do seu voto valer só o que então valia o voto de uma peixeira, lançou com pompa e pathos o direito à indignação. Mas talvez tenha sido Mário Soares, pai e mãe de muitas coisas de que somos filhos, a cunhar a expressão. Por razões, note-se, bem mais florentinas do que as convulsivas razões que assistiam àquela radiosa parte da esquerda.
Também eu, hoje, me reclamo, enlouquecido, do direito à indignação: a polícia, a investigação das polícias!
Como é que os especialistas escrevem nos jornais, como é que eles dizem na sua translúcida prosa de analistas? Dizem: é inaceitável que um crime violento, transversal a 4 jurisdições, continue impune, sem que seja dada à comunidade uma ténue ponta de solução! É ultrajante que se acumulem suspeitos que a seguir se largam como uma cobra larga a pele! Que outra coisa é, senão insustentável, a situação de uma polícia incapaz de ligar – uma, uma ligação que seja! - a autêntica panóplia de vestígios que lhe oferecem? E que sistema, que coordenação incompetente, pode permitir que as diferentes polícias envolvidas na mesma investigação não cruzem informações e cheguem, mesmo, a sonegar subrepticiamente pistas decisivas?
De que é que eu estou a falar? DE QUE É QUE EU ESTOU A FALAR? grita-me o leitor do outro lado da rua, temendo aproximar-se da minha apopléctica figura. E eu, not with a bang, but a whisper, digo-lhe: da polícia americana.
Está tudo lavrado num filme chamado Zodíaco. Baseia-se o dito em factos reais: no caso de um serial killer que, até hoje, 40 anos passados, a polícia de San Francisco não resolveu. Burocracia e pistas descuradas, outros erros de investigação, má ligação entre as diferentes polícias envolvidas, ditaram a insolubilidade dos crimes que no mínimo causaram 5 vítimas, no máximo terão provocado 27.
O filme? Tem realização de David Fincher, o que aquece bem menos do que parece. Mais do que um whodunit, é um ensaio sobre a obsessão que assalta três personagens inesperada e surpreendentemente "comunicantes": um jornalista, um polícia e um cartoonista. Nos seus melhores momentos, o filme é um belo trabalho de relojoaria do production designer (Donald Graham Burt) que reconstitui com radical perfeição os locais e os ambientes, com os anos 60 e San Francisco a brilharem gloriosamente. De ressuscitar um morto. E é verdade: Donovan levanta-se do fundo dos tempos e canta melhor do que nunca o The Hurdy Gurdy Man.

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À procura de Madeleine

Tenho estado ausente do blog porque tenho andado ausente um pouco por todo lado nas últimas semanas. No entanto, em todos os lugares onde estive "encontrei" Madeleine McCann: nas televisões internacionais como nos jornais locais de diversas cidades no mundo, a criança britânica desaparecida na Praia da Luz é (foi?) foco das atenções.
De acordo com o Departamento de Estado norte-americano, todos os anos aproximadamente 300.000 crianças são vítimas de rapto. Na União Europeia são alguns milhares por ano. No Reino Unido apenas, foram raptadas 846 entre 2002 e 2003 (70.000 é número de crianças dadas como desaparecidas todos os anos). O que tem de especial Madeleine McCann?
Há um elemento de identificação com a família de Madeleine que foi fundamental no efeito catalizador de um enorme interesse público (que no Reino Unido já é comparado com o efeito Diana de Galles). A presunção, que gerámos no conforto do nosso mundo de hoje, de que não seremos apanhados de surpresa. Num certo sentido as sociedades ocidentais de bem estar já não conseguem lidar facilmente com a ideia do sofrimento inesperado e da incerteza. A ideia de que, subitamente, o nosso mundo pode ser abalado de forma brutal é-nos hoje quase inconcebível. Um pouco como se julgássemos ser possível fazer um outsourcing da incerteza.
Não acredito que se trate de voyeurismo mas sim de um processo de identificação o que explica a dimensão adquirida por esta história. Tratou-se de um processo quase cinematográfico. Houve uma identificação com a vítima (e a sua família) e depois a história adquiriu a natureza de uma narrativa que nos aprisiona com os sucessivos "volte-faces" do guião e um final incerto. Num certo sentido, a história de Madeleine transformou-se no reality show ideal: aquele em que a realidade se manifesta como um produto de uma dramatização imaginada. Em parte, os media (particularmente as televisões) promoveram este efeito porque é a única forma que encontram de tornar a informação interessante e competitiva. É apenas um passo mais na transformação a que já assistíamos dos noticiários em magazines da realidade. Claro que isto tem consequências. Uma notícia que é transformada numa "história" exige um principio, um meio e um fim (todos ansiamos por saber como acaba esta "história" como se fosse possível garantir que ela tenha uma conclusão) e exige também heróis e vilões (a jornalista que denuncia e os arguidos tratados como culpados bem antes de qualquer prova concreta). O tempo noticioso transforma-se num tempo cinematográfico: exigimos novos capítulos todos os dias ou perdemos o interesse na história e não estamos dispostos a esperar infinitamente para saber quem é o culpado.
No entanto, não sou capaz de fazer um juízo negativo desta história e do seu tratamento (e muito menos da gestão que dela é feita pela família McCann). Não aceito as críticas dos que comparam o tratamento desta história com as crianças que morrem em Darfur ou em dezenas de outros locais no planeta. Não o faço precisamente porque não sou capaz de diluir nenhuma história como esta no meio de outras histórias. Espero sim que cada um de nós se comece também a preocupar por algumas dessas outras histórias. Talvez o retrato de Madeleine nos faça olhar para outros retratos. No fundo, por muito que nos custe aceitar necessitamos sempre de nos identificar para nos preocupar. Espero que o façamos. No entanto, todo este circo já valeria a pena para pelo menos encontrar Madeleine McCann. Não há que ter vergonha disso. Não temos que corrigir o mundo para legitimar uma boa acção nele e a ética não tem que ser estética...

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domingo, 20 de maio de 2007

As Noites do "La Chunga"

No hay tablao” no “La Chunga”, mesmo em frente ao Hotel Martinez, em Cannes, a cidade do festival de cinema, a cidade dos mercados de televisão.
Piano-bar depois da meia-noite (antes dessa redonda hora é restaurante para factícios príncipes e putativas cinderelas), com música variada e frequência unilateralmente suspeita, “no hay tablao” nem é preciso, porque nas cadeiras ou nas mesas – em todo o lado, menos no chão – jovens mulheres e homens de matura idade dançam enérgica e livremente, sempre bem acima do nível do mar.
Não me lembro de quem canta e do que se canta! Minto, minto: lembro-me da Katty Blue a cantar na materna língua francesa, e também em fluente inglês (naquelas nocturnas horas em que todo o inglês que se ouve parece saltar de Lady Macbeth para o Paraíso Perdido) e ainda (volare, volare!) num macarrónico mas doce italiano. Morena, quase um metro e setenta, olhos negros, nascida, julgo, em St.Tropez.
Não, não me lembro: invento! Ao ponto de me atrever a jurar que Katty Blue tinha a elegância ainda não anoréxica dos 60 quilos!
No “La Chunga”, até às 5 da manhã, dança-se. Em homenagem, creio, a Micaela Flores Amaya, cigana andaluza, bailarina, que os pais fizeram nascer em Marselha e, de Picasso a Ava Gardner, conquistou os grandes do mundo, conhecida e amada como La Chunga. Essa, ela, cujos “pies descalzos” – tendo abandonado aos 21 anos o flamenco por ter casado e sido mãe – mais tarde “volvieron a pisar anoche el tablao del Café de Chinitas”.
Gostaria de pensar que o “La Chunga” foi dela, ou foi criado por amor a ela. E gostaria ainda de acreditar que a homónima peça de Vargas Llosa, protagonizada pela proprietária de um bar no Perú, se inspirou na andaluza bailarina e nesta sexy espelunca do 24 da rue Latour que, perpendicular, desagua na Croisette.
A verdadeira bailarina e a fictícia peça de Llosa são porventura coincidências. Ou são apenas reflexo de um (meu) desiderato descabelado e optimista. Pouco importa. Das minhas noites no “La Chunga” guardo a inocência dum prazer em primeiro grau. Não precisam – aquelas cendradas noites – de caução. Basta-lhes essa intensa e infantil alegria de, cantando mal e dançando pior, terem firmado electivas afinidades.
No “La Chunga”, mesmo quando é de pinguins que se fala, nas cadeiras ou em cima das mesas, dança-se sempre, limpidamente, acima do nível do mar.

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sexta-feira, 18 de maio de 2007

A Mãe (e o Pai) de todos os Códices


Portugal participou hoje num acontecimento cultural histórico. Foi lançada entre nós, pela mão das Edições 70, uma obra única, de referência em todo o Mundo civilizado, em simultâneo com o resto do Mundo: O Codex Arquimedes.

No meio da patética ficção de todos os códices a que assistimos nos últimos anos, de da Vinci a sei lá o quê, este é um relato em que a nudez crua da verdade ultrapassa o manto diáfano da fantasia. Não é uma história a brincar: é a sério. Não é uma história construída em torno de uma patética seita ficcional: é uma história verídica sobre uma obra milenar de um dos grandes génios da Humanidade - Arquimedes. O homem do "Eureka" (que, ao que parece, nunca aconteceu).

A história começa há mais de mil anos. Mas este livro lê-se como um thriller. E sobre um assunto real da História da Ciência! Façamos fast-forward para o ponto em que os autores do livro, o classicista Reviel Netz de Stanford e William Noel, Conservador do MuseuWalters de Baltimore,
começam a sua narrativa. Em 1998, num leilão da Christie's, em Nova Iorque, foi comprado por 2.200.000 de dólares um livro muito feio - o Palimpsesto de Arquimedes.

Após ter sido perdido e descoberto várias vezes, foi identificado um livro de orações do século XIII que era um palimpsesto - tinha sido raspado (reciclado!) e por baixo tinha textos de Arquimedes. O famoso Codex C, perdido desde a Cruzada de 1204, que invadiu e saqueou Constantinopla.

O Palimpsesto de Arquimedes foi comprado no leilão por um desconhecido através de um intermediário. Ainda hojhe não se sabe que foi. William Noel teve uma ideia palerma: mandou um email ao intermediário para saber se o proprietário estaria interessado em expoôr o Palimpsesto de Arquimedes no Walters.

Três dias depois, tinha um email de resposta "que lhe deixou o estômago a dar voltas". O estranho milionário concordava queria visitar o Walters Museum. Aquando da visita, o misterioso "Mr B.", acompanhado do intermediário, do Director do Museu e de Noel, foi levado a almoçar. E quando Noel perguntou "Então, estaria interessado em ter cá o Palimpsesto?", Mr. B. respondeu, "Olhe, já está: deixei-o num saco de papel castanho no seu gabinete". "HA-HA-HA", riu Noel, "então ainda bem que deixei a porta trancada!". Mas foi a correr e lá estava o Arquimedes!

O livro é um relato extraordinário do que se seguiu, que envolve um pouco de tudo - de grego clássico à CIA e a acções judiciais. Mr B. deixou ao Walters generosos fundos para investigar o texto de Arquimedes. Só abrir o livro demorou 4 anos. O texto foi estudado com as técnicas mais avançadas de raios X proveniente do acelerador linear de Stanford (SLAC).

O resultado é uma aventura extraordinária na história da Civilização. É contactarmos com uma das maiores mentes que viveu na Terra, há mais de 2000 anos. Aparentemente, Arquimedes terá realizado Cálculo Infinitesimal 1800 anos antes de Newton e Leibniz. É a História de uma aventura real - muito, muito à frente da ficção. O livro do ano.







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Democracia de rupturas: Governos e CML

A convulsão política portuguesa dos últimos tempos, contruída com base em impulsos, acasos, desencontros, favorece um quadro apto à construção de maiorias que mais se afirmam por expedientes político-judiciais e habilidades politico-constitucionais, do que pela avaliação dos créditos das políticas pensadas e aplicadas no terreno, ao fim de mandatos de quatro anos . O mapa político transforma-se num tabuleiro em que as regras da democracia cedem ao imprevisto legalizado.
O eleitor, consultado depois do estrago, tende a refugiar-se na doca mais seca - com a naturalidade dos inseguros - sem questionar a natureza da intempérie que lhe toldou as velas. Podem, depois, os vencedores dizer que foram chamados à missão de resgate dos náufragos que os confirmam com o seu voto agradecido.
Falo do que se tem passado, desde Dezembro de 2001, no Governo e na Câmara Municipal de Lisboa, cujo enquadramento político depende de uma colecção de rupturas impulsivas que afectam do sentido de responsabilidades do ciclo democrático e o rumo dos acontecimentos.
- 1º impulso: saída de Guterres a meio do mandato (Dezembro de 2001)
- 2º impulso: saída de Durão Barroso, no dia em que obteve o pior resuldado eleitoral de sempre entre o PSD e o CDS (Europeias de 13 de Junho de 2004)
- 3º impulso: saída de Ferro Rodrigues da liderança do PS, em colisão com o íntimo Sampaio, no dia em que soube que o PR não convocaria Eleições Legislativas, (o que pesaria no escrúpulo do Supremo Magistrado) (Julho 2004)
- 4º impulso: carta de demissão de Henrique Chaves (Novembro 2004)
- 5º impulso: dissolução da AR, com maioria estável, por Jorge Sampaio, poucas horas depois de pedir a remodelação governamental (Novembro de 2004)
- 6º impulso: na ânsia de evitar as candidaturas de Valentim e Isaltino, Mendes improvisa o argumento anti-arguido. Desvirtua o espírito da Lei e inaugura a dependência do poder político em relação ao poder judicial (Verão de 2005)
- 7º impulso: Carmona rompe a coligação com o CDS por desacerto de um nome para a SRU da Baixa-Chiado (Outono de 2006)
- 8º impulso: Saídas dos Vereadores Carrilho e Nogueira Pinto - o 1º por enfado a 2ª por desgosto com um grupo (também impulsivo) no Conselho Nacional - 15 dias antes da «atenção» judicial sobre os vereadores da maioria e do Presidente da CML. (Novembro de 2006 e Fevereiro de 2007, respectivamente)
Nada tenho contra impulsos ditados pela defesa do bem comum ou pela exigência da honradez. Mas esta série, tão continuada, ligeira e politicamente consequente, desencadeia uma desfocagem das regras da Democracia e tende a premiar os que estão no lugar certo, na hora certa, aptos a capitalizarem a insegurança que, por vezes, instigaram. Esta análise desfaz - porventura injustamente - nos créditos de quem herda as situações maduras. Mas ela decorre de um dos efeitos preversos na lei das rupturas provocadas. Há outros: perder o poder é difícil de aceitar. A saudável alternância democrática não é fácil de encaixar entre quem sai vencido depois de servir com esforço ou, simplesmente, depois de ter experimentado o poder. Mas sentir que o poder foi «roubado» gera um movimento pessoalizado, justiceiro, revanchista que também não favorece as ideias nem o combate democrático.
Os discursos de Carmona e os seus índices elevados nas sondagens são disso exemplo. O desgosto de Santana pode gerar frutos nas sementes amargas do passado recente. Nogueira Pinto ressurgirá. Monteiro não desiste de ressurgir. Portas já o fez. Marcelo destila, devagar, a perda abrupta, de forma metódica e criativa.
Sócrates aproveita o destempero dos vencidos pelo artifício. Sem atenção ao interior do País, de onde veio, nem ao exterior Oceânico para onde deveria ir. Cede na Europa e cala os diplomatas que o alertam para os perigos do novo Tratado. Faz da presistência um crédito raro, que o é, enquanto dura a intempérie. Mas como termina Luciano de Canfora no seu livro recente, «A Democracia, História de uma Ideologia»: «A história (...) ensinanos que toda e qualquer ruptura violenta, mais tarde ou mais cedo, se recompõe».

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II. Les Négriers en Terres d'Islam. La Première Traite des Noirs, VIIe-XVI siècles, Jacques Heers, Perrin, Paris, 2004

Há vários argumentos que neste contexto são de somenos importância:

a) O islão levou 19 milhões enquanto os cristãos apenas 17 milhões de escravos. O cristianismo fê-lo em menos tempo porque foi mais eficaz. A incompetência não é mérito no que respeita ao islão, e os números nesta área são importantes mas sempre arriscados

b) O esclavagismo africano é endémico em África. Existia desde a mais remota antiguidade de dele participaram africanos, brancos e negros (egípcios, núbios, africanos da africa abaixo do Sahará).

c) As interpretações dos textos religiosos, que podem ser as mais variadas.

O que é importante é salientar o que existe de estrutural na relação com a escravidão na comparação entre a Europa e o Islão:

a) O esclavagismo islâmico durou mais de doze séculos. O cristão pouco mais de doisem termos significativos.

b) O esclavagismo cristão acabou de dentro da sua própria cultura. Os movimentos anti-esclavagistas não são uma imposição de africanos ou muçulmanos, mas de europeus. O esclavagismo islâmico foi fenecendo por imposição europeia e a franco contragosto.

c) Estes movimentos estão associados ao cristianismo, seja com John Brown na América, seja na Inglaterra com os movimentos evangélicos, Quakers e outros; o iluminismo teve representantes favoráveis e desfavoráveis ao esclavagismo.

d) O exemplo dado é fundamental. O fundador de uma religião teve escravos, o da outra não. Numa o mais perfeito dos homens teve escravos, noutra o paradigma da humanidade não os teve.

Percebe-se porque razão Platão, Aristóteles e tantos outros filósofos antigos distinguiram o seu ensinamento público do esotérico. Sabiam que realidades algo complexas seriam sempre incompreendidas do vulgo. Mas o problema maior não é a incompreensão passiva. É quando esta se pretende arvorar em paradigma do pensamento universal. A História carece de uma capacidade de pensar o complexo, coisa que falta ao comum. E de o fazer com probidade, o que não é de esperar de quem fala do que não sabe.

Alexandre Brandão da Veiga

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Sobre uma fotografia

Está científicamente provado que a divulgação de fotografias é uma forma eficente na busa de pessoas desaparecidas. O senso comum também consegue compreender que a atenção dos media é crucial para a eficácia das buscas e no recente caso de que se fala a estratégia que a família está a seguir é precisamente essa. A mobilização da sociedade é fantástica em países desenvolvidos como a Grã-Bretanha. Nós ainda estamos um pouco longe disso o que não significa que não se tente mesmo assim fazer algo. Não confundir a enorme atenção que a Sky-News está a dar ao assunto com a exploração de instintos básicos - é uma estratégia consciente. Esperemos que resulte.
http://news.sky.com/skynews/madeleine

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quinta-feira, 17 de maio de 2007

VARIAÇÕES SOBRE BLAKE, NUMBER TWO

Tiger! Tiger! Burning bright
In the forests of the night

Às vezes, entre a dor e o nada que Faulkner impõe como escolha no fim das “Palmeiras Bravas”, perpassa em nós o fulgor da imortalidade.

Tiger! Tiger! Burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

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VARIAÇÕES SOBRE BLAKE, NUMBER ONE

Não é medo. É apenas saber que nunca mais:

“I have no name:
I am but two days old.”
What shall I call thee?
“I happy am,
Joy is my name”

Nada hoje é pior do que ontem. Só o tempo, invísivel insecto, nos afastou das nossas canções de inocência.

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I. Les Négriers en Terres d'Islam. La Première Traite des Noirs, VIIe-XVI siècles, Jacques Heers, Perrin, Paris, 2004

Hoje em dia qualquer um que faça uma tese sobre História contemporânea (desconfio sempre que, quando não aprendeu latim e grego se dedicou à História contemporânea por a restante lhe ser vedada por falta de acesso às fontes) já se sente autorizado a falar em nome da Historia. Diz-se cientista e apela no espaço público para a sua qualidade de cientista. Quando no espaço público, caso seja cientista, não pode estar a defender uma tese ideológica. O seu ethos tem de ser diverso.

A verdade é que Jacques Heers pertence a outra lavra. É um historiador de grande competência, com trabalhos realmente importantes de investigação sobretudo sobre a Idade Média, e da longa Idade Média. Não a lei das sesmarias. Em acréscimo tem à sua disposição instrumentos muito vastos de investigação que o não especialista não conhece e de que não dispõe.

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quarta-feira, 16 de maio de 2007

Ken Burns Jazz INTRO

Ken Burns é um dos mais geniais «documentaristas» americanos. Com ínumeras nomeações para os Óscares e para os Emmy, Burns notabilizou-se sobretudo pelo uso da fotografia como material base dos seus documentários. "The Civil War", "Baseball", "Brooklyn Bridge" e este fabuloso "Jazz" que estive recentemente a rever são algumas das suas obras mais emblemáticas. A ver e rever.

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III. Vangelo di un pagano. Testo greco a fronte, Porfirio, Bompiani, 2006

Ler Porfírio, apesar de a sua influência ter sido relativamente fraca na História é ler um imenso “ e se”. E se o mundo antigo tivesse seguido pela via neoplatónica, mística, desprezadora da carne? Se tivesse conseguido adequar as suas forças às invasões bárbaras sem ter nenhum dique sólido para as forças do elitismo pagão como foi o cristianismo? Se a Europa tivesse sido formada apenas de uma confluência de paganismos indo-europeus?

Nesse universo Nietzsche teria sido apenas mais um mandarim. E a sua opinião seria realmente maioritária ao contrário do que é hoje em dia, apesar das aparências. O seu sucesso seria a medida da sua irrelevância.

Nesse mundo prevaleceria o desprezo aristocrático sobre os direitos do homem e o respeito por outras culturas e pessoas só porque o são. Porfírio seria a condição simultaneamente da menoridade e do sucesso de Nietzsche.

Combatendo o cristianismo com armas idênticas e até empoladas (misticismo, espiritualismo, direccionamento escatológico, menorização da carne) é a vários títulos um ponto de charneira.

É tudo o que a Europa poderia ser se não fosse cristã. Não sibarítica, mas mística. Não obrigada a confrontar-se com o amor e a fragilidade, mas com a elevação pura. Uma Europa onde o medíocre seria mais duramente punido, onde a piedade teria menos curso. Porque o que é comum, salvo no cristianismo e em alguns movimentos hindus, é que a elevada exigência moral para si mesmo redunda num imenso desprezo moral pelo outros.

Se uma Europa melhor ou pior, não me pronuncio. Mas de certeza seria o que a Europa não é. Uma Europa não baseada no cristianismo.


Alexandre Brandão da Veiga


http://www.libreriauniversitaria.it/BIT/8845257819/Vangelo_di_un_pagano__Testo_greco_a_fronte.htm
http://www.liberonweb.com/asp/libro.asp?ISBN=8845257819
http://www.maat.it/livello2/porfirio-2.htm
http://it.wikipedia.org/wiki/Porfirio

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terça-feira, 15 de maio de 2007

Mulheres Nuas

Tenho andando lamentavelmente afastado da "Geração de 60". Hoje, o Pedro, a quem algumas vezes reprovei a ausência, atirou uma pedra aos meus telhados cristalinos. Um estrondo. Embaraçosamente apanhado de calças na mão, prometi-lhe um post sobre “mulheres nuas”. É com promessas destas que se arruína uma vida, mas se firmam, espero, reputações.
Dir-me-ão que “mulheres nuas” soa a mote iníquo para um blog que busca reconduzir-nos a uma prístina elevação teórica. Vejamos: estou de acordo. A nudez requer fina luz, olhar límpido e os tempos que correm andam farruscos. Unanimemente farruscos.
Estou a queixar-me? É muito português. Choramos, choramo-nos, com humildade e ruidosas fungadelas. Avanço uma peregrina hipótese explicativa e espero que percebam, no que se segue, que não dou ponto sem nó: faltou-nos no passado, e falta-nos no presente, reconhecer o valor teórico do humor. Rimo-nos pouco, não nos rimos de nada.
Por exemplo, os países de Leste. Eles, como nós, viveram assolapados por regimes repressivos. Comunistas lá, um pálido e coimbrão fascismo cá. Comparamos e temos de reconhecer que não sabemos o que é a desgraça. Da desgraça, eles, a leste, fizeram força e vão, como já se viu, bater-nos em toda a linha. Eles desenvolveram a mais competente e atómicas das armas: riram-se deles mesmos, souberam rir-se da própria desgraça.
Dou exemplo duma piada comunista. Do país mais genuinamente divertido do mundo, a extinta República Democrática Alemã:
Pergunta – “Porque é que, mesmo nos períodos de maior carência, o papel higiénico na Alemanha do Leste era sempre de folha dupla?
Resposta alemã – “Porque tínhamos de mandar uma cópia de tudo o que fazíamos para Moscovo.
Preferiam, estão agora a dizer-me, deslumbrar-se com mulheres nuas? Estou de acordo: nem com os nossos comunistas, os mais chatos do mundo, incluindo os dissidentes, tivemos sorte. Falta-lhes teoria, a prístina e elevada teoria do riso.
Um último exemplo. No jornal diário de Bucareste (e peço desculpa se havia mais do que um) tinham um copy só para rever as provas com o nome de Ceausescu (cento e tal referências diárias era o mínimo garantido). É que Nicolai, o primeiro nome do potente presidente, se grafado com um surdo e mudo h (Nicholai), passava a significar pilinha pequena. O pormenor não é dispiciendo e a patriótica missão do copy inegável. Mas o ortográfico infortúnio de Ceausescu fazia o gáudio do povo, gerando a poética justiça que torna a vida mais leve e mais suportável.

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Uma Estratégia Nacional para o MAR

Desde o Dia Mundial do MAR, data escolhida para a presentação, não sem alguma pompa e circunstância, a Estratégia Nacional para o MAR do actual Governo, três questões estão por responder para que se possa afirmar existir, de facto, uma verdadeira Estratégia Nacional para o Mar:


- Está Portugal disposto a verdadeiramente defender e exercer os seus direitos sobre o Mar que é seu?

- Está Portugal disposto a verdadeiramente afrontar a União Europeia nesse particular?

- Tem Portugal uma verdadeira estratégia e consequente acção que justifique essa defesa?

Questões, até hoje, infelizmente, sem resposta. Hoje, dia em que o Instituto Europeu da Faculdade de Direito de Lisboa promoveu mais umas Jornadas Europeias exactamente dedicadas ao tema d’A Política Marítima da União Europeia e onde, Tiago Pitta e Cunha, responsável pela Política Europeia no Gabinete do Comissário para as Pescas e Assuntos do Mar, surgiu a defender, muito legitimamente e como lhe competia, a dita política, acrescentando, bem mais discutivelmente e sem necessariamente lhe competir, servir igualmente a mesma os supremos interesses nacionais.

Como sabemos, ou todos deveríamos ter plena consciência, no dia em que Portugal perder a soberania sobre o seu mar, sobre a sua ZEE, como era já proposto, em princípio, muito significativamente, sem assinalável escândalo nacional, no famigerado projecto de tratado de Constituição Europeia (Artigo I-13º-d), perdendo o o poder e relevância geoestretégica que lhe restam,Portugal entrará num processo final de evanescência sem remissão.

Não culpemos, porém, a União Europeia por todos os muitos e muito nacionais erros e males. A União Europeia não é uma entidade abstracta mas, acima de tudo, a personificação dos interesses das nações que a compõem, respeitando, antes de mais, em primeiro lugar e acima de tudo, como sempre sucede nestas casos, os interesses das maiores, mais fortes e poderosas nações. Interesses que não só não são necessariamente coincidentes com os nossos como, neste, particular, colidem mesmo. E no entanto, no Auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, pouco mais estariam do que cerca de duas dezenas de pessoas, metade das quais por inerência, i.e., por serem oradores convidados _ alguns dos quais, de resto, mais não permaneceram senão o tempo estritamente necessário ao honesto cumprimento da sua missão.

Não, não culpemos a União Europeia. Culpemo-nos a nós. E que não nos suceda como a Boabdil, se não nos falha a memória do seu triste nome, que ao abandonar o Alhambra de lágrimas nos olhos, em 1492, após a queda de reino de Granada, ainda teve o amargo de ouvir as cruéis mas acertadas palavras de desdém de sua mãe: «Choras como uma mulher, tu, que não soubeste defender o teu reino como um homem».

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II. Vangelo di un pagano. Testo greco a fronte, Porfirio, Bompiani, 2006

É mais um lugar comum distinguir a moral de prazer dos antigos da moral de culpa cristã. Tese arcaica de um Tilgher e um Brochard que fez sucesso na geração dos anos 1960, mas sem nenhuma consistência histórica para quem lê os originais. A moral dita antiga é muitas morais, variando com as épocas e os lugares.

O cristianismo não teve de se opor no momento da sua ascenção a uma moral devassa, epicurista, hedonista, mas bem pelo contrário a uma moral pagã ascética, martirizando a carne, odiando o corpo. Em alguns casos este movimento roça a histeria, em Porfírio contém-se dentro de uma racionalidade bem estruturada, sem prejuízo de merecer críticas.

O que a Igreja teve de explicar é que o corpo não era a fonte de todo o mal, que a matéria não era o reino da ilusão, do mal ou do pecado enquanto tal. O que Porfírio tentou demonstrar era que Cristo sendo um homem divino (conceito algo diverso do actual) não poderia ser Deus feito homem, porque isso é absurdo perante a razão neogrega.

Toda esta discussão parece pretérita, de mera curiosidade. Sodano, num trabalho muito sério de crítica, ajuda a perceber por que razão não é assim. Nunca houve obviamente um livro chamado “Evangelho de um Pagão” feito por Porfírio. Trata-se de um conjunto de obras, ou melhor, de fragmentos de obras.

Apenas mostra que o seu pensamento, no que dele nos resta, corresponde a uma alternativa civilizacional que poderia ter tido lugar. Em que a religião teria sido obra de filósofo, como o confucionismo ou o budismo. Embora como se saiba isso não impeça a existência de cleros e teocracias bem mais apertadas como a tibetana ou a do mandarinato.

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