sexta-feira, 18 de maio de 2007

II. Les Négriers en Terres d'Islam. La Première Traite des Noirs, VIIe-XVI siècles, Jacques Heers, Perrin, Paris, 2004

Há vários argumentos que neste contexto são de somenos importância:

a) O islão levou 19 milhões enquanto os cristãos apenas 17 milhões de escravos. O cristianismo fê-lo em menos tempo porque foi mais eficaz. A incompetência não é mérito no que respeita ao islão, e os números nesta área são importantes mas sempre arriscados

b) O esclavagismo africano é endémico em África. Existia desde a mais remota antiguidade de dele participaram africanos, brancos e negros (egípcios, núbios, africanos da africa abaixo do Sahará).

c) As interpretações dos textos religiosos, que podem ser as mais variadas.

O que é importante é salientar o que existe de estrutural na relação com a escravidão na comparação entre a Europa e o Islão:

a) O esclavagismo islâmico durou mais de doze séculos. O cristão pouco mais de doisem termos significativos.

b) O esclavagismo cristão acabou de dentro da sua própria cultura. Os movimentos anti-esclavagistas não são uma imposição de africanos ou muçulmanos, mas de europeus. O esclavagismo islâmico foi fenecendo por imposição europeia e a franco contragosto.

c) Estes movimentos estão associados ao cristianismo, seja com John Brown na América, seja na Inglaterra com os movimentos evangélicos, Quakers e outros; o iluminismo teve representantes favoráveis e desfavoráveis ao esclavagismo.

d) O exemplo dado é fundamental. O fundador de uma religião teve escravos, o da outra não. Numa o mais perfeito dos homens teve escravos, noutra o paradigma da humanidade não os teve.

Percebe-se porque razão Platão, Aristóteles e tantos outros filósofos antigos distinguiram o seu ensinamento público do esotérico. Sabiam que realidades algo complexas seriam sempre incompreendidas do vulgo. Mas o problema maior não é a incompreensão passiva. É quando esta se pretende arvorar em paradigma do pensamento universal. A História carece de uma capacidade de pensar o complexo, coisa que falta ao comum. E de o fazer com probidade, o que não é de esperar de quem fala do que não sabe.

Alexandre Brandão da Veiga

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Sobre uma fotografia

Está científicamente provado que a divulgação de fotografias é uma forma eficente na busa de pessoas desaparecidas. O senso comum também consegue compreender que a atenção dos media é crucial para a eficácia das buscas e no recente caso de que se fala a estratégia que a família está a seguir é precisamente essa. A mobilização da sociedade é fantástica em países desenvolvidos como a Grã-Bretanha. Nós ainda estamos um pouco longe disso o que não significa que não se tente mesmo assim fazer algo. Não confundir a enorme atenção que a Sky-News está a dar ao assunto com a exploração de instintos básicos - é uma estratégia consciente. Esperemos que resulte.
http://news.sky.com/skynews/madeleine

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quinta-feira, 17 de maio de 2007

VARIAÇÕES SOBRE BLAKE, NUMBER TWO

Tiger! Tiger! Burning bright
In the forests of the night

Às vezes, entre a dor e o nada que Faulkner impõe como escolha no fim das “Palmeiras Bravas”, perpassa em nós o fulgor da imortalidade.

Tiger! Tiger! Burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

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VARIAÇÕES SOBRE BLAKE, NUMBER ONE

Não é medo. É apenas saber que nunca mais:

“I have no name:
I am but two days old.”
What shall I call thee?
“I happy am,
Joy is my name”

Nada hoje é pior do que ontem. Só o tempo, invísivel insecto, nos afastou das nossas canções de inocência.

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I. Les Négriers en Terres d'Islam. La Première Traite des Noirs, VIIe-XVI siècles, Jacques Heers, Perrin, Paris, 2004

Hoje em dia qualquer um que faça uma tese sobre História contemporânea (desconfio sempre que, quando não aprendeu latim e grego se dedicou à História contemporânea por a restante lhe ser vedada por falta de acesso às fontes) já se sente autorizado a falar em nome da Historia. Diz-se cientista e apela no espaço público para a sua qualidade de cientista. Quando no espaço público, caso seja cientista, não pode estar a defender uma tese ideológica. O seu ethos tem de ser diverso.

A verdade é que Jacques Heers pertence a outra lavra. É um historiador de grande competência, com trabalhos realmente importantes de investigação sobretudo sobre a Idade Média, e da longa Idade Média. Não a lei das sesmarias. Em acréscimo tem à sua disposição instrumentos muito vastos de investigação que o não especialista não conhece e de que não dispõe.

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quarta-feira, 16 de maio de 2007

Ken Burns Jazz INTRO

Ken Burns é um dos mais geniais «documentaristas» americanos. Com ínumeras nomeações para os Óscares e para os Emmy, Burns notabilizou-se sobretudo pelo uso da fotografia como material base dos seus documentários. "The Civil War", "Baseball", "Brooklyn Bridge" e este fabuloso "Jazz" que estive recentemente a rever são algumas das suas obras mais emblemáticas. A ver e rever.

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III. Vangelo di un pagano. Testo greco a fronte, Porfirio, Bompiani, 2006

Ler Porfírio, apesar de a sua influência ter sido relativamente fraca na História é ler um imenso “ e se”. E se o mundo antigo tivesse seguido pela via neoplatónica, mística, desprezadora da carne? Se tivesse conseguido adequar as suas forças às invasões bárbaras sem ter nenhum dique sólido para as forças do elitismo pagão como foi o cristianismo? Se a Europa tivesse sido formada apenas de uma confluência de paganismos indo-europeus?

Nesse universo Nietzsche teria sido apenas mais um mandarim. E a sua opinião seria realmente maioritária ao contrário do que é hoje em dia, apesar das aparências. O seu sucesso seria a medida da sua irrelevância.

Nesse mundo prevaleceria o desprezo aristocrático sobre os direitos do homem e o respeito por outras culturas e pessoas só porque o são. Porfírio seria a condição simultaneamente da menoridade e do sucesso de Nietzsche.

Combatendo o cristianismo com armas idênticas e até empoladas (misticismo, espiritualismo, direccionamento escatológico, menorização da carne) é a vários títulos um ponto de charneira.

É tudo o que a Europa poderia ser se não fosse cristã. Não sibarítica, mas mística. Não obrigada a confrontar-se com o amor e a fragilidade, mas com a elevação pura. Uma Europa onde o medíocre seria mais duramente punido, onde a piedade teria menos curso. Porque o que é comum, salvo no cristianismo e em alguns movimentos hindus, é que a elevada exigência moral para si mesmo redunda num imenso desprezo moral pelo outros.

Se uma Europa melhor ou pior, não me pronuncio. Mas de certeza seria o que a Europa não é. Uma Europa não baseada no cristianismo.


Alexandre Brandão da Veiga


http://www.libreriauniversitaria.it/BIT/8845257819/Vangelo_di_un_pagano__Testo_greco_a_fronte.htm
http://www.liberonweb.com/asp/libro.asp?ISBN=8845257819
http://www.maat.it/livello2/porfirio-2.htm
http://it.wikipedia.org/wiki/Porfirio

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terça-feira, 15 de maio de 2007

Mulheres Nuas

Tenho andando lamentavelmente afastado da "Geração de 60". Hoje, o Pedro, a quem algumas vezes reprovei a ausência, atirou uma pedra aos meus telhados cristalinos. Um estrondo. Embaraçosamente apanhado de calças na mão, prometi-lhe um post sobre “mulheres nuas”. É com promessas destas que se arruína uma vida, mas se firmam, espero, reputações.
Dir-me-ão que “mulheres nuas” soa a mote iníquo para um blog que busca reconduzir-nos a uma prístina elevação teórica. Vejamos: estou de acordo. A nudez requer fina luz, olhar límpido e os tempos que correm andam farruscos. Unanimemente farruscos.
Estou a queixar-me? É muito português. Choramos, choramo-nos, com humildade e ruidosas fungadelas. Avanço uma peregrina hipótese explicativa e espero que percebam, no que se segue, que não dou ponto sem nó: faltou-nos no passado, e falta-nos no presente, reconhecer o valor teórico do humor. Rimo-nos pouco, não nos rimos de nada.
Por exemplo, os países de Leste. Eles, como nós, viveram assolapados por regimes repressivos. Comunistas lá, um pálido e coimbrão fascismo cá. Comparamos e temos de reconhecer que não sabemos o que é a desgraça. Da desgraça, eles, a leste, fizeram força e vão, como já se viu, bater-nos em toda a linha. Eles desenvolveram a mais competente e atómicas das armas: riram-se deles mesmos, souberam rir-se da própria desgraça.
Dou exemplo duma piada comunista. Do país mais genuinamente divertido do mundo, a extinta República Democrática Alemã:
Pergunta – “Porque é que, mesmo nos períodos de maior carência, o papel higiénico na Alemanha do Leste era sempre de folha dupla?
Resposta alemã – “Porque tínhamos de mandar uma cópia de tudo o que fazíamos para Moscovo.
Preferiam, estão agora a dizer-me, deslumbrar-se com mulheres nuas? Estou de acordo: nem com os nossos comunistas, os mais chatos do mundo, incluindo os dissidentes, tivemos sorte. Falta-lhes teoria, a prístina e elevada teoria do riso.
Um último exemplo. No jornal diário de Bucareste (e peço desculpa se havia mais do que um) tinham um copy só para rever as provas com o nome de Ceausescu (cento e tal referências diárias era o mínimo garantido). É que Nicolai, o primeiro nome do potente presidente, se grafado com um surdo e mudo h (Nicholai), passava a significar pilinha pequena. O pormenor não é dispiciendo e a patriótica missão do copy inegável. Mas o ortográfico infortúnio de Ceausescu fazia o gáudio do povo, gerando a poética justiça que torna a vida mais leve e mais suportável.

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Uma Estratégia Nacional para o MAR

Desde o Dia Mundial do MAR, data escolhida para a presentação, não sem alguma pompa e circunstância, a Estratégia Nacional para o MAR do actual Governo, três questões estão por responder para que se possa afirmar existir, de facto, uma verdadeira Estratégia Nacional para o Mar:


- Está Portugal disposto a verdadeiramente defender e exercer os seus direitos sobre o Mar que é seu?

- Está Portugal disposto a verdadeiramente afrontar a União Europeia nesse particular?

- Tem Portugal uma verdadeira estratégia e consequente acção que justifique essa defesa?

Questões, até hoje, infelizmente, sem resposta. Hoje, dia em que o Instituto Europeu da Faculdade de Direito de Lisboa promoveu mais umas Jornadas Europeias exactamente dedicadas ao tema d’A Política Marítima da União Europeia e onde, Tiago Pitta e Cunha, responsável pela Política Europeia no Gabinete do Comissário para as Pescas e Assuntos do Mar, surgiu a defender, muito legitimamente e como lhe competia, a dita política, acrescentando, bem mais discutivelmente e sem necessariamente lhe competir, servir igualmente a mesma os supremos interesses nacionais.

Como sabemos, ou todos deveríamos ter plena consciência, no dia em que Portugal perder a soberania sobre o seu mar, sobre a sua ZEE, como era já proposto, em princípio, muito significativamente, sem assinalável escândalo nacional, no famigerado projecto de tratado de Constituição Europeia (Artigo I-13º-d), perdendo o o poder e relevância geoestretégica que lhe restam,Portugal entrará num processo final de evanescência sem remissão.

Não culpemos, porém, a União Europeia por todos os muitos e muito nacionais erros e males. A União Europeia não é uma entidade abstracta mas, acima de tudo, a personificação dos interesses das nações que a compõem, respeitando, antes de mais, em primeiro lugar e acima de tudo, como sempre sucede nestas casos, os interesses das maiores, mais fortes e poderosas nações. Interesses que não só não são necessariamente coincidentes com os nossos como, neste, particular, colidem mesmo. E no entanto, no Auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, pouco mais estariam do que cerca de duas dezenas de pessoas, metade das quais por inerência, i.e., por serem oradores convidados _ alguns dos quais, de resto, mais não permaneceram senão o tempo estritamente necessário ao honesto cumprimento da sua missão.

Não, não culpemos a União Europeia. Culpemo-nos a nós. E que não nos suceda como a Boabdil, se não nos falha a memória do seu triste nome, que ao abandonar o Alhambra de lágrimas nos olhos, em 1492, após a queda de reino de Granada, ainda teve o amargo de ouvir as cruéis mas acertadas palavras de desdém de sua mãe: «Choras como uma mulher, tu, que não soubeste defender o teu reino como um homem».

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II. Vangelo di un pagano. Testo greco a fronte, Porfirio, Bompiani, 2006

É mais um lugar comum distinguir a moral de prazer dos antigos da moral de culpa cristã. Tese arcaica de um Tilgher e um Brochard que fez sucesso na geração dos anos 1960, mas sem nenhuma consistência histórica para quem lê os originais. A moral dita antiga é muitas morais, variando com as épocas e os lugares.

O cristianismo não teve de se opor no momento da sua ascenção a uma moral devassa, epicurista, hedonista, mas bem pelo contrário a uma moral pagã ascética, martirizando a carne, odiando o corpo. Em alguns casos este movimento roça a histeria, em Porfírio contém-se dentro de uma racionalidade bem estruturada, sem prejuízo de merecer críticas.

O que a Igreja teve de explicar é que o corpo não era a fonte de todo o mal, que a matéria não era o reino da ilusão, do mal ou do pecado enquanto tal. O que Porfírio tentou demonstrar era que Cristo sendo um homem divino (conceito algo diverso do actual) não poderia ser Deus feito homem, porque isso é absurdo perante a razão neogrega.

Toda esta discussão parece pretérita, de mera curiosidade. Sodano, num trabalho muito sério de crítica, ajuda a perceber por que razão não é assim. Nunca houve obviamente um livro chamado “Evangelho de um Pagão” feito por Porfírio. Trata-se de um conjunto de obras, ou melhor, de fragmentos de obras.

Apenas mostra que o seu pensamento, no que dele nos resta, corresponde a uma alternativa civilizacional que poderia ter tido lugar. Em que a religião teria sido obra de filósofo, como o confucionismo ou o budismo. Embora como se saiba isso não impeça a existência de cleros e teocracias bem mais apertadas como a tibetana ou a do mandarinato.

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segunda-feira, 14 de maio de 2007

I. Vangelo di un pagano. Testo greco a fronte, Porfirio, Bompiani, 2006

A uox populi diz que o modernismo fez enfraquecer o cristianismo, que hoje em dia somos muito mais esclarecidos, que nunca houve tanta descrença. Vários erros de perspectiva e de presunção, porque há demasiadas épocas da História para se poder fazer essa comparação de forma tão simplista. Mesmo Nietzsche o suposto anti-cristão por excelência está bem longe de o ser no sentido popular.

Se bem virmos no longo prazo, e tudo ponderado, houve dois grandes anti-cristãos. Porfírio e Maomé. Símaco, Juliano o Apóstata, Hipácia e tantos outros são brincadeiras de crianças ao pé destas personagens. Plotino não deu grande importância ao cristianismo, confundindo-o muitas vezes com a sua vertente gnóstica, pelo que não pode ser bom exemplo.

Sobram Porfírio e Maomé. Pode-se dizer que ambos eram grandes admiradores de Cristo. A tal ponto de o primeiro reconhecer que Cristo é abençoado pelos deuses e o segundo faz d'Ele quem recebe os homens no Juízo Final. A História tem demonstrado que essas admirações podem ser tanto mais perigosas quanto sinceras são. O facto de Cristo ser de sangue judeu não impediu a existência de anti-judaísmos na Europa. O anti-semitismo de Himmler não o impediu de ter grande admiração pelo Islão e pela Turquia. E turcos e persas odeiam os árabes e por eles são desprezados, sendo certo que isso não os impede de venerar mais que qualquer outro homem um árabe, Maomé.

Que Porfírio admirasse Cristo não evita que tenha sido o mais poderoso anti-cristão sob o ponto de vista intelectual. Em Plotino o cristianismo ainda não tinha importância bastante. Em Celso a crítica é coberta e enfraquecida pelo insulto, em Símaco, pela dignidade do vencido que se sabe vencido, e que apenas já só deseja preservar o que pode ser preservado. A aventura de Juliano foi romântica, mas de muito breves efeitos.

Porfírio é o único que concilia uma consciência da importância do cristianismo, um momento de viragem em que ainda seria possível travar a predominância cristã, um conhecimento a aprofundado das fontes bíblicas. Mas igualmente o que luta contra o cristianismo com armas que se lhe assemelham.

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Um perigoso equívoco (parte II)

Ainda a propósito da saudável discussão que travei com o Gonçalo , socorro-me de uma crónica certeira assinada no DN de Domingo por Nuno Brederode Santos:
«Muitos dizem que, na política portuguesa, nada mexe, nada muda, tudo se arrasta. Falta-nos a cavalgada, os factos à desfilada. Carecemos do swing que nos faça arribar deste torpor. Mas os dias da queda da Câmara Municipal de Lisboa desmentem com estrondo esta ideia.Na quarta-feira, já quase no final do programa de fim de tarde da SIC Notícias Opinião Pública, uma senhora telefonou e, apresentando-se como funcionária da CML, leu a carta que desta recebera no próprio dia. Era a convocação para uma manifestação de apoio a Carmona Rodrigues nas instalações camarárias do Campo Grande. Uma hora depois, todos os canais transmitiam em directo o discurso de um presidente surpreendido e emocionado com a "manifestação espontânea" de que estava a ser alvo.Na quinta-feira, o gabinete do presidente informava não ter podido "concluir" o processamento burocrático das renúncias para informação do Governo Civil da perda de quórum na câmara, o que já só seria possível na sexta-feira. Mas, na sexta-feira, o mesmo gabinete informou pelo telefone os vários partidos de que era necessária cópia do bilhete de identidade de todos os renunciantes (entendimento este que não foi partilhado pelo Governo Civil) - coisa que era detectável logo na entrega, e não a "concluir". Fê-lo, aliás, com assinalável displicência, num arrastamento langoroso que foi desde a hora de almoço (comunicação ao PCP, segundo Ruben de Carvalho, na SIC Notícias) até ao fim da tarde, após o encerramento do expediente (comunicação ao PSD, segundo os jornais). Contudo - e parecendo vergar-se aos protestos dos partidos - acabou por fazer chegar a documentação ao Governo Civil pelas 21.30 (conforme fax da Lusa lido durante o mesmo jornal da SIC Notícias).Tudo isto sugere que Carmona Rodrigues não enjeita a hipótese de se candidatar de novo, mas assumindo todas as cautelas a que tem direito. Para tanto, fomenta o aplauso inorgânico e estuda os seus trunfos. Uma multidão "não assimilada" poderia entusiasmar-se com o discurso antipartidos e ser o seu exército. Com a vantagem de serem os que, por impossibilidade económica, não saem para férias, pelo que valorizam umas eleições em Julho (e não em 24 de Junho). Para a enquadrar e para a logística de campanha contaria também com aquele funcionalismo municipal que tem mobilizado em seu apoio. O que provavelmente pressupõe o pagamento atempado dos salários e, para isso, fazer ainda aprovar os dois empréstimos de curto prazo (trinta milhões) de que dá conta o DN de sábado. E, certamente mais atento do que eu, terá lido nas palavras indulgentes de Paulo Portas que uma tal aventura poderia resolver os problemas do CDS, poupando este, ou a um resultado decepcionante, ou a arriscar o seu líder num complicadíssimo protagonismo pessoal. Se nem sempre a circunstância faz o homem, sempre, de um modo ou de outro, ela o revela. Carmona Rodrigues terá sido, um dia, o engenheiro, o apolítico, o independente a quem repugnariam os aparelhos e os tacticismos partidários. Apesar de, nas pausas desta conversa antiga, já levar duas aventuras de autarca e uma de ministro - e sempre à boleia de um partido. Mas hoje nada tem, como agora melhor se viu, do que insinua: nem querubim de Botticelli nem Bambi órfão de mãe. Ele já lançou mão da demagogia, abusou da burocracia e fez suas as piores tácticas dilatórias. Promoveu equívocos e jogou nas ambiguidades. Já trocou mandamentos por conveniências, deveres por ambições. Talvez ainda esteja a aprender a rua, mas conhece como poucos os truques de gabinete, os silêncios das gavetas e as guerras de papel das chancelarias. Não tem nada a aprender com os aparatchiks que a vida nos pôs no caminho. O seu apoliticismo é apenas uma impreparação. A sua independência, que tão longamente foi uma vantagem, é agora uma contingência. Mas a ambição, maior do que o braço estendido, está-lhe nos ossos. Não consegue travá-la. Terão de ser os outros a fazê-lo. Talvez também nisso consista a resignada máxima das gentes solidárias: "Temos de ser uns para os outros."»
Na «mouche». Digo eu.

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domingo, 13 de maio de 2007

Fátima




Fátima toca-me. Sempre tocou. É uma experiência que vai para lá da explicação. Com a força própria das coisas profundas, é esperança de uma verdade que irmana e dá sentido.
(Também) Naquele adeus imenso, reconheço a felicidade de ter fé. Mas, para além dessa dimensão pessoalíssima, comovo-me com a expressão – presente e vívida – da alma portuguesa.
O povo impôs Fátima. E resistiu. Calma e serenamente, foi determinando o caminho. Venceu a generalizada desconfiança inicial. Superou a instrumentalização e a propaganda do Estado Novo. Aguentou os extremismos militantes da revolução. E, hoje como sempre, não cede à sempre latente arrogância da nossa inteligentsia.
Popular e oficial, palco de testemunhos de religiosidade muito diversos, encruzilhada de encontros fundadores entre peregrinos, espaço de liberdade na relação com as próprias aparições, Fátima é, afinal, uma extraordinária manifestação de fé.
Singular, entre os cultos marianos. E absolutamente portuguesa, no sincretismo da sua espiritualidade.

Fátima é sobretudo uma fala ao coração, um estremecimento da alma. Refiro-me a essa coisa rara e que supera todos os apetites de milagres, todas as experiências místicas de que se ufanam outros santuários, essa coisa única que revela Portugal a si mesmo e o que na sua alma existe de inconfundível: a Procissão do Adeus.
(…)
… quando na Cova da Iria irrompe o cântico nostálgico: De Vós me aparto ó Virgem… ó Fátima Adeus… Virgem e Mãe, Adeus… Fátima transforma-se num imenso cais, o cais de todas as lágrimas que os Portugueses verteram nos quatro cantos do mundo, onde andaram sempre a despedir-se sem nunca saberem bem onde era a sua terra. Vasto mundo, mundo nunca nosso e do qual sempre fomos. Quem quiser saber o que é a unidade sentimental do povo português vá à Procissão do Adeus, a Fátima, e veja aquela doce arte de chorar juntos sem nenhum motivo muito evidente: «Acaso sois português, que tanto chorais?» (Lope de Vega).
Frei Bento Domingues, A Religião dos Portugueses, pp. 61-62

Fátima sente-se. Ou não.

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sábado, 12 de maio de 2007

O número que marcou não está disponível

A minha mãe tem 89 anos e é surda. Quando lhe pergunto alguma coisa, responde ao lado. Protesto contra a sua surdez, ela afirma que “como” as palavras, No fundo, conversa de surdos. Traz-me triste, esta questão da incomunicabilidade. Percebo que a inteligência tem consigo, uma obrigação moral, tal como é expressa na parábola dos talentos. O que nunca ninguém diz, porventura com medo de parecer vaidoso, é que a inteligência tem um preço: a solidão. Dizia o meu amigo Jacques Brel, (nunca o conheci, entenda-se), numa entrevista que tive o privilégio de assistir: “recuso-me a ser inteligente”. Julgo perceber o que quis dizer, e no entanto…
Por favor não vomitem ao voltar ao assunto, mas a questão do aborto, parece-me exemplar. Pensei sobre essa questão dias a fio. E mudei de opinião. Cheguei à conclusão que uma sociedade de homens tem de se reger por um conjunto de valores que se afirmam, como na constituição dos EUA, como “self-evident”. Procurei ouvir do “outro lado” argumentos que me fizessem pensar. Na verdade, apenas ouvi um discurso indigente, com a elevação das “cartas dos leitores”. No fundo há três classes, (como dizia o meu filho, pessoa com quem consigo conversar): A primeira, os que têm uma posição clubista: o Sim é de esquerda, o Não é de direita. A segunda fica pelo piso -3 dos argumentos, e usa interrogações do tipo: “Mas queres ver as mulheres presas?!!!?...”. Os terceiros, embora não o formulem dessa maneira, banalizam a vida pela evidência da exuberância e "facilidade" com que surge, em detrimento do valor extraordinário da singularidade de qualquer existência. Ou seja, é tão fácil criar uma vida, que a vida em si mesma, é de valor relativo, sobretudo se não lhe apertei a mão, lhe conheço as feições ou afaguei o pelo. E depois há aquela frase extraordinária: “ Tens que respeitar a minha opinião!”. Não! Não tenho! Que a tua opinião é uma merda, o teu raciocino abaixo do percentil 5, o tempo que perdi a te ouvir irrecuperável. Não respeito a tua opinião e disso me orgulho. Não afirmo a inexistência de outros argumentos que me façam parar para reflectir. Talvez haja. Ainda não os ouvi. Mas, sobretudo, há a enorme tristeza de não conseguir comunicar. Como é possível, (e outros afirmarão o mesmo, com sentido contrário), que algo que é para mim de uma clareza total, seja opaco para outros. Penso que apesar de tudo, o treino profissional, e o meio cultural donde bebemos os instrumentos do intelecto, são fundamentais. O treino laboratorial traz uma sensibilidade que é muito difícil de transmitir a quem não teve a experiência do rigor da análise, mais ainda, da crítica científica. “ Small brother” dizia que este era um argumento da autoridade, mas não é, apenas a constatação de que diferentes treinos académicos fornecem instrumentos diferentes de análise. Nada mais frustrante, do que tentar explicar a um adolescente algo para o qual ele fecha a mente. Ele julga que eu não percebo nada da vida, eu sei que ele sabe pouco da mesma. Mas destas duas certezas subjectivas, eu sei, (por que penso), qual a verdadeira, e qual a falsa, e no entanto, não consigo transmitir essa evidência. No quotidiano, quantas vezes sinto essa impossibilidade de encontrar quem esteja disposto a ser ensinado, embora todos se afirmem dispostos a aprender. Diferença subtil, não? E caminhamos sozinhos. Por vezes seguros, que a Terra anda à volta do Sol, e, no entanto, incapazes, apesar da veemência do discurso, não só de o provar, como até, de o fazer entender. Provavelmente, porque, (e ouço a minha mãe), eu “como” as palavras.

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sexta-feira, 11 de maio de 2007

Salazar, a Europa e... Caetano

Esta coisa de se escrever em blogs significa que devemos procurar a polémica, ou não? – Enquanto que espero pela resposta, permito-me pegar numa citação sobre Salazar e a Europa retirada de um texto de um dos mais reputados economistas portugueses, Luís Cabral, publicado em http://cachimbodemagritte.blogspot.com/2007/04/mal-agradecidos.html.

O pretexto com que faço isto é o da recente passagem do Dia da Europa (data da “Declaração de Schuman” de 9 de Maio de 1950, que levou à CECA) e da próxima comemoração dos 60 anos do anúncio do Plano Marshall, no famoso discurso que o Secretário de Estado norte-americano fez na Univesidade Harvard.

A citação de que se trata é esta: “Um dos grandes erros do Salazar – erro que pagámos caro – foi a postura do ‘pobre mas honrados’ (em relação ao Plano Marshall) e ‘orgulhosamente sós’ (em relação à Europa).” Esta citação remete para um mito e um pressuposto porventura errado.
Portugal é um país activo na diplomacia europeia há muito, muito tempo, naturalmente, e essa ligação é crucial para todos os aspectos da vida nacional, incluindo as relações com África e o Brasil. Nas últimas duas décadas, o papel da integração europeia na modernização da sociedade portuguesa foi crucial, a tal ponto que tudo o que se faz agora é feito numa perspectiva de abertura ao exterior, condição fundamental para que um pequeno país se desenvolva e de forma equilibrada.

O mito é o de que Portugal não participou no Plano Marshall, porque Salazar não o quis. Ora, a verdade é que o contrário aconteceu. A ideia de que Portugal ficou de fora decorre da confluência de dois interesses: do Regime, que queria fazer crer que Portugal não precisava da ajuda “americana”; e da oposição e seus historiadores que aproveitaram mais essa acha para atacar o regime.

Mas o que aconteceu foi que Portugal chegou a 1947 com uma grande reserva de meios de pagamento sobre o exterior (ouro, dólares, libras), resultantes da forte exportação durante a segunda Guerra Mundial, e o Plano Marshall era para quem disso tinha pouco. Mas as reservas também em Portugal rapidamente se esgotaram (dizem que por causa da necessidade de importação de muitos alimentos – mas ainda não consegui ler bem esta parte da história) e, no ano seguinte, em 1948, o governo português decidiu de facto aderir ao Plano Marshall, sendo membro fundador da Organização Europeia de Cooperação Económica, criada por causa do Plano, no mesmo ano.

Portugal entrava no Plano Marshall e passava a integrar o pelotão da frente (grande, eram 16 países) do movimento de integração europeia. A OECE foi crucial nos primeiros passos da redução das barreiras ao comércio na Europa e foi no seu interior que foram criadas as duas grandes instituições da integração europeia da década seguinte, a CEE, em 1957, e a EFTA, em 1959. Entretanto, em 1950, Portugal também aderira à União Europeia de Pagamentos, que foi brevemente muito importante para a restauração dos fluxos comerciais.

O Plano Marshall teve alguma importância mas foi dirigido a um número reduzido de problemas e durou poucos anos: em 1952 estava feito. O mais importante que dele saiu foi a OECE. Note-se ainda que o aprofundamento da integração europeia que se seguiu se deveu sobretudo aos governos europeus e não tanto aos EUA, cujo papel foi crucial, isso sim, na Defesa.

Assim, o governo português esteve totalmente em cima dos acontecimentos da integração europeia. O que se pediria mais? Que Portugal aderisse à Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, sectores que virtualmente não existiam neste país? Ou mesmo que aderisse à Comunidades de 1957 e se juntasse aos Seis? Pensar que isso poderia ter acontecido é talvez esquecer a verdadeira essência desses tratados que visavam sobretudo resolver problemas de produção, comércio externo e políticas públicas da Europa mais industrializada. E, não esquecer, em 1959, o país aderiu à versão mais suave e possível da integração europeia, a EFTA.

Não houve, na conclusão que posso oferecer, oportunidades de integração perdidas e, ao contrário, Salazar seguiu aquilo que era importante seguir na Europa. Isso não é de estranhar: o Ditador conhecia a história do país e sabia a importância da Europa. Não se dizia europeu nos discursos porque a sua base política amava a África (já agora um outro mito: o de que essas duas vertentes diplomáticas e económicas eram concorrenciais, quando eram – e são – complementares).

A interpretação que aqui proponho dura pelo menos até 1969, data do terceiro pedido de adesão do Reino Unido e de alguns vizinhos seus, o qual viria finalmente a consubstanciar-se no primeiro alargamento das Comunidades, em 1973. Esse passo podia talvez ter sido seguido por Portugal, por via da sua ligação à EFTA e ao RU. Não o foi (Portugal apenas assinou um importante tratado comercial com a CEE, em 1972). Mas, dessa vez, não era também o regime que não gostava da Europa. Nessa altura era já a opinião pública europeia que não gostava de Portugal por causa, obviamente, da guerra colonial.

Estas conclusões têm relevância para a História Económica e para a interpretação da actual economia portuguesa: delas podemos deduzir que, historicamente, o potencial de integração deste país na Europa e, por conseguinte, o potencial de crescimento económico, esteve quase sempre bem realizado. Termino com esta ideia, mais facilmente contestável, à la blog.

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M - Fritz Lang

Realizado em 1931 por Fritz Lang e com argumento da sua mulher Thea von Harbou, M é baseado no caso verídico do «Vampiro de Dusseldorf» que aterrorizou a Alemanha dos anos 20. É a primeira aventura de Lang no sonoro e o filme conta com a inesquecível interpretação do fabuloso Peter Lorre no papel do pedófilo Hans Beckert.
Por razões óbvias, não tenho conseguido deixar de pensar na tão assombrosa quanto aterradora sequência do desaparecimento da pequena Elsie.
Poucos cineastas terão filmado o desespero de forma tão eloquente.

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quinta-feira, 10 de maio de 2007

O tempo da justiça

Vale a pena voltar a discutir a crise na CML. Não tanto para fazer leituras políticas e muito circunstanciadas da decisão de Marques Mendes (nesse plano, devo reconhecer que o líder do PSD, depois dos precedentes de Valentim Loureiro e Isaltino Morais, não tinha muitas alternativas). Mas para reflectir sobre o que é verdadeiramente essencial.
E o que é verdadeiramente essencial tem, na minha opinião, o potencial para ser uma verdadeira bomba-relógio da nossa democracia.

Refiro-me à fundamental incompatibilidade entre o tempo da justiça e o tempo mediático. Que é exactamente a mesma incompatibilidade que existe entre o tempo da política e o tempo mediático. E todos sabemos que esta última incompatibilidade tem vindo a criar importantes rupturas num sistema democrático representativo que foi concebido para casar os valores da igualdade política com as virtudes da reflexão, da ponderação, da deliberação, e da construção de consensos (prometo voltar mais tarde a este tema). E que são as mesma rupturas que agora aparecem no edifício da justiça.

Senão vejamos: enquanto a justiça reclama reflexão, os media reclamam imediatismo. Enquanto a justiça reclama ponderação, os media exigem dramatismo. Enquanto a justiça reclama por garantias, os media exigem resultados. São linguagens, lógicas, filosofias em tudo antagónicas e largamente irreconciliáveis. E como esta incompatibilidade é fundamental e praticamente irresolúvel assistiremos sempre ao sacrifício de um dos sistemas de valores em detrimento do outro. Para já, parece claro que é a justiça a sacrificada. Na impossibilidade de conciliar os seus tempos e os seus processos com as exigências dos media, a justiça perverte-se, deixa cair princípios, abandona dogmas. E transforma-se lentamente numa justiça mediática, com regras diferentes e muito próprias, que são as únicas que podem vigorar no espaço mediático

Basta recuar até ao mega-processo da Casa Pia para que se perceba na prática o alcance dramático desta incompatibilidade fundamental: a justiça «tradicional» ainda não fez o seu curso enquanto que a justiça «mediática» já há muito apontou vítimas e culpados. E não há nada que a primeira possa vir a fazer para alterar o veredicto da segunda. O mesmo se passou na CML. E não vale a pena perdermos tempo com conversas fiadas sobre presunções de inocência. Carmona Rodrigues foi, para todos os efeitos, julgado e condenado no tribunal da opinião pública. E, no espaço mediático, é esse o tribunal que conta.

Mas o caso da CML comporta ainda uma nova dimensão. Já não se trata, como na Casa Pia, apenas de proceder a um julgamento com regras e processos próprios. Trata-se de tirar daí ilações políticas. E se é verdade que Marques Mendes não tinha grandes alternativas, não é menos verdade que o caminho que inaugurou pode ter a prazo consequências imprevisíveis. Ou alguém duvida que com o precedente criado se abre espaço para a intervenção política (i.e. com consequências políticas) do Ministério Público e dos Juízes? Ou alguém duvida que doravante serão eles quem tem o poder de decidir se tal ou tal responsável político é digno de se manter no cargo ou deve ser forçado a abandoná-lo?

Perigoso caminho este.

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ÓLEO PARA FRITURA…

Não sei se o cidadão ocidental tem noção do seguinte facto, a saber:

- está criada uma dinâmica, nos quatro cantos do Mundo, que põe em causa os valores fundamentais pelos quais nos regemos na Europa, no chamado mundo ocidental e restantes democracias;
- mais, esta dinâmica está claramente já fora do controle político, diplomático e militar do ocidente.

Convido-os a darem a volta ao mundo em 4 ou 5 parágrafos:
- na América, a Venezuela, a Bolívia, o Equador e o velho de Cuba, insultam os Estados Unidos e interferem desesperadamente na política interna das duas clássicas potências regionais, o grande Brasil e a Argentina;
- na “Euro-Ásia”, Rússia retoma a postura agressiva contra o Ocidente, bem patente nas declarações, bem como na “plástica” dos rituais, evidenciada nas provocações do líder local no discurso do estado da Nação Russa e nas comemorações na “Praça Vermelha” a propósito dos 50 anos do fim da II Guerra Mundial.
- no mundo Islâmico, da Ásia ao Magreb, é o que sabemos, pontificando o tremendo risco do Irão ansioso por reconstruir o mundo persa, anexando parte do actual Iraque, ao mesmo tempo que se dota de “apetrechos” atómicos;
- na pobre África Negra, Angola vem anunciar que pretende desenvolver o nuclear.
- a China aborda todos os regimes marginais do planeta, com recursos energéticos, oferecendo biliões e protecção, ao abrigo do seu estatuto de membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

É um curioso circo que reúne: ditadores da América, África e Ásia que enchem a cabeça dos seus servos com horas seguidas de discurso; os manicómios nacionais da Coreia da Norte, Irão, Sudão, Etiópia, Libéria, etc.; as cleptocracias de Angola, Venezuela, China, etc.; as Arábias Sauditas, Irões, Chinas, onde a execução de presos é espectáculo de estádio e praça principal.

Chegados a este ponto, tente o leitor descobrir o denominador comum deste quadro de aberrações?...

Eu digo-lhe: é o óleo, o crude, o maldito petróleo!

Esta “droga” do Ocidente representa centenas de milhares de milhões de euros que transferimos anualmente para criar monstros e alimentar estas realidades dantescas.

Ou paramos ou … estamos fritos!

O Ocidente, no âmbito da AIE (Agência Internacional de Energia), tem de prosseguir uma política muito voluntarista para por fim ao que o Sheik Yamani chama a Era do Petróleo.

Teremos de pagar mais caro pela energia? Sim, porque o petróleo é a “fonte “ mais barata.

Mas, qual é o “preço” da Liberdade e da Paz? O problema não é (só) para os nossos filhos. É já da “Geração de 60” que dirá, agora: Maldito óleo que roeste a minha alma!

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quarta-feira, 9 de maio de 2007

Giovanna I d’Angiò, Regina di Napoli, Ciro Raia, Tullio Pironti Editore


Os que dissertam sobre a Europa e sabem tudo sobre o que a Europa é, não é, deve ser e não deve ser geralmente têm uma visão escolar e mal aprendida do que seja a Europa. Saltam entre meia dúzia de conceitos, repetidos até à exaustão, os mesmos e os poucos que se fixaram nas suas parcas memórias.


Felizmente a Europa é bem mais rica que muitos dos seus actuais componentes, e oferece uma diversidade de experiência humanas bem mais vasta do que eles podem absorver.



Lembro-me quando nos impingiam a História de Portugal nos enchiam de uma visão algo caseira da dita. Parecia que de um lado havia Portugal, do outro Castela, nada mais. As relações com a Europa do Norte, as relações nomeadamente com a Europa mediterrânica ocidental eram deitadas ao lixo.



É evidente que numa perspectiva pedagógica as coisas se têm de simplificar. Sabe Deus o que já custa a entrar essa meia dúzia de ideias feitas na cabeça da maioria. Mas o triste é que se verificava que grande parte dos próprios professores tinham essa visão caseira. Confesso que da minha parte o pouco que percebi da História de Portugal decorreu de perceber as relações com Aragão, com a França, o Norte da Europa e o Mediterrâneo ocidental. Por mais estranho que pareça aos especialistas dos forais e sesmarias Portugal sempre fez parte da Europa.



A verdade é que nesta mesma Europa aparece uma dinastia, ramo dos Capetos, que domina o reino de Nápoles. Mais uma. Assim como um ramo domina Portugal, outro Castela, a Borgonha, os Capetos Anjous estabelecem um império elástico que abrange todo o sul da Itália, incluindo as ilhas, Hungria, Polónia, Balcãs, Provença, e feudos espalhados pela França.



Um império peculiar que conduz à ocidentalização de grande parte da Europa central, e ao fortalecimento de relações em todo o mediterrâneo europeu, e uma imensa parte da sua zona continental. O reino de Nápoles não é, ao contrário do que se possa pensar, apenas uma parte de Itália. É durante toda a Idade Média e Moderna o maior reino da Península, e a tal distância dos outros que constituiu sempre uma peça estratégica relevante, mesmo nas suas alturas mais frágeis.



É nesse reino que se instala a dinastia dos Anjous. Dessa dinastia faz parte uma rainha, rainha de pleno direito, porque lei sálica só uma França hiper-patricarcal aceitou, e alguns dos seus satélites. Quando as pessoas se querem referir a grandes rainhas pensam geralmente em Catarina II da Rússia, Isabel I de Inglaterra, a imperatriz Maria Teresa de Áustria. Mas houve bem mais mulheres que foram relevantes e grandes, cada uma à sua maneira e na sua época.



Pormenor importante, pertence a uma dinastia de uma grande beleza. Ao contrário dos reis de França, que em geral nada deviam à beleza (salvo o primo de Joana, Filipe o Belo) os Anjous, do que se percebe da iconografia da época, bem mais realista do que se julga, têm exemplares de grande beleza.



É igualmente uma dinastia de grande cultura. O avô da rainha Joana I Roberto o Sábio, faria jus ao nome. Este sul da Itália aliás já tinha visto gerações de grandes políticos e dotados de grande cultura. Frederico II de Hohenstaufen e os reis normandos da Sicília são bons exemplos disso. Joana I foi educada num meio de grande cultura, sofisticado, banhado em alguma violência, como sempre foi característico do Meridião peninsular.



Era mulher e mulher de grande beleza, e o melhor partido da época. Tudo se junta para que fosse infeliz no amor, grandemente cobiçada pelos homens a mais de um título. Viveu momentos de grandeza e humilhação extremas, teve morte violenta, ingredientes que teriam feito a alegria de uma tragédia de Racine ou uma peça de Schiller ou Shakespeare.



É a rainha que é obrigada a vender Avinhão aos papas, cidade que muito depressa se transforma no centro de cristandade. Mas para além do anedótico dos seus três casamentos e de uma vida liberta demais para o que se pensa serem os costumes da época (dizem algumas más línguas que “isto não é a casa da Joana” viria dela), da sua celebração por Petrarca, é muito difícil atestarmos se foi ou poderia ser uma grande política. As condições da época, a documentação que nos resta, tornam difíceis esses juízos.



Seja como for trata-se de uma vida plena de potencialidades de grandeza como poucas outras, em que a inteligência, a beleza, o poder, a riqueza e a fama se juntam numa só pessoa e em que ao mesmo tempo a tragédia, as dificuldades, as humilhações, a violência parecem ter impedido o desenvolvimento pleno, pessoal e público de uma pessoa excepcional.



De vez em quando aparecem da História estrelas que nascem para nos mostrar a que cumes altos pode chegar a existência humana e como nem eles estão isentos das tempestades. Discutível saber se se trata de uma grande lição política, certo que se trata de uma grande lição humana e de uma deslumbrante ilustração do que pode ser uma pessoa nas suas mais elevadas qualidades.

Alexandre Brandão da Veiga

http://www.italiadonna.it/public/percorsi/biografie/f030.htm
http://it.wikipedia.org/wiki/Giovanna_d
http://www.geocities.com/bard842/giovanna.html
http://www.cinemedioevo.net/film/cine_film_italiani_muti.htm
http://fr.wikipedia.org/wiki/Jeanne_Ire_de_Naples
http://xenophongroup.com/montjoie/angevine.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/Angevin
http://www.crwflags.com/fotw/flags/fr-anjou.html
http://gilles.maillet.free.fr/histoire/genealogie_france/capetiens_anjou.htm





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terça-feira, 8 de maio de 2007

Annus Mirabilis

Já não sei quem dizia que não se podia confiiar, e eu não saio bem no retrato, em pessoas com três nomes (era o Bogart ou o velho Hitch?). Bogart desconfiava de pessoas que não bebiam. Eu desconfio ainda mais de quem não se ri de si próprio.

Gosto de Philip Larkin porque só tem dois nomes. Gosto de Larkin por causa do humor cáustico deste Annus Mirabilis com que, de si mesmo, sinceramente se ri. A pontinha de amargura fica-lhe a matar.

Annus Mirabilis
Sexual intercourse began
In nineteen sixty-three
(which was rather late for me) -
Between the end of the Chatterley ban
And the Beatles' first LP.

Up to then there'd only been
A sort of bargaining,
A wrangle for the ring,
A shame that started at sixteen
And spread to everything.

Then all at once the quarrel sank:
Everyone felt the same,
And every life became
A brilliant breaking of the bank,
A quite unlosable game.

So life was never better than
In nineteen sixty-three
(Though just too late for me) -
Between the end of the Chatterley ban
And the Beatles' first LP.

O sexo livre começou
Em mil novecentos e sessenta e três
(Tarde demais para mim) –
Entre o fim da proibição de
Chatterley
E dos Beatles o primeiro LP.

Até então fora só
Uma espécie de regateio,
Canção de bandido por um anel,
Uma culpa que aos dezasseis começava
E a tudo, tudo, se propagava.

De repente a bagunça irrompeu:
Toda a gente sentia o mesmo,
E todas as vidas se converteram
Numa brilhante conta bancária,
Num jogo impossível de perder.

A vida nunca foi tão boa
Como em mil novecentos e sessenta e três
(Embora tarde demais para mim) –
Entre o fim da proibição de
Chatterley
E dos Beatles o primeiro LP.

Philip Larkin, Annus Mirabilis, 16 June 1967, in High Windows ( Collected Poems, p. 167)

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