terça-feira, 31 de Março de 2009

Intervalo

Exausto. Regresso amanhã.

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Teste 4

Agora um vídeo. Será possível?

[ Vários minutos depois: ] Não consegui. Fui ganacioso.

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Teste 3


Tentar "meter" uma fotografia da minha preferência:





[ Cinco minutos depois: ] Ou seja, tenho de ir à Net, fazer download da dita e depois upload novamente? É bizarro.

[ Dez minutos depois: ] Eu queria a imagem por baixo do título... Ficou de lado.

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Teste 2

Exercícios de lincagem:

A Coluna Infame.

Lindo!

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Teste 1

Que vergonha: em 2000, na companhia de dois amigos, inventei um blogue. Chamava-se A Coluna Infame e foi, com toda a imodéstia, o princípio da loucura blogosférica. Hoje, nove anos depois, visito este planeta e sinto-me um marciano a aterrar na Brandoa. Não tenho conta no gmail; não sei "meter" fotografias (no meu tempo, "meter" fotografias só se fosse com cuspe e no próprio ecrã do computador); de modos que vou tentar publicar esta mensagem, só como teste. As minhas desculpas aos restantes camaradas: façam de conta que eu não estou aqui. Haverá parafusos a voar, algumas marteladas e o som do berbequim de vez em quando.

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Eu não sou de intrigas



Eu não sou de intrigas mas há para aí quem garanta que essa coisa do MEC e do JPC são heterónimos do Manuel Fonseca...

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Jogos particulares

Portugal é muito forte nos jogos particulares. Vejamos:

1º- A Selecção nacional hoje não precisava de ganhar à África do Sul. Ganhou.

2º- A cerâmica Bordalo Pinheiro faliu. A Visabeira comprou. Sócrates discursou.

Muito forte.

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Quando eu for grande V




Quero pilotar o Espadão.

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Manual do Preconceito 4

Numa entrevista ao "Correio da Manhã", o maior produtor de cinema português de sempre, Paulo Branco, disse que os seus filmes deveriam ser financiados - a fundo perdido, naturalmente - a partir de 1% do volume de negócios (sic) das estações privadas de televisão nacionais. Aplaude-se a iniciativa e sugere-se a cobrança coerciva de 1% dos rendimentos do Ministério da Educação, do Homem-Aranha e do Coelho da Páscoa.

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segunda-feira, 30 de Março de 2009

Os players da distribuição

A distribuição comercial em Portugal faz-se com tão poucos que, mais do que players, se parecem com as pintas de um dado.

Já aqui tinha escrito sobre a campanha que vi ao Modelo/Continente sobre o preço do pão. Na penúltima edição do jornal Expresso era Alexandre Soares, dos supermercados Pingo Doce e Feira Nova que estava "em cima" justamente por manter o preço do pão.

Na penúltima edição do jornal Sol, noticiava-se que "(..) No ano em que a Sonae comemora meio século, vão ocorrer mudanças na organização, com enfoque na Distribuição. A partir de 1 de Abril, o retalho vai estar dividido em três:o alimentar ( Modelo e Continente), o não alimentar ( retalho especializado) e o imobiliário de retalho (...)."

Ou seja, vamos ter o comércio alimentar para um lado, o não alimentar ( vestuário, mobiliário, ménage, por exemplo)para outro e ainda o imobiliário como terciro ramo autónomo. Revolucionário, não?

Não. Isto é o que faz o grupo económico francês " Os Mosqueteiros" desde que se instalou em Portugal há muitos anos.

Em França é já a distribuição que detém uma quota de 30% da venda de combustíveis, com as bombas de gasolina junto aos supermercados. Conseguem praticar bons preços desde logo porque compram em grandes quantidades para abastecer simultaneamente 200 ou mais postos de venda (dependendo do número que possuam).
Aliás, tanto é assim que o grupo " Os Mosqueteiros" já tem há muito uma empresa no seu seio que tem por objecto social o comércio de produtos petrolíferos.

Será que vamos ver a Sonae no negócio dos combustíveis?

Penso que sim, é só uma questão de tempo.

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Quando eu for grande IV

Quero cantar como o David Sylvian.

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domingo, 29 de Março de 2009

Quero o factor SPAC! Posso dizer o nome?



Caro MEC: bem-vindo a uma Geração que é obviamente e tua! Stage fright? Come on. Nós é que devíamos ter fright de partilhar o stage contigo.

Na nossa Geração havia um programa de rádio, o "Quando o telefone toca". Lermbram-se? Era preciso dizer uma frase do sponsor do programa e depois podia-se pedir para ouvir uma música (muitas vezes passava-se por cenas gagas em que um participante dizia a música que queria e o seu nome mas esquecia-se de dizer a frase, e o apresentador tinha de a pedir).

Para pôr o MEC à vontade, gostava de dizer que há um texto dele que ficou famoso nos meus tempos de Faculdade (1986?), e era passado em fotocópias entre nós. Provocou-me os maiores ataques de riso, daquele riso meio nervoso porque sabemos que no fundo é verdade, de que me lembro. Ainda hoje me lembro perfeitamente do texto.

MEC: posso desafiar-te a que o teu primeiro post seja a edição na blogosfera de "O factor SPAC"? Não sei se seria uma maneira de definitivamente atraires o blog para o lado do Bem, mas estarias de certeza a contribuir para a iluminação das gerações actuais (e, quem sabe, das vindouras).

Imagem: o Capitão Cuecas a preparar-se para um Salto.

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Il Primo Saggio


Entramos finalmente. Atrasados. Ofegantes. Ocupamos duas pequenas cadeiras de pau. Em torno, semblantes apreensivos e alguns olhares quase hostis. O ar, pesado, húmido. Tenso.


Dou a mão a minha mulher e lanço-lhe um último e furtivo olhar. Uma ruga que nunca vi está ali, profunda e rasgada sobre a sua fronte. Suspiramos nervosamente. Síncronos. Estamos ainda a tempo de abandonar a sala.


O primeiro e o segundo começam bem e acabam melhor. Magníficos na arte e elegantes na pose.


Por fim o momento esperado. Levanta-se e aproxima-se descontraído. Faz uma vénia e senta-se com as mãos sobre os joelhos. Quando depois de cinco intermináveis segundos finalmente as levanta e as posiciona precisas sobre o marfim, sustenho a respiração e fecho os olhos. Cravo as unhas na mão que aperto. Esqueco-me da câmara que trouxe no bolso.


Já cá fora fumo fremente o primeiro cigarro após uma longa semana de abstinência.


Estou orgulhoso de mim próprio.


Só falhou três das dezoito notas de “Il Cavalluccio di Legno” de um tal James Bastien.

Sobrevivi corajosamente ao primeiro recital de piano do meu filho.

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Fixing the future

As actuais respostas europeias à crise têm sido até agora desenhadas para remediar o passado. A prioridade da próxima fase deve ser preparar o futuro. Isso significa investir na inovação e utilizar os recursos escassos para fazer crescer novas indústrias e serviços que serão decisivos para a recuperação, quando esta chegar. As politicas de retoma, que começaram com Keynes - estimulo à procura e estabilização da banca - têm de mudar rapidamente para Schumpeter – para acelerar a inovação e preparar o novo ciclo de crescimento. Esta mudança é importante não só por razões económicas, sociais e psicológicas, mas também porque induz confiança e optimismo.


Em 2009, os dirigentes europeus têm de enfrentar dois conjuntos de desafios sem precedentes. Um deles é o desafio de uma recessão profunda, com todas as frustrações, medos e dilemas que tal acarreta - nacionalizar ou não os bancos, o que fazer com os activos tóxicos, e como impedir que grandes empregadores desapareçam. O segundo conjunto, menos visível, mas não menos urgente, é dar resposta a desafios como as a regeneração das cidades, o combate à pobreza, a melhoria dos sistemas de saúde e educação, novos modelos de apoio para populações idosas, as doenças crónicas. Acreditamos que as soluções para o primeiro desafio terão também de incidir sobre o segundo. Impõem-se sintonizar as iniciativas de curto prazo com preocupações de médio e longo prazo.


Alguns governos europeus estão a começar a fazê-lo. Vários planos de estimulos estão a ser direcionados para empregos verdes, reabilitação urbana, novas formas de energia, investimento em banda larga de alta velocidade e outras medidas para uma economia de baixo carbono. No entanto, pouco tem sido feito para colocar a a inovação como tema central nas estratégias de recuperação.


As grandes recessões do passado foram seguidas por alterações radicais na estrutura industrial, com o surgimento de novas industrias, muitas vezes suportadas por novas infraestruturas. Schumpeter, comtemporâneo de Keynes, reconheceu que algum grau de destriuição criativa é simultaneamente inevitável e muitas vezes necessário para uma nova dinâmica de crescimento. Economistas desta escola mostram que a prioridades dos governos preocupados com o crescimento é incentivar as infraestruturas do futuro (como banda larga e as smart grids) e assegurar condições para o empreendedorismo. Esses são factores chave para assegurar que a retoma será sustentável e baseada em fortes aumentos de produtividade.


Isto não é apenas válido para as empresas. Houve um tempo que os temas económicos e sociais era vistos em separado. A economia produzia riqueza, a sociedade gastava. Na economia do Século XXI, isso já não é verdade. Sectores como a saúde, os serviços sociais e a educação, tem tendência a crescer, quer em percentagem do PIB, quer como empregadores, enquanto outras industrias têm tendência a decrescer. Em muitos paises europeus, o sector social já emprega mais gente que os serviços financeiros. No longo prazo, a inovação nos serviços sociais ou na educação será tão importante como a inovação na industria farmacêutica ou aeroespacial.


O que deve então ser feito? O que propomos é uma estratégia de retoma do tipo finlandês na crise do início da década de 90 - baseada na inovação e acompanhada por inovação radical nos serviços públicos, deu origem a um novo paradigma de crescimento. É nevrálgico que a Europa não só não corte, mas antes acelere, os investimentos em inovação. Não só nas empresas, mas também na inovação social. A ideia que a inovação na soluções sociais pode ser tão importante como a inovação nos produtos e nos processos é uma ideia relativamente nova, mas está a fazer o seu caminho e poderá tornar-se chave na próxima fase de politicas. No mês passado, o Presidente Barack Obama lançou um Office of Social Innovation na Casa Branca. Em Bruxelas, o Presidente da Comissão Europeia Durão Barroso organizou um seminário para impulsionar a inovação social na Europa. Por todo o mundo, governos, fundações e empresas começam a reconhecer que precisam de novos instrumentos para fomentar a inovação nalguns sectores de grande crescimento – como a saúde, os serviços para a terceira idade e as industrias criativas - muitos deles economias mistas.


Temos rapidamente de mudar de mentalidade: deixar de ver a inovação como uma area reservada apenas cientistas e a empresas tecnológicas, e passarmos a ver a inovação como indispensável em todos os sectores. A recessão exige novas respostas, ao nivel macro (paises) e micro (cidades). Importa mobilizar a criatividade colectiva para as encontrar.


Artigo publicado no Expresso/Economia de 28 de Março, assinado por Diogo Vasconcelos e Geoff Mulgan ( Presidente da Young Foundation e ex-director de Policy Unit do Primeiro-Ministro Tony Blair)

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Manual do Preconceito 3

Em cinco meses, um português (Queiroz) destruiu o que um brasileiro (Scolari) demorou cinco anos a construir. Há muitos antecedentes: Pedro Álvares Cabral foi o primeiro.

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Protesto

Os países atrasados sé têm uma solução, desatrasarem-se. Isso faz-se aos poucos e em várias frentes, económica, social, etc., e cultural. Na cultura, os agentes do desatraso têm maior visibilidade, talvez porque são uma coisa individual: cada um de nós tem os seus, uns mais próximos, outros mais distantes. Eu tenho alguns desses agentes, são poucos, porque não sou muito de culturas, mas alguns. Entre os nacionais, posso elencar, de forma imperfeita, o Sr. Garrett, o Sr. Queirós, o Sr. Sequeira (à Estrela), a Sra. Silva (às Amoreiras), o Sr. Ferreira (o das Gaivotas), o Sr. Gonçalves (o dos Painéis), alguns familiares e amigos e o Sr. Reis (que é meio-bife e portanto não conta bem), estes entre os mais próximos e, voltando atrás, aos mais distantes, … o Sr. Cardoso. Agora, o Sr. Cardoso está aqui ao lado e eu não posso falar mais bem dele, pois isso não se faz. Daí o meu protesto. Claro que haveria uma solução para não protestar. Mas quem disse que protestar é mau?

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Quando eu for grande III



Hei-de jogar à bola como o Chalana.

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Os dois mitos

Assente a poeira do PREC e até 2005, existiam em Portugal dois mitos, no que ao Primeiro-Ministro dizia respeito.

Um, ideológico: o Primeiro-Ministro ou seria de direita ou seria de esquerda.

O outro, de natureza pessoal: o Primeiro-Ministro seria uma pessoa com uma formação académica e profissional digna de nota e reconhecida (curso superior clássico em Universidade de prestígio), carreira, formação sólida e diversificada, fluente em línguas, versado em matérias e conhecimentos vários.
A par da sua formação académica de excelência, também era aconselhável que do ponto de vista do carácter, cumprisse os "requisitos mínimos" commumente aceites.

Tanto assim foi que tivemos um Primeiro-Ministro que, embora nele se verificassem os dois pressupostos enunciados (de direita e com formação académica de relevo, completada em Inglaterra, e sem que houvesse quaisquer objecções do ponto de vista do carácter), ainda assim sempre foi olhado de lado por muitos por causa da sua modesta origem social.

Esses dois mitos cairam por terra em 2005.

Passámos a ter um Primeiro-Ministro que adoptou medidas típicas de direita e de esquerda, adoptando-as de acordo com as circunstâncias, sucessiva e indistintamente, de tal forma que se acabou com o primeiro mito.

Quanto ao segundo mito, o da excelência da formação académica e de um percurso profissional, o domínio de vários saberes, línguas, etc, a situação é pública e todos a conhecemos.

Aquilo a que estamos a assistir de uma forma genérica,é a chegada ao poder de pessoas para quem a política, e a posse do poder, é a única profissão que tiveram, têm ou terão.

Aliás, também o PSD teve um candidato a disputar a liderança de quem podemos dizer sensivelmente o mesmo no que se refere à ausência de verificação desses dois mitos.

Não me parece que seja por acaso que isto sucede. Ou que sejam episódios. Ou que seja uma moda passageira. E muito menos que tudo voltará ao "normal".

Os tempos mudaram definitivamente e vão aparecer mais casos semelhantes, isto já é "normal", isto passou a ser a "normalidade".

O que significa que temos de encarar a política e os políticos à luz de outras perspectivas, já não à luz desses dois mitos.

Fingir que ainda se verificam, e juntos na mesma pessoa, é um erro fatal para quem está no combate político e tem o mesmo interesse de dar murros em ponta de faca.

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sábado, 28 de Março de 2009

Ah, vai não vai, também aparece o João Pereira Coutinho

Palavra que não quero causar uma síncope a ninguém na bloga, mas temos mais uma novidade na Geração de 60. Depois do MEC, vai não vai, na lista de autores aparecerá o nome de João Pereira Coutinho. Já conversámos, já demos um aperto de mão, virtual e dos rijos, e o João até me anunciou ter uma estratégia fina e graciosa que estou proibido de antecipar. Agora é só ele receber e activar o e-mail de convite e inundar o blog com a irreverência, a provocação e os fulgurantes argumentos que, legitimamente, esperamos dele. João, estão abertos os jogos.

p. s. – Acho que em matéria de contratação da Primavera nos ficamos por aqui. De facto, não foi fácil – em dois dias de intensas negociações – arrebatar ao mercado Pelé e Garrincha de uma assentada só. Paramos? Não sei, não sei...

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Manual do Preconceito 2

José Sócrates e Fernanda Câncio receberam uma vaia geral depois de chegarem atrasados à estreia no CCB da ópera "Crioulo", que atrasou meia-hora por causa do sucedido. Parece que a demora se deveu ao homólogo cabo-verdiano do primeiro-ministro, José Maria das Neves, visivelmente irritado com o título do espectáculo. No entanto, se a ópera fosse "António e Cleópatra" de Samuel Barber, talvez Sócrates não se tivesse atrasado (aquele nariz...).

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Quando eu for grande II



Hei-de escrever como o Faulkner.

PS: Soa um bocado a Director do Sol, não soa?

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Clint, in excelsis

Ver "Gran Torino" é perceber que se está perante a grandeza. À semelhança de "Bird", "Honkytonk Man", "Bronco Billy", "White Hunter, Black Heart", "A Perfect World" e "Million Dollar Baby", é sobre um homem fora do seu tempo, a quem só resta a solidão das suas convicções, e revela-se um objecto sócio-cultural tão importante como o "Grandes Esperanças" de Dickens e o "Let It Be" dos Beatles. Há poucos filmes que nos tornam pessoas um bocadinho melhores. Este é um deles.

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sexta-feira, 27 de Março de 2009

Olha, está ali o MEC

Na barra lateral do Geração de 60, nos autores, apareceu uma sigla mágica: MEC. Os meus companheiros de blog pediram-me que fosse eu a esclarecer e esclareço.
É muito boa notícia. O MEC – sim, o Miguel Esteves Cardoso – a partir de agora, e ainda mais quando escrever o primeiro post, é da Geração de 60. Sei bem que não há direito e peço, já, mil desculpas à bloga em geral por metermos ao barulho o mais gentil, escandalosamente imaginativo e abençoado dos escritores portugueses.
Não vou dizer mais nada, para evitar uma torrente devastadora de adjectivos. O MEC é da Geração e damos-lhe as boas vindas. Vai aparecer por aqui logo que lhe apeteça.

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Finalmente, a carta.




Seguramente, um dos filmes da minha vida. Amanhã na cinemateca às 21h30. Não percam.

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Quando eu for grande...





Hei-de fotografar como o Ansel Adams.

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quinta-feira, 26 de Março de 2009

Manual do Preconceito 1

Para os homens, a mulher perfeita é disponível como a de Rubens, discreta como a de Giotto, sagrada como a de Rafael, intrigante como a de Modigliani, carregada de estilo como a de Tamara de Lempicka, nua como a de Goya e vestida como a de Goya. É por isso que acabamos todos num quadro de Edward Hopper.

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Da Visão: O poder




Bem sei que o Liberalismo não está na moda. Mas as convicções políticas não são exactamente uma questão de moda e, nos tempos que correm, parece-me particularmente útil relembrar que no centro da ideia liberal (de que, para o bem e o mal, as nossas sociedades políticas são tributárias) sempre esteve a questão dos limites ao exercício do poder. Desde Locke e Montesquieu, e sobretudo na tradição liberal de raiz inglesa, a questão política essencial é a da limitação dos poderes do Estado em nome da protecção dos direitos individuais, entendidos como «naturais» e, consequentemente, como «anteriores» à própria sociedade política. É desta preocupação, aliás, que derivam a teoria da divisão de poderes, a ideia do «rule of law», as constituições escritas e a própria tradição parlamentar.
Toda esta maçadora deriva pela teoria política vem a propósito da decisão anunciada pelo PS de romper as negociações com o PSD sobre a escolha do próximo provedor de justiça. Em circunstâncias normais, dir-se-ia que este é apenas mais um episódio de guerrilha política, absolutamente normal em democracia. Em circunstâncias normais faria sentido perder tempo a discutir as razões que assistem a ambos os partidos (que naturalmente se acusam reciprocamente do impasse a que se chegou). Acontece que não vivemos circunstâncias normais. Por várias razões. Porque Portugal é governado em maioria absoluta. Porque atravessamos um período particularmente sensível do ponto de vista do calendário político (um período em que se realizarão várias eleições). Porque se vêm repetindo, vindas um pouco de todos os quadrantes, acusações ao governo de «abuso de poder», de «arrogância», de «apetite pelos cargos públicos», de tentativas de «manipulação e de controlo da informação». Mas sobretudo por uma outra razão de que poucos têm falado: porque a crise financeira, económica e social que atravessamos tenderá a concentrar cada vez mais poder no executivo e no Primeiro-Ministro.
Não estou a sugerir nenhuma teoria da conspiração. É da natureza desta crise que assim seja. E o mesmo fenómeno aconteceria qualquer que fosse a cor do governo e qualquer que fosse a propensão do Primeiro-Ministro em funções para o exercício e o abuso desse mesmo poder. Mas é um facto indesmentível que, nos tempos difíceis que atravessamos, a tendência é para que se coloque na mão providencial do Estado – e do governo em particular - toda a esperança para a resolução dos problemas que nos afligem. É assim, infelizmente mas é assim, com os sindicatos, é assim com os patrões, é assim com as corporações e é assim com a generalidade dos cidadãos. De todo o lado se ouvem pedidos e se reclamam ajudas. Umas mais sensatas, outras mais oportunistas; umas necessárias, outras supérfluas; algumas mais justas, outras verdadeiramente obscenas. E é precisamente porque é esta a própria natureza da crise, que não me custa afirmar que José Sócrates é, provavelmente, o Primeiro-Ministro com mais poder em Portugal desde o 25 de Abril.
Esta é uma razão mais do que suficiente para que o PS tivesse actuado com mais bom senso no episódio da escolha do provedor. Não tanto pela importância intrínseca da questão em concreto. Mas pelo simbolismo da mesma. Porque o país precisa de receber sinais inequívocos de que, neste momento difícil, o governo saberá ser intransigente na defesa dos princípios liberais que são estruturantes da nossa democracia.

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Jogos Matemáticos em campeonato





O Campeonato Nacional de Jogos Matemáticos é uma pérola única em Portugal.





Organizado de forma autónoma pela Ludus, uma pequena associação que reúne os maiores especialistas portugueses em jogos matemáticos, e com a colaboração activa da APM e da SPM, o Campeonato Nacional mexe com cerca de três centenas de escolas do ensino básico e secundário, em que se colocam as crianças e jogar 6 jogos diferentes. Um cálculo back-of-the-envelope dá assim uma estimativa da ordem de 50.000 crianças que, numa altura ou noutra, são mobilizadas para desta forma lúdica encontrar

Na final, cada escola envia um representante por jogo. Quase três centenas de escolas, meis dúzia de jogos, mais de um milhar de crianças de todas as idades e de todos os pontos do país - a aprender matemática e a adorar!

A final, em que estiveram presentes 1210 jogadores dos ensinos básico ao secundário, teve lugar na Universidade da Beira Interior, a 13 de Março.
A organização esteve a cargo da Associação Ludus, Associação de Professores de Matemática, Sociedade Portuguesa de Matemática e Universidade da Beira Interior. Os campeonatos anteriores foram organizados pelas três primeiras instituições (em parceria com outras, locais) e tiveram lugar em Lisboa (2004), Aveiro (2006), Évora (2007) e Braga (2008).

Esta edição do CNJM contou pela primeira vez com a participação de invisuais (!). Foram utilizados materiais desenvolvidos pela Associação Ludus especialmente para este efeito. Mais fotos e informação (em inglês) aqui.

Sobre os jogos desta edição:

O Semáforo é um jogo de alinhamento (três em linha) que se desenrola num tabuleiro rectangular 3x4
(Eu já joguei Semáforo com o meu filho de 8 anos e fartei-me de perder).


Konane é o jogo tradicional do Hawai, que despertou o interesse dos especialistas em Jogos Combinatórios nos últimos tempos, sendo campo activo de investigação.

Ouri é um jogo da família dos Mancala, versão praticada em Cabo Verde.

Hex é o famoso jogo de conexão inventado por Piet Hein e John Nash, cujas ligações à matemática são profundas e surpreendentes.

Rastros é um jogo recente, de grande mérito táctico.

Avanço é baseado no movimento dos peões do xadrez, com grande complexidade táctica.

Todos os documentos, regras, regulamentos, etc estão disponíveis aqui.

Vale a pena ver a reportagem que passou na RTP1. Por estranho que pareça, às vezes passam na TV coisas que vale a pena ver.


Parabéns Profs. Jorge Nuno Silva, João Pedro Neto, Carlos Pereira dos Santos e todos os outros que tornaram estes momentos possíveis. Parafraseando o físico americano Leo Szilard, são coisas como esta que fazem com que Portugal se torne um país que mereça ser defendido.

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Social Networking Terrorists

Estou convencido que o Facebook, o Linkedin, o Blogger e outras aplicações afins foram criados por uma organização terrorista com o objectivo de apagar do mundo quaisquer vestígios de produtividade e de pôr de joelhos o que resta da civilização e inteligência humanas. Alias, o declínio económico a que assistimos é, segundo a minha opinião, uma consequencia directa e exclusiva destas perniciosas aplicações (ver gráfico).



Senão vejamos.

Tomemos como exemplo um qualquer meu dia de trabalho.

Ás primeiras horas da manha antes de abrir o Outlook e mergulhar nas centenas de incómodos e irrelevantes e-mails que me esperam, faço uma visita relâmpago ao Hotmail para ver se recebi e-mail na minha conta pessoal.

Aí, encontro os importantes updates do Linkedin, do Facebook, do Plaxo, da Apple, do Star Tracker, do portal do cidadão, dos Supermercados Esselunga, e do ubíquo IKEA.

Após a reunião das nove verifico no Linkedin quem foi promovido, quem foi despedido (mais os últimos que os primeiros), quem se “linkou” a quem e quem se transferiu para outro país.

Imediatamente a seguir à intromissão de um telefonema por volta das dez, aproveito para ver se nos dois ou três blogues que sigo se publicou algo de interessante. Hoje mesmo li um post bastante profundo sobre a religião das abelhas, um outro bastante venenoso sobre a textura das almofadas do parlamento Europeu e ainda um outro particularmente pungente sobre as pragas de mosquitos que se reproduzem nas aguas estagnadas de piscinas que, nas casas abandonadas devido ao credit crunch no Arizona lhes servem de viveiros.

Antes de almoço tenho ainda tempo de visitar o Facebook, no qual respondo ao incisivo inquérito “What type of beer are you?”. Sou uma “Duvel” belga. Exprimo ainda o meu estado de espírito numa curta mas relevante frase do tipo “Tired of working, I’m ready to go on a vacation to the Maldives” e acabo a espreitar o mundo real lendo na diagonal e online os títulos principais da BBC, do Publico, do FT e do Corriere della Sera.

Durante a tarde, entre uma aborrecida reunião com um “Finance Controler” americano e uma outra com uma escorbútica directora de HR Croata sobre mais um inútil “Talent assessment review”, decido dedicar-me ao detalhado estudo de uma serie de interessantíssimas fotografias, que uma amiga que não vejo desde os tempos do liceu partilha com o resto do planeta e onde ela própria (está igual, mas mais gorda), sorri com turistica alegria para a câmara endossando luminosos e coloridos fatos de ski na companhia do marido e dos filhos numa qualquer estância de neve Espanhola (constato angustiado que casou com o surfista da turma B).

Ao fim do dia, tendo decidido ir para casa ás sete da tarde de forma a ainda poder dar um contributo à educação dos meus filhos, decido escrever mais um post, que duas pessoas se darão ao trabalho de ler e um iluminado anónimo proveniente do Rio Grande do Sul de comentar.

Chego a casa ás dez da noite. Os meus filhos dormem já à horas. Estou cansado mas satisfeito e com a convicção de dever cumprido. Estou “conectado” com o mundo e altamente produtivo no manter das minhas relações pessoais e profissionais. A minha contribuição para a economia mundial, essa, foi de exactamente menos 23 “basis points”.

É pois evidente que quem ganha sao os terroristas do “social networking”.

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Clube das Repúblicas Mortas

Ainda agora começou e já é bom. Vai ser sempre bom. É uma concorrência injusta, mas o que é que se há-de fazer. Chama-se Clube das Repúblicas Mortas e é um novo blog. Assinado por Henrique Raposo e Rui Ramos. Uma tentação para ler diariamente. Aqui.

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quarta-feira, 25 de Março de 2009

Facebook

Estou a gostar do facebook, transporta-me à minha infância:

- Tens este?
- Tens p´ra troca?
- Já tenho.

A alegria vinha dentro de pacotinhos de cromos. A maioria repetidos, diga-se.

Facebook Panini, já comecei a minha colecção.

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III Em nome da matemática

A matemática é certa

Mais uma vez: será? Não me parece. Porque, em boa verdade, quando se afirma a certeza, é algo bem diverso o que se pretende defender: é uma segurança pessoal de merceeiro. Quem o pensa está apenas a dizer: “o meu pai lá na mercearia quando somava dois e dois dava sempre quatro”. Em matemática dois MAIS dois não são sempre quatro. Depende da estrutura algébrica. Bendita seja ela que nos dá mais liberdade que a do merceeiro. A matemática não é para almas timoratas.

O que se quer dizer então? Não é que a matemática é certa, mas que é desprovida de aventura, instala-se ao balcão de uma mercearia, e as contas batem todas certas. Ora isto é exactamente o contrário da matemática.

É evidente que existem desenvolvimentos autónomos nesta área. Mas se tivesse de escolher um momento particularmente significativo na história da matemática diria que foi a criação da análise infinitesimal. Simplificando, existem dois grandes momentos: um grego, com a demonstração, outro europeu, com a análise.

A análise surge no fim do século XVII com Leibniz e Newton e desenvolve-se ao longo dos século XVIII sobretudo com a escola suíça e francesa (os Bernouilli, Euler, d’Alembert, Laplace).

O problema da análise é que tem duas vertentes. Por um lado é um instrumento poderosíssimo, que invade todas as áreas da ciência. Mas por outro, tem buracos imensos sob o ponto de vista formal. Um dos melhores exemplos disto é Euler. Genial matemático sem dúvida. Mas convenhamos: escrever 0/0 ou 0*∞? Não é de espantar que tenha sido tão desvalorizado perante alguma snobeira formalística da nossa época. Não lhe cai em demérito, no entanto. Quer apenas dizer que era capaz de mexer directamente na massa matemática e dela extrair resultados mesmo sem a imensa ajuda do formalismo. Mas o lapso de Euler é significativo. É o que outros matemáticos sentem estar a fazer na sua época e não são capazes de explicar.

Se os matemáticos padecessem do mal da época, um postulado de eficiência chã, diriam que não tem sentido perder tempo com os buracos da matemática. Aliás poderiam fazer bem melhor: quem repararia nos buracos da análise senão os matemáticos? Poderiam vender-nos um produto inegavelmente maravilhoso, a análise. E se nada nos dissessem dos seus buracos ninguém perceberia nada. Afinal é preciso ser matemático para o perceber.

E no entanto nos últimos duzentos anos grande parte do esforço matemático tem sido o de tapar os buracos impostos pela análise infinitesimal. Aparece Cauchy com a sua teoria dos limites. Vem o bom do Weierstrass e lembra que a coisa não é tão simples. Precisa-se de uma teoria da vizinhança. Aparece Cantor e dá a ideia da teoria dos conjuntos. Frege afirma que a coisa é redutível à lógica. E eis que o incomodativo Russell lembra que a teoria de Frege cai pela base. Pior: Gödel demonstra que um sistema lógico não pode ser consistente e completo ao mesmo tempo. Turing descobre que não se pode decidir a priori que uma proposição é demonstrável.

Simplifico a narrativa, é evidente, mas a História da matemática tem mostrado que quem a cultiva não tem medo da aventura, têm a probidade suficiente para isso. O merceeiro que tem as contas certas poderá ser probo, mas não gera cultura. Os matemáticos têm a vantagem inversa.

Se bem virmos o pano de fundo dos lugares comuns em relação à matemática é o de não ser cultura, de não fazer parte da cultura, de ser dela independente. Numa pequena parte os matemáticos têm culpas por insistirem na natureza universal dela, o que é verdadeiro quanto aos efeitos, mas esquecerem a natureza local da sua criação. No restante, a responsabilidade é de uma sociedade que tem horror à cultura superior e por isso se sente ofendida com a matemática, que lhe lembra que por mais retórica da igualdade que tenha, é apenas ignorante. Pode-se aldrabar na matemática, sem dúvida. Mas é das raras áreas onde mesmo para fazer fraude é preciso inteligência e um mínimo de conhecimentos. E isso custa a um mundo rapidamente cansado de tudo o que implique inteligência.

Quais são os lugares comuns? A matemática são fórmulas, é seria, objectiva, neutra e certa. Depois de termos feito uma viagem (rápida, a distância é curta) pelo cérebro do comum, vemos que afinal não é nada disso que quer dizer. No fundo afirma que a matemática não é cultura, é destituída de fineza, é inumana, vive fora da cultura que a criou e não tem aventura. Por muitas vias esta caracterização pelo vulgo pretende afastar a matemática do ser humano e da cultura, do que é viva.

Não preciso de falar em nome da matemática, que ela fala por si. Mas havendo tanta orelha mouca de vez em quando é preciso quem fale em vez dela. Algumas criações humanas são tocadas por centelha divina e a matemática é uma delas.



Alexandre Brandão da Veiga

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terça-feira, 24 de Março de 2009

The End of the Rainbow

Já passou a febre do debate sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo. Agora que o ruído diminuiu, talvez valha a pena fazer aqui o elenco de algumas opiniões, digamos, fracturantes.
“O melhor argumento contra o casamento de pessoas do mesmo sexo é o argumento contra o casamento.” Foi o que disse um activista gay, Michael Bronski, professor de estudos gays e lésbicos do Dartmouth College. Juntam-se-lhe outros argumentos de autoridade gays e lésbicos. Camille Paglia é contra: escreveu-o no livro “Vamps & Tramps” e sustenta-o também aqui, sublinhando que “o casamento é um conceito religioso que deve ser definido e administrado só pelas igrejas”.
Outro activista, Mark Simpson, escreveu no seu blog e no “The Guardian”, um artigo intitulado “Let’s Be Civil: Gay Marriage Isn’t The End of The Rainbow”. Simpson tempera o seu argumentário neo-clássico com uma arrojada réplica de Elton John: “I don’t wanna be anyone’s wife”.
São, vindos de onde vêm, os mais surpreendentes argumentos que já ouvi sobre o casamento gay. A discussão em inglês é, digamos, outra coisa.

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II Em nome da matemática

A matemática é objectiva

Nesta acepção popular não me parece que seja verdadeiro. Não que eu embarque na fraude pós-moderna que afirma que a ciência é um ritual como outro qualquer. Se assim for, não se percebe porque razão quem defende esta tese vai a um especialista ser operado ao cérebro e não a uma lavadeira. Esta última lá terá os seus rituais para a operação, nem que seja por via do martelo.

O que se quer realmente dizer com isto é que a matemática é inumana, o que é absolutamente falso. Os matemáticos são seres humanos. Seria preciso lembrá-lo? Mas mais importante que isto, muitos bloqueios psicológicos, humanos, tiveram um papel essencial na História da matemática. Os números imaginários são conhecidos há muitos séculos. Apareciam nas equações quadráticas e os matemáticos benziam-se quando os resultados eram reais. Eram vistos como um passo desagradável que com sorte se poderia esquecer.


Da mesma forma, geometrias não euclidianas já se faziam desde há muito tempo. Muito matemático para demonstrar que a violação do postulado das paralelas gerava contradicção fizeram matemáticas não euclidianas. E sabiam que o estavam a fazer. Faziam-no intencionalmente. Mas a aceitação psicológica da legitimidade (conceito de valor se o há) da geometria não euclidiana (ou das geometrias) estava por fazer. Foi necessário dar esse passo.

A matemática é neutra.

Neutra em relação às civilizações, às religiões, às filosofias? Não me parece. Mais uma vez o que se quer dizer é antes do mais que a matemática está fora de cultura, que é inerte em relação a ela. Nada mais falso. A matemática é feita por matemáticos. E estes vivem numa cultura e só a superam na medida em que bebem dela. É sempre nos seus quadros que trabalham, nem que seja para os negar, completar, superar ou criticar. Nada de mais básico que este fenómeno na cultura.

Arquimedes e os indianos teorizaram sobre números monstruosos. Arquimedes e Eudoxo (dizem que Anaxágoras reconheceu os infinitesimais, mas parece-me algo abusivo) conheceram o método da exaustão. Mas a verdade é que a análise infinitesimal nasce em espaço cristão.

Não que os gregos desconhecessem o que fosse o infinito. A questão parece-me ultrapassada desde Mondolfo. Mas sob a capa de “apeiron” estava coberto o indistinto, o infinito, o ilimitado, o confuso. Mesmo o Nirvandna poderia aqui caber.

O infinito como objecto diferenciado, autónomo, de pensamento, e positivamente valorado, é criação cristã e sobretudo da ortodoxia ocidental. Para que houvesse a possibilidade civilizacional da sua criação foram necessários quase dezasseis séculos de teologia cristã.

É evidente que a matemática, como em geral a ciência e por maioria de razão a tecnologia, tem uma forte inércia de movimento. Depois de criada, os seus desenvolvimentos são relativamente neutros. Mas a sua criação, o ponto fulcral da sua inovação e renovação, tem sempre pressupostos ideológicos.

Mais uma vez esta premissa pretende afastar a matemática do campo da cultura. O problema é que este é o único lugar comum de que padecem os próprios matemáticos ao invocarem a natureza universal da sua ciência. Algo pode ser universal quanto aos resultados e ser local quanto à criação.

Um outro exemplo dessa dependência da cultura existente é a vocação matemática. Porque existe uma crise de vocações em todo o mundo ocidental? Porque a matemática exige demonstração, noção de hierarquia e cumulação de conhecimentos. Sem demonstração, apenas há contas de mercearia. Sem noção de hierarquia, como distinguir o que é um problema profundo de matemática de um outro que pode ser até difícil mas é trivial? Sem cumulação de conhecimentos, entra em ruína toda a possibilidade de relação matemática.

Ora na nossa época o modelo vigente obedece a três princípios totalmente opostos a estes: a afirmação arbitrária e não sustentada, a igualdade planar, e um processo substitutivo no conhecimento. A afirmação arbitrária e infundada passa por liberdade. Quem a sindica passa por ditatorial, que pretende impor limites à liberdade de expressão. A igualdade planar não admite que haja hierarquia, que uns sejam melhores que outros, e por isso que quem acabou de aprender a fazer uma soma é tão valorizado (ou mais, desde que jogue futebol) quanto o que descobriu uma verdade profunda na matemática. O regime substitutivo no conhecimento leva a que o que determina o discurso seja a ultima notícia no jornal, mesmo que o discurso de hoje seja contraditório com o de amanhã e tenha sido contrário ao de ontem.

A isto juntamos a fraca valorização económica da matemática pela sociedade, que paga a administradores de empresas imensamente mais que a grandes matemáticos, e ao desejo de sucesso económico, é a sociedade a determinar em grande medida, não os conteúdos, mas o nível, a motivação e a quantidade dos produtores de matemática.

Que a matemática seja neutra é igualmente infirmado por problemas aparentemente apenas matemáticos. Pensemos na hipótese do contínuo. Vagamente suspeita de indecidível, até agora ninguém a conseguiu demonstrar nem o seu contrário.

E no entanto é tão simples de demonstrar. Basta ter um axioma que diga que Aleph apenas admite, como índices, inteiros positivos e o zero. Com este axioma fica facilmente demonstrada. Porque razão os matemáticos não ficariam satisfeitos com esta demonstração (singeleza da dita esquecida) e não se anuncia ao mundo que alguém acabou de demonstrar a hipótese do contínuo?

Porque o grande desafio não é tanto do demonstrar a hipótese do contínuo, mas integrar esta demonstração na imensa sinfonia que é a do corpo dos reais. Se os matemáticos não ficam satisfeitos e com razão, é por razões matemáticas, mas que têm assento estético e metafísico, assentes sobre a noção de todo. É verdade que um matemático pode retorquir que são razões puramente matemáticas. E ele tem direito de as ver como matemáticas, porque se incorporaram na sua ciência. Mas as necessidades e finalidades de demonstração mudaram com as épocas históricas. Um grego não tinha apenas diferentes instrumentos de demonstração. Via-a com finalidades pensadas de modo algo diverso. Dele recebemos a herança, mas fizemo-la frutificar.

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segunda-feira, 23 de Março de 2009

I Em nome da matemática


O lugar comum é o de que a sociedade do futuro é uma sociedade de conhecimento. Nem vou discutir esta questão agora. Aceito a premissa. Mas quando os jornalistas nos querem falar da sociedade de conhecimento, que mostram eles? Máquinas e tecnologias. Ora, as máquinas e as tecnologias não são conhecimento. São um resultado ou um instrumento desse conhecimento.

Só há uma sociedade de conhecimento quando se esteja pronto a enfrentar, discutir e estudar os elementos desse conhecimento. Por isso falar em nome da matemática é infinitamente mais importante que falar em novas tecnologias ou máquinas.

Confesso que há três coisas que admiro nos matemáticos, que estão intimamente ligadas entre si: o génio, a noção de hierarquia e a probidade.

Mas a matemática está inquinada de uma vizinhança de malentendidos e de lugares comuns que são particularmente agastantes.

A matemática são fórmulas.

Realmente? Algumas das obras mais fundamentais para a História da matemática não têm uma única fórmula. A lição inaugural de Riemann em que pela primeira vez se destrinça na geometria a métrica e a topologia. Os textos de Frege sobre os fundamentos da matemática.

Fórmulas é a colecção Shãun da MacGraw Hill, o exemplo máximo do que não é a matemática. Fórmulas, exercícios resolvidos, exercícios por resolver. Fórmulas, exercícios resolvidos, exercícios por resolver. Trabalho mecânico em que nada há de matemática em sentido próprio e na sua grandeza.

O que subjaz a este lugar comum é algo bem diverso. É a ideia de que matemática não é cultura. Nada mais falso. A matemática é uma forma superior de cultura, mesmo uma forma superior de poesia. Mais ainda: se em todas a áreas existem diversas modalidades de criadores, a matemática apresenta-os na maior paleta de diversidade. Há matemáticos artistas, como Euler e Poincaré, mais intuitivos, aglutinadores, encontrando em cada recanto que tocam problemas, caminhos e soluções matemáticas. Há filósofos, como Pascal e Leibniz, que a cada passo matemático vêm implicações filosóficas e teológicas e vice-versa. Há matemáticos eruditos, como Hilbert e Lindemann.


A matemática é séria.

Será? Não me parece que o seja, nesta acepção enfadada. Só há pouco tempo descobri o delta de Kronecker. Confesso que ignorava o que fosse. O cenário é muito frequente na matemática. Surge uma definição que parece absolutamente arbitrária e a despropósito. E qual a primeira consequência? A propriedade de “sifting”, de peneira. Quando a vi ri-me com gosto. Porque só os matemáticos têm esta arte de nos levarem a implicações simultaneamente evidentes e inesperadas. A literatura contemporânea quando é inesperada é tonta e quando é evidente é enfadonha. Bem podiam os artistas contemporâneos retirar lições dos matemáticos.


Os matemáticos têm um sentido da narrativa, do drama, mesmo da situação cómica, que poucos têm na nossa época, tão destituída de sentido de humor. Melhor faríamos se aprendêssemos com a sua falta de “seriedade”, na acepção popular.

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Com tranquilidade...



Só quero dizer ao Manuel Fonseca e ao Pedro Norton que, apesar de tudo, nós cá andamos... sempre em frente, com muita tranquilidade.

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domingo, 22 de Março de 2009

Amarrados

Hoje, a Geração de 60 foi particularmente bem tratada. Experimentem ir ler. Também é verdade que o retrato nos foi tirado quando exibíamos dois imparáveis sorrisos de vitória. Posto o que, e também por nos parecer irresistível um blog que tanto exalta a fotografia de Nobuyoshi Araki, ficamos a partir de agora umbilicalmente amarrados à Mátria Minha. Basta um clic.

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Perfect Day





Uma das minhas músicas preferidas de Lou Reed rezava assim:

Just a perfect day,
Drink sangria in the park,
And then later, when it gets dark,
We go home.
Just a perfect day,
Feed animals in the zoo
Then later, a movie, too,
And then home.

Oh its such a perfect day,
Im glad I spent it with you.
Oh such a perfect day,
You just keep me hanging on,
You just keep me hanging on

Just a perfect day,
Problems all left alone,
Weekenders on our own.
Its such fun.
Just a perfect day,
You made me forget myself.
I thought I was someone else,
Someone good.


Ontem foi um desses perfect days: Expresso pela manhã e ainda tempo para acabar de ler o último Paul Auster («Um homem na escuridão», indiscutivelmente um dos seus melhores romances); uma sessão na Cinemateca Júnior com o meu filho para ver o mais alucinogénico dos filmes da Disney; um fim de tarde memorável em que juro ter visto um braço inteiro a sair do peito de Pedro Silva; um jantar com amigos; «and then home». É possível pedir mais?

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A leonina jeremíada

Mais astuto e ágil do que o veloz Ulisses, Quim mereceu mesmo ganhar a Taça. E o Benfica também, a começar pela primeira oportunidade perdida logo no começo do jogo - ai NG, ai NG!. É verdade que o senhor de amarelo deu uma enorme casa ao marcar um penalty inventado pelos braços de Di Maria (na melhor tradição teatral de Buenos Aires). Mas o futebol sempre foi assim - lembram-se, já que estamos com a mão em memórias argentinas, do golo mítico e inolvidável que Maradona marcou com a mão de Deus, numa das mais indesmentíveis provas da Sua existência?
É por isso que não há paciência para a chiadeira que soa para os lados de Alvalade. A jeremíada leonina atingiu o ridículo e é um desmentido da história do futebol. Chega de baba e ranho. Componham-se. Ou, como, no "The Godfather", o Marlon Brando, digo Don Corleone, dizia ao aflautado e meloso cantor de Hollywood que lhe vinha pedir ajuda: "Act like a man!"

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O herói

Uma das minhas regulares e mais reaccionárias leituras é a revista inglesa "The Spectator". É intelectualmente superior e escrita num inglês tão irrepreensível que não sentimos o mínimo embaraço quando, e acontece, não compreendemos uma frase ou uma expressão nos obriga a consultar três dicionários e nem assim desfazemos a dúvida. É o preço a pagar pelo convívio com um jornalismo ensaístico de excepção.
Por vezes, os artigos são mesmo comoventes. Lembro-me que, em Janeiro, Richard Orange escreveu sobre a difícil recuperação económica do grupo Tata, os donos do hotel de Mumbai que foi alvo do ataque protagonizado por terroristas paquistaneses. Os Tata são um prestigiada família indiana que construiu um autêntico império económico, de que o hotel Taj Mahal Palace é emblema histórico. Luxo, conforto e cosmopolitismo eram os traços que os hóspedes reconheciam. Depois do ataque de 26 de Novembro de 2008, o mundo descobriu um outro valor mais profundo do grupo empresarial Tata, o heroísmo.
Quando os terroristas invadiram o hotel, com granadas e metralhadoras AK, no meio do caos os empregados do hotel não fugiram, mantendo-se nos seus lugares e funções, e foram decisivos para salvar os clientes que estavam obrigados a servir. O sentido do dever, a lealdade, a coragem e disponibilidade para o sacrifício dos funcionários do Taj deixam-nos, se pensarmos um bocadinho, sem fala. Ao todo, 12 empregados morreram a tentar salvar os hóspedes.
A história que me faz ter mais vontade de ser indiano é a do manager do hotel, Karambir Kang. Foi ele que dirigiu toda a evacuação dos hóspedes, apesar de saber que a mulher e os dois filhos podiam ser vítimas do fogo com que os terroristas queimaram o 6º andar, onde a família vivia, numa suite. Karambir Kang é filho de um general indiano reformado. O pai, quando ele, angustiado, telefonou a pedir conselho, disse-lhe, e cito a "Spectator": “Faz tudo o que puderes para salvar a tua família, mas nunca abandones o teu posto.
Kang perdeu a família, mas salvou inúmeras vidas. Os que foram salvos não pouparam palavras de apreço e admiração a este herói. Será que nós, que não vivemos a situação, somos mesmo, para além da retórica, capazes de o admirar?

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De pé, ó vítimas da fome

Gosto das crónicas de Patrick Besson na revista “Le Point”. Besson é um escritor nómada, com livros publicados em muitos editores e colaborações que vão do “Le Point” ao “L’Humanité”. Filho de pai russo e mãe croata, de simpatias comunistas, Besson é um daqueles espíritos livres que pensa pela sua cabeça e nunca nega os seus prazeres.
Há dias escreveu uma verrinosa crónica sobre a amável figura do “académico francês”. Começava assim: “Il arive au déjeuner ou au dinner avec la petite mine gourmande de celui qui a de bonnes histoires à raconter sur ses récentes rééditions en France et à l’étranger.
E prosseguia com este toque florentino: “Il s’assoit avec la souplesse aguerrie des hommes de lettres dont la vie consiste avant tout à s’asseoir.
Aceitam-se ajudas para definir o “académico português”.

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sábado, 21 de Março de 2009

A pureza


A propósito da atribuição dos prémios aos gestores da AIG nos EUA, o Presidente Obama e os responsáveis americanos consideram-na imoral, declararam-lhe uma guerra sem quartel e vão atrás desse dinheiro, nem que seja até ao inferno.

Por estes dias Sócrates, à saída de uma reunião europeia,fazia algumas afirmações e referia-se a um "dever moral". Disse-o Sócrates, como o poderiam ter dito alemães,franceses, espanhóis ou italianos.

Nos Estados Unidos, fala-se em criar um imposto ou taxa para fazer voltar aos cofres do Estado aquelas verbas "imorais". Nesse caso o imposto é o instrumento da moralidade.

Na Europa continental os Princípios da Legalidade e da Tipicidade não permitiriam a criação de nenhum imposto, muito menos reaver as verbas.

No velho continente gostamos das leis puras, expurgadas de qualquer moralidade. Se os prémios tivessem sido atribuídos em Portugal, ficavam na esfera jurídica de quem os tivesse recebido, graças à nossa sacrossanta figura dos "direitos adquiridos".

Pureza nas leis, temos muita.
Direitos adquiridos, também temos muitos.
Moral, nenhuma.

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sexta-feira, 20 de Março de 2009

Bosch, Cristo, o Papa e os preservativos



É já a terceira vez que aqui coloco a imagem deste quadro de Jerónimo Bosch (Cristo carregando a cruz, 1490, Museu de Belas Artes, Ghent, Bélgica), que ainda há pouco tempo, porém, desconhecia. Tenho-o agora como pano de fundo no ecrã do meu computador. É um quadro extraordinário: quanto mais o olho mais se me mostra – e mais se me esconde.
Como qualquer quadro, porém, reflecte as ideias da sua época, uma das quais – que é que agora aqui me interessa – é a da relação que deve existir entre o poder espiritual e o temporal. Nesse sentido, lá está Jesus Cristo, no meio do quadro, serenamente iluminado, serenamente iluminando, passando por todos os sofrimentos e dores deste mundo, que voluntariamente carrega sobre as costas.
Ora, é justamente este o ponto. É ali, no meio das pessoas, que Jesus Cristo está, que Jesus Cristo se encontra. De olhos fechados, sereno, é pessoalmente que nos fala, é interiormente que nos move e nos transporta, a partir deste mundo, para o reino de Deus, ou do espírito, o qual não é deste mundo.
Assim deveriam fazer também os sucessores de Pedro. Mas não. Há temas, aliás, como este do uso dos preservativos, em que a Igreja teima em não aprender. Não discuto sequer a razão ou não razão da sua posição sobre o uso dos preservativos. Não contesto o abuso mediático que é negativamente feito a partir das suas posições. Julgo, no entanto, que o Papa não deve falar sobre isso em conferências de imprensa dadas à entrada para um avião no início de uma visita de Estado.
Olhemos aqui para o Papa, na dita visita ontem mesmo iniciada, e olhemos de novo para Cristo, tal como o mostra o quadro de Bosch. A diferença é clara.
Quanto a mim, o Papa deve falar inspiradamente à Igreja e na Igreja, a qual deve falar pessoalmente a cada um dos que, livremente, aceitem a graça que, segundo crêem, lhes foi dada por Deus. Na verdade, o reino de Deus, que neste mundo anunciam, não é deste mundo, pelo que esse anúncio deve ser feito a partir dessa outra autoridade – a do espírito – que só interiormente nos fala... e não em conferências de imprensa onde por meio de um conjunto imenso de fios se dirigem para os olhos e os ouvidos indiferenciados de uma massa. Nós não ganhamos nada com isso. E a Igreja, visivelmente, perde.

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"Portugal Maior"



O mundo ocidental confronta-se com o envelhecimento da população. A terceira idade é uma realidade tão presente que, com a melhoria do nível de vida das populações e o aumento da esperança média de vida, já se fala de uma "Quarta idade".

A terceira e quarta idades trazem novas questões, ao mesmo tempo que fazem nascer novas profissões, serviços e indústrias.

A título de exemplo, vários estudos europeus apontam já no sentido se permitir que aqueles que atinjam o número de anos necessário para a reforma possam continuar a trabalhar, se essa for a a sua vontade - o que se compreende face à questão da sustentabilidade do sistema de segurança social.

Relativamente à quarta idade, a assistência, por vezes necesária, faz nascer empresas e novos profissionais.

Ao mesmo tempo que estudos de marketing apontam como um grupo específico de consumo, aquelas pessoas com mais de 55 anos se encontram já reformadas/aposentadas, com poder de compra e disponibilidade de tempo e dinheiro.

Vem isto a propósito de uma recente campanha que vi passar na tv chamada " Portugal maior" da responsabilidade do Ministério da Economia e da Inovação.

Vi sempre o mesmo spot ( não sei se é o único, ou se haverá mais). Mas não gostei daquele que vi.

Vi praias, sol e dois manequins, lindos, magros e bronzeados. Com aquela beleza que alguns têm a sorte de possuir quando, com vinte anos, vão acampar para o Alentejo.

Num tempo de crise em que vivemos, não me parece que seja um par de namorados com vinte anos que vá passear e conhecer Portugal.

Quem é o público alvo daquela campanha? Não serão casais de trinta ou quarenta anos com filhos pequenos, não serão séniores, a terceira idade, não serão pessoas interessadas em conhecer a cultura, a gastronomia, não serão jogadores de golfe?

Conheço bem a fixação da publicidade e do marketing com a "qualidade aspiracional" ( isto era o que me diziam na grande distribuição alimentar), mas será que algum destes públicos alvo se revê naquela campanha?

Penso que não e, desse ponto de vista, uma campanha que não cumpre o seu propósito, muito por causa de uma ideia serôdia de umas agências,de uns assessores e de um Ministério.

Por oposição,chamo a atenção para uma foto que anda aí nas revistas de que gosto e não consegui encontrar para aqui colocar, de um produto de uma seguradora ( Zurich, passe a publicidade). Dois velhotes, ele de fato de mergulho, ela de fato-de-banho e máscara, a fazerem mergulho.

Cool, não?

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Aspirational Living: Annie Hall (Woody Allen 1977)

Copio aqui esta pérola que - confesso - não sei onde fui buscar.
Sob o titulo de Aspirational Living estarão todos as preferências de um blogger (agora desconhecido) tal como as encontrou no magnifico Annie Hall. Aliás, mais do que preferências estamos face a um estilo de vida.
Presta-se a mais um "faça você mesmo o seu Aspirational Living".
Afinal todos devemos ter um.

WRITING FOR TELEVISION


TENNIS


INTERIOR DESIGN


KHAKIS AND SAFARI JACKETS


ARGYLES & PLAIDS


PHOTOGRAPHY


ADULT CHILDREN


MOVIEGOING


BERGMAN


POST APOCALYPTIC COUTURE


BOOKS AND BOOKSTORES


CABARET








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quinta-feira, 19 de Março de 2009

A revolução política da Europa

Sem mudança de regras ou alterações de Tratado, hoje a natureza política da Europa mudou. O anúncio público pelo PPE de que apoia a recandidatura de Durão Barroso a Presidente da Comissão Europeia (ver aqui) pode alterar significativamente a política na Europa. Pela primeira vez, os eleitores europeus vão votar num líder do executivo europeu. Se os outros agrupamentos políticos europeus também apresentarem candidatos vamos ter umas eleições europeias semelhantes às eleições nacionais: uma competição política entre projectos políticos europeus alternativos que são representados por diferentes líderes políticos, todos candidatos a presidentes do "governo" europeu. Talvez seja possível ter finalmente umas eleições europeias sobre a Europa… A outra consequência é que o Presidente da Comissão que resultar desta competição eleitoral terá uma legitimidade política que nenhum outro líder das instituições europeias alguma vez teve: na prática, ele não será escolhido pelos governos nacionais (na "intimidade" do Conselho) mas sim "eleito" pelos povos europeus.

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A vida secreta dos intelectuais

Há vários anos que assino a New York Review of Books. Muitos conhecem certamente esta revista de recensões literárias e artigos políticos, científicos e filosóficos. Presunção à parte pode ser descrita como uma revista de intelectuais. Mas só agora reparei que a New York Redview of Books também tem uma secção de anúncios pessoais, incluindo "personal services". Fica-se assim a saber o tipo de serviços pessoais que atraem os intelectuais. O mais divertido é a forma como as prestadoras ou prestadores de tais serviços adaptam a sua publicidade ao mercado alvo… Três exemplos:
"Erotic Explosion. Let me blow your mind, you ultimate erogenous zone. Provocative talk with educated beauty. No limits"
"Erotic, Intelligent, Imaginative Conversation. Uninhibited exploration of your sexual fantasies"
"Sacred Erotic…The Incredible Lightness of Touch"

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quarta-feira, 18 de Março de 2009

Uma "Quadratura do Círculo" empírica III

No dia 18 de Fevereiro, a líder do PSD, apresentou no Novohotel em Setúbal um pacote de vinte medidas para as PME.

Vi chegarem os jornalistas dos jornais e das televisões, e depois os políticos. Pareceu-me um ambiente distendido e informal aquele do bar do hotel, todos se conheciam e falavam entre si.

Numa sala não muito grande, sentei-me. Ao meu lado sentou-se um jornalista, que reconheci por apresentar noticiários, de uma estação de televisão.

Depois de todos estarem nos seus lugares, e já a Dra. Manuela Fereira Leite discursava, vi ser distribuido um documento com várias páginas sobre o tema que estava a ser apresentado.

À medida que falava, o jornalista ía lendo o documento e sublinhando certas passagens no texto e dialogando com o técnico que o acompanhava e que filmava.

Já na parte final da intervenção, foram apresentadas medidas especificamente pensadas para a aquisição de bens e serviços pelo Estado e da solução então proposta de criar uma quota para as PME, ou seja que sempre que o Estado adquirisse bens ou serviços, uma parte fosse sempre adquirida às PME. Coisa que não sucede actualmente em que estas têm acesso escasso a esse mercado, desde logo porque desconhecem as regras de funcionamento do mesmo. Situação que se inverteria se soubessem que poderiam ser efectivamente fornecedoras do Estado.

Foram apresentadas vinte medidas. Algumas não conhecia, a outras não lhe conheço o impacto, nem os estudos em que se basearam. Também porque não tenho formação específica na área económica que me permita perceber o alcance de todas.Todavia as medidas que dizem respeito ao acesso das PME ao mercado público são necessárias e já estão a ser tomadas noutros países europeus.

No entanto, o jornalista ao meu lado deu ordens expressas ao camera para não filmar essa parte final da intervenção.

Voltei para casa e assisti aos noticiários das 20.00. Um fez o elenco das medidas, outro convidou um economista para discutir a bondade das propostas.

O noticiário do canal do jornalista referido, colocou no ar uma peça, narrada em off.
O conteúdo foi o seguinte: a líder do PSD sugeria a abolição do PEC que havia sido da sua autoria (e nem mais uma palavra sobre as medidas).
Quanto à forma,filmaram o documento e a voz off do jornalista disse: "20 medidas que poderão nunca saír do papel".

Pergunto ao jornalista:
Entendeu todas as medidas?
Como fez a triagem das mesmas?
Deve o jornalista dizer das medidas propostas "poderão nunca saír do papel"?
Porque é que o diz?
Porque acha que o PSD não vai ganhar as eleições?
Porque acha que a uns meses das eleições, não é possível que o Governo entenda aplicar alguma dessas medidas?
Ou simplesmente não acredita em nada do que um líder político diga?
Se for este o caso, deverá terminar qualquer peça, entrevista ou apresentação política, de um líder, PM, ou PR comentando "poderá nunca saír do papel".

Pergunto aos partidos políticos:
Fará sentido fazer uma apresentação a meios de comunicação generalistas, que pressupõe conhecimentos técnicos especializados e tempo de estudo, a duas horas dos jornais da noite?
Como deve um partido comunicar as suas ideias e propostas, nomeadamente as mais técnicas?
Se o fizer aos canais generalistas deve ter preocupações acrescidas?
Deve simplificar o discurso?
Nesse caso, não cairá no simplismo?

Pergunto aos Media:
Não estaremos a assistir a uma generalização extrema da profissão?
Não deveria existir maior especialização por temas?
Mesmo tendo abandonado o dogma da objectividade, poderá um jornalista, nessa condição, caír no mais puro subjectivismo?

Em Portugal parece que todos podem ser políticos ou jornalistas. Parece que ambas as actividades se baseiam no mais puro casuísmo. Assentes no "bitaite", no "achismo",e veiculadas na net e nas novas redes sociais.

Se assim for, ficam a perder o público em geral e os bons políticos e jornalistas que ainda há.

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terça-feira, 17 de Março de 2009

O Leitor



O melhor filme da temporada.

Como dizer isto de outra maneira?

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Anónimos vão à Praia


Março segue quente e por isso muitos Anónimos decidiram dar um salto à Praia.

Então não é que, nestes dias quentes de Março, até na cidade da Praia, Cabo-Verde, se lê o Geração de 60?

Quem quiser confirmar basta ir a Feedjit-live Traffic Map.

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O que seria dos EUA sem jornais?




Num comentário ao post da Inês Dentinho sobre a manifestação da CGTP, CCInêz (presença assídua e valorizadora deste blog), teceu duras críticas aos media, terminando, inclusivé, a sua intervenção dizendo: «Graças a Deus também que os (estes, que merecem o r) "me(r)dia", estão a ir à falência com a Internet».
Não me fica bem - por ser evidente o conflito de interesses - usar este espaço em defesa dos media. Muito menos dos media portugueses.
Mas não resisto a publicar este excerto de um artigo do «The New York Times»:

«Over the last few weeks, the newspaper industry has entered a new period of decline. The parent of the papers in Philadelphia declared bankruptcy as did the Journal Register chain. The Rocky Mountain News closed and the Seattle Post Intelligencer, owned by Hearst, will almost certainly close or only publish online. Hearst has said it will also close The San Francisco Chronicle if it cannot make massive cuts at the paper. The most recent rumor is that the company will fire half of the editorial staff. That action still may not be enough to make the property profitable.
24/7 Wall St. has created its list of the ten major daily papers that are most likely to fold or shut their print operations and only publish online. The properties were chosen based on the financial strength of their parent companies, the amount of direct competition that they face in their markets, and industry information on how much money they are losing. Based on this analysis, it is possible that eight of the fifty largest daily newspapers in the United States could cease publication in the next eighteen months. (Read: "The Race for a Better Read")
1. The Philadelphia Daily News. The smaller of the two papers owned by The Philadelphia Newspapers LLC, which recently filed for bankruptcy. The parent company says it will make money this year, but with newspaper advertising still falling sharply, the city cannot support two papers and the Daily News has a daily circulation of only about 100,000. The tabloid has a small staff, most of whom could probably stay on at Philly.com, the web operation for both of the city dailies.
2. The Minneapolis Star Tribune has filed for Chapter 11. The paper may not make money this year even without the costs of debt coverage. The company said it made $26 million last year, about half of what it made in 2007. The odds are that the Star Tribune will lose money this year if its ad revenue drops another 20%. There is no point for creditors to keep the paper open if it cannot generate cash. It could become an all-digital property, but supporting a daily circulation of over 300,000 is too much of a burden. It could survive if its rival the St. Paul Pioneer Press folds. A grim race.
3. The Miami Herald, which has a daily circulation of about 220,000. It is owned by McClatchy, a publicly traded company which could be the next chain to go into Chapter 11. The Herald has been on the market since December, and but no serious bidders have emerged. Newspaper advertising has been especially hard hit in Florida because of the tremendous loss in real estate advertising. The online version of the paper is already well-read in the Miami area and Latin America and the Caribbean. The Herald has strong competition north of it in Fort Lauderdale. There is a very small chance it could merge with the Sun-Sentinel, but it is more likely that the Herald will go online-only with two editions, one for English-speaking readers and one for Spanish.
4. The Detroit News is one of two daily papers in the big American city badly hit by the economic downturn. It is unlikely that it can merge with the larger Detroit Free Press which is owned by Gannett. It is hard to see what would be in it for Gannett. With the fortunes of Detroit getting worse each day, cutting back the number of days that the paper is delivered will not save enough money to keep the paper open.
5. The Boston Globe is, based on several accounts, losing $1 million a week. One investment bank recently said that the paper is only worth $20 million. The paper is the flagship of what the Globe's parent, The New York Times, calls the New England Media Group. NYT has substantial financial problems of its own. Last year, ad revenue for the New England properties was down 18%. That is likely to continue or get worse this year. Supporting larger losses at the Globe will become nearly impossible. Boston.com, the online site that includes the digital aspects of the Globe, will probably be all that will be left of the operation.
6. The San Francisco Chronicle. Parent company Hearst has already set a deadline for shutting the paper if it cannot make tremendous cost cuts. The Chronicle lost as much as $70 million last year. Even if the company could lower its costs, the northern California economy is in bad shape. The online version of the paper could be the only version by the middle of the 2009.
7. The Chicago Sun Times is the smaller of two newspapers in the city. Its parent company, Sun-Times Media Group trades for $.03 a share. Davidson Kempner, a large shareholder in the firm, has dumped the CEO and most of the board. The paper has no chance of competing with The Chicago Tribune.
8. NY Daily News is one of several large papers fighting for circulation and advertising in the New York City area. Unlike The New York Times, New York Post, Newsday, and Newark Star Ledger, the Daily News is not owned by a larger organization. Real estate billionaire Mort Zuckerman owns the paper. Based on figures from other big dailies it could easily lose $60 million or $70 million and has no chance of recovering from that level
9. The Fort Worth Star Telegram is another one of the big dailies that competes with a larger paper in a neighboring market - Dallas. The parent of The Dallas Morning News, Belo, is arguably a stronger company that the Star Telegram's parent, McClatchy. The Morning News has a circulation of about 350,000 and the Star Telegram has just over 200,000. The Star Telegram will have to shut down or become an edition of its rival. Putting them together would save tens of millions of dollars a year.
10. The Cleveland Plain Dealer is in one of the economically weakest markets in the country. Its parent, Advance Publications, has already threatened to close its paper in Newark. Employees gave up enough in terms of concessions to keep the paper open. Advance, owned by the Newhouse family, is carrying the burden of its paper plus Conde Nast, its magazine group which is losing advertising revenue. The Plain Dealer will be shut or go digital by the end of next year.»


E não resisto a perguntar: alguém verdadeiramente acredita que a democracia americana fica mais sólida se se confirmar o desapareceimento destes títulos?

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domingo, 15 de Março de 2009

200 mil a favor de Sócrates


A manchete de um dos diários de hoje é eloquente: «200 mil contra Sócrates». Acreditamos. Mas gera o efeito contrário. Nas notícias da televisão, as imagens mostram, simultaneamente, um Primeiro-Ministro imperturbável, consciente dos assuntos do Estado e do lugar de Portugal no mundo Lusófono. Hoje em Cabo Verde, 24 horas depois de ter representado o mesmo papel como anfitrião do Presidente angolano.

Sócrates continua a correr nas avenidas marginais, oito quilos mais gordo pelo sacrifício a que se propôs de deixar de fumar quando foi apanhado a desrespeitar uma lei restritiva que impôs a todos os outros. «É de homem!», pensará o espectador.

Há três dias a TVI descobria que o mesmo Primeiro-Ministro não terá declarado os seus rendimentos entre 1999 e 2002. Fê-lo numa hora em que tantos empresários fecham portas e despedem milhares de trabalhadores, entre outras razões, por não conseguirem cumprir as suas obrigações fiscais. Passado um comunicado lacónico e insuficiente, Sócrates continuou a correr em frente com uma turma de seguidores sombrios.

Sócrates dá a mensagem de que os cães ladram e caravana passa. Os cães ladram uma licenciatura manhosa; um CV «corrigido secretamente» no Parlamento; inenarráveis licenciamentos forjados no anonimato de uma Câmara do interior; um apartamento estranhamente comprado por um preço abaixo da média; e a alucinante desafectação da reserva ecológica dos terrenos do Freeport, no dia limite de um Governo de Gestão, quando se divulgam «fumaças» de lobbying familiar e financeiro.

200 mil contra Sócrates geram 200 mil a favor de Sócrates. Os que sonham ser como ele: com rumo fixo e resultados garantidos. Imunes perante a adversidade. A proliferação das descobertas de irregularidades sobre José Sócrates parece legitimar a capacidade de resistência do Primeiro-Ministro mais do que a sua incapacidade de cumprir as regras a que todos nos sujeitamos.

Ora, em tempo de crise, o seu exemplo é pernicioso. Porque é nesta altura que o respeito pelos outros e pelas regras comuns deve ser mais instigado. E é nesta altura que expedientes tortuosos podem gerar maiores injustiças numa sociedade que luta pela sobrevivência. «Faz como Sócrates; vê como ele tem sucesso; por acaso parou de correr?; viu o Parlamento dissolvido? considerou os arrufos do Presidente da República? desceu nas sondagens? faz como ele e atingirás a meta em primeiro lugar».

Mas antes dos inteligentes, considero os heróis. E antes destes, os santos.

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as correntes da memória

A Eugénia Vasconcellos, que recentemente descobri e cuja escrita tem o toque trémulo e cristalino de que gosto – e por isso recomendo – desafia-me para entrar numa rede (ou corrente) de afectos. Já se falou do tempo, do medo e da fé. A mim, o que me deslumbra são recordações. As mesmas que um poeta menos conhecido, Gil Nozes de Carvalho, num livrinho de 40 páginas, intitulado Aboiz e publicado na Regra do Jogo, nos expôs assim:

Barba Azul

Diante das mulheres,
o sol, discreto,
corta nos homens
o hábito do rosto.

Levantada uma vez,
a ponte, tudo
permance no seu lugar,
excepto a chave na
mão fresca da menina.
Com ela há-de abrir
a vulva às recordações.
E posto isto, para que a vaga prossiga, desafio a Tânia, do blogue De Olhos Bem Fechados, a mergulhar na corrente.

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sexta-feira, 13 de Março de 2009

Para quem talvez não tenha existido e de escrita só se lhes conhece uns rabiscos na areia, Jesus e Maomé têm alta influência

Não resisto a responder a este post - e aproveito para juntar, a este diálogo com o Gonçalo, um cartoon que nos mostra o que poderia acontecer se Jesus e Maomé se encontrassem na barra de um bar e fossem servidos por uma barmaid.
Dito isto, Gonçalo, é mais do que um diálogo, o nosso. Entoamos a melodia em uníssono. O que eu disse é que foi sobre "estas" figuras (de Homero a Shakespeare, passando por Jesus e Maomé) que edificámos a(s) nossa(s) civilização(ões). E depois, recuperando a labiríntica lógica borgesiana, fiz notar duas coisas:
1. que os nomes que demos a algumas dessas figuras fundadoras não correspondem a ninguém real (alguns nem sequer existiram e em relação a outros temos dúvidas) ;

2. ou que não pertencem a esses nomes os "textos" que lhes atribuímos (alguns nunca escreveram uma linha, e o que com o nome deles foi assinado provocar-lhes-ia um susto maior do que a nós a voz de trovão de Jeová, se agora lhe desse para falar).

Quanto ao resto, Gonçalo - e o resto é o sentido da vida, o centro filosófico do mundo, a verdade do espírito ou da carne - só sei que nada sei. Com pena minha, porque gostava de saber um bocadinho mais de matemática e um tudo nada de neurociências. É o que dá ter andado meia vida de Paideia às costas e hermenêutica em riste.

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Jesus está vivo. E Maomé também...



O título deste post pode, talvez, soar a qualquer tipo de publicidade feita à Igreja Universal do Reino de Deus. Mas não. Escrevo-o em diálogo com este outro post do nosso querido Manuel Fonseca (que, em rigor, já teria começado aqui), ao qual, sem querer, de modo nenhum, retirar da sua natural condição de "alinhado", gostaria, no entanto, de dizer alguma coisa.
A primeira é que Homero é apenas um personagem cujo nome individual representa todo o povo grego. Os "seus" poemas contam essa mítica viagem que, atravessando as civilizações minóica e micénica, foi feita pelos aqueus, desde o Médio Oriente até à Europa, passando pela labiríntica ilha de Creta. E já na europeia Hélade, onde, por volta do século VIII a. C. (a que Karl Jaspers chamou a idade axial), fomos definitivamente iluminados pela apolínea razão que nos faz ver, sem que a vejamos, permanece essa fundacional mentalidade homérica, que desde a parte mais vegetal das nossas almas nos informa ainda o que sentimos e o que pensamos.
Quanto a Sócrates, o verdadeiro (a quem a mulher, de nome Xantipa, constantemente recriminava por não aproveitar a sua fama para alcançar poder e honras), a frase que tomou como lema, ou como cruz, da sua vida (gnótis autón: conhece-te a ti mesmo), não era sua. Estava escrita no oráculo de Delfos, nesse centro, ou umbigo, da terra, a partir do qual os deuses comunicavam com os homens, indicando-lhes enigmaticamente os seus caminhos. Foi esse mesmo oráculo, aliás, que afirmou que Sócrates era o homem mais sábio da terra – justamente ele, que sabia quanto é humilde e limitado o que sabemos.
Quanto a Jesus Cristo, ninguém duvida da sua existência humana, hoje historicamente comprovada, tanto quanto pode comprovar-se este disperso pó que somos. É a sua existência divina aquilo que sempre é posto em causa. E, justamente, deve sê-lo, porque, tal como dissemos em relação a Apolo, o divino é o que, iluminando, não se vê. Temos, assim, que procurá-lo, a partir do que, no nosso caminho, ele nos mostra.
Maomé, do mesmo modo, por cá andou, de Meca para Medina e de Medina para Meca, cumprindo os desígnios do Senhor.
Ora, o meu ponto, querido Manuel, é este: estas não são figuras ausentes. Muito pelo contrário: são pessoas absolutamente presentes! Com efeito, são justamente os que nada escreveram, os que nada tiveram – numa palavra, os que não se objectivaram –, aqueles que permanecem duradoiramente na história com a qualidade de verdadeiros sujeitos.
É que a maior força que experimentamos nesta vida é, na verdade, a do espírito. Isto é um facto verificável. Com efeito, quem age hoje por causa de Júlio César e de todo o poder que ele teve? Quem determina a sua vida por causa do poder dos Medici? Quem quer agradar ao poder e ao dinheiro que passou?
No entanto, aqueles que viveram a sua vida de acordo com um poder que não se vê, mas que ilumina, ainda hoje determinam interiormente, transformando-a, a vida de cada um e de todos nós. Confúcio, Buda, Sócrates, Jesus, Maomé, São Francisco, Madre Teresa e os mais em que queiramos pensar. Mil anos passados, movem, de facto, montanhas.
A questão, assim, como a propósito da quaresma, num outro post, mais atrás, já tinha posto, é a da ordem que escolhemos para a nossa vida. Quem está no centro do mundo: o homem, ou Deus?
A resposta, dada nesse maior e melhor centro do mundo que é o nosso coração, continua a ser aquela que, respeitando a nossa liberdade, foi há mais de dois mil firmada por Jesus Cristo - e que nós lembramos por intermédio de São Mateus: «Onde tiveres o teu tesoiro, aí estará o teu coração.»

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III. Porfírio, Sullo Stige, Bompiani 2006

Mas que nos interessa hoje em dia este problema que parece tão distante? É que, mais uma vez, a nossa época não é o de vazio de divindade, mas de um recalcamento da mesma no espaço público. Todo o recalcamento gera sublimação ou retorno explosivo. Na Viena burguesa do início do século XX era do sexo que se tratava. Mas o recalcamento religioso tem efeitos semelhantes. A religião é sublimada em direitos do homem, na natureza sacral da democracia, da ciência, da ecologia. Ou então explode literalmente nas ruas de Bagdad ou Madrid. Ou explode por outra via menos visível, a da irritação, da revolta intelectual e afectiva sem palavras.

A nossa época não teve a vitalidade de produzir um pensador universal como Porfírio, que soube perceber todos os movimentos da sua época, embora não os tenha conseguido resolver a quase nenhum. A síntese anda perdida por entre o barulho da comunicação social. Anunciavam-nos o fim da religião e ela aparece em fragmentos, vendida em pacotes, em que toda a espécie de mistérios são objecto de consumo. Nova Idade (qual?), códigos escondidos em que a ciência (misteriosa para os autores em causa) se mistura com do destino do mundo (misterioso de forma mais legítima). Os fundamentalismos crescem.

A solução freudiana é a catarse, a purificação. Leitura algo apressada da cultura grega. Era a leitura de que Freud podia dispor na altura de acordo com do desenvolvimento da filologia clássica. Mas libertamo-nos do reclamante religioso não exige tanto purificação quando absorção. Perceber, não apenas o mundo em que se vive e as suas necessidades, mas o centro dos problemas e soluções que desde sempre estiveram em frente do ser humano.


Porfírio estava bem mais armado que a maioria das pessoas da nossa época. Percebei bem os instrumentos que ela tinha disponíveis. O homem semi-alfabetizado da nossa época sente-se muito mais perdido. Quer-se libertar de peias que nunca conheceu, e são afinal escoras, quer alimentar-se de frutos exóticos para cuja absorção não está preparado. Está tão habituado a viver como um recalcado religioso que nem percebe ser. A sua forma de pudicícia para por uma linguagem de liberdade, mas nem lhe conhece os contornos, quanto mais os fundamentos. À massa ainda lhe falta dar o imenso passo que Porfírio deu. Quanto mais perceber que mesmo a Porfírio lhe faltou dar outros mais essenciais. Mas que renasça no homem comum a vivência do numinoso não lhe fará mal. É melhor enfrentá-lo que ser perseguido por ele sob forma de vapor. E um dia de explosão.




http://bompiani.rcslibri.corriere.it/bompiani/libro/5711_sullo_stige_porfirio.html
http://www.liberonweb.com/asp/libro.asp?ISBN=8845257118


O que se diz nos blogs:

Na Geração de 60
http://geracaode60.blogspot.com/2007/05/i-vangelo-di-un-pagano-testo-greco.html
http://geracaode60.blogspot.com/2007/05/ii-vangelo-di-un-pagano-testo-greco.html
http://geracaode60.blogspot.com/2007/05/iii-vangelo-di-un-pagano-testo-greco.html


Noutros blogs
A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, L







Alexandre Brandão da Veiga

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Sexta-feira 13

1 - Por uma vez na vida, só hoje,e nunca pensei dizer isto, dou por mim a concordar com a Fernanda Câncio e com tudo o que escreve hoje no DN em " Pobreza desdobrada":

"(...) É o raciocínio que levou a que durante 35 anos de democracia tão poucas vezes se tenham feito as perguntas certas-quantos bairros sociais há, quanto custaram, em que estado estão, quem lá vive e há quanto tempo, qual o seu rendimento médio, que idade tem, qual o motivo de atribuição da casa, qual o valor das rendas, qual o modo como são calculadas e qual a respectiva taxa de cumprimento - e nunca se tenham ouvido as respostas. Suspeita-se até de que ninguém as conheça.(...)".

2 - Quanto ao assunto Manuel Alegre,depois de ontem ter ouvido António Costa a dizer que havia uma "questão afectiva", que estão juntos há muito tempo, acho que tudo se vai compor.
Retomando a metáfora dos septuagenários, penso que poderá haver uma solução: contratam uma pessoa, se tiverem meios, para confeccionar as refeições; ou a senhora ajeita o almoço e o jantar passa a ser lanche-ajantarado no café da esquina ( croquete e galão). No fim, tudo acabará bem.

3 - O sal. Concordo com a legislação, contra a opinião do amigo Pedro Norton. À velocidade a que isto vai, não tarda, nem para o croquete e para o galão chega. Vai ser mesmo à base de pão. Outra pessoa que é capaz de torcer a orelha é a septuagenária aqui de cima, um enfarte do cônjuge era capaz de dar jeito.

4 - "JP Sá Couto cria mais 200 empregos" Diz o DN.
Já só faltam 149.800 empregos, digo eu.

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LEO

Deliciosa a metodologia.
Lindissimo o mito.
Mais um "fantasma" que se revela.

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A Lei que faltava




"O Partido Socialista (PS) vai debater esta sexta-feira, na Assembleia da República (AR), um projecto lei que tem como objectivo reduzir a quantidade de sal no pão português, que, actualmente, tem mais do dobro da quantidade recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
O plano é para aplicar «de forma faseada», garante o deputado Jorge Almeida, do PS, em nome da saúde dos portugueses, já que o excesso de sal pode provocar vários problemas, como hipertensão, acidentes cardiovasculares e alguns tipos de cancro.
«É preciso um tecto máximo de teor de sal no pão e 25% faz com que o consumidor não vá notar», garante o deputado, defendendo que, «daqui a alguns anos, o processo legislativo deve fazer uma revisão e, eventualmente, fazer mais reduções»."

(Fonte Diário Digital).

Posto isto, pergunto: estará o deputado Jorge Almeida (a quem agradeço o zelo pela minha saúdinha) disponível para nomear uma comissão parlamentar para controlar a condimentação da minha sopa? E se não for pedir muito, será que posso pedir-lhe uma mãozinha para me fazer as compras ao Sábado? Só para garantir que não exagero nos açucares.

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Labirinto

Labirinto de letras, Ana-Hatherly
Aqui, o Jorge Buescu e o Pedro Norton decidiram fazer derivas shakespeareanas, a propósito deste post sobre a recente revelação de um retrato do autor de “Romeu e Julieta”. Alinho com eles (estar de acordo faz parte da minha condição) e acho que o jogo de ledos enganos já vem de longe.
Shakespeare, pode ser que seja só um "nome emprestado" a uma obra – a hipótese de que as suas inúmeras peças sejam da autoria de um “outro Shakespeare” ou, numa hipótese plural, de “outros Shakespeares”, converte-o, afinal, na sublime personagem de uma inimitável “comédia de enganos”.
Mas há mais. É provável que Homero não tenha existido e que a Ilíada e a Odisseia, obras fundadoras, sejam também obras órfãs.
Sócrates (e falo do grego), mesmo que tenha existido, não escreveu uma linha, o que deixa o célebre “conhece-te a ti mesmo” desesperadamente à procura do “seu” sujeito.
Já sei, já sei – vão também lembrar-me que Jesus Cristo não terá, sequer, existência histórica reconhecida e que Maomé, o áspero e arrebatado profeta, não escreveu, não ditou e não se reconheceria, nem nas 92 suras que dizem ter-lhe sido reveladas em Meca, nem tão pouco nas 22 que os céus só lhe mostraram em Medina.
Não é estranho que tenhamos construído tanta civilização em cima de "figuras ausentes"? Ficção em cima de ficção, fantasmas em cima de fantasmas? Ninguém se atreveria a censurar aos humanos que tenham inventado os esplêndidos deuses. Mas que tenham também inventado os humildes inventores dos deuses, num inverosímil labirinto ficcional, será que nos obriga ao mais feroz cepticismo?

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quinta-feira, 12 de Março de 2009

Da Visão: Convicção e Coragem




1 - O tempo não está, já se sabe, para grandes dissidências políticas. Em bom rigor, o tempo, em Portugal, nunca está para grandes dissidências políticas. Desde há muito que as máquinas partidárias se transformaram em fábricas aperfeiçoadas de uniformização ideológica (se é que se pode chamar ideologia à repetição compulsiva de meia dúzia de verdades oficiais). Há muito tempo que os partidos, sobretudo os partidos no poder, excomungaram os livre-pensadores e se encheram de militantes ordeiros e acríticos. Há muito que os grupos parlamentares são uma espécie de massa uniforme de deputados teleguiados. Quase sempre foi assim e quase sempre assim foi em todos os partidos. Mas é em tempos de maiorias absolutas e de «claustrofobia democrática» que os mares se tornam verdadeiramente agrestes para todos quantos, em política, persistem em pensar pela sua própria cabeça.
Na entrevista que concede ao Expresso do passado sábado, Manuel Alegre, o fantasma que pairou sobre o «congresso de uma nota só» (como ele próprio chamou ao conclave socialista de Espinho), volta a cometer esse horrendo pecado capital da ortodoxia partidária. Insiste em dar mostras do seu inconformismo e não tem papas na língua quando se trata de reafirmar as suas profundas divergências de princípios com o PS de José Sócrates. Fala na «gente medíocre que se apoderou dos partidos», na falta de debate ideológico, no célebre «medo» de que também falou Edmundo Pedro. Afronta Soares e define a sua hipotética Presidência da Assembleia da República como uma «mordaça de luxo».
Dirão os seus detractores que Manuel Alegre tem sede de protagonismo. Que, desde que se deixou inebriar pela campanha presidencial, não tem parado de buscar as luzes da ribalta. Vasco Pulido Valente adivinha-lhe a ambição de voltar a bater-se por um lugar em Belém. Eu, que não concordo com quase nenhuma das suas ideias, continuo, pelo contrário, a ver convicção e coragem onde outros vislumbrarão traições, ambiguidades e incoerências. Eu, que não posso rever-me menos na sua «convergência da esquerda», continuo a admirar o homem e o lutador. Eu, que continuo a acreditar no mesmo liberalismo a que Alegre atribui boa parte dos males do Mundo, não estou menos convicto de que são homens incómodos como ele que fazem falta aos partidos e à democracia portuguesa. Especialmente em momentos de crise económica, social, ideológica e sobretudo em momentos de unanimismo político, à esquerda ou à direita, como é aquele em que, infelizmente, vivemos.
2 – E se homens como Alegre prestigiam a Democracia e o parlamento portugueses, são episódios como o da muito pouco dignificante troca de insultos entre os deputados José Maria Martins e Afonso Candal que mais contribuem para o seu descrédito. Não é tanto a grosseria que choca. Num assomo raro de condescendência, estou até disposto a aceitar que todos temos direito aos nossos «cinco minutos de infelicidade». Mas confesso que não consigo aceitar que o episódio não tenha consequências mínimas. É caso para dizer que fazem pior à imagem do Parlamento as orelhas moucas do Presidente da Assembleia da República do que as bocas desabridas dos senhores deputados.

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quarta-feira, 11 de Março de 2009

A morte e a morte de Max Ophuls




Passo a vida a tropeçar em Max Ophuls. A primeira vez que o conheci tinha nascido em Saarbrucken e era o brilhante realizador de uma «Carta de uma desconhecida» de que já falei neste blog. Se há filme que fale de amor é esse. E se há cena para rever cem vezes é a viagem no comboio «de fingir» naquela Viena de fim de século.
Depois fomo-nos vendo por aí. Poderia nomear vários encontros: aquele com «Lola Montès» que, para ser inteiramente franco, nunca verdadeiramente me encheu as medidas, aquele outro com «Le plaisir», ou ainda o com «Madame de». Mas arrebatamento como o primeiro, só quando o voltei a encontrar num «The reckless Moment» com o enorme James Mason. O filme «noir» mais romântico alguma vez filmado. Digo eu.
A semana passada voltei a tropeçar em Max Ophuls.Nascido e crescido em Estrasburgo, judeu ashkenazi, resistente, embaixador e senhor de «quantidades perigosas, possivelmente até letais de charme».
Max Ophuls morreu em 1957 em Hamburgo mas foi descansar para o Père-Lachaise. Depois voltou a morrer em 1993 em Los Angeles. Selvaticamente assassinado pelo homem a quem chamavam «Shalimar o Palhaço».
Vale a pena conhecer Ophuls nas suas várias encarnações. Do eterno romântico da «Carta» e do «Reckless moment» ao amante cínico do romance de Rushdie.
Há vidas que merecem ser vividas duas vezes.

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Revolutionary Road




Ou me levas para Paris, ou eu mato-me.
Matou-se.
Muito adulto.

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II. Porfírio, Sullo Stige, Bompiani 2006

É verdade que existem épocas de recalcamento religioso. A nossa época, marcada por um freudismo em versão vulgata, disserta muito sobre o recalcamento sexual, mas esquece o recalcamento de outras pulsões. Na alimentação, fala-se desde há uns anos nos distúrbios alimentares. O recalcamento intelectual aparece apenas em estudos isolados sobre a auto-mediocrização dos sobredotados. Mas o recalcamento religioso permanece no vazio, no silêncio.

E no entanto, é o mais perigoso e cruel dos recalcamentos. Assumindo que o centro da vida humana é religioso (demonstração que não farei aqui), o recalcamento religioso tem efeitos bem mais nefastos que os outros no longo prazo.

Um período que vai do século I a.C. até ao II d.C. tem várias fases de recalcamento religioso em graus diversos. Os resultados não se fizeram esperar. O século III, o século da grande crise do império romano, é também uma época de explosão religiosa. Não é o cristianismo, nem sequer publicamente, o que mais se destaca. Mas uma diversidade de vivências religiosas que se entrechocam e misturam e convivem entre si. A experimentação, a incerteza, a diversidade e o vazio lutam entre si.

Porfírio é em grande medida o apogeu desse movimento. Neoplatonismo e neopitagorismo (frequentemente confundidos na época), alguns influxos de Aristóteles, os oráculos caldaicos, as religiões mistéricas, filosofias orientais, tudo se encontra num mundo muito mais “globalizado” (expressão bárbara, se a há) do que a presunção de nossa época deixa admitir.

Da Índia ao Próximo Oriente, ao Egipto, até à Grécia, e laivos de religião romana tradicional, tudo se conjuga e se torna presente no pensamento da época. Esta observação é trivial. O que é menos salientado é o facto de este renascimento religioso ser igualmente o das fontes primárias da religião grega clássica, nomeadamente Homero. O Tratado sobre o Estige é disso exemplo eminente. Deixaram de acreditar nos seus deuses os antigos? Nem por isso. Viraram-nos em alegoria, mas não deixaram por isso de vibrar pela sua natureza divina directa.

O tremendum, o numinosum, o poder de fascínio não estava absolutamente perdido. O Estige é o rio terrível, sobre o qual juram os deuses. É o que mostra as condições da felicidade dos deuses, que podem ser castigados quando quebram esse juramento. Felizes, absolutamente felizes, são os deuses. Absolutamente? Não. Há limites, há condições. Cometendo perjúrio sobre as águas do Estige a divindade suspende-se.

O que renasce é o aspecto misterioso da divindade, mas igualmente o das suas vias de suspensão. No fundo, mais um dos lugares da sua incerteza. E lugares em sentido próprio. A certeza do divino exige a procura de uma geografia teológica, seja o Estige, ou o Antro das Ninfas. Os deuses impulsionam mais a reflexão que a acção. Também neste aspecto o cristianismo foi uma salvação porque permitiu uma e outra.

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Onde Vaz, Fernão?




Detesto um dos principais entretenimentos nacionais, a maledicência gratuita. É sempre mais fácil dizer mal de algo que se faz do que fazer algo.


Por isso, nem liguei quando começaram os inevitáveis ataques mais ou menos trauliteiros a propósito do programa de distribuição do célebre computador Magalhães pelas crianças do Básico.

Numa sociedade marcada pela inequidade de oportunidades entre ricos e pobres, fosso que se alarga com a info-exclusão, aqui estava uma medida niveladora por alto. Não era barata: se cada máquina custar ao Estado 200 euros, os 500.000 Magalhães representam um investimento da ordem de 100 milhões de euros. Não é de desprezar mas é um grande investimento no maior recurso de todos: o humano. Como dizia Tony Blair, se acham que a Educação é cara, experimentem a ignorância!

Que me interessava que a medida fosse divulgada por um poderoso marketing político? Que houvesse empresas a ganhar dinheiro com o negócio (desde que fosse legitimamente – desde quando uma empresa produz máquinas para ter prejuízo)? Que a máquina não fosse de tecnologia portuguesa (mas desde quando existe por exemplo um carro português?), mas uma solução preexistente? Que não exista rede wireless gratuita em toda a extensão do País (nem nos EUA isso ocorre)?

Francamente todas estas “objecções” me parecem absolutamente patéticas e fruto da nossa crónica mesquinhez maledicente. Velhos do Restelo a bradar, não contra um Vasco da Gama mas contra um Magalhães.

O meu filho mais novo esperou ansiosamente um mês pelo seu Magalhães, que eu comprei com todo o gosto e chegou na semana passada. E desde então não o larga.

Foi aí que fui surpreendido, chocado, esmagado pelo Expresso da semana passada. Li e não acreditei: era maiis desinformação. Fui verificar no Magalhães do meu filho: era tudo verdade. O software educativo para crianças do Básico, que estão a aprender a ler e escrever, instalado pelo Ministério da Educação, tinha erros de português que na minha altura dariam chumbo no exame de 4ª classe – ortografia, gramática, sintaxe. Nem é preciso ir longe, estão logo à superfície. “Dirije o guindaste e copía o modelo”. “Quando acabas-te, carrega no botão OK”. “Quando o tangram for dito frequentemente ser antigo, sua existência foi somente verificada em 1800.” E o omnipresente “saír”. Já circulam na Net documentos com o Top 10 do “Magalhanês”.

E aqui perdi as minhas ilusões. Isto não era maledicência gratuita.

Num primeiro nível, sinto-me indignado. É totalmente inaceitável que um projecto destes, subsidiado com 100 milhões de euros dos nossos impostos (mesmo dos que NÃO usufruem dos benefícios, pois o dinheiro sai do OE) possa ter um controlo de qualidade inexistente (é claro que nunca ninguém português leu estas frases). Frases mal adaptadas do francês? Para crianças que estão a aprender a ler? Sendo responsável o ME? Inacreditável. É o análogo informático a investir 100 milhões de euros numa Cartilha Maternal com asneiras. Enquanto contribuinte, exijo explicações e espero tê-las sem insultos à minha inteligência.

Num segundo nível, sinto-me revoltado. Afinal, tudo isto estava mesmo preso com arames, foi mesmo feito sem qualidade, em cima do joelho, sem rigor, sem verificação. O importante era ter isto cá fora a tempo de ser brandido com timings políticos. E o facto de ser um “computador”, termo que ainda assusta muitos pais, só aumenta o novo-riquismo e a sensação de tudo isto ser também uma mascarada pour épater le bourgeois.O supra-sumo do suburbanismo.

Num terceiro nível, sinto-me profundamente deprimido. Mais uma vez, a mensagem que estamos a passar aos nossos jovens é que vale tudo, desde que se seja chico-esperto. Pode e deve ser-se um baldas, fazer tudo à pancada porque no fim vale a pena. Se uma criança de 8 anos que aprende a ler recebe materiais com software educativo com a chancela do ME num português macarrónico, como é que eu a vou convencer aos 12 anos que “fazer um trabalho para a Escola” não é ir à Wikipedia fazer cut and paste de um texto brasileiro sem sequer o ler?

E como é que explico, como me aconteceu há algum tempo num Júri (sim, é verdade!), que é inaceitável, e plágio, que uma Tese de Mestrado original tenha páginas inteiras (mal) traduzidas da Wikipedia? Aliás é curioso que os alunos ainda não tenham percebido que as tecnologias de informação sejam uma arma de dois gumes: se eu suspeito que um texto não seja original bastá-me procurá-lo no Google e descubro isso em 2 segundos.

O que me deprime mais ainda são os valores transmitidos. O crime compensa. Vale a pena ser baldas e preguiçoso – só os chatos é que se dão ao trabalho de pensar para fazer uma coisa original e séria. Não faz mal errar, desde que dê menos trabalho, porque se alguém der por isso depois se vê. E, claro, muitas vezes ninguém dá por nada (o Magalhães anda por aí há 6 meses). Vale tudo. Tanto faz. E se der menos trabalho, melhor.

Daqui a 10 ou 20 anos, quais serão as hipóteses de um jovem que tenha recebido esta formação a quem foram transmitidos estes valores numa entrevista contra profissionais a sério, vindos de países onde as “tecnologias de informação” não sejam vistas com este novo-riquismo balofo e imbecil mas como o auxiliar precioso que são?

Onde Vaz, Fernão?

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segunda-feira, 9 de Março de 2009

O retrato de Shakespeare

É ele. É este. A imagem acima reproduz o único retrato de Shakespeare (1546-1616) feito durante a sua vida. Para sermos matemáticos, foi pintado 6 anos antes da sua morte. Testa alta, nariz recto, olhos escuros e rasgados, a boca a que o inverno de Stratford-upon-Avon deu um toque de rouge, são estes os traços do autor de Hamlet e da Tempestade. Os raios X e as imagens de infra-vermelhos dos experts foram conclusivos e não nos deixam mentir. Soube-se ontem, numa segunda-feira de Março. Gosto da cara dele – mais jovem do que os 64 anos que já teria – acho, enfim, que tem boa pinta. Devemos-lhe um mundo e o teatro desse mundo. Mas quantos, como diz Borges, não tiveram de matar o seu rei para que ele pudesse escrever Hamlet ou Macbeth?!

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I. Porfírio, Sullo Stige, Bompiani 2006



Houve uma época feliz em que os deuses antigos já tinham morrido e o novo não tinha nascido. Isto teria sido no século II depois de Cristo no império romano. Tese de quem? De Marguerite Yourcenar nas “Memórias de Adriano”.

Ideia simples? Sem dúvida. Mas cheia de vícios. Em primeiro lugar, a ideia não é de Yourcenar, mas de Renan. Renan era um genial estilista, um homem de grande erudição. Mas quando não nos deixamos impressionar apenas por isto e não perdemos sentido crítico, conseguimos ver um pouco além disso. Renan levou uma vida inteira em desesperada procura de vazios de cristianismo ou, o que é o mesmo, de suas alternativas.

Foi o mesmo Renan que achou que o mitraísmo tinha vocação para ter sido a alternativa ao cristianismo, quando a investigação mais recente (Turcan, v.g.) mostra que esteve sempre bem longe disso. O mesmo que tentou encontrar numa espécie de positivismo poético de base filológica uma alternativa para o sentido do mundo.

O que Renan diz é sempre maravilhoso, mas suspeito, portanto. O século II, e a dinastia dos Antoninos, esteve longe de ser um vazio de religião. Antonino Pio segue-se a Adriano e talvez tenha sido o último imperador plenamente imbuído da religião clássica romana. Plutarco viveu no mesmo século e estava bem longe de ser um irreligioso. Os cultos de Cibele, Serápis, Ísis, Mitra prosperam. A generalização histórica produz efeitos poéticos, mas é luxo para poucas mãos. Sobretudo no que respeita ao sentimento, e ainda mais ao sentimento religioso.


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O cúmulo

O militante socialista José Vieira da Silva, secretário ncional do PS, vai, enquanto dirigente partidário, coordenar o processo eleitoral do presente ano: europeias, autárquicas e legislativas.

O assunto não me diria respeito se o militante José Vieira da Silva não fosse simultaneamente o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social do meu país. Das duas uma: ou o dia do ministro tem 48 horas, ou o número de desempregados não lhe preenche suficientemente o dia.

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Uma "Quadratura do Círculo" empírica ( cont.)

O segundo episódio.

Dia 13 de Fevereiro: jantar-comício do PSD no Pavilhão União de Coimbra, nessa cidade.

Cheguei à hora marcada, estavam apenas algumas dezenas de pessoas. Devagar, começam a chegar dezenas, centenas de pessoas. Numa hora, o pavilhão encheu. Todas os lugares estão preenchidos, todas as mesas completas.
Ao fundo, centenas de militantes e de simpatizantes esperam de pé, já não há lugares.

Está muita gente, mas ainda assim menos do que no anterior jantar-comício em Vila Nova de Famalicão.

A edição do jornal Público de dia 15 de Fevereiro,noticia que teriam estado mais de 1000 pessoas nesse jantar.

Nesse dia, José Manuel Fernandes, em editorial fala apenas desse assunto, chama ao jantar "banho de multidão".

Menciona a possibilidade de os ataques à liderança do PSD se ficarem a dever à eventualidade de esses opositores verem uma oportunidade real de Sócrates não ganhar as eleições e de a sua conduta se pautar pelo oportunismo político.

Houve um banho de multidão em Coimbra? Sim. Mas estava o dobro das pessoas em Braga e ninguém lhe chamou assim.

O que terá mudado em Coimbra: a percepção dos media ou o relacionamento do PSD com estes?

( a continuar)

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domingo, 8 de Março de 2009

Dia da mulher



No Parlamento o deputado Candal faz uma provocação, a que o deputado Martins reage respondendo em vernáculo.

O juíz Conselheiro Mortágua profere declarações generalistas sobre a corrupção e declara que quinhentos contos "só se fosse para o aquecimento".

O Secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, em resposta declara " se hoje chove, amanhã faz bom tempo".

Tenho de convir, é de homem!

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Homofobia?


Fui ver Sean Penn em Milk. O Óscar confirma todos os superlativos positivos sobre o actor pelo que me dispenso de considerações artísticas.
O que me traz à antena é a relação de heterosexuais com a realidade das pessoas que gostam do mesmo sexo.
Desde cedo tive uma atitude prática, não homofóbica, que me levou a ter pela vida sexual dos homosexuais a mesma curiosidade que teria pela intimidade de Pais ou irmãos, isto é: nenhuma curiosidade. Apliquei este expediente - embora menos - à generalidade da espécie humana. A cama dos outros, é dos outros.
Vários bons amigos e conhecidos homosexuais, com quem fui privando, só me deram razão pelo respeito que impõem à sua privacidade. Tirando os desfiles Gay, a que assisti em Washington, não me lembro de ter sentido qualquer repulsa por esse campo. E talvez esta pacatez me tenha afastado civicamente de qualquer tomada de posição política ou religiosa sobre um assunto que «não era meu».
Mas a discussão do Prós-e-Contras sobre o casamento de homosexuais, na sequência do futuro Programa eleitoral de José Sócrates, e o «Milk» agora, obrigam-me a pensar sobre esta realidade que não deixa de ser da minha comunidade. E, no entanto, o desinteresse instala-se com a eficácia de um bom repelente.
Será homofóbica ou apenas heterosexual a aversão que senti em relação aos poucos beijos do Milk, entre homens?
Será insensibilidade cívica não querer saber dos detalhes da vida íntima / social / oficial dos casais homosexuais?
Será niilismo deixar decidir em Referendo a possibilidade do casamento entre homosexuais?
Será uma tentação politicamente correcta considerar que o Milk reporta à conquista de uma revolução na Califórnia e no Mundo?
Não é preciso ser deficiente, preto, mulher, imigrante, velho ou ex-presidiário para se ser solidário com cada uma destas pessoas em situação de discriminação. Porquê a estranheza com os homosexuais?
Talvez ache que não precisam de ser protegidos porque a sua intimidade não nos diz respeito.

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sábado, 7 de Março de 2009

A orquestra de Kinshasa

De vez em quando é bom levarmos uma lição que nos arrase de alto a baixo. Em Kinshasa, no meio de um caos que muitos de nós nunca conheceram e, felizmente dir-se-ia, nunca conhecerão, há homens e mulheres que conjugam uma vida atribulada e perigosa, com uma paixão inesperada pela música clássica ocidental.
Juntos, e juntos são 170 músicos e cantores, formaram a Orquestra Sinfónica de Kinshasa, num dos musseques da cidade. Dizem-me que houve uma alma abençoada que decidiu fazer um filme sobre estes gigantescos heróis do nosso tempo. Basta-me ver este vídeo de tão poucos minutos para ficar convencido de que temos tudo a aprender sobre a dignidade humana e de que devemos meter pela sanita abaixo as nossas depressõezinhas da hora do chá quando vemos a tão bela alegria destes sorrisos luminosos.



Confesso que fiquei perdidamente apaixonado por Joséphine, a celista, de olhos negros, altas maçãs do rosto, lábios grossos e sorriso tão suavemente agri-doce. “A música para mim é rezar pela segunda vez. Rezo e depois de rezar, eu canto”, diz ela.
Eu, que não sei cantar, rezo com ela, rezo para que estes rostos continuem felizes, eufóricos, tão ferozmente orgulhosos e inspiradores.
Agradeço ao meu amigo António Eça de Queiroz, do Pnet Homem, a revelação deste extraordinário documento.

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sexta-feira, 6 de Março de 2009

Horton Foote morreu: quem?

Um dos maiores argumentistas da segunda metade do século XX morreu, e os jornais não sabem muito bem o que fazer com ele.
Na tradição discreta, quase anónima dos argumentistas, cujo trabalho - o guião cinematográfico - não tem valor em si mesmo, servindo sempre para valorizar o trabalho de terceiros (o guião nunca é um fim, é sempre um meio, um esboço, uma planta, um projecto de engenharia mental), Foote era o supremo "unsung hero": os seus heróis (?) eram gente como ele, que não se vê, não se nota, texanos proletários e trabalhadores rurais, cantores de "country" zangados com o romantismo para toda a vida, mulheres agarradas aos objectos de infância, miúdos que, mesmo quando transportados para o sudeste, têm saudades do que nunca foram, e passam mais tempo a ouvir as histórias dos pais e dos avós do que excitados com a irresistível mudança dos tempos.
Horton Foote ganhou dois Óscares (pela lindíssima adaptação de "To Kill a Mockingbird" de Harper Lee, a talentosa amiga de infância de Truman Capote, em 1963, e por "Tender Mercies", 29 anos depois), um Emmy (autor de telefilmes maduros e reflexivos, sobretudo com Peter Masterson, conseguiu-o graças a "Old Man", uma adaptação de Faulkner) e o Pulitzer teatral por "The Young Man from Atlanta". Cantava, ao pôr do sol, os pecadilhos da gente comum, num lirismo redentor distante do heroísmo fácil dos cowboys, dos triunfos da indústria petrolífera, da força da "civilização". Os seus conflitos eram interiores, o seu universo a ruralidade (de certa forma ,nunca deixou de escrever sobre a terra natal, Wharton, uma vilazinha agrícola a 80 kilómetros de Houston).
Se quiserem conhecê-lo, podem começar por "Tender Mercies": é a melhor interpretação da carreira de Duvall (o que não é dizer pouco), e a escrita, outra vez solitária, sobre alguém que quer voltar a caminhar como um homem, já não é deste tempo. Mas deveria ser.

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Uma "Quadratura do Círculo" empírica

As considerações que deixo aqui hoje sobre a relação entre os media e a política, resultam da minha participação/observação em três eventos recentes do PSD. Digo participação, na medida em que faço parte, mas digo também observação porque procuro manter uma atitude atenta, crítica e construtiva face ao que observo.

Aliás, a minha primeira experiência do género começou pela observação de várias sesssões no Parlamento e o escrutínio posterior dos relatos respectivos nos jornais e televisões.

Interessa-me observar os fenómenos a acontecer, a sua mediação e a posterior divulgação.

O primeiro.

No dia 24 de Janeiro fui ao jantar-comício do PSD em Vila Nova de Famalicão. Neste dia, à mesma hora do jantar, jogava-se um Braga-Porto. Eu não sabia o que esperar, mas ainda assim, não estava à espera de ver uma multidão. Todavia, foi mesmo isso que sucedeu.

Compareceram mais de 2.000 (duas mil) pessoas. Jantei numa mesa apinhada, numa sala apinhada, que não tinha capacidade para tanta gente, num restaurante que teve de improvisar uma segunda sala para quem chegou depois.

Estavam presentes os meios de comunicação social.

No próprio dia, nos noticiários da meia-noite, e no dia seguinte não vi nenhuma referência ao número de pessoas presente. Conheciam-se as questões internas do PSD. Juntar num jantar mais de duas mil pessoas parece-me um feito assinalável. Contudo, ninguém o assinalou.

Que nem os media que lá estiveram reportaram o facto, foi óbvio. Resta-me a dúvida sobre se o PSD lhes tenha chamado a atenção sobre o mesmo - penso que talvez não o tenha feito.

Podemos pensar que os números não são importantes, mas são. Poucos dias depois, vi referido por várias vezes nos noticiários, que o candidato a Secretário Geral do PS,Eng. José Sócrates, em jantar-comício tinha juntado, 500 (quinhentas) pessoas.

Poderemos sempre dizer a culpa da ausência da notícia do sucesso do jantar de Vila Nova de Famalicão é exclusivamente dos media tradicionais, por inépcia ou má-fé. Também poderemos dizer que naquele caso a culpa foi exclusivamente do PSD que não adoptou a melhor forma de se relacionar com os media naquele dia.

Seja como for, parece-me que tem de existir maior profissionalismo das duas partes. Do lado dos jornalistas, um esforço de independência, isenção e rigor. Se estão à espera de um fiasco e aparecem 2.000 pessoas não podem omitir o facto, nem fazer de conta que as pessoas não estão lá.

Da parte do PSD, uma preparação profissional que permita quer um bom relacionamento com os media tradicionais, no sentido de que facitem o trabalho dos profissionais dos media, como uma aposta decisiva nos novos meios: transmissão on line, redes sociais, presença de bloggers, etc - tudo o que permita ao público acompanhar de perto, ver, ouvir, o que se está a passar.


(a continuar)

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quinta-feira, 5 de Março de 2009

Uma entrevista notável


Alexandre Soares dos Santos deu ontem uma entrevista notável a José Gomes Ferreira, no programa Negócios da Semana, da SIC-Notícias. Com a autoridade que só a coerência e o exemplo permitem, foi claro, directo e frontal. Lapidar mesmo.

Elogiou a verdade, apontando o dedo a uma sociedade que convive com a mentira com crescente e preocupante naturalidade. Instou ao exercício da cidadania e à promoção activa da denúncia cívica e da participação política, recusando a demissão dos que silenciam. Valorizou o trabalho e o direito ao trabalho, distinguindo-os da reivindicação acomodada ao emprego. Apelou ao sindicalismo construtivo, distanciando-se da lógica de um sindicalismo de fricção radicalizada, fechado sobre si mesmo. Elogiou a nobreza da política e a relevância social da actividade dos políticos, elevando-lhes os padrões de qualidade, exigência e responsabilidade. Deu testemunho das opções concretas que, em tempos de crise, podem fazer a diferença quando se emprega mais de 20.000 trabalhadores… No fim, referiu ainda o projecto da ‘sua’ Fundação Francisco Manuel dos Santos, dando corpo a um consistente compromisso de responsabilidade social que, marcando-lhe a vida, perpassou toda a entrevista.

Quando se fala em medo, em cumplicidades tácitas, em silêncios úteis, a entrevista de Alexandre Soares dos Santos foi um bálsamo.

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segunda-feira, 2 de Março de 2009

DFA


Acabei de ler o segundo volume das “Memórias Políticas” de Diogo Freitas do Amaral, que se intitula “A transição para a democracia”. O texto cobre os anos pós-PREC de 1976 a 1982 e é um magnifico fresco desse período em que a democracia em Portugal dava os seus primeiros e periclitantes passos.

Confesso que ao ler estas memórias se apoderou de mim uma enorme nostalgia por esses anos e sobretudo pela memoria de uma esperança que hoje se encontra completamente ausente da minha existência e sobretudo de quase todo o discurso politico.



Os aspectos que mais achei de nota nestas memórias foram quatro.

1. O período coberto pelo livro foi caracterizado por aquilo que se podem descrever hoje como “Low Hanging Fruits” políticos. Não que estes fossem fáceis de colher mas eram relativamente óbvios para quem defendia a social-democracia e um modelo aberto e justo de sociedade. A necessidade da revisão da constituição, da extinção do conselho da revolução, da criação de uma lei da defesa e das forças armadas, da devolução do património nacionalizado, da verdadeira reforma agrária que a lei Barreto preconizava e da normalização das relações com as antigas colónias, eram em si factos políticos que embora difíceis de concretizar, e requerendo uma coragem politica e um músculo intelectual consideráveis, eram imperativos políticos e económicos evidentes. Penso que foi este facto que permitiu à AD criar um “roadmap” credível e transparente que deu aos eleitores a segurança de lhe dar a maioria absoluta por duas vezes.


2. Ao contrário do que talvez esperasse, o que transpira destas memorias não é o relato de um combate primitivo entre a direita e a esquerda mas sim de uma constante busca da parte dos elementos do centro moderado (de direita e de esquerda) de encontrar pontos de contacto e de opinião na tentativa de colher os já referidos “Low hanging fruits” e isolar com isso os extremos políticos (à direita e à esquerda). Parecem-me verdadeiramente diferentes os nossos dias em que a politica parece fazer-se nos interstícios da discórdia e em que direita e esquerda se degladiam numa ânsia patética de estabelecer elementos de diferenciação que não produzem nem proporcionam à sociedade qualquer tipo de valor e progresso.


3. Ao longo desse periodo, Freitas do Amaral foi convidado primeiro, em 1979 pelo PS para ser Primeiro-Ministro de um segundo governo PS-CDS (numa conversa surreal com Almeida Santos que entendia posicionar Diogo Freitas do Amaral como Vice Primeiro-Ministro de Mário Soares no dito governo, passando depois a Primeiro-Ministro em 80 com a hipotética eleição de Mário Soares à presidência - Ramalho Eanes viria a ganhar como sabemos) e depois em 1980 por Sá’ Carneiro e Adelino Amaro da Costa para ser o candidato presidencial da AD às eleiçoes desse ano (e em alternativa à figura parda e desconhecida do General Soares Carneiro que acabaria por ser o candidato da AD). Tinha 37 e 38 anos de idade respectivamente. Das duas vezes recusou (bem na primeira ocasião, possivelmente mal na segunda). Numa conversa com Adelino Amaro da Costa em que este ultimo critica a sua decisão de recusar a candidatura, Freitas do Amaral diz-lhe que o futuro lhes dirá se fez bem ou mal mas que pelo andar das coisas, ainda iria ter um futuro na vida política portuguesa. Confessa o autor num paragrafo triste, que em respeito a esta sua ultima afirmação se enganou, que afinal não viria a ter um futuro na vida política portuguesa e que “os frutos ou se colhem maduros das arvores ou apodrecem”.


4. Naqueles tempos, fazer política era excitante e adrenalinico. O discurso empolgante e envolvente deste livro é prova disso. Políticos jovens com ideais concretos, alguns mais convictos e realistas, outros mais experimentais e idealistas mas todos empenhados naquilo que pensavam ser a solução para um pais à beira de uma nova era. Hoje na política não me revejo e não encontro quaisquer pontos de estímulo e por conseguinte vou dedicando as minhas capacidades civis na tentativa de fazer funcionar o modelo democrático que pessoas como Diogo Freitas do Amaral na altura ajudaram a criar, ele sim com uma coragem e determinação políticas e humanas que nunca pensei vir tanto a admirar.

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Beijo. Mudo e sueco.



O Gonçalo pediu e eu obedeço. O realizador é sueco e o filme - embora da fase «americana» de Sjostrom - é mudo. O beijo, enlouquecido pelo vento, não tem pátria.

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Baci belli da morire

Sem dúvida “hetero”, muitíssimo íntimos, mas absolutamente estupendos estes beijos de gente em imorais “preparos”.

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Quando for grande...

...quero ter uma editora com um catálogo com uma capa assim.

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domingo, 1 de Março de 2009

Igualdade? Sim. Liberdade? Também.



Em diálogo com os posts do Pedro Norton e da Sofia Rocha sobre este assunto, julgo que uma breve passagem pelos significados latinos do verbo tolerare (de onde provém o português tolerar) e do adjectivo aequus (de onde provém o português igual) nos podem ajudar a enquadrar estas questões (que devemos ter o cuidado de não reduzir a apenas uma).
Tolerância, com efeito, tanto quer dizer aceitar o outro naquilo que tem de diferente em relação a mim, como significa afirmar perante o outro a minha própria diferença. Esquecer esta última parte, como quase sempre se faz, implica considerar a igualdade como mera uniformidade, desprezando a proporção e a harmonia. Implica, portanto, coagir a liberdade a um mínimo denominador comum no qual tudo se torna progressivamente indiferente, como se o mundo pudesse, ou devesse, ser, todo ele, uma planície sem relevo, isto é, um lugar indistinto e irrelevante.
Posto isto, concordo francamente com o reconhecimento social e político das uniões amorosas (a razão da união pode ser outra, mas julgo que sempre se reconduzirá, mais ou menos, a esta) entre casais do mesmo sexo, de tal modo que lhes devam ser legalmente conferidos todos os direitos que costumam atribuir-se a esse tipo de uniões, sejam eles fiscais, sucessórios, ou quaisquer outros. Tais direitos, aliás, devem ser acompanhados do mesmo conjunto de deveres que a essas uniões são também normalmente exigidos, como é o caso da assistência, do respeito, da fidelidade, etc. Sobre isto devemos hoje ser claros: não pode nem deve haver discriminação.
Isto não faz, porém, com que as uniões homossexuais e as heterossexuais sejam exacta ou absolutamente iguais, pois que, para além desta sua igualdade, que deve ser garantida, há entre elas uma diferença essencial, que também deve ser tolerantemente afirmada. Essa diferença, que decorre da própria natureza das coisas, é esta: a união entre duas pessoas do mesmo sexo não pode reproduzir-se, enquanto a união entre pessoas de sexos diferentes pode. Isto é fundamental, porquanto duas pessoas de sexos diferentes podem, a partir de si mesmas, constituir-se como uma família, enquanto duas pessoas do mesmo sexo, a partir de si mesmas, podem constituir-se apenas como um casal.
É claro que acontece a um homem, ou mulher, ter filhos, como resultado de uma união heterossexual, e depois amorosamente unir-se a alguém do mesmo sexo. E é claro que, vivendo o filho, ou filhos, com o casal homossexual, constituirão, então, uma família, na qual, como várias experiências comprovam, as crianças podem ser amadas, protegidas, educadas e felizes. O ponto, porém, é que o facto de eles serem uma família não decorre dessa união homossexual, mas de uma outra união prévia, heterossexual, a qual faz, aliás, necessariamente parte desse agregado familiar.
Assim, o facto de casais de pessoas do mesmo sexo poderem viver familiarmente com filhos de um ou de outro membro do casal, não anula a diferença essencial que há entre estas duas formas de união: uma pode reproduzir-se e a outra não. A existência de filhos num dado casal homossexual é sempre acidental do ponto de vista da própria união homossexual, na medida em que não decorre essencialmente dela. Deste modo, é justo pedir-se que o legislador distinga estes dois tipos de união amorosa, pois que é justamente a partir do facto da reprodução decorrente da união heterossexual que a própria sociedade garante, no futuro, a sua sobrevivência. Ora, essa é, talvez, a primeiríssima função do Estado.
Com efeito, não é a partir de qualquer pressuposto religioso, moral, histórico, ou cultural, que esta distinção deve ser afirmada, mas a partir de um pressuposto natural básico que é o facto da família, independentemente da sua forma, ser um grupo social indispensável à existência futura de qualquer sociedade humana, a qual, como um todo, deve, por isso, proteger e garantir a sua continuidade. Ora, a união amorosa entre pessoas de sexos diferentes é a única que garante a existência de famílias no seio de qualquer sociedade, devendo, nesse sentido, ser socialmente distinguida e afirmada.
Daqui não se segue, por exemplo, que casais homossexuais não possam, como alguns pretendem, adoptar crianças. Ao contrário, a experiência mostra que isso é possível e pode ter bons resultados. Não podemos esquecer, porém, que a existência de crianças não decorre da união homossexual, sendo-lhe, ao contrário, acidental. Deste modo, sempre que esteja em causa entregar uma criança à guarda de um casal homossexual ou heterossexual, e não havendo outras razões que suficientemente determinem essa escolha (económicas, psicológicas, sociais, etc.), esta diferença deve ser explicitamente tida em conta e deve ser factor de decisão (como já acontece, aliás, ao considerar-se a adopção por pessoas solteiras), isto é, a sociedade deve afirmar a sua opção pela entrega da criança ao casal heterossexual, que é o modelo familiar que naturalmente garante a sua própria continuidade enquanto todo social.
Tratar de modo igual o que é igual e de modo diferente o que é diferente: eis o que aqui deve pedir-se. Lutar para que os homossexuais vejam reconhecidos direitos sem os quais não podem, na nossa sociedade, ser naturalmente felizes, é um imperativo moral. Nesse sentido, é justo que lhes sejam garantidos os mesmos direitos e deveres que hoje se garantem aos casais heterossexuais. Naquilo que têm de diferente, porém, devem também ser tratados como diferentes, pelo que, ao sairmos do âmbito da união amorosa entre dois seres para o campo mais amplo da família (que, pela sua própria natureza, decorre unicamente das uniões heterossexuais), é também um imperativo moral distinguir entre uma e outra, devendo a sociedade afirmar a sua preferência (não, contudo, exclusiva) pelo modelo familiar baseado na união heterossexual.

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Processo de "Ter Juízo" em Curso.


As minhas quatro coisas preferidas do conclave socialista.

1 - A calça de ganga, com blaser e gravata do Secretário-Geral.

2 - A leitura da moção ontem por António Costa. Foi bem pensado por o Costa a ler aquilo. Ao menos, aquele ar que ele tem, bate certo com aquele discurso: ele tinha uns papéis na mão, um ar menos artificioso, menos arrumadinho, menos profissional. Quando ele diz "camaradas", "camaradas" o olho brilha-lhe, a gente acredita. Aquilo sim, é PS.

3 - Augusto Santos Silva, em versão fim-de-semana: blaser de "veludo cotelé" para a entrevista na RTP, camisa aos quadrados, com t-shirt por baixo, para o conclave.

4 - Manuel Maria Carrilho, a dizer com ar senatorial que não sabia de nada, porque estava ausente do país em missão, muito importante. Desculpem-me estou enganada ou o homem esteve humilhantemente uns dois anos à espera para ir para Paris e só foi há coisa de 15 dias?


5 - Almeida Santos ontem à entrada do conclave a dizer que os portugueses têm de ter juízo. É coerente, é sabido que Almeida Santos sempre foi um homem de muito juízo.


O que eu gosto de um conclave.

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