domingo, 31 de Agosto de 2008

Olha, já tivemos 100 mil visitas

Foto: SH

É SABIDO que a blogosfera está carregada de análises políticas GENIAIS. Sabemos também que há na "rede" circunspectos artigos que nem os nossos melhores jornais de referência mereceriam publicar. Confesso, nem sempre me parecem a melhor companhia.
No fim de semana e, na ressaca de um Benfica-Porto cheio de dores e estiramentos, arranjei forças para três ou quatro blogo-voltas. Tenho um lema: chatices não! Findas as voltas, aqui estão umas preciosidades pelas quais levanto com prazer o meu copo de tinto.

O regresso ao tropicalismo de Roberto Carlos, por sugestão do Armando Rocheteau.

Uma foto de mar salgado postada pela Madalena Palma e que me atrevi a publicar acima: “... E segreda-me todas as histórias sem fim.

A musical hermenêutica do mês de Agosto feita pelo Taxi Pluvioso: “Agosto é sinónimo de Portugal. Não só pela lazeira de nada fazer, na beach ou na night, mas porque acontecem coisas maravilhosas, coisas solares.”

Um post do insone Helder Guégués a dizer que Margarida Rebelo Pinto, quando jovem, não era “boa aluna, inteligente e comunicadora”, mas sim “boa aluna, inteligente e comunicativa”. Do erro está inocente a Margarida, vítima de radiofónico deslize da Antena 1.
Foi com voltas destas e por causa destas voltas que a Geração de 60 atingiu hoje as 100 mil visitas. Agradecemos a quem nos obsequiou com tão redondo número. Esperamos que se tenham divertido. Sejam exigentes, "Chatices, não! ", nem sequer as desta Geração.

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sábado, 30 de Agosto de 2008

...but why not Barry?


Os posts da Sofia e do Manuel obrigam-me a libertar os meus receios.


Claro que vejo desde há muito o Barack Obama como uma lufada de ar fresco na política internacional. Desde o princípio que estou a torcer por ele. Lembro-me de estar de férias em Fevereiro e ir compulsivamente à Net ver se o Barack tinha batido a Hillary nos estados chave.

Sim, o homem tem brilho. Sim, o homem tem carisma. Sim, o homem tem mensagem. Sim, o homem traz esperança. Sim, o homem tem substância e não é apenas uma construção dos media. Sim, o homem é o melhor que nos poderia acontecer. SIM! Eu voto Obama.

Ou votaria, se pudesse. Isto é uma visão ultra-eurocêntrica das eleições americanas, infelizmente... acho que se as eleições americanas fossem na Europa o amigo Barack ganhava com 90% dos votos. Alas, poor Yorick: não são. São na América e, imposição da democracia, votam apenas os americanos.

Pelo que leio, a mensagem de Barack Obama passa bem nos centros urbanos, culturalmente sofisticados, white-collared. É na América profunda que começa a despertar uma vaga de fundo contra a sua candidatura. A América blue-collared reage: há estados em que a maioria democrática parece ir votar McCain. A mensagem Obama não convence a (perdoem-me a expressão) "classe operária".

O quê? Depois de uma vida de trabalho, ter um negro como presidente? E com ascendência islâmica? E se é tão bom americano, porque é que não mudou o nome de Barack para o bom, good old american, Barry? (imaginar a cena num bar do Midwest por um americano de camisa de alças a beber a 6ª cerveja; o arroto no fim é facultativo).

Abstenho-me de dizer o que penso destes comentários. Mas nem eu, nem a Sofia, nem o Manuel, votamos nas eleições americanas; este blue-collared reactionary, embora fictício, sim.

É ele o principal rival de Obama nas eleições.





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Barack

Este post da Sofia fez-me voar no tempo. Back to the past. Fez-me lembrar que, noutro tempo, noutro lugar, já esperei por Barack.
Em 1975, em Luanda, tão jovem, tão comovido com a minha própria militância, sonhei que do nevoeiro, do cacimbo e do capim, surgiria um Barack.
Eu queria, eu sonhava. Por tudo, pela justiça que era devida a milhões de deserdados de mato e musseque, pelo exaltado e superior ideal que seria tirar da dúbia cartola de um conflito de classes e de raças o melhor e mais leibniziano dos mundos, eu esperava, eu tinha a certeza de que, negro e messiânico, encontraríamos, após longas horas de científico debate, ou de orgia de poder popular, um Barack redentor. Nunca, nunca chegou!
Aos 10 anos de idade, numa aula do 1º ano de liceu, no Salvador Correia de Sá e Benevides, soube que John F. Kennedy tinha sido assassinado. Lembro-me, ainda me lembro, que, dois anos antes, o meu pai me levara a ver, do outro lado da rua, o consulado americano apedrejado dois dias antes por razões patrióticas. No dia em que anunciaram a sua morte, alguém me disse a palavra mágica. Não sei se foi “Change” a palavra passe, se foi “Liberdade” ou apenas “Democracia”, sei que bastou para perceber, no dia da sua morte, que para mim este Barack chegara cedo de mais. Morto, não me servia para nada.
Em 1968, muito mais morto, já sem poder chegar, deram-nos a ver o corpo humilhado e ofendido do padre Martin Luther King Jr. Chegou sem poder chegar, sonho de Barack que não tinha como ser sonhado.
Nem cedo, nem tarde, o único Barack que chegou mesmo, na improvável África do Sul de 1994, foi Nelson Mandela. Confesso: nem em sonhos o esperava. Não importa, esperavam-no muitos milhões. A mais milhões, milhões de outros, fez sonhar e fez renascer.
E logo agora que este Barack vai chegar, ando às voltas a perguntar-me: já não estou à espera ou já não consigo acreditar?

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sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

America, we cannot turn back…


Há um brilho especial neste homem. Um sopro de algo diferente que perpassa. Não há dúvida.

Barack Obama sente a História e parece encontrar-se com ela. Minutos depois da formalização da sua nomeação pela Convenção Democrata, a emoção do Congressista John Lewis, testemunho vivo da inesquecível marcha de Washington de 28 de Agosto de 1963, era eloquente. Ontem à noite, o seu discurso de aceitação, exactamente 45 anos depois, centrando-se no alcance político da “promessa americana”, ligando a grandeza dos EUA à ideia de um país que premeia o sonho, o trabalho e o mérito, no qual o filho de uma jovem americana de Kansas City e de um jovem queniano pode vir a ocupar a Casa Branca, assegurou-lhe uma nova e decisiva dimensão: a de protagonista histórico, num tempo que reclama a mudança e nela antecipa o futuro.

Em Obama, impressiona este sentido da História. A sua grande mensagem de ontem foi: America, we cannot turn back. Mas acrescentou, actualizando Martin Luther King Jr., we cannot walk alone

(...)
Change happens - change happens because the American people demand it, because they rise up and insist on new ideas and new leadership, a new politics for a new time.
America, this is one of those moments.
I believe that, as hard as it will be, the change we need is coming, because I've seen it, because I've lived it.
(…)
America, we cannot turn back. We cannot walk alone.
At this moment, in this election, we must pledge once more to march into the future. Let us keep that promise, that American promise, and in the words of scripture hold firmly, without wavering, to the hope that we confess.
Thank you. God bless you. And God bless the United States of America.
(versão integral, ver aqui)

Há em Obama um ‘back to basics’ politicamente inspirador. Retoma o elogio da vontade. Retoma o radical dos grandes princípios e valores políticos. Retoma o sonho.

Só por isso, e seja qual for o resultado, é caso para dizer: oxalá o mundo o oiça!

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The Slaying of Syncopation





Ironias das ironias, o Jazz, que nascera africano e crioulo, que era filho do blues e dos espirituais negros, nasceu imaculadamente branco para a industria discográfica. Pela mão do italo-americano Nick La Rocca e da sua alvíssima «Original Dixieland Jass Band» (Jass, sim, mas isso fica para outro post). «Livery Stable Blues» foi um êxito instantâneo. Êxito que, para não destoar, contribui também para desarranjar a frágil cabeça do jovem Dominic.
O homem que, muito antes dos Doors, tocara já no bar vetusto de um outro Morisson Hotel, o provocador que gostava de dizer que o Jazz «is the assassination of the melody, it's the slaying of syncopation» sucumbiu a um «nervous breakdown» («foi dos nervos», diríamos nós). E acabou os seus dias dedicado à construção civil mas sobretudo à divulgação de uma tese verdadeiramente peregrina: o Jazz era, sempre fora, coisa de brancos.

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quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

O que no cache se adivinha

Entre o cache-sexe que eu julguei adivinhar aqui, no concavo recôndito de Kiki de Montparnasse, e o musical assomo com que o Pedro N. se expôs aqui, passo a oferecer o que, por distintas razões e distintos fins, aos dois cache-sexe igualmente serve.

Primeiro pende e se engrossa
depois arqueia-se aos saltos
e em soluços se ergue teso
arreganhando-se róseo.
Brilha de lisa a cabeça
sobre os rebordos violáceos
e veias finas palpitam
ao longo da grossa haste
que se adianta da confusa
negridão de que flutua
o saco de oblongas bolas
de esparsos pêlos coberto.


E quem será o poeta – grande entre os grandes – que escreveu este poema, parte de "adivinha dupla"? Se descobrirem prometo a outra contráctil parte da adivinha.

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Cache-sexe «à homem»

Comentário politicamente correcto a este post do Manel: «este Fonseca é um tipo verdadeiro misógino! Desde quando é que só as mulheres usam cache-sexe?»


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Fazer política

Em 2008 existiram mais ou menos incêndios do que em 2007? A esta pergunta aposto que a maioria de nós, cidadãos incautos, responderia que o número de incêndios diminuiu. Pois bem, segundo os dados da Direcção Geral dos Recursos Florestais, de 1 a 15 de Agosto de 2008, a área ardida em Portugal é cerca de 35% superior à que ardeu em igual período do ano passado (para ser totalmente honesto, terei também de dizer que, ainda assim, o número é muito inferior aos dos anos imediatamente anteriores).
Como explicar esta divergência entre a realidade estatística e a realidade percebida? Tenho uma tese não demonstrada: arrisco-me a apostar que o número de notícias sobre incêndios diminui em 2008.
E com isto, volto à «vaga» de criminalidade que alegadamente «assola» o país. De uma coisa ninguém terá dúvidas: a criminalidade «assola» o «país mediático». Mas nestas coisas convém lembrar que também há um «país real». E se acreditarmos no Secretário Geral do Gabinete Coordenador de Segurança, feitas as contas, a «vaga» corresponde a um aumento de 10% da criminalidade no 1º semestre deste ano.
Preocupante? Sem dúvida. Mas o fenómeno justifica uma intervenção do Presidente da República e uma oposição em bloco a reclamar a cabeça do Ministro da Administração Interna? A resposta dependerá da concepção que cada um de nós tiver do que deve ser «fazer política».

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quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

Cache-sexe

Por razões supérfluas, pus-me a olhar melhor para a fotografia de Man Ray que, por pura funcionalidade, escolhi em post anterior e dei comigo a pensar que a nudez feminina tem mudado alguma coisa.
Olhando para Les Cheveux e, se fizermos justiça ao título, fixando-nos mais directamente no perfeito triângulo negro que se ergue no encontro de ventre e coxas, damo-nos conta de que a vulnerabilidade e ousada exposição do final dos anos 20 do século passado parece hoje, na primeira década do século XXI, quase um cache-sexe.
Ali, onde Man Ray homenageava a deusa do amor com o mais natural e ecológico dos montes, não sei se por efeito de algum pretenso aquecimento global, triunfa hoje uma planície em vias de desertificação.
Duvido que Man Ray, fotógrafo de Kiki (à esquerda) e de Primado da Matéria Sobre o Pensamento (à direita), apreciasse esta depreciação pilosa.











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I drink that much gin in a day!




Já o senhor de ar imponente desta fotografia tem a honra duvidosa de NÃO ter gravado o primeiro disco de jazz da história. Freddie Keppard (era o seu nome) foi a «next big thing» de New Orleans, depois de Bolden. O peso da herança, está visto, fez-lhe mal à cabeça. Inebriado com o sucesso, cioso da sua arte, começou por tapar as mãos com um lenço enquanto tocava. Tinha, dizia-se, um receio tremendo que alguém lhe roubasse o jeito que o celebrizou. Mas esta era ainda uma tara mansa. Foi a Victor Talking Machine Company que acabou por garantir-lhe um lugar nesta história de jazzers com um parafuso a menos. Teve, repito, a oportunidade de gravar o primeiro disco de jazz da história. Chegaram a acenar-lhe com a fabulosa quantia de 25 usd, imagine-se. Mas à Victor disse nada. Ou melhor, terá dito: «Twenty-Five dollars? I drink that much gin in a day!»
A verdade era outra. Keppard não era parvo nenhum. Sabia bem que só queriam «steal his stuff».

PS: Perdoem-me esta súbita investida pela arqueologia do Jazz. Estou a rever isto. O seu a seu dono.

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Poupar dinheiro

Há uns tempos o Presidente da República disse que os portugueses poupavam pouco e que era preciso poupar mais (e há mesmo razões macroeconómicas urgentes para o fazer). Numa entrevista que dei à data penso que à Antena 1 concordei com o Presidente e dei conselhos de poupança. Fiquei com um peso na consciência pois não sou por natureza poupado e estava a pregar à Frei Tomás. Peguei em mim e resolvi ver o que podia fazer e eis o que já consegui, com umas horas livres e sem virtualmente diminuir aquilo a que tenho direito:

Seguro da mota: menos cerca de 120 € ano
Seguro do carro: menos cerca de 500 € ano (!!!)
Anuidade do cartão de crédito: menos 50 € ano
Reembolso do arredondamento de créditos: 1.000 € (wishful thinking)

Próxima etapa: poupar nos supermercados. Aconselho vivamente a que revejam os seguros das “viaturas” pois houve ai uma silenciosa (et pour cause) revolução nos preços.

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Aquele querido mês de Agosto



Um filme simples, despretensioso, interessante, sensível, informado e muito, muito inteligente. Ao que parece feito com pouco dinheiro e tudo salvo por uma excelente montagem. Ainda por cima com uma história em sub-plot também muito interessante. Mas acima de tudo um filme inteligente. Só não consegui encontrar um trailer to look at à altura.

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A lenda do minotauro (II)



Há várias lições a retirar deste mito encantador. Em primeiro lugar, porém, esta: Teseu queria saber quem era. Nada era tão importante. Quando pensava em ir ter com o seu pai e dizer-lhe que era seu filho, Teseu ia à procura de si mesmo: ia perguntar ao pai quem era!
O problema da identidade, de facto, apesar de só ter sido expressamente colocado, de um ponto de vista filosófico, em 1690, por John Locke (An Essay concerning Human Understanding), surge central no pensamento grego. Porque se é verdade, como disse Parménides, que «o ser é e não pode não ser...», não é menos verdade, como disse Heraclito, que «os confins da tua alma nunca os encontrarás, mesmo que percorras todo o caminho.» Fica por saber, portanto, o que é “isto” que estranhamente persiste entre o uno e o múltiplo e que absolutamente resiste à uniformidade e à mudança.
Ora, a questão já aqui é colocada em toda a sua extensão, que vai do reconhecimento exterior – material e jurídico – de si mesmo (Teseu é primeiramente identificado pelas suas características físicas e pelos seus laços de parentesco), até ao encontro interior – moral e pessoal – de si próprio (Teseu vai-se progressivamente identificando pela consciência que os outros, primeiro, e ele próprio, depois, vão tendo das suas acções).
É muito estranho, de facto, sermos, sabermos que somos, e não sabermos quem somos, ou o que somos. É essa a grande jornada para a qual Ethra preparava o seu filho. Mas como é que nos procuramos a nós mesmos? Tal como Teseu: calçando as sandálias de nossos pais e empunhando as suas armas: fazendo obra! Porque nos conhecemos ao mesmo tempo que nos revelamos, ao mesmo tempo que nos fazemos. É desta encruzilhada, própria do ser humano, que repetidamente falam os gregos.
Ethra, por isso, chorava, ao ver o seu filho partir: porque não há garantias; porque nos podemos perder. Todos temos, dentro de nós, Egeu e Minos: e ambos querem governar. Essa escolha, porém, é interior. O olhar dos outros não me diz quem sou. Ao contrário, tenho que ser para poder olhá-los. Nessas idas e vindas entre o fundo da caverna e a luz do sol, de que falará Platão, preciso dos outros para ser e preciso de ser para os outros. Na outra margem, portanto, do outro lado, tem que estar Ariadne (que me olhou por eu ter coragem e cujo olhar me encorajou), segurando o frágil fio de seda – a palavra, o discurso, a razão (em grego: lógos) –, com o qual me comunico a mim e aos outros na estranheza deste meu caminho.
Nascemos. Somos preparados por nossa mãe (a natureza) para a grande jornada que há-de vir: descobrirmo-nos! Quando é chegada a hora vamos à procura de nós mesmos. Onde? Em todo o lado e ardentemente, como é próprio da juventude. Calçamos as sandálias de nosso pai e empunhamos a sua espada (cultura e civilização humanas) e, onde ele parou, continuamos. Mas não há garantias. Longo é o caminho até Atenas.
Seguimos, obstinados, até à nossa meta: olhar nos olhos de nosso pai! Então ele nos dirá quem somos. Quando lá chegamos, porém, ele olha-nos nos olhos e não nos reconhece. Mas se não nos perdemos no caminho, se nos provámos justos e corajosos, trazemos ainda a sua marca intacta em nós. Vendo-a, ele convidar-nos-á a governar junto de si. Mas a lição deve ser aprendida: o seu reino não é o nosso. Temos de descobrir-nos.
Na verdade, podemos acomodar-nos e sentar-nos ao lado de nosso pai, gozando os confortos do seu reino e as delícias do seu amor. Mas então não seremos livres. Ser príncipe não é ser filho de um rei: é tomar livremente sobre si as obrigações dos seus súbditos! É escolher, em cada dia, ir ao encontro de nós próprios e construir verdadeiramente o nosso reino.
Para sermos verdadeiramente nós próprios temos de enfrentar livremente essa batalha original. Depois de nos termos procurado em todo o lado, sem, contudo, nos reconhecermos ainda, falta olhar dentro de nós. Aí veremos, meio escondidos, Egeu e Minos... ambos querendo governar. Esse horrível monstro, metade homem e metade toiro, prendendo-nos à ferocidade do desejo que tudo quer para si mesmo, quer-nos esconder e subjugar. Temos, porém, de matá-lo, se queremos ser livres: se queremos ser nós!
Essa morte, no entanto, é dolorosa. Na nossa carne morre o monstro e, nele, parte de nós! E só um frágil fio de seda nos liga ainda aos olhos de um outro, aos quais nos mostramos cada vez mais, nos quais nos vemos cada vez melhor. O olhar que nos reconhece, porém, é agora nosso. Não é já o dos nossos pais. Esses têm de morrer (como acontece ao rei Egeu quando Teseu regressa a Atenas), para que a natureza e a cultura sejam, em nós, uma vez mais, reinventadas (é esta, bem entendido, a história de Édipo, que no próximo post, assim o espero, havemos de ver).

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Álvaro Siza ao DN


Alguns comentários a propósito da entrevista de Álvaro Siza Vieira ao Diário de Notícias de Domingo.

1. A sobreposição dos interesses do Estado (que não deveria ter interesses e muito menos encapotados) à livre concorrência quando “inventa” concursos públicos por obrigação de procedimento legal mas atribui as vitórias a quem previamente convidou para ganhar. Nunca se poderá provar. A não ser que os coniventes falassem (denunciassem) coisa que no seu interesse próprio nunca farão. Lembro-me de pelo menos três concursos em que à boca pequena se dizia para quem estavam destinados, o que mais tarde se confirmou. Avisar antes poderia ser condicionar os resultados e abrir um terrível precedente para futuros casos ou instalar uma suspeição constante e fácil sobre todos os concursos. Denunciar depois seria sempre mau perder.

Nos tempos que correm ter uma obra de um arquitecto internacional é como ter uma loja internacional num Centro Comercial. O interesse do mundo deixou de ser a diferença entre culturas e tradições para passar à pretensão de ter o mundo todo num mesmo lugar, o que resulta em tudo em todos os lugares, e que por fim é: tudo igual a tudo.

A perversão atinge os próprios arquitectos – estrelas. Já ninguém se interessa pelo arquitecto em si ou pelo projecto em si. Governantes e autarcas incultos e deslumbrados só querem uma coisa: uma assinatura que ponha os seus países ou as suas cidades no mapa. O que parece uma boa ideia feito uma vez, torna-se num pesadelo saloio para o poder, caro para o contribuinte e vazio para o próprio arquitecto.

2. Álvaro Siza é um caso que pode exemplificar uma forma diferente de ser arquitecto internacional. Tem como poucos a capacidade de se imbuir das culturas locais. Não deposita objectos aleatórios em paisagens indiferenciadas. Tendo aceite de uma forma comedida fazer projectos fora de Portugal, tem-nos feito sem corromper o seu trabalho e tem acrescentado valor e qualificação aos lugares onde intervém. Talvez porque, ao contrário de outros arquitectos do star system, a que Siza pertence por reconhecimento dos seus pares, o seu trabalho fora de Portugal teve sempre uma contextualização disciplinar que resulta da sua própria investigação e caminho dentro da arquitectura e do urbanismo. Disso resulta menos espectacularidade e mais arquitectura no sentido antigo de “fazer cidade”.

Habitação social na Alemanha e na Holanda onde Siza compreendeu os lugares e a sua tradição, tornaram edifícios, que pelo seu tema / programa seriam menos espectaculares, em obras de referência e em reflexões contemporâneas sobre a própria história e o destino da arquitectura. Intervenções no espaço público como em Lisboa (Chiado), Madrid (Paseo del Prado) e agora Milão (Avenida Sempione) são intervenções que fazem do arquitecto um intérprete cuja inteligência se dilui na obra que o público reconhece e a história assimila. Bem diferente das vedetas que criam objectos que, passado o efeito surpresa, se vão tornando obsolescentes e até maçadores.

Vale em Siza uma característica: a simplicidade e contextualização do exterior dos edifícios vs uma surpreendente concepção espacial no interior. Não será essa uma das grandes qualidades da arquitectura? Não será isso que nos surpreende no Panteão de Roma ou na igreja de S.Carlo alla quatre fontanni de Borromini também em Roma?
A afirmação internacional de Siza é a afirmação de uma cultura de resistência disciplinar.

3. Outra questão posta por Álvaro Siza é importância da legislação, do ordenamento do território, por exemplo (como da legislação em geral), para combater a arbitrariedade do gosto e dos interesses isolados sobre o espaço público ou do espaço enquanto património de uma comunidade. De facto, a questão do gosto não é contornável pela legislação. O gosto forma-se pelas tendências naturais e pela educação que ensine a ver e a fazer. Mesmo assim, será difícil e indesejável uma unanimidade. O gosto é sempre uma posição de maiorias dentro de grupos circunscritos. Pode falar-se no gosto dos decoradores, dos arquitectos, como pode falar-se do gosto entre outros grupos, por exemplo, sociais. O gosto funciona como um código de reconhecimento na relação biunívoca do indivíduo com o grupo e, por isso, é sempre dominado por maiorias dentro desses grupos.
A lei, o Direito, sobrepõe-se a esses grupos e a esses consensos circunscritos, garantindo um interesse geral que está para além do tempo e pode garantir uma unidade cultural, tradicional e até civilizacional que os interesses imediatos do dia-a-dia não podem, por si sós e pela sua natureza imediatista, fazer prevalecer.

4. Uma quarta questão posta por Álvaro Siza foi a do tempo de estudo que os projectos de qualidade exigem. Siza sabe que a facilidade, o jeito, até o talento, não dispensam uma reflexão que está para além do objecto arquitectónico. De algum modo está implícita uma reflexão filosófica que se realiza na história e na tradição —reflexão sobre o lugar — e no sentido da actualidade — que é uma reflexão sobre o tempo. A assimilação de que Siza fala e que mesmo nas rupturas (rupturas feitas com oportunidade e não a ruptura por preconceito de mudança geracional) acabam por se reintegrar na continuidade que a arquitectura sempre representa. De algum modo a arquitectura é sempre uma vitória do espaço (lugar, presença) que fica sobre o tempo que passa. Ficar é a prova da continuidade. A disciplinaridade é a resistência e a perduração do essencial.

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terça-feira, 26 de Agosto de 2008

O Meio do Céu

Man Ray, Les cheveux
Sei, sem sombra de dúvida sei, que os horóscopos são científicos.
Mesmo assim tenho alguma dificuldade em compreender como é que no mesmo dia, 27 de Agosto, nasceram Confúcio, Hegel, Man Ray e Cesária Évora. Virgem, todos. Virgem diz o Sol, diz a Lua, concordam os planetas. Claro, há os antecedentes e o meio do céu: séculos diferentes, línguas diferentes, locais diferentes.
Mas haverá destinos que a geografia, a cultura e o tempo tenham separado e que o zodíaco não consiga unir?
Os Anacletos de Confúcio, a dialéctica hegeliana, a Kiki de Man Ray, a ausência de Cesária, fazem todos parte da mesma poeira humana. Dispersa no cosmos, unificada no mapa astral.
Ah, “si asa um tivesse / pa voa na esse distancia”.

Cesária, Ausência

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segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

O som de Bolden


O homem da fotografia viveu entre a década de 70 do século XIX e a década de 30 do século XX. Barbeiro de profissão, bêbedo muitíssimo competente, acabou os seus dias num hospital psiquiátrico do Estado do Louisianna. A foto, carcomida pela humidade, é o único registo que sobreviveu do homem e da sua obra. O que, convenhamos, é pena. «To say the least». Atendendo a que foi o primeiro a tocar uma música estranha, misto de blues, de gospel e de ragtime, a que anos mais tarde alguém chamaria ... jazz.
A que soaria, exactamente, o som de Bolden?

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Back to school (non è vero ma è bene trovato)


Mão amiga fez-me chegar uma daquelas mensagens apócrifas que circulam pela Internet: um discurso de Bill Gates aos alunos de uma escola secundária em 2002. É de cortar a respiração o retrato que, indirectamente, é feito dos adolescentes (confesso: sou pai de um e sinto-me muito atingido).

Então aqui estão as 11 unwritten rules de que Bill Gates falou aos finalistas da Escola Secundária Mt. Whitney, em Visalia, California na abertura do ano lectivo de 2002. Passo a citar o reformado mais rico do Mundo.

"Rule 1: Life is not fair -- get used to it!

Rule 2: The world won't care about your self-esteem. The world will expect you to accomplish something BEFORE you feel good about yourself.

Rule 3: You will NOT make $60,000 a year right out of high school. You won't be a vice-president with a car phone until you earn both.

Rule 4: If you think your teacher is tough, wait till you get a boss.

Rule 5: Flipping burgers is not beneath your dignity. Your Grandparents had a different word for burger flipping -- they called it opportunity.

Rule 6: If you mess up, it's not your parents' fault, so don't whine about your mistakes, learn from them.

Rule 7: Before you were born, your parents weren't as boring as they are now. They got that way from paying your bills, cleaning your clothes and listening to you talk about how cool you thought you are. So before you save the rain forest from the parasites of your parent's generation, try delousing the closet in your own room.

Rule 8: Your school may have done away with winners and losers, but life HAS NOT. In some schools they have abolished failing grades and they'll give you as MANY TIMES as you want to get the right answer. This doesn't bear the slightest resemblance to ANYTHING in real life.

Rule 9: Life is not divided into semesters. You don't get summers off and very few employers are interested in helping you FIND YOURSELF. Do that on your own time.

Rule 10: Television is NOT real life. In real life people actually have to leave the coffee shop and go to jobs.

Rule 11: Be nice to nerds. Chances are you'll end up working for one."

Inacreditável, hem? Para quem tem filhos adolescentes hoje em Portugal, parece um retrato de família. É quase mau demais para ser verdade.

Geralmente as coisas boas demais para serem verdade são mesmo boas demias, e portanto falsas. Neste caso é mau demais para ser verdade - e é falso.

A minha reacção visceral ao receber histórias destas por email é duvidar. No 1% de casos que merecem o meu tempo, vou ao meu detector de lendas urbanas favorito, o Snopes (ainda não sabe responder àqueles amigos que dizem que o Pai Natal é vermelho e branco por causa da Coca-Cola?), e é muito raro não encontrar lá informação sobre a história. Foi o que aconteceu neste caso: a história está desmontada aqui (lá está também uma versão mais detalhada dos 11 Mandamentos de Gates).

Non è vero. Ma è bene trovato! Quem não reconhece, nem fica deprimido, com os sintomas descritos nesta alegoria ponha o dedo no ar.

As minhas mãos estão para baixo.






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A lenda do minotauro (I)



A lenda do minotauro, na história dos portugueses, imediatamente remete para o episódio em que João Lourenço da Cunha, depois que el-rei D. Fernando lhe roubou a belíssima Leonor Teles, com quem era casado, decidiu passar-se a Castela, onde em todo o lado se apresentava brasonado de minotauro, ostentando na cabeça duas grandes hastes doiradas.
A lenda, obviamente, diz muito para além disto e merece bem ser conhecida por si mesma. Não cabendo aqui transcrevê-la, porém, e nem sequer resumi-la, realçarei, em dois breves posts, alguns dos seus aspectos que talvez mais possam interessar.
O herói da história é Teseu, que em criança foi educado por Ethra, sua mãe, no palácio do seu avô, o rei Piteus, na velha cidade de Trezena. O seu pai, o rei Egeu, vivia na Ática, em Atenas, a qual governava e, por isso, não podia abandonar, pois um monarca tem o dever de cuidar sempre do seu povo.
Enquanto crescia, Teseu perguntava muitas vezes pelo seu pai, que nunca vira e muito desejava conhecer. A sua mãe, no entanto, não o deixava partir e dizer ao rei Egeu quem era – de todos o seu maior anseio –, enquanto não fosse suficientemente crescido e capaz para uma tal jornada.
Todos os dias perguntava Teseu a sua mãe quando poderia partir, menino ainda que era. Um dia ela disse-lhe que quando ele fosse capaz de levantar a pesada pedra onde estavam sentados, conversando, consentiria em deixá-lo partir para Atenas para dizer ao pai quem era.
Era a tarefa de um gigante. No entanto, dia após dia ele o tentou, até que, passados anos, chegou o momento esperado e a enorme rocha cedeu ante os esforços de Teseu. Ethra ficou muito triste por ver que tinha chegado a hora de se separar do seu filho muito querido, mas percebendo que nada mais podia fazer, entregou-lhe uma espada com um punho de ouro e um par de sandálias que o rei Egeu lhe tinha deixado debaixo daquela pedra, quando, anos antes, a levantara com os seus poderosos braços, colocando-a no local de onde agora Teseu a retirava.
No longo caminho até Atenas, que percorreu com as sandálias de seu pai, viveu muitas aventuras, e muitos foram os salteadores e os bandidos que, empunhando a sua espada, derrotou, sem piedade, de tal maneira que a fama da sua coragem e do seu carácter chegou a Atenas antes dele. Aí, porém, os sobrinhos do rei, com medo que este agora o preferisse, esquecendo-se deles, preparam-lhe uma armadilha, apresentando-o como um traidor que vinha para o matar.
O rei, encolerizado por tamanha afronta, ordenou imediatamente que o prendessem e o matassem, embora sentisse, ao olhá-lo nos olhos, algo estranho. Parecia sentir que aquele homem era bom e justo, mas era confuso o que sentia. E foi já no último instante, ao ver a sua própria espada, que reconheceu o seu filho, o qual logo abraçou, banindo para sempre os verdadeiros traidores. Os dois, desde então, felizes, governaram Atenas, onde Teseu se tornou conhecido de todos pela sua coragem e pelo seu carácter.
Uma vez mais, porém, tudo se precipitou. Na ilha de Creta havia um horrível monstro, o minotauro, cujas formas eram em parte de um homem e em parte de um toiro. O rei Minos, que governava a ilha, gastara muito dinheiro na construção de uma habitação para o horrível monstro, que tinha a obrigação de alimentar. Ora, acontece que, alguns anos antes, os atenienses, entrando em guerra com Creta, foram derrotados, tendo a paz sido concedida com a condição de que Atenas enviasse anualmente sete jovens e sete virgens para serem devorados pelo monstro do cruel rei Minos.
Teseu, ao saber desta terrível história, ofereceu-se, contra a vontade do pai, para ser um dos sete jovens desse ano, os quais eram normalmente sorteados:
– É exactamente por ser um príncipe – disse ele ao pai – e o legítimo herdeiro do teu reino, que livremente tomo sobre mim as calamidades dos teus súbditos.
Deixando o pai muito triste, foi então para Creta, para ser devorado pelo minotauro. A sua atitude e coragem, no entanto, diferenciavam-no dos restantes jovens, o que não passou despercebido a Ariadne, filha do rei de Creta, que era contrária à crueldade do pai.
De noite, enquanto esperavam a aurora em que seriam sacrificados, os pobres atenienses choraram, até que, embalados pelos próprios soluços, adormeceram. Apenas Teseu se mantinha em pé, acordado, pensando numa forma de os salvar. Apareceu então a princesa Ariadne, que abrindo a porta da cela lhe pediu que rapidamente fugisse. Mas ele disse-lhe que não podia abandonar os seus companheiros, convencendo-a a levá-lo até ao refúgio do minotauro.
Percorreram um bosque escuro e cerrado até que chegaram a uma porta, único acesso a um escuro labirinto, no meio do qual estava o terrível monstro. O minotauro era fácil de encontrar, apesar do labirinto, pois os seus roucos rugidos indicavam o caminho a seguir. Mas como é que de lá sairia, se o matasse? Ariadne disse-lhe então que segurasse a ponta de um fio de seda, que lhe entregou; ela seguraria a outra extremidade e assim, se ele sobrevivesse, poderia sair do labirinto.
A luta foi longa e feroz e foi apenas no momento em que o minotauro estava prestes a devorá-lo que, de um só golpe, Teseu o matou. Rapidamente saiu do labirinto e, reunindo os outros, logo fugiram para Atenas. Ariadne decidiu ficar junto a seu pai, que, no fundo, amava, na ilha que um dia governaria.
Na viagem de regresso, no entanto, vinham todos tão felizes e excitados, que Teseu se esqueceu de içar velas brilhantes – e não pretas –, sinal de que vencera o minotauro, tal como o seu pai lhe pedira, o que fez com que o rei Egeu, do alto de uma montanha onde, todos os dias, esperava avistar o barco regressando, vendo que as velas eram pretas e pensando, por isso, que o seu filho tinha morrido, se atirasse com o seu ceptro e a sua coroa para o mar, que desde então tem o seu nome, por nele ter morrido afogado.*
Interpretarei no próximo post alguns aspectos desta lenda. Para já, porém, deixo-o assim solto à livre imaginação de cada um.


* Adaptação feita a partir do texto de Nathaniel HAWTHORNE, Narrativas e Lendas da Antiga Grécia, Ed. Paulistas, Lisboa, 1960, vol. II.

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domingo, 24 de Agosto de 2008

Dúvida metafísica

Quem é o político português que, no seu blog pessoal, escolheu o «Geração de 60» como único - repito, ÚNICO - blog favorito?
A extraordinária resposta está aqui.


Muito presumido e minimamente educado, agradeço a cortesia. Inquieto, terrivelmente inquieto, pergunto a quem saiba mais destas coisas do que eu: tão simpática distinção fará de mim - tecnicamente - um Santanista?

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Sentido de Humor

Com fulgurante ironia, de dedo apontado à reserva de Sócrates sobre a criminalidade que campeia nas ruas, a habitual crónica da Manuela Ferreira Leite no caderno de economia do "Expresso" intitula-se "Silêncio Alarmante".
Se o título for da autoria da própria quero já registar o meu deslumbrado apreço pelo sentido de humor da líder da oposição.
O "Expresso" não quis, aliás, ficar-lhe atrás e, lá bem no coração do seu caderno principal, dedica-lhe um outro artigo com título à maneira do velho "Independente", e cito, "Maria Silenciosa".
Haverá por aí, no meio da sala ou no meio da rua, alguém a querer dizer qualquer coisa?

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Redenção Trotskista




«O que a sensatez exige é que o Estado e a Lei não se metam no que não é do Estado e da Lei». Quem terá proferido tão sensatas palavras? Locke? Montesquieu? Hayek?
Pasmo! Espanto! Comoção! Louçã, «lui-même»!
Mais duas ou três destas e estou disposto a ceder-lhe o meu lugar, aqui no Geração de 60.

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sábado, 23 de Agosto de 2008

Manipulação stalino-maoísta

Os Jogos têm corrido bem. Mas nem tudo o que parece é. Consta que a perversa obsessão dos stalino-maoístas pela manipulação de imagens resisitiu à recente vaga de capitalismo primitivo, como se pode ver por estas terríveis imagens.




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Um país de palpites

O post do Pedro Norton sobre os dados relativos à criminalidade suscita uma questão de fundo bem mais ampla: até que ponto em Portugal se confundem palpites com opiniões. O que impressiona é a facilidade com que se defendem opiniões em Portugal sem grande fundamentação e investigação prévia. Uma coisa é um palpite. algo que todos temos e facilmente podemos exprimir num jantar entre amigos e até num blog. Outra coisa é uma opinião e isto vale, em particular, para as opiniões expressas pelos lideres de opinião ou pessoas com particular responsabilidade pública. Estas é suposto exprimirem posições fruto de uma reflexão informada. Raramente parece ser esse o caso. Aliás, até muitas das nossas políticas públicas parecem, frequentemente, ter muito de palpites.
Devido às minhas ligações à área da justiça, sou questionado algumas vezes sobre as reformas necessárias. Como se o meu conhecimento empírico da operação de algumas áreas da justiça e a minha reflexão académica noutras matérias me permitissem ter "pret a porter" um programa de reforma da justiça. Quando respondo que a única coisa que posso oferecer, no imediato, é a minha filosofia sobre o que deve orientar o sistema da justiça e uma metodologia para identificar e responder aos problemas da justiça, a reacção a que assisto é de desilusão. É mais atractiva a solução imediata do palpite. Talvez por isso a nossa imprensa e política parecem estar cheias deles.
É por isso com o mesmo sentido crítico com que escutava, em Portugal, as críticas à prisão preventiva (cuja frequente comparação com outros Estados era inapropriada, pois na maior parte desses Estados já não se considera existir prisão preventiva após a primeira condenação) que agora escuto a imediata associação que se faz entre a mudança de regime e o hipotético aumento da criminalidade violenta. O que precisamos nesta matéria é de informação que nos permita decidir de forma apropriada: Portugal tinha realmente mais pessoas em prisão preventiva que a maioria dos outros Estados europeus ?; se sim, a que outras medidas estariam sujeitas essas pessoas e poderiam estar sujeitas a esse tipo de medidas em Portugal?; ou será que não teríamos mais pessoas em prisão preventiva mas sim que a prisão preventiva seria mais prolongada? E se sim, não seria isso um mero resultado de após a condenação em primeira instância ainda se considerar que se está em prisão preventiva? Até que ponto os números relativos à prisão preventiva são consequência de uma maior tendência dos nossos juízes para adoptar essa medida ou dos prazos do nosso sistema de justiça e das medidas alternativas disponíveis? Tudo isto, que não é muito complicado, devia informar o nosso debate sobre a matéria. Da mesma forma, só poderemos concluir, agora, que o novo sistema libertou pessoas que estão a contribuir para a criminalidade após um estudo que identifique se tal é verdadeiramente o caso. Tudo o resto são palpites.
Isto não comporta necessariamente uma crítica à percepção generalizada de que existe um problema de criminalidade violenta (neste aspecto não perfilho a opinião do Pedro de que não existe necessariamente um problema; preciso de saber mais). Trata-se sim de uma crítica à forma como tema está ser tratado. Mais (e esta é uma questão de filosofia do sistema se quiserem) entendo que a identificação do tipo de criminalidade que aumenta (mesmo entre a criminalidade violenta) é muito importante para a definição da política a adoptar. É que não tem o mesmo impacto societário, um aumento da criminalidade violenta circunscrita a certas áreas profissionais da criminalidade violenta difusa (aquela que é susceptível de apanhar a grande maioria dos cidadãos: carjacking, assaltos a bancos com reféns, roubos particularmente violentos). Por exemplo: o assalto a uma carrinha de transporte de valores chama a nossa atenção pelo dinheiro envolvido mas tem menor impacto social que uma acção de carjacking. É que esta última transmite uma sensação generalizada de insegurança para toda a sociedade (porque qualquer um está sujeito a isso). Da mesma forma que tem mais impacto um pequeno aumento da criminalidade violenta difusa que um aumento bem mais significativo da criminalidade não violenta. É que o carácter bem mais traumático da primeira supera em muito a menor probabilidade de a ela virmos a estar sujeitos (pensem, à luz do acidente recente, como as pessoas sentem mais receio em voar de avião do que em entrar num automóvel, apesar da probabilidade de acidente ser bem menor no primeiro). Tudo isto são elementos importantes para definir as prioridades de uma política criminal e de justiça e a opinião que devemos ter a este respeito. Sejamos claros, a questão é política e não meramente técnica (por ex.: que equilíbrio queremos ter entre segurança e privacidade; que distribuição do risco pretendemos na nossa sociedade). Mas a política tem de ser informada. No que concerne a criminalidade violenta, o melhor é começarmos por colocar as boas questões e construir a nossa opinião a partir delas:
- Existe um verdadeiro aumento dos crimes violentos ou trata-se apenas de um aumento na cobertura mediática dos mesmos?
- Quais as variações entre tipos de crimes violentos?
- Existe um padrão relativo às pessoas que cometem esses crimes? São novos criminosos ou pessoas que reincidiram? Começam com o pequeno furto? É um crime relacionado com a droga ou tratam-se de profissionais?
- Existe alguma correlação com as novas regras penais?
Em vez de palpites, seria bom se começássemos a procurar responder a algumas destas questões. Podíamos passar dos palpites às opiniões.

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Três Medalhas e um Chapéu

E pronto, são três medalhas, duas de ouro, com o arte do SL Benfica. Uma delas obtida com direito a chapéu, um grande chapéu. Vamos guardar as três medalhas e oferecer o chapéu – chapéus há muitos... mas como este?! – ao merencórico pessoal daquela coisa entre o Lumiar e a 2ª Circular.
Para gáudio de Portugal, e com arrebatada e cristalina descrição de um bravo locutor que as televisões portuguesas deviam já contratar, aí vai a façanha digna dos deuses do impetuoso Di Maria.

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Elogio do Chão da Lagoa

O PSD de Ferreira Leite dá sinais de desnorte. Digo-o com alguma pena porque o país precisa de oposição como de pão para a boca.
Ora, a verdade é que tenho horror aos discursos demagógicos e alergia às histerias securitárias. O PSD, lembrando os piores tempos do inimputável CDS/PP, resolveu embarcar em ambos. Aproveitando o que, até ver, só pode ser considerado um aumento conjuntural da criminalidade violenta (o Expresso publica esta semana dados elucidativos sobre a tendência para a diminuição, nos últimos 5 anos, deste tipo de crimes) o partido, à falta de ideias mais substanciais, lançou-se numa cruzada tão alarmista quanto irresponsável que culminou com o patético pedido de demissão do Ministro da Administração Interna.

É para isto que o PSD se esteve a preparar ao longo dos últimos meses? É para largar «boutades» destas que esteve a fazer um meticulosa gestão do silêncio? É caso para se dizer que, se a ideia é tão-só lançar dislates, então mais vale fazê-lo, com um chapéu à banda e o fervor um copito a mais, no Chão da Lagoa. Sempre dá um ar mais «tropical chic» à coisa.

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sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

A Verdade Sobre os Jogos

Como podem ver, uma imagem não vale mais do que mil palavras. Parece que dizem a verdade, outra verdade, mas se calhar são a mais literal e factual das mentiras.
Esther Williams in the nude?

Georgia in Beijing?

Cultural Revolution?

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Alter-Ego

A 22 de Agosto de 1972, há 36 anos, a Rodésia foi expulsa do Comité Olímpico Internacional devido às suas práticas racistas. Ian Smith, para dizer o mínimo, não deixou saudades. Mas se hoje voltasse ao local do crime descobriria o mais inesperado e radical dos alter-egos.

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Briseida ( continuação)

" - Eu não sou orfão, mas minha mãe pode perder o filho... "

" - Podem todas, basta que haja uma mãe e um filho." - Disse Briseida.

" - Se minha mãe me perder, usa de faculdade que fez sua."
" - Por lhe ter dado a vida?" - Perguntou ela.
" - Não. Porque podendo ter-me dado a eternidade, escolheu dar-me a finitude." - Disse Aquiles.
" - Julgava que Aquiles não era mortal..."
" - Julgam todos...O que me põe no chão, também me põe no céu."
Briseida terminava o seu trabalho quando na tenda entra o rei Aga que lhe ordena que saia.
Aquiles estende-lhe os braços: " - Meu rei."
" - Vejo que te recompuseste."
" Graças a ti, Aga."
" - Porque dizes tais palavras?", sorrindo acrescentou: " Referes-te por um acaso à escrava?"
" - Sim, a Briseida. " - Disse Aquiles.
" - Aquiles, raramente as mulheres são o que aparentam. As suas palavras leva-as o vento e as palavras ditas não são palavras sentidas."
" - Acredita-me Aga, eu, de todos os homens, sei que as mulheres, podendo escolher, escolhem ser caprichosas. sei isso melhor do que ninguém."
O rei Aga calou-se, olhou longamente para o amigo. Finalmente disse:" - É tua, se a quiseres. Diz-me, alguma vez a viste descoberta?"
" - Não. Porque perguntas?"
" - Por nada. Para que queres tu uma mulher assim?" - Perguntou-lhe o rei Aga.
" - Porque é bela para mulher feia e feia para mulher bela."
" -Tê-la-ás então..." Com estas palavras o rei Aga saíu da tenda.

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Benfica Olímpico




Quer parecer-me que não foi só o Vicente de Moura a falar antes de tempo. Não é Miguel?

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Islamismo e Zara Véu


Estou a ler Snow, um dos livros de um dos meus autores preferidos, Orhan Pamuk. Trata-se da história de um poeta com alguma fama e recursos que viaja para Kars, no leste da Turquia, a poucos quilómetros da Geórgia, da Arménia e do Iraque, para escrever umas palavras para o jornal secularista "O Republicano" sobre o suicídio de algumas jovens, aparentemente porque não as deixam usar véu nas escolas (embora a realidade parece ser outra: na verdade elas estão a fugir a casamentos combinados), e sobre a provável vitória de um partido islamista nas eleições locais. O poeta faz também esta viagem para se encontrar com uma mulher por quem pensa que tem uma paixão. O livro mostra como é grave a ascensão do islamismo, no leste da Turquia, e quanto isso colide com aquilo que acontece nas partes mais avançadas a oeste e junto das classes médias de Istambul.

Paralelamente, há umas semanas visitei a segunda maior mesquita do Mundo, em Casablanca, e fiquei fascinado com algumas coisas. A mesquita é um sucesso em vários aspectos. Foi financiada por um imposto especial, ninguém se importou muito com isso e todos estão orgulhosos dela. Está localizada na zona da praia da cidade, numa zona de passeio de famílias, e está sempre cheia de gente, com uma mistura "secular" entre lazer e reza. Essa interessante mistura entre turistas acidentais e pessoas com mais ou menos fé é parecida com o que se pode ver em S. Pedro em Roma. Uma festa, portanto, e longe da escuridão islâmica de Kars relatada por Pamuk. Nos degraus cá fora da mesquita há imagens de miúdas que, se fosse por cá, tinham saído das lojas Zara, só que com véus.

Para conhecer melhor o islamismo precisamos de ler mais e de viajar mais. Mas parece ser verdade que o islamismo não é todo igual. Ou então estou a ver mal a coisa.

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O Comunismo

Finalmente, uma explicação cabal:
"O Comunismo não funciona porque as pessoas gostam de ter coisas."
Frank Zappa

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O Menino de Sua Mãe


Malhas que o Império tece!

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quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

Postais dos Açores

Flores, Açores. Agosto de 2008



Flores, Açores. Agosto de 2008

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Da Visão: Obrigado Obikwelu

1 - Obikwelu não é um português como os outros. Não o digo porque tenha nascido nigeriano. Nem porque só tenha chegado ao seu país de adopção com dezasseis anos já feitos. Não o digo (apenas) porque tenha passado muito mais dificuldades do que a maioria dos seus concidadãos: a emigração para um país distante, com uma língua incompreensível, de costumes estranhos; a miopia de um Benfica e de um Sporting que o rejeitaram quando dava os primeiros passos; a total ausência de apoios oficiais nos primeiros tempos; a dureza do trabalho nas obras; as noites passadas com as bancadas do Estádio do Restelo como único tecto. Não o afirmo sequer porque se tenha revelado senhor de uma contagiante simpatia, de uma perseverança sem par e de um sentido de responsabilidade pouco comum.
Obikwelu não é um português como os outros porque, ao contrário da maioria de nós, é português por opção. Obikwelu é português porque se afeiçoou a um país que, em boa verdade, fez muito pouco para o merecer. É português porque se sente agradecido a um país que se limitou a tratá-lo, antes dos seus dias de glória, com ligeiramente menos desprezo do que as autoridades nigerianas. E é português porque teve a fortuna de aqui encontrar exemplos de generosidade individual que, a bem dizer, existem felizmente em todos os cantos do Mundo.
Francis Obikwelu é, nesse sentido, muito mais português do que a maioria de nós. A sua cidadania é uma cidadania do desejo, da liberdade e da escolha. E como há meses escreveu Miguel Poiares Maduro (a quem devo a inspiração para este texto) num magnífico post, «a verdadeira e saudável identidade não existe no sangue nem se adquire onde se nasce: constrói-se, em relação com os outros através da adesão a uma comunidade. É uma identidade que não nos é dada nem oferecida mas que conquistamos. Só essa identidade é crítica e reflexiva e, como tal, positiva. Uma identidade que se abre e se define pela inclusividade e não pela exclusividade.»
Por tudo isto, porque é mais português do que nós, porque é mais responsável que a esmagadora maioria de nós, porque simboliza, muito melhor do que o país que escolheu para ser seu, os valores do trabalho, da persistência e da abnegação, Obikwelu não deve desculpas a ninguém. Na hora da derrota, como na hora da glória, é o país que continua a dever-lhe muito. Exemplos destes não medram exactamente por aí aos pontapés.
2 – E como um exemplo nunca vem só, o Expresso deste fim-de-semana dava conta da vida extraordinária de Demba Diabaye, um jovem senegalês que, entre setecentos outros alunos que cursam Estudos Portugueses na Universidade de Dakar, se apaixonou por Garrett e rumou a Lisboa para recolher informações para a tese de Mestrado. Como o dinheiro não abunda e ninguém se lembrou de apoiá-lo, sobrevive vendendo bugigangas nas praias da Caparica. Demba tem um sonho: «ser embaixador da língua portuguesa no Senegal». O país de Garrett é que, pelos vistos, não está disposto a contribuir para concretizá-lo.

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O Divórcio e a logística da Esquerda


Não se pode ignorar o Divórcio na Lei por razões de credo ou opção moral tal como não se podem alterar as leis que afectam a Família por motivos de fúria laical ou logística das esquerdas.

O Presidente da República decidiu vetar a nova Lei que regula o Divórcio em Portugal. E bem. Confesso que temi que, na aritmética política da cooperação estratégia entre Cavaco e Sócrates, não houvesse espaço para este veto no calendário próximo. Mas prevaleceu a objectividade e a Lei não passou tal como está.

Recomendo um esforço investigativo ao leitor sobre as implicações que o diploma impõe aos conjuges em situação mais fragilizada, neste caso, em larga maioria, as mulheres. Posso assegurar que há farto um menú de injustiças nas novas disposições da Lei, entre o fomento da conflitualidade nos recém casados sobre as despesas em comum; ou o logro que a Lei provoca sobre o investimento num projecto de dezenas de anos de vida em comum passando pela ambiguidade na futura tutela dos filhos menores.

Assisti à discussão dos dois projectos de Lei no Parlamento. Primeiro o do Bloco de Esquerda, no início da Primavera. Semanas depois, o do Partido Socialista.

Tratou-se de uma competição entre os dois pela conquista da esquerda. Discutia-se, por entre a tutela dos menores, quem tinha chegado primeiro à ideia de rever o Divórcio; quem era mais vanguardista na sua aplicação; a quem pertenceríam os louros da batalha, depois da Lei aprovada.

O PCP, com ideias claras e maior sentido de responsabilidade em relação às implicações sociais de tamanha revolução, ia sugerindo alterações, corrigia «pormenores», entre o gozo pela competência alheia e a vontade de poder construir, finalmente, o seu edifício jurídico sobre a Família. Votaria a favor, para não ficar fora da esquerda, confiando porventura na afinação que viesse com o expectável veto presidencial.

O CDS combateu o diploma com alguns dos argumentos da foice e do martelo sobre o desequilíbrio que gera, sobretudo nas mulheres. Contruíu assim o espaço político que lhe deixou um PSD mais amigo da liberdade de voto quando o caso é difuso. Salva-se a actuação do Presidente da República.

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Briseida ( continuação)

Aquiles lembrava-se de ter ouvido falar nessa doença que atacava as mulheres dessas paargens. Ficavam sem cabelo e em seu lugar tinham umas manchas arrepeladas no casco da cabeça, rosto e pescoço.
Os tratamentos resultavam nas melhoras de Aquiles que já se sentava na cama e alimentava sozinho.
Num desses dias Briseida disse-lhe:"- Não o incomoda a minha deformidade, senhor?"
"-Não " -Respondeu Aquiles.
" - Porque a não vê?"
" - Não. Porque a beleza e a bondade não são irmãs." - respondeu Aquiles.
" - Agradeço aos deuses o castigo que me impuseram." - Disse Briseida, acrescentando:
" -A beleza na mulher é fonte de todo o mal e dos maiores enganos. Desperta a cobiça e a inveja. Desperta o ódio no marido que quando a vê envelhecer se sente ludibriado e traído na promessa de eternidade."
Aquiles riu-se com gosto:" - Dizes isso porque és feia!"
" - Então sou orfã de pai e mãe." Rindo ela também.

( continua)

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O desporto, a Pátria e os mínimos olímpicos


Há uns anos, quando Fernando Mamede desistiu na corrida olímpica dos 10 mil metros, José Miguel Júdice apressou-se escrever na coluna de opinião que tinha no «Semanário» o título, «Somos um País de Mamedes!».
Hoje, como ontem, proliferam conclusões generalistas e cáusticas sobre os resultados obtidos pelos nossos atletas nos Jogos Olímpicos.
É normal. A excitação mediática dos dias da véspera favorece a desmesura das nossas expectativas e, no «day after», os mesmos protagonistas - jornalistas, políticos e público - procuram uma explicação para o desencontro no desfecho.
Tenho ouvido as declarações avulsas da última semana, sem ordem nem constância. Alguma me terá falhado. Registo em particular o «atleta» que dizia que as suas manhãs estavam mais calhadas para estar «na caminha» mas, de todas as que chegam, a que mais me impressionou foi a de Vanessa Fernandes.
Com os pés ainda quentes do pódium disse que havia colegas que não se esforçavam; que tinham ido para Pequim em passeio, que não sabiam o que estavam ali a fazer; que era preciso sentir lá dentro (como ela, apertando a mão contra o peito) o amor ao desporto e à representação de Portugal.
Concordo com o que disse a Vanessa Fernandes mas a galardoada devia ser a última a falar sobre este assunto. Havia demasiadas provas a decorrer para que um dos atletas, com a medalha garantida, surgisse a fazer queixas públicas sobre a motivação dos seus pares. Mais: nada a autoriza a supor a motivação dos outros. E, o que é pior, parece-me manifestamente injusto não fazer qualquer distinção entre os atletas que ali foram. Os fracos resultados da Naide Gomes, logo depois, podem agora ter mais uma explicação, ainda que improvável. Já a desistência das competições do velejador que ficou a um ponto do Bronze está seguramente ligada ao ambiente de purga que se gerou na selecção portuguesa de Pequim.
Bem pode Vanessa bater com a mão no peito e dizer que ali sente Portugal; bem pode doar o seu prémio ao menos favorecidos, bem pode explicar num programa televisivo «auto-biográfico» que «tem a simplicidade que muitos não têm». Pede-se mais do que uma medalha de cada desportista que ali foi. Pedem-se mais do que os mínimos olímpicos para concorrer.
Exige-se verdadeiro espírito desportivo e consideração por Portugal.

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Mark Serwotka

São estimulantes os franceses que defendem os mercados e os ingleses que o criticam. Ao contrário do que se pensa, numa visão muito rígida da vida, tanto a França tem uma longa tradição de defesa do liberalismo económico (Say, a Monarquia de Julho, por exemplo), como o Reino Unido tem uma longa tradição da sua crítica (o fabianimo, muito do pensamento das elites escocesas). Não se trata de um país ser mais ou menos liberal, mas antes de dar mais ou menos audiência ao liberalismo económico.

No que me respeita, este estado de coisas revela dois aspectos que seria curioso analisar em geral. Por um lado, a ideia de que o verbo “ser” é visto como produto congelado pelas classes mais desfavorecidas (entenda-se, opinion makers e quejandos). A Inglaterra “é”, a França “é”. Não se perguntam, o quê, quando, como, em que medida, em que aspecto. A ideia de que as coisas mudam assusta-os e por isso gostam de dizer que os franceses “são” e os ingleses “são... seja o que for.

Em segundo lugar, a importância das minorias, pelo menos das minorias visíveis. As maiorias nem sempre são silenciosas, mas muitas vezes não têm arautos. As minorias de pensamento (não as outras) são frequentemente obrigadas a muito maior cuidado na sua fundamentação, a maior isenção nas suas análises.

Por isso um Mark Serwotka, anti-trabalhista, líder de um sindicato não filiado no partido trabalhista, socialista despudorado, é uma personagem francamente interessante. Que desenfado em relação ao expectável e em relação à litania laudatória do mercado.


http://www.bbc.co.uk/iplayer/episode/b00d68lt/
http://en.wikipedia.org/wiki/Mark_Serwotka
http://www.guardian.co.uk/society/2004/oct/27/interviews.politics
http://www.personneltoday.com/articles/2007/03/06/39523/personnel-today-interviews-mark-serwotka-general-secretary-pcs.html
http://www.marxismovivo.org/bill6port.html



Alexandre Brandão da Veiga

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De Praga a Abbey Road

Há 40 anos, Praga passava directamente da Primavera a um penoso Inverno. Há provas. Veja-se uma, acima.
Um ano depois, os Beatles descobriam, em Abbey Road, a perfeita e sombria doçura do Outono.


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terça-feira, 19 de Agosto de 2008

O carmesim da obscenidade

"Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul." É com esta frase que Vladimir Nabokov começa o romance que mais fama e mais proveito lhe deu em toda a sua carreira.
A tradução portuguesa, na versão que tenho, editada pela Teorema em 1987, acompanha com correcção o exaltado garbo com que Nabokov tratou a língua inglesa, e cito: “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma.” Reconhece-se o honesto esforço, mas escapa-lhe a cadência da aliteração do original e, tratando-se do que se trata, é pena que a tradução portuguesa tenha associado o fogo que emana da visão de Lolita a uma conceptual “virilidade”, quando em inglês o mesmo fogo abrasa com precisão anatómica os “loins” que são o pecado e a alma do narrador.

Se falo de “Lolita”, o romance de Nabokov que Graham Greene foi o primeiro a louvar e Stanley Kubrick o primeiro a adaptar ao cinema, não é para exercitar dotes de crítico literário que não tenho.

Recordo apenas que, neste 2008 em curso, faz 50 anos que o romance viu a luz do dia nos Estados Unidos da América. Antes, quatro editores tinham recusado o livro com receio – melhor, com medo – da controvérsia. Não era caso para menos. Por mais voltas que lhe possamos dar, “Lolita” é a história de um pedófilo. Narrada com admirável estilo – ou não tivesse Nabokov dito do seu narrador, Humbert Humbert: “É sempre de esperar num assassino uma prosa de estilo caprichoso” – continua ainda assim a ser a história de um pedófilo. Tratada com brilho literário, a monstruosidade não deixa de ser monstruosidade, a perversão tem sempre o leve cheiro a esgoto da perversão.

As fantasias desviantes de Humbert Humbert acabaram por ser acolhidas em livro, pela primeira vez, em França. O facto é tão irónico como justo. Afinal, Humbert Humbert, o protagonista de “Lolita”, é um parisiense, especialista em literatura francesa. E fora em França que se animara à inclinação para as ninfitas (ou ninfetas?) que constitui o centro do que virá a ser o seu périplo americano, “depois de um Inverno de tédio e pneumonia em Portugal”.

A publicação em França foi pacífica e discreta. Seguiu-se o escândalo da edição inglesa, em 1956. Dois anos depois, o livro foi editado nos Estados Unidos. Surpresa: sem polémica e com vendas astronómicas.

Não admira. Há coisas que baralham o mais pudico e resistente dos leitores: “Lolita”, a história de um pedófilo francês envolvido com uma ninfeta americana, é superiormente escrita em inglês por um autor russo. Depois de tão nebuloso e improvável puzzle, o leitor está pronto para enfrentar alguma lascívia, que é como quem diz, o carmesim da obscenidade.

Com a devida vénia, do Pnet Homem

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segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

Briseida, a pelada

A escrava atravessou o acampamento usando o longo pesado véu negro. Seguindo o rei, passou pelos guardas, entrou na tenda. O rei parou, olhou para Briseida e voltou a saír.
Ela deu alguns passos até ao centro da divisão. O grande cão cinzento deitado aos pés da cama do dono levantou a cabeça.
" - Ash, ash" - Disse Briseida que, criada com aqueles cães de pastor, sossegou o animal.
O dono estava encovado na cama. Não se parecia com Aquiles, o guerreiro.
O corpo entrapado cheirava a unguento e miséria. Tinha chagas nas pernas e nos pés, onde as unhas apodreciam.
Tirou-lhe as ligaduras, limpou-o, aplicou-lhe as ervas moídas, fez-lhe novos curativos. Retirou-se, sem que Aquiles abrisse os olhos.
No segundo dia quando Briseida entrou na tenda o cão não levantou o focinho. Aproximou-se da cama. Aquiles virou a cabeça, de olhos abertos:
"- Quem és tu?" - Indagou.
" - Chamo -me Briseida " - Retorquiu ela, enquanto tratava o ferido.
" - Ontem sonhei que duas águias negras me levavam, passando por rios e montanhas, até chão sagrado."
" - Águias ou abutres?" - Perguntou Briseida.
Aquiles não respondeu. Quando falou foi para dizer:
" - Com que defeito te asinalaram os deuses que te trazem coberta?"
" - Pelada, senhor".
Briseida acabou o tratamento e saíu.
( continua)

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domingo, 17 de Agosto de 2008

Two Shots of Happy

Quando Frank Sinatra fez 80 anos, alguns dos melhores cantores de língua inglesa prestaram-lhe homenagem. Bono escreveu para ele esta canção, magnífica, que nunca mais, acho eu, voltou a cantar. É pena. "Two Shots of Happy, One Shot of Sad” é o mais perfeito fato à medida que alguém podia ter feito e oferecido ao velho Frank.

Ouçam e se vos apetecer cantar a letra segue depois do vídeo.




Two shots of happy, one shot of sad
You think I'm no good, well I know I've been bad
Took you to a place, now you can't get back
Two shots of happy, one shot of sad

Walked together down a dead end street
We were mixing the bitter with the sweet
Don't try to figure out what we might of had
Just two shots of happy, one shot of sad

I'm just a singer, some say a sinner
Rolling the dice, not always a winner
You say I've been lucky, well hell I've made my own
Not part of the crowd, but not feeling alone

Under pressure, but not bent out of shape
Surrounded, we always found an escape
Drove me to drink, but hey that's not all bad
Two shots of happy, one shot of sad

Guess I've been greedy, all of my life
Greedy with my children, my lovers, my wife
Greedy for the good things as well as the bad
Two shots of happy, one shot of sad

Maybe it's just talk, saloon singing
The chairs are all stacked, the swinging's stopped swinging
You say I hurt you, you put the finger on yourself
Then after you did it, you came crying for my help

Two shots of happy, one shot of sad
I'm not complaining, baby I'm glad
You call it a compromise, well what's that
Two shots of happy, one shot of sad

Two shots of happy, one shot of sad

(Happy birthday, Frank)

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Ter 115 anos não é sexy

Mae West: um reclinado conforto
Ter 115 anos não é sexy. Se estivesse viva, Mae West festejaria hoje esse aniversário. Temo que a ideia a encantasse.
Nascida em Queens e criada em Brooklyn, rosto redondo e corpo rectangular, com os qualificativos a valerem o que menos a uma mulher e à maior parte dos homens lhes interessa que valham, o certo é que Mae West se converteu num sex-symbol.
Começou cedo no teatro e cedo chegou à prisão. Em 1927, estreou Sex em Nova Iorque, acabando condenada a 10 dias de prisão por atentado à moral. Durante a penosa reclusão exigiu usar sempre roupa interior de seda. O director do estabelecimento, compreensivo e com inclinações artísticas, levou-a ao cinema todos os dias, menos dois, os que, por bom comportamento, já não cumpriu.
Hollywood, seduzida pela controvérsia, convidou-a para o cinema com a improvável idade de 38 anos. Não fez muitos filmes e talvez nenhum deles seja uma obra-prima. Mas com “She Done Him Wrong“ e “I’m no Angel” firmou uma reputação. Para mim bastaria a voz. Mas há quem, nela, veja outros altos valores. Por exemplo: os caracóis louros, o olhar malicioso, o corpo que talvez seja muito menos rectangular do que eu disse e muito mais próximo do reclinado conforto duma “chaise-longue” (o reclinado conforto é ideia minha, a “chaise longue” emprestou-ma o ensaísta David Thomsom) .
Repito, a mim bastar-me-iam as coisas que disse e a rouca maneira como as disse. Cito três das suas mais famosas réplicas:
“Tens uma pistola no bolso ou estás apenas contente por me voltar a ver?”, frase dela que o olhar discreto e baixo confirmava em “She Done Him Wrong”, parece ter sido o que, na vida real, disse ao polícia que, em L.A. a foi escoltar no regresso duma viagem.
Intraduzível (digo eu por timidez), é o que ela sugere a Cary Grant, no primeiro filme que fizeram juntos: “Come up and see me some time.”
“Quando sou boa, sou muito boa, mas quando sou má, sou muito melhor” constitui o momento mágico de “I’m No Angel”.
Estas réplicas, ditas como ela as disse, deram pela primeira vez substância à palavra libido, até aí um termo inútil.
Constrangida, Hollywood inventou o divertido Código Hays, que determinava o que se “podia” e o que “não se podia” fazer, fingir que se fazia ou dizer. Mae West reagiu bem: “Acredito na Censura. Fiz uma fortuna à conta disso.”



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sábado, 16 de Agosto de 2008

( continuação)

O rei ficou sentado olhando o horizonte que ainda ardia da refrega. Levantou-se, caminhou até a uma tenda isolada. Os guardas afastaram-se para Aga passar. Na penumbra, mulheres e crianças dormiam aconchegadas, tomados todos, seus escravos. O rei olhou em volta. A um canto, viu o dorso de uma mulher. Deitada de lado, parecia de estatura mediana, de ossos compactos. Tinha o cabelo negro, crespo, que lhe descia até à cinta, a pele não era branca como a sua, mas amarelada. O rei Aga, ficou ali de pé. Saíu, sem lhe ver o rosto.
A mulher virou-se lentamente, mas só se quando teve a certeza que o homem saíra.
Pela aurora, o rei deu ordem para que a trouxessem.
Vinha suja e desgrenhada. Presa pelo tornezelo, caminhava direita. O rosto era anguloso, com feições definidas. Os olhos eram grandes, escuros.
O rei lembrava-se de ter visto grandes gatos selvagens com olhos daqueles, com impertinência. Sentado, olhou-a e disse: " - Não és Helena...mas servirás."
Deu ordem para que a lavassem, vestissem e perfumassem. De noite, quando as fogueiras do horizonte se começavam a extinguir, trouxeram-na à presença do rei. A um sinal, saíram todos. Aga levantou-se, deu dois passos até ficar perto dela. A mulher vestia túnica e na sua pele amarela refulgia ouro.
" - Tens nome?"
" - Briseida." - Disse a mulher
" - O maior guerreiro que já viveu precisa das tuas mãos para fazer a passagem. Sabes cuidar de feridos?" - Perguntou o rei.
" - Cuidei de meu pai e irmãos." - Respondeu-lhe ela.

O rei colocou-se à sua frente. Tinha cabelo castanho claro, media mais dois palmos do que a escrava. Tinha olhos de pedra, a boca era uma linha fina, apertada. Disse:" Entrarás na tenda de Aquiles sempre coberta por este véu negro que jamais tirarás. Se o tirares, mato à tua vista, os dois irmãos que trazes contigo."

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O magnânimo imperador

Depois de ler este riquíssimo post da Sofia Galvão, embora não tendo voz na matéria, por ser pobre ao pé dos ricos e rico ao pé dos pobres, a coisa ficou a moer-me. Lembrei-me de que a minha mãe me dizia, e felizmente ainda me diz, que tanto é pecado roubar dinheiro, como não se cuidar e proteger o que é legitimamente nosso.
Sabe Deus porquê – que Ele sabe, sabe, mas que Ele não me diz o que sabe, não me diz – deparei-me com uma ancestral prática chinesa que remonta à dinastia Yuan: aqueles que rasgassem as notas de dinheiro em papel eram vergastados com 100 bem aplicados golpes de cana de bambu. Pela simples e irredutível razão de que rasgar dinheiro era o equivalente a destruir documentos com o selo imperial.
Ora faz hoje, a 16 de Agosto de 2008, exactamente 624 anos, que o primeiro imperador Ming – depois de destronar a corrupta dinastia Yuan – teve um gesto de piedade. Trouxeram-lhe um casal que, no meio de desavença doméstica, rasgara as preciosas e imperiais notas. O magnânimo Hongwu ouviu as partes e concluiu que a paixão fora o motor da disputa: as notas tinham sido rasgadas sem intenção. O claro objectivo do casal era dilacerarem-se um ao outro. Pela primeira vez, na China imperial, o crime foi perdoado.
O que fazer, por isso, aos nossos mais e verdadeiramente ricos que, deixando-se empobrecer, empobrecem o país? Cana de bambu ou magnânimo e socrático perdão?

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Briseida, a pelada

- Aga, meu rei, vencemos?

- Vencemos sim. Os Deuses estiveram connosco. E tu estiveste com eles hoje, Aquiles.

- Não sei se vivo ou se morro...

- Viverás, para glória do teu rei e dos Aqueus.

- Morro pela glória, vivo pelo meu rei...


O rei Aga saíu da tenda deixando Aquiles deitado e gravemente ferido. Caminhou por entre os seus homens, que embriagados, dormiam abandonados, soltos e saciados à luz das fogueiras. A batalha tinha-se prolongado por muitos dias, os homens mereciam o seu descanso.

O rei caminhou até ao limite do acampamento. Sentou-se, enquanto se lembrava do dia em que tinha conhecido Aquiles, há muitos anos. Tornaram-se inseparáveis. O rei Aga não suportava a ausência do amigo, que sendo belo, dotado e veloz, o fazia sentir errante, terreno e mortal.


Recordaria sempre esse dia, porque esse foi o último dia feliz da sua vida.


( A continuar. Que me perdoem os deuses pela ousadia, já que respondi afirmativamente ao desafio do Gonçalo )

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Gregos e Troianos (II)



Continuava ainda a pensar no quanto andamos distraídos da liquidez dos nossos caminhos (nós, que construímos sobre naves as igrejas e os centros comerciais; nós que abarcamos cientificamente a realidade; nós que pusemos no céu os astronautas; nós, que navegamos na internet; etc.), quando, relendo, ao acaso, a «Odisseia» (que a «Ilíada» não a tinha à mão), os meus olhos repararam no Canto IX, que começa assim:

«Quando a nave deixou o curso do rio Oceano e atingiu as ondas do mar de muitos caminhos, depois da ilha de Eeia, onde reside com seus coros a Aurora, que nasce de manhã cedo, onde se ergue Hélio, encalhámos logo à chegada a nau sobre as areias e saltámos para terra por entre a arrebentação do mar. Em seguida adormecemos esperando pela brilhante Aurora.»*

O texto continuava, entre o mar e a terra, a noite e o dia, a vida e a morte, falando-nos do caminho que somos chamados a fazer. Ia eu meditando estas coisas quando surgiu a Sofia Rocha, instando-nos, em nome da igualdade de género, a que escrevêssemos sobre gregas e troianas. Pediu mesmo ao Manuel, de belas palavras, que falasse do amor de Aquiles e Briseida, e de como era diferente do amor que ele tinha com Pátroclo, desafiando-nos a todos a falar da bela Helena, motivo da guerra de Tróia. Desprevenido, como sempre estão os homens ante os pedidos das mulheres, voltei ao texto, que dizia:

«Ela disse, e o nosso coração viril obedeceu-lhe. Assim, ao longo do dia, até ao pôr-do-Sol, ali ficávamos, repartindo entre nós carnes em profusão e doce vinho. Posto o Sol e sobrevindas as trevas, os meus homens foram dormir junto das amarras; mas Circe, tomando-me pela mão, obrigou-me a sentar-me longe deles, deitou-se a meu lado e interrogou-me sobre todos os pontos. Eu contei-lhe tudo, como devia. E a augusta Circe dirigiu-me então estas palavras: “Eis portanto esta prova cumprida até ao fim. Tu, escuta tudo o que te vou dizer; aliás, um deus em pessoa te fará recordá-lo. Chegarás primeiro à terra das Sereias, cuja voz seduz qualquer homem que caminhe para elas. Se algum se aproxima sem estar prevenido e as ouve, jamais a sua mulher e os seus filhos pequerruchos se reúnem em torno dele e festejam o seu regresso; o canto harmonioso das sereias cativa-o. Elas habitam num prado, e a toda a volta a margem está cheia das ossadas de corpos que se decompõem; sobre os ossos disseca-se a pele. Passa sem te deteres; amassa cera doce com mel e tapa as orelhas dos teus companheiros, para que nenhum deles as possa escutar. Quanto a ti, ouve, se quiseres; mas que sobre a tua rápida nau te atem as mãos e os pés, erguido junto ao mastro, e a ele te prendam por meio de cordas, a fim de que gozes o prazer de ouvires a voz das sereias. E, se tu suplicares e instares a tua gente para que te soltem, que eles dêem nós ainda mais numerosos. Depois, quando eles tiverem ultrapassado as sereias, já não te direi com precisão qual das duas rotas deverás seguir; cabe-te a ti deliberar em teu coração.»*

Dito isto, decidi seguir o meu caminho, que pelos deuses me parece estar já traçado, ainda que não saiba onde vai dar. Mas à Sofia, de sábios conselhos, relanço o próprio desafio, para que se junte a nós, «infelizes, que entramos vivos na morada de Hades e que morremos duas vezes, quando todos os outros homens não se finam senão uma»*, e aqui nos conte a sua visão da bela Helena. Ou de Andrómaca, ou de Penélope; ou de Calipso, a ninfa de belos caracóis, a augusta deusa que, na sua ilha, quis prender Ulisses, ao qual amava, mas cuja vida doce, que ali tinha, «corria em pranto pelo perdido regresso.»**


Quadro de: John William Waterhouse,Ulysses and the Sirens, 1891
* Odisseia, Canto XII (Ed. Europa-América, Mem Martins, s/d, págs. 133-134)
** Odisseia, Canto V (Ed. Europa-América, Mem Martins, s/d, pág. 63)

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sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

Show Them To Me

Nunca é tarde para descobrir que, com um toque de humildade e uma pitada de gentileza, ainda há quem, graciosamente, faça o que lhe é pedido.
O vídeo é ligeiramente mais brejeiro do que a generalidade das propostas do "Geração de 60", mas tem a necessária elevação patriótica.

P.s. - Para que conste, a country music nunca foi a minha chávena de chá! Creio que vou proceder a uma revisão histórica.

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quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

Ricos


A constatação de que os mais ricos estão menos ricos não traz nada de bom. E só pode alegrar pelas piores razões.

O objectivo é que os pobres sejam menos pobres, convém não esquecer. Mas, para isso, é fundamental que haja riqueza para distribuir. Como será decisivo que a distribuição dessa riqueza seja progressivamente mais justa.

Mas o que hoje se sabe é que, em Portugal, os mais ricos estão menos ricos, sem que os pobres estejam menos pobres. Pelo contrário, os mais ricos estão menos ricos na mesma altura em que os pobres estão mais pobres.

A notícia do empobrecimento dos ricos é, pois, linearmente a expressão do empobrecimento do País. Ricos menos ricos e pobres mais pobres, sem que nada indicie mudança da tendência.

A merecer reflexão especial, os mais ricos dos mais ricos. Razão directa entre negócios e poder?

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O Calcanhar de Aquiles

A propósito da teoria da escolha que o Miguel elaborou aqui, e por causa deste post do Gonçalo, segue este post scriptum ao meu post anterior:
A tragédia de Heitor, o nobre troiano, é a de não ter escolha: a ele, e só a ele, compete defender a sua cidade e a sua comunidade.
A tragédia do glorioso e colérico Aquiles é a de que pode escolher entre dois destinos: uma vida longa e obscura e uma vida breve e heróica.

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quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

Aquiles dos pés velozes

Este post do Gonçalo desarrumou-me a noite. Acabei a trocar os Jogos Olímpicos pela minha velhinha edição da “Paideia”, de Werner Jaeger, e pela “Hélade” e “Estudos de História da Cultura Clássica”, da admirável Professora Maria Helena da Rocha Pereira.
A verdade é que para dialogar com o Gonçalo precisava de ajudas. E de grandes livros. Mas o que escrevo a seguir é teoria minha (ou será só preconceito meu). Foi o que ficou das horas de pouco e desordenado estudo que consegui encaixar nos anos de vida pouco recomendável em que coincidi passar pelos bancos da douta Academia.
O que escrevo não é, também, resposta ao Gonçalo cuja argumentação, convergindo para o Uno, não contesto, antes admiro. É só um diálogo de que saímos cada um por seu caminho.
Fiquei a pensar no que o Gonçalo escreveu: “não vejamos Aquiles e Heitor como dois – mas como um só!” Pensei, e depois de algumas peripatéticas voltas, a minha conclusão é sempre a mesma: na “Ilíada”, Aquiles não é um, é dois.
A sua origem é divina. Semi-deus, filho de um rei e da nereida Tétis, tão central como ausente na narrativa, Aquiles é o herói modelo. Nobre e corajoso, ele é o exemplo da areté (virtude) guerreira.
Mas Aquiles, o Aquiles que Homero nos apresenta é, desde o primeiro momento, humano, tragicamente humano. “Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles...” Aí está o homem: colérico, furioso e vingativo.
Aquiles é mesmo duas vezes vingativo: contra Agamémnon que lhe rouba Briseida, a escrava que recebera como troféu de guerra; contra Heitor que matou o seu fiel Pátroclo. O rancor de Aquiles contra Agamémnon é mais forte do que a obrigação de lutar ao lado dos seus guerreiros que, impávido, deixa perecer às mãos sangrentas dos troianos que os deuses, instados por sua mãe, agora protegem.
Mais tarde, regressado ao campo de batalha e movido por uma vingança desabrida, Aquiles arrasta o cadáver de Heitor à volta do túmulo do Pátroclo, o amigo (“arrastei para aqui Heitor, para os cães o comerem cru;”), sob o olhar desfeito e agónico de Príamo, o pai do nobre vencido. Ímpio, recusa-lhe depois sepultura.
Se em Homero (ou no poema das múltiplas vozes que o seu nome recobre) Aquiles dos pés velozes (mas de frágil calcanhar) era duplo – deus e humano, tão nobre e corajoso como colérico e vingativo – nos séculos que se seguiram os poetas deram-lhe variadas máscaras. Foi personagem de Ésquilo numa trilogia perdida. Píndaro atribui-lhe uma infância maravilhosa. Shakespeare transforma-o num monstro de vaidade em “Tróilo e Créssida”. Goethe, como na “Ilíada”, mostra-o consciente de que terá vita brevis.
Nesta pluralidade, de rostos resplandecentes e armaduras faiscantes, reside a beleza que me atrai e o consolo que procuro. Nenhuma síntese, mesmo verdadeira, me dará tanto som, tanta fúria.

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O que tem o Presidente da TAP a ver com os dois sequestradores brasileiros?

Jornal da Noite na SIC. Longa entrevista com o Presidente da TAP sobre o futuro da empresa e do transporte aéreo. Entrevista interessante até à pergunta final que, no mínimo, qualificarei de infeliz: Sendo o senhor brasileiro que comentário lhe merece o sequestro do BES? O Presidente da TAP, provavelmente surpreendido com a mudança de tema, lá responde as banalidades necessárias e manifesta o seu choque com a acção dos seus compatriotas…
Questiono-me de como me teria sentido eu, ou qualquer outro português, se, encontrando-me nos EUA nessa altura, me tivessem pedido, a despropósito, para comentar a violação por quatro portugueses de uma Americana em Newark (que deu azo a um famoso filme com Jodie Foster). Ou, vivendo eu no Luxemburgo, se de cada vez que há um crime cometido por um português me viessem pedir para o comentar? É que implícito na pergunta está a ideia de que se trata de um tema relativo a comunidade brasileira e não apenas um crime cometido por dois brasileiros (diferente seria se a pergunta pedisse ao presidente da TAP, enquanto "representante" destacado da comunidade brasileira em Portugal, para comentar o impacto que algumas reacções públicas ao crime poderiam ter na relação entre as comunidades brasileira e portuguesa ou até se a pergunta fosse precedida de dados indicando que uma percentagem desproporcional da criminalidade está associada aos imigrantes brasileiros o que as estatísticas, aliás, negam). No fundo a pergunta assume como legítima e natural a associação entre os dois criminosos brasileiros e os brasileiros. Como se os últimos tivessem de justificar ou explicar o comportamento dos primeiros. Que outra justificação existe para transformar um crime cometido por dois brasileiros numa pergunta à comunidade brasileira? Não creio que o jornalista tivesse más intenções mas é este tipo de associação irreflectida que conduz facilmente à xenofobia…
PS: No Público de hoje, Rui Tavares conta que no dia seguinte ao sequestro foi depositada uma coroa de flores que dizia "Em memória de Milton Sousa, morto neste local por ser brasileiro". Escusado será dizer que tal frase é igualmente xenófoba. Nada indica que o comportamento da policia seria diferente se se tratassem de portugueses.

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Quem vê cara não vê voz...


Já não chegava o doping desportivo agora também temos o doping artístico nas olimpíadas:
http://dn.sapo.pt/2008/08/13/desporto/pequim_falsificou_cerimonia_abertura.html

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terça-feira, 12 de Agosto de 2008

Gregos e Troianos (I)



Fui inspirado pelo Manuel Fonseca, em diálogo que tivemos abaixo, a escrever algumas notas sobre textos dos antigos gregos. As minhas muitas limitações, porém, para além das que são próprias deste espaço, não o tornam tarefa fácil. Vou, portanto, precisar de ajuda (e não só do Manuel, que sei de bom grado a dará, mas também do Miguel Maduro, que assim nos poderá ir introduzindo na sua anunciada «Teoria da Escolha»). Dito isto, neste primeiro post, começo por uma afirmação e uma advertência.
A afirmação é de Paul Grenet, que no seu livro «Le Thomisme», julgo que logo na primeira página (mas pode bem ser na segunda), dizia que a questão fundamental em torno da qual se desenvolveu a inteligência grega foi a da relação entre o uno e o múltiplo. Vê-lo-emos expressamente num outro post – assim o espero –, ao visitarmos o «Rei Édipo», de Sófocles. Para já, porém, continuemos a ler a «Ilíada», na qual poderemos ver a verdade desta asserção, primeiro, e fazer a tal advertência, depois.
«Canta, ó deusa, a ira do Peleio Aquiles...» Assim começa esta história dos homens protagonizada em Tróia pelo grego Aquiles, filho do rei Peleu e da deusa Tétis e o mais corajoso de todos os guerreiros. Essa ira, que concretamente nos é mostrada a partir das desavenças e dos desamores do herói Aquiles, é o extremo brutal com que os seres humanos reagem perante a consciência trágica da sua própria condição (o outro extremo é o amor), obrigados que estão a escolher entre uma morte eterna e uma vida mortal (é aqui, aliás, que se joga o contributo da filosofia para a «Teoria da Escolha» do Miguel) – questão que Tétis irá expressamente colocar ao seu filho: morrer na guerra de Tróia e ser eternamente lembrado ou reinar longamente em Ftia e logo a seguir ser esquecido. Devemos lembrar, porém, que a narração da «Ilíada» acaba, muitos cantos à frente, no palácio do rei Príamo, com a pacífica celebração do esplêndido banquete fúnebre de Heitor, o herói troiano, o domador de cavalos, cujo corpo, depois de aplacada a sua ira, Aquiles finalmente entrega àquele destroçado pai.
Ora, o que aqui quero propor, a partir da afirmação de Paul Grenet e em íntimo diálogo com o Manuel Fonseca, é que não vejamos Aquiles e Heitor como dois – mas como um só! Aquiles e Heitor, na verdade, são dois aspectos sempre concorrentes numa mesma vida – e numa mesma morte. Tal como o corpo e o espírito; tal como o povo e o herói. Um não se dá sem o outro. Daí a guerra; daí a paz (esta é especialmente para o Manuel). É esta a nossa experiência: a de sermos um que é muitos; a de sermos muitos num.
No nosso tempo, porém, isto já não pode ser: Aquiles é um; Heitor outro... Não há relação entre os dois. Daí a minha propalada advertência. Ao poderoso mito do sólido, que hoje vale absolutamente, dizendo que só é aquilo que se vê com os olhos e que se agarra com as mãos, quero contrapor aquela pequena expressão da Ilíada, várias vezes repescada pelos poetas, segundo a qual os gregos viajavam pelos «líquidos caminhos»...
A moderna inteligência, de facto, científica, cartesiana, põe-se uma identidade firme a partir da qual se quer depois lançar à vida – como se esta não tivesse morte. O seu paradigma é o sólido; o seu fim a manipulação. No seu mundo o amor não tem lugar. E a ira, que, na sua crueza, surge na falta de um amor que houve e que há-de haver, não vai já além do ressentimento – que é a falta de um amor que não houve, não há e não vai haver!
Os antigos gregos, porém, viajavam pelos «líquidos caminhos», nos quais iam encontrando a terra firme. O sólido era sobre as águas, governadas por Poseidon, que com os deuses e os homens tinha guerra e tinha paz. Depois da tempestade, por isso, vinha a bonança. E uma não era sem a outra. E uma era na outra. E nós éramos entre uma e outra e elas eram também em nós. Por isso estas palavras já há tanto tempo escritas ainda hoje nos fazem chorar. Porque mergulham dentro de nós (que, ao que parece, também somos água), trazendo-nos a esse mar revolto e manso onde, escolhendo, cumprimos o nosso destino.

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segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

Pedido de Casamento

Para se casarem, há homens dispostos a tudo.

Há quem faça pedidos de casamento aos microfones de um avião em pleno vôo. Consta que um cavalheiro, na inequívoca posse das faculdades mentais, alugou um cavalo, vestiu armadura medieval e, a trote, avançou pelo jardim público à conquista da amada.

Um anel, um ramo de flores, o joelho no chão, já nada disso basta aos intrépidos amantes. Agora, por um “sim”, um simples “sim”, lançam-se de pára-quedas ou mergulham nas profundas dos oceanos. São desvarios que têm consequências. E custos. Mais de dois milhões de euros por dia é o preço que Portugal paga por esse deslumbramento emocional.

Explico-me: a paragem cerebral não é irreversível, os sujeitos recuperam a lucidez e o divórcio é a terapia milagrosa. Para todos? Menos para o Banco de Portugal que atribui um terço dos incumprimentos no crédito à imparável vaga de divórcios. Ao todo, no último ano, mais de 800 milhões de euros de dívidas incobráveis resultaram de precipitados arroubos amorosos que culminaram em rupturas caloteiras. Moral da história: emprestar dinheiro a apaixonados é mais alto risco do que emprestá-lo a doentes ou desempregados.

O meu sentido cívico obriga-me a dar uma pequena ajuda aos mais incautos. Um “não”, um rotundo “não”, pode evitar-vos problemas com o vil e espúrio crédito. Mulheres de Portugal: um “não” pode ser tão bom como um “sim” e garantir aos irreflectidos proponentes mais fama e posteridade.

Foi o que aconteceu a Oscar Wilde. Em 1881, o escritor pediu em casamento Charlotte Montefiore. Sabe-se lá se por sensatez ou pulsional desconfiança, Charlotte disse-lhe que “não”. Com mais ironia do que despeito, Wilde escreveu-lhe uma carta: “Lamento a decisão. Com o seu dinheiro e os meus miolos, tenho a certeza de que teríamos chegado longe.” Foram felizes os dois, longe um do outro.

Por mais apaixonados que estejam, sugiro-vos que vejam o mundo com o mesmo véu negro que Kafka, tendo em conta o episódio que se segue, deve ter colocado em frente aos seus desorbitados olhos. Apaixonado por Felice, que só vira uma vez em Berlim e a quem mandava 50 cartas por mês, Kafka acabou a escrever-lhe um insólito pedido de casamento: “Casa-te comigo e vais arrepender-te. Não te cases comigo e vais arrepender-te. Casa-te comigo e não te cases comigo, em ambos os casos arrepender-te-ás.” Felice resolveu o dilema buscando amparo em braços mais consoladores. Kafka vingou-se com o labiríntico e tormentoso “O Processo”.

Dois rotundos “nãos”: ficou a ganhar a literatura e o Banco de Portugal não se queixa.
Publicado, agora mesmo, no Pnet Homem

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domingo, 10 de Agosto de 2008

De Homero a Campolide

Ainda a propósito (e se calhar já a despropósito) do sequestro e morte matada no BES de Campolide, eu escrevi isto e o Gonçalo respondeu-me assim. No fim, dizia que a nota dele era só um pequeno esclarecimento que eu certamente lhe perdoaria. Para que conste: ao Gonçalo eu não perdoo, agradeço. O comentário dele era muito melhor do que o post contestado e abriu-me o apetite para dar corda ao meu acrisolado espírito de contradição.
E onde é que o Gonçalo discorda de mim?! Simples e claro: rejeita a minha leitura dos poemas homéricos enquanto cantos de natureza violenta e cruel. Propõe, antes, que eles sejam uma filosófica síntese do ser na qual julgo reconhecer matriz platónica.
Discordamos? Não sei. Sei sim que temos, pelo que leio, uma relação emocional distinta com esses poemas primordiais. O que me interessa nos poemas homéricos é o luxo dos pormenores e da linguagem. Os adjectivos e as litúrgicas descrições. A Ilíada e a Odisseia são um faustoso e superlativo continente de factos e de personagens.
Talvez seja possível encerrá-las numa síntese ética ou filosófica. Algumas das mais brilhantes mentes de vários séculos de Ocidente fizeram-no. Pois, mas também se pode pôr Maradona, Eusébio ou Pelé a jogar xadrez. O espectáculo deve ser virtuoso, não creio é que seja exaltante. Por isso me parece que quem melhor leu essas narrativas fundadoras foram alguns poetas, de Alexander Pope e Butler (que as traduziram) a Borges que ironicamente as comentou. Das melhores traduções inglesas de Homero disse Borges: “Discursos e espectáculo: esse é Pope. Também é espectacular o ardente Chapman, mas o seu movimento é lírico, não oratório. Butler, em troca, demonstra a sua determinação de eludir todas as oportunidades visuais e de resolver o texto de Homero numa série de notícias tranquilas”.
Nesse espectáculo "homérico", às vezes delirante, outras vezes anacrónico, de batalhas e de traições, nas fabulosas invenções e charme de espírito, eu vejo uma poética do conflito. Cada um dos heróis da Ilíada é, por si só um campo de batalha. Poucos heróis há, no cânone ocidental, tão vilões como Ulisses. E quantos poetas, depois de Homero, o voltaram a utilizar – Virgílio, Ovídio, Dante, Shakespeare – propondo diferentes combinatórias da sua argúcia e perfídia, convertendo-o numa figura transgressiva.
Imoral? Amoral, diria eu. Como os jovens brasileiros, gentis com a vizinhança, um deles filho extremoso, ambos crentes, como Agamémnon, de que é possível roubar a escrava a Ulisses, sem com isso deixar de ser agathos, qualificativo que, na linguagem de Homero, quer dizer, o que é corajoso, ágil, poderoso na guerra e na paz. Ou seja, aquele que é bom.

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A benfiquização da nossa participação olímpica

Com este post é que o Manuel não estará de acordo de certeza…:
Podem ler aqui a consequência das recentes "aquisições" benfiquistas de algumas das nossas esperanças olímpicas: foram transformados em estrelas ainda antes de ganharem alguma coisa e tendo perdido a culpa é dos árbitros…
Prefiro o meu modelo sportinguista que encontra sempre um motivo de esperança no fracasso! .

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Prefiro o choque

Gostaria de subscrever e praticamente subscrevo tudo o que o Miguel Maduro disse aqui sobre o assalto e sequestro numa delegação do BES que acabou com um dos assaltantes abatido a tiro pela polícia.
E, de repente, o Miguel afirma: “A morte pode, como naquele caso, ser uma razão de alívio (porque significou a libertação das vítimas) mas nunca deveria deixar de nos chocar.” Nesta asserção está implícita uma certa crítica às televisões que transmitiriam, como se de uma ficção se tratasse, as imagens que antecederam e reproduziram o tiro certeiro do “sniper” e a queda irreversível do audacioso e jovem brasileiro.
Mas, Miguel, nós, ocidentais, temos desenvolvido, nas últimas décadas, uma cultura que visa “naturalizar” a morte! Procurámos a sanitização da morte para que ela deixasse de nos chocar. Nos funerais de “pessoas civilizadas” já ninguém chora. Esse extraordinário espectáculo de mulheres que se rojavam pelo chão aos gritos quando lhes morriam os maridos ou de homens que esmurravam o próprio peito ao perder a amada é considerado deslocado e socialmente constrangedor. As pessoas dão, com ar ligeiramente mais grave, os pêsames e, a seguir, juntam-se aos amigos procurando todos recordar episódios divertidos ou meio nostálgicos, mas sobretudo reprimem lágrimas e convulsões. Longe vão os ruidosos tempos de carpideiras e choros colectivos.
Só que, de vez em quando, a nossa natureza recalcada regressa e exibe-se triunfante. O caldo de violência de que a humanidade brotou é-nos intrínseco. A vontade de poder nitzscheniana não nos diz outra coisa. Como, da Ilíada ao Hamlet, com as sua narrativas de violência e morte, Homero e Shakespeare se de alguma coisa foram cantores, foi desse triunfo da natureza, do conflito e da crueldade.
Não quero comparar as televisões a nenhum daqueles poetas, mas parece-me que nenhuma “narrativa informativa” do assalto ao BES seria rigorosa se não figurasse a morte. Da mesma forma que nenhuma “narrativa ficcional” da vida contemporânea pode ignorar a violência diária, nenhuma “narrativa informativa” feita na noite de 6ª em Campolide poderia “effacer” o que os próprios assaltantes procuraram e, em certa medida, desejaram.
Recordo que os dois jovens brasileiros tinham aparentemente um status económico equilibrado, estavam socialmente inseridos, e eram estimados pelos vizinhos portugueses. O assalto que fizeram não nasceu de um quadro social de miséria e tormento. Os assaltantes pensaram a sua acção de forma amoral e determinada e terão mesmo decidido que seria preferível o suicídio e a violência a uma rendição pacífica. Não mostrar isso seria, uma vez mais, tratar de forma sanitária a realidade. Prefiro o choque.

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sábado, 9 de Agosto de 2008

A ficcionalização da morte em directo



No caso do sequestro do BES perturbou-me a forma como me pareceu ser tratada a morte. A transmissão pela televisão da morte em directo não a tornou mais real mas sim quase ficcional. Subconscientemente penso que todos associámos as imagens com uma qualquer série de televisão e não com a realidade da morte. De tanto lidarmos com aquele tipo de imagens televisivas num contexto de ficção deixámos o choque da realidade ser dominado pela narrativa do cinema. O próprio tratamento pelas televisões parecia ficcionar aquilo a que assistimos: a história do crime e a sua resolução sobrepôs-se ao choque da morte. A morte pode, como naquele caso, ser uma razão de alívio (porque significou a libertação das vítimas) mas nunca deveria deixar de nos chocar.
A polícia foi muito elogiada pela sua eficácia mas eu queria sobretudo elogiá-la pelo seu comportamento ético. Foram os responsáveis policiais que, no dia seguinte, tiveram a inteligência e sensibilidade de nos recordar do drama da morte. Ouvir o comandante nacional da PSP a defender vigorosamente a necessidade de preservar a dignidade mesmo dos criminosos (protegendo a sua identidade, preservando as suas famílias e procurando evitar reacção xenófobas) e o responsável dos GOE a resistir à exaltação da operação, lamentando a morte e lembrando que esta é sempre a ultima ratio, encheu-me de orgulho e reforçou a minha confiança nas chefias das nossas forças policiais. Talvez seja necessário lidar com a morte para compreender que nunca se deve ficar indiferente a ela. O comportamento daqueles responsáveis fez-me acreditar que não temos apenas uma polícia tecnicamente competente mas, igualmente importante, uma chefia inteligente.


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Vivam os intelectuais...

Justificando incidentalmente o meu descanso no terrível tribunal do Manuel S. Fonseca, aproveito o tema dos intelectuais para reassumir funções no nosso blog. E cumprindo um preceito metodológico, próprio de quem já foi da «profissão», ajudarei as reflexões aqui havidas pondo a pergunta sempre central em filosofia: O que é um intelectual?
Ora, um intelectual é um homem do espírito, não um homem das letras. É, conforme a própria palavra, aquele que «lê por dentro» (do latim intus + legere), sendo que ler por dentro é conhecer a coisa a partir do espírito que a informa. A capacidade de participar na vida espiritual (leia-se, intelectual), portanto, é, desde sempre, o maior e mais essencial dom de todos deuses ao ser humano – a todos os seres humanos, independentemente das suas mais variadas condições!
Assim: 1. O intelectual é aquele que conhece na raiz a terra inteira. A superfície, para si, é acesso ao espírito. Não nega o prazer do que toca, mas transcende a oposição dos sentidos, partilhando e aprofundando as sensações. 2. O intelectual é um homem bom. O seu saber está obrigado à encruzilhada dos caminhos onde livremente escolhe o que há-de ser. 3. O intelectual é um peregrino que, humildemente errante neste mundo, descobre a luz que ele contém.
Intelectual, portanto, não é o mesmo que erudito. Pode acontecer em alguém que as duas coisas coincidam, mas de modo nenhum são sinónimas. Em Covas, de onde ontem vim de férias (esta parte é para o Manuel), terra longínqua que, entre Caminha, Vila Nova de Cerveira e Ponte de Lima, cresceu cercada por montes de muitos verdes, chegam muito devagar todas as letras. E, no entanto, também ali há gente sábia. Gente que, como Newton, reconhece nos seus gestos os movimentos dos outros – sejam eles coisas, pessoas ou deuses – e que na constância dessa relação é reconhecido pelos outros como um sábio que ilumina um pouco mais a realidade.
Os intelectuais não morreram, como bem dizia a Sofia. Morrendo, morrerá o homem. Mas não estão nas bibliotecas. Estão nas descobertas que fazem e que transmitem aos outros mudando interiormente as suas vidas. E, como em tudo na vida, há bem mais do que parece.

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Uma imagem que vale mil protestos


A verdadeira liderança exerce-se através do exemplo que frequentemente pode ser mais eficaz que a força ou as palavras. É o caso do porta-estandarte americano, de quem é e de como foi escolhido: http://news.yahoo.com/s/ap/20080806/ap_on_sp_ol/oly_us_flagbearer

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Marilyn quando era ELA

Abençoada morte. Em Hollywood e em vida toda a estrela é um cometa: num segundo ilumina o mundo, um minuto depois é já veneno de box-office. Depois da morte, e por causa da morte, Marilyn Monroe resistiu a tudo.
Qual sic transit gloria mundi! Marilyn está para lavar e durar. Provam-no milhões de postais, cartazes, fotos, livros e reedições de filmes.
No cinema, fez de adúltera, alcoólica, cantora, míope, gold digger e vizinha. Mas quantas vezes foi essa ela de que, numa espécie de deslize freudiano, Marilyn falou um dia a Susan Strasberg, uma das suas melhores amigas?
A história passou-se em Nova Iorque, na rua. Marilyn saíra sem pinturas, penteado ou traje especial. Podia, assim, passear pacificamente, sem temer as turbas de fãs. Mas, de repente, deu consigo aturdida pelo desejo de irrealidade que era chamar-se (ou poder ser) Marilyn. “Do you want me to be her?” (“Queres que eu seja ela?”), perguntou. E Strasberg só se lembra de a ver crescer, mudar, até ser ela. Marilyn tinha, afinal, consciência de trazer outro ser em si. Tinha-o no corpo e tinha-o na mão.
Em Evaristo Carriego, Jorge Luis Borges escreveu: “Que um individuo queira despertar noutro individuo recordações que apenas pertencem a um terceiro é um paradoxo evidente. Executar com despreocupação esse paradoxo é a vontade inocente de toda a biografia.” Que biografia alheia é que Marilyn executava quando era ela? Parafraseando os “recuerdos de recuerdos de otros recuerdos” de Borges, muitas devem ter sido as recordações de recordações de outras recordações crescendo nela, até lhe darem esse “a lot of animal magnetism” que levava um menino milionário, em Gentlemen Prefer Blondes, a ajudá-la a sair da escotilha em que a largura de ancas a deixara ficar presa.
Arrisco uma hipótese de explicação, modesta e tradicional. Marilyn, quando era ela, era antes de mais o eco dos múltiplos terceiros que foram as peças do puzzle da sua infância.
Vamos aos registos. Na papeleta do L. A. General Hospital consta o nascimento, a 1 de Junho de 1926, de Norma Jeane Mortensen. A breve trecho o patronímico desapareceria, fazendo justiça ao buraco negro da sua paternidade, desaparecendo também o último “e” de Jeane. Ficou só Norma Jean. Ou, para efeitos civis, Norma Jean Baker, do nome da mãe, Gladys Baker, com a qual Marilyn deixou de viver aos oito anos, altura em que a senhora Baker foi internada num hospital de saúde mental, tendo-lhe sido diagnosticado a mesma esquizofrenia que destruíra a vida dos seus pais e irmão.
A infância de Marilyn, com mãe internada e paternidade incógnita, pode arrolar-se nos milhões de infâncias infelizes que povoam orfanatos, tutores e famílias adoptivas. A Hollywood não escapou o segredo mal guardado dessa infância infeliz.
She seemed like a lost child”, comentou o actor Robert Mitchum. Ela parecia uma criança perdida, uma doce criança perdida. Há uma cena reveladora em The Asphalt Jungle, de John Huston.
Marilyn era, no filme, a sobrinha – eufemismo com que se recobria, aos olhos dos censores, a relação de mocinha nova com homem mais velho – de um advogado escroque, Louis Calhern. Nessa tal cena, a altas horas da noite, Calhern olha para Marilyn com a mais equívoca ternura paternal e diz: “Some sweet kid. It's later. Why don't you go to bed...” (“Doce menina. É tarde. Porque é que não vais para a cama”). Marilyn desliza com volúpia pelo sofá, dá-lhe um beijo de despedida e começa a andar para o quarto, “being her” – porque esse sendo ela é que faz o ponto da cena. O realizador corta o plano no andar dela e dá-nos o contracampo do rosto de Louis Calhern olhando-a e repetindo dubiamente: “Some sweet kid”.
A menina doce, a insistente e ambígua imagem de infância que se oferece (e entrega) à impureza gourmet do olhar adulto, talvez seja – pode ser que seja – o segredo da persistência da imagem de Marilyn, desse “being her” a que, quando queria e com vontade inocente, foi escrevendo a biografia. Com paradoxal despreocupação borgesiana.
Adaptação de artigo publicado no Expresso em Outubro de 1992.

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sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

Intelectuais, sempre...



Um monde sans intellectuels du tout?
Non, je ne m’y résous pas.
Bernard-Henri Lévy, Éloge des intellectuels,
Grasset 1987, p. 61.


Aprendi com o meu Pai, há muitos anos, que a inteligência obriga. E antes de tudo o mais, explicou-me, obriga o ser inteligente a não ser estúpido. Será sempre, aliás, essa recusa da estupidez concreta, a única prova idónea da inteligência presente em cada homem ou mulher históricos.

Aprendi assim. E assim me fiquei.

Por isso, recuso a notícia da morte dos intelectuais. E por isso recuso a aparente tranquilidade com que a mesma é recebida.

O intelectual é penhor da inteligência e do pensamento no espaço público. Sem ele – e o masculino é neutro, por politicamente incorrecto que seja –, a vulgata sub-cultural da actualidade, sustentada num ofensivo abuso de simplificações e estereótipos, produz o caldo próprio ao império da opinião.

Como pano-de-fundo, servindo a grande ilusão, a religião das maiorias. Sempre presentes, sempre eficazes, a opinião, as maiorias e a opinião das maiorias, rumo à paz totalitária... Porque sem teoria, sem crítica, sem complexificação, o futuro será totalitário. Garantidamente totalitário, ainda que – e isso é mesmo o pior – possamos não dar por tal.

Entre sacerdotes, conselheiros, profetas, monges e giróvagos, não é verdade, Alexandre?

Post Scriptum – Serve este post, também, para dizer a um dos nossos intelectuais dilectos, o Manuel S. Fonseca, que há co-bloggers do Geração de 60 que não têm escrito, ao contrário do que provocatoriamente foi aventado, pela pura e simples razão de estarem cheios – e aqui o masculino neutro é, sobretudo, critério de elegância literária… – de trabalho!

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quinta-feira, 7 de Agosto de 2008

Manuela fica em casa


Nem Madeira, nem Pontal. Manuela Ferreira Leite não é muito de sair de casa, nem à noite. Esperemos que o recato e o decoro sejam inspiradores.

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Dog Day Campolide

Lisboa teve, hoje, direito a assistir a uma versão local do Dog Day Afternoon. Dog Day Campolide, com patrocínio do BES. Mais uma vez se viu que a vida não tem a limpeza do cinema. Não é Al Pacino quem quer.

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Confissão

Cheirava a cera, flores e incenso, a igreja que frequentava em miúda.
O confessionário ficava do lado esquerdo da porta principal. Desse tempo gostava sobretudo da leitura diária no mês de Maria que antecediam a reza do terço e que se fazia anunciar pelo bater dos sinos. Diferente de quando morria gente. Cultivava ainda uma paixão icónica, estética, pelas figuras de santinhos e santinhas que coleccionava com afinco e guardava no missal. Também os trocava quando era o caso de serem repetidos.

Não gostava da confissão. Não percebia o conceito, demasiado abstracto quando se tem oito anos. Para além de que educada a preservar a intimidade, a guardar pensamentos e ideias, não me agradava a ideia de partilhar os meus defeitos e pecadilhos com um estranho. Ainda que esse estranho fosse o pároco que me tinha dito que Sofia queria dizer sabedoria. Na minha presunção achei que o meu nome, afinal, me fazia justiça. Presunção e água benta cada um toma a que quer.

Na fila que se formava para a confissão, eu ía magicando pecados imaginários, três ou quatro. Qualquer coisa que, sob a admoestação do padre, me fizesse sentir culpada de verdade enquanto pensava no inconfessável e arrependida pelos meus actos, só um pouco de verdade misturada, para dar espessura.

Lembrei-me disto um outro dia. Não foi a primeira vez, parece que é tão costumeiro como a confissão da minha infãncia. Mesmo com 36 anos ainda acho demasiado abstracto o conceito.

Numa situação profissional formal, perguntam-me quais os meus três maiores defeitos.

Senhor Padre, disse palavrões, não obedeci à minha mãe, parti uma jarra e escondi-a debaixo do móvel, mando a minha irmã fazer as coisas que eu tenho medo de fazer.

Com que coragem é que podemos confessar que bebemos a água benta toda, mais a presunção que há nela, a pontos de pensarmos que somos melhores do que quem tem a ideia peregrina de nos fazer tal pergunta?

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quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

42nd Street

Busby Berkeley:
não se nota, mas foi um génio
Se têm um átomo de paciência e não se importam de recuar a 1933, espreitem este “production number”, um dos vários prodígios assinados por Busby Berkeley no musical “42nd Street”, que a Warner Bros levou aos cinemas em 1933.
Berkeley era um génio e inventou tudo o que podem ver a seguir aos 2 minutos da canção de Ruby Keeler, a protagonista do filme. O que se segue é uma câmara imparável, a mais criativa das montagens, uma mise-en-scène divina, ou seja, um espectáculo em que Hollywood demonstrou toda a sua superioridade sobre a Broadway.
Há outros exemplos da “Berkeley technique”. Em todos, Busby Berkeley oferece deslumbrantes composições geométricas e caleidoscópicas. São algumas das mais belas paisagens oníricas que o cinema já fez e fará. Preparados para uma viagem melodramática? Aí vai:


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III. Os intelectuais

Que intelectual é esse que decaiu? O profeta. Porquê? Porque o profeta se tornou idólatra do giróvago e porque perdeu sentido crítico. O profeta Sócrates mostrava religioso respeito pelo monge Heraclito. Anacronismo à parte, duvido que tomaria Diógenes como paradigma. Quando o profeta bebe do giróvago há sempre sinal que anuncia a sua própria decadência. O palhaço em potência inquina-o e fá-lo cair no mesmo descrédito.

Quando o profeta toma o giróvago por paradigma condena-se ao descrédito. Afirma que no fundo lhe irreleva o povo a quem fala e os temas que enuncia. Decaiu porque desprezou o monge, que é o que lhe elabora as bases do discurso e a seiva do pensamento. Chama de cobarde o apolítico, ou, pior, de fascista. Decaiu porque não apenas atacou os monges concretos, mas quis acabar de vez com o estado monacal. Porque decaiu? Porque a religião única que apregoava era postiça. O modernismo, o marxismo, agora substituído pelo capitalismo ou pelo multiculturalismo ou post-modernismo. Religiões gastas à nascença, pobres de conteúdo e de efeito. Uma árvore conhece-se pelos seus frutos e conheço poucos hinos à economia de mercado, ainda menos sinfonias ao multiculturalismo.

Feito o diagnóstico, qual a terapêutica?

O intelectual soberano é em geral assustador. É preciso que seja soberano antes de intelectual e isso é matéria-prima rara. O conselheiro precisa de soberanos que pré-existam. Esses são mais comuns mas mesmo assim raros. Mas o profeta é ainda necessário, só que tem de ser de religiões ricas e observar o monge, não o giróvago. O giróvago tem de ser consistente com a sua natureza e ser pobre, sob pena de ser palhaço de hipocrisia. E o monge tem de ser respeitado exactamente por ser contemplativo, não pela sua acção social. Uma cultura saudável apresenta estas características. Dediquemo-nos a procurá-las.

http://epistolary.org/1643.html
http://www.fh-augsburg.de/~harsch/Chronologia/Lspost13/CarminaBurana/bur_car0.html
http://www.tylatin.org/extras/cb1.html




Alexandre Brandão da Veiga

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A Primeira Vez Que Vi Paris

Souci de connaissance
A primeira vez que vi Paris fiquei com os olhos rasos de água. Tinha acabado de tirar os olhos de Lisboa e começava a ver o que a vida tinha para me dar.
O avião sobrevoou a cidade e vi, lá de cima, o Sena apertado à esquerda e à direita, como vi a Torre Eifel a levantar-se, com estatura cartesiana, uma espécie de “cogito” urbano como não há em mais lado nenhum, a não ser em Nova Iorque onde os franceses plantaram, como “ersatz”, a Estátua da Liberdade.
Sei bem que a França não está na moda. Na moda tem estado, e julgo que ainda está, dizer que os franceses são arrogantes e os parisienses insuportáveis. Mas nesse dia, em que pela primeira vez vi Paris com olhar cândido e souci de connaissance, encontrei o meu par.
A minha França começara, quase por acaso, quando (terá sido em 1962?) o meu pai trouxe, do porto de Luanda, uns discos abandonados, 45 rpm, de Jean Ferrat, um crooner (ou um poeta-autor?) que me fez ouvir a estranha música de uma das mais belas línguas que conheço. Depois, um bom bocado depois, sozinho ou com ajudas, peguei de frente e de cernelha, os poetas, de Rimbaud a Éluard, de Baudelaire a René Char.
Antes, a França já tinha sido o meu passe-partout para atravessar a alegre tristeza da adolescência. Foi o meu yé-yé, com o Michel Polnareff da poupée qui fait non, foi o meu sonho do baile de sábado à noite em que Sylvie Vartan era la plus belle pour aller danser. Eu, que vivia em África, delirava com o Tour de France em que Jacques Anquetil invariavelmente esmagava Raymond Poulidor (o mais injustiçado dos ciclistas).
A primeira vez que vi Paris, deixei-me ficar. Tinha um quarto na Rue du Bac, no 6eme, entre a rue de Grenelle e o boulevard Saint Germain. Margem esquerda, a que me ficou no coração, mas a que hoje, aprendida a lição de Truffaut, sou infidelíssimo. Descobri, da Opéra à Madeleine, de Pigalle a Montmartre, a sensualidade da direita, a que me entrego com volúpia baudelairiana.
Não sei se a França de que continuo a gostar, por tanto a ter antes amado, ainda existe. Era, essa França que primeiro amei, a mesma França com que Hollywood sonhou quando fez “An American in Paris” ou “The Last Time I Saw Paris”. Elegante, generosa e cosmopolita. Luminosa e vã. Tenho a vaidade de pensar que lhe devo a minha eduação sentimental.

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terça-feira, 5 de Agosto de 2008

O diabo no corpo


Hoje apetece lembrar Marylin. De vestido branco, corpete verde ou perdida nos "Inadaptados".
Perguntar-me de que matéria seria feita uma mulher capaz de se inventar e de se impor no imaginário colectivo por cinquenta anos.

Mulher com o diabo no corpo e outros demónios na cabeça.

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II. Os intelectuais

Cada um destes tipos gera perigos específicos. O rei-sacerdote tende para o totalitarismo. O conselheiro tende para se tornar um esbirro, um bajulador, um serviçal. O profeta tende a ser extremista, fechado sobre si mesmo, e de tanto dizer aos outros como devem viver a sua vida esquecer-se de como deve sequer viver a sua. O monge tem como perigo a indiferença. O giróvago o de transformar-se num mero palhaço.

Feito o balanço final, a História foi escassa em reis sacerdotes. Todos os outros tipos existiram em graus diferentes na História.

Qual é o intelectual que se encontra em decadência na nossa época afinal? Qual o destruído pela vitória (escassa e ilusória) do mundo ocidental contra o comunismo? O intelectual a que se referem quando falam desta queda é o profeta. O que anuncia os novos caminhos da humanidade. O que explica como se deve fazer a revolução, como no tristemente célebre e esquecido episódio em que Sartre vem a Portugal ensinar como se deve fazer uma revolução proletária para ser conforme aos ditames da dialéctica.

O giróvago continua a existir placidamente, sem ser incomodado. É o que se vê nas galerias de arte, é o palhaço caro a quem se pagam pinturas e instalações ou se deixa fazer poesia a que não se dá estatuto constitutivo, mas apenas lúdico.

O monge continua intocado, sobretudo na ciência, ou sob o estatuto do erudito, do estudioso, que faz livros que interessam apenas a outros monges. É no fundo irrelevante para o público em geral, entendido como figura menor, sem gerar excitação, apenas suscitando alguma condescendência. No fundo, é visto como o seria um espécime antropológico. Como o Bororó, é assim porque é assim, suscita alguma curiosidade dominical vespertina, nada mais. Nisso em nada mudou o seu estatuto desde há muito tempo.

O conselheiro desapareceu desde De Gaulle. Para que exista é preciso que haja soberanos.

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Mau Pai, Bom Filho, Grandes Pianistas

A moral em arte não risca. Bebo Valdés, hoje com 90 anos, é um dos sobreviventes dos anos dourados da música cubana. Nas décadas de 40 e 50, Bebo tocou rumbas, danzón e mambo. De vez quando, cruzou ritmos afro-cubanos com o jazz, o que fez dele um deus no mais lendário dos cabarets, o Tropicana, que acabou por dirigir.
Bebo Valdés é neto de escravos. Aos 17 anos, veio estudar música em Havana, ganhando a vida a descascar batatas. Cantava (o que eu jamais poderia ter feito) e tocava maracas (tão fácil que talvez eu pudesse ter tentado). Foi grande entre os grandes e ensinou Nat King Cole a cantar em espanhol.
Depois chegou Fidel. E os seus barbudos. Para Bebo o ritmo mudara. Um dia, tinha um dos seus músicos à espera, à porta de casa, com fusil revolucionário ao ombro, explicando-lhe, em compasso binário simples, que quem não é por nós é contra nós. Bebo tinha pai, mãe, mulher e cinco filhos. Foi comprar uma caixa de fósforos ao México e nunca mais voltou a Cuba. A mulher ainda soube que ele se ia embora. Aos filhos nem disse adeus. Um pai destes não se recomenda a ninguém.
Do México viajou para Estocolmo, onde viveu três décadas. Três esquecidas décadas a tocar em hotéis. Ressuscitou nos anos 90, quando Paquito D’ Riviera lhe editou o cd “Bebo Rides Again”. E “El Caballón”, como era conhecido o seu metro e oitenta e quatro, voltou a respirar pelas mãos. E que bem que Bebo respira quando as mãos dele tocam piano. Bebo, o homem que abandonou mulher e filhos, é hoje, aos 90 anos, uma estrela da música mundial, com direito a um documentário, “Old Man Bebo”. Mesmo sem o ter visto, considero-o já uma obra-prima (ganhou prémios nos festivais de Tribeca e Barcelona).
Chucho Valdés é filho de Bebo. Tinha 19 anos quando o pai o deixou a ele, à mãe, aos avós e aos irmãos. Acompanhara o pai para todo o lado e chegara a pianista na orquestra dele. Em 1960, ninguém disse a Chucho que o pai ia partir. Nem ao aeroporto o levaram. Quando descobriu, jurou à mãe que nunca a abandonaria. Cuidou dela e dos irmãos e converteu-se no maior pianista de Cuba.
Tocou com músicos fabulosos, nunca se envolveu em política e, sobretudo, recusou fugir da ilha cercada. Hoje convidam-no para tudo. Em Montreal, tocou na igreja da Santíssima Trindade, santuário de concertistas clássicos e de um público reservado e frio. Conta ele: “Primeiro toquei «Les Feuilles Mortes» em estilo barroco e quando acabei com um prelúdio de Bach o público pôs-se em pé e começou a gritar. Então, meti tumbaos a Debussy. Faço o que me apetece.” Dizem que é o melhor pianista do mundo. Ele diz que não, que é o pai!
São os dois, como se pode ver no reencontro emotivo, o segundo, do vídeo abaixo. Bebo terá sido mau pai. Chucho foi o melhor dos filhos. Está visto: a moral não toca piano.





Pai, piano e filho


Publicado no Pnet Homem

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segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

Solzhenitsin: in memoriam

Há dois momentos macabros na história da humanidade, no século XX: os campos de concentração nazis e os campos de concentração soviéticos. Salvo para algumas cabeças descabeladas e furiosas, a denúncia e a prova da barbárie nazi foram um dado adquirido desde o final da Guerra, em 1945. Não foi tão fácil denunciar a barbárie estalinista. A ideologia e a bondade idealista dos amanhãs que cantam queimavam como um ferro em brasa qualquer prova da inenarrável dor e mortandade que escapasse das sombras do socialismo científico.
Este homem, Alexander Solzhenitsin, com uma só palavra, Gulag, quebrou o tabu e ajudou a libertar a humanidade de um pesadelo torpe.
Uma palavra e duas mil páginas foram o legado de Solzhenitsin. Um legado que nos fez mais livres e, acredito, mais humanos.

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Bandeiras

O Verão, mesmo em Lisboa, tem as suas vantagens. Às 8 da noite ainda é muito de dia e quando se passa pelo cimo do Parque, a esplendorosa luz de Agosto faz da enorme bandeira nacional um ondulante espectáculo patriótico.
A bandeira, gigantesca, está à entrada do Jardim Amália. Luminosa e batida pelo vento, de repente a dimensão confere-lhe uma beleza que na Primavera não lhe adivinhávamos. É Verão. Na temporada Outono-Inverno voltaremos a vê-la como é e a recordar com nostalgia a sepultada brancura da bandeira monárquica.

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O intelectual guerreiro

Achei muito curiosa a tipologia que o Alexandre Brandão da Veiga (o único blogger da geração de 60 que, como eu, não fez férias em Agosto, como se vê) aqui nos propôs para os intelectuais.
Permito-me fazer uma nota de rodapé ao post dele e sugerir mais um tipo: o intelectual guerreiro, requerendo já o extremo favor de ninguém confundir a nomenclatura com meninos guerreiros, meninos de oiro ou afins.
Um exemplo meritório e controverso dessa categoria de intelectuais foi, no século XX, o escritor Ernst Jünger. Militar durante a I Grande Guerra, Jünger cantou, sem condescendência, a glória e a brutalidade da guerra, em "In Stahlgewittern".
Capitão das tropas alemãs, na II Guerra, conviveu e terá protegido Picasso e Cocteau, durante a Ocupação, em Paris. Foi soldado, botânico, zoólogo, entomologista e poeta. Do mal que lhe conheço a obra, elejo “Eumeswil”, um romance em que a liberdade individual persiste, servindo qualquer forma de poder: “A igualização e o culto das ideias colectivas não excluem o poder do individuo. Pelo contrário: nele se concentra o ideal das multidões como no foco de um espelho côncavo”. É o que escreve Jünger, mais adiante dizendo: “Não fracassamos pelos nossos sonhos, mas sim por não termos sonhado o suficiente”.
Acusado de simpatias nazis, mas também associado ao atentado contra Hitler, Jünger é o exemplo de um espírito livro, suficientemente equidistante dos poderes para poder garantir a sua an-arquia pessoal: "Cortejar as boas graças: também isto é uma arte. A expressão deve ter sido inventada por alguém que teve a mesma sorte da raposa com as uvas".

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I. Os intelectuais

O lugar comum deste tempo curto é que acabou o tempo dos intelectuais. Agora vivemos no tempo dos gestores. Oposição pobre como as conclusões a que chega. Mas vejamos o que nos ensina a experiência histórica.

Os ditos intelectuais ao longo dos séculos manifestaram-se em vários paradigmas:
1) O rei-sacerdote
2) O conselheiro
3) O profeta
4) O monge
5) O giróvago

Se bem virmos são estes os cinco tipos de intelectuais que a História viu nascer. Como todos os tipos, uns por vezes se sobrepõem aos outros, e muitas vezes ter um estatuto não impede que se ambicione outro.

O rei-sacerdote é o sonho da teocracia. O regime dos ayatolahs no Irão, mas igualmente a utopia platónica, ou em parte a ideologia bramânica deram exemplos deste modelo. Nele o intelectual, por o ser, tem o poder na sociedade. Savonarola, e Trotsky são duas tentativas falhadas deste tipo. Frederico o Grande da Prússia tentou sê-lo. Akhenaton igualmente.

O tipo de conselheiro é o do que, não tendo poder directamente, é a consciência do soberano. Platão junto do tirano de Siracusa, Alcuíno junto de Carlos Magno, Pierre de la Vigne junto de Frederico II de Hohenstaufen, Goethe junto do duque de Saxe-Weimar, Malraux junto de De Gaulle são os exemplos mais conhecidos.

O profeta não é poder, nem está nele integrado. Mas dirige-se ao poder e à sociedade para a fustigar, para a advertir. A tradição profética hebraica, São Bernardo, Santa Catarina de Siena, em parte Cristo (cum magno grano salis) são exemplos deste tipo. Zola e o intelectual típico francês, começando com Voltaire são os grandes representantes desta tradição que culmina com Sartre.

O monge é o que nem olha para o século. O monge pode estar retirado ou integrado numa organização. O conselheiro dirige-se ao soberano, o profeta ao mundo em geral, o monge olha para a interioridade. O paradigma do monge tem o seu herdeiro na tradição científica desde o fim do século XVIII, e no intelectual “apolítico” do II Reich, cujo testamento e maior declaração são as “Considerações de um apolítico” de Thomas Mann.

O giróvago é o que não se integra em instituição nenhuma. Ao contrário do monge observa o século, mas não para o mudar. Apenas para se rir dele, para o desprezar. A sua natureza é a mobilidade, seja de opiniões, seja geográfica. O mundo é diversão para ele. Ao contrário dos restantes, não sente responsabilidade nem pelo mundo nem pela sua alma. Ou pelo menos não faz dessa responsabilidade o centro do seu discurso. Os Carmina Burana são gerados por este tipo de intelectual. Ovídio e Catulo são exemplos dele. Diógenes o Cínico outro exemplo. O Maio de 68 idolatrou este tipo, embora se quisesse profético. Os poetas malditos (sejam quem eles forem) integram-se neste tipo. As bandas rock tradicionais, os artistas de performance são herdeiros destes giróvagos.



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sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

Os dedos e os anéis



A sequência dos acontecimentos que envolveram a comunicação ao País do Presidente da República é eloquente sobre o sistema que atravessa a sociedade e que estabelece no topo da hierarquia o interesse dos media, depois o interesse dos «tradutores com opinião», depois o interesse da maioria dos portugueses e, finalmente, o interesse de Portugal.

  1. Fuga de informação para o Público sobre a intenção de o PR fazer uma comunicação ao País, sexta-feira, 31 de Julho e respectiva manchete no jornal do dia. Casa Civil confirma. Não é dado o assunto apenas a hora e a duração da intervenção.
  2. Frenesi mediático com leilão de apostas sobre o assunto: questão de vida e de morte do Presidente da República, inclusivé. Mesas com analistas nas rádios e televisões. Exitação dos que são pagos para suporem realidades. Crescendo das expectativas. Clima de País com o destino suspenso sobre as palavras prometidas para os primeiros cinco minutos depois das oito da noite. «Bombom» mediático no último dia de Julho quando apenas os fluxos dos veraneantes seríam notícia. 13 hora de produção de ansiedades - garante de audiências.
  3. Comunicação ao País sobre o novo Estatuto da Região Autónoma dos Açores, votado por todos os partidos do arco parlamentar em ano de eleições na Região. O Chefe de Estado entende que é perigoso precedente as leis ordinárias alterarem, gradual e subrepticiamente, os poderes dos Orgãos de Soberania; fá-lo depois de o Tribunal Constitucional ter detectado oito falhas no diploma (que não esta); mostra que os poderes do Presidente da República não estão sujeitos a este tipo de investidas aprovadas por todos os que não desagradam ao povo nas vésperas das eleições. Enfim: considera que matérias de coesão nacional, consolidadas ao mais alto nível na Constituição da República, não são sufragáveis por «dá lá aquela palha». Porta-se como fiel garante da instituições democráticas, como jurou ser e razão pela qual foi eleito e exerce funções.
  4. Desilusão total. O primeiro anel de opinion makers, constituído em cada TV e rádio por jornalistas, é demolidor para com o PR. Está desorientado. Cheguei a ouvir um deles dizer «Não sei o que é isto, nem do que se trata (Estatuto dos Açores) 99% dos portugueses também não sabe». Como se a gravidade dos assuntos tivesse, obrigatoriamente, alguma relação com o conhecimento alargado numa determinada população, com ilustração mediana.
  5. Segundo anel de analistas já não constituído por jornalistas mas por politólogos e políticos. Imperam as considerações de Estado do ponto 3 mais do que o carrocel emocional desfeito por um assunto «tão desinteressante».

O tabu de Cavaco é irritante e dispensável. O homem podia perfeitamente ter dito qual era o assunto. Mas não tinha que o fazer e não pode ser responsabilizado pela ansiedade que os media geraram e potenciaram ao longo do dia. Como político conhece e trabalha com o papel e o impacto dos seus actos nos media. Mas como Chefe de Estado não tem que se subordinar à sua lógica cada vez mais vinculada aos interesses de audiências e à exploração de crescendos emocionais, do que ao valor factual, não expeculativo, da matéria noticiosa.

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