segunda-feira, 31 de Março de 2008

Às gerações e gerações...


Há um ano imaginei, no princípio da Primavera, que persistentes longos dias, quentes e luminosos, iriam encher a minha esperança pelo largo Verão a fora. Imaginei dias duplos, com tempo para tudo, e sem tempo a perder. Imaginei, que um horizonte novo pode estar sempre para despontar, se nos soubermos colocar a jeito de o ver, de o seduzir, de sermos seduzidos por ele. Haverá íman mais poderoso que a esperança, estampada no nervosismo da novidade?

Há um ano imaginei que alguma coisa poderia mudar se pelo menos eu conseguisse mudar-me. Imaginei forças novas, novos ímpetos, um calor que ajudaria a vencer o inverno e o desconforto, que pudesse até aquecê-lo e, assim, também gostar dele e da sua teimosia, que nos endurece os ossos e os músculos e nos torna hirtos e inflexíveis.

O Verão a pairar sobre os nossos espíritos habituados a pensar o belo, o bom e o que autenticamente conta para uma felicidade que se ama, nas imagens fugidias, por ser fugidio o nosso espírito, que não consegue abarcar num instante de brilho toda a beleza do mundo que se esconde no mundo que se vê.

Ver e amar, ver e pensar, e continuar a amar e a pensar, apesar de tudo nos fugir. Excepto o passado, excepto a memória que se reflecte no futuro, excepto a memória que nos faz ter saudades do que sonhámos e não do que vivemos. Porque em nós a posse é fugaz. Se o pudermos compreender talvez saibamos rejubilar com reflexos que nos revelam tudo o que desejamos e sorrir perante a sua evanescência.

— Volta, pirilampo, volta, Primavera, volta, juventude!
— Volta, Ó sensação de recomeço! Quem não recomeça morre!
— Gritem isto pelos campos e pelas cidades para que os homens não se esqueçam!
— Gritem que o ciclo recomeça em círculos cada vez mais etéreos e aprazíveis!
— Não se deixem perder, por favor, nas lamas e nos lodos de que o vosso corpo não se pode desprender!
— Deixem esse nevoeiro mefistofélico, em que Invernos cruéis vos tentam embeber e afogar!
— Deixem tudo o que vos tirar a sensação da leveza da borboleta, da fragilidade da papoila, da incorporalidade da areia!

— Exalem a vossa alma como um sopro enxameado de um destino, maior que o dos deuses de barro quebradiço, que ingloriamente se partem pela sua falsa rigidez!
— Lembrem-se que as gerações são essa mesma renovação, que vencendo o tempo, embelezam o jardim, que persiste florido e, todos os anos pela primavera, insiste em demonstrar que aí está para nossa salvação.

As palavras que lavramos são para a memória futura, são para que um dia se possa dizer de alguém, de algum lugar, de alguma coisa, que por ali passou a humanidade, por ali passou uma procura e que ali houve um momento de esperança que justificou toda uma existência.

De tudo o que nos falta há sempre uma palavra para o lembrar. Por isso pensamos, falamos, escrevemos.

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domingo, 30 de Março de 2008

Cabeça Cortada

Há mais uma razão para ir a Los Angeles. O J.Paul Getty Museum acaba de adquirir em França, por uma soma que se estima superior a 30 milhões de euros, um quadro pintado em 1892 e que já ninguém via desde 1940. Era, dizia-se, o «mais famoso Gauguin que nunca niguém tinha visto».
Em « Arii Matamoe », Paul Gauguin pintou a cabeça decapitada de um homem colocada sobre uma almofada imaculada. «Terminei agora uma cabeça de canaca cortada, bem arranjada em cima de uma almofada branca num palácio da minha invenção, guardada por mulheres também de invenção minha. Parece-me uma bela peça de pintura» escreveu o pintor a um amigo.
Neste quadro de morbidez e luto – que evoca a cabeça cortada de João Baptista – retrata-se um ritual fúnebre que estava já em via de extinção. Arii designa um chefe ou um nobre e Matamoe significa «os olhos que dormem».
O quadro vai reforçar a colecção de Impressionistas e Pós-Impressionistas do Museu, juntando-se a 3 outras pinturas de Gauguin que estão já no Getty Center.
Vale a pena visitar o Getty Center, a uns minutos de carro de Westwood, o «meu bairro » de L.A. Acesso fácil, espaços abertos onde as colecções respiram, e jardins magníficos à volta. Ainda assim, não escapo à inevitável nostalgia portuguesa de que o que era bom era o que estava «antes», e tenho pena que esta nobre e sangrenta cabeça não vá para a velha villa de Malibu, juntar-se a outras anacrónicas cabeças gregas e romanas.
Foi lá que vi, pela primeira vez, estes dois surpreendentes Degas, cuja coreografia me impressionou mais do que «outros bailados» do pintor. Degas em Malibu, num cenário kitsch, onde se chega pela famosa Pacific Coast Highway.















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O rei está nu


No Público de hoje, António Borges dá uma entrevista importante. Em primeiro lugar, pelo interesse do que diz. Depois, pelo simples facto de dizer. Finalmente, pela circunstância em que assumiu dizer.

Dos impostos e da política orçamental aos grandes investimentos públicos, da realidade empresarial à promiscuidade que define o controlo dos interesses económicos, do empreendedorismo ao papel do Estado e à reforma da administração pública, do sistema bancário aos modelos de regulação e supervisão, de Portugal à Europa e aos Estados Unidos, António Borges revela competência, espírito crítico e visão. Sabe do que fala e torna-o evidente. O que, neste tempo de ignorância atrevida, feito de trivialidades redondas e pretensiosas, sempre bastaria para que a leitura constituísse um verdadeiro bálsamo.

Mas há mais. E não menos relevante. António Borges não foge aos temas difíceis, nem molda o seu discurso às regras da conveniência mundana. É muito mais imprudente do que habitualmente são os entrevistados. E, não se subestime, muito mais corajoso.

Refere-se à oposição e ao PSD sem cerimónias. «A oposição – diz – não existe e está completamente descredibilizada». E continua: «o PSD atravessa uma fase muito má, que não é de agora». Sobre Luís Filipe Menezes, mais adiante, refere: «é um erro, um lapso do PSD. E julgo que não vai durar». Depois disto, nem sequer se furta à dificuldade que ensombra a possibilidade de construir uma alternativa de futuro: «não são só as regras. É um conjunto de factores que tornam limitadas as escolhas».

No entanto, reserva ao Governo a parte mais letal e grave da sua entrevista. Sem papas na língua, torna público o facto de o Ministro da Economia, Manuel Pinho, lhe ter comunicado a cessação imediata de todos os contratos com a Goldman Sachs, no dia seguinte ao fim-de-semana do Congresso do PSD (Pombal, 2005), em que fora crítico das políticas governamentais. No mesmo tom, sem medo, confessa ter sido mais tarde intimado a um pedido de desculpas, aparentemente devido ao mesmo Ministro da Economia, como forma de se retractar da oposição que havia manifestado no âmbito da mudança da presidência da EDP, há cerca de dois anos. Aqui, de novo, sob cominação de nunca mais haver «trabalho para a GS em Portugal» - e esclarece, «aliás, como nunca mais houve».

Em três páginas de um jornal de domingo, António Borges confronta-nos com o país que somos. Um país entregue a um Governo autoritário, incapaz de perceber o sentido da liberdade e do seu exercício responsável, intolerante para com aqueles que perfilham uma visão diferente da realidade, implacável para com a opinião crítica. Um país entregue a uma oposição em auto-destruição, arrogante também ela no seu patético autismo. Um país incapaz de merecer a democracia que conquistou há quase 40 anos. Um país que desperdiça o seu potencial criador e falha consistentemente o desafio do desenvolvimento.
No entanto, nessas mesmas três páginas, António Borges deixa-nos um fundamental elemento de esperança. A esperança nas pessoas e no poder da sua intervenção política, militante e cívica. Em momento de silenciamento acrítico e cúmplice, António Borges falou. E disse o que não é costume dizer-se (isso mesmo evidenciou Manuel Pinho, já esta tarde, nas pungentes declarações feitas a propósito desta entrevista…). Sem medo das consequências. Antes, para o mal e para o bem, dispondo-se a elas.

Ora, na minha perspectiva, é disto que Portugal precisa. Que pessoas credíveis levantem a voz e a façam ouvir. Que digam alto o que muitos sabem em surdina. Que mobilizem os que estão fartos e querem mudar de vida.
O país não vai bem. Mas é preciso que alguém tenha a coragem de o gritar. Como um dia, no meio da multidão, alguém gritou: «o rei vai nu!».

Termino, como António Borges. É preciso gente «completamente nova». É urgente «uma maneira de fazer política completamente nova». E é imperativo «aparecer uma vaga de fundo que permita mudar».

Post Scriptum – Faço o meu registo de interesses, deixando dito que subscrevi a moção apresentada ao congresso do PSD, em 2005, que tinha António Borges como primeiro subscritor. Depois disso, só me lembro de ter estado com ele uma vez, num almoço que, ao acaso, reuniu um pequeníssimo grupo de congressistas com fome e sem mesa marcada, no intervalo do congresso de Lisboa. Hoje, gosto de o ver regressar assim. Com coragem, com ideias e com vontade de participar.

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Ao João Luis Ferreira

Caro João,
Agradeço-lhe não só a apreciação simpática do meu post, meio vivencial, meio godardiano, mas sobretudo a cuidada análise em profundidade a que o submete e que entra em territórios aos quais, em geral, procuro fugir.
O que separa os nossos “discursos”, chamemos-lhes assim, diferença que, segundo o João, eu marquei com uma indesmentível pontinha de irritação (amistosa, creia), é uma incapacidade minha para toda e qualquer meta-linguagem.
Não lhe vou dizer que “não se pode” falar de cinema a partir da conceptualização e da abstracção. Talvez mesmo eu conseguisse, se fizesse um esforço. Mas a preguiça arrasta-me, como uma doce vertigem, para a “doxa”, para o mundo de sentidos e de artefactos, de sombras e cavernas que são os olhos trementes da Lilian Gish no “Lírio Quebrado”, as portas que se abrem e se fecham atrás de John Wayne no “The Searchers”, a saia branca que esconde as elegantíssimas pernas de Cyd Charisse quando dança no parque em “The Band Wagon” .
E minto, não é só a preguiça, é também uma escolha intelectual. Tenho uma certa resistência (pudor?) em converter a euforia dessas sensações em conceitos absolutos. Eu gosto da caverna e escuso-me, por mais exaltante que seja a viagem, a bater as asas em direcção ao “mundo das ideias”.
É a mesma incapacidade que me dificulta uma clara tomada de posição nos debates cívicos e políticos que a Sofia Galvão muitas vezes, e bem, aqui nos propõe. Consigo pronunciar-me sobre a proibição do tabaco, sobre o caso BCP ou sobre a Guerra do Iraque (os meus prognósticos em todos estes casos atingiram índices de erro que até o Guiness se proíbe de registar), mas não consigo colher nesses factos e na sua discussão as “essências” que olhares mais atentos deles retiram – uma decadência de Portugal ou do Ocidente, para ir a tópicos mais batidos. Para sermos filosoficamente anedóticos: o meu “logos” não consegue desaguar nesse “nous”.
O João talvez diga, e talvez o assista alguma razão, que o que tenho é medo!

Invoco em minha defesa Wittgenstein:
“«Tenho medo» pode, por exemplo, ser dito simplesmente como uma explicação do meu modo de agir. Então isto está longe de ser um gemido, pode mesmo ser dito sorrindo.”
E é com este sorriso que me permito fugir outra vez às grandes sínteses estéticas, éticas ou políticas. Confessada a minha incapacidade, nada me impede de protestar com veemência o direito (e a necessidade) de outros, mais dotados e mais audazes, produzirem “sentidos últimos” ou grandes princípios de significação, seja a partir do bailado de Gene Kelly no “Singin’in the Rain”, seja da decisão de Sócrates reduzir o IVA.
Se for o João a fazê-lo, não deixarei de o ler com renovado prazer.

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Correio do Leitor: Carta a Manuel S. Fonseca

Caro Manuel:

O seu post de ontem é uma excelente deambulação pelo que de mais adequado e próprio caracteriza o cinema. Entre os sonhos de uma juventude germinante, e no seu caso mergulhado na sensualidade luxuriante de um continente onde um certo isolamento (como as ilhas distantes) devolve o homem às suas pulsões mais puras e idílicas, cair-lhe na frente, diria, na frente de uma alma curiosa, ávida e meditabunda de adolescente, uma revelação em cinemascope, trazendo notícias de um mundo que existe — o esplendor do universo feminino—, que materializa uma imagem do desejo que sente, é um momento marcante para toda a vida futura.

O cinema trouxe-lhe uma revelação e o Manuel fez dele um amigo de viagem. O encontro com a sua alma gémea fez dele (o cinema) um sacerdote que testemunhou a autenticidade e pureza das intenções que 30 anos de casamento estável não deixam negar. Por isso, o cinema e a vida para si não têm limites definidos em que um comece e outro acabe com clareza.
No post que escrevi sobre cinema e que, então, me pareceu irritá-lo, por detrás da sua boa educação, que é da sua natureza, e do seu estilo literário, que aprecio com sinceridade, escrevi precisamente sobre estes dois aspectos do cinema (registo e substituição): ou seja, substituir a realidade, através do registo das imagens que fascinam e criam ilusão, por uma ficção desejada e que gera o próprio universo em que vivemos estampado num imaginário em que nos revemos.
A presença do cinema e de uma cultura de imagem que atravessou tão poderosamente o século XX, e em novos termos se reformula no século XXI, não deixou nem deixa ao homem contemporâneo muito espaço para que não faça de si mesmo uma espécie de actor no mundo real que vive no mundo da ficção. Muito poucos são indiferentes ao efeito de espelho que o cinema incrustou no nosso imaginário. Em muitos momentos da vida nos sentimos como se estivéssemos num filme, temos necessidade de contar o que nos acontece como se estivéssemos a contar um filme, vemo-nos em situações que nos parecem cinematográficas. E, porque não dizê-lo, muitos sentem uma alegria irrecusável nessa sensação. É como se pudessem ser os heróis que não são senão para si próprios. O poder do registo dá uma sensação de imortalidade e quase ninguém quer ficar de fora.
Porém, talvez valesse a pena pensarmos sobre o lado perverso e manipulador que esta aparente inocência trás consigo. Viver através de uma imagem ou de um ambiente ficcional é uma evasão que penso ser o que a Agustina Bessa-Luís escreveu no texto que então citei. É recusar a individualidade para viver por interposta pessoa.
Viver pela imaginação é uma constante do homem já que não há realidades objectivas e desocultadas. Mas viver pela imaginação é viver concebendo e congeminando um futuro que vamos construindo e não nos aparece feito nem definitivo. O perigo das imagens é que elas nos prendem, e quem ficar refém dessas imagens que nos prendem, por não estar preparado para as ver ou se não tiver uma certa consciência da liberdade individual que nos caracteriza e distingue uns dos outros, dissolve-se num igualitarismo de massas e numa espécie de homem abstracto ao qual, ainda há dias, o Manuel referiu como capaz das maiores barbaridades. Como bem atestam os efeitos dos anúncios de televisão, o cinema não consegue expurgar-se de uma certa subliminaridade que comunica ou activa regiões recônditas e ignoradas do nosso ser. É esse o seu perigo: o não-explícito que gera prosélitos.
No seu caso, como o seu post bem pode atestar, não houve esse risco, ou se houve ele foi superado pelo que mais importa. Não foi o cinema que lhe deu 30 anos de casamento estável, foi sim, o facto de o Manuel e a rapariga do vestido de seda encarnado se amarem e terem nas cumplicidades do crescimento do amor não a origem mas as portagens desse amor. Por isso, também, terão saído do ecran e vivido na realidade.
Um abraço
João Luís

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sábado, 29 de Março de 2008

O Marxismo ainda não morreu

Em que é que os defensores da guerra do Iraque basearam as suas posições, desde há cinco anos? Em factos? – Não, basearam-nas em ideologias, teorias, analogias, comparações insuficientemente fundadas de histórias passadas, muita retórica e muita verborreia. Em que é aqueles que criticam agora essa defesa se baseiam? – É simples: em factos. Baseiam essa crítica na observação do que entretanto se passou e os factos são tão gritantes que nem vale a pena perder tempo em enumerá-los.

Pode dizer-se que este confronto de posições é injusto, uma vez que uns falaram antes dos factos e outros depois. Que assim seja, mas a veracidade dos argumentos nada tem a ver com justiças. Que não tivessem falado.

Para não fazermos o mesmo que os outros, temos o dever de reconhecer que o assunto não está totalmente encerrado, todavia. Quem defendeu a guerra pode ainda argumentar que a situação contrafactual seria pior, ou seja, que no caso de a guerra não ter sido feita, o Iraque e o mundo estariam pior. Mas é preciso alguma lata para enveredar por esse caminho e hoje a discussão já não se centra aí.

Aqueles que defenderam a guerra neste canto insignificante do mundo não incorreram em nenhum delito, pois apenas emitiram opiniões que não tiveram influência no decurso dos acontecimentos, dada a insignificância. Mas deviam ter agora um momento de reflexão e talvez fazer o que muitas vezes pedem que outros façam quando erram: demitir-se das funções a partir das quais cometeram os actos em causa.

Responsabilidades terão aqueles que defenderam a guerra mas cujas posições tiveram efeitos. Mas desses só a História poderá tratar.

Dito isto, é preciso acrescentar que é relevante colocar em cima da mesa a hipótese de que George W. Bush não perdeu de facto a guerra. Para isso é todavia necessário sair do quadro em que esta questão foi debatida pelos publicitas belicosos.

Bush perdeu a guerra do Iraque quando se confrontam os resultados com as intenções declaradas, à cabeça das quais se contava a democratização do país (o cúmulo do absurdo surgiu quando se comparou o Iraque com a Alemanha de 1945). Todavia, a verdade é que Bush ganhou a aposta em pelo menos 4 frentes importantes. A primeira é que mostrou ao mundo como o governo dos EUA consegue o apoio do Senado e do povo para entrar em guerra. Depois, mostrou como consegue ir para a guerra fora do quadro da ONU e com aliados de peso, incluindo o Reino Unido, a Austrália e a Polónia. Uma terceira vitória prende-se com a demonstração da facilidade com que os EUA conseguem fazer a guerra sem que isso afecte de forma determinante a economia nacional. Finalmente, está a conseguir com que a produção de petróleo no Iraque seja privatizada, saindo assim da alçada do controlo de um governo longínquo e da OPEP.

Tudo o que se passou, passou e o que as pessoas já sofreram, no Iraque e em outros países, não pode ser mudado. Será que este triste episódio vai servir ao menos para matar mais um bocadinho as formas marxistas de pensamento, que nos dizem que o mundo é para mudar pelos iluminados? Será difícil, dada a resistência da ideologia mais perniciosa do século XX.

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sexta-feira, 28 de Março de 2008

Fazer coisas belas a mulheres belas

Não dei um passo na vida em que não tropeçasse num filme de Jean-Luc Godard. Só o vi uma vez, no Forum Picoas. Genial e cabotino, Godard a fazer, como se esperava, de Godard. Ninguém se queixou. Nem eu me queixo dos filmes dele, cujo confessado programa é o de rimar homens com mulheres, o cinema com a vida. E disso, juro-vos que gosto.
Para Godard os filmes têm princípio, meio e fim, não necessariamente por esta ordem. De trás para a frente, esquerda para a direita e vice-versa, foi como lhe vi a obra. Pierrot le fou primeiro, em Luanda, ainda adolescente. No cinema Miramar, que já por si – esplanada aberta sobre a baía – era o triunfo natural do cinemascope. Nunca tinha visto nada tão amplo e radioso, “a natureza filmada com panorâmicas, a morte em plano fixo”. As imagens convidavam a fugir de casa, a atravessar rios e viver à beira da água. Pierrot ensinava a viver e viver era caminhar sempre ao longo da praia. De preferência, ao lado de uma mulher de beleza hipnótica e violenta que dissesse: “Qu’est-ce que j’ peux faire?... j’sais pas quoi faire”.
Reencontrei Godard no Lobito, estava ele nos “anos Mao” e eu em êxtase revolucionário e independentista. Sabe Deus porquê, exibia-se no Flamingo (esplanada também, mas de costas voltadas para o mar) o Weekend. Perdidos no cosmos, Unita e Mpla preparavam dias e noites de facas longas, em que se iriam trucidar fraternalmente, e Godard, no mais longo travelling da história do cinema, filmava carros destroçados, feridos ensanguentados, corpos a arder. À minha volta havia um mundo em desagregação. No filme, Godard obrigava-me a ver, de cabeça levantada, terroristas revolucionários que praticavam o canibalismo. Onde é que começava o cinema, onde é que acabava a vida? Foi a primeira vez que escrevi sobre um filme.

Devo a Godard trinta anos de casamento estável. Já em Lisboa, lembro-me de rever Pierrot com uma rapariga de seda vermelha. Levei-a a ver A Bout de Souffle e Une Femme est Une Femme. A câmara filmava fascinada a beleza formidável e milagrosa de Jean Seberg e de Anna Karina. Vi que o cinema é fazer coisas belas a mulheres belas; percebi que a vida só podia ser igual. E eu e a minha rapariga de seda vermelha ardemos na noite como o último par romântico de Pierrot. Juntos vimos, fechados numa sala da Gulbenkian, todos os episódios de Six Fois Deux. Suportámos, estóicos, offs intermináveis sobre a luta de classes enquanto a imagem apenas mostrava uma pescada morta sobre um prato. Com essa ciência, nada nos podia já separar. Li então, e por atacado, tudo o que Godard escrevera nos Cahiers. Jamais o cinema voltará a ser escrito assim. Como jamais a história do cinema será filmada como o foi, de A Bout de Souffle (extraordinária homenagem ao cinema americano) às Histoires du Cinéma. E talvez ninguém volte a filmar as mulheres como esse míope e misógino filmou a nuca rapada de Seberg, os lábios de Karina, os olhos de Wiazemski com cinzentos de Velasquez, as coxas, o belo cu de Bardot.
Mais tarde, Godard subiu ao céu, e entre céu e terra filmou - Puissance de la Parole - Deus e a Virgem Maria. Foi a última vez que me bati por ele. À porta da Cinemateca, Je Vous Salue Marie, ajudei como pude, ombro a ombro com a PSP, para que os meninos de Abecassis não impedissem a sessão.

Temo, ingrato e preconceituoso, embirrrar com o homem. Mas só os filmes dele se fundiram com a minha vida. Só com eles sonhei, amei e lutei como se fossem o maravilhoso e último canto da vida. Cinéma, mon beau souci.

Publicado hoje no "Público", só por causa da amizade cúmplice do Mário Augusto.

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O grau zero - III

«A Câmara de Lisboa aprovou a recondução da ex-vereadora do PSD Marina Ferreira à frente da empresa municipal de estacionamento EMEL, duas semanas depois de o seu nome ter sido chumbado. (...) A votação foi repetida depois de dois sociais-democratas que haviam sido colegas de vereação de Marina Ferreira terem ajudado a vetar a sua recondução. Estavam a substituir os vereadores que nesse dia tinham faltado à reunião de câmara, e que agora viabilizaram o seu nome.»
Público, 28 de Março de 2008, p. 29

Não comento sequer. Julgo que não será preciso.

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Mais terapia à borla



Já vos falei aqui das vantagens terapêuticas do weirdnews. Junto-vos (copiando indecentemente a ideia do magnífico Guia Terapêutico de Cinema do «nosso» Pedro Marta Santos) mais um compósito com resultados garantidos. Voltei a tomá-lo ontem à noite, chama-se Korkalen (no original de 1921), pode comprar-se aqui, e a patente está registada em nome de um tal Sjöström (autor maior da farmacologia sueca muda) que adaptou um principio activo de Selma Lagerlöf . Garanto-vos que nunca mais deixarão de acreditar na capacidade de redenção dos hominídeos.
Eu deixei-me embalar de tal forma pelos efeitos do fármaco que acordei cheio de esperança no Dr. Menezes e no Sr. Ribau.

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quinta-feira, 27 de Março de 2008

Chapéus há muitos...

Edificante a cena em que Cavaco Silva na Ilha de Moçambique recebe como presente um cofió e pergunta com a sua simplicidade: para que serve? É um chapéu?
E a sua Maria responde com ternura:é para pôr na cabeça.
Com um Presidente tão descontraído não temos que nos preocupar. Estamos bem entregues concerteza.

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O campeonato Europa-América

Ontem Jean-Claude Trichet, presidente do BCE, fez um discurso optimista sobre o estado da economia europeia. Deve ser verdade, vinda essa interpretação como vem de um homem pouco dado a optimismos, até por dever do cargo que ocupa. Há problemas, claro, decorrentes sobretudo da valorização do Euro e dos riscos de inflação, mas parece que as coisas não estão muito mal. Nada do que se passa garantidamente com a economia norte-americana. Nesta senda, as noticias sobre a economia portuguesa também não são das piores, embora aqui os optimismos tenham de ser mais comedidos.

Ora isto leva a uma pergunta e a um comentário:

1) Afinal, onde está a esclerose da Europa e a absoluta necessidade que esta tinha de mudar para o “modelo” (as aspas é porque modelos destes não existem) americano? Quem sempre fala disso está com a viola um pouco no saco – mas terá seguramente no futuro outras oportunidade de a tocar porque a verdade é que estes campeonatos são de altos e baixos, ao longo dos anos.

2) Se Portugal vier a confirmar que consegue crescer nos próximos anos, será a primeira vez, desde os gloriosos anos 1960, que o fará com uma moeda forte e com algum equilíbrio nas contas públicas.

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A aluna, a professora e o telemóvel

Venho ainda falar do triste episódio que, há poucos dias, numa escola secundária do Porto, aparentemente opôs uma professora e uma aluna na disputa de um telemóvel. Digo aparentemente, porque a realidade pode bem ser outra. Na verdade, talvez não fosse mau olharmos para tudo aquilo como a disputa de uma professora e de um telemóvel pela atenção de uma aluna.
À primeira vista, de facto, as imagens divulgadas no YouTube mostram a professora e a aluna agarradas a um telemóvel, que cada uma parece desesperadamente querer só para si. O filme, porém, não conta a história toda. Porque a história começa, como todos os dias em todas as escolas acontece, com uma professora que, ensinando uma qualquer disciplina numa qualquer sala de aula, constata que uma aluna não a ouve, absorta que está no mundo do seu telemóvel. Ora, é para reganhar a atenção desta aluna que a professora lhe tira o telemóvel, dando origem ao conflito de que as imagens depois dão conta.
Isto é importante, porque assim posta a questão, não pode já tratar-se como se fosse um excesso inusitado de uma adolescente problemática. Ao contrário – e por mais que dizê-lo seja politicamente incorrecto – é bom reconhecer que a aluna também tem razão (sublinho: também). A verdade é que a questão que se põem diariamente os nossos alunos é esta: A quem ouvir? A quem prestar atenção? E o facto do telemóvel ser, por um lado, omnipresente, e, por outro, instintivamente mais atractivo do que a professora, revela bem o imenso investimento que nele todos despositamos e ao qual os alunos, obviamente, não ficam alheios.
Para além do divertimento intrínseco do telemóvel – a que a maioria dos adultos parece também não resistir e com o qual a professora não pode, de facto, competir –, é bom reparar como os meios de comunicação insistentemente impõem o seu uso: «Fale! Fale a 10 cêntimos por minuto! Fale a 5 cêntimos por minuto! Fale a 3 cêntimos por minuto! Fale de graça! Mas fale! Fale sempre! Fale agora! E envie mensagens todo o dia! Envie mensagens toda a noite! Esteja ligado a todo o mundo. Exista!»
Ao limite a mensagem é esta: Existimos através do telemóvel e sem ele, ao contrário, não existimos. Trata-se, além disso, de uma existência não só divertida, mas excitada e sempre nova. Ali controlamos (esta é uma outra ilusão, a do “contacto” com o mundo e do subsequente “controle” sobre o mundo) toda a informação. Tudo por ali passa. Tudo ali se passa: A vida privada (nossa e dos outros), a vida pública, a literatura e o desporto. Ali temos música; muita música; toda a música. Ali temos filmes, cinema, televisão. Ali falamos, discutimos e amamos. Ali vivemos e morremos. Todos os dias, 24 horas por dia.
Esta mensagem – a que os adultos não são de todo imunes, mas que às crianças, obviamente, mais afecta – é claramente reforçada pela maioria dos pais, que cada vez mais precocemente dão aos seus filhos telemóveis, nos quais creem encontrar uma ajuda para a sua tarefa de ser pais. Quem não ouviu já, ao vivo ou por interposta pessoa, a história de um pai, ou de uma mãe, dizendo ao professor do seu filho, ou filha, que durante a aula quer que este tenha o telefone ligado para assim poder saber sempre onde ele está? E quantos pais não se entregam a uma estranha sensação de segurança por saberem que os seus filhos têm um telemóvel quando, à noite, vão para sabe-se lá?
Ora, contrariamente ao que às vezes se diz, as crianças, de facto, aprendem. Por isso é que, desde sempre, vão à “escola”. O que não se pode é pretender que esta ensine com palavras o contrário do que com actos se faz cá fora. Na verdade, quantos pais não atendem os telemóveis interrompendo uma conversa com os seus filhos? Quantos adultos não calam os seus amigos para atenderem uma chamada? Quantos de nós não falamos com alguém enquanto mandamos a outrém uma mensagem? E quantos professores não atenderam já telemóveis nas aulas, perante a plateia atenta dos seus alunos? E quantos políticos não atendem os telemóveis durante os legítimos discursos dos seus pares?
É por isto que vos digo que a aluna também tem razão. A professora? Obviamente, tem toda. Mas a aluna também tem razão. Ela fez o que viu fazer. Fez aquilo que aprendeu. E quem ensinou fomos nós. Somos nós, portanto, que estamos em causa, no tribunal para onde vai esta criança (não deveria, aliás, ser sempre assim?): Quem queremos ser e que mundo queremos construir? Como vamos distinguir nas coisas diferentes graus de importância? Como vamos estabelecer relações sociais de confiança e de respeito? São estas as questões que suportam esta disputa de uma professora e de um telemóvel pela atenção da sua aluna.
Convenhamos, no entanto, que é uma luta desigual. Basta para isso lembrar que se todos falamos disto é porque o acontecimento foi filmado por um telemóvel. E se toda a sociedade está de acordo, ao que parece, quanto aos indispensáveis benefícios do uso permanente dos telemóveis, é a escola que, mais tarde ou mais cedo, vai ter que mudar, talvez no sentido da famosa máquina de ensinar, proposta, já a meio do século XX, pelo psicólogo norte-americano Burrhus Frederic Skinner. Os filhos dos nossos filhos, quem sabe, talvez já venham a aprender por mensagens de sms.

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quarta-feira, 26 de Março de 2008

O grau zero II

No site da internet do Correio da Manhã de hoje, dia 26 de Março, mesmo no fundo da página principal, em cima do anúncio “mulheres procuram homens”, aparece uma caixa com o título “você decide”, hoje dedicada ao tema “será que o divórcio de Menezes vai mesmo avançar?”, onde nos pedem para “votar” num dos dois pequenos círculos que aí vemos com a inscrição “sim” e “não” (ver aqui).
Pela confusão que um órgão de comunicação social assim estabelece em torno do que verdadeiramente possa ser a participação democrática, aliada à intromissão grosseira e despropositada que o mesmo faz naquilo que é obviamente da esfera da vida privada, quero aqui claramente classificar este acto como imoral.

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II. Bessarione, Concetta Bianca

O cardeal Bessarion, personagem do século XV é o exemplo mais simbólico deste movimento. Seria exagerado dizer que foi ele quem trouxe a cultura helénica para a Europa. Como vimos esta foi sempre sendo trazida e ou mantida ao longo dos tempos. Nem sequer a moda dos estudos gregos foi criada por ele. Já exista erudição helénica na Europa, e sobretudo na Itália onde ele se implantou.

Mas Bessarion é um caso a vários títulos significativo. E significativo tanto mais quanto é esquecido e nunca citado.

Sacerdote bizantino de Niceia, sai do império pouco antes da queda de Constantinopla. Se muitos dos seus correligionários saíram para o espaço ortodoxo, tentando fazer de Kiev e mais tarde de Moscovo novos centros de cultura bizantina, se outros se resignaram a ficar, Bessarion aposta na união das igrejas ocidental e oriental.

Percebendo que a o cristianismo divido era a sua principal fraqueza, percebendo que o pólo de desenvolvimento da civilização era na Europa ocidental que se encontrava e não em zona ortodoxa, toma uma opção arrojada, a de se unir ao catolicismo. Escusado será dizer que este passo não lhe valeu só amigos. Escusado será dizer que desde sempre se colocou o problema da sinceridade da sua opção.

Irreleva. Para além do passo religioso, civilizacional e político, fica Bessarion sobretudo como o símbolo, embora não o único factor, da recepção da cultura grega pela Europa ocidental. A sua chegada e dos tesouros que com ele trouxe, tanto da patrística grega, como da herança grega clássica, o movimento que incentivou de estudos helénicos, são a principal marca que deixou à Europa.

Por isso, quando o homem público nos fala da importância dos árabes para a recepção da cultura grega, e sobretudo, esta sim completamente falsa, da relevância turca para este movimento, apenas podemos acreditar numa coisa: na sua ignorância. De cada vez que nos sentirmos gratos aos gregos, devemos pensar um pouco em Bessarion. Esse sim foi enzima que fez expandir pela Europa o milagre grego.



http://www.internetbookshop.it/libri/Bianca+Concetta/libri.html


Alexandre Brandão da Veiga

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Rumo à fichagem ou a saga dos "intolerable acts"

Dias depois da divulgação da notícia de que o fisco considerava a celebração festiva de um casamento uma "oportunidade tributária", estou mais e mais preocupado.
Não apenas pela prática instaurada, que abaixo qualificarei, mas pela indiferemça que ela suscita.
A perseguição sistemática dos registos de casamento e a organização de um questionário sobre os festejos de casamento para efeitos de controlo fiscal não é apenas ridícula, é intolerável. Uma festa de casamento, qualquer que seja o número de convidados ou a indumentária, não consubstancia um facto tributário. Uma coisa é controlar, aleatoriamente ou por sector, as empresas de "catering", os profissionais de fotografia, as casas de moda, as "gift shops", as garrafeiras e adegas. Uma coisa é, na multitude dos contribuintes possíveis, fiscalizar, por rotina ou por suspeita, as contas de um ou vários "casais por acaso recém-casados". Outra, totalmente diferente, é eleger o casamento - a dimensão festiva, eminentemente pessoal - numa "espécie" de facto tributário autónomo e próprio, aglutinador de uma série de "operações económicas" (para usar a expressão cúmplice de Francisco Louçã). Trata-se de uma inadmissível intromissão na mais privada esfera privada. Cada um casa se quiser, quando quiser e como quiser. Com festa ou sem festa, vestido ou despido, com água, vinho ou refresco. E o Estado, que nada tem a ver com as uniões de facto, com os nascimentos, baptizados ou novas formas de família, nem com os seus festejos - por maiores ou glamorosos que sejam -, também não há-de ter nada que ver com os matrimónios (clássicos ou vanguardistas).
O que tudo isto revela - e, por isso, se mostra incomensuravelmente grave - é uma enorme apetência pelo controlo social, pelos mecanismos de controlo social. O Governo - este governo em particular - replica e multiplica os exemplos de vontade de controlo da vida cidadã.
A rolo compressor fiscal continua em marcha. Mais preocupado com os detalhes da vida quotidiana do que com a larga face oculta da fuga. Os detalhes da vida quotidiana não dão apenas dinheiro, dão informação. Rumo à "fichagem".

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terça-feira, 25 de Março de 2008

Catilina Contra Revolucionários

Mulher da tribo Mursi, Etiópia, 2000, Peter Grasser
"Tanto amor à Humanidade abstracta, gerou muito ódio e rancor contra o humano concreto."

O mérito da frase é de um blogger para-angolano (que se auto-define como "Pouco Mais do Que Ninguém").

Andando à procura de referências ao "Holocausto em Angola", descobri-o quase por acaso aqui e ainda por cima a falar do meu amigo João. Subscrevo o aforismo e aconselho o blog.

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Sex Toys

Depois de ler o que li aqui, levei o joelho ao chão e atrevi-me a esta parnasiana declaração de amor no novo site PnetHomem (publicidade vergonhosa) para que estão todos convidados.
O Meu Corpo Reclama-te
Eu já merecia. Nunca tive nem uma úlcera, mas vou agora ter os meus 15 minutos de glória. Julgo ter descoberto a solução para a crise do ensino em Portugal. A solução surgiu-me, de braços abertos, vinda de França, de onde, e com as cegonhas, vêm todas as maravilhas.
«O meu corpo reclama-te» confessou, por carta, uma professora ao presidente Sarkozy. Vivendo em Grande-Synthe, uma comuna de Dunquerque, esta "sô tôra" há mais de um ano que escreve cartas de um acrisolado amor ao ex-marido de Cécilia. E nem o recente casamento do garboso Nicholas com a doce Bruni lhe arrefeceu a paixão. As missivas entravam pelo Elysée como bandos de andorinhas esvoaçantes. Primeiro tímidas, depois com bicadas mais insistentes e calorosas. A professora confessava a Nicholas que a temperatura da sua electiva afinidade se estava a tornar «extremamente explosiva». A terna docente avisou mesmo Sarkozy que cada centímetro da sua pele era já pura «nitroglicerina» e que, a encontrá-lo, o seu amplexo o fundiria num mar de «anthrax».
Os irresistíveis 40 anos desta senhora de Grande-Synthe impeliram-na a um passo mais e, de repente, começam a chegar ao palácio presidencial graciosos embrulhos contendo a mais rendada lingerie – imagino fios dentais, wonderbras e, se me desculparem um pessoalíssimo fetiche, ligas de púrpura – a que se sucedeu a exaltada volumetria de alguns sex toys.
Será que este exemplo gaulês não sugere uma viragem estratégica aos cem mil professores portugueses que vieram fazer jogging (estou a brincar, juro que estou a brincar!) a Lisboa? E não me digam que a nossa ministra não é inspiradora. Toda a mulher tem uma graça milenar que reclama pelo menos um soneto parnasiano.
«O meu corpo reclama-te» disse ela a Sarkozy. Poderá o nobre corpo docente nacional dizer menos do que isto? Estou certo de que o dirá até com uma poética que os oximoros terroristas da pós-balzaquiana de Dunquerque não atingem. Antevejo o Ministério da Educação incendiado por fogos que ardem sem se ver. E esperam-se arrebatamentos tão líricos como os desta outra volta camoniana: «Menina formosa e crua / Bem sei eu / Quem deixara de ser seu / Se vós quisereis ser sua.»
Agora sim, caros professores, mostrem que a vossa paixão é a escrita: estão abertas as avaliações.

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Sobre a Escola...

A professora Eugénia vestia-se sempre de castanho. Esta particularidade e o seu raro sorriso são duas das mais fortes recordações da escola primária. O edifício já não existe, foi demolido para dar lugar a uns acessos para a ponte Vasco da Gama, mas aquela escola, que sempre conheci como “tipo Salazar” – 4 salas e dois pisos ligados por uma imponente escada de madeira – guarda ainda hoje a responsabilidade de me ter ensinado a ler, a escrever, a contar e, acima de tudo, a ter um forte respeito pela Escola.

A professora Eugénia, que se vestia sempre de Castanho, tinha um ritual diário que nos fazia tremer. Todos os dias de manhã a pergunta fatídica: “quem não fez os trabalhos para casa?”, era recebida com um misto de ansiedade, medo e brio. Do lado direito da sua secretária uma tímida fila começava a formar-se. Nem sempre eram os mesmos, mas todos acabavam por a integrar. E os olhos já semicerrados de lágrimas viam a gaveta mesmo por cima do seu colo abrir de onde era retirado o pedaço de madeira que iria cruzar-se com a palma da mão num estridente. TRÁS!

Não sou apologista do uso da força ou da violência na educação. Existem inúmeras maneiras de conseguir ter mão de ferro com mão de veludo. Mas também existem limites. E todos os que são pais, se nunca o fizeram, já muitas vezes pensaram num açoite para resolver muitos problemas (não faço parte daquela nova maioria que se revê nos modernos livros de educação infantil).

Mas porque é que existe indisciplina nas escolas?

1- A maior parte dos problemas de indisciplina não tem origem na escola mas na família. O respeito pelos professores, ou melhor, a falta de respeito, começa em casa. Perante a incapacidade dos seus filhos, os pais atiram a culpa sobre os professores, o ensino, e claro o Estado. A culpa nunca é das crianças e muito menos deles. Basta ouvir as declarações de Albino Almeida (dirigi a CONFAP – Confederação Nacional das Associações de Pais), ao afirmar que o caso mediático da jovem da escola do Porto é um caso isolado para perceber que este senhor vive num outro mundo que não o nosso. Um problema claro de falta de autoridade do Estado.


2- Os professores hoje não têm qualquer mecanismo para conseguir punir os alunos. Não há faltas a vermelho, não há alunos expulsos, não se chumba, não há processos disciplinares. É possível assim conseguir autoridade? Claro que é, mas só para alguns muito poucos. E esses, os melhores, estão em escolas privadas, onde não é por acaso que existem tão poucos problemas de disciplina?

3- Porque muitos dos professores não se importam. Aquela professora do Porto interrompeu a aluna e tomou uma atitude. Mas quantos olham para o lado e nada fazem? Muitos, muitos mesmos. E muitos, quase 100 mil dizem, vieram até Lisboa protestar contra as avaliações, mas sobre a indisciplina na escola nada fazem.

Por falar em avaliações, repararam que se deixou de falar da ministra da Educação? Pelo menos alguém suspirou de alívio nesta confusão toda.

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I. Bessarione, Concetta Bianca

Dois lugares comuns são perenes e endémicos no homem público:
a) A cultura grega veio para a Europa por via árabe
b) A Turquia como herdeira de Bizâncio (?) foi veículo de cultura grega.

O homem público odeia a complexidade e consequentemente a verdade, e por isso entra em apuros sempre que quer dizer mais que duas frases de seguida. A recepção da cultura helénica (as recepções) é múltipla e por múltiplas formas se manifestou. A França recebeu sangue bizantino com o casamento no séc. XI de Henrique I com Ana de Kiev, descendente dos Porfirogénitos. O seu filho Filipe I deu sucesso ao nome de Filipe, que ainda se encontra nos Filipes reis de Portugal (por vias complicadas demais para expor aqui). Entre os alemães o imperador Otão II no séc. X casa-se com Theophanu Sklerina, também de sangue Porfirogénito.

O Leste e Centro europeus estão repletos de sangue bizantino e de trocas intelectuais com os bizantinos, e com a múltipla cultura helénica que deles foi recebida.

De igual forma existe uma continuidade de contacto com a cultura helénica, sobretudo na península itálica. O Sul de Itália, Aquileia, Veneza, a Calábria mantiveram sempre contactos constantes com o Oriente grego. Isto para não esquecer Roma, onde a cultura grega esteve sempre presente, de forma mais ou menos activa. Basta ver que as ordens de tipo basilida permaneceram activas até à época Moderna pelo menos em Itália.

Primeira verificação: existe uma continuidade de ligação e de recepções da cultura grega, autónoma e sem intermediação, por parte da Europa.

Mas a verdade é que muita da recepção por via árabe não é, ao contrário do que se julga, muçulmana. Vem de origem árabe, ou melhor, arabizada, mas frequentemente cristã. É o caso da fundamental “teologia de Aristóteles” (obra em verdade de Plotino), que foi essencial para a reconstrução da teologia medieval.

Sem demérito para a recepção por via árabe, que foi relevante na filosofia e na ciência, esta tem de ser enquadrada neste contexto. É incompleta, porque não abrangeu a arte e a literatura gregas. É relativa, porque não foi nem a única, e muito menos a principal, fonte de ligação ao mundo grego.

Já a segunda afirmação que pulula na cabecita do homem público é rotundamente falsa. O império otomano não herdou a cultura grega superior, apenas a expulsou. E se foi veículo, foi-o no mesmo sentido em que Hitler contribuiu para a cultura americana ao expulsar judeus, democratas e aristocratas. A expulsão ou o exílio voluntário doa maiores expoentes da cultura grega em Bizâncio foi enriquecer as culturas ortodoxas e a cultura ocidental.

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As estratégias da liberdade




Não posso evidentemente deixar de ficar satisfeita por em tão curto espaço de tempo verificar que umas escassas considerações, sem qualquer pretensão filosófica (não fique o Gonçalo Moita preocupado), tenham gerado tamanha violência. Num espaço aonde em meu entender seria saudável e mesmo essencial posições e convicções intelectuais “claramente distantes”, acaba de se gerar uma onda de indignação porque existe alguém que entende que o princípio da liberdade é a fé e não a crença.
Lamento contrariar o vosso entendimento mas ao contrário do que expressa o João Luis Ferreira é exactamente a capacidade de termos fé em algo que não se concretiza em histórias de um “Jesus Cristo” que consubstancia a liberdade, a diversidade, o “desconsenso”. Esse é um compromisso com a nossa inteligência e com a nossa participação social e não, como sugere o João, uma fuga ao compromisso.
Lamento, mas a realidade que está por trás desta liberdade que proponho, é sem dúvida aquela que obriga os antípodas a sentarem-se à mesma mesa.
Quando o universo saiu do Nada (que os gregos já chamavam de “Kaos”), sempre ficou a dúvida do porquê de ter sido criada a possibilidade de ser possível evoluir dos macacos até ao que somos. Só que o descer das árvores implicou que passássemos a ver rente ao chão e jamais tivemos horizontes das copas que permitem ver o Sol antes de tal ser possível às formigas. E, por isso, a inteligência que fomos desenvolvendo deixou de vislumbrar o além senão quando podemos subir ao cimo dos montes, o que é cada vez mais difícil quando se vive na cidade envolvido pela “civilização”. É preciso um certo retorno às origens para nos libertarmos, voltando um pouco ao nosso primitivismo. Aí sim, podemos voltar aos medos que nos fazem acreditar em Deus, ou a ter necessidade disso.
Eu quero continuar a poder subir ao cimo dos montes e a ter a liberdade de ter um Deus que não me julgue pelas minhas crenças mas sim pela minha fé.

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Até já.

O Gonçalo Magalhães Colaço decidiu interromper a sua colaboração com o Geração de 60. Sem ele ficamos mais pobres. Por isso mesmo e porque no Geração de 60 não há «lados de fora» ficamos à espera do seu regresso.
Até já.

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A cobardia

Muito apreciado na modernidade é esta aparentemente benéfica pluralidade de opiniões em convívio saudável. Quando vemos pessoas reunidas mas verificamos como estão intelectualmente distantes, interrogamo-nos sobre o que autenticamente as une.

No tempo das ideologias o proselitismo em torno deste ou daquele gerava acotovelamento e filas para engrossar hordas de apoiantes. Talvez sempre, na história, tenha havido razões para estar de algum dos lados de qualquer conflito declarado ou latente.
Também, sempre uma maioria silenciosa permaneceu em silêncio sem se manifestar. Quer dizer, sem se comprometer. O seu silêncio deu aos que se manifestaram uma legitimidade que a manifestação dessas maiorias silenciosas teria abafado ou relativizado.
Porém, a hipocrisia desta nossa pretensamente livre sociedade contemporânea fez medrar e desenvolver-se o espírito descomprometido das maiorias silenciosas levando a que as próprias manifestações sejam expressão de uma unanimidade (não há nada mais descomprometido do que ir num rebanho protegido pela sua própria multidão e sem qualquer risco) para a qual o espaço público parece estar definitivamente reservado.
Chegamos ao limite suportável dessa unanimidade social.

Expressão disto, é o post da Helena Forjaz, onde quase se indigna, por entender não ser compreensível (seria diferente dizer que não compreendia) como é que uma pessoa bem formada e informada (a avaliar pelos cargos que ocupa) sendo livre e não estando coagida, se decide pela conversão pública à igreja una, católica e apostólica. O que está implícito na forma de entendimento de Helena Forjaz é que, neste estado perfeito que é a democracia actual, plural e desassombrada, o que se deve fazer, por ser o que se deve entender, isto é, que a evolução das mentalidades deve reduzir a crença, ou qualquer manifestação religiosa, ao consenso de um pensamento único, socialmente reconhecido e que enquadre essa “realidade sociológica” que é a religião a uma expressão psíquica, por enquanto, tolerável pelos atavismos do passado ainda não devidamente higienizados que estão na origem e no desenvolvimento da nossa civilização, mas que o saber definitivo da definitiva democracia irá debelando e aniquilando com mais informação e mais comunicação dos valores do politicamente correcto, aceitável ou tolerável.

Noutro plano bem diferente, a Sofia Galvão, aproveitou o significado do dia e “postou” com a propósito sobre a Páscoa para nos lembrar que nesta quarentena que se iniciou na quarta-feira de cinzas e culminou no dia de Páscoa, é suposto celebrar a ressurreição de Cristo e não a ressurreição do ócio que leva milhares de pessoas, indiferentes ao significado do acontecimento, a esquecerem, a evadirem-se, a não enfrentarem o que se lhes apresenta. Desperdiça-se, assim, no nosso tempo, a reflexão mais decisiva sobre o destino do homem nos dias mais importantes do calendário cristão.

Na celebração a que assisti, na homília, o padre explicou que o cristianismo se apresenta através de sinais discretos ligados ao quotidiano mais simples e mais humilde e que ninguém esperasse provas da existência de Deus porque não é dessas evidências que é feita a revelação de Deus mas pelos sinais que os corações puros vêem. Como João, o discípulo amado, que viu, quando entrou no sepulcro os panos que cobriam o corpo de Jesus espalmados no chão e o lenço que lhe envolvia a cabeça enrolado de outra forma, e logo começou a crer. O que João viu e logo começou a crer foi na ressurreição de Cristo, a reconstrução em três dias do templo conforme o Mestre lhes tinha falado. A ressurreição de Cristo é a garantia de ressurreição de todos os homens. Nada mais importante nos podia ser anunciado. Entre as alegrias e os tormentos de que padece, o homem, procura sempre a salvação. Pode-lhe chamar paz interior, serenidade, consciência tranquila, mas tudo se resume a uma palavra: salvação. Porém, procurando isso, o homem, recusa todas as formas de iniciação nesse desígnio e, por isso, atormenta-se e padece de sofrimentos que alegrias breves não anestesiam.

O homem contemporâneo, filho da modernidade e da soberba do racionalismo iluminista, rejeita tudo o que lhe convém para acabar a queixar-se de tudo o que lhe acontece. A Sofia Galvão cita G. Vatimo, que recentemente deu uma entrevista ao jornal Público, na qual, mesmo não reconhecendo a verdade onde ela está, reconhece que o seu lugar por ser o seu lugar (o lugar da Verdade) em que ele Vatimo não acredita, é, só por si, uma expressão de plenitude e que a sua ausência é a expressão tenebrosa e apocalíptica do vazio.
Entre uma visão sociológica da religião (que implica a sua identificação com alienação) e a visão da Verdade como real e ideal, presente na essência das nossas vidas, que há de comum?

Por isto, perguntamo-nos: o que une pessoas que vêm dos antípodas para se sentarem à mesma mesa? Que comungam, afinal? Que preço pagaremos pelos compromissos que nos silenciam e anulam? Ou viver em Paz implica anularmo-nos para evitarmos conflitos e guerras? Restar-nos-á misturarmo-nos no meio dos rebanhos das inócuas e acéfalas maiorias silenciosas e ali ficarmos à espera que a morte nos venha buscar? Ou será que apenas, temos medo de lutar, medo da solidão, medo de viver?
Se assim for, teremos inventado um sinónimo para politicamente correcto: cobardia.

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segunda-feira, 24 de Março de 2008

Magdi Allam






Há muitos anos que conheço a personagem. Subdirector do Corriere della Sera, um conceituado jornal italiano, podia-se não concordar com ele, mas sempre o achei sério e corajoso. Muito mais corajosos que os que com linguagem mole defendem da boca para fora a liberdade pedindo calma. Como se a liberdade fosse uma figura mole já adquirida para todo o sempre sem carecer de defesa efectiva.

É esta a Europa da liberdade religiosa que os multiculturais pretendem. De um lado cristãos que, convertidos ao Islão vivem livremente e proclamam a sua conversão. Alegria, há liberdade. De o outro muçulmanos que convertidos ao cristianismo têm de viver ou clandestinos ou com guarda-costas. É bom saber que voltaremos a ter cristianismo das catacumbas. Já o tínhamos em países árabes e turcófonos. Passamos a tê-lo na Europa. Uma liberdade sob protecção policial, eis o conceito de liberdade que os vários “BB” (não cito nomes: como sobejamente disse, não imortalizo medíocres) dos anos noventa nos deixaram como herança.

Não é uma questão de gosto, mas de lucidez. Uma sociedade cai sob as suas próprias contradicções. E esta é uma das fissuras pelas quais é ferida a ideia de democracia.

http://notizie.alice.it/notizie/cronaca/2008/03_marzo/23/la_notizia_della_conversione_di_magdi_allam_fa_il_giro_del_mondo,14362721.html?mod=frame&provid=14

http://www.corriere.it/Primo_Piano/Cronache/2007/08_Agosto/20/allam-egiziano-convertito-cristianesimo.shtml

http://www.repubblica.it/2008/01/sezioni/esteri/benedettoxvi-20/battesimo-magdi-allam/battesimo-magdi-allam.html?ref=kwhpt2

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Tibete, religião e política

Uma simples nota para registar a atitude do Dalai Lama na crise do Tibete. Onde muitos gostariam de ver uma posição extremada, encontram "tão-só" uma afirmação radical (radicada). Onde muitos esperavam um grito de revolta, descobrem um enigmático estender de mão. Nem todos percebem, mas um líder religioso que é (ou se sente) governante, dá sempre primazia ao seu carisma espiritual. E não cede, como alguns excogitam tronitruantemente, ao cálculo político.
Em tempos não muito longínquos, também num território sobre ocupação, muitos criticaram a visita de João Paulo II à Indonésia e a Timor. E o seu suposto silêncio. E a ausência do beijo da terra na descida do avião. Mas essa visita supostamente silente revelou-se decisiva para o fim da ocupação, para a chamada de atenção para o drama ali vivido. Foi o rosto da cumplicidade humana com um povo em sofrimento. Há silêncios que falam.
Impressiona-me a profunda humanidade e fraternidade do Dalai Lama para com as mulheres e os homens chineses e a China (não o Governo). Todos compreenderiam um apelo ao boicote dos Jogos Olímpicos, uma especial tolerância para com uma violência espontânea de gente oprimida.
Mas dele ouve-se sempre uma abertura ao diálogo, ao espaço próprio de cada povo, mesmo entre ocupantes e ocupados.
Os homens de boa-vontade nunca recusam falar com os pecadores, sejam os mais miseráveis ou os mais poderosos. O reino deles não é deste mundo.

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De philosophia

Muito se tem aqui falado, nalguns dos últimos posts, sobre filosofia. Ora, sendo eu formado em filosofia (não confundir com informado em filosofia), senti-me finalmente na obrigação de dizer alguma coisa sobre o assunto, que resumirei em muito breves pontos.

1. Começo por esclarecer que não pretendo aqui dizer o que entendo por filosofia. Embora tenha já algum pensamento consistentemente elaborado sobre o tema – o qual será, aliás, este ano publicado pela Imprensa Nacional no âmbito de um escrito mais vasto dedicado a Francisco Suárez –, não consegui resumi-lo em menos de trinta páginas. Dizendo isto, quero que saibam duas coisas: a primeira, que o que brevemente se seguirá se inscreve em caminhos mais amplos; a segunda, e para quem tal possa interessar, que em filosofia sou suareziano.

2. Afirmar-me seguidor de Francisco Suárez, porém, não é afirmar que a sua filosofia é verdadeira e as outras são falsas. Em rigor, não há filosofias falsas. Afirmar-me suareziano é reconhecer que, dadas as minhas próprias circunstâncias, o pensamento de Francisco Suárez se constitui para mim como um acesso privilegiado ao ser. E este é o primeiro equívoco que gostaria de prevenir: a filosofia é primordialmente um acercamento do ser! A questão da verdade é posterior, tanto de um ponto de vista ontológico, como de um ponto de vista gnoseológico. Não cabendo aqui o desenvolvimento deste ponto, valha a citação de São Tomás, que, justamente no De veritate, diz que «a verdade se funda no ser.»

3. O segundo ponto que quero notar é que, apesar deste “acercamento do ser” ser de algum modo comum a todos os homens, tal não significa que todos os homens sejam filósofos. Dizendo de outro modo: a filosofia é natural ao homem, mas o homem não filosofa naturalmente. Ao contrário, a filosofia é uma ciência que implica uma aplicação metódica e continuada da mente sobre o seu objecto próprio, o qual, na expressão de Suárez nas Disputationes metaphysicae, é o "ente real", isto é, o ser tomado na sua máxima universalidade e contracção.

4. Esta absoluta universalidade do seu objecto, presente em todos os entes que são ou que podem ser, faz com que a filosofia não seja uma ciência como as outras. Na verdade, a máxima abstracção do seu objecto adequado implica que o sujeito que conhece não possa ser excluído do seu próprio conhecimento, pelo que a filosofia não pode ter o carácter objectivo próprio das restantes ciências. Daqui resulta o terceiro aspecto que quero notar: a filosofia não serve objectivamente para nada. Por isso devemos estar sempre atentos aos gritos daqueles que, como Marx, pretendem que tudo já foi dito, pelo que à filosofia cabe agora a tarefa de transformar o mundo. Não! A filosofia não é solução para os problemas do mundo, porquanto o ser, considerado na sua totalidade, não é objectivamente redutível à condição de coisa, pois que transporta sempre consigo a intenção daquele que na própria realidade se questiona.

5. Dizer que a filosofia não serve objectivamente para nada, porém, não equivale a dizer que ela é absolutamente inútil. Ao contrário, como diziam os escolásticos, ela é muito útil para o "perfeccionamento da mente" (nela considerados o intelecto e a vontade). E é por isso que a filosofia, para além de ciência, é também sabedoria, permitindo àquele que filosoficamente se questiona no seio da realidade descobrir o seu sentido e dar razão desse sentido. Daí que se lhe venha chamando, desde os gregos, “amor da sabedoria”, ainda que tal amor e tal sabedoria – insisto – não sirvam para nada no quotidiano mundo das coisas.

6. Dizer que a filosofia não pode nem deve servir para transformar o mundo, por último, não é o mesmo que dizer que ela não é importante também para o próprio mundo (contra aqueles qu a pretendem importante apenas de um ponto de vista pessoal). Ao contrário, julgo-a, neste sentido, importantíssima, enquanto aproximação à realidade sem a qual não é possível estabelecer qualquer relação verdadeira entre a inspiração divina própria dos sábios e a observação das coisas própria dos cientistas. Dito de um outro modo, a filosofia é o saber que, captando o ser no seu vir a ser, descobre o sentido que liga o espírito e a matéria, assim permitindo a relação entre os saberes religioso e científico, que com ela constituem as três formas autónomas da razão humana conhecer a realidade.

Para acabar, e ainda que o corrector ortográfico instalado no meu computador insista em trocar gnoseológico por ginecológico, espero sinceramente que estas breves linhas possam ajudar a esclarecer todos aqueles que, como eu, desejam filosofar, aos quais deixo agora todo o espaço para pensar.

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domingo, 23 de Março de 2008

The Dream Is Over - Os Beatles e a Filosofia

É impossível falar dos anos 60 sem logo associar como constituindo-se com a década dos Beatles, como impossível é falar dos Beatles sem logo pensar na década do Séc. XX em que tudo mudou, a década que tudo mudou.

M.Antonioni, Blow-up, 1966
M.Antonioni, Blow-Up, 1966
Tudo? Tudo mesmo?

Bem, se não dermos a esse tudo um sentido absoluto, quase poderemos dizer que sim, que, de um certo ponto de vista, i.e., do ponto de vista do entendimento do mundo e da consequente atitude perante esse e nesse mesmo mundo, de facto, mudou. Encurtando razões, afigura-se-nos, inclusive, não exagerarmos muito se afirmarmos terem esses efervescentes, loucos, quiméricos e furiosos anos 60, visto nascer, ou terem mesmo criado, uma nova Mundovisão, se assim podemos dizer, Mundovisão para a qual o contributo dos Beatles foi também, no mínimo, decisivo.

Todos estamos recordados, por certo _ as gerações mais antigas por testemunho directo, as mais recentes por conhecimento histórico mínimo _, da polémica gerada em torno da bombástica afirmação de John Lennon segundo a qual os Beatles eram mais populares do que Jesus. Estava-se em 1966, os Beatles encontravam-se prestes a iniciar aquela que viria a ser a sua última tournée nos Estados Unidos e, afinal, também a última da sua carreira. As palavras de Lennon, sem causar particular comoção em Inglaterra ou na Europa em geral, logo fizeram explodir os ânimos dos sulistas norte-americanos, exaltando-se a ponto de queimarem os seus discos e demais memorábilia, em verdadeiros Autos-de-Fé, sem faltar sequer as inevitáveis fogueiras públicas de purificação, com o Klu Klux Klan a expressar, por seu lado, a intenção de os atacar, sem misericórdia, caso mantivessem o plano de prosseguirem com os espectáculos em solo americano. As hostilidades não se ficaram no entanto pelo Sul e pelo Ku Klux Klan, disseminando-se um pouco por toda a parte e levando à necessidade de John Lennon ter de se explicar, em acto de contrição e desagravo, numa entrevista preparada para o efeito e transmitida pela televisão, em cadeia nacional, para esclarecer e defender os Beatles das acusações de comunistas, satanistas e estarem a realizar uma verdadeira lavagem ao cérebro à juventude.

John Lennon lá teve que se explicar:«Não sou contra Deus, contra Cristo, contra a Religião. Eu não disse que somos maiores ou melhores. Acredito em Deus mas não como uma coisa, não como um velho no céu. Acredito que aquilo que as pessoas chamam Deus é algo que está em todos nós.[...] Lamento ter feito aquela declaração. Jamais tive a intenção de ser anti-religioso. Pelo que li, ou observei, parece-me que o cristianismo está a perder preponderância, a diminuir de significado para as pessoas.»

As explicações foram bem aceites. As ameaças, mesmo de morte foram retiradas. A guarda manteve-se mas, feita nova avaliação dos riscos, entendeu-se poder dar-se início à digressão. Como esperado, mais um êxito retumbante. No entanto, a pressão a que estiveram sujeitos os Fab Four, foi demasiada e, o passo seguinte, foi o completo e definitivo abandono de quaisquer espectáculos ao vivo.

Mais tarde, John Lennon e Paul McCartney haviam de confessar estarem já cansados desses espectáculos em que a histeria se tornava tão ensurdecedora que chegavam a não se ouvir a si mesmos, sucedendo até, numa determinada ocasião, a guitarra de george harrison ter estado desligada mais de vinte minutos sem que alguém desse por isso.

M.Antonioni, Blow-Up, 1966

M.Antonioni, Blow-Up, 1966

Era ainda 1966 e, depois do regresso, da paragem dos espectáculos ao vivo, remetidos a estúdio, haviam de produzir aquela que é considerada vulgarmente a obra-prima, um marco decisivo, na história da música pop do século XX, o arquifamoso «Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band».

O episódio da polémica em torno das palavras de Lennon, de «serem mais populares que Jesus», dá já uma boa nota do ambiente da época e, mais do que isso, a resposta, um excelente exemplo de um dos pontos-chave da «filosofia» dos Beatles, ou seja, da ideia de um Deus interior, marcando desde logo as razões de um tão vincado e acentuado sentido da individualidade expressa em múltiplas canções e de múltiplos modos.

Um dos exemplos disso mesmo é «All You Need is Love» que se tornaria em espécie de hino de toda uma geração: «There’s nothing you can do that can’t be done/there’s nothing you that can’t be sung... Nowhere you can be, that isn’t where you’re meant to be». All you need is love, evidentemente, numa quase reactualização do dito de Santo Agostinho: «Ama e faz o que quiseres». Mas a facilidade de real individuação, de afirmação de verdadeira individualidade, é aparente, como não deixa de lembrar, uma vez mais John Lennon, em «Strawberry Field Forever»: «Living is easy with eyes closed / Misunderstaning all you see / It’s getting hard to be someone...».

Muito se especulou dever-se esta fase dos Beatles, especialmente o «Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band» e o «Magical Mystery Tour», à experiência psicadélica, iniciada com um encontro com Bob Dylan em que este lhes terá aberto a mente para a marijuana, passando mais tarde, após a leitura do livro, «A Experiência Psicadélica: Um Manual Baseado no Livro Tibetano dos Mortos», do não menos famoso Tomothy Leary, à LSD, tal como se entendia ser disso mesmo subtil confissão e testemunho, «Lucy in the Sky with Diamands».


M.Antonioni, Blow-Up, 1966

M.Antonioni, Blow-Up, 1966

Não se afigura que o acentuado sentido da individualidade se deva a tais experiências, tanto porque, como verdadeiros artistas, impossível seria assim não ser, como porque esse mesmo sentido se encontra já bem vincado desde início, como testemunha o seriíssimo «Nowhere Man», de «Rubber Soul», ou ainda o belíssimo, «Eleanor Rigby» («where all the lonely people come from»), do revolucionário Revolver, embora numa perspectiva de raciocínio bastardo, se assim se pode dizer, ou demonstração por absurdo.

Fosse como fosse, não nos podemos esquecer que estávamos nos anos 60, nos anos do existencialismo, nos anos da fúria do valor de «tudo experienciar acima de tudo». A experiência com as drogas ter-lhes-ão, com certeza, «libertado» a mente e acentuado também a busca de um aprofundamento espiritual, busca e procura vinda igualmente desde início mas agora ainda mais constante, mais urgente, para usar uma expressão muito da época, mesmo que seguindo os menos ortodoxos caminhos, se necessário, como o tom exótico, obcecante e hipnótico de «Within You Without You», de George Harrison, repleto de cítara e envolto em oriental deslumbre e encantamento, atesta, sublinhando bem: «People who gain the world but lose their soul / they don’t know; they don’t see», ou ainda, o mais tardio «Inner Light», também de Harrison. Por outras palavras, não obstante todas e as mais diversas experiências, os Beatles nunca perderam o sentido da realidade, se assim se pode dizer, mesmo quando tal poderia parecer suceder.

George Harrison, inclusive, sabia bem a que descaminhos uma errada procura de espiritualidade por via psicotrópica poderia conduzir. Como relatou mais tarde, numa das suas visitas a S. Francisco, passeando em Haight-Ashbury, não encontrou qualquer grupo de exploradores hippies de uma nova espiritualidade mas, tão só e simplesmente, bandos de jovens, sem casa, completamente viciados, puros viciados, sem qualquer outro pensamento que não o de um contínuo consumo sem qualquer sentido nem elevação.

John Lennon, podia escrever o magnífico e muito estudadamente absurdo «I Am the Walrus», meio surrealista, meio completamente louco, mas também de uma estranha lucidez, entre o puro místico e o puro luciferino, é certo, mas, ainda assim, de uma inegável lucidez. E para além disso, mesmo a experiência indiana com Maharishi Mahesh Yogi, terminando como terminou, ou seja, nada bem, como relatado em «Sexy Sadie», não seria uma experiência totalmente em vão.

Quem possui um verdadeiro sentido da individualidade e autenticidade, um sentido de busca de verdadeira espiritualidade e liberdade, não se deixa trair facilmente, e os Beatles tinham tudo isso. Uns mais acentuadamente que outros, em alguns desses aspectos, é certo, mas igualmente válido para todos no seu conjunto, tal como os dois álbuns seguintes aos devaneios mais psicadélicos de Sgt. Peppers e Magical Mystery Tour, o White Álbum e, sobretudo, o magnífico mas também sempre algo subvalorizado Abbey Road, vieram provar.

De qualquer modo, o terceiro elemento, ou aspecto, decisivo que gostaríamos de destacar, foi, como referido, o apurado sentido de liberdade que sempre manifestaram desde início e que permeia toda a sua discografia. Liberdade artística, antes de mais, com certeza, mas também liberdade num sentido mais político, tendendo, por vezes ou quase sempre até, para um plano mais revolucionário, mesmo no estrito sentido político, mas nunca num sentido marxista, i.e., nunca aceitando a necessidade de uma revolução violenta para mudar o mundo, como o próprio tema «Revolution» deixa bem explícito. A revolução, a mudança do mundo, só poderia, só poderá, advir pelo despertar das mentes e pelo amor. O Amor que está adormecido, como diz ainda George Harrison naquela que é uma das composições mais admiráveis de toda a discografia dos Beatles, «While My Guitar Gently Weeps», e que constitui, como alguém também afirmou, «a mais promissora cura para o egoísmo e desespero em que a humanidade se encontra, na actualidade, submergida».

Claro, sobre os Beatles podíamos fazer «posts» ou «postais» e «postais», eventualmente criar até um Blogue exclusivo como, certamente, não deixará já de haver. Mas tudo isto, toda esta rememoração, veio a propósito de um livro publicado em finais de 2007 em língua portuguesa, numa edição brasileira da Madras, e originalmente em 2006, exactamente intitulado, «Beatles and the Philosophy», em edição da Open Court Publishing. Uma obra colectiva onde se congrega os vários contributos de outros tantos eminentes professores de filosofia, religião e demais disciplinas, de várias Universidades dos Estados Unidos.

É uma obra séria que vale realmente a pena ser lida. Não apenas para mostrar, pelas aproximações heideggerianas, sartrianas, wittgensteinianas, hegelianas, entre outros devaneios, até mesmo aristolélicas, como os Beatles foram tão sábios como nem eles alguma vez suspeitaram, mas, acima de tudo, para retornarmos, por momentos, a esses míticos e simbólicos anos 60, anos em que o mundo, de facto mudou, anos de todos os excessos mas também anos em que tudo parecia, de facto, possível, ao alcance do sonho, e em que um mais fundo sentido de Individualidade, Liberdade e busca de uma real Espiritualidade, em síntese, busca também de uma verdadeira Autenticidade, ficaram a marcar, definitivamente, a nossa época.

Importa não esquecer no entanto que os Beatles, se tiveram a importância que tiveram, foi acima de tudo e antes de mais, por terem sido, mais do que filósofos, como no livro se defenda, com sobriedade, a verdade seja dita, extraordinários músicos, inovando, rasgando e expandindo, sem limites e de modo inimaginável, os cânones, formas e possibilidades da designada música popular. Os Beatles não surgiram de geração espontânea, os anos 50 tendo visto já o aparecimento do Rytm’n’Blues e do Rack’n’Roll com os Chuck Berry, Elvis, os Jerry Lee Lewis e, acima de todos e mais proximamente, até de um Eddie Cochran, entre tantos e tantos outros notáveis, para além, é evidente, de movimentos como o da Beat Generation, de Kerouac a Ginsberg e Burroughs, para mais não citar. Mas os Beatles, desde início, afirmaram uma singularidade, uma individualidade, uma força únicas, e, claro, são os autores tanto do experimental «Tomorrow Never Knows» quanto do fabuloso, «A Day in the Life», uma das músicas mais perfeitas de sempre, onde música e letra se conjugam de modo supremo. Quase casualmente, o tema abre com uns acordes de guitarra acústica, logo depois, entra, forte, o piano, a marcar a tensão em contido crescendo: «I read the news today oh boy / About a lucky man who made the grade / And though the news was rather sad / Well I just had to laugh / I saw the photograph / He blew his mind out in a car / He didn't notice that the lights had changed / A crowd of people stood and stared / They'd seen his face before /Nobody was really sure / If he was from the House of Lords. / I saw a film today oh boy / The English Army had just won the war / A crowd of people turned away / But I just had to look / Having read the book. / I'd love to turn you on ... ». John Lennon soletra a vida, a pressão da actualidade mas, não obstante a tão íntima proximidade de tudo e, o grande alheamento. E depois, a orquestra, em uníssono crescendo caótico, numa sobretensão de nervos a estilhaçarem-se e, abruptamente, em mudança de plano, entra Paul, sincopado, num despertar activo, ofegante: «Woke up, fell out of bed, / Dragged a comb across my head / Found my way downstairs and drank a cup, /And looking up I noticed I was late. / Found my coat and grabbed my hat / Made the bus in seconds flat / Found my way upstairs and had a smoke, / And somebody spoke and I went into a dream». E retorna o tema inicial _ vidas, aparentemente sem sentido: « read the news today oh boy / Four thousand holes in / Blackburn, Lancashire / And though the holes were rather small /They had to count them all / Now they know how many holes it takes / To fill the Albert Hall. / I'd love to turn you on». Síntese perfeita. Como sempre, o apelo a despertar. A Luz não reside no bulício do dia-a-dia, embora, para as almas verídicas e despertas, tudo possa ser tão simples como o mais simples da via, «Here Comes de Sun», ou «Something», mesmo quando não sabemos bem o que seja isso que nos «move».

Entretanto chegavam os anos 70. Altamont e Woodstock marcavam o fim de uma época de inocência e os próprios Beatles colocavam um ponto final na sua carreira, prosseguindo, cada um , a sua via.

Paul McCartney, o talentoso melodista, a quem os Beatles devem alguns dos seu maiores êxitos, de «Yesterday» e «Michele» a «Hey Jude» e «Let it Be», foi muito feliz, formou, depois de um razoável primeiro álbum a solo, os Wings, com a sua Linda, voltou às muitas digressões, encharcou-se de novo em êxito e dinheiro, mas nada de realmente significativo sobreveio aos idos dias.

De Ringo Star ninguém esperava muito. Ainda teve um êxito assinalável, e merecido, com o single «It Don’t Come Easy», mas, a aprtir daí, não obstante continuar a gravar, de quando em vez, ao longo dos anos, vários álbuns, significativa memória não se regista também.

George Harrison, desde sempre o mais inquieto e sério no sentido espiritual, produziu, ainda em 1970, um fabuloso triplo álbum, «All Things Must Pass», onde se encontra, para além de clássicos como o «My Sweet Lord», um brilhante «Beware of Darkness». De todos, George sempre foi o mais virtuoso, a quem os Beatles devem, devem, de facto, alguns dos seus melhores e mais extraordinários temas, embora, por características pessoais e posição no grupo, sempre haja mantido uma atitude mais discreta e menos proeminente. Foi quem inaugurou também, pelas melhores razões, a moda dos Concertos de Beneficência, com o triplo «Concert for Bangladesh», para ajudar esse longínquo país arrasado por mais uma inundação devastadora, juntando amigos como Ravi Shankar, Bob Dylan, Eric Clapton e um sempre surpreendente Leon Russel que viria a marcar a data com uma assombrosa interpretação do «Jumping Jack Flash» dos Stones. Depois, continuou a produzir bons álbuns e belíssimas canções, como «Faster», mas sem todavia voltar a conseguir realmente alcançar o brilho único e o magistral fulgor inicial de «All Things Must Pass».

John Lennon, o génio irrequieto que mais terá contribuído para que os Beatles viessem a ser os Beatles que todos temos na memória e imaginação, começou uma nova vida perdendo-se, antes de mais, em alguns uns devaneios com a sua Yoko mas, cedo, acabaria por editar dois extraordinários álbuns, «John Lennon and Plastic Ono Band» e «Imagine». Depois os tempos tornaram-se irregulares, a vida atribulada, chegando a tirar uma licença sabática durante alguns anos e, quando regressou, pouco antes de ser assassinado, não deixando de ser o John Lennon mas o daimon estava apaziguado. No entanto, é ainda a John Lennon que devemos o fecho dos anos 60, com uma das suas mais belas e comoventes canções, «God», onde o primeiro verso reza exactamente assim: «God is a concept by wich we measure our pain», seguindo-se a famosa litania do « I don't believe in magic / I don't believe in I-ching / I don't believe in Bible / I don't believe in Tarot / I don't believe in Hitler / I don't believe in Jesus / I don't believe in Kennedy / I don't believe in Buddha / I don't believe in Mantra / I don't believe in Gita / I don't believe in Yoga / I don't believe in Kings / I don't believe in Elvis / I don't believe in Zimmerman / I don't believe in Beatles / / I just believe in me...and that reality». Não, não era exactamente solipsismo mas talvez apenas o receio sempre latente e bem presente, da facilidade da comum troca da individualidade, da verdadeira individualidade, pela segurança, refúgio e aconchego no descanso à sombra de um qualquer líder, numa ilusão de falsa participação mística numa qualquer multidão vaga, anónima e completamente amorfa; e talvez também a mais lúcida e perfeita consciência da inexorável «passagem das horas»: «The dream is over / What can I say? / the Dream is Over / Yesterday / I was the Dreamweaver / But now I'm reborn / I was the Walrus / But now I'm John / and so dear friends / you'll just have to carry on / The Dream is over».

O sonho terminara, os anos 60 eram passado, nada voltaria a poder ser como tinha sido, não havia senão que seguir, cada um, o seu próprio caminho; trilhando, cada um, as suas próprias vias; carregando, cada um, a sua própria cruz. John Lennon dixit. Bem, não exactamente assim mas, por certo, exactamente com este sentido.


M.Antonioni, Blow-Up, 1966

M.Antonioni, Blow-Up, 1966

E, é claro, é difícil, impossível, falar dos anos 60 e dos Beatles sem uma breve referência, por mais ligeira que seja, da sua contraparte, os Rolling Stones. Enquanto uns faziam dos meninos maus das boas famílias, a quem as mães não entregavam sequer as filhas para irem comer um gelado à esquina do fim da rua, os Stones, os Beatles chegaram a ser um pouco como os meninos bons das más famílias a quem as mães viviam na ânsia de entregarem a mão das suas filhas em casamento.

Os Stones não tinham o talento dos Beatles, é certo, mas escreveram também um dos hinos da década, «I Can’t Get No Staisfaction» e, depois do «Get Ya Yars-Out», sempre mereceram bem o epíteto, tal como sempre são apresentados em palco, «The Best Rock’n’Roll Band in the World».

Aos Rolling Stones deve-se ainda um dos mais perfeitos documentos do ambiente vivido na segunda metade dos anos 60, o projecto «Rock and Roll Circus», onde juntavam desde os Jethro Tull, os Who e Taj Mahal até aos Dirty Mac, uma banda «ad hoc», se podemos dizer, composta por John Lennon, Eric Clapton (na altura ainda nos Cream), Keith Richards (Stones) e Mitch Mitchel (da Jimy Hendrix Experience), além, claro, da «Beautiful Miss Marianne Faithfull.

Os Rolling Stones sempre foram (quase sempre, pelo menos) um Grupo de puro, do mais puro, Rock’n’Roll, sendo-o, como cumpre, com muito Blues à mistura também. Todavia, para se perceber bem as diferenças entre Beatles e Stones, não resistimos também a relembrar aqui, não o maldito «Sympathy for the Devil», hoje que é «musicalmente correcto» admirar como supremo, mas o fabuloso, o mavioso, insidiosamente envolvente e felino «Stray Cat Blues», onde o típico irónico cinismo tão característico de Jagger-Richards é uma impressionante constante de princípio a fim: «I can see that you're fifteen years old/No I don't want your I.D./And I can see that you're so far from home/But it's no hanging matter/It's no capital crime/Oh yeah, you're a strange stray cat/Oh yeah, don'tcha scratch like that/Oh yeah, you're a strange stray cat/I bet, bet your mama don't know you scream like that/I bet your mother don't know you can spit like that». Basta ouvir para perceber quanto levaria muitas linhas a explicar. Outro universo. Os muitos fabulosos universos dos anos 60 que fazem dessa década, na realidade, a mais extraordinária e decisiva década do século XX, até hoje.


M.Antonioni, Blow-Up, 1966

Post Sciptum
It’s All Over Now Baby Blue

No Newport Folk Festival de 1966, quando Bob Dylan surgiu de guitarra eléctrica em punho, foi apupado e quase linchado. Valeu-lhe a amizade de Peter Seeger para regressar mais tarde ao palco, empunhando já tão somente a sua velha viola acústica e a inseparável harmónica, para interpretar, em despedida, «It’s All Over Now Baby Blue».

Convidado há um ano para fazer parte deste Geração de 60, apesar de me encontrar na tangente, do lado de fora, e dadas as fracas disponibilidades de tempo, por razões de ordem profissional, perante a estima pessoal e o reconhecimento intelectual de quem insistia na minha colaboração, acabei por aceitar de corpo e alma, o desafio, tanto quanto corpo e alma permitiam. Aceitei porque, «filho» dos anos 60, tenho como maior orgulho ser Português e, como tal, não poder deixar de participar, de algum modo, daquela que é uma das mais admiráveis entre as mais admiráveis, iluminantes e fecundas tradições de civilização de que há memória em toda a História do Mundo, desde os mais remotos tempos. Por isso, também, a mágoa de não ter tido o «engenho» para dar mais fundo testemunho disso mesmo, não me restando sequer a consolação de, aqui, poder invocar o nosso Pessoa quando escrevia, evocando D. Duarte, o nosso Rei-Filósofo, «Cumpri contra o Destino cumpri o meu dever / Inutilmente? Não, porque o cumpri», por, em rigor, verificar, tristemente, quanto por dever ter assumido, cumprir não ter sabido.


M.Antonioni, Blow-Up, 1966

Agora é tempo de despedida. Sem pateada e sem o talento musical do grande Dylan, vedado se me encontra a possibilidade de poder despedir-me com um qualquer «It's All Over Now Baby Blue». Todavia, creio não quadrar mal se me despedir, muito à anos 60, com «Turn! Turn! Turn!», na versão dos sempre igualmente magníficos Byrds, do velhinho Folk Singer de Protesto, Pete Seeger (um tema curiosamente surgido quando o editor, talvez cansado do pouco êxito alcançado, lhe pediu para escrever algo menos «protestante», algo que pudesse passar nas estações emissoras de rádio, sobrevindo-lhe a inspiração com base no Eclesiastes).

Tudo tem o seu tempo, de facto. Há um tempo para começar e um tempo para partir, em boa verdade, «A time for every purpose, under heaven».

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Holocausto em Angola

Por estarmos em período de Paixão, pemitam que me atreva a uma sugestão mais comprometida. Dois livros, pelos caminhos do Calvário a que nos conduzem, merecem a nossa atenção. Ambos falam de Angola e da repressão violenta – criminosa ao ponto do assassinato – que se abateu de forma arbitrária, com a cumplicidade e o mais alto patrocínio do poderes constituídos, sobre os cidadãos daquele país, entre 1976 e o começo dos anos 80.
Purga em Angola” e "Holocausto em Angola”, com intenções e vivências diferentes, acabam por nos dar o mesmo retrato, o retrato de uma barbárie que a Europa experimentou com Hitler ou Staline e que a China viveu com Mao.
“Purga em Angola” é um livro assinado por uma historiadora, Dalila Cabrita Mateus, e por um jornalista, Álvaro Mateus. O seu objectivo é claro: relatar os acontecimentos que tiveram lugar antes, durante e depois do 27 de Maio de 1977, data do golpe de Nito Alves que visaria derrubar o ditador Agostinho Neto da presidência da República Popular de Angola. Como se compreenderá, mais do que os antecedentes políticos, a purga – ou seja, o extermínio físico – que se seguiu ao confronto entre o Poder e os “golpistas” é o palco trágico deste livro.
“Holocausto em Angola” é um livro de memórias. É escrito por Américo Cardoso Botelho, um português que, de 1977 a 1980, viveu na carne e testemunhou o banditismo ignóbil que se instalou nas prisões controladas pelos torcionários da DISA

Não creiam que exagero na adjectivação. Nas prisões que os dois livros descrevem era norma:
- Arrancar às famílias e brutalizar, sem culpa formada, cidadãos, fosse pelas suas ideias políticas, fosse para lhes roubar os bens que possuíam;
- Fazer julgamentos fantoches que envergonham qualquer ideia de justiça;
- Despir, violentar e violar homens e mulheres;
- Espancar e torturar seres humanos até à loucura;
- Fuzilar cidadãos na calada da noite, sem lhes permitir sequer um último adeus às famílias;
- Fazer desses fuzilamentos festins de desaustinado deboche moral.

Destes actos repugnantes foram vítimas:
- Angolanos do MPLA que foram acusados de “fraccionismo”;
- Jovens esquerdistas angolanos do MPLA que passaram pelos CACs e criaram a OCA;
- Militantes e militares angolanos da Unita e da FNLA;
- Sul-africanos do ANC que se recusaram a lutar pelo MPLA contra os outros movimentos angolanos;
- Portugueses que tinham bens apetecíveis e eram alvos fáceis;
- Estrangeiros que, com ou sem razão aparente, foram apanhados entre fogos, dos mercenários ingleses a inocentes cidadãos zairenses, nigerianos, namibianos, são-tomenses, cabo-verdianos e outros.

Mas, para além das prisões e dos campos de concentração (ditos de reeducação), estes livros referem:
- Acções militares de genocídio premeditado de populações angolanas;
- bombardeamentos de aldeias;
- deslocamentos de velhos e crianças de Cabinda para o famigerado campo de S. Nicolau.

Nestes dois livros, a culpa não morre solteira. Na farsa de acusação dos “fraccionistas” que conduziria à prisão e tortura, e no fim da linha ao fuzilamento de muitos deles, participaram, numa cinicamente intitulada "Comissão das Lágrimas", intelectuais de esquerda (e podiam ser de direita que iria dar ao mesmo).
Entre eles, e de acordo com o que se lê na pg. 116 de “Purga em Angola”:
- Luandino Vieira;
- Pepetela;
- Manuel Rui Monteiro;
- Costa Andrade;
- Diógenes Boavida.
Nas sesões de espacamento e tortura, e de acordo com os testemunhos de “Holocausto em Angola”, participaram os mais altos quadros da DISA e mesmo ministros, entre os quais:
- Ludy (Rodrigues João Lopes);
- Onambwé (Henrique Santos);
- Xietu (João Luis Neto).
Angola só poderá fazer o luto, as famílias angolanas só recuperarão a memória destes mortos de que nunca viram os cadáveres, com livros como estes que não deixem cair os crimes na banalidade e silêncio da História. Simão Cacete, angolano, uma das vítimas e sobrevivente, pede uma Comissão da Verdade. Porque o caminho da verdade é o único caminho do perdão e da reconciliação.

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Um mundo em vias de (des)concentração psíquica e religiosa ?




Segundo uma notícia hoje publicada no El Pais online, Madgi Allam jornalista subdirector de Il Corriere Della Sera converteu-se ontem ao catolicismo numa cerimónia celebrada pelo Papa.
Trago esta notícia aqui pois ainda me estranha que hoje, os povos se continuem a dividir pelas crenças. Magdi Allam, pela inerência das suas funções, é supostamente um indivíduo com informação suficiente para que as suas decisões sejam tomadas em liberdade.
Num mundo em que sob a influência combinada da imiscibilidade essencial das consciências e o mecanismo natural de qualquer unificação, num mundo em vias de concentração psíquica, é estranho que continuem a existir credos que separem os homens e determinem as guerras.
Após séculos de história e de lutas apaixonadas, nem a ciência nem a fé conseguiram apoucar-se uma à outra. Pelo contrário, tem-se tornado claro que não se podem desenvolver uma sem a outra, pela simples razão de que uma mesma vida as anima a ambas. Talvez por isso as crenças subsistam. Talvez por isso o ouro, o petróleo, os diamantes ludibriem as sociedades.
Talvez por isso ainda seja um acto de vontade pertencer a esta ou aquela religião.

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Permanecei no Meu amor (Jo 15, 9)


É Páscoa. E os jornais assinalam o êxodo de milhares de portugueses, em busca de férias, para as Caraíbas e o Brasil.

Longe do ritmo do Tríduo e de quaisquer tradições rituais, partem uns e ficam outros. Cá ou lá, alheios à celebração do sentido de Deus presente, estranhos ao mistério da cruz e da Páscoa.
Vivemos num mundo e num tempo de auto-suficiência. Para um número crescente de homens e mulheres, Deus não é um problema – isto é, a ideia de Deus não se coloca como problema. A natureza e o significado da questão religiosa não interpelam a maior parte. O apelo da transcendência e a experiência do sagrado vão estiolando. Paralelamente, e não por acaso, toda a indagação metafísica perde terreno.
Olhando em volta, no meio do frenesim, falha o pensamento. E, sobretudo, o pensamento que se pensa. Poucos se questionam, poucos se perturbam, poucos se detêm. Com maior ou menor consciência, quase todos evitam as perguntas definitivas. Tipicamente, o homem e a mulher de hoje preferem não se confrontar (e não se atrapalhar) com as dúvidas radicais da existência.
Pragmatismo? Prudente intuição de contingência? Não sei. Mas o certo é que, como diz Scruton, «o ser racional vive numa condição de solidão metafísica» (Guia de filosofia para pessoas inteligentes, Guerra e Paz, 2007, p.107).

Ora, tal tem inevitáveis custos. Um dos mais graves, e aquele que aqui importa, é um custo de implicação. Ou seja, a refutação da nossa historicidade cristã como resultado da própria recusa daquele questionamento essencial.

A esse propósito, Benedetto Croce foi lapidar: «não podemos não nos dizer cristãos». Mas, justamente, só seremos capazes de tal postulado se nos colocarmos perante a nossa própria condição existencial – porque esta, necessariamente histórica e concreta, remete-nos para a tradição aberta pelo anúncio de Cristo. Isto é, para nos dizermos cristãos, temos que nos saber cristãos e, para tanto, mais até do que pensar, temos que nos pensar.

São Paulo disse um dia aos Coríntios: «se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé» (1 Cor, 15, 13-14). Na Páscoa, celebra-se a felicidade desta fé. O sentido do cristianismo como mensagem de salvação e de mistério. O sentido do cristianismo como exaltação da esperança. Felizes pois os que acreditam, felizes os que confiam.

Mas aos outros, aos que não acreditam, nesta como em todas as Páscoas, só mesmo a fé deveria ser-lhes estranha. Fruto da história e da cultura, crentes e não crentes reconhecem que a «única possibilidade de sobrevivência humana está depositada no preceito cristão da caridade» (Gianni Vatimo, “A era da interpretação”, in O futuro da religião, Angelus Novus 2006, p. 68).
Uma caridade que irmana. Uma caridade paciente, benigna, justa e verdadeira, que «tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta» (S.Paulo, 1 Cor, 13, 7).

Em dia de Páscoa, celebra-se o testemunho de Jesus Cristo e a decisiva passagem a que Deus convida todos os corações. A partir da Páscoa, cumpre-se a proposta de salvação que converte o amor em chamamento prático.
Todos são convocados, crentes e não crentes. Mas, mesmo com fé, não basta a confiança. No meio do bulício, é preciso querer ter disponibilidade. É preciso querer recusar o vazio e o seu absurdo. É preciso querer apostar numa redenção existencial, fundada na caritas como princípio vital de acção. No fundo, ainda que se possa querer sem crer, o crer é sempre um querer crer.

Boa Páscoa! Aos que crêem e aos que querem...

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A Filosofia e o Homem de Sempre

É porque ninguém tem a posse da verdade una e indivisa que a filosofia é a mais importante e decisiva disciplina dirigida ao saber. Fosse o mundo redutível ao imanentismo da mecânica e não haveria um segredo por decifrar, nem uma vida por aprofundar, nem uma verdade por revelar.

É porque o saber universal é uma finalidade perseguida individualmente que cada homem não pode receber de empréstimo, mas pela sua própria experiência, que a filosofia é decisiva como garantia da liberdade dos indivíduos.
É porque as certezas das ciências se vão sucedendo entre glória, insucesso e revisões, que a filosofia é um fio condutor indispensável que une épocas e lugares em vez de os “musealizar” e compartimentar. É a razão porque o “Discurso do Método” foi e é mais importante que os tratados científicos de que foi o prefácio.
A interrogação fundamental do homem não se reduz à excitação que move os universitários, sempre ofegantes no cimo dos seus castelos de cartas, convencidos de que têm a última palavra sobre um qualquer último assunto.
É por isso que todo o ensino que pretenda formar homens livres tem de ter, no cume da sua escalada, uma interrogação filosófica da qual depende toda a construção de um sistema. Só a filosofia garante que o saber não se separa da realidade e da experiência humana nem pretende deixar de interrogar-se sobre a sua natureza. Não há saber que não se deduza do pensamento do princípio de que, como teoria, depende.
Étienne Gilson(1884-1978) no seu “L’être e l’essence” (1948) expõe como diferentes filósofos, tomando o Ser pela Verdade, separaram a realidade que atribuíram ao Ser da procura da Verdade que nunca se reduz nem pode conter naquilo que o Ser é.

Em Portugal, em 1912, num livro que serviu de exame de admissão para assistente da cadeira de filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, Leonardo Coimbra, então com 27 anos, escreveu o “Criacionismo”, obra em que analisou os principais, e na altura actuais, sistemas filosóficos e onde chamou a atenção para um grave vício do pensamento: o cousismo. Este vício consiste na transformação do que é movente, o pensamento, numa “coisa”, estática, que por muito bem construída que seja está sempre separada do pensamento que cria a realidade e que, reflexivamente, a pensa. Entre os livros de Gilson e Leonardo devem haver 50 anos de diferença.
Leonardo Coimbra (1883-1936) é autor de uma vasta obra filosófica e, como Heidegger com Holderlin, foi um filósofo com uma alma poética irmã, Teixeira de Pascoaes a quem escreveu em 1922 um extraordinário prefácio à 2.ª edição de “Regresso ao Paraíso”. As suas obras completas foram editadas pela Lello & Irmãos e os Dispersos pela Verbo. Destacam-se entre os principais títulos, além de “O Criacionismo - Esboço dum, sistema filosófico”, “A Morte”(1913), “Pensamento Criacionista”(1915), “A Alegria, a Dor e a Graça”(1916), “A Luta pela Imortalidade”(1918), “A Filosofia de Henri Bergson”(1932) e “A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre”(1935).

[NOTA: Delfim Santos, que foi discípulo de Leonardo na Universidade de Letras do Porto, descobriu um dia nos arquivos da Faculdade de Letras de Lisboa, onde nunca conseguiu ter a cátedra de filosofia (apenas a de pedagogia) não obstante os doutoramentos com que internacionalmente foi reconhecido, todas as cópias que Leonardo tinha entregue para serem examinadas, por abrir. Foi escolhido o outro candidato.]

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sábado, 22 de Março de 2008

Liberdade de Ensino

Os insucessos das reformas educativas já deviam ter demonstrado à saciedade que o que importa nas reformas não é a revisão da organização administrativa, mas a definição dos objectivos e finalidades da educação.
Defendi em dois posts anteriores que a finalidade da educação é a formação de homens livres. Por isso, ela deveria estar a salvo de todas as formas de instrumentalização a que tem estado sujeita. Como princípio a seguir, o que mais importa, é estabelecer o primado da liberdade de ensinar sobre a liberdade de aprender. Prevalecendo a liberdade de aprender tal conduz, porque tal implica, a uma inversão dos objectivos da educação

Ou seja, ao sobrepor o direito a aprender ao de ensinar cai-se na subjugação do direito de ensinar ao direito de aprender. Há o risco de se solicitar um direito que não pode devidamente ser satisfeito por não haver ninguém que ensine.
A vontade dos Estados em impor uma educação obriga a um ensino a qualquer preço, mesmo que o preço seja não haver nada nem ninguém capaz para ensinar. Assim, os programas tornam-se descrições ou doutrinas mortas, impositivas, que os alunos decoram e repetem para atingir os objectivos estatísticos que permitem à propaganda dos Estados alardearem resultados de sucesso escolar e de sucesso dos seus modelos educativos.
Fazendo com que prevaleça a liberdade de ensinar, o Estado, perderia o domínio da educação, o controle dos programas e a condução das mentalidades que legitimam irracionalmente o seu falso sucesso.
O ensino deverá o que os educadores fizerem dele e, naturalmente, encaminhar-se-á não só para o que está vivo, como fará da filosofia da história uma continuidade com a actualidade.
Esta mudança de centro de gravidade estruturante do ensino, levará a que os professores conduzam com uma responsabilidade efectiva a formação das novas gerações. As ideologias de Estado, serão substituídas pelo saber dos professores, sujeitos assim, a uma avaliação contínua, cujo reconhecimento ou rejeição será garantida pelos pais e pelos alunos no momento de livremente optarem por esta ou por aquela escola, liceu ou universidade.

A relação entre o mercado e o desemprego é um falso problema. O que o desemprego espelha são anos sucessivos de desresponsabilização em que os alunos foram viciados com o actual sistema de ensino. Avaliados em “matérias” áridas, em programas sem objectividade intelectual, como cobaias para o sucesso de sucessivas estatísticas de sucessivos governos incompetentes e mesmo perversos, os formandos são ensinados a fazerem do pouco que aprendem um instrumento para a sua chantagem social. Instruídos em vitimização e em exigência de direitos que ninguém lhes pode garantir, cumprem os objectivos cegos de um sistema cego que não os educa e que os afasta de toda e qualquer forma de educação. Quer dizer, afasta-os da finalidade da educação que é a procura do saber da verdade como acto de libertação da condição de ignorância, que a todos os homens aprisiona, mas de que todos têm de partir para a formação da sua consciência individual.

A situação do homem no mundo não muda com o tempo, nem com o espaço. Sempre houve, e há, o que se interpreta como evoluções — normalmente relativas às condições de vida —, mas a natureza existencial do homem não se altera. Há sempre uma condição a partir da qual se pensa a liberdade, a justiça e a verdade. O processo dessa consciência não faz com que a verdade una e indivisa seja possuída por algum homem. A verdade não é opinião. Foi nessa distinção que consistiu a criação da filosofia como órgão da liberdade. Pensar filosoficamente foi o que abriu ao homem a possibilidade de se conhecer a si mesmo e assim inaugurar um caminho de libertação da escravidão em que, sem liberdade, sem noção da liberdade, de nada se podia ou era sequer para se libertar. O modo individual como o pensamento se pensa, não o torna refém de quem o pensa. Pensar tendo como finalidade a verdade una e indivisa é um acto do ponto de vista existencial de máxima humildade e não de arrogância. Pensar é sempre pensar a verdade e pensar a verdade é aproximar cada um do saber de si próprio como meio para o saber universal. Conheço-me na medida em que em mim conheço o universal que há em mim.

Por tudo isto, quando se afirma que a finalidade da edução é formar homens livres, se está a afirmar que sem o saber de si próprio o homem é pouco mais do que um escravo que não pode conduzir os seus destinos por não poder responder por eles, isto, por não poder ser responsável. A responsabilidade é a consequência da autoridade. A autoridade é dada pelo pensamento livre. Um sistema de educação que não tenha o seu princípio na autoridade, no sentido de ser autor do que pensa e, por isso, ter a liberdade de ensinar o que sabe, está condenado a escravizar aqueles que deveria ajudar a libertar.

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sexta-feira, 21 de Março de 2008

Demasiadas palavras

O Expresso traz hoje um artigo interessante sobre a "diarreia" e "verborreia" legislativas. Legisla-se demais e com demasiadas palavras em Portugal. O problema tem, no entanto, tanto de cultura legislativa como de cultura jurídica. Por outras palavras, este problema tem provavelmente mais a ver com a nossa cultura jurídica do que com a nossa cultura política. A nossa cultura jurídica é profundamente formalista e isso leva a que qualquer problema jurídico seja sempre atribuído ao legislador e não ao intérprete. Quando existe um problema na adaptação da norma ao seu contexto social e económico isso nunca é concebido como um problema de interpretação mas sim como uma lacuna do legislador. Este procura antecipar-se e legislar todos os detalhes o que, frequentemente, apenas reforça a incerteza e o formalismo (veja-se a discussão sobre a aplicação da lei do tabaco aos casinos e como a questão foi concebida como um problema do legislador que não tinha previsto todas as situações possíveis…). É na cultura de interpretação das normas (descontextualizada e sem atender à finalidade das mesmas) que reside uma parte da explicação para essa "diarreia" e "verborreia" legislativas. Quando uma norma é vista apenas como o somatório das suas palavras é natural que sejam necessárias muitas palavras…

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Bowling Alone



O grau zero a que o Pedro faz referência recordou-me um livro cuja leitura penso ser cada vez mais importante: Bowling Alone de Robert Putman. Putman procura demonstrar (através do exemplo americano) que as sociedades actuais têm vindo a perder o seu capital social (as redes sociais informais ligadas à escola, à família, ao bairro etc.). Putman argumenta que este capital social é fundamental não apenas para o bom funcionamento de uma democracia mas, igualmente, para a provisão de certos bens públicos (há correlações muito interessantes entre a existência desse capital social e a criminalidade, o desemprego, a saúde etc.). O próprio Putman reconhece que muitas das estruturas sociais que permitiam a criação desse capital (a presença da mãe em casa por exemplo) não são, hoje, sustentáveis (e, mesmo, aceitáveis). No entanto, isto coloca o grande desafio de como "reconstituir" esse capital social. Acho que o grau zero a que chegámos é também produto e exemplo da redução deste capital social.

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quinta-feira, 20 de Março de 2008

O Elogio da Preguiça em Duas Canções

Lazy Bones, Cathy Spence
Antigamente o homem era um homem. Hoje, não lhe dão sossego. O homem ideal é, agora, uma figura desaustinada, gesticulante, dinâmica, competitiva e (temo que ao dizê-lo arranque aplausos) proactiva. Um homem, isto? Já com pouco fígado e pior coração, o homem moderno não tem espaço anatómico para a preguiça, como se preguiça fosse palavrão ou vil pecado mortal.

Vim do lado de lá do equador, duma indolência que era a única resposta racional à canicular inclemência dos trópicos. À imagem e semelhança da sinuosa boa constrictor, jiboiar era o que pobres e ricos faziam depois de um repasto digno, fosse um delicado cozido à portuguesa, fosse o meu muzungué de musseque.

Aqui, na Europa, entre o ginásio e o “empowerment”, só a velocidade é afrodísiaca. Mas cansa. Cheio de vontade de parar, procurei uma bandeira que conferisse caução estética à volúpia dumas tardes sabáticas. E foi nesse interim que me lembrei de Vinicius.

Há uma canção que sempre elejo como a mais preguiçosa do hemisfério sul. Vinicius, Toquinho e Marília, em “Uma Tarde em Itapuã”, cantam a nobreza duma vadiagem que não tem tamanho. A cada verso, a cada nota, perpassa uma brisa epicurista, temperada por generosos goles de cachaça de rolha. Entre amor e mar, coqueirais e braços morenos, desenha-se o sereno espaço em que um homem deveria, sem pressa, ser homem.

Pensava eu... Até ouvir esse acumen da inacção que se chama “Avarandado”. A letra (curta) é do ocioso Caetano. Mas quem lhe deu sentido foi o zombie João Gilberto. Enquanto na canção de Vinicius havia orquestra, percussão e violinos, João canta arrastado, com voz agónica, sustentado só no pré-coma do seu violão. É uma canção de palmas enluaradas e moças recostadas. Tudo está tão quieto, parado, cada palmeira na estrada, que a gente tem medo de se mexer. Experimentem cantar: até o sol se deita.

Sejam homens e deixem-se ir por esse lânguido caminho de moleza e preguiça que vai dar no mar. Começa ali o avarandado do amanhecer.
Crónica roubada aqui, com ligeiras alterações só para camuflar.

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O grau zero

A avaliar pelo que se vê aqui, acho que não vale a pena continuar a discutir o que se discute aqui.

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Foge cão, que te fazem barão...

Este post começou por ser um comentário ao post do Pedro Norton – Da Visão: os barões atrapalhados –, que acabou por crescer e tornar-se autónomo.
Gosto sempre de ler o que diz o Pedro, sobretudo pela clareza com que expõe as suas posições, como mais uma vez é o caso. Quero, no entanto, discordar num ponto, que me parece essencial: é que não julgo que a guerra no PSD seja entre bases e barões, nem que, consequentemente, a solução esteja em Belém e em Cavaco Silva.
Explico: a guerra será sempre entre barões e barões, os quais valem justamente em função das bases que são capazes de motivar. O problema, hoje, excessivamente visível no PSD, mas, em rigor, patente em quase todos os Partidos, é a ausência de uma relação verdadeira entre os líderes e as “suas” bases.
Sempre que a relação entre os lideres e os liderados se torna num mero jogo de interesses, no qual uns manipulam os outros, em vez da salutar divergência interna (que muitos hipocritamente saúdam, sabendo que é outra coisa), temos a instauração de guerras cujos fins são alheios à própria natureza do Partido.
Na verdade, porém, os destinos de ambos - líderes e liderados, barões e bases - estão ligados: a ascenção e a queda de uns é a ascenção e a queda dos outros, muito para além da mera luta dos seus interesses particulares.
Sempre que os barões deixem de explicar-se às bases – informando-as, motivando-as, convencendo-as... – e sempre que as bases deixem de participar nas lideranças – perguntando, contestando, sugerindo... –, veremos inevitavelmente instalar-se um poder que tudo reduzirá a um mero jogo de interesses, que com o passar do tempo se tornará cada vez mais mesquinho. É certamente aí que estamos.
A solução, porém, não está em Cavaco Silva, que enquanto Presidente da República deverá ser obviamente alheio a essa luta prtidária, e enquanto líder social-democrata não creio que tenha feito – nem que venha a fazer – o que justamente é preciso fazer: abrir o Partido para fora.
A solução, com efeito, está na capacidade dos líderes se relacionarem verdadeiramente com as bases, motivando-as para participarem em tarefas transparentemente inscritas em projectos e claramente compreendidas em ideias. Para isso, porém, os líderes têm que ter projectos e ideias (não confundir com aparições nos telejornais) e as bases têm que ter autonomia (não confundir com uma mera capacidade de voto).
É claro que isto implica uma abertura dos Partidos para fora – coisa que os actuais barões e as suas bases não querem nem deixam que aconteça, em nome da defesa dos seus pequenos poderes. Mas a vida tem surpresas, como julgo que descobrirá quem seguir este caminho.

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Da Visão: Os barões atrapalhados

Parece que as «elites» do PSD andam muito preocupadas com a deriva populista em curso no «seu» PSD. E têm boas razões para isso. O que está em causa é, de facto, uma tentativa desabrida de lhes «roubar» um partido que julgam ser seu por direito ou por disposição testamentária de Sá Carneiro. Ou, dito de outra forma, o que está em causa é uma estratégia para perpetuar, com o apoio das bases e graças a meia dúzia de truques grosseiros de secretaria, a liderança de Luís Filipe Menezes. Que de resto nem se preocupa em esconder ao que vem e iniciou, esta semana, a refundação simbólica do partido para grande escândalo de militantes que, ainda há pouco tempo, se entretinham a virar do avesso as «setinhas» do PSD.
Dito isto, é preciso dizer duas coisas. A primeira é que as «elites» que agora estrebucham são precisamente as grandes responsáveis pelo estado a que chegou o PSD. Quando, no Verão passado, o Dr. Marques Mendes iniciou a sua suicidária fuga para a frente, todas estas cabeças pensantes concluíram, em uníssono, que o seu momento ainda não tinha chegado. Estávamos praticamente a meio da legislatura, o Eng.º Sócrates ainda gozava da fama de supremo reformista e tudo o que estes putativos salvadores do PSD desejavam era que o Dr. Mendes aceitasse continuar a imolar-se, em lume brando, até que as circunstâncias aconselhassem a que algum deles saísse, triunfalmente, da confortável toca onde tinha procurado abrigo durante a invernia socialista. O Dr. Menezes, já se vê, trocou-lhes as voltas e ganhou um partido que estava obviamente «maduro» para lhe cair no colo. Os barões, ainda incapazes de entender como é que o céu lhes caiu tão brutalmente na cabeça, queixam-se agora do desbragado populismo do autarca de Gaia. Talvez um dia percebam que só podem legitimamente queixar-se do seu próprio tacticismo incorrigível.
A segunda coisa que interessa entender é que, com ou sem Menezes, o partido dificilmente voltará a ser controlado pelas «elites». Explico porquê: contrariamente às guerras do passado, a actual contenda no PSD não é uma disputa entre líderes desavindos. É uma verdadeira «luta de classes». Entre os auto-proclamados herdeiros do «verdadeiro» PSD (popular, é certo, mas prudentemente dirigido por elites) e as «bases» do partido que vêm em Menezes o instrumento da sua própria emancipação e afirmação política. Ora, à medida que se acentua esta clivagem classista entre «bases» e «barões», só um homem parece poder arbitrar esta guerra: Cavaco Silva. Porque é Presidente, porque soube colocar-se prudentemente acima da contenda, mas sobretudo porque, não fazendo parte das elites tradicionais do partido, é hoje o exemplo maior de uma liderança eficaz do partido e a grande referência de um PSD com efectiva vocação de poder. É portanto o único com legitimidade histórica e «inter-classista» para «impor» uma liderança saída dos círculos mais «elitistas» do PSD. E se não puder «nomear» directamente o próximo líder do partido tem, no mínimo, o poder de «vetar» qualquer candidato.
Para o bem e para o mal, o poder no PSD já não regressa, por culpa própria, aos barões do partido. E mora cada vez mais em Belém.

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Espanto, Comoção, Luz

Espanto. Espanto, antes de mais, por tão súbito e alargado consenso sobre a Universidade em particular e o Ensino em geral, uma das mais caras e fundas paixões do pobre ex-Primeiro Ministro de Portugal, de sua graça, António Guterres, quando nem o próprio, não menos perdidamente apaixonado pelos consensos, fossem eles quais fossem, vez alguma alcançar logrou. Consenso tão súbito, tão vasto, tão alargado, não deixa mesmo de ser comovente. Sobretudo quando estamos em Portugal, ou seja, aquela nação, como hoje é mister sempre lembrar antiquíssimo dito, que «não se governa nem deixa governar». Posto quanto exarado fica nos anteriores textos do Paulo Rangel e do Miguel Poiares Maduro, uma certeza parece emergir também súbita mas inexirável, tudo quanto respeita à Universidade e ao problema do desemprego, é afinal, de fácil resolução. Afinal, há Luz.

Lida Abdul, «What We Saw Upon Awekening», 2006



Vale a pena atender a alguns dos argumentos belissimamente expostos.

Que nos diz de essencial Paulo Rangel? De há muito preocupado com o tópico «levantado» pelo Miguel Poiares Maduro e Rui Tavares, ou seja da relação entre a Universidade e um consequente emprego, diz-nos Paulo Rangel: «No limite - e sem que, por um minuto, eu o advogue -, Portugal poderia fazer um outsourcing do seu ensino universitário, pagando-o a sistemas estrangeiros. A massa humana de pessoas que abandonam o sistema de ensino, que completam o ensino básico, que atingem o secundário ou que entram no universitário e não dispõem de qualquer know-how é deveras assustadora».

Paulo Rangel não advoga o «outsourcing», mas não o chocando tal desiderato não se vislumbra exactamente quanto lhe impede tal advocacia: Razões de ordem financeira? Razões de ordem «operacional», como agora se diz? Não, não se percebe, tanto mais quanto, ao escrever textualmente, «a massa humana» - sugestiva e bela expressão - «de pessoas que abandonam o sistema de ensino, que completam o ensino básico, que atingem o secundário ou que entram no universitário e não dispõem de qualquer know-how é deveras assustadora», tudo ordena, afinal, ao muito anglo-saxónico e pragmático «know-how».

Quanto à verídica finalidade da Educação, ao quanto mais importa, nem uma palavra.

Que nos diz de essencial o Miguel Poiares Maduro?

Que concorda com o tal Rui Tavares, cronista do Público, com quem Paulo Rangel em pleno acordo se encontra também. É simpático mas não nos diz muito.

Que distintas são as dinâmicas do mercado e da Universidade, recordando-nos um «post», por si publicado, alertando já «para o excesso de ênfase que é colocado na instrumentalização dos cursos universitários às necessidades imediatas do mercado». Se Miguel Poiares Maduro assim o afirma, não temos senão de aceitar que assim seja mas, se assim é, o erro é evidente e grosseiro, tão evidente e grosseiro quanto nem os famigerados planos Quinquenais da extinta U.R.S.S. em tal incorriam. Todavia, a dúvida afigura-se-nos pertinente: tudo se resume, afinal, a uma questão de distintas dinâmicas e errado ou necessidade de mais complexo planeamento?

Miguel Poiares Maduro dirá de sua justiça. Entretanto, porém, mais tem a acrescentar, afirmando também a existência de «problemas sérios no funcionamento do nosso mercado de emprego». O que sendo inegável nos coloca já em distinto plano de discussão, não sendo, no fundo, uma questão de «mercado de emprego» mas a existência de um verdadeiro mercado, sem mais.

Todavia, quanto ao mais, quanto ao quanto mais importa, quanto à finalidade da Educação, à finalidade da Universidade, nem uma palavra.

Serão as questões de emprego tudo quanto importa, que mais importa?

Bom, e tudo isto a propósito de quê? A propósito de uma crónica no Público de um tal Rui Tavares, que não houvéramos lido mas, perante tão alta e vasta exaltação, não deixámos de, atentamente, ir ler. E que afirma diz de essencial Rui Tavares em tão extraordinária crónica?... Que o problema do desemprego se deve ao mercado...

De peito aberto, aqui expomos toda a nossa vasta ignorância e incompreensão de tão preclara tese mas, na nossa muito humilde ingenuidade, sempre interrogamos: como de outro modo poderia ser?... Não garantido o Estado emprego a todos – a todos os licenciados, entenda-se -, obrigado estaria o «mercado» a fazê-lo, sem mais, apenas porque licenciados pelo Estado para empregados serem, se encontrarem os ditos?...

Não vislumbramos o alcance da tese – com pesar o confessamos.

Ah!, sim, Rui Tavares acrescenta mais, acrescenta igualmente que um dos nossos grandes males, como portugueses, é não possuirmos «head hunters» à altura dos americanos, de largos horizontes e superior entendimento da vida...

Será mesmo para levar a sério?...

Entretanto, três outros comentários respeitantes ao texto do Miguel Poiares Maduro, um da Sofia Galvão, outro do Pedro Norton e um outro ainda do Gonçalo Pistacchini Moita, nos suscitam também adicionais chamadas de atenção.

No caso do comentário da Sofia Galvão, como sempre, particularmente pertinente e arguto, afigura-se apenas pecar por parecer não atender em toda a sua extensão, ao facto dessa mesma atitude do tal «jovem» de 30 anos entender ser-lhe devido, por definição, um emprego para vida, à altura dos seus muito elevados pergaminhos, surgir pela mesma subtil instigação pragmático-socialista que deforma a actual Universidade e subjaz tanto na crónica de Rui Tavares quanto nos subsequentes textos aqui comentados.

No caso do comentário do Pedro Norton, embora seja hoje muito politicamente correcto apelar e exaltar uma «cultura de meritocracia», para além de profundamente anti-portuguesa, já Hayek a denunciava, com horror e profundo sentido crítico», n’«Os Fundamentos da Liberdade». Onde o socialismo falha, sempre se apela, em vão, mas não sem graves consequências, à «meritocracia» como grande e universal panaceia. É preciso atenção.

Finalmente, no caso do Gonçalo Pistacchine Moita, importa lembrar o seguinte: Saber é sempre saber da verdade; a verdade é una e individida; a Universidade nasce como a busca do saber Universal, como o que tende para o uno, o uno que há em todo o saber, como saber da verdade, una e individida.

Ou seja, em resumo e conclusão, talvez por aqui iniciando, mais clara Luz, em verdade, possível seja alcançar.

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quarta-feira, 19 de Março de 2008

As Mil e Uma Noites

Scheherazade, Edouard Richter
A vida não tem a mínima graça. Não me venham cantar a virtude da verdade; não me façam hinos à prosaica realidade. A vida, a prosaica realidade, está todos os dias nos jornais e faz primeiras páginas infames. Torce-se o jornal e escorre sangue.
Quem paga bem é a ficção; só a mentira tem imaginação para proclamar o sublime. Viajei por montes e planícies, fui aos bares mais escusos das mais escuras noites, e nada, nem um cavaleiro andante. Don Quixote e Sancho Pança sim, proclamam incansáveis, nas intermináveis páginas de um livro, em múltiplas e intraduzíveis línguas, a superioridade de um idealismo que resiste ao rídiculo.
Os verdadeiros heróis são de papel. Ninguém, nenhuma polícia, nem mesmo o cortejo de um milhão de detectives de carne e osso, se aproximará, debilmente que seja, da rigorosa capacidade dedutiva do britânico Sherlock Holmes ou de Hercule Poirot, de imprestável nacionalidade belga.
Dizem-me que há seres dúplices, manéis de dia, marias à noite, mas na vida topam-se à légua. Só uma imaginação poética e em transe mediúnico teria criado o corpo desdobrável e prodigioso que é, ao mesmo tempo, Dr. Jekyl e Mr. Hyde. Querem provas: leiam o livro, vejam os filmes.
E digo-vos: mesmo nos momentos mais trágicos, quando só a sobrevivência conta, a honesta e nostálgica ficção canta mais alto. Durante a II Grande Guerra, de um lado e do outro da trincheira, a mesma fabulosa mulher, Lili Marleen, assombrava os corações dos soldados alemães e dos soldados aliados. Era só um nome, duas palavras a fechar uma estrofe. Nunca ninguém a viu, essa rapariga debaixo de um desmaiado candeeiro, mas todos, durante aquela guerra, a cantaram e perdidamente a amaram.
Não há um recanto da nossa vida, em que a ficção não se intrometa e, despudorada, triunfe. O enigmático Édipo, mete-se entre o filho que somos e os pais que temos. Lolita, a decotada ninfa, atormenta-nos a maturidade. Othello vem todas as noites instilar um obtuso ciúme na almofada em que afundamos as nossas insónias.
Donde vem este exército de fantasmas, esta legião de incorpóreas aventuras? Às vezes acredito que cada um de nós é como um rei de mil e uma noites a quem, de madrugada em madrugada, uma Scheherazade surpreende com lendas e histórias, com poemas e canções. Com tão boa ficção, que préstimo pode ter a vida?
Crónica de empréstimo, toda copiada daqui.

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O lado lunar e o ensino médio...

De há muito que me interessa especialmente este tópico levantado pelo Miguel Maduro e pelo Rui Tavares. E ponho-me inequivocamente ao lado dos que pensam que a universidade não existe para serviço imediato do mercado. Subscrevo a ideia do Miguel de que as universidades têm a sua quota-parte - e bem grande - de responsabilidade. O mercado é dinâmico, a nossa universidade não.
Mas creio que há também uma forte componente de responsabilidade dos próprios licenciados. Também eles alimentam tenazmente à ideia de que a formação universitária é uma formação profissional ou, pelo menos, um "visto consular" para a vida profissional. Desejam ardentemente que o estudo de quatro ou de três anos lhes garanta um emprego vitalício. E refutam pusilanimemente fazer seja o que for que não se relacione com o seu quadro de estudos. Ou seja, há também responsabilidade individual. E há, evidentemente, uma mentalidade colectiva que a forma e a sustenta.
Tudo isto se me afigura pacífico.
Mas creio que o nosso problema da equação "ensino-mercado" é outro e está no lado lunar. A endémica falta de ensino profissional e de ensino técnico, agora iludida por uma miríade de novas oportunidades, é a maior e mais forte causa do nosso atraso. O problema português não é a universidade. No limite - e sem que, por um minuto, eu o advogue -, Portugal poderia fazer um outsourcing do seu ensino universitário, pagando-o a sistemas estrangeiros. A massa humana de pessoas que abandonam o sistema de ensino, que completam o ensino básico, que atingem o secundário ou que entram no universitário e não dispõem de qualquer know-how é deveras assustadora. Um exército de gente sem qualquer preparação ou qualificação. O que impede a formação de uma classe média do conhecimento, a propósito da qual polemizei já com o Rui Tavares. O mercado exige do Estado, das escolas e das empresas instrumentos de ensino profissional ou técnico. Este, por maioria de razão, em contínuo processo de aggiornamento.
A questão não está apenas na falta de sindicatos de desempregados. Está também na falta de alguém que fale em nome do ensino médio. Como ele não existe, não há ninguém que o defenda ou possa defender.

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Inveja

Desta vez não resisto mesmo a uma pequena "dentada" no mundo político… Regressei a Portugal esta semana e fiquei a saber que, em duas reportagens na SIC, o Primeiro-Ministro e o líder da oposição tinham informado o país dos seus principais defeitos. No caso do primeiro, trata-se de ser teimoso quando tem razão. No caso do segundo, é o facto de ser muito sensível às críticas injustas. Confesso que a emoção mais forte que estes defeitos me suscitaram foi a inveja. Na verdade, com defeitos destes quem é que precisa de virtudes?

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De quem é a culpa?

O Rui Tavares defende hoje no Público que o desemprego entre os licenciados é mais culpa do mercado do que das universidades. De acordo com a sua tese não é a Universidade que prepara gente que o mercado não quer mas o mercado que não aproveita essa gente! A justificação para este aparente paradoxo encontra-a Rui Tavares num artigo da Chronicle of Higher Education onde um "caçador de cabeças explicava em como não lhe interessava saber se a pessoa que procurava vinha de Gestão, Filosofia ou Física, mas antes saber se ela tinha adquirido as capacidades de raciocínio, disciplina mental, criatividade ou autonomia pretendidas". Pode então deduzir-se, de acordo com Rui Tavares, que a falta de emprego dos licenciados não deve ser atribuída ao curso específico em que se licenciaram (e às sua maiores ou menores saídas profissionais) mas aos maus critérios de selecção do nosso mercado. Curiosamente, não discordo da tese fundamental do Rui Tavares mas apenas da conclusão que dela retira. Talvez alguns se recordem que há algum tempo escrevi um post em que alertava precisamente para o excesso de ênfase que é colocado na instrumentalização dos cursos universitários às necessidades imediatas do mercado. O mercado muda demasiado depressa para que as universidades consigam produzir licenciados que correspondam às suas necessidades profissionais imediatas. O que as universidades têm de formar para o mercado (e é isso que está subjacente à afirmação do "caçador de cabeças") são licenciados capazes de se adaptar às constantes mudanças profissionais exigidas pelo mercado actual e susceptíveis de corresponder às suas crescentes exigências de criatividade, autonomia e responsabilidade. O erro de Rui Tavares está em presumir que é esse tipo de licenciado que as nossas universidades estão a formar. Na verdade o nosso modelo de ensino e organização universitária é concebido, ao contrário do que muitas vezes se diz, à luz do paradoxo "profissionalizante" e "curricular". Isto é assim por duas razões fundamentais. Por um lado, muitos cursos foram criados e concebidos precisamente para corresponder ao paradigma de formar pessoas para as necessidades profissionais actuais do mercado (o que acontece é que o mercado mudou e os cursos não). Por outro lado, a ênfase na estrutura curricular "totalitária", o modelo magistral de ensino e, no geral, o atraso pedagógico e metodológico que domina a maior parte das nossas licenciaturas (e que promove um modelo de licenciado oposto aquele que tanto eu como o Rui Tavares defendemos) é mais um produto das estruturas de poder existentes nas nossas universidades.
Dito isto, não nego que também existem problemas sérios no funcionamento do nosso mercado de emprego. Frequentemente as empresas não seleccionam os melhores e isso é possível porque o nosso mercado sofre, regularmente, de um problema semelhante ao do nosso sistema público: falta de meritocracia (que no mercado é assegurada por uma genuína concorrência o que, por sua vez, necessita de mecanismos de regulação e supervisão adequados e de um sistema de justiça e de um sistema fiscal que funcionem, de forma a prevenir distorções de concorrência). É por isso que também não se pode confundir a existência de um sector privado com a existência de um mercado….

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terça-feira, 18 de Março de 2008

Dia Azur

Entre os dias de um meeting internacional de imobiliário e uma vaga num avião para regressar, abriu-se-me a oportunidade de um dia praticamente livre. Deixamos o Palais des Féstivals na Croisette por volta do meio-dia e meia e de olhos postos nas placas indicativas das direcções, acelerámos num Fiat sem GPS até St. Tropez.

O micro clima da Côte d’Azur é uma ilha solarenga e acolhedora rodeada de chuva, vento e temperaturas baixas. Há lugares sempre cruzados de mito na sua realidade. A beleza da paisagem na aproximação a St. Tropez a partir de Cannes sugeriu-nos uma paragem em Grimaud onde em sexta-feira de Quaresma uma salada serviu de almoço e de descanso numa esplanada exposta a sul. Passeio entre as ruas empedradas de Grimaud, visita às ruínas do castelo medieval no cimo do monte, algumas reflexões sobre a arquitectura do lugar: a sensação de estar num Paraíso. A sensação de estar num mundo eterno, que nunca mudará porque nunca precisará de mudar. A quietude que tranquiliza, que nos devolve a nós próprio, que, por isso, trás paz. Pergunto-me se seria da escala humana, se seria da noção de proximidade, ou se seria o conforto do corpo e do olhar em relação ao que toca e ao que vê? Seja o que for, há uma beleza indizível nos lugares que parecem terem sempre sido como são e que se presume nunca deixarão de ser o que são. Quando, por algum mistério, que não podemos compreender, reconstruímos na Terra uma imagem do Paraíso, uma paz segura, forte e duradoura se revela dentro de nós e então dizemos para nós próprios: “Et in Arcadia Ego”.
Descemos para St. Tropez, deixámos o carro logo à entrada no parque do porto e perdemo-nos pelas ruas deitando o olho ao comércio local entre as grandes marcas e os souvenirs de pechisbeque. Seguimos depois para a zona da praia e, junto ao Mediterrâneo, prolongámos o movimento do corpo até ao cemitério, pousado na meia encosta debruçada sobre o mar do meio. O imobilismo e o silêncio do cemitério, encarando o imobilismo e o silêncio do mar fechado, do mar da civilização! Não era a morte que por ali pairava, por entre as cabeceiras de pedra dos túmulos as quais, como ameias de um castelo, se sucediam coroando as vistas a estes dois viajantes acidentais.
Viajantes acidentais, eu e um velho amigo, cruzámo-nos, naquele princípio de tarde em St. Tropez, em frente ao Mare Nostrum com as memórias de centenas de vidas que terão, se Deus já lhes tiver dado essa glória, conhecido o Paraíso de que eu tinha acabado de ter apenas um vislumbre lá no alto de Grimaud entre as ruas empedradas e as trepadeiras que cobriam as fachadas das casas. Cruzámo-nos com os seus sorrisos estampados nos seus rostos, em fotografias que, os que os perderam, vão renovando com carinho e ternura e assim, também, de algum modo, imortalizando. É a eterna luta pela imortalidade, é a memória a vencer, o esquecimento, o sono e a morte.
Lemos palavras ridículas, as próprias fotografias, algumas, são ridículas, para nós que vimos de longe no tempo e no espaço e estamos longe daquela intimidade amorosa em que as palavras mais ternas e saudosas têm assento. Porém, parando e pensando, começamos as ver nisso uma intensidade amorosa difícil de recusar. Aqueles sorrisos parados, imóveis, retirados ao fluir da existência (a fotografia é sempre um sinal de morte) falam-nos, talvez, de uma interrupção, como se, noutro lugar, um dia os pudéssemos reencontrar devolvidos ao seu movimento. Terão sido bons, terão sido maus, perante a morte não há discursos morais. Cada homem é no mundo, e já fora dele, uma criação irrepetível, uma poderosa afirmação sem contrário, uma presença que transcende todo o discurso moral sobre a pessoa o qual não é mais do que o produto do medo e da perturbação que a presença do desconhecido em nós provoca, Como o riso é o medo da morte.
Gostei de passear entre os mortos. Senti-os, inesperadamente vivos, ali no cemitério de St. Tropez. Vidas colhidas em plena entrega e cheias de audácia, vidas absurdamente interrompidas por um acidente inexplicável, uma criança de nove anos — Dai-lhe Senhor o eterno descanso nos esplendores da luz perpétua. O que vale a vidinha, ali onde só importa o triunfo sobre a morte? Deram-lhes o mar para olhar, e a nós que ali passamos de modo imprevisto, um pedaço de tarde inesperado e improvável, que nos confortou a alma entre ameias de pedra feitas com as cabeceiras dos túmulos.
Regressámos em silêncio à vila, ouvindo o pio de um mocho que não descortinámos. Vimos o sol descer e alongar as sombras dos edifícios sobre as praças e sobre os outros edifícios. Vimos pequenos grupos a conversar. Tudo esteve calmo e tranquilo naquela tarde de sexta-feira de Quaresma sob o céu infinito em frente ao mar da Cote d’Azur.

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Quid est veritas?

Neste estranho mundo em que vivemos poderá parecer estranho que aqui vos venha falar da Páscoa. Mas é mesmo da Páscoa que venho falar, a partir da excessiva riqueza das leituras do Domingo de ramos, este ano recontado pelo evangelho de São Mateus.
Tudo se passa em torno da relação que Jesus nos exorta a estabelecer entre os dois reinos em que naturalmente existimos: o dos homens e o de Deus. A questão, porém, não está em escolher entre a soberania de um ou de outro – pois que ambos são bons –, mas em saber vivê-los de uma forma ordenada. Melhor: em saber ordená-los para a verdadeira vida.
É interessante notar, nesse sentido, como Mateus nos conta a história da prisão de Jesus. Tudo começa com a pergunta que Judas faz aos sumos sacerdotes: «Quanto me dareis se eu vo-lo entregar?» A resposta é conhecida: Trinta moedas de prata! Consumada a traição, os sumos sacerdotes – representantes do poder espiritual – entregam Jesus a Pilatos – representante do poder temporal –, o qual, apesar de o saber inocente, não vê nele nada a ganhar, pelo que prudentemente o entrega à morte.
No dia seguinte, já morto Jesus, tendo-se reunido os sumos sacerdotes com Pilatos, «disseram-lhe: “Senhor, lembrámo-nos de que aquele impostor disse, ainda em vida: ´Três dias depois hei-de ressuscitar.´ Por isso, ordena que o sepulcro seja guardado até ao terceiro dia, não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ´Ressuscitou dos mortos.´ Pois seria a última impostura pior do que a primeira.” Pilatos respondeu-lhes: “Tendes guardas. Ide e guardai-o como entenderdes.” E eles foram pôr o sepulcro em segurança, selando a pedra e confiando-o à vigilância dos guardas.»
O sentido, portanto, é claro: sempre que, tal como Adão, decidimos desobedecer a Deus, erigindo a nossa vontade em absoluto e sujeitando tudo ao nosso próprio interesse, pervertemos a ordem natural das coisas, transformando-nos em meros guardiões da mentira e da morte.
Imediatamente contraposto a este exemplo de Judas, porém, aparece o de Jesus, que, a igual pergunta, no deserto (onde o diabo, mostrando-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, tudo lhe prometeu se ele o adorasse), respondeu: «Vai-te Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás.» O reino de Deus, porém, é tão frágil como um grão de mostarda, o qual, para dar frutos, tem que morrer. Mas crescendo «cria grandes grandes ramos, de tal maneira que as aves do céu se podem aninhar sob a sua sombra.»
Jesus, portanto, é aquele homem que, como qualquer um de nós, sofrendo perante a mentira e a morte, reza, pedindo a Deus: «Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice.» Mas imediatamente acrescenta: «Não seja, porém, como eu quero, mas como Tu queres.» E prescindindo de todas as espadas deste mundo, submete-se à vontade de seu Pai, tornando próximo o reino de Deus pela livre entrega de si mesmo à morte para salvação de todos os homens, assim se revelando o guardião da verdade e da vida.
Estes dois exemplos são extremos. No entanto, poucas vezes, nas nossas vidas, os acontecimentos têm esta clareza de vida e de morte. Ao contrário: o mal aparece sempre como um bem e o bem surge frequentemente como um mal. A escolha, porém, tem que ser feita, já que, ultimamente, somos mortais. Aqui, portanto, somos colocados perante a radicalidade de uma escolha que envolve toda a nossa vida – a que foi, a que é e a que há-de ser!
A Páscoa, assim, é um convite para uma liberdade maior, que Jesus transporta do âmbito comunitário, ou familiar (como aparece no livro do Êxodo), para o coração de todos e de cada um dos homens. A questão, no fundo, é esta: que liberdade queremos nós? A liberdade do reino dos homens ou a liberdade do reino de Deus? E a verdade é que tantas vezes, à pergunta de Pilatos – «Qual destes homens quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?» – respondemos como a multidão em fúria: «Barrabás! Barrabás!»
«Qual de nós te trairá, Senhor?» – perguntavam, perplexos, a Jesus os seus discípulos. «O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará» – respondeu-lhes Jesus. Todos nós, na verdade, somos traidores, porquanto, tal como Judas, e embora sempre agindo por bem, na intimidade do nosso coração tantas vezes pomos a nós mesmos à frente de Deus e dos outros.
Ora, a escolha da primazia do reino dos homens traz consigo o problema que Pilatos, aceitando libertar Barrabás, imediatamente se põe: «Que hei de fazer, então, de Jesus Cristo?» E a solução é apenas uma: matá-lo! Assim absolutamente entregue ao reino dos homens, porém, ninguém mais é merecedor de confiança. Por isso, perante a multidão desordenada, há que lavar as mãos, «dizendo: “Estou inocente deste sangue. Isso é convosco.”»
Assim, se tantas vezes o que parece mais fácil é perguntar, como Pilatos: afinal, «o que é a verdade?», o facto é que deste modo transformamos a vida num inferno. Com esta pergunta, de facto, transformo a mim mesmo em absoluto e a tudo o resto em relativo: nada mais há para esperar; ninguém mais para confiar: a minha liberdade será então proporcional à escravidão dos outros e eu serei somente o guardião da mentira e da morte.
Mas eis que a Páscoa aí está para nos lembrar: que liberdade queremos nós? É uma pergunta para todos os dias.

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«Geração de 60» - soma e segue...


O «Geração de 60» vai bem e recomenda-se. A partir de hoje, passamos a contar com o contributo do João Vieira Pereira, a quem damos as boas vindas!
Esperamos que o João se sinta em casa. Isto é, esperamos que escreva muito e que, escrevendo sempre, engrene neste espírito de diálogo livre e diverso que nos aproxima.
Por outras palavras, e no essencial, que ninguém se permita insinuar que ele é menino da geração de 70...

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Greenspan II

Greenspan disse nos últimos dias que esta seria a pior crise financeira internacional desde o fim da segunda Guerra Mundial. O que não disse é que ele pode eventualmente vir a ser considerado um dos responsáveis por isso. Esta conclusão era o corolário do longo post que há dias escrevi sobre o legado do antigo governador do Fed. Peço desculpa por voltar a esta vaca fria, mas tinha que guardar isto em algum lado e este parece um bom sítio.

Aquilo que de mais importante se pode dizer relativamente à acção de Greenspan é que ele contribuiu de uma forma decisiva para aumentar o grau de flexibilidade da politica económica e monetária norte-americana e, por essa via, aumentar o grau de flexibilidade dos mercados financeiros e da economia em geral. Por exemplo, ao tornar a politica monetária menos sensível ao andamento de determinados indicadores macroeconómicos, Greesnpan deu uma maior discricionariedade às intervenções do banco central, dando por isso mais espaço para que os mercados se ajustassem a alterações nas condições de oferta e de procura.

Ora, a contrapartida de uma economia mais flexível é que, sendo as condições favoráveis, ela cresce mais depressa. Todavia, em condições desfavoráveis, ela pode também reagir negativamente de uma forma mais acentuada.

Isto pode ser dito ainda de outra forma: a grande flexibilidade dos mercados financeiros imposta por Greenspan – e aceite pelo povo – permitiu um grande crescimento do crédito à actividade económica e ao investimento, a qual chegou às classes de menores rendimentos. Esse segmento de mercado necessitava de uma maior vigilância por parte das autoridades financeiras, a qual não foi feita porque o Fed não estava atento aos sinais de cautela do costume. Isso acabou mal, como se viu, e acabou por afectar o resto da economia norte-americana, começando pelos bancos, depois a bolsa e agora os restantes mercados. “No problem”, terá pensado Greenspan, “quando for preciso injectamos dinheiro e os mercados reequilibram”. Só que o efeito parece ter ficado fora de controle.

A projecção externa da crise norte-americana decorre simplesmente do peso que ela tem na economia mundial.

Punha-se a questão de saber porque é que a Europa fugia destas soluções de maior flexibilidade. Uma das razões faz seguramente jus ao facto de ser um velho continente, com populações mais estáveis socialmente, mais velhas e mais avessas ao risco.

Grau de certeza sobre o que ficou dito: 83%.

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Gostos fatiados - segunda fatia

Gosto de magnólias, gosto das magnólias que habitam - e, cada vez mais, habitam - o Porto.
Gosto em especial da flor que vai da cor de vinho ao lilás, passando pelo rosa fúxia, pelo roxo, pelo rosé.
São pétalas que, na cor e na carne, ano atrás de ano, anunciam a quaresma e prenunciam a paixão.
Gosto de magnólias. E acima de todas, pondo de lado as brancas, da magnólia gigante mas invulgarmente esguia, que, agora podada e de há muito cercada pela sombra, começa a despontar na casa da minha infância.

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segunda-feira, 17 de Março de 2008

Gostos fatiados - primeira fatia

Gosto da chuva, contínua e miúda, "molha-tolos", do Porto
Gosto das revoadas de nevoeiro e da cor névoa que não levanta
Gosto desse granito gasoso que nos inunda de Atlântico.
Hoje é um desses dias.

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domingo, 16 de Março de 2008

Ainda o Problema da Educação Nacional

«Os Homens nascem para serem livres, vários e ociosos», escreveu Orlando Vitorino, naquele tão característico poder de iluminante provocação como só mesmo o autor de «A Refutação da Filosofia Triunfante» era capaz de fazer.




Paulo Catrica, do livro «Os Liceus», 2005

Nascidos os Homens para «serem livres, vários e ociosos», significa antes de mais, nascidos não serem para funcionários públicos ou da vida, como nos dias de hoje parece ser a única finalidade para a Educação que ocorre à mente dos nossos muito ilustres governantes.

Mas se isso sucede, só sucede também porque sucede ninguém se ter oposto com a veemência necessária para acabar de vez com o Ministério da Educação e, persistindo este, persistindo neste erro, persistirão todos os perversos equívocos actuais no que à Educação respeita.

Prorrogativas do Estado são o Poder Legislativo, o Poder Executivo e o Poder Judicial. Em parte alguma se dirá constituir-se como prorrogativa do Estado o Poder Educativo, a não ser, como é evidente, em Estados Totalitários ou de cariz totalitarizantes, como se verifica na actualidade com o Regime Socialista que, de todos fazendo meros servos, nos subjuga e esmaga até ao limiar da mais pura escravidão.

Escusadas, aqui, subtilezas de distinção entre Educação e Instrução, admitindo ainda a possível e eventual de existência de um Ministério da Instrução mas nunca de um Ministério da Educação, porque, na confusão mental de hoje, acima de tudo quanto parece suceder é serem já muito poucos, se alguém ainda há, de quantos com responsabilidades políticas que preparados estejam para compreender tais subtilezas.

Tal, porém, não sucede por mero acaso mas por bem sucedido desígnio iniciado com a Reforma da Universidade efectuada pelo famigerado Marquês de Pombal, tendo em vista não apenas a expulsão do «abominável» Aristóteles de todo o Ensino mas separar a Educação de toda a mais verdadeira Tradição Nacional, de modo a impor um Iluminismo de cariz Maçónico, i.e., um abstracto universalismo em completa contradição com a individualidade nacional, destruir a seu belo prazer a velha aristocracia, que odiava, reorganizar a «sociedade» e formar um novo «escol» de dirigentes obedientes às novas Luzes e aos seus arbitrários desvarios.

À Universidade Iluminista seguiu-se a Universidade Positivista, substituída mais tarde pela Universidade Marxista até terminar no caos em que nos encontramos, uma mescla esquizofrénica de Pragmatismo Utilitarista, venerando e exaltando, em simultâneo, Marx, Freud e Nietzsche. E sendo o Ensino, ou o agora designado Sistema de Educação, o que a Universidade for, percebe-se facilmente como e porquê viemos a aportar à loucura actual.

Não por acaso, repetimos. Se hoje se diz que importamos o Modelo Finlandês, Sueco ou seja lá o que for, tampouco alguma relevância tudo isso tem a não ser manter-se, em essência, o mesmo disparate e um mesmo tenebroso propósito e desígnio: a imbecilização dos portugueses e a destruição de Portugal.

Hoje, nestes dias de induzida ignorância activa, defender a extinção do Ministério da Educação, pode soar, como é natural em tais circunstâncias, não apenas estranho, ideia peregrina, mas até a ultraje. No entanto, já em finais de Séc. XIX, escrevia Ferreira Deusdado: «A educação do Estado não pode fazer nem bons mestres nem bons sacerdotes. Pode todavia fazer bons soldados como outrora fez a dura e despótica república da Lacedemónia, e pode fazer legiões de livres pensadores, educando-os no fanatismo anti-religioso, como está fazendo hodiernamente a tirânica e dissolvente república francesa. A educação religiosa, a educação moral e ainda o ensino geral intelectivo pertencem aos pais, é um direito sagrado do pátrio poder... Nós, povos latinos, arvoramos deploravelmente o Estado em panaceia, crendo-o atalaia da vida contra as hostilidades da morte. Em matéria ensinante, ao Estado pertence unicamente o ensino profissional ou técnico, como as escolas de guerra, marinha, etc., que não influem na íntima formação moral do homem.»

Ferreira Deusdado, uma figura hoje completamente esquecida como, uma vez mais, não por acaso, sucede a todos quantos representam a verdadeira tradição nacional, escreve ainda no seu artigo «Ensino Livre Perante o Estado», na Revista de Ensino e Educação, em 1886: «A moral sem religião é uma quimera; ora, o ensino da moral, ministrado pelo Estado, não pode, segundo publicista modernos, ser religioso, porque então fere a liberdade de consciência dos ateus e dos que professam uma fé diferente da do Estado», interrogando, a determinado passo, «Qual o fim dum governo inteligente em matéria de instrução pública? É educar o povo para que por si próprio se vá habituando a esperar tudo da sua iniciativa e não do poder central».

Mais de um século transcorrido e as mesmas palavras ainda hoje se aplicam, ipsis verbis, à questão da Educação _ afinal, os erros do passado persistem tanto quanto persistem os mesmos nefastos propósitos de escravização dos povos. Em nome da quimérica, ateísta e criminosa igualdade, uma mesma Educação para todos, para todos tornar em transformar em venerandos e obrigados servidores de um mesmo omnipotente Estado.

Hoje, em certos aspectos, a situação afigura-se mais difícil. Hoje não há já um Leonardo Coimbra como Deputado e sabemos não apenas improvável mas completamente impossível ouvir um discurso, como o pronunciado em 1919 sobre «A Questão Universitária», onde, depois de discorrer e demonstrar a traição da Universidade perante o heroísmo dos soldados portugueses combatentes da Grande Guerra, afirma: «A Universidade falhou nesse momento porque não a animava um nobre espírito de liberdade, uma lúcida compreensão humana da grande experiência de dor e amor que se ia fazendo. Um nobre espírito de liberdade, disse eu. Sim. Essa capacidade de quebrar a coesão psíquica de sentimentos e ideias, de aproximar com originalidade ideias, sentimentos afastados, é a melhor parte da liberdade».

Paulo Catrica, do livro «Os Liceus», 2005

Hoje, que noção terão os senhores deputados da liberdade quando aceitam, sem pestanejar, a indignidade da «disciplina de voto»? Por certo, nenhum. Mas Leonardo, o grande Leonardo, um verdadeiro português, um verdadeiro homem livre, continuava: «As Universidades serão, pois, os templos da liberdade; mas templos de um deus vivo e criador, diligente e alerta, como imenso coração oculto continuamente animando a imensidade dos seres e dos mundos, Esta liberdade não é a faculdade de ensinar todas as doutrinas e deixar contestar todas as afirmações, como gravissimamente errando disse um senhor deputado nesta câmara... Essa falsa liberdade é simplesmente uma caricatural inversão da verdadeira liberdade. Fazer uma discussão em torno de habilidades é simplesmente esquecer que o alimento espiritual da liberdade é a procura da verdade e não da simples vitória verbalista». E terminava, rematando de forma eloquente: «Senhor Presidente: - O homem, que tem sede, precisa de saber onde as fontes de mais fresca e límpida água; o político carece de saber que só vale pelo quanto seja representativo do seu povo, pela parcela de patriotismo eterno que lhe more dentro do peito.»

Ah!, o grande Leonardo. Mas «procura da verdade»? Ser «representativo do povo», essa massa ignara? «Patriotismo»? Onde é que já se viu tanto disparate junto? Dêem-nos estatísticas, falem-nos do PIB, remunerações... agora «procura da verdade», ser «representativo do povo», «patriotismo», poupem-nos, por favor. Não é para isso que serve a Universidade. A universidade serve para passar alvarás, para garantir um bom lugar na vida e uma existência bem passada. Tudo o mais, pouco importa. São os tempos.

Nem valerá já a pena voltar a falar em Álvaro Ribeiro, outro proscrito pela Universidade, como exposto no comentário deixado ao significativo texto («postal»?) da Sofia Galvão aqui para trás, nem sequer no sempre admirável Teixeira de Pascoaes, entre outros passíveis de serem citados, incluindo o sempre não menos igualmente admirável Fernando Pessoa que não consta, felizmente, título universitário algum possuir e, talvez por isso mesmo, ou inversamente, tão genuinamente português pôde ser e o foi realmente.

Não haja ilusões, enquanto não se acabar com o Ministério da Educação, alteração alguma essencial irá ocorrer. Não haja ilusões, enquanto não se extinguir o Socialismo que, impossível será acabar com o Ministério da Educação. Não haja ilusões, enquanto não nos livrarmos dos dirigentes políticos que hoje dominam omnipresentes em toda a República, não será possível extinguir o Socialismo que, a todos, subjuga, esmaga e escraviza e, por consequência, igualmente impossível será acabar com o Ministério da Educação que, pouco a pouco, vai destruindo todos os alicerces da Nação Portuguesa.

Da Educação, o Primeiro-Ministro não tem a mais vaga noção do que verdadeiramente seja. Tampouco a Ministra da Educação sabe o quanto tal conceito verdadeiramente significa. Como Socióloga, ou seja, praticante dessa falsa ciência nascida do materialismo com primordial finalidade conduzir os povos ao ateísmo e à mais completa negação da individualidade, jamais poderá ter. E, claro, entretanto, o Senhor presidente da República, apela majestaticamente à «serenidade» e remete-se a um prudente e providencial silêncio, afinal, pouco terá também a dizer e, em tais circunstância, mais vale, nada dizer.

Como muito bem afirmou Leonardo Coimbra, em acordo com a mais funda e verídica tradição portuguesa, Educar é, antes de mais e acima de tudo, formar homens livres. Não por acaso, temos a Educação que temos.


Parafraseando Jung, resta-nos uma esperança: nunca a Educação realizar todo o «bem» que gostaria nem todo o mal que tememos. Por isso mesmo, há ainda, felizmente, homens livres em Portugal, e, cremos absolutamente, homens livres continuará a haver porque a Educação passa, antes de mais, de pais a filhos e, homens livres, homens verdadeiramente livres, homens livres não deixarão de gerar também. Toda a nossa esperança nisto mesmo reside. Em nada mais.

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sábado, 15 de Março de 2008

Amazonas e Cow-Boys

Pela graça que acho ao que leio aqui, acabei enredado numa teia de cumplicidades que me fez acabar aqui, num novo site, onde 7 cow-boys escrevem, um por dia, sobre coisas de homens. Às terças, disparo eu. O Pnet Homem, assim se chama o site, tem um o seu correlato objectivo, como diria Eliot, aqui, no Pnet Mulher onde 7 amazonas discorrem sobre o dito, e se calhar mal digo eu, eterno feminino. Estão os dois, a partir de agora, abertos ao excelentíssimo público. Apareçam e comentem.
Andamos em ensaios há uns dias e apeteceu-me começar assim:

Uma Solidão de Joana D’Arc

Das pontes que sobrevoam o Sena, a Alexandre III é a minha favorita. Não admira: beirão e camponês, com duas décadas de trópicos, para mim tudo o que brilha é ouro. Há dias, lia os jornais franceses. Os desenjoativos Monde e Figaro. Percebi que, à lenda dos 107 metros de comprimento desta ponte dourada que homenageia o czar de que herdou o nome, se vai acrescentar agora o mistério e a certeza da morte de uma princesa africana.
Katoucha Niane, nascida em Conacry, brilhou, a ébano, seda e ouro, nos desfiles de moda dos anos 80. E mesmo eu, que sou resolutamente um homem sem virtudes, arrogo-me a capacidade e a imodéstia de lhe admirar a beleza. Katoucha tinha uma beleza prodigiosa. Real. Foi a musa inspiradora de Yves Saint-Laurent. Desaparecida no primeiro dia de Fevereiro, o seu corpo lindo e longilíneo apareceu a flutuar nas águas do Sena, no que deveria ter sido, não fora ser o ano bissexto, o último dia desse mês cinzento e frio.
A que propósito vem o obituário, e logo subscrito por quem vos prometeu boa vizinhança e um destemperado optimismo? Há um patético na ocorrência que toca a minha, e julgo que a vossa, masculinidade. Katoucha – essa mulher deslumbrante que aos 9 anos foi vítima de excisão – vivia sozinha num barco de luxo, ancorado num cais junto à ponte que à noite é iluminada por 14 candelabros de bronze. Terá, por acidente, caído ao leito gelado do rio que não divide Paris. Não havia ninguém com ela, ninguém no rio, ninguém na ponte Alexandre III.
A solidão de Katoucha é o clamoroso anúncio do fracasso de todos os homens. Além de bela, era uma mulher inteligente, com personalidade forte. E deitava-se sozinha, num barco sumptuoso, em cima da palpitante cama de água que é o Sena.
Quero crer que vivemos um tempo de arrefecimento afectivo global. Em Paris, milhões de homens atarefados em jogos improváveis e, como diria o cronista Nelson Rodrigues se fosse vivo, “ela ali, erecta, numa solidão de Joana d’Arc”. Cabe-nos a todos nós, homens, uma fatia da culpa da solidão que afogou esta mulher.
Katoucha habitava sobre as águas, ela que nem sabia nadar.

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Deixem o meu umbigo em paz!



«Os piercings na língua e "na proximidade de vasos sanguíneos, nervos e músculos" vão ser proibidos. Para os menores de 18 anos a interdição é total - "é proibida a aplicação de piercings, tatuagens e de maquilhagem permanente".

Novas regras que constam de um projecto de lei avançado ontem pelo PS, que pretende regulamentar a colocação de piercings e tatuagens - um documento que visa sobretudo os estabelecimentos que realizam estas operações, mas com fortes implicações para os utilizadores. De acordo com a proposta socialista, quem faça uma tatuagem ou coloque um piercing terá que passar a assinar uma declaração de consentimento (confidencial, que terá de ser arquivada por um período de cinco anos).»


Há notícias que dispensam comentários. Depois da famigerada Lei do Tabaco, depois dos desvarios da ASAE, eis que a cruzada sanitária se vira agora para os «piercings». Independentemente da posição que cada um de nós tenha sobre esta prática (e eu não lhe reconheço sequer um encanto antropológico), o que importa é perceber o carácter aterradoramente iliberal da proposta.
São cabeças totalitárias estas que nos governam. E isso assusta-me muito mais do que o deficit.

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sexta-feira, 14 de Março de 2008

As opiniões de Larkin

E como andamos a proclamar gostos, este é o meu poeta favorito. Philip Larkin. Aqui, pode ler-se uma resenha inteligente e certeira – escrita pelo seu biógrafo, Andrew Motion, outro poeta. O crítico não esconde que Larkin é hoje atacado pelo seu insidioso gosto pela pornografia, pelas suas opiniões racistas, pela forma grosseira como se referia às mulheres, pela sua repugnância por toda a Europa. Mas não deixa de nos avisar também que “Ele disse aos seus leitores verdades difíceis sobre as suas vidas – que o amor se extingue, que falhamos oportunidades, que não escapamos à morte – mas disse-o de uma maneira que é estranhamente consoladora na sua honestidade”. Eu, que remédio, admiro-lhe os vícios e as virtudes.

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De quem eu gosto...

Este post, com letra de Maximiano de Sousa (conhecidíssima na música de Artur Ribeiro e de Ferrer Trindade, cantada por Amália Rodrigues), é inteiramente dedicado ao Manuel Fonseca e às suas provocações (nas quais aparece subtilmente coadjuvado pela Sofia Galvão). Pois bem, meu caro Manuel:

«Não queiras gostar de mim
Sem que eu te peça,
Nem me dês nada que ao fim
Eu não mereça
Vê se me deitas depois
Culpas no rosto
Eu sou sincero
Porque não quero
Dar-te um desgosto

De quem eu gosto
nem às paredes confesso
E nem aposto
Que não gosto de ninguém
Podes rogar
Podes chorar
Podes sorrir também
De quem eu gosto
Nem às paredes confesso.

Quem sabe se te esqueci
Ou se te quero
Quem sabe até se é por ti
que eu tanto espero.
Se gosto ou não afinal
Isso é comigo,
Mesmo que penses
Que me convences
Nada te digo.»

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Agora gosto eu

Gosto do mar
E de nadar
Gosto de sentir saúde
Gosto de livros
Dos livros do John Irving
De Rugby e da Irlanda (onde nunca estive)
Do Sporting
Gosto do Koffi Annan e do Nelson Mandela
Da dignidade e da coragem
Gosto do John McCain (presidente ou não presidente)
Gosto de jantares de amigos
E de reuniões de família
Gosto da MINHA família
Dos meus filhos acima de tudo e todos
Gosto de vinho tinto
E de bife tártaro (no Eduardo’s)
Gosto do Belcanto
Gosto de tradições
Da bandeira da monarquia
De carros antigos
Gosto de Vespas (das motos, bem entendido)
Gosto de andar a pé
E de estar descalço - mas gosto de (bons) sapatos
Gosto do estilo do Gianni Agnelli
Gosto do Churchill
Gosto da Spectator
De lojas tradicionais para homem (barbearias e alfaiatarias)
Gosto de Londres
Gosto de rir
De acordar cedo e do nascer do sol
Gosto do sol mas de o gozar à sombra
Gosto de Cascais e da praia do Guincho
Gosto de bandas sonoras
Gosto da Diana Krall
(Mas mais da Mariana)
Da inteligência dos outros
Gosto de escrever (mas escrevo pouco)
De cadernos Moleskin e de lápis afiados
Gosto de obituários
Gosto de memórias

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Regressar a Casa

. Gosto da Liberdade
. Do Mar, mas sobretudo do Mar do «meu» Pico
. De Roth, de Llosa e desse grande injustiçado da literatura portuguesa que é Ruben A.
. De iscas e de croquetes
. De adormecer a pensar naquele último abraço do Tiago
. Da estética de Visconti, do ecletismo de Kubrick e da «toughness» do homem que um dia disse que os seus filmes eram sobre cowboys e não tinham qualquer mensagem. Bang, bang!
. De uma sesta ao Sábado, embalado pelo som singularíssimo de uma casa de família
. Da doce nostalgia dos escritos de João Bénard da Costa
. De uma boa discussão política cheia de fumo
. De correr o Mundo com a Inês
. Do «The Economist», do NYT e do «Times of India»
. De «Blake e Mortimer»
. De Férias Grandes e do Liceu Francês
. Do Chalana (também), do 6 a 3, e da temporada europeia de 88/89
. Do Ansel Adams e de não me levar a sério
. Do Jardim do Príncipe Real e de Laranjina C
. Da suave decadência do Belcanto e de Bebop
. Da «Carta de uma desconhecida», de Lang, de Murnau, de cinema mudo sueco e do Tom & Jerry
. De ir ao barbeiro e de uma imperial gelada
. De rever, vezes sem conta, o «Ratatouille» com o meu filho e um saco de gomas.
. Da saudade dos Verões sem praia de Ponte do Lima
. Do «Sympathy for the Devil»
. De regressar a casa

(mais)

Fim de tarde em Camogli

Gosto mesmo, mesmo é:

- dos fins de tarde em Camogli, uma aldeiazinha piscatória a sul de Génova

- da barriga das pernas e do umbigo da Alexandra

- de rebuçados ácidos Heller

- de ver o C. Ronaldo a levitar a perna esquerda duas vezes por cima da bola antes de enterrar o ego de alguém com a perna direita

- da maneira como o Truffaut punha o cinema antes da vida

- da maneira como o John Boorman põe a vida (e a música invisível da vida) antes do cinema

- das bolachas de areia da Cunha (circa 1980)

- dos domingos no carro a debitar idiotices com o Zé e o Paulo

- das tardes na praia do Barril onde a coisa mais importante do mundo era não fazer nada

- do "Laughter & Forgetting" do David Sylvian

- de dançar Heroes del Silencio às 5 da manhã quando as imperiais me impedem de ver se quem tenho à frente é uma bailarina nórdica ou o vocalista dos Mettalica

- do "Blade Runner" com três gotas de Johnnie Walker Blue Label a mais: "I' ve seen things you people wouldn't believe..."

- de gelado de menta com chocolate e chantilly caseiro

- do meu roupão, que qualquer empregada sensata já teria deitado fora (não é o caso da minha)

- de um cigarro (um só) ao ar livre nas noites de Verão que nunca acabam

- de tomar banho nu no mar, à noite (só para tarados que gostavam de ser o Michael Phelps quando forem grandes)

- da sensação, absolutamente intraduzível, de marcar um golo de calcanhar (é um bocadinho como se nos crescesse um "S" gigante no peito e uma capa vermelha nas costas)

- de escrever guiões para cinema - é como ser Deus com um metacarpo desenvolvido e um aguçado sentido sadomasoquista por não haver dinheiro para aquele épico de sete horas e um quarto sobre uma nova raça de insectos humanos que está guardado na gaveta das meias desde os quinze anos

- de viver. Há melhor surto de adrenalina?




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quinta-feira, 13 de Março de 2008

Interlúdio desportivo

O maestro despediu-se da Europa com uma enorme pateada na sala. Não merecia esta sorte. Mas a verdade é que a orquestra é fraca e o director do teatro percebe muito pouco da arte.
Vou fazer por esquecer a noite de ontem rapidamente. Na minha memória selectiva (que luxo supremo!) guardarei apenas os solos irrepetíveis com nos foi brindando ao longo de uma grande carreira.

PS: Notem bem as coisas pirosas que um homem diz por amor ao clube!

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quarta-feira, 12 de Março de 2008

O GRAU ZERO DO MACHO



Há dias atrás um post do Pedro Norton - “Terapia de Choque” - chamava a atenção para um site denominado weirdnews.

A curiosidade levou-me lá, imediatamente, e levou-me também, confesso, ao choque.

A primeira “noticia estranha” (numa tradução livre do nome do site) tinha o seguinte título: “Study Shows American Men Gradually Doing More Housework, With Sex As A Payoff”.

Pensei para mim: atingimos o grau zero do macho, o nível mais baixo da história do homem (homem definitivamente com h pequeno…).

Pensei na tristeza da vida daqueles homens que, cheios de lascívia, dedicam as tardes de fim-de-semana a engomar as camisolas dos “pequenos” na esperança (sempre incerta) de uns eventuais favores nocturnos (neste caso, verdadeiros favores).

Pensei quantos pratos teriam de lavar, quantas camas de fazer, quantos retretes de desentupir, para chegar aos mínimos que lhes permitem (?) conseguir umas beijocas larocas, umas carícias mais ousadas, uns abraços mais apertados.

Não pensei (não quis pensar…) no que teriam de fazer por uma cena um tudo nada mais kinky.

Deprimente.

Mas, depois, pensei mais, pensei “Mas que raio de mulheres são estas que trocam faxina por sexo?”. E se serão muito diferentes de umas outras que trocam dinheiro pelo mesmo fim. Ou, melhor, o mesmo fim por dinheiro. E no embuste que é entrar num casamento de peito aberto e coração cheio e acabar de avental para ter o que se esperaria ser normal receber. De graça e por amor.

Ainda mais deprimente.

Pensei também ”Isto é coisa de americanos”, homens sufocados pela pressão do politicamente correcto e com os cérebros lavados por anos (décadas!) de lixívia igualitária. Muita Oprah na cabeça (deles e delas). Demasiada Oprah.

Pensei finalmente que isto não será aplicável a todos os homens do mundo. Graças a Deus. Por exemplo, não se aplica, com toda a certeza, ao homo taganus, espécie conhecida pela baixa estatura, pilosidade exagerada e bafo a vinho e que habita, desde há milénios, nas margens do Tejo. Um exemplar destes, que se preze, jamais aceitaria uma coisa destas.
Não se rebaixaria – jamais! – a tamanha humilhação. O orgulho não lho permitiria.

Se a mulher lhe dissesse “Óh Zé António, vai-me esfregar o chão da cozinha ou ficas à fome a semana inteira”, o Zé António logo lhe diria “Sim, sim, lava-o tu que eu vou a Almeirim ver uns bezerros”, saindo de casa, no imediato, e voltando madrugada adentro, em bicos dos pés, com baton no colarinho e o fecho desapertado.

E seria bem feito. É que o homo taganus sabe, desde o tempo do Viriato, que aqueles que se rebaixam logo os outros lhes põem o pé em cima

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Do que eu gosto...


Eu?...
Eu gosto do mar!
E gosto do cheiro da terra molhada pelas primeiras chuvas;
De filmes de cowboys;
De olhos entregues;
De conversas à lareira;
De ter nascido;
Do Jeremy Irons;
Da Marguerite Yourcenar;
Das minhas memórias;
Do choro desesperado da criança a quem o vento roubou o balão;
Da capacidade de perdoar;
De Camões;
Do som do gelo no meu whisky;
Da Eunice em «Mãe Coragem»;
De gente que se importa;
Do meu País;
Da exuberância do amor;
De Mozart;
De ler o que outros pensaram;
Do futuro que sempre imagino;
Da Vanessa Redgrave;
Da emoção que me aperta a garganta;
Da Rita Blanco;
Da felicidade descoberta na compaixão;
De gente normal;
Da Bartoli;
De me encontrar no que outros escreveram;
De rir sem medida;
De um homem giro!;
De jardins, árvores e sombras;
De Picasso;
Da alegria da minha Mãe;
Da luz de Lisboa;
De sonhar;
Do poder do exemplo;
Da Graça Lobo em «Molly Bloom»;
De Jean Guitton;
De arroz de tomate;
Da vista da minha janela ao acordar;
Do “Déshabillez-moi”, pela Juliette Greco;
De jantar tarde no Hotel Costes;
De Sophia, sempre…

Do «Geração de 60» e
Do Manel que nos desafia ao atrevimento,
porque...
do que eu gosto mesmo é de gostar!

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Fim de tarde no Shutters on the Beach

Shutters on the Beach, one pico boulevard

Gosto

De olhar para ti;
Das “Palmeiras Bravas” de Faulkner;
Da Ministra da Educação;
Do “Ces Petits Riens” do Serge Gainsbourg;
De Deus nos seus momentos de volúpia;
De decotes;
Do Chalana;
Da “Estrutura das Revolução Científicas” de Thomas S. Kuhn;
De ficção;
Da notável honestidade gastronómica do Fiorde;
Das pernas das raparigas quando chega a Primavera;
Da “Carmen”;
De acácias e jacarandás;
Da língua portuguesa;
De Werner Heisenberg;
Da Debra Winger nos anos 90;
De sopa da panela com carne de borrego;
Dos Estados Unidos da América;
De 20 minutos à Benfica
Do atiçador na mão de Wittgenstein;
De beijar;
Do Millenniumbcp e da Caixa Geral de Depósitos, apesar de tudo;
De quem ama sem ressentimentos;
Do quarto Indiana Jones, e nem preciso de ver;
Da brilho do rio nas manhãs de sol, entre Caxias e Paço de Arcos;
De caramanchões e pérgulas;
De um mundo com ricos e pobres, pretos e brancos (todos diferentes, todos diferentes);
Dos filmes de Rob Reiner;
De golos de bandeira;
De um dry martini ao fim da tarde no Shutters on the Beach;
Do “Geração de 60

E ainda mais se os meus estimados co-bloggers se atreverem a repetir este diletante exercício.

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terça-feira, 11 de Março de 2008

educação e estatísticas

O Pedro Lains lembrou - e bem - que basta olhar para as estatísticas da educação para verificar que, trinta anos depois, estamos melhor. É verdade. Mas creio que o ponto não é esse. O ponto não é apenas onde estamos, mas outrossim onde poderíamos e deveríamos estar. E a esse propósito, estou convicto de que as estatísticas - pelo menos as que medem a democratização do ensino, a frequência e a disseminação dos graus- não ajudam muito.
É fácil atingir os 100% de escolaridade, se se exigir tão-só a presença física. É fácil completar o básico se não houver nunca reprovações e se se reconhecer a experiência de vida como qualificação automática.
O problema é ter quase 100% a saber ler, escrever e contar. O problema é ser capaz de criar uma classe média do conhecimento. O problema é dotar aqueles que têm menos apetências teóricas ou académicas de instrumentos profissionais úteis. E isso não se mede nas estatísticas. Pelo menos naquelas que tomam como referência as taxas de abandono ou os graus de escolaridade. Só nos rankings que medem o domínio da matemática, da língua materna, da língua estrangeira é que pode comparar-se. E aí Portugal está mal, muito mal. E não se vêem medidas para melhorar. Mais graus não significam mais conhecimento. Mais alunos não significa mais competência. As estatísticas, já se sabe, também servem para disfarçar aquilo que, hoje, nos primeiros anos da faculdade, nas caixas de supermercado, nas viagens de táxi e nas avarias domésticas se revela e documenta ostensivamente. Um país à beira do analfabetismo funcional.

E aqui o desenvolvimento.

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Revoltando à educação!

A manifestação de contestação à ministra da educação levada a cabo pelos professores tem-se vindo a tornar numa questão passional, segundo a qual as posições se vão extremando ou em favor dos professores e contra os seus sucessivos ministros, ou em favor dos governantes e contra os mestres dos nossos filhos. O genuíno entusiasmo das posições (aliás bem patente nos posts e respectivos comentários que aqui têm tratado o tema) parece ter criado nas almas de alguns a ideia da possibilidade de uma verdadeira mudança. Talvez... Mas para que isso aconteça é fundamental recolocar a questão.
O desencontro entre os professores e os seus governantes, na verdade, não é novo. A novidade expressa por esta manifestação é antes a sua força! Os professores revoltaram-se muito para além dos limites próprios da acção dos seus sindicatos e o governo resistiu-lhes muito para além das suas conveniências eleitorais. Ora, a importância deste movimento está justamente no facto de ter transcendido a mera questão laboral e de a educação se ter assumido como uma questão que interessa a toda a comunidade.
Não digo que a questão laboral não seja importante. Ao contrário, ela é quase tão antiga como a função, como se pode ver, na antiga Grécia, pela evolução conflituosa dos pedagogos (escravos que levavam os filhos dos seus amos para a “escola” carregando as suas coisas e iluminando o seu caminho) para os sofistas (mestres que ensinavam a ciência a troco de dinheiro). Mas afirmo que estes problemas laborais se devem compreender na questão mais vasta da educação, a qual diz respeito à comunidade – e não apenas aos professores e aos seus patrões.
É bom lembrar que, na sua origem, pedagogo (παιδαγωγός, de παίς: criança + άγω: levar) significava “levar a criança”, sentido que o latim manteve com o verbo educar (educare, de ex: de, a partir de + ducere: levar, conduzir), que quer dizer “conduzir a partir de algo ou de alguém”. Ora, este lugar de onde se parte e para onde se conduz diz necessariamente respeito a toda a comunidade, como muito bem expressa o termo latino professor (de profiteor = declarar-se publicamente; confessar; prometer), que significa “aquele que professa uma doutrina com a qual publicamente se compromete”.
É esta dimensão comunitária que, do meu ponto de vista, é preciso recuperar na educação em Portugal, substituindo-a à estatizante visão marxista que, permanecendo no seio da nossa administração pública, reduz todas as questões a um mero conflito laboral. Como fazê-lo? É simples: transcendendo a questão laboral e reclamando autonomia para as escolas!
É por isso, já o disse, que o actual movimento de contestação é importante – porque transcendeu a questão laboral. Vamos ver, porém, quanto tempo dura. Porque, perdoem-me os genuinamente entusiasmados, é aqui que os professores e a ministra estão de acordo: habituados que estão a uma luta meramente laboral, não querem uma verdadeira autonomia das escolas.
Autonomia, de facto, não quer dizer independência, mas a capacidade de determinar-se a si próprio, tornando-se responsável perante aqueles com quem estabelece, dentro daquilo que em cada momento é possível, laços de dependência. É isto que devem ser as escolas: comunidades educativas autónomas responsáveis tanto perante as comunidades que as envolvem como perante a estrutura que representam.
Só quando os pais, os comerciantes, os industriais, as associações e as autarquias quiserem e puderem, sob proposta das direcções das escolas, colaborar com elas na determinação do futuro dos seus alunos - assim obrigando a um relacionamento completamente diferente entre a escola e ministério da educação -, poderá haver uma verdadeira avaliação das escolas. E só quando as escolas forem assim avaliadas poderão – e deverão – os seus professores ser também avaliados. Porque então os destinos dos alunos, dos professores e das escolas estarão ligados.
A questão não é, portanto, neste momento, objectiva, isto é, o início da mudança não passa pela promulgação de mais decretos, como a experiência nauseabundantemente prova! A questão é subjectiva, isto é, diz primordialmente respeito ao agente da mudança. Mas o agente da mudança terá de transcender o momentâneo agrupamento dos professores, caso contrário será rapidamente reconvertido a uma mera questão laboral. Desgraçadamente, as nossas famílias não intervêm consistentemente, os nossos agentes económicos não investem estruturadamente, as nossas associações não têm força e os nossos partidos não têm visão.
O que podemos, então, fazer? Pouco. Mas isso é o que próprio dos homens – e dos portugueses também! Libertemo-nos das saudades deturpadas dos actos heróicos de outrora e comecemos por mudar a escola dos nossos filhos, do nosso bairro, da nossa freguesia. Associemo-nos para encontrar formas de melhorar as suas instalações e o seu funcionamento. Peçamos então à sua direcção que a escola nos sirva melhor, de acordo com as nossas próprias necessidades – e não as de outros estatisticamente imaginados. Mostremos depois o seu exemplo para que se possa replicar. E exijamos sempre o direito de fazer tudo isto. Assim começará a mudança. Será lenta, é verdade, mas eficaz.

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O Pêndulo de Leviathan

Há um consenso generalizado de que Alan Greenspan foi um dos melhores governadores do Sistema de Reserva Federal dos EUA. Estas avaliações levantam dúvidas, pois nunca se sabe o que teria acontecido no caso de o governador ter sido outro. Uma das dúvidas que se coloca, por exemplo, é se as taxas de juro não terão sido mantidas demasiadamente baixas, favorecendo o sobre-endividamento de algumas famílias, sobretudo das faixas de rendimento mais baixos. Uma outra dúvida prende-se com os efeitos da grande liberdade que Greenspan deixou aos mercados financeiros, uma vez que a ausência de controles suficientes poderá ter estado na origem da crise do “sub-prime”.

Esta última crítica é de fundo, dado que Greenspan tinha como filosofia de base a eliminação de muitas restrições aos mercados financeiros por forma a torná-los mais ágeis e por essa via tornar também a economia mais ágil. A filosofia económica de Greenspan aparece claramente nas primeiras páginas do seu excelente livro “A Era da Incerteza”. E aí se vê também as raízes do seu génio, as quais se prendem com uma enorme intuição sobre a forma como funcionam as economias de mercado desenvolvidas.

O livro começa com o 11 de Setembro, que apanhou Greenspan no ar, numa viagem entre Zurique e Washington. A história é contada de um modo muito interessante e revela a importância do Governador do Fed. O avião em que seguia teve de dar meia volta porque o espaço aéreo dos EUA e do Canadá foi encerrado, mas rapidamente Greenspan falou para a Casa Branca, pedindo transporte, aterrando no dia seguinte em Washington escoltado por dois caças.

Apesar dos planos de contingência terem sido imediatamente postos em prática por quem estava em Washington, a presença de Greenspan era importante, pois seria preciso decidir sobre as medidas a tomar para ajudar a economia a absorver, nem que parcialmente, o impacto do 11 de Setembro.

E qual foi o impacto? Foi isso que Greenspan ficou à espera para ver, como nos conta. A primeira coisa de que se apercebeu foi que impacto começou por ser sentido pelos sectores que dependiam em maior escala do transporte aéreo como, por exemplo, dos produtos frescos transportados de avião, dos supermercados e, claro, do turismo. Desde logo não ficou, diz ele, muito preocupado, pois esses sectores não são demasiadamente importantes. Assim, de imediato, nada fez. Todavia, começou a preparar o terreno para a eventualidade de ser necessário injectar dinheiro na economia, tendo conseguido chegar à conclusão do valor que deveria ser necessário, auscultando quem devia auscultar (o valor a que se chegou é parecido com o que Bush fez recentemente, isto é, 1% do PIB). Essa preparação era necessária, por causa do eventualmente lento processo político (foi depois de facto muito lento e a medida acabou por ser abandonada).

Este forma de actuação contrastava com a prática anterior em que o governador do Fed seguia de perto uma série de indicadores relacionados com a oferta monetária e a inflação, agindo em conformidade. Os valores ideias para esses indicadores são dados por modelos económicos complexos que procuram espelhar o que se passa na economia. Greenspan abandonou isso e, em vez de usar modelos complexos mas sempre limitados, passou a usar a informação disponível de uma forma mais flexível. Claro que antes teve de aumentar a quantidade de informação que recebia, assim como a transparência das decisões das principais instituições, incluindo as do próprio Fed.

Entretanto, Greenspan continuou a medir o pulso à economia norte-americana. O seu cargo é particularmente adaptado a isso, assim como o sistema do banco central americano. Trata-se de um sistema de 12 bancos espalhados em “pontos estratégicos” do território dos EUA que têm como uma das funções mais importantes auscultar o funcionamento dos mercados e as necessidades de crédito. Nada de preocupante se estava a passar, sendo que nesses dias a seguir ao atentado não se revelaram tendências para fecho de empresas ou aumento do desemprego.

Mas, para Greenspan, uma coisa mais importante de todas se estava a passar. Tratava-se do facto de que a economia norte-americana estava a responder bem às consequências do 11 de Setembro porque se tinha transformado numa economia muito mais flexível, com capacidade de se ajustar com menores dificuldades aos transtornos do mercado. O mesmo se passa agora com o impacto da subida do preço do petróleo. Essa maior flexibilidade foi uma consequência da política económica e monetária dos cerca de 18 anos que Greenspan esteve à frente da Reserva Federal, os quais foram dominados pela implementação de mecanismos de monitorização do funcionamento dos mercados económicos e financeiros e aumento da flexibilização dos mercados mais importantes, nomeadamente do trabalho. Parece estranho dizer isto sobre os EUA que são normalmente vistos como historicamente muito flexíveis, mas a verdade é que lá também há vários graus de flexibilidade.

O legado de Greenspan será porventura seguido por Bernanke e pouco mudará. Inclusivamente, como vimos, regressou-se à medida de descida de taxas de juro para aliviar a pressão dos maus resultados do sector financeiro sobre as bolsas de valores, assim como se seguiu a politica de injectar 1% do PIB na economia, para aumentar o consumo e assim indirectamente tentar reavivar a economia.

Estas duas medidas vão contra a ortodoxia da economia de mercado mais liberal de Friedman e da chamada escola de Chicago, mas são hoje bem aceites por todos, incluindo a revista Economist, que as apoiou, lembrando todavia os perigos do regresso da estagflação. Ora, essa aceitação generalizada deve-se em grande parte à acção de Greenspan à frente do Fed, tendo sido ele o responsável por mostrar que esse tipo de monitorização tem (ou melhor, teve) efeitos positivos.

Há já extensões evidentes deste novo quadro de análise macroeconómica que foram desde logo apreendidas pelo novo Presidente do FMI. Trata-se da mudança de orientações sobre a política orçamental, que agora já pode ser vista como uma forma de impulsionar economias com problemas de crescimento do consumo ou do investimento. Isto é, com políticas de gestão do lado da procura, esse lado tão demonizado durante as décadas mais recentes. Claro que não é uma receita ao alcance de todos, pois tem de haver uma base de peso da dívida pública e do défice razoável. E a mesma filosofia esteve também por trás da nacionalização do banco Northern Rock por Gordon Brown, uma acção impensável nos governos de Thatcher ou mesmo nos primeiros anos dos governos de Blair.

Só há uma parte de economia internacional que está fora desta nova moda. Trata-se da Eurolândia, que persiste numa política restritiva, com medo da inflação. Há quem diga que isso acontece porque o BCE está sob controlo do histórico medo alemão da inflação. Isso é apenas meia-verdade. Com efeito, o BCE mesmo sem baixar as taxas de juro – que apesar de tudo estão abaixo das da GB –, já fez muito pelo simples facto de existir. Imagine-se o que seria dos mercados financeiros europeus se tivessem de suportar o impacto da crise financeira dos EUA sem BCE? Seria uma grande confusão nas paridades bilaterais das moedas europeias, seguida de controlos de câmbios, de fluxos de capitais e de bens e serviços. Ou um possível regresso aos anos 1973-1983, entre a crise dos preços do petróleo e o dia em que Miterrand pôs o socialismo na gaveta.

Agora, a verdade é que o BCE está contra a corrente e isso é um aviso aos governos europeus que não poderão almejar ter uma política monetária mais simpática se não continuarem a fazer tudo para tornar a economia europeia mais flexível. Será que os eleitorados querem isso?

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segunda-feira, 10 de Março de 2008

30 anos de educação

Escrevi que a educação está melhor hoje do que há 30 anos e o Pedro Norton pede que explique melhor a ideia e não posso deixar de responder ao repto pois é disso que vivo (dar bases às ideias que lanço). Como não sou especialista, fui ao Google e escrevi “estatísticas da educação” (devo dizer que com alguma curiosidade e sempre pondo a hipótese de poder estar errado) e a primeira coisa que me saiu foi isto, cuja primeira página transcrevo :

Séries Cronológicas - 30 Anos de Estatísticas da Educação

"'O ensino em Portugal ganhou 290 mil alunos, entre os anos lectivos de 1977/1978 e de 2005/2006, contando actualmente com mais de dois milhões de estudantes'.

Esta é uma das conclusões do relatório "30 Anos de Estatísticas da Educação", da responsabilidade do antigo Gabinete de Informação e Avaliação do Sistema Educativo (GIASE), agora GEPE.

Na educação pré-escolar, a taxa de escolarização (alunos com idade própria para frequentar o nível de ensino em que estão matriculados) mais do que sextuplicou, subindo de 12,6 %, em 1977/1978, para 77,4 % em 2004/2005.

No mesmo período de tempo, a taxa de escolarização no 1.º ciclo atingiu os 100 %, em 1980/1981, tendo estabilizado neste nível percentual. No 2.º ciclo, esta taxa praticamente triplicou, registando-se um aumento de 34,4 % para 86,4 %.

No 3.º ciclo, a taxa de escolarização efectivamente triplicou, verificando-se uma subida de 27 % para 82,5 %. Já no ensino secundário esse aumento foi ainda mais significativo: esta taxa aumentou mais de seis vezes, passando de 8,9 % para 59,8 %.

No entanto, apesar destes consideráveis progressos, a convergência com os níveis europeus está longe de ser alcançada. Com efeito, menos de 50 % dos jovens entre os 20 e os 24 anos concluiu o ensino secundário.

À excepção da educação pré-escolar, que continua a crescer, e do 1.º ciclo, que regista uma taxa de escolarização de 100 %, nos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e no ensino secundário este indicador estagnou desde 1996.

No ensino secundário, apenas seis em cada dez jovens com idade para frequentar este nível de escolaridade estavam matriculados no ano lectivo de 2004/2005.

É de salientar que a percentagem de alunos que não concluiu o 12.º ano, por reprovação ou desistência, se acentuou com a introdução de exames nacionais obrigatórios, no ano lectivo de 1995/1996. A partir daí, a taxa de reprovações aumentou, estabilizando em valores próximos dos 50 %, em 2004.

No entanto, de acordo com os dados do Recenseamento Escolar 2006/2007, publicado pelo GIASE, registou-se um crescimento da população estudantil no ensino secundário relacionado com o aumento dos alunos matriculados em cursos profissionais, que passaram de 33 mil para 44 mil."

Ora é sobre dados deste género que nos temos de debbruçar. Eles não devem esconder os problemas, que são muitos, mas é preciso desdramatizar e não esquecer os progressos.

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De regresso: a educação.

Muito se tem escrito e mais se tem dito sobre a educação, a manifestação dos professores, a ministra e o seu rasto. Mas nada que se assemelhe ao texto lapidar, que encerra todo um programa, de Henrique Monteiro (no Expresso de Sábado). Eis um modelo alternativo a mais de trinta longos anos de um pernicioso consenso sobre o "eduquês", a escola inclusiva, a felicidade individual e existencial nas salas de aula. Um programa que exigiria muito mais de todos, aí incluídos os agora diabolizados professores. Um programa que, nos primeiros anos, obrigaria a um grande aumento do insucesso escolar. Um programa simples, selectivo, não preconceituoso.
É raro dizer-se tanto em tão pouco espaço.

PS- Estou de regresso ao geração de 60, depois de uma ausência resultante da minha própria inércia. Fico muito satisfeito por regressar e por o poder fazer com uma nota sobre a educação. Agradeço a todos os "gerados/geradores de 60" a boa-vontade e as fáceis condições de retorno. Um agradecimento especial é devido, sem menoscabo para todos os outros, à Sofia Galvão e ao Pedro Norton.

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domingo, 9 de Março de 2008

O senhor que se segue.

Regresso ao tema da educação em diálogo com a Sofia. Por menos politicamente correcto que seja fazê-lo, parece-me justo que alguém reme contra a maré de crucificação da Ministra. Por duas ordens de razões:
1 - Porque Maria de Lurdes Rodrigues, com todos os seus defeitos que serão seguramente muitos, não «inventou» o caos em que se transformou a educação neste país. Nem é, tão pouco, a principal responsável pelo estado em que as coisas chegaram. As causas são profundas e têm muitos responsáveis. Alguns desfilaram ontem à tarde, outros exerceram funções executivas de muita responsabilidade e comentam hoje, com surpreendente à-vontade, as políticas da Ministra como se esta tivesse herdado um paraíso pedagógico e estivesse entretida em transformá-lo num inferno. Encontrar, ao fim de trinta anos de «eduquês» e de políticas suicidárias, um bode expiatório para os males da educação pode dar jeito a muita gente. Mas não é justo, não é responsável, nem contribui decisivamente para resolver o problema de fundo.
2 - No Expresso de ontem Henrique Monteiro propunha uma espécie de «roteiro para a educação» com que, no essencial me identifico. Defendia, muito sucintamente, a liberdade para os pais escolherem a escola dos filhos; a descentralização da gestão das escolas e das contratações, nomeações e avaliações de professores; a existência de exames nacionais no fim dos 4º, 6º, 9º e 12º ano (que - acrescento eu - deviam ser o elemento fundamental para a avaliação dos professores); e o ensino obrigatório até aos 16 anos com «possibilidade de retenção (chumbo) e passagem compulsiva para o ensino profissional em caso de mais de duas retenções no mesmo ano».
O problema - e esta é a segunda das minhas razões - é que uma reforma destas não teria o apoio de ninguém. Não teria o apoio dos sindicatos e de uma parte dos professores (é perigoso, reconheço, fazer generalizações)que assim veriam instituído um sistema de «progressão na carreira» tudo menos automático e que escapava completamente a qualquer tipo de controlo «colectivo». Não teria o apoio da hidra da 5 de Outubro que veria esfarelar-se o seu imenso poder burocrático e que perderia a sua própria razão de ser. Não teria o apoio dos teóricos do «eduquês» que não conseguem entender que um sistema de educação que não seja capaz de diferenciar e, no limite, de excluir (leia-se reencaminhar alunos para o ensino profissional) é um sistema que se limita a «despejar» doutores inúteis para um mundo profissional onde esse tipo de selecção se fará então com muita maior crueldade e prejuízo para todos. E - assim termino - esta reforma não teria, estou convencido, o apoio da generalidade dos pais. Porque muitos deles vivem embalados no ilusório «sucesso» de filhos que não chumbam e porque, mais do que ninguém, absorveram a tralha ideológica do «eduquês» e são hoje um obstáculo colossal à instauração da disciplina nas escolas.

A verdade é que este é um problema que ninguém quer verdadeiramente resolver. Mas como nos recusamos a admitir este facto vamo-nos entretendo a crucificar Ministros. Ou alguém duvida que é o que acontecerá ao Sr. que se segue?

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Os rapazes não choram




Perdoem-me o acesso serôdio de juvenilidade mas enquanto os professores desfilavam eu optei por rumar até ao Pavilhão Atlântico. E confirmei as minhas suspeitas: nem a pior sala de concertos do hemisfério norte consegue dar cabo de um concerto dos The Cure. Robert Smith continua em grande forma e eu vinguei aquela noite longínqua de 89 quando falhei o primeiro concerto dos The Cure em Lisboa. Por razões que só eu sei.

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sábado, 8 de Março de 2008

E agora?



À hora a que escrevo, os professores estão concentrados no Terreiro do Paço. Apesar de a expectativa ser grande, a adesão ultrapassou o imaginável. Mais de 85.000, diz a PSP. Cerca de 100.000, dizem os organizadores. Entre eles, a minha irmã, que não me lembro de alguma vez ter visto em manifestações de rua: também ela de t-shirt preta, «de luto pela educação» / «em luta pela educação».

Não creio que nada do que se passa traduza, como alguns pretendem, uma reacção corporativa ao modelo de avaliação preconizado pela ministra. O gigantismo do fenómeno desmente tal leitura.
Não há nenhum pretexto concreto que, isolado, traga para a rua mais de 2/3 de uma qualquer classe profissional. A avaliação – mal pensada, mal apresentada, mal discutida – foi a gota de água, mas não mais do que a gota de água.

Infelizmente, porque muito pior, o que hoje desceu a Avenida da Liberdade, em direcção à sede histórica do poder do Estado, foi uma classe agastada, desqualificada, abusada, humilhada ao longo de muitos e muitos anos. Perante a impotência inocente da esmagadora maioria, os professores vivem, há décadas, um processo imparável de degradação da escola portuguesa. Em nome do pedagogicamente correcto, têm sido confrontados com um experimentalismo irresponsável que destruiu a própria ideia de ensino como transmissão de saber. Com a emergência da nova ideologia, radicada no império das «ciências da educação», a escola privilegiou papéis alternativos, desprezou as aprendizagens fundamentais e assumiu uma ruptura metodológica clara relativamente ao mérito, ao esforço e à disciplina. Passámos à escola pós-moderna, à escola lúdica, à escola das ‘competências’ construídas pelo aluno e à volta do aluno.
De permeio, o inusitado afã reformista em matéria administrativa e burocrática só agravou o cenário. Dos horríveis 'agrupamentos' sem alma, identidade ou cultura à miríade de reuniões, actas, formulários, relatórios e papelada diversa, as escolas transformaram-se num universo irrespirável e os professores funcionalizam-se pelo pior padrão.

O resultado está aí. O horror pedagógico no seu indesmentível esplendor. Um quotidiano insuportável para os milhares de professores que hoje marcham em nome de uma indignação que já não conseguem calar.
Estes professores estudaram para ensinar e formar gente. Gente capaz de fazer o futuro deste país. Gente que deveria aprender e crescer na escola, ganhar aí maturidade e horizontes. Mas, hoje, a gratificação permitida é nula ou quase nula, já que apenas marginal. Nas nossas escolas, o ‘mainstream’ não sabe nem quer saber, não aprende nem quer aprender, não se interessa, não se concentra, não se comporta. Gente perdida, sem perspectiva, sem esperança. O aproveitamento diz o que as necessidades estatísticas determinem em cada circunstância, mas a falta de bases, a impreparação, a ausência de saídas não se mascaram. Esta gente, cedo desenquadrada, cedo inadaptada, cedo infeliz, é crescentemente hostil, violenta e provocatória. Têm nos professores vítimas preferenciais, quantas vezes com o conveniente apoio de paizinhos e mãezinhas que assim vão (inconscientemente) hipotecando também a sua própria autoridade.

Na verdade, ninguém mediu o desastre. Mas não era possível esperar mais ou melhor. Da noite para o dia, ou quase, as crianças foram abandonadas por pais trabalhadores a escolas de tempo inteiro, em permanentes e sucessivos ensaios pedagógicos, entregando as horas livres à televisão – cujo lixo, no seu critério infantil, se habituaram a preferir – e aos computadores – em que, da internet aos jogos, aprenderam toda a sorte de utilidades, desde o plágio fácil à estimulação acrítica.

Na minha opinião, é por tudo isto que os professores marcham hoje. Para que o país olhe para eles e para as nossas escolas. Para que o país perceba o que está a acontecer. Para que deixemos – todos – de fazer de conta. Porque é preciso verdade, há que ver, entender e retirar consequências.
O problema do ensino em Portugal não se resolve com soluções abstractas e modelos teóricos. Precisa de trabalho no terreno e, portanto, de um mergulho na realidade profunda da educação.

Os professores estão em crise. Os que podem aposentam-se. Os que não podem enchem os consultórios dos psiquiatras.

Hoje, estão na rua. Ainda bem. Por eles passa a possibilidade de recuperação do ‘ethos’ que pode redimir a escola portuguesa (bem sublinhado por Vasco Pulido Valente, no seu «Pelos professores», Público 08/03/2008).

O resto já só pode depender do Primeiro-Ministro.


Post Scritpum – Há vários sites e blogs que ajudam a perceber o estado das coisas e a insustentabilidade dos actuais níveis de crispação. Por exemplo:
http://defendeaprofissao.wordpress.com/
http://ww.fenprof.pt/
http://movimentoprofessoresrevoltados.blogspot.com/
http://sinistraministra.blogspot.com/
http://maisk3d.wordpress.com/2008/02/11/avaliacao-de-professores-2/
http://www.ramiromarques.blogspot.com/

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sexta-feira, 7 de Março de 2008

Terapia de Choque



Um cego irlandês que vê graças ao implante no olho de um dente do seu próprio filho. Dois sargentos da força aérea alemã julgados em corte marcial pelo crime de produção de salsichas com o sangue dos seus camaradas de armas. Hillary Clinton improvisa sala de imprensa num wc para homens. E uma menina na escola que afinal era um latagão de 39 anos.
Descobri a forma de não me deprimir com o estado da oposição. Chama-se weirdnews e dou lá um salto depois de cada nova aparição pública do Dr. Menezes ou do Sr. Ribau. Reconforta-me pensar que há casos mais bizarros e bicudos. Só lamento não ter descoberto o site no tempo do Dr. Lopes.

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quinta-feira, 6 de Março de 2008

Saudades do “Independente”

As recentes escritas sobre os cavalos dados aqui feitas pelo Gonçalo e pelo Pedro lembram-me que há muito queria lançar a minha frustração quanto aos jornais actualmente em Portugal. Aquilo que vou dizer devia traduzir-se: “então não nos chateies e lê bons jornais na Internet”. Mas a verdade é que a idade porventura não perdoa e não me consigo habituar a isso.

Bem, aqui vai. Havia um tempo em que eu comprava, regra geral, o “Público” e depois, à segunda-feira, comprava o “Diário de Notícias”, por causa do suplemento de Economia e das crónicas de Marcelo Rebelo de Sousa, que na época eram interessantes; à sexta-feira, comprava o “Independente”, que foi desde sempre o jornal que mais tempo gastei a ler; ao sábado lá ia comprando o “Expresso” que, se bem me lembro, até passou por uma má altura, mas tinha de ser; e de vez em quando ainda me aventurava pelo “Semanário”. Nuns anos menos gloriosos do nosso passado, os do Guterrismo, até deixei de comprar o “Público”, porque achava que estava demasiadamente pegado ao governo e passei para o “Diário de Notícias”, no tempo do Mário Bettencourt Resendes, que era um jornal mais simples, mas quase-bom. Hoje em dia quero não comprar o “Público”, porque está um jornal de causas (perdidas), um pouco esquizofrénico na orientação política, e dominado por colunistas-jornalistas ou jornalistas-colunistas (ao ponto de enquanto que o Guardian convida o Bono para director por um dia, o “Público” convida um colunista), e o que tenho? O “Expresso”, que está francamente melhor (e não é por ter um vice da G60), e nada mais. A não ser a Internet. Ah, e também de vez em quando os jornais económicos.

O “Diário de Noticias”, que era alternativa nos diários, perdeu-se na concorrência com o “Correio da Manhã” (que aliás é um bom jornal no género, mas não para mim). Lá vou comprando o “Público”, com pausas, porque de vez em quando tem boas surpresas de bons jornalistas (incluindo alguns de Economia), de bons colunistas (posso nomear quatro: Pulido Valente, Rui Tavares, Sarsfield Cabral, António Barreto) e no “P2” (que às vezes tem coisas à antigo Independente). Moral da história: isto está mesmo fraco. Os cavalos dados, isto é, a imprensa gratuita, seguramente não têm ajudado.

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Que bom ter esquerda e direita semelhantes

Este post é uma estreia que responde a dois apelos. O primeiro é nobre: aceitar com gosto o convite lançado pela Sofia Galvão e pelo Pedro Norton para me juntar à geração de 60 (apesar de nascido em 72!) O segundo é desafiador: contrariar a convicção (pessoal, claro) de que os blogues não vão além da pequena comunidade que os lê. O que ficar escrito, portanto, não terá 'hidden assets'. Será o que vai ser. Agora.

O Financial Times publicou hoje, quarta-feira, um texto curioso. Ele fala da convergência entre a esquerda e a direita em Inglaterra - e sugere que já saltou a ilha, sublinhando que é mal que atinge as democracias civilizadas. O argumento acusa genericamente Gordon Brown e David Cameron de cedências ao pragmatismo. Em vez de ideais, diz, os dois políticos definem objectivos. E isso é mau. O autor não tem razão.
Ou melhor, razão ele tem, porque defende que isso é a política rendida ao objectivo de conquistar eleições. O que faz com que se engane é considerar que isso é mau. É bom, e explicar isso exige três ideias simples.
Primeira: Foram os conservadores quem escreveu que a política virtuosa era a que revelava capacidade de se adaptar às circunstâncias. O inglês Michael Oakeshott ficou célebre por defender que o político mais capaz é aquele que descobre a melhor solução de acordo com as circunstâncias, por oposição aquele que julga ter a solução perfeita para qualquer circunstância (Oakeshott estava a pensar em Marx, claro). O que não ficou dito - logo nessa época - é que essa epifania de Oakeshott não fazia mais do que dar nome a uma descoberta dos políticos que se reclamavam de esquerda. Isto é, Oakeshott limitou-se a elaborar sobre um facto que gente como Marx ou Rosa Luxemburgo descobriram - a melhor política é aquela que promete os resultados que a maioria das pessoas deseja mais ardentemente, uma vez que esses resultados são meios de 'dar' o que essas pessoas verdadeiramente desejam à luz das circunstâncias em que vivem.
Segunda: As circunstâncias, portanto, são tudo em política porque só elas permitem desenhar programas (sociais ou económicos) que respondam aos apelos das populações do seu tempo. Ou seja, esquerda e direita convergem desde sempre nessa evidência - o que tramou quer uns quer outros foram protagonistas que acreditaram ter chegado a soluções que sobreviveriam ao seu tempo. Não sobrevivem - geram axcessos ou totalitarismos. Ora, nem Brown nem Cameron são políticos assim, excessivos. Eles sabem que aquilo que lhes dará longevidade consiste, justamente, em adaptar as suas políticas às circunstâncias - porque estas se alteram. E é isso que faz deles bons políticos.
Terceira: Sempre que dois partidos convergem nesta variável, conclui-se, isso são boas notícias, não o anúncio do declínio das democracias representativas: Pode dizer-se: mas isso limita o alcance de uma política pública - ela acaba por morrer muito rápido. Pois acaba, e isso é bom. Se esta ideia fosse evidente para todos os político, não teríamos crises nos programas educativos ou falências nos sistemas de segurança social. Sucede que temos, o que permite o statemento final: esses problemas só existem porque foram pensados para outras circunstâncias. Não é retórica, é a realidade. É a falta de flexibilidade da política no ajustamento às circunstâncias que lhe retira alcance e eficácia.
Conclusão: Brown e Cameron podem e devem convergir se o compromisso consistir - cada um à sua maneira - em apresentar resultados que respondam aos anseios da população. Isso é politica, e é a forma que passará a distinguir políticos. Não esquerda e direita. Sócrates sabe-o, mas todos os dias reprime essa certeza. Menezes busca - mas tropeça todos os dias na sua indecisão. Sucede que a solução é a que dá razão a Brown e Cameron - contrariando o artigo do Financial Times: só haverá direita e esquerda quando aquilo que os distinguir for as diferenças que cada um revela, a cada momento, para dar resposta ás necessidades das pessoas.

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quarta-feira, 5 de Março de 2008

Menezes, o Homem-Bomba

O líder da Oposição disse que o seu partido ainda não merece ser poder. Dificilmente um homem-bomba faria melhor.
O Governo apresenta sinais de desgaste. Enfrenta cada constestação até não poder mais para depois capitular e saltar a barricada para o sinal contrário, sem pruridos nem passado. Fala em reformas mas pratica a linguagem de ruptura dos novos regimes. Quando não vence, não cede. Muda de campo. Junta-se às hostes adversárias.
Assim foi com o Aeroporto, o traçado do TGV, a nova travessia do Tejo em Lisboa, os cortes no Ministério da Agricultura e o mapa das urgências. Quer provar que assim não é com os professores e convoca uma contra-manifestação para o Porto, à boa maneira do PREC de 75.
Mexe com os mais fracos: na fiscalidade dos deficientes, no ensino especial, na saga persecutória aos pequenos produtores de iguarias, e na mudança de regras nas poupanças dos remediados.
A grande reforma da Função Pública - que estava inteiramente ao alcance de tão determinada maioria absoluta - é uma miragem e o mérito dos contribuintes que pagaram o equilíbrio das Contas Públicas é capitalizado por um Primeiro Ministro que tem da economia a mesma sensibilidade que demonstrou pelo ordenamento do território na construção de casas medonhas no interior beirão que lhe merecia mais respeito.
Politicamente, podia dizer-se que uma nova geração chegou ao poder com um líder jovem e desportista; socialista e liberal; determinado e com capacidade de gerar obediências coordenadas.
Tudo isto é verdade salvo na questão da nova geração. O Primeiro Ministro é como sol do poeta que «em vez de criar, seca». Vitorino e Pedroso, as duas inteligências confirmadas na era Guterres, não estão presentes por diferentes razões. Silva Pereira é a voz sensata e internista que balança os ímpetos do chefe mas não lhe dá escala nem rumo. Parece que o Ministro da Justiça está a trabalhar bem, sem que se veja. Quero acreditar. A simpatia e tempero do MNE não chegam para uma posição clara quando toca a falar sobre o Kosovo ou para promover um regresso com consequências culturais e económicas em África. O homem da agricultura é a cair de malcriado e desinformado. O das Finanças cumpre com zêlo o seu papel. Tudo mais é massa anónima que vive na sombra iluminada de um líder sem alma.
O País clama por uma alternativa, dentro ou fora do PS, uma nesga de esperança que nos deixe aspirar a melhores dons. Rui Marques é filmado à porta do Tribunal Constitucional dizendo que trás a esperança organizada num partido com o mesmo nome. Já vimos como foi de fácil recuo a vaga voluntarista dos renovadores (1985-87) ou a que o próprio protagonizou no Lusitânia Expresso, ao largo de Timor. Ao centro, não beneficiará da radicalidade que confirmou o Bloco de Esquerda.
Neste quadro - a ser justo - dir-se-ia que seria fácil encontrar uma alternativa, multiplicar por (-1), liderar a oposição.
Não. Não estão prontos. Estão no palco a afinar vozes e cordas esquecendo que o pano já subiu e o público espera a performance. O partido de Menezes ainda não merece o poder. Talvez sim. Porque um partido que merece este líder, não merece o poder.

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II. L'Empereur Fréderic II, Ernst Kantorowicz, Gallimard, 2000

Mas entremos no centro da questão que agora nos ocupa. Frederico II de Hohenstaufen.

O seu reinado mostra como todas a categorias usuais se partem perante o confronto com a realidade.

Para muitos um dos primeiros relativistas, cria um Estado totalitário. Lição a retirar: o relativismo convive bem com o totalitarismo. Para não dizer que o relativismo conduz sempre a uma de duas formas de tirania: a anarquia ou o totalitarismo. A razão de ser é simples; o relativismo destrói os limites.

Estado totalitário, mas comprimido pela religião cristã, dado de que não poderia abdicar. Também a União Soviética não poude apagar de vez o dado ortodoxo, por mais que o tivesse perseguido. Convivendo com o Islão, cuja cultura material lhe agradava, mas que nunca tentou implantar na Europa Frederico é o exemplo do soberano que se julga acima das leis da História, mas que no fundo apenas as consegue reactualizar. O seu êxito mede-se pela medida em que as conseguiu encarnar, agregando o espírito do tempo, renovando a aposta carolíngia e augusta.

Criador de uma das mais potentes máquinas de ideologia imperial da História, modelo já seguido por Augusto, por Carlos Magno e mais tarde por Napoleão, recruta intelectuais, juristas, artistas e poetas para celebrar em glória o seu reinado. Mas ao mesmo tempo é homem culto, que sabe apreciar a cultura. Autor de um livro sobre a falcoaria, é acima de tudo um aristocrata de hábitos guerreiros que ao mesmo tempo vive a vida e a cultura. Para muitos seria o típico príncipe da Renascença, caso pudéssemos dizer que a Renascença teve o monopólio desse tipo de príncipes.

A complexidade da personagem e da época não se podem sintetizar em duas linhas. Kantorowicz, dentro da medida do que é historicamente possível, reconstrói a sua infância livre e incerta no meio de uma mistura de povos e culturas. Crescendo sem família e sem poder, conhecendo a liberdade de movimentos que outros reis conquistadores fruíram antes e depois dele (como Henrique IV de França) é do retrato de um homem amante da liberdade que se trata. Mais da sua que da dos outros, e no entanto dotado de uma imensa grandeza. A ambição de alguns homens pode ser um perigo para os outros, mas é sempre um espectáculo e um regalo para o seu olhar. Stupor Mundi, lhe chamavam. E ainda hoje em dia nos consegue surpreender.

Alexandre Brandão da Veiga

http://www.livres-chapitre.com/-Q1HBT1/-KANTOROWICZ-ERNST/-OEUVRES---L
http://math.unipa.it/~grim/semiohistory.pdf
http://www.stupormundi.it/Franc/conclusion.htm
http://www.universalis.fr/corpus-encyclopedie/117/0/T900805/encyclopedie/KANTOROWICZ_E._H._.htm
http://www.editions-bayard.com/pages/fiche.php?isbn=2227473762&rub=Philosophie
http://www.comune.pisa.it/i.ghibellini/pierwinR.htm
http://www.hohenstaufen.org.uk/

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Organizar o silêncio

Aceitei o desafio de um padre de Lisboa para atender a uma reunião sobre um tema tão comum como transcendente como a Adoração ao Santíssimo. Confesso que fui às escuras: entre a curiosidade, a correspondência a tamanha confiança e a obrigação estrita de não esperar da Igreja, sem retribuir.
Pensei que se tratava de programar detalhes liturgicos, envolvendo temas, orações, cânticos e ritos distribuídos por duas ou três horas diárias, durante a Quaresma que termina dentro de duas semanas.
O assunto era mais sério.
Há três anos consecutivos que, de dia e de noite, se pratica a adoração na Igreja de São Nicolau, no meio da Baixa Pombalina. Quer isto dizer que, há mais de mil noites, alguém está em permanente adoração na presença do Santíssimo - aquilo que, para os crentes, representa o Corpo de Cristo.
Isto acontece a meio da noite, entre as 4 e as 6 da manhã, tal como a meio da tarde, nas mesmas horas. Sem temas marcados, orações, cânticos ou ritos adoratórios para cadenciar a atenção dos fiéis. Apenas o silêncio, a presença, a fé.
Procuro razões para a minha estranheza: entre a voragem dos dias, a ignorância, a falta de fé ou, ainda, um pragmatismo entranhado que me estraga a capacidade de entender o simples facto de louvar a Deus.
Posso dizer que invejo os que conseguem parar para crer; os que conhecem o valor do silêncio e da oração sem hora marcada; os que vão ao deserto no meio da semana, no meio da noite, no Centro escuro de Lisboa. E vêm de lá mais acompanhados.

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Ler ou citar


Hoje vinha para o trabalho a ouvir a France Info e uma jornalista informava de um artigo que permitia, em poucas páginas, saber tudo o necessário sobre os grandes livros de 2007. De acordo com a jornalista, o artigo permitia-nos ser cultos sem ler. Este tipo de artigos ou livros não são novos. O que me chamou a atenção foi a jornalista utilizar a expressão culto em vez de parecer culto. A cultura é assim entendida como um conjunto de citações, tendo a mesma função das longas listas bibliográficas (que se consultaram mas não se leram) em muitas teses de doutoramento: conferir autoridade. Talvez parte da responsabilidade desta deturpação da cultura seja de atribuir a quem lhe retirou o sentido lúdico e a quem confunde ser culto com ter o monopólio da verdade. Uma citação parece, por vezes, valer mais que um argumento. Lemos para retirar poder e não prazer da leitura.

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terça-feira, 4 de Março de 2008

I. L'Empereur Fréderic II, Ernst Kantorowicz, Gallimard, 2000


Confesso que sempre desconfiei da “ciência” política. Tendeu sempre a aproveitar material histórico para fazer tipologias, que podem ser necessárias para orientar o discurso, mas acabam por ser sempre empobrecedoras. A técnica é bem conhecida. Comprime-se a realidade humana até se conformar como caricatura para mais facilmente a criticar.

Um delas é a ideia da poliarquia medieval. Haveria uma época chamada Idade Média em que havia poliarquia, em síntese, fragmentação de poderes. Ficamos satisfeitos, a coisa parece clara.

No entanto, a que se oporia esta poliarquia? Para começar ao tão consabidamente centralizado império romano. Mas surge aqui novo problema. Vejamos o Alto Império. Não é preciso esforço de erudição, mas apenas um pouco de raciocínio. Cristo anda de Herodes para Pilatos. Nasceu no tempo de um outro rei Herodes. E no entanto, a Palestina, como a Síria em geral, fazia parte do império romano. A contradicção é evidente. O império seria centralizado, mas havia reis dentro desse império. O que é verdade para a Palestina é-o igualmente para todo o Levante, para o Norte de África, para reinos menores da Península Ibérica. O império romano era poliárquico então.

Só no Baixo-Império se atinge com o dominado a centralização. Mas Diocleciano, o centralizador por excelência, a primeira coisa que se lembra de fazer é criar... uma tetrarquia.

A poliarquia medieval opõe-se igualmente à centralização do Estado moderno. Tirando o caso francês, em que o discurso unificador esconde milhares de pequenos poderes regionais, a verdade é que no Estado moderno, tenha ou não a forma regional ou federal, os poderes se distribuem por sectores geográficos, económicos, sociais.

O sonho tipológico de certa dita ciência política torna-se mera quimera.

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Em defesa dos «cavalos»

Não resisto a comentar o «post» do Gonçalo sob a forma de outro «post». Julgo que uma declaração de interesses é de tal maneira óbvia que é desnecessária. Não tenho a pretensão de ser minimamente isento nesta matéria. Mas tenho a pretensão de ter pensado o suficiente sobre o assunto para ter opinião.
Vamos então aos pontos de divergência com o Gonçalo (que não me impedem de reconhecer a qualidade e o brilho da sua reflexão):
1 - Começo por uma precisão que não belisca o essencial da argumentação do Gonçalo. O modelo dos jornais «apolíticos» e mais «sensacionalistas» não é um fenómeno novo nem coincide com a emergência dos grandes grupos de media na segunda metade do século XX. A chamada «penny press» que aparece na Nova Iorque do início do século XIX tinha já todas as características que hoje costumamos associar à imprensa «tablóide».
2 - Onde o Gonçalo vê um continuo de «degradação» da imprensa (e dos media em geral) eu vejo uma coabitação permanente de modelos alternativos. Repito: não é verdade que a imprensa «tablóide» seja um fenómeno novo. Como não é verdade que não continuem a despontar projectos de comunicação social que se encaixam na perfeição no modelo «jeffersoniano» que o Gonçalo descreve com a nostalgia própria de quem fala de um tempo que já não volta. Vejamos o caso português. É verdade que a última década do século XX está ligada ao aparecimento de vários títulos de orientação «tabloidizante» (cito de cor o 24 horas, um pouco antes o CM, toda a imprensa cor-de-rosa, etc.). É verdade que nesse mesmo período emergem também modelos de programação televisiva que fazem apelo às emoções mais básicas dos públicos mais indiferenciados (os célebres «reality shows» são o exemplo mais frequentemente citados). Mas é também nesse período que são lançados entre nós jornais tão respeitados como o Público, rádios tão profissionais como a TSF ou canais de televisão tão insuspeitos como a SIC Notícias. Não vejo, sinceramente, que os factos sustentem a tese da «degradação» continuada. Vejo, para simplificar, dois modelos muito diferentes de projectos de comunicação social que têm co-existido historicamente sem que o sucesso de uns implique a morte de outros.
3 - A ideia de que os projectos de comunicação social não devem ser geridos como negócios porque ficam à mercê de sinistros interesses capitalistas também não é nova. Para não recuar ainda mais, cito Ben Bagdikian que desde há mais de 30 anos tem sido o grande defensor das teses de conspiração marxista sobre media. Seja como for, é aqui que estou mais frontalmente em desacordo com o Gonçalo. Essencialmente por três ordens de razões:
a) Porque um projecto de comunicação rentável é um projecto de comunicação independente. Que pode dar-se ao luxo de enfrentar governos, oposições mas também interesses económicos (e nem é preciso ir muito longe para encontrar bons exemplos para ilustrar este ponto). Ao contrário, os projectos de comunicação deficitários (ou financiados pelo Estado) têm uma natural tendência para a subserviência.
b) Porque acredito que o interesse económico, se bem entendido, reforça o estímulo para que um projecto de comunicação social seja verdadeiramente independente. O mercado português está cheio de bons exemplos de projectos sérios que o mercado recompensou e de cadáveres de projectos que nasceram ao serviço de interesses mais conjunturais e que o mercado acabou por rejeitar.
c) Finalmente porque o que interessa assegurar é, não tanto que cada projecto seja totalmente independente de per si, mas que num determinado mercado compitam projectos diferentes, com propósitos e interesses diferentes e conflituantes entre si. E quer-me parecer que, no mercado português, a diversidade tem aumentado e não diminuído.

E assim termino porque o «post» já vai longo. Agradeço ao Gonçalo o estimulante repto.

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A cavalo dado não se olha o dente...


Lisboa, Praça de Espanha, oito e meia da manhã. Paro nos semáforos, vindo da autoestrada de Cascais. Como de costume, dois pobres desgraçados arrastam-se entre os carros exibindo as suas maleitas, enquanto quatro criaturas oferecem jornais de duas ou três marcas diferentes. Coisa estranha esta de nos oferecerem jornais, sobretudo quando parecem competir, no acesso às nossas janelas, com aqueles farrapos de homem que nos pedem uma moeda. É sobre esta oferta que aqui quero pensar.
A evolução dos livros para os jornais começou no século XVII, com a utilização sistemática da imprensa, tendo-se tornado definitiva com a revolução industrial que, a partir do século XIX, possibilitou a impressão e a distribuição massivas dos jornais, que se tornaram num meio de comunicação fundamental da vida social e política das comunidades.
É natural, neste sentido, que algumas pessoas, ou grupos de pessoas, se tenham tornado proprietárias e/ou administradoras de jornais, na tentativa de influenciar a vida social e política das comunidades. Os leitores, porém, sabiam-no: sabiam quem eram os donos dos jornais e sabiam quais eram os seus objectivos, dos quais podiam, inclusivamente, discordar. A pluralidade de jornais, além disso, garantia a credibilidade das notícias, de algum modo chancelada por um suposto compromisso dos jornalistas com a verdade.
O custo dos jornais, assim, era suportado pelos seus donos – que queriam informar a comunidade dos factos sociais e políticos a partir do seu próprio ponto de vista –, e pelos leitores – que queriam ser informados desses factos. A lógica, portanto, era a da participação, já que era através dos jornais que ambos participavam na vida social e política das comunidades.
Um terceiro elemento se introduziu, porém, no financiamento dos jornais: os agentes económicos, que neles viram um meio óptimo para anunciar os seus produtos. Estes anúncios tornaram-se cada vez mais importantes, de tal maneira que, no século XIX, a partir da década de 40, começaram a surgir agências de comunicação cuja principal tarefa era justamente encontrar anunciantes para os jornais, a partir do que passaram para a produção eficaz dos respectivos anúncios.
Ora, esta entrada dos jornais no mundo dos negócios deu-lhes, num primeiro momento, a possibilidade de se auto-sustentarem, garantindo a possibilidade real de um maior número de pessoas poderem, por esta via, influenciar a vida social e política das suas comunidades. Com efeito, pequenos grupos de pessoas podiam agora associar-se e criar um jornal, deste modo contribuindo para o esclarecimento da realidade quotidiana.
O que aconteceu, porém, foi que os jornais se tornaram progressivamente dependentes dos agentes económicos, segundo uma lógica que, aliás, se aplica a todos os outros meios de comunicação, cuja propriedade se encontra hoje nas mãos de grandes grupos económicos, que não sabemos quem são, nem que objectivos perseguem. É por isso que, sob a aparência do mesmo, os jornais são hoje essencialmente diferentes.
Em primeiro lugar, porque os jornais – numa lógica que, repito, se estende a todos os outros meios de comunicação –, não visam hoje a participação na vida social e política das comunidades, mas o negócio. Os grandes grupos económicos, de facto, só secundariamente se interessam pelos países e pelas ideologias, visando directamente o lucro: o seu objectivo não é informar, mas vender. Isto não quer dizer que os jornais sejam um bom negócio. Ao contrário: em si mesmos, eles são um péssimo negócio. São, no entanto, um poderoso meio de comunicação, sendo que estes grandes grupos económicos nunca quiseram vender jornais – mas vender (muito lato sensu) através dos jornais.
Daqui decorre, em segundo lugar, a desvalorização de toda a informação social e política e, com ela, a desvalorização de todos os jornais. Assim se percebe que nos dêem jornais nos semáforos, ou que nos ofereçam tudo e mais alguma coisa na compra de um qualquer jornal, desde caixas de ferramentas à colecção de música do maestro Vitorino de Ameida! O facto é que o jornal, em si mesmo, não tem valor e as suas notícias (exceptuando as económicas) são secundárias. O que importa são os anúncios, razão pela qual já existem meios de comunicação que não têm outra função que não seja anunciar os produtos dos agentes económicos – sem notícias, que é para não maçar.
Em terceiro lugar, e juntamente com isto, dá-se uma mudança de natureza do discurso, que já não se quer racional mas emotivamente persuasivo. A sua função é promover a adesão não a um grupo de pessoas e de ideias, mas a um conjunto de produtos e serviços, através de uma linguagem de forte cariz sexual que, por meio de imagens apelativas do desejo, não quer dizer a realidade, mas substituí-la.
A falsa aparência política deste mundo quase exclusivamente económico, por último, favoreve um clima generalizado de indiferença moral. A velha máxima dos cépticos segundo a qual a verdade não existe ou, se existe, não pode conhecer-se, é instintivamente abraçada pelos indivíduos auto-centrados desta nova sociedade. Tudo se resume, no fundo, a uma questão de poder. O fim da actividade política não é, portanto, o bem comum, mas a participação individual nesse poder, que é essencialmente económico: o cidadão foi reduzido a um mero consumidor.
Poderão achar exagerado, mas os sinais estão todos lá. E o problema não se resume aos jornais. É geral: está em todos os meios de comunicação e está em cada um de nós. A lógica, aliás, é a mesma: a da imposição! A televisão entra nas nossas casas e os jornais nos nossos carros na mesmíssima medida em que os agentes económicos invadem a esfera política. Nós, porém, nem nos mexemos. Dão-nos, sem termos sequer que pedir, tudo aquilo de que precisamos.
Ora, se bem diz o povo que a cavalo dado não se olha o dente, a história do povo de Tróia adverte-nos para o perigo de levarmos estes presentes para dentro dos nossos próprios muros. Sob esta falsa aparência democrática, de facto, e antes que seja tarde, faremos bem em perguntarmo-nos: quem é que garante, hoje, a pluralidade da opinião política e a liberdade de expressão?

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segunda-feira, 3 de Março de 2008

O lado negro


Dilawar estava no sítio errado à hora errada. Por força disso, foi detido, barbaramente torturado e morreu. Assassinado pelo exército norte-americano.

Este é o terrível pretexto de “Taxi to the dark side”, documentário realizado por Alex Gibney, vencedor do Óscar 2008, que a RTP1 exibiu no passado fim-de-semana.
A quem não viu, recomendo vivamente a compra ou o aluguer do DVD. É importante ver. Porque é importante perceber o (lado do) mundo em que vivemos e a imensa fragilidade em que assentam os seus postulados mais fundamentais.
“Taxi to the dark side” é um testemunho arrepiante da tortura e do abuso de poder. Também da manipulação de emoções primárias e da sua metódica instrumentalização. Pior, um testemunho da violência convertida em razão de Estado.
Ao sabor de algumas histórias concretas e de alguns personagens concretos, Abu Ghraib, Bagram e Guantanamo surgem como passos de um roteiro que nos envergonha. Porque envergonha a cultura e a civilização ocidentais.

Aliás, o que impressiona e interpela é exactamente isso. Nos Estados Unidos da América, em pleno século XXI, mais de duzentos anos depois de os pais fundadores terem definido as bases da moderna democracia liberal e do ‘due process of law’, concebe-se um portentoso edifício jurídico tendente a justificar a mais absoluta iniquidade. Milhares de detidos sem julgamento, quase todos selvaticamente torturados, inúmeros mortos… mas não há ilícito – Alberto Gonzalez e John Yoo, sob a batuta de Dick Cheney e George Bush, asseguraram a inaplicabilidade da Convenção de Genebra. Portanto, para os senhores da guerra, os factos são permitidos porque justificados – com a única excepção dos “actos extremos” (seja lá isso o que for, porque é manifesto que ninguém está especialmente interessado em densificar o conceito).

Neste quadro, a verdade é que 35% dos americanos parece achar a tortura "aceitável em certas circunstâncias” (!!). Bush, o presidente democraticamente eleito, considera que está tudo bem e, quando lhe opõem razões relativas à defesa da dignidade humana, mostra-se tranquilo, concluindo que a própria noção de dignidade humana é, afinal, muito vaga… Entretanto, os tribunais recusam massivamente os pedidos de “habeas corpus”. E os jovens militares, decerto seres normais até então, uma vez enviados para estes teatros de crueldade, logo se transformam nos seus mais disciplinados e irrepreensíveis intérpretes.

“Taxi to the dark side” revela-nos um cenário de verdadeiro horror. Pelos excessos, responderam meia dúzia de soldados – pobres coitados nesta teia de protecções e silêncios cúmplices. Não há oficiais condenados. Pelo contrário, haverá mesmo promoções impressivas, como é o caso da Capitão Caroline Wood, principal mentora dos crimes de Abu Ghraib.

No fim, fica-nos a certeza de que Dilawar poderia ser qualquer um de nós. Bastaria que estivéssemos no sítio errado em hora errada, à mercê de um batalhão americano ou de um batalhão local amigo dos EUA...
Por isso, “Taxi to the dark side” é um poderoso apelo à indignação. Uma indignação construtiva, de olhos postos na esperança que radica nos valores da dignidade humana, da liberdade, da democracia e do Estado de Direito.

Passo a passo, sem demissões, poderemos fazer o caminho. Aliás, ele vai-se fazendo. Mas é preciso não ignorar, não calar, não virar as costas – a grandeza moral da civilização ocidental joga-se nessa opção.
Temos um ‘acquis’ político-cultural substancialmente frágil e ainda incapaz de prescindir de nós.

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It’s The Same All Over

NY, Paris, Milan, Lisbon…you pick!
One thing is certain; people are people no matter what the environment! True, a culture may differ-but it can’t ever be responsible for the good and bad decisions we make.

We’ve all been there- blame the world for all the “wrong doings”. Is there anything we can do to make the “wrong” go in the right direction?
Usually, if we’re obligated to get something done we make it happen…if we’re the ones in control, it’s easy to talk ourselves into “ I’ll get it tomorrow ”. Wouldn’t it be wise to eliminate what can be controlled-to help deal with those aggravating issues always popping up?

It’s as easy to complain as it is to leave the dirty dishes for the morning. Multiply this philosophy by 10.Considering the amount of chores and responsibilities we have on a day-to-day basis, chances are the kitchen would look like a war zone-not to mention the rest of the fort!
Are you the next day soaker or the type to get on it and cut through the grease? I give in-I sometimes “wake to a sink-full”.

Our dishes are one thing; dealing with the outside world is another.
Washing away some of the dirty work can become an easy task. Before starting the day-make a list. Don’t worry about how long it gets-the important step is getting your hand to meet with the pen and paper!
Once that’s done-highlight the most important things that need to be done. If you think to beat the “Romans” and do it all in one day, chances are you’ll be taking two steps back for every one step forward.

Having control and coping with time has its occasional drawbacks. We can’t always get done what we set out to accomplish.
It’s normal for spontaneous happenings and feeling under the weather-it doesn’t mean those same dark clouds need to work their way towards others. Why do we forget to call and cancel sometimes? Is it possible we think too much about how to satisfy our lazy mind-and forget we don’t always need a detailed explanation?

What about that “yes to everything”, have we forgotten what it means? It slips out, I know.
The only place “yes” might have a duel meaning is in the bedroom-only we don’t walk around all day with a bed chained to our ankle. When there is a mutual “yes agreement”, both parties are obligated to “keep the water flowing”. If there is no interest, what ever you do- don’t let your feelings take over - shut off that “valve” and say “thanks but no thanks”. Don’t assume people forget with time. People always appreciate honesty. Once that’s accomplished-your contact information will never make the “trash” on the desktop. Should you choose to continue -control the amount of “flow” by simply keeping the topic active. The important thing it’s moving and in the right direction-communication, patience and ever so often lots of time…that’s what it takes.

Chef Guerrieri

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domingo, 2 de Março de 2008

Vida Nova II

Boa aposta a do “Expresso”, no Henrique Raposo. Prova que têm bons olheiros para apostar em gente menos conhecida. E é bom que seja novo. Sim, sou daqueles que acham que a idade, o sexo, a cor da pele e a religião afectam as opiniões – call me elastic boot. E bom artigo inicial. Entrou a matar e com ritmo. Como sei isso do ritmo? – estava a rir-me do texto quando precisamente o autor diz qualquer coisa como: não se ria leitor, que isto é sério. Mas o texto tem duas falhas: a primeira é que diz que não há partidos de direita e que está tudo à esquerda, incluindo o PSD e o CDS. A falha é que o que acontece é que não há é povo de direita. Ou pelo menos, povo à direita do CDS. A segunda é que não diz que o mesmo se passa em quase todo o resto da Europa, excepto onde há partidos e povo da direita que espelha o descontentamento com a imigração e o multiculturalismo. Se assim é, felizmente que não há essa direita. Mas talvez ainda haja uma terceira falha, quando diz que o chefe da oposição é mau porque não há oposição a fazer. Para mim ele é mau porque não houve candidatos e não houve candidatos porque o lugar é mal pago e tem pouco prestígio. Paguem bem ao chefe da oposição e ponham-no num bom lugar do protocolo de Estado a ver se a coisa não se resolve um pouco. Na presente situação os chefes de oposição só lá estão praticamente para fazerem as listas dos deputados, que depois é o que se vê.

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