segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

Feliz 2008

... El año
No es menos vano que la vana historia.
Entre el alba y la noche hay un abismo
De agonias, de luces, de cuidados;
El rostro que se mira en los gastados
Espejos de la noche no es el mismo:
El hoy fugaz es tenue y es eterno;
Otro Cielo no esperes, ni otro Inferno.
jorge luis borges

A todos um Feliz 2008

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Do BCP a Derrida

Já tive, aqui e aqui, algumas conversas filosóficas (i.e, tão ociosas como saborosas) com o Gonçalo. O “affaire BCP” a ambos interessa e aos dois reclama tempo e conversa. Li este post iconoclasta e não resisto a alguns comentários arrumadinhos e conservadores.
Para começar, gostei bastante da fotografia do Robert Frank. Já me tinham chamado a atenção para o facto do nosso blog ter muita carga textual, sendo avesso à imagem. Aproveito para fazer algum proselitismo na matéria: mais imagens, o que até não obriga a menos texto.
E vamos agora de assalto ao BCP. Faço quatro reparos que, passe o acordo noutros pontos, constituem matéria de significativa divergência.

A nomeação
Diz o Gonçalo que “o Poder Político arrogou-se o direito de nomear a Administração de uma instituição particular”. Discordo. Não se arrogou, foi para isso convidado e, em última instância (bordão das velhas análises marxistas), a nomeação é a que melhor serve os accionistas. Sem estar a ser muito especioso, diria que os accionistas têm o que querem e precisam para obter os melhores resultados, tendo com isso implicado o Poder político (muito particularmente o Presidente da República), implicação de que, no futuro, se alguma coisa correr mal, podem pedir contas. Ou seja, se os grandes accionistas do BCP não acreditassem que com esta solução vão resolver um problema e melhorar os seus ratios, jamais deixariam de atacar esta “solução política” com paus e pedras. E avançam com as costas quentes.

A crise
Interroga-se o Gonçalo se “Houve receio da crise do BCP poder conduzir a uma situação paralela à do famoso «crash» dos anos 30?” Ofereço-lhe de bandeja uma visão alarmista: há quem diga que por esta crise perpassam ingredientes similares ao do sub-prime americano, com a diferença de que em vez do percentual residual que o dito percalço representa para a economia americana, o BCP representa para aí um quarto do valor do nosso sistema bancário. Por outro lado, por muito menos do que o “crash” dos anos 30, o Poder político interveio em Espanha no “caso Mario Conde” que acabou atrás das grades, tal como interveio em situações de crise nos EUA (com algumas condenações e prisões à mistura), ao ponto de aqui se dizer que “The Bush administration and the Federal Reserve have in recent weeks put aside laissez-faire rhetoric to wade into real estate, wielding new rules and deals they say are necessary to protect Americans from predatory bankers... Were the market left to its own devices, millions could lose their homes, the administration now says.” Peço ao Pedro Lains, que tão bem me interpretou num comentário avulso noutro post, o favor de nos esclarecer nesta matéria com a sua expertise

O sistema político
Afirma o Gonçalo que “do CDS-PP ao Bloco de Esquerda, passando pelo PPD-PSD, PS e PC, as diferenças são de grau mas não de essência”. Não sei qual é o seu “diferencial ideológico”, mas discordo. Há diferenças de essência entre o grupo CDS, PSD, PS e o grupo PCP, Bloco. Como há diferenças essenciais entre qualquer um destes dois grupos e o pensamento fascista, seja na dura vertente nazi, seja na vertente ópera-bufa de Mussolini. E há ainda diferenças essenciais entre o que hoje são o Bloco e o PCP e que o foram os totalitarismos estalinista, trostskista (que só teve uns breves relâmpagos práticos) e maoísta.

Conceitos
Temos uns problemas conceptuais a fazer ruído no meio da nossa conversa. O Gonçalo fala dum “Socialismo Capitalista, último avatar do mais tradicional Socialismo”. Não sei o que dizer. Parece-me haver contradição nos termos. Tentei usar o Dicionário. Não serviu, o que para o meu feitio é muito mau sinal. Prometo que vou voltar a ler o "nunca meu" Derrida para resolver o paradoxo. Temo é que isso amargue sem remissão o meu ano de 2008.

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domingo, 30 de Dezembro de 2007

O BCP e o Novo Socialismo Capitalista



Antes de mais, devo dizer afigurar-se-me tão lamentável, senão mesmo escabroso, todo este episódio do BCP que não é sem relutância o meu regresso ao assunto. Talvez por isso haja sido tão elíptico no «post» anterior e haja concomitantemente conduzido o Manuel S. Fonseca a uma interpretação errada, segundo julgo, do mesmo. A consideração que me merece justifica porém esta adenda numa derradeira tentativa de esclarecimento do que considero profundamente grave em toda esta situação.

Nesse sentido, importa também distinguir os vários pomos de discórdia e não obscurecer uns em nome da luminosidade de outros.

London - English Bankers

Robert Frank - 1952


Assim, temos, em primeiro lugar, a própria nomeação da nova Administração do BCP pelo Poder Político. Cozinhada haja sido entre o Presidente da República, o Primeiro-Ministro, o Ministro das Finanças e o Governador do Banco de Portugal, pouco importa. O facto é que o Poder Político arrogou-se o direito de nomear a Administração de uma instituição particular, sem mais _ ou pior, com o quase unânime aplauso de todos. Afigura-se, à luz do Estado de Direito Democrático em que supostamente vivemos, como todos gostam sempre de apregoar e enaltecer, uma intromissão, por definição, inaceitável, a menos, é evidente, em situação, excepcional, de excepcional gravidade, como última razão para evitar danos maiores.

Ora, por junto, tanto quanto se sabe, não foi o que sucedeu. O Poder Político interveio porque entendeu dever intervir, sem mais. Preemptivamente? Não o sabemos uma vez nada nos ter sido dito sobre o assunto mas, uma certeza fica: a julgar por este processo, parece ser legítimo ao Poder Político, a partir de agora, intervir preemptiva e directamente na condução dos negócios de qualquer instituição particular sempre que, mal ou bem, assim o entenda dever fazer, sem mais.

Presumem-se indícios criminais decorrentes da realização de ilícitas operações «off-shore»? Investigue-se, apura-se quanto há a apurar, prove-se e aja-se em conformidade. Poderá ser que esteja mal informado mas, até agora, tanto quanto saiba, nada está provado e, até prova em julgado, há presunção de inocência, não obstante poderem recair, transitoriamente, sob eventuais suspeitos ao arguidos no processo, medidas de coação tidas como adequadas, limitadoras do pleno gozo das suas liberdades cívicas. Mas, mesmo sendo esta a situação, que direito é que um caso de polícia outorga ao Poder Político a prorrogativa de se substituir aos legítimos accionistas de uma instituição particular na nomeação da sua Administração? Está o BCP em risco de insolvência? Houve receio da crise do BCP poder conduzir a uma situação paralela à do famoso «crash» dos anos 30? Afinal, qual a gravidade da situação do BCP que justifica tão, aparentemente, absurda decisão, tão extremo procedimento? Tanto mais quanto os designados indícios criminais, não vêm de ontem nem de anteontem mas de há anos. Ora, também tanto quanto se saiba, nem o Banco de Portugal e a CMVM vez alguma viram alguma coisa nem, também tanto quanto se saiba, vez alguma se preocuparam o suficiente para abancarem, de malas e bagagens, no BCP, escrutinando cada operação, cada papel, como sempre foi seu apanágio fazê-lo em relação a corretores e outras instituições financeiras de menor peso? Quem, até agora, os chamou à responsabilidade? O Presidente da República não parece ter sido e, Banco de Portugal, respectivo Governador e mais a dita CMVM aparecem, afinal, como os grandes, impolutos e últimos zeladores não se sabe bem do quê.

E é exactamente aqui que entra o Socialismo que nos esmaga, empobrece e, por fim, haverá de nos envilecer a todos. Digo Socialismo e não Partido Socialista nem me refiro particularmente aos socialistas. Por certo, por mais imaginação que tenha o Primeiro-Ministro, toda esta triste história do BCP ultrapassa-o em muito, tanto mais quanto não é sequer apenas uma questão de imaginação mas também de realização e, tanto quanto se saiba, não dispunha nem nunca dispôs dos meios para tal.

O Socialismo é a ideologia que dominou o Séc. XX e continua a dominar o início do Séc. XXI. Se olharmos para a nossa Democracia e para os respectivos Partidos Políticos, fácil é concluirmos também que, do CDS-PP ao Bloco de Esquerda, passando pelo PPD-PSD, PS e PC, as diferenças são de grau mas não de essência. Na essência, todos comungam dos mesmos ideais e, mais do que dos ideais, das mesmas práticas socialistas.

Verificou-se entretanto que, após a completa falência e a derrocada final do Comunismo, extremo do Socialismo, surgiu esta mescla de praxis política que, à falta de melhor designação mas não sem rigor e poder sugestivo, se poderá designar como Socialismo Capitalista, último avatar do mais tradicional Socialismo. Se Von Mises ainda podia dizer que o capitalismo se distinguia por ser o sistema que conduz os possidentes a tornarem-se poderosos e o comunismo o sistema que conduz os poderosos a tornarem-se possidentes, no actual Socialismo Capitalista tudo surge confundido e, por isso mesmo, todas estas trapalhadas que, de tempos a tempos, surgem para espanto de todos quando, a promiscuidade entre Poder Político e Poder Financeiro ou Económico, é exactamente a sua essência.

Como é natural, há quem, por ignorância, designe o actual Sistema como Liberalismo Selvagem, um manifesto disparate que nem valerá a pena estar agora a dilucidar. O que importa é que, em Portugal, dados os antecedentes históricos, desde os condicionamentos industriais às nacionalizações de 75, para não ir mais longe, dada a insipidez de um Poder Financeiro verdadeiramente nacional e autónomo, tudo isto assumo foros de muito maior gravidade, sendo a referida promiscuidade a constante terrível e trágica do nosso actual Regime Democrático e respectivo Sistema Económico, tal como este triste episódio do BCP torna assustadoramente patente, não deixando também de representar um certo envilecimento para qual parecemos todos caminhar quase inexoravelmente.

Que tudo isto é triste, é-o sem dúvida. Que seja fado, ainda tenho uma réstia de esperança que o não seja.

E, no fundo, no fundo, creio também que não discordamos assim tanto quanto à primeira vista parecia, para além de podermos fazer igualmente nossas as palavras da Sofia Galvão, exaradas com tanta lucidez quanto indignação no seu «post» de ontem.


Post-Scriptum: É claro, para um cinéfilo como o Manuel, não poderia deixar de dizer ainda que, tivéramos nós um Orson Welles e talvez tudo isto se justificasse em nome da Arte. Mas, assim, não ascendendo além do plano dos «Call-Girl», nem isso parece justificar seja o que for.

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O pior de 2007

O balanço de 2007.

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O melhor de 2007

Não atribuído por falta de informação disponível…

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Balanço de 2007

Estou indeciso: Amanhã o País fecha para balanço? O País esteve fechado para balanço? Ou o País está fechado por causa do balanço?

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Do estritamente proibido ao estritamente desejado

Este post vai gerar muitos "hate-posts"...
Portugal tem expressões curiosas que reflectem atitudes ainda mais curiosas em relação às regras. Uma delas é o "estritamente proibido". Há o proibido e o estritamente proibido… Proibido não é bem proibido. Para isso temos o estritamente proibido! Como o proibido perdeu grande parte do seu valor entre nós (já não tem efeito dissuasor) foi necessário criar o estritamente proibido. Como os Estados que criam uma nova moeda quando a anterior se desvaloriza muito. A tolerância zero é a versão contemporânea e actualizada do "estritamente proibido" (mais de acordo com as tendências actuais de marketing). Mas a nova lei do tabaco introduz uma nova categoria: é proibido mas faça como quiser.
Aviso já que as próximas linhas vão provavelmente irritar os meus amigos (ex-amigos?) tabagistas, incluindo possivelmente alguns deste deste blog. Pessoalmente, estou de acordo com a proibição de fumar em espaços fechados mas também reconheço que, na medida do possível, os tabagistas devem continuar a exercer a sua liberdade de fumar em espaços próprios. Não vou aqui recriar os argumentos pró e contra mas recuso-me a aceitar que o monopólio do discurso sobre a liberdade e tolerância pertença aos que se opõe às restrições a fumar em espaços públicos. Há aqui um conflito de liberdades e direitos que o Estado deve gerir.
No entanto, este post não tem como objectivo entrar na batalha sobre qual o melhor equilíbrio entre esses direitos e as respectivas liberdades. O que me parece é que esta lei é, nalguns pontos, mais um exemplo da nossa incapacidade de compreender que as leis actuam num contexto determinado e que ignorar isso transforma as leis em meros desejos ou mesmo hipocrisias normativas. O exemplo a que me refiro é o da liberdade (que aparentemente será dada a muitos estabelecimentos comerciais) de escolher passar a ser um espaço não fumador ou manter-se como espaço fumador (confesso que não conheço a lei em detalhe mas é isto que tenho ouvido nos media). Tal circunstância contraria um dos objectivos principais da lei (proteger os trabalhadores desse locais) mas nem é isso que quero discutir aqui. É que ela pode ser vista (para utilizar a retórica de hoje no Público de Vasco Pulido Valente) como protegendo o exercício do direito de propriedade e da liberdade de opção dos proprietários desses estabelecimentos e dos seus utilizadores. Os agentes económicos e os consumidores seriam livres de escolher entre locais para fumadores ou não fumadores. A realidade no entanto é outra: as normas jurídicas interagem com realidades sociais pré-existentes e dependem de certos comportamentos estratégicos. Esta lei corre o risco de ser sobretudo um exemplo do acto de legislar para exprimir um desejo e não realizar uma vontade. Escrevo isto e já estou a ouvir as acusações de ditadura e intolerância. Que seja claro: eu não tenho nada contra uma situação ideal em que, partindo do zero (sem uma prática social e económica pré-existente), se desse a possibilidade de optar entre um regime ou outro. No entanto, num contexto social onde a possibilidade de fumar em todos os locais é a norma social vigente (os economistas chamam a isto path-dependence) o risco de mudar essa norma não pode ser imposto aos agentes económicos. Os potenciais benefícios de imporem uma tal proibição não são suficientes para compensar o enorme risco que implica mudar a prática vigente. Se nem eu quando sofro com o fumo alheio tenho coragem de dizer a quem a meu lado fuma para parar (por receio de ser olhado e tratado como um intolerante: sanção social e não económica) porque o há-de fazer quem corre um risco económico importante. A liberdade dada é uma liberdade fictícia, ao menos para aqueles que prefeririam ter e/ou usar estabelecimentos de não fumadores. Que tal proibir o fumo nesses locais durante dois ou três anos (nem são precisos mais…) e depois sim permitir a escolha (autorizando aqueles que o pretendessem a reverter a locais abertos ao fumo). O que acham que acontecia nesse caso, em que a prática económica e social fosse a contrária? Ou isso já não seria uma forma de verdadeira liberdade? Este é o tipo de problema de acção colectiva que só pode ser resolvido através da cooperação entre todos os actores. Ou os operadores económicos se metem todos de acordo a esse respeito ou, como aconteceu nos outros Estados europeus, é o legislador que impõe essa "cooperação". Tal como está na lei a proibição de fumar é, no que respeita esses locais, apenas mais um exemplo do "é estritamente desejado" que domina a nossa legislação...
PS: O Vasco Pulido Valente apresenta mesmo assim esta lei como mais intolerante e restritiva da liberdade individual do que o as outras leis adoptadas na Europa. Seria bom que explicasse a que se refere. Isto de adaptar os factos às "necessidades" da escrita deve ter os seus limites. A nossa legislação é das mais permissivas entre as que foram adoptadas na Europa. Vasco Pulido Valente mantém intactas as suas qualidades de escrita mas tem perdido alguma da seriedade intelectual que devia ser natural num historiador.
Já agora e uma vez que estou a descarregar a minha acidez de não fumador "escondido" que tem vivido anos sujeito ao fumo público e com receio de se queixar... Um outro caso estranho nesta lei, e demonstrativo de como os direitos dos não fumadores não foram assim tão considerados, é o dos estádios de futebol, onde se poderá continuar a fumar livremente. Quem decidiu tal coisa nunca deve ter estado num estádio. Durante um ano tive um lugar de época no Sporting em que as duas pessoas à minha frente fumavam constantemente. É obvio que eu estava a apanhar esse fumo em permanência (estavam a 30 cm de mim…). No meu caso, o fumo não é apenas desagradável (e um eventual risco de saúde). É um dos factores que desencadeia as enxaquecas de que sofro à vários anos. Passei a evitar ir ao estádio (e ninguém me devolveu o que paguei pelos bilhetes). Eu não peço que proíbam de fumar nos estádios mas não seria possível ter zonas para não fumadores…

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O filme do BCP

Convem lembrar – e foi o post do Gonçalo que me fez pensar nisso – que a imaginação do governo socialista é demasiado escassa para terem sido eles (Sócrates e os seus ministros) a inventar o “caso BCP”. Das caricatas Assembleias ao passeio justiceiro de Joe Berardo à Procuradoria da República, o “filme BCP” está na rua (o cinema mais perto de nós) há meses. Recordo, e esta não é cena de guião escrita por um insidioso argumentista socialista, que Joe Berardo, com a Imprensa atrás, se dirigiu ao Procurador Geral da República e denunciou operações clandestinas de off-shore, envolvendo, presume-se, pessoas com ligações à Administração, e que sobre essas actividades recairiam indícios criminais.
Resumindo a fita, e como agora se diz no processo de contra-ordenação ao BCP:

Há suspeitas de que membros dos orgãos sociais estejam envolvidos em operações de off-shore ocultadas;
Os off-shore em causa estão ligados aos dois aumentos de capital do BCP que tiveram lugar em 2000 e 2001

Estamos em pleno “thriller policial”, um daqueles filmes à americana onde há polícias e criminosos. E foi um banco privado, governado por administradores privados – gente do mercado que é suposto dar bom nome ao capitalismo – que “escreveu” este guião e este filme. Ao ponto de já haver “polícias” americanos (Security Exchange Comission) ao barulho. Polícias americanos e definitivamente não socialistas.
Antes de ser o “filme político” das nomeações de Santos Ferreira e Faria de Oliveira, o filme do BCP começou por ser um caso de polícia. Se os socialistas são para aqui chamados é pela responsabilidade que possam ter na intervenção tardia do Banco de Portugal e da CMVM (ou, para voltarmos aos “filmes”, na estranha, e eventualmente dolosa, ausência de de intervenção dos seus “polícias”).
Bottom line: é preciso proteger o capitalismo das manigâncias que Joe Berardo denunciou e que na América, Joe dixit, dão prisão. Se não há mais ninguém na sala para o proteger, que venha o governo “socialista”.

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Parábola sobre o país que somos


À laia de contributo para as muitas explicações ainda em falta, não resisto ao relato de um passo da conversa entre Pedro Guerreiro e José Alberto Carvalho, no Telejornal, da RTP1, há escassas horas (29.DEZ.2007).
Pedro Guerreiro, director do Jornal de Negócios, era convidado de José Alberto Carvalho, ‘pivot’ do principal noticiário da estação pública. O tema era, ainda, o BCP. O estatuto do convidado, o de especialista (aliás, apesar disso, olhado com ar estranhamente condescendente pelo anfitrião, numa atitude a que, hélas, o telespectador incauto se vai habituando…).
Enfim, no calor das últimas novidades, o jornalista-residente questiona o jornalista-visitante sobre as hipóteses de uma eventual lista encabeçada por Miguel Cadilhe… A resposta não se fez esperar (e permita-se-me, por ausência de registo gravado, o testemunho livre): a vitória não é impossível, mas muito improvável. Afinal, continuava Pedro Guerreiro, a solução encontrada para o BCP nasce no Governo, tem o apoio do Governo. Mesmo no cenário mais benigno, o de mera omissão, ou de não oposição, o Governo viabilizou a ida de três administradores da Caixa Geral de Depósitos para a administração do BCP. Se não quisesse essa solução, jamais o teria permitido. Portanto, e agora a grande conclusão, convenientemente enfatizada como tal, apoiar uma lista alternativa à lista de Santos Ferreira equivale a apoiar uma lista contra o Governo. Apoiar uma lista diferente da de Santos Ferreira consubstancia uma afronta ao poder político!
E mais não precisei de ouvir… Assim, de uma penada, e com esta singeleza, assumia-se o essencial: no fim, fica o medo, o medo de incomodar o poder, o medo de divergir, o medo de desafiar.
Triste, mas lapidar. A nossa matriz é autoritária. Tudo o mais é puro voluntarismo. Para quem não tenha medo de o reconhecer…

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sábado, 29 de Dezembro de 2007

O Último Estertor do Poder Financeiro Nacional?

O Presidente da República Portuguesa convoca a Administração do BCP para audiência. Exactamente para quê não se sabe mas, parece legítimo pressupor, para um «puxão de orelhas» e exortar, essencialmente, ao respeito sempre muito devido ao excelente Governador do Banco de Portugal.

O excelente Governador do Banco de Portugal, enchido de brios, toma conta do assunto , decide quem deve mandar no BCP e, pelo meio, sete anos depois, em conjunto com a muito douta CMVM, compreende que, afinal, nem tudo irá bem pelo Reino do Banco mais Português de Portugal, e manda investigar...

A Administração do BCP, com o respeitinho devido ao Presidente da República, ao Governador do Banco de Portugal e sabe-se lá a quem mais, acata respeitosamente as ordens emanadas dos seus superiores.

Entretanto, não se ouvindo nem uma palavra da destituída Administração ou dos restantes accionistas, chega a vez do Fundador vir também dar a sua bênção final a todo o processo, retirando-se, finalmente, de cena, pela esquerda baixa.

Entretanto também, necessário sendo encontrar novo Presidente para a Caixa Geral de Depósitos, eis que se encontra a muito consensual figura de Faria de Oliveira, como soe dizer-se, um homem da casa _ e, por acaso, mero acaso, ex-Ministro do Dr. Cavaco Silva enquanto Primeiro Ministro de Governo de Portugal.

Muito bem feito, muito expedito, limpíssimo, como dirão todos aqueles a quem o socialismo que nos esmaga, paulatinamente nos empobrece e, por fim, haverá de nos envilecer a todos, não afecta.

Entretanto ainda, uma última pergunta parece ficar a pairar no ar sem resposta: porque não há ninguém que se revolte e diga o que é de justiça dizer e todos, unanimemente, se calam?

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Os dogmas de Camille

Se não se importam, dêem um saltinho aqui, mas também aqui, e leiam. A tese é de Camille Paglia e resume-se nestes pontos a que eu acrescento alguma flor de sal local:

O humanismo secular falhou e as vanguardas modernista e pós-modernas estão mortas e enterradas;
A cultura que emergiu dos movimentos de contracultura e de Maio de 68 não é herança que se recomende a ninguém, devendo e podendo assacar-se-lhe a responsabilidade pelo deserto de valores que a escola hoje atesta;
O ateísmo é um corpo cadavérico. Deus e o “vasto mistério do universo” foram a “raison d’être” da grande arte e de uma visão grandiosa da humanidade;
O ensino, perdida a referência da arte e da filosofia, declinou em trivialidades e exercícios de auto-estima;
Sem alguma forma de espiritualidade (de sublime, digo eu) as pessoas anestesiam-se seja de que forma for, da imersão básica no materialismo às drogas e aos tranquilizantes, estes últimos a língua franca das elites de Nova Iorque;
A Europa é o melhor exemplo da falência desse secularismo. Não há nela sinais vitais de criação artística contemporânea. Se alguma coisa é, a Europa é hoje, para milhões de turistas, o fabuloso e fantasmagórico museu dos restos mortais da religião e da realeza do passado.

Aviso os mais distraídos de que Camille Paglia é uma figura controversa. Ateia, lésbica anti-feminista como ela faz questão de sublinhar (seria preciso elaborar um pouco mais, mas isto é só um post), paladina do melhor que a pop culture fez (dos filmes de Hollywood ao mais físico e carnal rock ‘n roll), defensora do papel catártico da representação do sexo e da violência no cinema e na televisão, asseguro-vos que, se se decidirem a meter-se com ela, vão ter one hell of a ride. Mas se procuram algum excitment, um módico de rituais pagãos e um banho cultural radical, o já clássico “Sexual Personae” é um bom começo.

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sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007

Uma Maddie vale mais que mil imagens?...

A campanha de Portugal nas páginas do New York Times...
Já agora, teoricamente a campanha que é em inglês foi feita para a imagem internacional de Portugal, mas enche as páginas da nossa imprensa. Alguém quer responder a esta questão: porque estaremos nós cheios de publicidade a nós mesmos? Podem escolher uma destas opções ou propor alternativas):
  1. Para nos orientarmos (sabermos que estamos na costa oeste)?
  2. Para aprendermos inglês?
  3. Para nos vermos como achamos que os outros nos vão ver a nós (o nosso passatempo favorito)?Por puro narcisismo identitário?

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O Estado Camaleão

Os problemas com o BCP recordam-nos, mais uma vez, que privatizar e mercado são duas coisas diferentes. Privatizar sem mercado regulado é apenas uma delegação do poder público no sector privado. Nem o poder público nem o poder privado são, em si mesmos, necessariamente malignos ou benignos. Têm aliás mais semelhanças do que podemos imaginar (basta lembrar o famoso estudo de Coase que via nas empresas a primeira forma de hierarquia no mercado). Ambos promovem formas de acumulação de poder e ambos têm (ou devem ter) mecanismos de controlo sobre essas formas de poder (no mercado é normalmente a concorrência e a regulação que a assegura de forma apropriada; no Estado são os mecanismos de escrutínio político e controlo democrático e financeiro). Hoje em dia temos vindo a repensar o equilíbrio entre estes dois processos de decisão e de distribuição de recursos. Há um novo quase consenso emergente sobre quando é melhor ter mercado e quando é melhor ter Estado. O que me preocupa, no entanto, é a forma crescente como essa redefinição do papel do Estado corre o risco de colocar em causa os mecanismos tradicionais de controlo do poder público e do poder privado. Cada vez mais vemos o Estado assumir formas privadas, escapando assim aos mecanismos tradicionais de responsabilidade pública. Ao mesmo tempo, também é frequente o Estado conceder protecção pública ao sector privado protegendo-o dos mecanismos de mercado. Se não prestarmos atenção a este fenómeno corremos o risco de vir a ser irrelevante falar de Estado ou de mercado. Serão apenas faces diferentes do mesmo poder.

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O destino trágico de Benazir Bhutto

Benazir Bhutto, a primeira mulher a chefiar o governo de um estado islâmico, foi assassinada por um terrorista. Um atentado suicida repugnante em que morreram 16 pessoas. Por mais que achemos o acto cobarde, nenhuma indignação lhes devolverá a vida. A democracia, se era já uma hipótese remota, ficou agora ainda mais longe do Paquistão.
O presidente Musharraff não escapa à suspeita, se não de envolvimento, pelo menos de negligência. Do mesmo modo, Musharraff não deixará de usar o argumento de que o atentado se deve aos extremistas islâmicos cuja repressão exige medidas excepcionais. A espiral de violência está em curso e o estado emergência não deve tardar. O Paquistão entra em alerta vermelho e o mundo em que vivemos fica ainda mais inquieto.
Num amargo paralelo com a história dos Kennedy, Bhutto cumpriu o que parece ser o destino trágico da família. O pai tinha sido assassinado pelo ditador Zia ul Haq e os seus dois irmãos foram também mortos em circunstâncias nunca esclarecidas. Um baleado em Karachi, o outro encontrado sem vida num hotel, em França. A História parece às vezes o lúgubre teatro de um inexorável dramaturgo.

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quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

Beijos que se perdem

Suspeito que estou a converter-me num perigoso anti-consumista. Com excepções, mas anti-consumista quand même. A suspeita avolumou-se nesta quadra de boa-vontade. Tive algumas saudades de mais Natal e menos prendas. Para ser sincero soube-me melhor a lareira acesa do que a elástica e ubíqua generosidade do Pai Natal. Nem sequer estou a ser ingrato: as simples conversas, sem trincheiras nem terrenos minados, dos meus jantares de Boas Festas (uma mão cheia e, este ano, o do grupo de Tróia foi emotivo e cristalino) deram-me alegrias irreprimíveis.
E chegado aqui, rectifico. O anti-consumismo é uma má desculpa. O que acontece é que prevejo em cada presente uma ameaça cruel e primária. Nos que recebo e nos que ofereço. Temo não gostar e tenho medo de que não gostem.
Em cada presente, em cada embrulho, no colar que escolhi a pensar no aveludado decote, no alarido da gravata que me dão, há uma escolha e há um gosto que pedem aprovação. Quando se desatam os laços, se rasga o papel natalício e os livros, os cds, os dvds irrompem com desconsideração na euforia da meia-noite, aflige-me pensar que os recebam mãos desiludidas e que no rosto amado surja um esgar de inconfidente rejeição. Muito pior, temo que sejam minhas essas mãos, esse esgar.
Inclino-me a pensar que os chineses, nesta matéria, demonstram uma enorme superioridade civilizacional: só abrem os presentes depois de se retirar quem os ofereceu. Não fora os beijos sem fim que perdem...

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O BCP da Crise

1. Enquanto que os nossos analistas se preocupam com a ASEA, a Lei do tabaco, a falta de autoridade de Estado nas escolas e o excesso de autoridade de Estado no Fisco, o País vai mudando. Tanto que podem acontecer as coisas que aconteceram com o BCP, fruto de mercados financeiros altamente desenvolvidos.

2. Enquanto que Mário Soares se entretém a dar prémios, Cavaco Cilva serve o prato frio da vingança e mostra o charme discreto das presidências silenciosas. É difícil não acreditar que o início da solução do problema tenha sido a reunião que houve em Belém. E o tempo escolhido não podia ser melhor: a solução está a cair numa época em que todos estão distraídos com algo mais importante.

3. Cavaco Silva fez o que aparentemente Vítor Constâncio – ou melhor, o vice-governador com o pelouro – não pôde fazer. Porventura porque uma intervenção a sério do Banco de Portugal teria de ter moldes bem mais sérios.

4. Durante algum tempo não percebi o que se passava mas segui pacientemente os media e devo dizer que me parece que funcionaram bem. E o maior partido da oposição também ajudou. Para mim, o ponto alto de informação foi ontem uma entrevista que Mário Crespo fez a um economista no Jornal das 9 da SIC-Notícias. Segundo a explicação, muito bem dada, a Administração do BCP fez coisas que não se fazem e mais não se pode dizer. Mas também percebi que o que ela fez, foi mal feito e que há quem o faça bem feito sem que se note. Só não concordei com a ideia de que presidentes de bancos não podem mudar de institução.

5. Parece também que as instituções acabaram por funcionar e com todos os cuidados necessários para tomar conta destas susceptíveis questões financeiras. Funcinou o Presidente da República, o Banco de Portugal, embora ainda com muito em mãos, os media e o PSD.

6. Espera-se que a cereja no bolo seja o Expresso deste fim-de-semana que terá de estar à altura e dizer-nos mais sobre tudo isto.

7. Falta que o Governo nomeie alguém consensual para a Caixa Geral de Depósitos e, é verdade que, historicamente, os governo têm sabido conviver com Presidentes de cores políticas diferentes (até Salazar aguentou um Presidente republicano – e dos fortes – até 1932).

8. E falta ainda algo de dificil, se for caso disso: que os tribunais funcionem bem e atempadamente.

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terça-feira, 25 de Dezembro de 2007

De novo, em Belém...





Este ano fui a Belém. Desse dia, lembro tudo. A emoção inteira do lugar.
Mas, hoje, à distância de muitos quilómetros e vários meses, por alguma razão, lembro, em especial, o peregrino solitário que, indiferente a tudo e a todos, se aninhara a escassos metros da estrela polida de beijos, junto da pedra que simboliza o suposto local da manjedoura.
Loiro, alto, muito magro, podia ser alemão, holandês, sueco, talvez. Recolhido no seu silêncio, entregue a um outro diálogo, a sua oração tocou-me.
No dia seguinte, reencontrei-o em Jerusalém, agora no Cenáculo, lá no alto do Monte Sião. A mesma atitude. Dobrado, calado, absorto. Num canto, afastado, completamente imune à agitação envolvente. Sem horas. Com todo o tempo.
Estou certa de que não me viu. Não terá a mais pequena ideia de alguma vez ter partilhado a minha circunstância. E, no entanto, a verdade profunda e serena da sua celebração marcou o meu caminho. Da incarnação à eucaristia, da eucaristia ao pentecostes.
Onde estará ele, neste Natal? Provavelmente, tal como eu, de novo em Belém.

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segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007

Belém, a.D. 2007

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O Maquiavel de Alijó



Nem Sócrates é Lourenzo di Medici, nem eu sou (hélas!) Niccolò Machiavelli. Mas se eu tivesse a imensa fortuna de ser consultado pelo nosso Primeiro Ministro e se este me pedisse conselho sobre a forma de manter e engrandecer o seu iluminado poder, dir-lhe ia uma coisa muito simples: «controla os media e a banca; por esta ordem e sem contemplações; tudo o resto vai ao sítio».

Que eu não sou Machiavelli, repito, é uma cruel evidência. Mas que Sócrates, generoso, me vai seguindo a cartilha não é menos claro e a constatação enche-me de compreensível orgulho. Senão vejamos:

1 - Na RTP a limpeza está finalmente consumada. De forma magistral Sócrates conseguiu afastar aquela que provavelmente foi uma das administrações mais incómodas para qualquer poder político que aquela casa conheceu. Fê-lo com eficiência e rapidez. Mas fê-lo sobretudo evitando o coro de protestos que se adivinhava se as circunstâncias da mudança não tivessem sido eficazmente encenadas. Chapeau. Na TVI, devidamente ungida pelo Cardeal Pina Moura, o Eng.º sabe que conta com a sensatez de uma Prisa habituada a anos de profícuo convívio com o poder socialista e vê seguramente com bons olhos o aparecimento do seu novo canal de notícias. A PT está para o estado português como a Gazprom está para Putin e só o Pai Natal acredita que a com a PT.com a história vai ser diferente. O 5º canal não deixará de ir parar a mãos amigas. E sobre todos os outros paira, omnipotente, a famigerada ERC.

2 - Agora é a vez da Banca. O maior banco português é público e recebe ordens directamente do gabinete do Primeiro Ministro (lembram-se da opa sobre a PT?). Faltava que alguém zelasse pelos interesses do PS no maior banco privado português. Ora existirá melhor guardião desses sagrados interesses que o diligente Dr. Vara? Chapeau. Encore Chapeau.

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Amigos dos Amigos

A Rocinha é a maior favela do Brasil. Mais e melhor, a Rocinha é a maior favela da América Latina, território da multidão dos danados e ofendidos das classes D/E do Brasil. Fernando Cancian, repórter especial da Folha de São Paulo, descreve aqui como foi “autorizado” a entrar na favela para assistir a um show musica,l num sábado à noite. Recebeu luz verde da ADA, a associação de criminosos Amigos Dos Amigos, que controla tudo e todos, sem que o Estado meta no assunto nem prego, nem estopa.
Duas breves reflexões:

1. Será que, por tudo o que lemos, ouvimos e vemos nos últimos dias em Portugal sobre a crise do BCP, as classes A/B também têm os seus Amigos do Amigos?

2. Quando é politicamente sofisticado pedir, a todos os títulos, menos Estado, será que alguém poderá imaginar o que serão as nossas cinturas suburbanas, entregues hoje a um verdadeiro deserto de valores, se amanhã, abandonadas pelo Estado, ficarem entregues aos poderes privados, armados e arbitrários, dos Amigos dos Amigos?

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domingo, 23 de Dezembro de 2007

Laicidade positiva, em nome das raízes cristãs


Cónego honorário de São João de Latrão, Nicolas Sarcozy recebe o legado que remonta a Henrique IV. Em Roma, há dias, em plena cerimónia de consagração, recordou o baptismo de Clóvis e as profundas raízes cristãs de França. E fê-lo para afirmar, nesse quadro, a necessidade de uma laicidade positiva.
Muito marcada pelo sentimento anti-clerical, a laicidade francesa, embora assente na proclamação da liberdade, da tolerância e da neutralidade, assentou em incompreensão e sofrimento. Como é sabido, as relações entre o Estado e a Igreja, antes e depois da lei de 1905, foram um palco privilegiado de múltiplas tensões. A influência do jacobinismo manteve-se poderosa. E a desconfiança permanece até hoje.
Mas Sarcozy apela, agora, a uma laicidade positiva que, sem pôr em causa a liberdade de pensar, a liberdade de crer e de não crer, recuse ver as religiões como um perigo, reconhecendo-as antes como um trunfo. Uma vantagem objectiva para o diálogo com o mundo e a construção da paz. Para tanto, aos católicos, especificamente, pediu militância: convicção, coragem, generosidade e esperança.
O ponto de Sarcozy não é coisa pouca (os mais atentos recordam, certamente, a sua não muito longínqua controvérsia com Chirac e de Villepin – estes, herdeiros mais ortodoxos dos velhos princípios do laicismo republicano francês). Recém-eleito, empreende o caminho da reconciliação. Com ele, a laicidade não implicará a negação das raízes cristãs que indelevelmente moldaram a história e a cultura francesas. Porque, nas suas próprias palavras, “arrancar a raiz é perder significado, enfraquecer o cimento da identidade nacional e secar ainda mais as relações sociais que têm tanta necessidade de símbolos de memória”.
Por cá, em tempo de tantos e tão lamentáveis equívocos, talvez valha a pena lembrar que nascemos da cruzada de um conde borgonhês, que chegou ao extremo da Europa em nome da fé cristã. Um conde que aqui teve um filho que o Papa viria a reconhecer rei. E lembrar que, depois disso, para o bem e para o mal, foram quase 900 anos de laços profundos que marcaram os costumes, os valores, a cultura, as artes, a arquitectura, a paisagem.

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sábado, 22 de Dezembro de 2007

Orquestra Sinfónica do Iraque - "two shots for happy"

Por muito que nos espante existe uma Orquestra Sinfónica do Iraque e, toquem os sinos no céu, funciona. Este pequeno prodígio merece uma saudação especial e faz-me regressar ao espírito de celebração da bondade, optimismo e beleza que prometi, aqui e aqui, nos meus posts intitulados “two shots for happy”.
A Orquestra Sinfónica do Iraque ensaia três vezes por semana e dá um concerto pelo menos uma vez por mês. Já por três vezes incendiaram ou saquearam a Escola Sinfónica onde está sedeada, na Rua Abu Nawas, em Bagdad. Três vezes a destruíram, três vezes os seus membros a reconstruíram, sem que nunca, nestes anos de brasa, tenham cancelado um concerto, apesar de um músico ter morrido na explosão de um carro bomba e alguns terem tido familiares vítimas doutras acções terroristas.
São, diz-se neste artigo do El Mundo, “los más valientes” músicos do mundo. Para evitarem atentados não publicitam os concertos. Telefonam, mandam e-mails, sms e passam a palavra. É assim que enchem as salas de iraquianos que querem ouvir Bach ou Mozart.
Munzir Hafe é o mais velho destes músicos mais valentes do que os aventureiros “guapos”, esses “cultores del corage” da prosa de juventude de Jorge Luis Borges. Munzir tem 75 anos. Ele e o seu violencelo resistiram a tudo, da ditadura a golpes de Estado, das guerras aos atentados terroristas.A este velho guerreiro juntam-se mais 65 músicos sunitas, shiitas, cristãos, curdos e turcomanos. Une-os a convicção firme de que a “música é uma arma”. Tão inabalável ideal faz-nos despertar a consciência de que, afinal, em qualquer homem está um deus.

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sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

Elegia para um passaporte

400 milhões de europeus podem, agora, viajar livremente de Portugal à Estónia, da Finlândia à Grécia. Schengen alastrou-se a um território de 3,6 milhões de quilómetros quadrados. Liberdade e expansão que, sem rebuço ou hesitação, saúdo.
Mas tenho no bolso, encostado ao coração, o meu passaporte e não me atrevo a dar-lhe a notícia. Não é do pé para a mão que se liquida uma relação de décadas.
A primeira vez que pedi o passaporte, fui explicar, em Luanda, a um agente da PIDE as razões dessa minha vontade desvairada. Devo tê-lo comovido com tanta ânsia de cosmopolitismo. Deram-mo, como o meu pai, resignado e bondoso, me tinha já dado a emancipação para que eu, e só eu, fosse responsável pelos meus actos em Lisboa, que incluíam faltar a todas as aulas do prof. Martinez, em Direito, e fazer a ronda das livrarias para aliviar as prateleiras mais escondidas de alguns herméticos livros da colecção 10/18, a que, por mais nobres princípios que nos animassem, as nossas bolsas não chegavam. Algumas garrafas de litro de leite Vigor, pressentindo a escassez de recursos, teimavam em prestar-nos filantrópica companhia quando, após termos jogado às cartas até às 4 da manhã e outras devassidões a que vos poupo, passávamos em revista as pastelarias da Estrada de Benfica, elegante e compassada marcha a que o som atroz da bicharada do Jardim Zoológico e o cheiro, meu Deus o cheiro, emprestavam um toque de expedição à selva tropical.
Não era para isso que precisava de passaporte, como não precisei dele para, pela primeira vez, ir a Espanha a salto, do lado de lá de Vilar Formoso. Não havia no gesto, nem grande perigo, nem exaltada revolta. Era só uma coisa juvenil: passar a salto, sem passaporte, fazer compras além fronteira e voltar.
A primeira vez que me carimbaram o passaporte, na única vez que chorei ao ver uma cidade, foi em Paris, ao pôr um descuidado pezinho em França.
A primeira vez que passei a cortina de ferro e o meu passaporte teve, ali, debaixo das minhas constrangidas barbas, um despudorado affaire, dançando a valsa nas mãos do sinistro agente de uma já anémica ditadura do proletariado, foi em Budapeste, a meia dúzia de passos do Danúbio.
Olho, agora, com alguma tristeza para este meu velho e cansado companheiro. Vou mentir-lhe quando amanhã for a Roma, ou a seguir a Copenhaga. Jamais lhe direi que é agora “expendable”, à pala de um acordo feito numa parola aldeia luxemburguesa. Nem sequer o posso consolar contando-lhe as vezes em que tive gélidos arrepios só de pensar, ao dar de caras com palavrões como Alfândega, Aduana, Customs, não o ter ali, colado ao meu peito.
Mas tenho de ganhar coragem, convidá-lo para um copo, fazer com ele o luto das falecidas fronteiras, carimbos, vistos, e sobretudo, quando ele me perguntar “What About us?” recordar-lhe que apesar de tudo, “Old buddy, we’ll always have America”.

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quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

II. Diane de Poitiers, Ivan Cloulas, Fayard, 1997

Afinal, todos têm um pouco de razão. Diane não é um símbolo de libertação feminina. Não mudou de forma majestosa o curso da História, não é essencial conhecê-la para sermos felizes. É evidente.

Mas a perda de Diane não deixa de ser significativa do mundo em que vivemos. Uma sociedade que admira uma Diane é uma sociedade que é capaz de admirar. Só por isso deve ser objecto de admiração. E duradouramente. Só por isso merece a nossa duradoura admiração. E admirar a beleza, o que convenhamos é dos melhores motivos que conheço para suscitar a admiração. É uma sociedade lúcida, não puritana, amante da vida e da extraordinária riqueza que a vida nos pode oferecer.

Porque, convenhamos, a beleza é sempre um superávite. Um estafermo pode ser saudável, perfeitamente funcional, procriar (é certo que outros estafermos), dar felicidade. Mas que a natureza, para além da funcionalidade, ainda nos ofereça o espectáculo da sobreabundância da sua energia criativa, é palco sob o qual nos temos de sentar para admirar a generosa dádiva que nos dá. Que algo tão inútil como a beleza se instale no mundo, e sobretudo numa pessoa concreta, demonstrando que o ser humano pode ser portador de um benfazejo capricho divino, é algo que apenas nos deve provocar o espanto e a adoração.

Essa beleza serviu de pouca coisa, mas foi bastante para em hábil política de matrimónios, acabar por transmitir o seu sangue a um rei de França, Luís XV, e através dele, de todas as casas reais europeias. Não sei se a beleza transforme a História do mundo, mas transforma de certeza a História de muita gente.

Faz-nos reflectir além do mais sobre o lugar comum que afirma que vivemos numa época de imagem, com o culto da beleza. Tenho as minhas dúvidas. O que se admira hoje em dia é o produto de aparência saudável, ginasticado, o paralelo dos alimentos saudáveis. O mundo em que vivemos é muito mais mágico, timorato, que estético. Quando vemos as modelos raramente vemos beleza. Vemos produtos meramente instrumentais em relação a um fim. Seja ele a venda de um produto, de uma forma de vida, de uma marca. A beleza é exactamente o contrário do instrumental. Está aí. Apenas para ser admirada. Sem outra função que a de demonstrar que o mundo é capaz de a produzir.


Alexandre Brandão da Veiga


http://www3.fnac.com/item/author.do?category=book&id=41644
http://www.librarything.com/author/cloulasivan
http://www.clio.fr/espace_culturel/ivan_cloulas.asp
http://en.wikipedia.org/wiki/Diane_de_Poitiers
http://www.publius-historicus.com/diane.htm
http://www.dianedepoitiers.sharibeck.com/index.html

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quarta-feira, 19 de Dezembro de 2007

Duas mulheres

Há poucas imagens na pintura ocidental tão enigmáticas como esta.

Lembrei-me deste quadro anónimo (atribuído à escola de Fointainbleau) ao ler o post anterior em que se louvam as virtudes de Diane de Poitiers, amante de Henrique II, rei de França.
Gabrielle d’Estrées, a figura feminina que vemos na pintura, à direita, foi igualmente amante de outro monarca francês, Henrique IV. A mulher à esquerda, que lhe aperta o seio, é a sua irmã, a duquesa de Villars.
A beleza das duas mulheres, a intimidade sáfica que emana do quadro, fazem dele uma obra-prima. Mas há uma interpretação simbólica para a insólita ternura do gesto. O quadro seria uma celebração da maternidade de Gabrielle. Os dedos da duquesa apertam o mamilo de uma grávida, o que a mulher ao fundo, a costurar roupa de bebé, vem confirmar. A delicadeza dos movimentos e dos olhares convida-nos, com gravidez ou sem ela, a só tocarmos neste quadro com pinças.

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I. Diane de Poitiers, Ivan Cloulas, Fayard, 1997


Duas coisas estão fora de moda: os paradigmas franceses e as grandes figuras míticas da História. Deixo a primeira questão para outras núpcias, mas ataco a segunda.

Todos nós sabemos que não existe essa coisa das grandes figuras históricas, ou pelo menos foi o que aprendeu a massa nas escolas. Certezas rapidamente fabricadas e mal digeridas, bem longe de ser neutras ideologicamente. No dia em que alguém me souber citar os vizinhos de Beethoven e que fizeram eles de relevante, poderei então pôr como hipótese debater essa tese tonta.

Diane de Poitiers pertence ao pequeno leque de mulheres que são conhecidas pela sua beleza, e que, estando descentradas na sua época, conseguem ao mesmo tempo ser o centro dela. Caso semelhante apenas o da imperatriz Sissi, que via as ideias liberais e progressistas com algum agrado.

Diane é o símbolo da beleza. Mais: da beleza eterna. Até ao fim da vida permaneceu como símbolo de beleza. Facto espantoso, não apenas o de a ter mantido, mas de igualmente não passar de moda.

É o símbolo da mulher desportista, que cuida de si, da sua alimentação, do seu exterior, do seu corpo, mas também não destituída de cultura. Nesse aspecto é a antecessora e o paradigma da mulher dita moderna.

Amante de um rei (Henrique II) de França não foi apenas pela sua beleza que lhe poude manter o afecto. História de amor duradoura, indesmentida.

Amante de um homem mais novo, que por ela se enamorou perdidamente. Também nisso moderna, seja o que isso for.

Detestada pela esposa legítima, mais hábil politicamente; mas no fundo Diane de Poitiers largou a política não por falta de capacidade, mas de interesse e de poder.

E no entanto, Diane é malquista na nossa época. Esquecida pelos ignorantes. Mas já sabemos que os ignorantes são distraídos, que pisoteiam tudo, e não sabem destrinçar o valioso do irrelevante. Esquecida pelos cultores de uma História pseudo-científica que se esquece tão-somente dos seres humanos, pequeno pormenor a evitar. Não muito bem vista pelas feministas, que não vêem com agrado uma mulher que depende de um homem e com base nele fez a sua glória.

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terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

Sócrates, um herói de plástico? De plástico duro.




Sabem quem é Jean Quatremer? Um jornalista francês. Do Libération. Especialista em assuntos europeus.
Ora, Jean Quatremer foi convidado para jantar em São Bento, com José Sócrates. Jantou, portanto. E, manifestamente, gostou.
Alguns dias antes, recebeu um telefonema de um “próximo” do Primeiro-Ministro, perguntando-lhe “o que ele queria comer”… Ficou siderado. Mas o inusitado desvelo ainda lhe permitiu substituir por pato o sugerido bacalhau.
Depois, Quatremer entregou-se ao charme do seu anfitrião. Apreciou a informalidade, a disponibilidade, a absoluta serenidade do encontro – no tête-a-tête de São Bento, não sentiu qualquer pressão nos horários, qualquer indício de uma agenda cheia. Sócrates aparentava ter todo o tempo do mundo para Quatremer... Da conversa resultou o elogio rendido. Para Quatremer, Sócrates é sinónimo de sucesso: da harmonização do IVA à sonda espacial Galileu ou à proeza máxima do Tratado de Lisboa.
Mas Quatremer vai mais longe e ensaia o retrato do político e do estadista. Revela um Sócrates hábil, moderno, reformista, convicto. Mais: um Sócrates feito à sua própria custa, obra de esforço e vontade, vítima da hostilidade que envolve os que singram sozinhos, sem padrinhos, contra ventos e marés. Na essência, portanto, um homem admirável. E Quatremer não se poupa: Sócrates reduziu drasticamente o défice público, reformou a segurança social, começou a diminuir o número “pletórico” (sic.) de funcionários públicos, promoveu a avaliação do mérito no Estado. Enfrentou tudo e todos, polícias, militares, juízes, diplomatas. Prova da sua coragem, três greves gerais, que aguentou sem tréguas. Pelo caminho, este estadista de visão não esqueceu sequer a agenda social: aborto, paridade, procriação assistida. Ao pé disto, Sarcozy é um mero aprendiz – na expressão de Quatremer, as suas reformas, quando comparadas com as de Sócrates, não passam de “sympathiques amuse-gueules”
Em suma, um ícone da esquerda moderna. Um homem dinâmico, desempoeirado, tenaz. Provinciano? Talvez, mas sem complexos. O seu percurso é um tributo à possibilidade do êxito construído. Arrogante? Não. Apenas um homem determinado, que se convence da sua razão e não larga…
Sócrates segundo Quatremer é, afinal, o puro nirvana. Expressão paroxística da montagem publicitária, polida, vácua e inócua, de que falava Vasco Pulido Valente, há dias, no Público (vd. Sócrates: auto-retrato, 9 de Dezembro de 2007).
Uma invenção, o herói de plástico? Quatremer não se impressiona: se é de plástico, é de “plástico duro”!
Notável, hã? Tudo por conta de umas ameijoazinhas e do tal pato…

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Referendo? Não, obrigado.

Correndo os riscos inerentes a qualquer simplificação pode dizer-se que o ideal populista renasce na história moderna, pela mão de Jean Jacques Rousseau para quem ninguém era inteiramente livre a menos que participasse directa e continuamente na construção da comunidade em que se encontra inserido. Rousseau escreveu no seu Contrato Social que «No instante em que uma pessoa aceita ser representada perde toda a sua liberdade». Era de resto precisamente isso que criticava no sistema parlamentar inglês. Dos ingleses dizia aliás com desprezo que viviam na ilusão da liberdade. «São livres apenas durante o acto do voto para os representantes do Parlamento. Uma vez estes eleitos tornam-se escravos, não são nada».
Numa versão eventualmente menos radical o ideal populista aparece também, naquele que foi o grande momento de refundação do ideal democrático, a Revolução Americana, pela mão de homens como Thomas Jefferson ou Thomas Paine. Este último proclama, no seu «Common Sense» que «no primeiro parlamento cada homem terá o seu assento por direito natural» e que portanto «uma assembleia representativa deve ser uma miniatura fiel do povo em geral».
Já Jefferson, no longo debate que o opôs aos federalistas, nunca escondeu a ambição de trazer para o Novo Mundo uma forma de democracia participativa que recuperasse os ideais da democracia directa de tipo ateniense. Imaginava a América, à semelhança da antiga Grécia, como um conjunto de pequenas comunidades de lavradores que constituiriam outras tantas unidades políticas que se auto-governariam a si próprias, deliberando e decidindo de forma directa sobre todas as matérias. Sonhava com um sistema de governo inclusivo que centrasse a sua actuação no interesse da gente comum e temia que o governo federal acabasse por excluir a maioria dos cidadãos do controle político directo sobre os assuntos que lhes diziam respeito.

No pólo rigorosamente oposto ao do ideal populista sempre estiveram as concepções elitistas de raiz platónica.
Platão, que baseia o seu projecto político numa visão normativa do bem, na presunção de que existe uma verdade única e absoluta, tem uma visão radicalmente diminuidora do indivíduo e das massas populares. Ao contrário de Rousseau, e de resto dos liberais, imagina-as incapazes de descobrir por si sós o caminho para a verdade absoluta, para o bem absoluto que deve, segundo ele, nortear a construção da sociedade política. É aliás alicerçado nessa desconfiança profunda que nutre em relação às massas populares, que projecta aquele que é o primeiro grande ideal utópico da história do pensamento político. A sua cidade ideal é, como se sabe, dirigida por uma classe de magistrados, que têm à cabeça o célebre rei filósofo. São cidadãos expressamente escolhidos, seleccionados e, o que é mais importante, educados pelo Estado. São os únicos capazes de discernir racionalmente o bem do mal e de perceber o que é, em cada momento, o melhor para as massas. São, em suma, os guardiões de uma verdadeira sofiocracia.

Parece-me fundamental que se entenda que a democracia representativa tal como hoje a conhecemos e que adoptámos, surge em grande medida, como uma terceira via entre este ideal platónico ou elitista não democrático e o populismo basista de tipo rousseauniano ou Jeffersoniano.
De facto, a corrente federalista que haveria de ver as suas ideias consagradas na Constituição e no modelo político americano, sempre defendeu uma engenhosa solução política que abraça o ideal revolucionário da soberania popular mas ao mesmo tempo isola a República do perigo das paixões súbitas das massas populares. É um modelo que consegue casar os valores da igualdade política com as virtudes da reflexão, da ponderação, da deliberação, e da construção de consensos. Um modelo que tem o propósito declarado de evitar que as opiniões públicas se transformem obrigatoriamente em políticas públicas.
O sistema político americano, que é neste sentido mais tributário de Hamilton do que de Jefferson, é assim erigido com múltiplos dispositivos e barreiras destinados a controlar as paixões das maiorias populares. Ao contrário do que acontecia na antiga Atenas, na democracia representativa americana do século dezoito, tal como hoje na moderna democracia representativa, o papel do povo não era o de governar-se a si próprio mas o de escolher quem, em seu nome, de forma mais competente governaria: «the people will decide who shall decide». A ideia de que todos os homens eram aptos a governar-se não era de forma alguma negada (Hamilton defendia que o povo tinha uma capacidade intrínseca para se auto-governar) mas era interpretada inteligentemente para que essa capacidade não fosse utilizada por todos os cidadãos, a todo o tempo e a propósito de todas as decisões, mas antes fosse utilizada para escolher e controlar um grupo de representantes periodicamente eleitos.
Como escrevia há tempos Pacheco Pereira, «A democracia representativa é suposto libertar os políticos da pressão da demagogia, dando-lhe uma reserva temporal ou poderes próprios em que o controlo popular é indirecto, permitindo-lhe tomar medidas impopulares mas necessárias sem terem imediatamente a sanção do voto»
Edmund Burke ia ainda mais longe. Num célebre discurso aos eleitores de Bristol afirmou categoricamente que «o vosso representante deve-vos o seu juízo, e trai-vos se o sacrificar à vossa opinião. Se o governo fosse uma matéria de simples vontade, a vossa, sem dúvida alguma, seria a mais importante. Mas o governo e a legislação são matéria de razão e de juízo e não de inclinação».

Tenho para mim muito claro que no discurso político se perdeu a noção de que existe um verdadeiro abismo entre as concepções democráticas de pendor directista ou populista, e as concepções democráticas representativas. No afã de combater as tentações totalitárias talvez tenhamos menosprezado o debate que há dois séculos opôs Hamilton a Jefferson. O que é certo é que o discurso politicamente correcto se confunde hoje com a vulgata populista e tornou-se difícil afirmar, nos dias que correm, a importância da ponderação, da reflexão e dos mecanismos moderadores próprios dos sistemas representativos.
Os sinais vêm de todos os lados. Da esquerda mais folclórica que tem no Bloco o símbolo máximo da promoção deste ethos politicamente correcto, à direita absolutamente falha de ideias do CDS/PP (pós plástica?). De Santana Lopes (talvez o político que melhor entendeu este ar dos tempos) a Alberto João Jardim, passando pelo inefável Paulo Portas. De todos os lados se cede à tentação fácil de exigir maiores doses de directismo, de democracia directa, de referendos. Estão na moda as propostas «anti-sistema»; as críticas às «elites políticas». Em todo o lado – dos partidos aos jornais - se confunde, por falta de coragem política para afirmar a diferença, os conceitos da titularidade do poder com o do exercício do poder. Em todo o lado e a propósito de tudo se apela à legitimação popular das decisões políticas. Em todo o lado se invocam sondagens, se convidam os media a invadir o palco da política e os cidadãos a interferir directamente na arte do problem solving.
Ora entendamo-nos: nos nossos regimes políticos a titularidade do poder é, inequivocamente, dos cidadãos eleitores. Mas o exercício do poder não pode nem deve ser, no quadro – repito - de uma democracia representativa, uma prerrogativa sua. E é porque estamos a perder a noção desta distinção basilar – que está no cerne do debate entre as virtudes de um sistema populista e de um sistema representativo – que as sociedades contemporâneas caem na ratoeira de eleger os referendos como um «device» hiper-democrático impassível de ser criticado. Tornou-se mesmo politicamente incorrecto afirmar que a «vox populi» não tem nenhuma legitimidade particular no período entre eleições. Ou pelo menos em nada belisca a legitimidade dos poderes democraticamente eleitos. Mais grave, tornou-se politicamente insustentável reintroduzir no discurso político a noção de que existem excessos democráticos e que é para os evitar que optámos por um sistema de governo representativo.
Em suma, longe de serem o «nec plus ultra» da democracia, os referendos são uma cedência facilitista a uma concepção populista da democracia e uma perversão do sistema democrático representativo. Está na altura de alguém assumir isso de uma vez por todas.

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O Prémio Pessoa 2007

O mercado dos livros em Portugal está em grande transformação, sobretudo nos últimos cinco anos. As mudanças traduzem-se na consolidação de grupos de editoras, distribuidoras e livrarias, e em investimentos avultados de grupos financeiros dinâmicos. E são bem visíveis no crescimento das livrarias e do público. Só as estatísticas não mostram isso porque as instituições públicas em torno do negócio (INE, associações de editores, institutos do livro, etc.) continuam num confrangedor atraso.

Este movimento de expansão tem um outro lado. Trata-se da grande procura de autores por parte das editoras. Há um campo onde essa busca tem sido muito profícua: o dos livros de História. Lembro-me de três editoras mais dinâmicas neste campo. São elas o Círculo de Leitores/ Temas e Debates, a Esfera dos Livros e, em menor escala, a Alêtheia. O Círculo de Leitores teve um enorme êxito há cerca de 15 anos com os oito volumes da História de Portugal organizados por José Mattoso e desde então promove a publicação de colecções e títulos isolados de História. A Esfera dos Livros tem conseguido chamar a si a produção de livros a partir de dissertações de doutoramento, entre outros livros de encomenda, centrando-se nos temas mais candentes da história nacional, sobretudo do período do Estado Novo. A Alêtheia tem tido menos sucesso mas está claramente por trás dos livros recentemente produzidos, também visivelmente por encomenda, de Vasco Pulido Valente e Filomena Mónica.

Eu não sei muito bem como é que os responsáveis destas editoras trabalham. Todavia, se eu fosse um deles seguramente que, hoje, candidatava os “meus” autores aos prémios em ciências sociais, como é o caso do Prémio Pessoa. E deve ser isso precisamente que é feito. O que podemos presumir que acontece é que todos os anos as editoras mais organizadas enviam candidaturas àquele prestigiado prémio, e a outros seguramente, até que um dia o Prémio Pessoa é mesmo concedido. Isso não tem nada de mal, claro. Todavia, é preciso que todas as editoras façam o mesmo, para que não cheguem às mãos do júri apenas os livros feitos pelas grandes editoras, pois esse não deve ser de modo algum um critério de pré-selecção.

Isto que acabo de dizer é baseado em 1/3 de factos e 2/3 de conjecturas e por isso pode estar tudo errado. Todavia, foi a única maneira de encontrar nas poucas meias-horas que tenho para pensar nestes assuntos uma explicação para a paradoxal atribuição do Prémio Pessoa de 2007. Tratam-se de primeiras obras e de alguém com mérito. Todavia, há muitos outros autores nessas condições que não ganharam o prémio e precisei de perceber porquê. A razão terá sido porque não foram publicados por grandes casas editoras, nomeadamente o Círculo de Leitores e a Esfera dos Livros.

Devo dizer que, a ser verdade esta ideia, acordei para ela tarde. Entre 2004 e 2007, fui responsável pela Imprensa de Ciências Sociais e agora penso que deveria ter mandado pelo menos uma candidatura ao Prémio Pessoa, a de Bruno Cardoso Reis, autor do livro Salazar e o Vaticano, publicado em 2006(1). Um outro livro muito importante, publicado neste ano de 2007, neste caso uma segunda obra de um jovem professor de História, é o livro de Pedro Aires de Oliveira, Os Desafios da Aliança. A Grã-Bretanha e a Questão Colonial Portuguesa, 1945-1975, da também pequena editora Tinta da China(2).

Espera-se que o Prémio Pessoa de 2007 seja um alerta para que haja mais concorrentes no futuro. Aliás não se justifica que um prémio tão importante tenha apenas 29 candidaturas.

Nada disto desmerece evidentemente a vencedora deste ano, Irene Flunster Pimentel, a quem deixo aqui os meus parabéns.

(1) http://www.ics.ul.pt/imprensa/det.asp?pesq=cardoso&pesq_escolha=autor&id_publica=182
(2) http://www.tintadachina.pt/book.php?code=03b104025a685cea8f3aa17f44706274&tcsid=37ffe448d6380fec12ca3e7a9c774d6a

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25 de Dezembro - Dia Mundial do Comércio

Não sei bem o que me leva a mim, agnóstico, determinista e pecador, a sofrer pelo desaparecimento do presépio. O Pai Natal não tem graça: parece um fanático do Benfica com pouca higiene alimentar. De resto, quantas casas em Portugal, com lareira, para o obeso entupir? A história do Natal prende-se com o nascimento, esperança sempre renovada, milagre da existência ainda por explicar. Paz aos homens de boa vontade. Pobre menino Jesus, poucos se lembram do seu dia de anos.

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domingo, 16 de Dezembro de 2007

Liberais Equívocos

Dos promotores iniciais do Compromisso Portugal, António Carrapatoso é quem tem mantido uma mais constante actividade de intervenção cívica, como o próprio, por certo, preferirá afirmar, surgindo múltiplas vezes como comentador convidado nos mais diversos debates televisivos, integrando grupos de «sábios» de análise e monitorização da evolução política e económica da nação e, com igual regularidade também, dando à estampa artigos de opinião política, com particular destaque para a revista Atlântico, como sucede, uma vez mais, no recente número de Dezembro.

Embora algo conotado com o Liberalismo, o Compromisso Portugal, de acordo com o que é possível ler no seu «site» oficial, não estabelece compromisso nenhum em relação ao liberalismo, seja em que circunstância for, afirmando apenas nos seus propósitos gerais de acção:

«O Compromisso Portugal é um movimento de causas que propõe:

Um Estado forte e independente ao serviço dos cidadãos.

Um Estado existe para desempenhar com eficiência e eficácia todas as funções e actividades (mas só estas) que a iniciativa e o interesse individual dos cidadãos e das suas instituições privadas não conseguem garantir.

A flexibilidade e a predisposição à mudança como atitude dos cidadãos e da sociedade no seu todo.

A igualdade de oportunidades como ponto de partida para a liberdade e iniciativa individual.
Acredita na sã concorrência nos mercados enquanto fonte de valor económico e social.

A existência de direitos sociais e de uma rede de protecção social para os que deles realmente carecem.

O Compromisso Portugal pretende intervir na sociedade enquanto essa for a vontade dos seus promotores e seja possível reunir as condições necessárias para a realização das suas iniciativas.

O Compromisso Portugal acredita em Portugal.

E que pode contribuir para fazer do nosso País um melhor sítio para viver.»

Em boa verdade, pelo que fica exposto, não só compromisso algum se vislumbra do Compromisso Portugal com o liberalismo como, mais rapidamente se identificaria como um movimento socialista daqueles que se arrogam do socialismo democrático, em liberdade e moderno, como hoje, de certo modo, se poderá também arrogar o PS desde os idos de António Guterres a José Sócrates, senão mesmo desde os mais recuados dias do «socialismo na gaveta» de Mário Soares, mas já então, de facto, socialismo democrático, em liberdade e moderno

Em causa, não está, como é natural, a genuína e recta intenção do grupo do Compromisso Portugal em verdadeira e valorosamente contribuir para «fazer do nosso País um melhor sítio para viver», como os próprios afirmam nessa extraordinária expressão de tão elevado recorte literário.

Pois bem, neste «sítio» que, todos esperamos, um dia será ainda um melhor «sítio» para se viver, onde se publica a revista Atlântico, António Carrapatoso afirma no referido artigo, intitulado «Politrix», ser a distinção entre liberais e não liberais, o que hoje realmente interessa, tanto mais quanto «em Portugal ainda não temos, nem à esquerda nem à direita, forças e líderes políticos que assumam clara e convictamente um projecto de inspiração liberal para a transformação da sociedade».

Se bem interpretamos a o escrito, António Carrapatoso, à semelhança dos socialistas de há muito e Marx em particular, está preocupado com a «transformação da sociedade» _ não sabendo nós se eventualmente também do Homem também (e já agora da Mulher, não vá sermos acusados de machistas e politicamente incorrectos), opondo apenas ao tradicional «projecto» socialista para tal fim, o da mesma «transformação da sociedade», um novo «projecto» liberal.

Assim, admitindo que, «se o Partido Socialista não vier a demonstrar vontade ou capacidade para evoluir para um projecto de real inspiração liberal, este será aprofundado e promovido com o contributo da sociedade civil, como alternativa política», António Carrapatoso propõe, em consequência, um pequeno exercício, qual seja o de confrontar as políticas seguidas pelo Governo com nove proposições do que, segundo fica subentendido, entende o Presidente da Vodafone Portugal, constituírem-se nove proposições decisivas para uma boa, correcta e sã prática liberal.

Não discutindo a contradição em termos de um socialismo-liberal, nem sequer procurando averiguar qual seja o seu pensamento sobre ser «o ponto de partida do modelo social a igualdade de oportunidades assente desde logo numa formação base de qualidade para todos», o mais extraordinário chega a parágrafos 8, com a proposta de «impostos progressivos para que se promova a coesão social, até ao ponto em que não são inibidores da inovação, da criatividade e da criação de riqueza passível depois de ser redistribuída por diversas outras formas».

Se no Manifesto Comunista, de Marx e Engels, lá está já preconizado o «forte imposto progressivo», logo depois de se defender a «expropriação da propriedade fundiária e emprego das rendas fundiárias para despesas do Estado», quem somos nós para criticar tão alta proposta, mesmo quando, na nossa ingenuidade, sempre havermos crido ser exactamente esse um dos pontos cruciais de distinção entre socialismo e liberalismo, ou seja, da negação de qualquer forma de imposto progressivo, por este último, dada a sua intrínseca natureza em se constituir, de facto, como uma das formas mais vis, iníquas e perversas de esbulho da riqueza alheia, ou seja, da riqueza de todos em geral e de cada um de nós em particular. Engano nosso, por certo.

E dpois de ler e reler o artigo em causa, procurando melhor apreender e compreender o «novo liberalismo» aí proposto, no final, não é possível evitar uma última, terrível e melancólica reflexão mas também uma certeza: neste «sítio», que todos esperamos, um dia, será um melhor «sítio» para se viver, ainda vamos ter de muito penar, por muitos e longos anos, o socialismo que nos esmaga, atrofia e, a pouco e pouco, nos mentecapta (ou socializa) a todos.


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sábado, 15 de Dezembro de 2007

Viva Verdi



Para «épater le bourgeois» (no caso em apreço, «moi-même») até podia ter servido. Mas a verdade é que foi fraco, muito fraco o Rigoletto que na segunda feira passada abriu a temporada lírica do S. Carlos. A crítica foi, em geral, demolidora. Blogoesfera incluída (exemplos aqui, aqui e sobretudo aqui). E antes que alguém diga que o problema é a crítica, registe-se que na sala houve direito a uma pateada das antigas.

A coisa não teria qualquer relevância política não fosse este Rigoletto que «lembra um empadão temperado a caldos Knorr e servido em regime de fast-food» a estreia de Christoph Dammann depois do controverso processo que levou ao afastamento de Paolo Pinamonti.

Quantas mais provas serão precisas de que temos a pior Ministra da Cultura que já passou pela Ajuda? E é bom lembrar que o inefável Dr. Lopes também por lá andou...

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sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Noches de Ronda

Há um tempo para todas as coisas. Eu perdi, a propósito dos "Led Zeppelin", o tempo para atacar a provocação do Pedro Norton e o comentário de requintado connaisseur do Gonçalo. Não, não meti a viola no saco. Bastou-me o colapso de um modem e o desfasamento (mea culpa) de um par de telefonemas com a netcabo para que, de repente, saísse da globalização, da populosa e vibrante metrópole virtual, e desse comigo sozinho, na límpida rua da minha aldeia, durante três longas noites, três tristes séculos, numa solidão de livros, jornais e música. Como é que hoje alguém sobrevive à cruel ausência da net?
Seja como for, I’m back. Perdeu-se a oportunidade, mas não esqueço. Venha o próximo e concertado incunábulo rock ‘n roll e prometo que o meu irrepreensível gosto kitsch (ou será camp?) reabilitará as mais gongóricas bandas, todas as bandas que me façam voltar “a la casa de mi infancia”. Do Alvin Lee dos “Ten Years After” ao Peter Green dos “Fleetwood Mac”.
Ah, pois, Pedro, e se quiser música, garanto que também lhe arranjo uns boleros para uma noche de ronda. Coisas de faca na liga e atirar a matar.

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Morte verde



Al Gore pode morrer descansado. Chegou o EcoPod, o primeiro caixão totalmente biodegradável. Dissolvem-se rapidamente e ainda alimentam a terra com os seus ingredientes ricos em nutrientes. Ah! E vem às cores!

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Imagens que dizem palavras


Depois de umas semanas de ausência regresso com uma sugestão para candidato a filme do ano: O Assassinato de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford. De uma beleza formal extraordinária o filme de Andrew Dominik é um caso raro no cinema de hoje: uma obra de adaptação de uma obra literária em que as imagens interpretam as palavras. Confesso que a certa altura pensei que o filme estava a ficar desprovido de sentido e se iria esgotar na sua extrema elegância formal. Estava enganado: com um ritmo narrativo que quase testa a nossa paciência, o filme vai-nos associando às personagens desta história sem, no entanto, permitir que com elas nos identifiquemos. Tudo isto, num estilo distante e apenas aparentemente frio, em que a distância do retrato acentua a dificuldade moral com que o filme se confronta. Um filme em que o cinema não fica subjugado à literatura. Tal como outra recente adaptação cinematográfica (Atonement, basado na obra de Ian McEwan) este filme é bem sucedido porque em vez de se limitar a ser um novo veiculo das palavras do escritor as procura interpretar em imagens. Em ambos os casos (O Assassínio de Jesse James e Atonement) a adaptação apenas procurou ser fiel à mecânica narrativa das obras e às emoções que transmitem. São adaptações bem sucedidas porque não abdicam de dar a posição de primazia ao cinema! Não me interpretem mal: no Assassínio de Jesse James a fidelidade às palavras e à composição literária são patentes, só que as imagens têm um tal poder e dimensão que sem eles não imaginamos as palavras.Realce, igualmente, para as grandes interpretações. Brad Pitt é excelente (ganhou o prémio de interpretação de Veneza por este filme) mas é Casei Affleck quem acaba por conquistar o ecrã. É o segundo filme com este actor (irmão de Bem Affleck) que vejo em pouco tempo e não tenho dúvidas em afirmar que é um dos grandes actores da nova geração.

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quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007

Da Visão: Privacidade e Segurança

Não é preciso ler os clássicos do Liberalismo para saber que privacidade e segurança são dois valores que raramente andam a par. Basta que o digam os cidadãos do Mundo Ocidental que, desde Setembro de 2001, têm assistido a uma invasão progressiva mas implacável da sua esfera de privacidade em nome da luta contra o terrorismo global. Estou aliás absolutamente convencido que nem só de Guantánamo e Abu Ghraib se fará, quando a poeira assentar, a história dos atropelos aos valores liberais perpetrados durante estes últimos anos. Muito mais exemplos, só aparentemente comezinhos e inofensivos, se invocarão então para descrever, com um nexo que se tornará bem evidente, esta decadência da civilização que um dia proclamou a inviolabilidade de certos direitos individuais.
Dirão os mais optimistas que em Portugal esta obsessão securitária com o terrorismo não se tem feito sentir de forma tão premente. Mas o que dificilmente negarão é que o ambiente mundial mudou, que os exemplos de fora sempre vão fazendo alguma escola (basta viajar de avião) e que os cidadãos se vão mentalizando, pouco a pouco, para aceitar medidas que, ontem ainda, seriam verdadeiramente impensáveis. A isto acresce que, de há uns tempos para cá, a criminalidade ganhou um estatuto mediático que tradicionalmente só lhe era concedida por jornais de sarjeta. O crime vende e se for violento vende ainda melhor. O que talvez explique que, embora as estatísticas oficiais continuem a não dar razões que justifiquem o aparecimento de uma onda de insegurança generalizada, o facto é que ela começa a existir. Pelo que só quem não quiser ver é que não percebe que o terreno está propício ao aparecimento de mais atropelos à nossa privacidade e direitos individuais.
Bem dito, melhor feito. O combate à criminalidade na baixa da cidade do Porto vai, a partir de agora, contar com câmaras de videovigilância. E já há planos para alargar a ideia a Guimarães, Coimbra, Portimão, Fátima... O «ex-espião» e agora Ministro Rui Pereira aplaude, o presidente da Associação de Municípios Fernando Ruas não lhe fica atrás em entusiasmo, a Comissão Nacional de Protecção de Dados aprova, a monstruosidade avança. Rodeada de garantias, é certo. As câmaras só estarão ligadas depois das 21h00, os rostos dos cidadãos serão desfocados e só podem ser analisados com recurso a uma chave de desencriptação. Tudo muito moderno, tudo muito bonito se em Portugal não soubéssemos quanto vale a palavra e a eficiência do Estado quando toca a guardar os seus segredos («remember Casa Pia?»).
Espero, sinceramente, estar enganado ou estar a fazer uma tempestade num copo de água. Compreendo a necessidade imperiosa de travar a criminalidade violenta. E sei bem que, nestas coisas, nenhuma medida, por mais intrusiva que seja, é de per si, de molde a transformar subitamente o país num estado totalitário. Mas há ensinamentos que aprendi ainda melhor. Um deles é que não pode haver liberdade sem privacidade. E espanta-me que num país que lutou quarenta anos para conquistá-la se brinque com o fogo com tanta leviandade e tão pouco escrutínio.

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Loira Burra?


«A modelo brasileira Gisele Bündchen, 27, teria colocado como condição para aceitar um contrato a garantia que de que não seria paga em dólares, segundo o tablóide britânico "The Sun". Em vez da moeda americana, Gisele pediu que o pagamento fosse realizado em euros. O contrato em questão seria o anúncio para a marca de xampu». in Folha Online
Ao contrário do que possa parecer este não é um simples fait-divers. A notícia diz mais sobre o actual momento macro-económico do que se possa pensar. E a continuar assim, a moça arrisca-se a substituir o oráculo Greenspan. Ganha-se em clareza e (já agora) em beleza.

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Portugal Visto do Finantial Times

Finantial Times de 13 de Outubro de 2007
Modesta Homenagem à Europa e Respectivo Tratado

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Mudanças

Em 1992, tinha um carro com matricula de Florença e vivia em Madrid. Quando os dinamarqueses votaram em referendo contra a ratificação do Tratado de Maastricht pus no carro o símbolo DK em apreço pelo voto dinamarquês. Tanta mistura europeia e tanto cepticismo.

Ontem de manhã passei pelo alto do Parque Eduardo VII, como passo quase todos os dias, e gostei de ver lá uma bandeira gigante da União Europeia, no lugar normalmente ocupado pela bandeira nacional. Também gosto da ideia do Tratado de Lisboa que se assina hoje, assim como da ideia de ele ser ratificado rapidamente, sem referendos, isto é.

Não há dúvida de que houve aqui uma grande transformação no meu pensamento, mas devo dizer que não sei bem o que me fez mudar de ideias. Será que fiquei mais conservador? Será que agora acredito menos no mercado e mais nas instituições? Será porque vejo o que a integração fez a países como Portugal, Espanha, Itália e mesmo Reino Unido? Será porque me apercebo da importância da UE para o centro e leste europeu? - As respotas devem estar nestas perguntas.

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quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007

Contra o totalitarismo


Para quem não leu, no domingo passado, a entrevista de D. Manuel Clemente, bispo do Porto, à revista Pública, proponho esta passagem:
A única maneira de reagir ao pensamento único, mesmo que não seja ostensivo mas insinuante e quase imperceptível, é não abdicar de ser pessoa como instância de consciência, reflexão e decisão. Isso hoje é muito difícil. Ter tempo, criarmos tempo, para meter a cabeça fora de água e fora da corrente, é muito difícil.
Quando tudo apela para a indiferença, o hedonismo, a futilidade e o imediatismo, é mesmo muito difícil. E, no entanto, não há porventura alternativa. Pelo menos para aqueles que não prescindam de ser livres e de, em liberdade, definir responsavelmente os seus caminhos - em nome de valores, de princípios e de causas, por um futuro ainda humano.
Aliás, para bem de todos. Ou seja, também da imensa maioria que já claudicou – incapaz de perceber como é subtil e dissimulada a moderna proposta totalitária…

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O ministro das Finanças, a educação e as obras públicas

Mário Patinha Antão às vezes pode ter razão e isso terá acontecido com o artigo que escreveu para o Público de hoje. Diz ele aí que o actual ministro das Finanças tem pouco poder para fazer frente a demandas de ministros gastadores ou com pastas altamente deficitárias, como são os da Saúde e das Obras Públicas. Há muita gente hoje em dia a dizer o mesmo: é preciso dar mais poder às Finanças para que se possam fazer orçamentos equilibrados do ponto de vista da estrutura das receitas e despesas (e do défice, claro) e planeados para cada legislatura.

Este artigo vem por baixo de um outro – um pouco ideológico – do meu amigo e colega Rui Ramos. Não resisto a notar aqui uma falha “científica” da sua argumentação. Diz ele:

“E para que serve todo este fervor e piedade [em prol da educação e das obras públicas]? Nos últimos 20 anos, os governos portugueses efectuaram o maior investimento de sempre em educação e obras públicas. Em termos europeus e em relação aos recursos disponíveis, nenhum outro país se terá esforçado mais. O resultado? A contínua descida das taxas de crescimento e o empobrecimento relativo do país desde 2000.”

Afinal não é um, mas são dois os deslizes científicos. Veja-se, em primeiro lugar, como a terceira frase é posta de forma que é sempre verdadeira, mesmo quando falsa. Depois, veja-se a associação que é feita na última frase, que implica uma relação de causa-a-efeito longe de provada e altamente redutora. A educação é um mito que tem de ser combatido e já o foi longamente na década de 1990. Aliás, hoje já ninguém diz os disparates que se diziam na altura. Mas atenção: embora a educação não seja, claro, uma condição suficiente do desenvolvimento, ela é seguramente necessária. Embora possa ser tanto consequência como causa. Assim como as obras públicas.

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Alguém disse Led Zeppelin?



Foi o Manuel que lançou este debate serôdio. O Gonçalo deitou mais umas achas para a fogueira. E eu não resisto a uma boa discussão liceal. Led Zeppelin? Francamente. Nunca lhes consegui arranjar um lugar em nenhum dos meus pessoalíssimos top ten. Nem no «Best Rock Bands ever» (edição do autor num caderno puído que é hoje uma raridade) nem - por maioria de razão - em nenhuma das subsequentes listagens temáticas com que me divirto a popular o meu ipod («Best Rock Bands 60/70's», «Psicadélica imprescindível», «Dimitri From Paris and the French dance scene», «The Duke and The Aristocats (assim mesmo)» entre muitas outras categorias absolutamente inconfessáveis).

Mas fiquemos-nos pela listagem mais abrangente. Stones à cabeça: Jagger, Richards, Watts, Wyman mas também Jones e Taylor. É dogma. Não aceito sequer discutir o tema («uma base de Blues» Manuel? Vou oferecer-lhe o «quintessential» Exile on Main Street e depois falamos). Doors logo a seguir. Pink Floyd, Velvet (& Nico), Lou Reed (que tem mais vida para além dos VU) o camaleão Bowie, o «sex machine» James Brown, o roufenho Robert Zimmerman (aka Bob Dylan). E, numa concessão pós 70, Prince (ou «the former artist known as») e os U2. Mas a lista podia continuar: Hendrix, Joplin, Van Morrisson, Neil Young, Iggy Pop...

Alguém disse Led Zeppelin?

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Escutas e Atávicos Receios

A designada questão das «Escutas», em particular no que respeita aos designados «Serviços de Informações», tem feito correr muita tinta nos últimos tempos. De súbito, parece não haver por aí um grupo de pessoas que mais terá a fazer do que divertir-se a escutar 10 milhões de portugueses para descobrir as suas fraquezas, morais sobretudo, de forma a reconduzi-los, seja por que meios for, a uma recta e sã vida moral. Será mesmo essa a questão?

Raymond de Bequelle (1968)
Não, essa não é, como é evidente, a questão _ muito embora, pelo modo como surge discutida nos meios de comunicação, quase pareça ser, seja por receios atávicos de uma qualquer nova PIDE, seja por completa incompreensão, segundo se nos afigura, do que poderá verdadeiramente estar em causa: eficácia dos Serviços de Informações; Ordenamento Jurídico e concentração de poder.

No que respeita aos Serviços de Informações, deve ser tida em atenção, antes de mais, a posição geográfica de Portugal e as consequências daí resultantes em termos de posição estratégica de entrada na Europa e interligação com terceiros continentes e respectivas vulnerabilidades daí decorrentes.

Em primeiro lugar, Portugal encontra-se, como qualquer outra nação do mundo actual, ameaçado por actos perpetrados pelos mais variados Grupos de Crime Organizado, sejam Grupos Terroristas, Grupos de Narcotráfico, Grupos de Tráfico de Seres Humanos, Grupos de Tráfico de Armas ou de Falsificação de Moeda, para nomear apenas alguns dos casos mais graves e evidentes, sem irmos mais longe.

Hoje, como é natural, as atenções tendem a concentrar-se nas ameaças terroristas e a reacção imediata é julgar não constituir Portugal, seja para que grupo terrorista for, um alvo principal. Afinal, não se encontram em Portugal nenhumas das tensões que, usualmente, são dadas como causa desses mesmos actos. Temos Comunidade Muçulmana perfeitamente integrada, não sofremos de quaisquer problemas de reivindicações separatistas regionais, mesmo as comunidades de novos imigrantes, possuindo um fundo cultural semelhante ou, pelo menos, com a mesma raiz, tampouco oferecem uma particular preocupação, embora, como é evidente, aqui e ali não deixem de surgir ou suscitar dificuldades e problemas.

Para além disso, dada, uma vez mais, a posição geográfico-estratégica de Portugal e a sua atitude, em geral, mais aberta, reconhecendo o seu valor como eventual base de recuo, mais razões encontram ainda aqueles que defendem a tese de improbabilidade de algo suceder em Portugal exactamente por razões estratégicas de preservação dessa mesma capacidade oferecida pelo nosso território.

Contudo, reconhecendo também as crescentes dificuldades de operação encontradas em outras paragens, não menos defensável será igualmente a tese segundo a qual, exactamente por isso, à medida que o tempo passa, mais e mais aumentam as probabilidades de algo suceder, por facilidade de operação, no território nacional.

Pessoalmente, podemos estar mais de acordo com a primeira tese mas, em termos institucionais, i.e., do ponto de vista do Estado, constituindo uma das suas primeiras e mais importantes obrigações a defesa dos cidadãos, não se afigura aceitável que, por ingenuidade, incúria ou o que for, descurada seja qualquer possibilidade, por mais remota que seja.

Nesse enquadramento, os Serviços de Informações assumem e desempenham, como é óbvio, uma tarefa determinante, decisiva, crucial. Assim, tendo em consideração a importância das Escutas (dito na gíria, capacidade COMINT, ou seja, intercepção de comunicações humanas), tendo em vista a realização, com plena eficácia, da sua missão, não se entende, compreende ou aceita como tal capacidade lhes pode ser ou estar vedada.

Todos sabemos como é suposto o Estado ou Governo ter nascido, como é classicamente referido e aceite, a partir do momento em que os cidadãos, exactamente em nome de uma desejada paz, procurando ultrapassar a fase do «homem lobo do homem», da guerra de todos contra todos, decidiram e aceitaram abdicar de alguma da sua «liberdade» individual, outorgaram ao mesmo Estado ou Governo o direito exclusivo de uso da força como forma de coacção necessária à preservação dessa mesma paz.

Poder-se-á, assim, dizer-se encontrarmo-nos num momento em que aos cidadãos é pedido nova abdicação de uma parte da sua «liberdade» em nome de um acréscimo de segurança, defesa e preservação da referida paz?

Independentemente do entendimento do conceito de «liberdade» aí expresso, não cremos ser essa a situação nem essa a questão. Haverá, por certo, quem entretanto reclame pelos «direitos, liberdades e garantias» constitucionais mas, neste ponto, encontrando-nos já em domínios de Ordenamento Jurídico, a adequada solução não deixará de ser encontrada, seja chamando um Juiz à supervisão ou autorização das referidas capacidades COMINT, seja qualquer outra, tanto mais quanto muito distinta cousa são Informações e Investigação Criminal e, como é evidente, ninguém medianamente inteligente as irá confundir, não se justificando, por consequência, atávicos receios nesse particular, como por vezes parecem surgir.

Reatará talvez uma terceira questão, menos debatida, de algum modo correlacionada com a anterior, a merecer todavia não menor atenção, qual seja a da possível ou já real concentração de poderes, ou seja, concentrar numa mesma figura, mais exactamente, numa mesma pessoa, a tutela das Polícias, Investigação Criminal e Serviços de Informações.

A terceira questão afigura-se-nos ser, de facto, aquela que poderá justificar, neste momento, alguma preocupação e, por consequência, maior debate. Contudo, estando em causa questões, sérias, profundas e graves de Segurança e Defesa nacionais, importará tudo isso discutir, sim, mas sem falsos nem atávicos preconceitos político-emocionais.

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terça-feira, 11 de Dezembro de 2007

What are we all about?

Acabei de participar num colóquio sobre emprego para deficientes. A pergunta que imediatamente me ocorre, é (muito) politicamente incorrecta, em particular, para quem trabalha na minha àrea profissional: porquê descriminar positivamente os deficientes, num País com mais de 8 % de desempregados, muitos deles com encargos familiares que atingem milhares de pessoas? A resposta só pode ser ética: é um esforço que vale a pena porque queremos viver numa sociedade solidária e que cuida dos seus elementos mais vulneráveis. Ética e ideológica. Mas como lutar por essa sociedade, quando a preocupação se centra nos líderes e não nas ideias? nas pessoas e não nos modelos? e também quando se confunde os meios com os fins: o equilibrio da balança de pagamentos surge como objectivo ultimo, sem discussão de como distribuir ou utilizar a riqueza que se produz, ou o ganho económico que no futuro daí virá. E finalmente, como lutar por uma sociedade ética em competição num mundo global, onde os próximos competidores como a Índia ou a China, não se preocupam com essas "miudezas"? A resposta, creio, vem de que uma sociedade baseada em princípios éticos e nos valores democráticos será uma sociedade de liberdade e creatividade, e em última análise capaz pela inovação, competência e justiça, de estar sempre mais à frente.

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Led Zeppelin Reunion

Agora mesmo, se calhar a fechar o concerto, em Londres, no 02 Arena, os Led Zeppelin devem estar a tocar “Stairway to Heaven”.
Não me venham cá com conversas de heavy metal, os Led Zeppelin eram - whole lotta love - puro rock ‘n roll. Com uma base de blues, de vez em quando a deixarem-se embalar por um som acústico.
Concedo que se quisermos aplicar com um mínimo de propriedade o termo “amplificação” e, vá lá, a ideia de “distorção”, é aos Led Zeppelin que ambos assentam bem. Ou seja, afinal talvez se possa dizer que foram eles o momento em que o heavy metal esteve mais próximo da eternidade.
Hoje, em Londres, os Led Zeppelin ressuscitaram. Numa nostálgica “reunion”. Quem me dera lá estar! E se calhar não. Jimmy Page tem já 63 anos. O tempo não é circular e há reencontros a que devemos poupar-nos. Prefiro guardar a imprecisa memória da flagelada voz que cantava:
"There´s a lady who’s sure all that
Glitters is gold.
And she’s buying a stairway to heaven
."

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segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Em nome da liberdade


A BBC World Service comemora 75 anos. Para marcar a data, publica um conjunto de artigos sobre a liberdade de expressão. Também, claro, sobre a liberdade de informação e a liberdade de imprensa.

Vale a pena. Serão, tal como anunciado, top European thinkers... Para já, Jeffrey Sachs, director do Columbia University's Earth Institute, Onora O'Neill, filósofa, Wole Soyinka, poeta e dramaturgo.

Visões diferentes para uma mesma convicção: o imperativo da liberdade. Do testemunho directo e prático à proposta mais teórica e estruturada, tudo se confronta: fundamentos, disciplina e limites. Da liberdade, pela liberdade.

Passados 75 anos, a BBC lembra ainda e sempre o essencial. Bem como o que lhe subjaz de rigor, escrúpulo, exigência e respeito.

A nós, à distância, sabe-nos bem. Ou, pelo menos, a alguns de nós.

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Incompatibilidades?

Primeiro foi o ex-director do Jornal de Negócios que assumiu funções na Fundação EDP. Agora é o ex-director do Diário Económico que é convidado para um cargo de grande responsabilidade no universo Sonae. Se lhes juntarmos as dezenas de jornalistas que «enxameiam» os gabinetes de marketing e comunicação de boa parte das grandes empresas do país ficamos com uma boa ideia da realidade que constituem as relações perigosas entre o jornalismo e o poder económico.
Provavelmente os exemplos citados não se explicam por outra coisa que não seja a competência dos jornalistas em causa. Mas à mulher de César....
Não terá chegado a hora de os jornalistas estabelecerem, em sede de código deontológico ou de qualquer outro instrumento de auto-regulação, algumas incompatibilidades ou períodos de nojo que evitem que se alastre a toda classe um clima de suspeição que não é saudável nem para o jornalismo nem para a democracia? Ou será que as incompatibilidades só ficam bem aos outros?

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Roberte-Nessa-Noite

Há um romance em que, pelas leis de hospitalidade, o marido, invocando a essência do anfitrião, oferece aos convidados os favores da sua mulher. Tudo acontece em 94 páginas que oscilam entre a teologia e a pornografia.
Roberte-Nessa-Noite”, esse romance, foi escrito por Pierre Klossowski, em 1954. Entra naquela categoria de livros que, pelo seu anacronismo intrínseco, e pela perda de prestígio da cultura francesa, “hoje ninguém se dá ao trabalho de ler” e que só por bizarria recomendo. Li-o tarde, nos anos 80, e continua, cinco lustros depois, a fazer parte dos meus livros de culto, como “A Idade de Homem”, de Michel Leiris, de que falei aqui, ou os “Cantos de Maldoror”, de Lautréamont, de que talvez venha a falar.
A biografia de Klossowski compete com o “amontoado de desejos carnais e espirituais” que atravessa “Roberte”, o romance em apreço. Parisiense, filho de pais de origem polaca e irmão do pintor Balthus, teve como mentores o poeta Rilke, que terá sido amante de sua mãe, e o escritor André Gide, de cujas mãos saíu, para se recolher durante alguns anos no seio de um mosteiro dominicano, na firme disposição de tomar ordens.
Em 1947, depois da Guerra, a vocação sofre um sobressalto e Klossowski abandona a vida monástica, casando-se com Denise Marie Roberte Morin-Sinclair, jovem viúva de guerra. É ela a heroína de “Roberte-Nessa-Noite”, o primeiro romance de uma trilogia erótica, com o título genérico “As Leis da Hospitalidade”. A Roberte do romance, membro do Comité de Censura do Parlamento, é tão inspirada na sua mulher, quanto Octave, o protagonista, escritor de livros obscenos, é o alter-ego do próprio autor.
O que é singular no romance é a fraternidade entre o deboche sexual (“Com uma joelhada violenta entre as nádegas, ele obriga-a a abrir amplamente as coxas; os dedos de Roberte deixam soltar todas as volutas do seu utrumsit à cara do corcunda...”) e o debate teológico (“Querendo colocar a vida do espírito ao abrigo da morte espiritual, o nosso autor criou a dupla substância na qual o espírito se torna solidário de um lugar obscuro, esta carne, imagem do segredo que toda a vontade criada partilha com ele”).
Essência e existência, corpos e puros espíritos, heresias gnósticas e Santo Agostinho, a vida da carne e os caminhos de Deus cruzam-se, em “Roberte”, com experiências sexuais limite que aproximam Klossowski da leitura que ele mesmo fez do divino e perverso marquês, no seu ensaio “Sade, Meu Próximo”.
O romance de Klossowski é um romance de risco, de uma exposição pessoal que busca a transgressão e o escândalo, formas pelas quais o autor queria aceder à comunhão com o sagrado. Tudo servido pela sintaxe clássica soberba de quem traduzira do alemão Nietzsche e Heidegger e do Latim Suetónio ou Virgilio.
Para evitar a censura francesa, “Roberte” foi publicado em edição de luxo com ilustrações do próprio Klossowski (não gostou das que Balthus, o irmão, lhe propôs), e foi vendido por subscrição. Em Portugal o livro saíu na “Livros do Brasil”, com magnífica tradução de José Carlos Gonzalez.
Klossowski morreu em Agosto de 2001 tendo, para além da literatura, deixado vasta obra pictórica, como é o caso desta que integra a colecção Berardo.

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sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007

V. Proclo, Teologia Platonica. Testo greco a fronte, Bompiani, 2004 (Post-scriptum)

Deixo para post-scriptum o passeio turístico pela obra. Como a Internet é useira e vezeira no plágio, e na pretensão culta, parece-me importante mostrar que o que afirmo em texto não decorre de umas ideias que me passaram pela cabeça ao folhear o livro.

Por outro lado, não deixa de ser divertido correr uma por uma as fontes europeias e verificar o que de uma forma ou de outra caracterizou a civilização europeia desde há muito.

Este percurso tem-me confirmado a ideia de que todas as inépcias que se dizem sobre a identidade europeia não são mais que isso: locuções de ineptos. A Europa ser democracia, direitos do homem, construção meramente voluntária, anti-histórica, a Europa ser uma mera encruzilhada de civilizações cai pela base sempre que nos defrontamos com as suas fontes. Nelas nunca encontro turcos, raramente encontro árabes (e sempre com um papel bem diverso do que a propaganda gosta de afirmar).

Proclo é importante a vários títulos. Como mestre do Pseudo-Dionísio o Areopagita marcou a teologia e em geral a filosofia e a alta cultura (é quase psicólogo do inconsciente, para dar um exemplo - 651) durante a Alta Idade Média e a Renascença.

É evidente que se pode dizer que a grande maioria dos europeus ignoram as causas do que os caracteriza. Não são por isso menos importantes, bem pelo contrário. Quem ignora a lei de gravidade não deixa de levar com o pedregulho na cabeça. Conhecer a dita lei é bem capaz de permitir evitar os seus feitos perniciosos.

Proclo é o primeiro autor em que vejo a referência à distinção entre ter e ser (“é mais importante o ser que o ter” etc., etc.) . Esta irritante distinção aparece pela primeira vez na História neste texto, que seja do meu conhecimento. Ignora-se de quem seja a sua autoria. Mas provavelmente começa aqui a irritante tradição de se dizer que o ter é menos importante que o ser, tradição enfadonha, pirosa e que se reduz a dizer muito pouco (335).

Sob o ponto de vista ontológico a imagem do prado (515) (em termos simples, paraíso, ou ponto onde a realidade é mais intensa) aparece igualmente, embora referido de modo lateral. Figura bem mais relevante na formação da simbólica europeia, deveria ter sido objecto de bem mais vasta atenção pelo discurso actual.

Tem o mérito de ter uma heurística explícita, coisa que não é muito comum nos filósofos: pelo facto de ter intelecção de si mesmo, todo o intelecto tem intelecção de todas a entidades que o precedem (base da heurística em Proclo 653); o inteligível está para o uno como a vida em relação à potência e o intelecto para o ser (827).

Proclo oferece-nos os lugares comuns que levam à prevalência do Uno e à sua caracterização:
1) A impossibilidade de o Ser ser o princípio unificador (213), o uno não é idêntico a si 287, gerar entidades segundas é diminuição de princípio causal, logo o uno não o pode fazer 303, o uno ilumina a essência 317, o uno transcende qualquer determinação 399, o primeiríssimo número é incognoscível 597, na relação entre o uno e o ser 581, a ligação entre uno e ser é incognoscível 615
2) No entanto, o uno produz 311, o uno como causa inefável de todas as coisas – (é causa afinal?, pode ser objecto desta determinação? O “inefável” é cláusula escapatória bastante ou apenas risco assumido no campo do indizível? 421).

Bom “henologista”, não deixa de ter uma ontologia como é evidente:
1) sem horror ao ilimitado, dado que este é sinal do divino 343
2) o misto, entre ilimitado e limitado, o ser, é mónade 351 - o que faz pensar em Leibniz como o último neoplatónico, a mónade, fonte dos números 569: Leibniz diria o mesmo, a mónade é continente universal 595, os números são anteriores às formas 577 Jung gostaria de ter percebido isto mais cedo na vida
3) a eternidade princípio causal do ser 381
4) a presença 519
5) não existe igualdade entre duas entidades ilimitadas 589
6) o desprezo da sucessão temporal típico de muito discurso filosófico 997


Em bom neoplatónico tem igualmente uma teoria da consistência do mundo algo particular:
1) o primado do bem - o afastamento do demónio enganador em Descartes parte da mesma premissa 107, em consequência, está contra os maniqueístas 127
2) a amor como explicação da dádiva do uno 151 mas que depois não desenvolve, o amor como cimento da ligação (mas fala do Eros grego, não do “agape” ou da “filia”) 161, mas amor em segundo grau 165
3) a obsessão do “circulus” 133, a ressurreição 175, a geração relativa das almas, não geradas no tempo em Timeu de Platão 177, o modo cíclico na geração dos entes (223) mas e princípio filosófico, não crença geral
4) espantam as apenas as esparsas referências a Plotino e Porfírio (231, etc.) como se houvesse a preocupação de se demonstrar puramente platónico, de ir à fonte original
5) a ligação entre a cópia e o modelo baseia-se na semelhança 863, 867, 873 947 no entanto o que permanece misterioso é o fundamento da medida da diferença com o modelo, a cadeia 873 imagem semelhante á da escada de Jacob que tanto esteve presente na Idade Média.


Uma cosmologia e uma física
1) O instante como limite em Aristóteles, antecipando a teoria matemática da vizinhança 385; já o sabíamos, Aristóteles antecipou muita coisa: nomeadamente os efeitos terríficos de se deixar imperar o vulgo
2) O cosmos é unigénito 749. Ora tendo em conta a eternidade do cosmo 437 a obsessão do Uno parece retirar a possibilidade da multiplicidade, e menos ainda, da infinitude de mundos. Se se imputa o neoplatonismo a Giordano Bruno, pelos vistos a ideia de infinitude de mundos não é obrigatória no neoplatonismo.
3) O movimento recto e circular 903, destrinça essencial para se compreender a História da inércia. No entanto, já no mundo sublunar se encontram os movimentos em linha recta 615, ficando sem se perceber se sequer concebia a possibilidade de uma movimento “natural” recto. Parece ir contra esta possibilidade o facto do movimento circular do idêntico 909, o facto de demiurgo dominar os períodos cíclicos 719. Até nova ordem, a inércia pensada como movimento rectilíneo parece-me conquista cristã, começando sob o ponto de vista intelectual em Santo Agostinho.
4) O geocentrismo 985 parece que não é afinal doença medieval e cristã, mas vem já do mundo antigo.


Oferece-nos igualmente uma teoria do destino:
1) ciclos da alma 345
2) lei de Adrasteia "Esta é a lei de Adrasteia: toda a alma que viu alguma das entidades verdadeiras está imune ao penar" (525, 527, 669, 753, 993) também as almas particulares podem elevar-se acima do “fatum”, que mostra a semelhança com o budismo
3) uma boa resposta ao problema do determinismo - 757 diz em suma que o que eleva as almas é regido pela providência e o que desce para a natureza é governado pelo destino.

E uma teologia em sentido estricto:
1) teologia dos Pais - expressão que comunga com a patrística cristã 341
2) o vivente em si como unigénito - temática em comum aos cristãos embora depois diga que o vivente em si é transcendente ao demiurgo 375, a tríade unigénita 387
3) só a partir do livro V, 3 começam a aparecer as divindades do panteão clássico 641
4) as mutilações divinas 643
5) v.g. 915 a impressão que dá é a de que Proclo pretende dar uma imagem de uniformidade á teologia grega semelhante á que a cristã tem. nunca referindo o cristianismo é sempre com ele que se está a confrontar
6) tipologia de divindades 965.

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The key to reserva



Imagine que Scorcese encontrava um guião perdido de Hitchcock e que se propunha filmá-lo. «A la Hitchcock». Pois bem, alguém teve a ideia genial de trasnformar em realidade esta ficção cinéfila e o resultado é... ficção fabulosa. 9 minutos do melhor Scorcese. Ou será Hitchkock?
O site do patrocinador está aqui.
ps: esta pérola chegou-me pela mão do João Marchante. Não há bons filmes sem bons créditos.

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quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007

IV. Proclo, Teologia Platonica. Testo greco a fronte, Bompiani, 2004

Os neoplatónicos, e Proclo não escapa a essa regra, mostram alguma da ironia da nossa época. As pessoas andam buscando filosofias ditas orientais, que supostamente conciliam as necessidades espirituais com um discurso mais racional. Paradoxo a múltiplos títulos, porque são em geral pessoas muito pouco racionais (e apenas desejando curar a tensão quotidiana) que se colam a essas filosofias. A busca do budismo é um dos exemplos desta moda. Devo salientar que é exactamente por respeitar profundamente o budismo que me fazem impressão (a mim e aos budistas) as tontices de quem o procura turisticamente. Proclo, quando enuncia a lei de Adrasteia, mostra que a tradição europeia nunca perdeu (para quem a conhece, obviamente) a noção de espiritualidade associada ao racional, numa formulação próxima do budismo. A lei (em causa “thésmos” e não “nómos”, ou seja lei mais que divina e inquebrantável, ao contrário da mera regra) de Adrasteia, a herança de Platão do Fedro, reza: "Esta é a lei de Adrasteia: toda a alma que viu alguma das entidades verdadeiras está imune ao penar" (p. 525). Não é possível em tão poucas palavras definir tão bem o budismo. E afinal trata-se de uma veia também europeia. O que só prova que quem em geral procura o budismo apenas carece de folclore e não tem imaginação suficiente que se active sem farpela de monge colorida que a excite.

Imagino a objecção, mais que gasta. Em que o que eu digo pode relevar para a discussão da Europa? Já várias vezes avisei que não me fico pelo espírito burocrático que domina a classe política, os jornalistas, os politólogos, os comentadores políticos. Prefiro falar na Europa, não em questão laterais. Mexo directamente na massa da questão. Se parece estranho o que faço é porque a Europa é estranha para a imensa maioria dos seus habitantes na perspectiva da profundidade, maldição banal de todas as culturas superiores. Que não falo da Europa? Mas se é dela que sempre falo. Do que falam outros não sei. Apenas me consola que eles também não.

O problema de Proclo foi o de ter sido lógico, no sentido forte a que os gregos lhe dão. Sob este ponto de vista lógico é bem mais universal que o cristianismo. Mas que tem ele para oferecer? Um Uno que é indeterminável, incognoscível, sob pena de se desgraduar e que é incomensurável com os restantes passos da processão dos entes. Deuses gregos que são descarnados ao ponto de não terem história, isentos de qualquer narrativa ou de oscilação. Uma distância infinita entre o Uno e qualquer das suas manifestações.

Já o cristianismo tinha para oferecer um conjunto de ousadas presenças, quase obscena sob o ponto de vista lógico. Deus está carregado de determinação, Deus compreende-se pelo Ser. Deus é amor, Deus é Vida, Deus é Logos, Deus é Pai, Deus é Filho, Deus é Bom, Deus é Espírito Santo. Deus faz-se homem e conversa connosco. Deus entra na História e padece dela. Deus partilha plenamente da nossa natureza quando feito Cristo. Deus fala-nos. Deus actualiza-se em Presença Real na hóstia (embora a formulação final do dogma da transubstanciação seja mais tardia, esta encontra-se bastamente enunciada pelo Padres da Igreja).

O cristianismo, embora tenha sofrido a influência intelectual de Platão, influência de que nunca se separou nem negou, acaba por ser aliado natural de Aristóteles. A primazia do Ser não é inócua de efeitos. O Deus que os cristãos anunciam ao mundo é um Deus que vem ao nosso encontro, que é feito de presença permanente e intensa, que se faz nosso irmão, sendo nosso Pai. Que participa da mesma carne e do mesmo mundo que é o nosso.
A tragédia de Proclo não é tanto a de ter sido um epílogo, mas o de apenas nos ter para oferecer uma poética e sublime despedida. O Deus dos cristãos oferece uma nova vida, e uma permanente presença. É natural que a Europa o tomasse por companheiro e por Senhor. Só Ele poderia ser motivo de novas aventuras.


Alexandre Brandão da Veiga

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Os Gurkas

Dizem que os Gurkas, uma unidade do exército de Sua Majestade Britânica formada por soldados nepaleses, constituem o melhor corpo de soldados do mundo. São altamente disciplinados, as mais fantásticas máquinas de matar do planeta. Move-os a eficácia, não a vaidade.

Os Gurkas integram o Exército Britânico desde o século XIX e são assustadoramente lendárias as suas acções militares na II Grande Guerra ou, mais recentemente, nas Malvinas.

Usam um punhal, uma arma ancestral dos nepaleses, o kukri. A arma, de origem grega, foi uma (ou talvez a única) herança de Alexandre, o Grande. Hoje, o kukri é uma extensão do braço de um Gurka. De osso, marfim ou metal no cabo. Aço da mais alta qualidade na lâmina. Sem uma dimensão exacta, o kukri tem em geral 28 a 30 centímetros sedentos de sangue. Um Gurka nunca exibe o seu kukri em vão. Uma vez desembainhado o punhal, a lâmina tem de verter sangue, só depois podendo regressar ao escuro descanso da bainha.

Como “el puñal” do argentino Borges, e como alguns dos seus compatriotas agonicamente aprenderam, a fria lâmina do punhal de um Gurka, “quiere matar, quiere derramar brusca sangre”.

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quarta-feira, 5 de Dezembro de 2007

III. Proclo, Teologia Platonica. Testo greco a fronte, Bompiani, 2004

Proclo, como todo o bom neoplatónico antigo, deu primado ao uno. Convenhamos: sob o ponto de vista lógico (no sentido grego, forte) é bem mais consistente. Se a ambição é unificar a realidade toda, o uno pode atravessar mais facilmente as fronteiras. Não é uma construção matemática, mas a sua universalidade assenta na mesma razão da (relativa) universalidade cultural da matemática. Escolher o Uno como elemento unificador da realidade não é escolher. É aceitar. É reconhecer que a formulação do problema já traz a resposta. Neste sentido qualquer pessoa, em qualquer cultura, desde que coloque o problema filosófico fundamental, já tem pela enunciação o caminho da resposta. E reconhecendo todas as línguas a unidade, sob pelo menos algumas das suas formas, a filosofia do Uno é muito mais universal. Não é capricho de filósofos decadentes.

Por isso quando vejo pessoas fascinadas com um exotismo que mais não é que turístico e se espantam com as filosofias ditas orientais vejo-me forçado a concluir que nada sabem do pensamento, da mística e da filosofia europeias. O misto de misticismos, filosofia, razão, e sentido prático que muitas vezes procuram encontra-se igualmente na cultura europeia. Em graus diversos em Erckhart, Santa Teresa de Ávila, Plotino e também Proclo .

Porque ter por centro o Uno não é isento de efeitos. Sempre que se pretende determinar o Uno apenas se obtêm a sua deslocação, apenas se o descaracteriza. Assim sendo, é mais tarde ou mais cedo inevitável que este tipo de filosofia desemboque numa mística. Foi assim com os neoplatónicos antigos, foi assim na Renascença.

A filosofia do Uno não morreu e encontramo-la em cada passo da História europeia. Os nominalismos (sob a capa de formalismos ou não), as correntes místicas e o empirismo são os seus herdeiros. Os primeiros na sua forma articulada, as segundas na forma exaltada, sendo que o empirismo é a forma melancólica da doutrina do Uno. Ainda hoje em dia quando alguém se põe a ler o DSM IV-TR está a espreitar uma modalidade melancólica da filosofia do Uno. Que misticismos e empirismos sejam afins, por mais estranho que isso possa parecer aos menos avisados, mostra-o a Renascença que foi simultaneamente adepta de ambos (e cultora consciente dos neoplatónicos – Nicolau de Cusa lia Proclo, por exemplo), ou a cultura inglesa que oscila entre o misticismo de Blake e Byron e os empirismos. São apenas duas faces da mesma moeda. Ironia da História, Shakespeare, que é o menos inglês dos escritores o mais tomista de todos, o mais cultor do ser, é tomado por fetiche britânico. Não é de espantar. Camões representa um espírito sistemático que nada tem de português e, de novo, foi escolhido como fetiche. No fundo, ambos representam o que falta no dia a dia de cada povo que os assume como ícone.

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terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

As Horas do Lobo

O regresso de António Sérgio à rádio — Radar, 97.8MHz — com Viriato 25, foi como que um regresso a um passado que foi sempre feito de futuro. António Sérgio retomou ontem às 23H (programa de 2 horas) a sua presença regular no éter, e que regresso! Grave, certo e solene, António Sérgio é daqueles autores que faz com que a música que passa seja ainda melhor do que é. Não sei se é do silêncio da noite, ou se é da confiança que temos nas suas escolhas e no seu critério. Com ele antecipa-se o futuro como há trinta anos no Rotação ou no Rolls Rock se antecipou. Com ele a música é uma constante revelação. Uma revelação dita como um segredo. Um segredo para quem o souber ouvir.

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II. Proclo, Teologia Platonica. Testo greco a fronte, Bompiani, 2004

Voltamos aos limites. Último. Temerária expressão. Mas se se tivesse de referir o último dos filósofos pagãos o lugar teria de ir para Proclo.

É de bom-tom dizer que foi neoplatónico e é igualmente justo, embora esta designação esconda realidades tão diversas quanto a “filosofia tardo-antiga” ou “pensadores renascentistas”.

Mais importante que esta qualificação é perceber o que traz à cultura europeia. O nosso padrão filosófico médio (estou generoso) é o de centrar o problema filosófico na questão do ser, seja para o afirmar, seja para o negar. Esta corrente, que de uma forma ou de outra impera no discurso expresso (se consciente ou consequente, essa é outra questão) não é neutra sob o ponto de vista da visão que se tem do mundo.

Para povos não europeus e sem línguas indo-europeias a questão não se coloca nos mesmos termos. Nas línguas indo-europeias o verbo “ser” tem uma presença e uma importância que não tem noutras línguas. É por isso natural que assuma funções e tenha uma intensidade que não pode assumir noutros horizontes culturais.

É evidente que a linguagem não é exclusivamente determinante. A filosofia indiana, estruturada em línguas indo-europeias, não dá um papel tão central ao ser quanto as europeias. Atma e Bhrama assumem entre outros papel mais relevante, embora o problema do ser não esteja ausente dela.

A problemática do ser é uma problemática indo-europeia que forma a Europa, mas apenas numa das suas vertente, a helénica.

Mas mesmo na cultura grega o ser não venceu, nem foi isento de resistências. Se bem virmos e simplificando algo a coisa, a grande luta sobre a cidadela central da filosofia opôs a henologia à ontologia. Uns centram-se no Uno, outros no Ser. Em Platão a luta não está decidida e parece que nem era essa sua intenção. Aristóteles dá primado ao ser, os platónicos, sobretudo os neoplatónicos desde Plotino dão primado ao Uno.

A coisa parece mera questão de palavras e já adivinho o ar de enfado de algumas pessoas. No entanto, tanto sob o ponto de vista da compreensão da realidade como da vivência que se lhe segue como ainda das práticas de linguagem uma e outra solução não são inócuas na nossa vida.

Convenhamos: o mundo é múltiplo. Como lidar com essa multiplicidade? É evidente que uns podem fazer como Antístenes e dizer que só se pode afirmar a tautologia: A é A. Nada mais. Visão lógica por excelência, e no entanto, nada diz sobre o mundo, desde que seja visão exclusiva sobre ele. Fica tudo fragmentado, apenas valendo a auto-referência. Esta armadilha já foi denunciada por Platão. Podemos então, se quisermos unificar esse múltiplo, seguir em abstracto três caminhos: ou abdicamos de dizer algo sobre ele, ou unificamos dizendo que tudo termina no Uno, ou seja, por um processo de absorção, ou aceitamos uma via impositiva e afirmamos algo sobre o todo, essa a via do ser.

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segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007

I. Proclo, Teologia Platonica. Testo greco a fronte, Bompiani, 2004


Há sempre algo de convencional em se falar de limites. O maior, o primeiro, o último são sempre qualificações algo temerárias, e apenas impressivas. Quando se diz que Einstein criou a teoria da relatividade, que foi o primeiro a pensar tal coisa, não nos podemos esquecer de Kaufmann, Minkowski, Lorentz e o imenso Poincaré. Já não contando com muitos outros antecessores, como Mach, Leibniz, Montucla, onde se queira ir....

Mas não é pecado afirmar limites quando se tem consciência que estes são apenas guias. Para os efeitos que agora me interessam valem eles para fustigar mais um dos lugares comuns de que a menoridade do homem público tanto gosta. Influenciado pela má disposição de Gibbon, de que nunca ouviu falar, algumas reminiscências de Renan e Feuerbach, um tempero mal digerido de Nietzsche e sobretudo muito ensinamento liceal mal assimilado, vem-nos dizer que o cristianismo (esse tal que não seria fundamento da Europa, porque a Europa é laica, logo, é apenas um sistema político e não uma civilização) fez cair um projecto de homem feliz, pujante e no fundo mais (ou menos consoante os gostos) humano.

O homem antigo seria afinal o epítome da humanidade, e todos nós sabemos que andava ele pelos jogos olímpicos, pelos bacanais, discutia filosofia. Era em suma mais livre e mais feliz. A estreiteza de vista que equipara um grego a um romano, e a época de Sólon à de Zenóbia, apenas mostra que nada sabem do que falam.

Por isso é importante observar os últimos sinais desta vida da antiguidade, ou melhor os seus últimos representantes mais ou menos puros.

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Olha, calou-se!

De vez em quando, acontecem coisas que nos fazem pensar que há no concerto do mundo e dos homens alguma justiça poética. Os venezuelanos acabam de dizer não, nas urnas, ao referendo que o generalíssimo Hugo Chávez lhe submeteu.

Apesar do controle, apesar dos sinais de intimidação, a maioria recusou apoiar o referendo que o presidente propunha: “¿Está de acuerdo en aprobar el proyecto de reforma constitucional preparado por la Asamblea Nacional con la participación del pueblo y basado en la iniciativa del presidente Chávez?”. É a primeira vez, desde 1998, desde que Chávez se deixou possuir por um putativo espírito bolivariano, que os eleitores lhe dizem "basta ya". Abortou-se o golpe de estado constitucional com o qual Chávez se propunha instaurar na Venezuela o “socialismo do século XXI”, ou seja, e em bom portinhol, uma rematada ditadura caudillista (poderia candidatar-se um número ilimitado de vezes, teria o direito a censurar a imprensa em situações de crise, bem como o direito a controlar a banca).

A vitória da oposição, nas condições em que foi obtida, é menos pírrica do que Chávez veio dizer e tem até uma dimensão transnacional que pode iluminar os caminhos da democracia noutros países da América Latina. Que esta pequena consolação não nos faça esquecer os séculos de injustiça e desigualdade que criaram e criam terreno fértil para o aparecimento destas figuras de camuflado e bota pesada.

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