A ameaça fatal
Um «blogger» amigo (ou assim julgava eu) ameaçou-me com a leitura diária das obras completas de Saramago se eu não me despachasse a «postar». Prometi-lhe uma redenção para breve. Inês: se eu fosse a si não ficava a dormir na forma.
Um «blogger» amigo (ou assim julgava eu) ameaçou-me com a leitura diária das obras completas de Saramago se eu não me despachasse a «postar». Prometi-lhe uma redenção para breve. Inês: se eu fosse a si não ficava a dormir na forma.
Com aquela metódica dúvida que me envenena, interrogava-me eu, em ameno comércio blogo-epistolar com o Miguel Poiares Maduro, sobre o potencial atractivo e sedutor de Portugal para a grande inteligência europeia e mundial. Felizmente os factos desmentem-me: a ETA, laboratório e "centre de recherche" de reconhecida expertise mundial, abandonou o Sul de França para fazer do sul de Portugal a sua base. Temos tudo a aprender e quase nada a perder. A mim, não me voltam a apanhar na Croisette.
Junho de 2007 ficará na história por anunciar a nova Europa – que, aliás, só será completamente nova em 2017. Alta madrugada, quando tudo parecia perdido, Merkel propõe, Sarcozy faz o telefonema e Kacsinsky aceita finalmente.
Egon Schiele
Philip Larkin foi um do maiores poetas do século XX. Virulento e amargo. Este poema, de uma alvorada sem glória, anuncia o beijo da morte, o mesmo beijo delicado da morte de que Philip Roth fez a matéria do seu “Todo-o-Mundo”. Para ouvir aqui, na voz de Tom Courtenay, e ler, em baixo, se depois ainda tiver voz.
No essencial estou absolutamente de acordo com a reflexão do Miguel P. Maduro. Mas vou mais longe: será a preservação da diversidade cultural sempre um «bem» em si mesma? Dou dois exemplos ligados à língua portuguesa que, do meu ponto de vista, sustentam a tese contrária:
1 - Será que, do ponto de vista dos timorenses, a preservação da língua portuguesa como marca de identidade e diferença traz mais benefícios do que traria uma mais profunda integração (também através da língua) no bloco económico de que, para o bem e para o mal, Timor faz parte?.
2 - Será que os portugueses devem lutar por preservar os particularismos do português falado em Portugal ou devem avançar decidida e regularmente para acordos ortográficos com o Brasil que podem ser a única forma de, a prazo, tornarem a nossa língua minimamente relevante no contexto mundial?
Suspeito que as respostas a estas perguntas não sejam do mais politicamente correcto que se pode imaginar. Mas mais estúpido do que uma resposta errada é uma pergunta que não chega a ser feita.
Talvez por ser Pediatra, tenho alguma dificuldade em me considerar pessoa "crescida", (na verdade a caminho da geração dos 60), isso dá-me alguma liberdade de pensamento, e permite-me fazer uma descoberta por ano. Aqui vão, cronológicamente, as minhas descobertas anuais:
2004: A história do Super-Homem está mal contada. Quem é que tendo nascido noutro planeta, e caído do Céu na Terra, não se teria de pronto, (para usar a pitoresca expressão de um amigo), "pirado aos uivos"!
2005: As mulheres são melhores que os homens. Para demonstrar esta evidência, teria de encontrar dois seres que fossem exclusivamente filhos de uma mulher e de um homem. Ser exclusivamente filho de uma mulher: Jesus Cristo. Exclusivamente filho de um homem. Pinóquio!
2006: Decifrei o mistério do sorriso da Gioconda,(gosto menos de "Mona Lisa"), porque me lembra um merceeiro do meu bairro, conhecido pelo "careca". Leonardo inspirou-se nos...golfinhos! já repararam naquele sorriso cretino, sem expressão, que os mamíferos travestis ("que queridos"), todos têm?
2007: Existe uma explosão de autistas. Na verdade de 1:4000, as estatísticas mais recentes apontam para 1:150. Andam à procura de toxinas no ambiente para explicar este aumento. Como a Judiciária, procuram a pista errada. A verdade é que os autistas têm vantagens reprodutivas! numa sociedade cada vez mais computorizada, o idiota solitário, sem qualquer "skill" social, é o empregado ideal, o mais bem remunerado, o com maior probabilidade de reconhecer o vírus informático, escrever tabelas no "excell", resolver o "crash" do computador, em suma, de ser o macho dominante, e, como dizia Kissinger, "o Poderrrrrr é o maiorr afrrrrrodisiac"!
Nuno Lobo Antunes
Decididamente ando numa fase mórbida. Depois do Dr. Morte apetece-me hoje voltar ao tema do suicídio. Não tanto para continuar a teorizar sobre o assunto mas para falar de um dos «suicídios» mais bonitos da história do cinema. Refiro-me à resignação seráfica com que Stefan Brand, aliás Louis Jourdan, avança para um encontro mais do que anunciado com a morte na magnífica sequência final do «Letter from an unknown woman» de Max Ophüls. Não existirão, repito, muitos momentos na história do cinema em que a aceitação pacificada da morte tenha uma expressão mais natural e mais cristalina. Até porque esta morte em Ophüls tem mais de reencontro do que de morte. Ou não fosse ela a única forma possível de reescrever um amor equívoco e sobretudo uma vida que, no curto espaço de uma carta de uma desconhecida, se viu cruelmente despida de qualquer sentido.
Mas não me adianto mais. Se há filmes que não podem ser contados, este é seguramente um deles. Deixo-vos, como Stefan Brand acabaria por deixar Lisa Berndle, na noite de todas as ilusões…
O post do Pedro Norton sobre o famoso Dr.Kervorkian interpela-nos a todos e claro esta a nós médicos em particular.
A morte médicamente assistida e um assunto cada vez mais importante sobretudo à medida que se assiste ao envelhecimento da população a par do desenvolvimento da Medicina e das suas capacidades de manutenção da vida mesmo em condições extremas.
A eutanásia não pode ser vista de uma forma monolítica.. Existem de facto três formas diferentes de euthanasia: a passiva, a activa e o suicídio médicamente assistido.
A eutanásia passiva, que consiste na não obstaculização da morte ou mesmo a sua facilitação por meios passivos, é uma realidade frequente nos nossos hospitais. Estas situações ocorrem por decisão médica, assumida de uma forma mais ou menos velada. Em causa estão pessoas em estado terminal ou seja numa fase absolutamente final do tratamento da sua doenca, irremediàvelmente perdidas para uma vida com um mínimo de qualidade e que na maior parte dos casos implica uma perturbação fundamental do seu estado de consciência impeditiva de uma vida de relação.
Muitas destas situações são o resultado de um processo de tratamento mais ou menos penoso e longo de acordo com o tipo de doenca em causa, e a que não é alheio por vezes algum encarniçamento terapêutico. Para estes doentes a medicina já nada pode oferecer que possa fazer reverter o seu estado clínico o que acaba por concorrer para aumentar a frustração dos clínicos e esgotar a sua natural resiliência.
Na nossa sociedade e no nosso meio médico e hospitalar, com as referências éticas, religiosas e culturais que lhes são próprias, estaa medidas não vão além de uma atitude fundamentalmente passiva de não implementação de medidas médicas extraordinárias. É, repito, pela omissão de medidas consideradas inconsequentes pelos clínicos, se bem que com a possibilidade manter o organismo vivo por mais algum tempo, que se mede esta attitude com a qual nós médicos convivemos e com que na maioria dos casos penso estarmos de acordo.
Não são de forma alguma práticas comuns as de eutanásia activa, em que o médico se envolve activamente na administração de fármacos que ,em doses mais elevadas, possam contribuir para tornar mais expedito um exitus inevitàvel de outra forma a prazo e não sem um acréscimo de sofrimento físico e psicológico para o doente e seus familiares.
Um outro aspecto da mesma discussão é o do suicídio a pedido e médicamente assistido. Este é verdadeiramente o cenário em que se mexe o Dr Kervorkian. São casos em que o próprio doente pede ajuda para terminar a sua vida para pôr fim a uma dor e sofrimento que por razões vaáias nao tolera mais.
Em tese este desígnio nem sequer me parece chocante. Este sentimento é alinhado com o do Pedro quando reinvidica uma atitude liberal de completa responsabilização do indivíduo pelos seus actos.
O problema começa quando tentamos identificar as situações em que tal atitude eventualmente se justifica. Esta questão poderá parecer insignificante para quem não tenha responsabilidades no tratamento de doentes nestas condições. De facto o que leva uma pessoa a considerar intolerável o prolongamento da sua vida pode ser tudo menos claro.
Não são raras as situações em que a angústia e o sofrimento do doente se tornam intoleráveis como consequência também de factores fora do âmbito do exercício da medicina, por exemplo factores de isolamento e miséria social que retiram ao doente qualquer possibilidade ou vontade de lutar contra a doenca de uma forma que lhes permita manter um patamar de vida com alguma qualidade. Outras há em que são os próprios familiares a pedirem a terminação da vida por factores a que também não são alheias questões de natureza estritamente não médica
Temos ainda os casos de doentes com perturbações do foro psicológico e psiquiátrico que somadas a outros quadros de doenca orgânica os fazem reinvidicar uma attitude auxiliadora no sentido de pôr fim ao sofrimento experimentado.
Hà mesmo quem se preocupe que, com o envelhecimento da população e com o inexorável aumento das despesas de saúde, o esgotamento de recursos a que esta situação nos conduz pode servir como argumento e tentação para a facilitação desta atitude eutanásica como forma de solucionar algumas destas situações clínicas e sociais.
Concluo: Na minha opinião a possibilidade de se poder terminar o sofrimento de doentes em casos ímpares e muito bem identificados, de doenca terminal com comprovado sofrimento físico e psicológico, devidamente apoiados e aconselhados do ponto de vista médico incluindo o aspecto psicológico, não constitui um índice de barbárie.
No entanto a consagração deste princípio nao poderá nunca ser deixado exclusivamente aos médicos e terá que passar á forma de lei. O facto de a legislação em favor da eutanásia poder acarretar implicações de tal forma importantes possibilitando utilizações potencialmente abusivas e que extravasam completamente os principios que a deviam assistir leva-me a ter as maiores dúvidas em relação à sua promulgação.

O Dr. Jack Kevorkian, também conhecido por «Dr. Death», está de volta. No passado mês de Maio saiu da prisão onde passou os últimos oito anos depois de ter assumido que tinha «assistido» 130 pacientes terminais a pôr termo às suas vidas.
Como esta semana o NYT lembrava em editorial, o Dr. Morte está longe de ser um defensor ortodoxo da causa da eutanásia embora tenha conseguido como mais ninguém dar-lhe visibilidade e actualidade na sociedade americana. Com um gosto indesmentível pela provocação, chegou a gravar (e obviamente a ver emitidos em TV) alguns dos «suicídios» que promoveu. Por mais de uma vez desafiou abertamente as autoridades a julgá-lo. Mais grave, nem sempre actuou tendo um conhecimento profundo e de longa data dos seus «pacientes». Para Kevorkian os fins sempre justificaram os meios.
Mas se tendo a franzir o nariz ao homem e aos seus métodos, devo confessar que no essencial apoio a sua causa. Faço-o, bem entendido, com as dúvidas e as perplexidades que não podem deixar de existir quando se lida com matéria tão dramática e tão sensível. Faço-o disposto a aceitar as reservas e os cuidados múltiplos de que uma legislação séria sobre a eutanásia ou o suicídio medicamente assistido deve revistir-se. Mas, no fim do dia, assumo alguma radicalidade da minha concepção liberal da pessoa humana e defendo o direito de cada um de nós dispôr da sua própria vida. Ainda que seja, numa decisão de desespero de que mais ninguém pode ser o juiz, para acabar com ela.
A evolução das neurociências, designação que alberga um conjunto de disciplinas que conjuntamente trabalham com o intuito de desvendar os meandros de funcionamento do nosso cérebro, tanto ao nível neuroquímico, genético, molecular, farmacológico, nas suas vertentes de aplicação médica e cirúrgica, de análise psicológica e comportamental e finalmente também do ponto de vista ético e moral tem sofrido um desenvolvimento impressionante nas últimas décadas. Aquilo que se avizinha poderá ser ainda muito mais portentoso, com consequências sociais que começamos agora a descortinar. A isto aludia o post do Nuno Lobo Antunes de há algumas semanas atrás. Aí se levantava o véu relativamente a alguns indicadores de que vamos dispondo, que apontam para a existência de um determinismo e dependência do nosso ser em relação à máquina que o move, o cérebro, bastante maior do que poderíamos até há algum tempo sequer supor.
Este estado de coisas implicaria assim uma nítida redução do nosso tão prezado espaço de manobra individual, a liberdade e o livre arbítrio, podendo acarretar como consequência última uma situação de potencial desculpabilização do indivíduo em relação aos seus actos.
Levado este argumento às últimas consequências estaremos perante um cenário em que, quando alguém mata, rouba, viola, mente, canta, compõe, pinta ou esculpe, ama ou odeia, o faz não em liberdade mas sim como virtude de uma resposta pré condicionada e a que não pode escapar, que se desencadeia como resultado de um determinado naipe de estímulos, externos mas também internos.
O Homem não é então mais do que uma máquina de uma enorme perfeição dotado de um hardware intrincado que lhe é fornecido sem escolha por via genética e que passa a ser responsável por tudo o que de bom e de mau ele produzir.
Se por um lado alguma verdade, por incómoda que possa parecer a alguns, escorre visivelmente destes argumentos também é certo que nos encontramos numa fase ainda demasiado incipiente para que possamos anunciar estes princípios de forma redutora.
Ainda que a demonstração deste determinismo prossiga, a mesma não poderá sobrepor-se ao edifício moral e ético que nos rege, ele mesmo produto deste mesmo hipercondicionalismo. O saber que alguém errou como causa de uma determinada predisposição e condicionante genéticas não pode sistematicamente levar à diluição das responsabilidades muito menos à sua inimputabilidade. Em tese tal só seria admissível no momento em que a ciência permitisse o conhecimento de todos os botões do teclado humano e, assim sendo, todas as acções potencialmente nefastas do ponto de vista ético-moral pudessem ser preventivamente eliminadas. O catch 22 consiste no entanto no facto de que mesmo aquilo que temos como mal ou bem também não foge à regra do próprio determinismo e muito menos uma eventual vontade de eliminar de vez um ou outro padrão de conduta...
É de antever no entanto que alguma mudança nos padrões morais e éticos se venha a dar de forma lenta e cautelosa. Para o bem ou para o mal ninguém pára o Homem, e a pesquisa científica não é mais do que a demonstração da sua aguçada curiosidade, ela mesmo determinada genéticamente, uma atitude aliás que a meu ver tem também algo de religioso se quisermos utilizar o termo como procura das causas últimas e da nossa transcendência.
Nua sua primeira incursão pela divulgação científica, The anthropic cosmological principle, publicado nos anos 80 em co-autoria com o cosmólogo britânico John Barrow, Tipler começa a debitar algumas ideias pseudo-científicas no mínimo bastante discutíveis. No seu Física da Imortalidade (publicado entre nós pela Bizâncio), de que já é autor único e data de 1994, Tipler já vende descaradamente banha da cobra em todo o seu esplendor: apela à sua autoridade em Física para “provar” a existência da vida depois da morte, proporcionada por uma “inteligência artificial” a que chama “ponto Ómega” e identifica com Deus, um pouco à la Teilhard de Chardin com aggiornamento. O livro conclui com um "apêndice científico" de 110 páginas de equações, obviamente impenetráveis e impressionantes para o leigo, mas que deixam qualquer cientista de cara à banda, pois pouco ou nada têm a ver com o que Tipler afirma. A pseudo-ciência no seu melhor. O que tudo isto tem a ver com Física a sério fica ao cuidado do leitor interessado (ou desinteressado, como é o meu caso).
Se isto já era muito mau, ao terceiro livro Tipler passou-se completamente. Ele acaba de publicar, em Maio de 2007, The physics of christianity. O objectivo é nem mais nem menos do que explicar os milagres da vida de Jesus Cristo à luz da Física Moderna. O primeiro capítulo pode ser encontrado na sua página em Tulane, aqui. Não é preciso ser físico teórico para começar a perceber o desvario.
A ideia central é que milagres são acontecimentos raros – muito raros. Não impossíveis, mas muito raros. Mas Tipler vai mais longe do que procurar a explicação na Física conhecida: quando ela não existe ou todos os dados apontam contra ela, Tipler distorce a realidade para lá do ponto de rotura até ficar de acordo com aquilo em que ele acredita, deixando-nos com a sensação de que afinal tinha sido sempre esse o objectivo. É um livro pseudo-científico, perverso e perigoso.
O facto de Tipler ser um cientista respeitável pode dar a ideia de que está a ser honesto. Não está! Leiam-se por exemplo as críticas dos físicos Lawrence Krauss na New Scientist (More dangerous than nonsense) ou Vic Stenger. Ele distorce a Física conhecida de acordo com as suas conveniências. Para citar Krauss, “Tipler afirma que o modelo standard da Física de Partículas é completo e exacto. Não é. Afirma que temos uma visão coerente e clara da gravidade quântica. Não temos. Afirma que o Universo irá entrar numa fase de colapso. Não tem de o fazer, e tudo o que sabemos actualmente indica que é o contrário que vai acontecer. Afirma que compreendemos a natureza da energia escura: não compreendemos. Afirma que sabemos existir mais matéria do que antimatéria no Universo. Não sabemos. E assim por diante”.
Mas, para lá de permitir semelhantes exercícios desconstrucionistas, o livro de Tipler é fundamentalmente desonesto. Ele afirma que o nascimento de Jesus a partir da Virgem Maria se deu essencialmente por geração espontânea, sendo Jesus portanto homozigótico XX, sendo parte de um dos cromossomas X inactivado para funcionar como Y. A prova está na análise de DNA ao sangue deixada por Jesus no Sudário de Turim – que, infelizmente para Tipler, há muito se sabe ter sido forjado no século XIV. Não contém sangue: contém tintas. Claro que Tipler não acredita nisto, mas é precisamente o que caracteriza o seu livro - uma profissão de fé camuflada por trás de uma nuvem de pseudo-ciência que até pode parecer plausível a leigos.
Andar sobre o mar? Ressuscitar dos mortos? Simples. Bastou esperar 21 séculos para percebermos. Segundo Tipler, as partículas dos átomos do corpo de Jesus decaíram espontaneamente em neutrinos e antineutrinos. Para andar sobre as águas, estes proporcionaram uma espécie de “almofada” de partículas sobre a qual a caminhada teve lugar. Para a Ressurreição, o processo essencialmente inverteu-se: as partículas, ao terceiro dia, “des-decaíram” e voltaram a formar o corpo de Jesus.
Tão simples quanto isto. Mas quando eu parto um copo, os cacos não se voltam a unir, pois não? É uma chatice, chamada Segunda lei da termodinâmica. Para Jesus é pior: o decaimento do protão conduz a uma diferença de cerca de 100 ordens de grandeza! Isto corresponde a uma hipótese de acontecer em um milhão de milhões de milhões de... (um milhão corresponde a seis zeros: continue o leitor a enfileirar milhões até chegar a cem zeros). Impossível, não? Não para Tipler: ele usa uma versão grotesca do princípio antrópico que afirma que, se estamos aqui, é porque aconteceu. Curiosamente, esse princípio é aplicável não apenas ao Deus cristão, mas a qualquer Deus, ou mesmo a qualquer crença.
O Prémio Templeton, no valor de 1,2 milhões de euros (há quem diga que o valor foi escolhido para ser superior ao Nobel) e instituído pela Templeton Foundation, cujo objectivo declarado em grandes parangonas na página de entrada é "Supporting Science - investing in the big questions" premeia individualidades que consigam a proeza de aproximar a ciência da religião. Tipler esteve quase a ganhar com o seu Physics of Immortality; em 2006 o premiado foi o seu co-autor John Barrow. Agora, com Physics of Christianity, deve ser o eleito. Mesmo que a verdade seja a sua primeira vítima.